Desigualdade

A velha batota

Fonte: AMECO
Todos os pretextos são bons para nunca discutir a repartição de rendimento. Um dos argumentos clássicos esgrimidos pela direita - como o usado no Jornal de Negócios pelo dirigente centrista Adolfo Mesquita Nunes - é o de que, em vez de discutir a distribuição do rendimento, se devia discutir sim, como criar riqueza, para - depois... - se poder distribuí-la. Escreve o dirigente:
"Passamos mais tempo a discutir como repartir a riqueza existente do que em encontrar formas de aumentar a riqueza para que haja mais para repartir e por mais gente e mais justamente".
Quando se olha para o gráfico em cima, percebe-se bem como essa ideia serviu para que nunca se efectuasse, de facto, uma justa repartição do rendimento e como representa, sim, uma efectiva batota intelectual. Era sempre "para depois". E as opções adoptadas não melhoraram as opções do país. Pelo contrário, fecharam-nas. Até o CDS passou de eurocéptico, a fervoroso europeísta, embora - como se isso fizesse alguma diferença... - não federalista! O gráfico revela como foi que as forças organizadas dos trabalhadores foram perdendo a batalha e  para que serviu o "arco da governação", muito alicerçado num PS que foi perdendo a sua matriz social-democrata - primeiro colado a uma versão norte-americana da economia (para não falar de outras dimensões políticas) e, depois, rendido à versão europeia do neoliberalismo. Tirando a evolução até 1974 (mais fruto das tensões inflacionistas externas e consequentes movimentos laborais); tirando a aparente explosão dos salários em 1974/75 - tanto devida à subida dos salários e criação do salário mínimo, como da quebra do PIB; e tirando as políticas eleitoralistas de Cavaco Silva para conseguir a maioria absoluta em 1991 (criação do NSR para a Função Pública), tudo o resto foi uma contínua e prolongada guerra aos salários, sempre em nome de como "encontrar formas de aumentar a riqueza para depois distribuí-la". Essa queda é visível naqueles dados da AMECO, embora a OIT tenha uma visão ainda mais negativa, como é assinalado num artigo do Alexandre Abreu. Essa guerra fez-se através de políticas laborais que visaram ou contribuíram para a redução salarial, alegadamente para que "a economia" pudesse melhorar e modernizar-se. Foi assim, na intervenção do FMI em 1982/84. Foi assim na constante e continuada perda do poder de compra salarial. Foi assim na criação do Código do Trabalho em 2003 (PSD/CDS), foi assim nas sucessivas alterações ao Código de 2009 (PS com a direita). E foi assim sobretudo com intervenção externa desde Março de 2010 e que redundou na alteração ao Código de 2012 (PSD/CDS e com PS que quase tudo tem mantido em vigor). Este rolo compressor foi - de certa forma - assumido por António Costa no último debate parlamentar do Estado da Nação. Ao querer defender a recente legislação laboral supostamente contra a precariedade - que está em debate e votação até ao final desta semana - disse algo como: "Esta legislação é a única favorável aos trabalhadores desde 1976". Algo que é estranho mesmo neste caso, já que são os partidos à direita que fazem força para a aprovar. Resultado: o peso dos salários no PIB caiu, tem vindo a cair e só recuperou muito ligeiramente nestes últimos anos de um governo PS apoiado pelo PCP e BE. E sublinhe-se o "muito ligeiramente"! Em 2012, no ano da aprovação de um pesado pacote laboral, os salários - segundo a AMECO - correspondiam a 54% do PIB, mas em 2018 ainda só pesam 52,1%. O peso actual dos salários está mesmo abaixo dos níveis da década de 60 do século XX! Por isso, jovem e simpático Adolfo Mesquita Nunes, chega de usar velhos argumentos de décadas e quase diria séculos. Se há coisa que Portugal do seu futuro precisa é de valorizar os rendimentos do trabalho. Sob pena de Portugal não ter futuro.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Não há acasos

Mais ricos de França enriquecem mais depressa do que quaisquer outros. Não é por acaso que chama a Macron o presidente dos ricos. Não é por acaso que as suas políticas fiscais e laborais têm por objectivo transferir recursos de baixo para cima. Não é por acaso que este político maquilhado é o alvo da justa ira das classes populares francesas. Não é por acaso que é a esperança dos europeístas. Não é por acaso que uma moribunda social-democracia europeia decidiu ir morrer nos braços de quem lhe deu o derradeiro golpe em França. Não é por acaso que Costa se entende ideologicamente tão bem com Macron. Não é por acaso que na UE a social-democracia perde sempre, incluindo na chamada corrida aos chamados lugares europeus. Não é por acaso que se insiste no aviso: Macro 2017 = Le Pen 2022. É que não há acasos em política e muito menos em economia política internacional.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Aumentam as desigualdades em Portugal 2015 – 2017

O agravamento das desigualdades dos rendimentos em Portugal entre 2015 e 2017, a miséria crescente dos desempregados e o agravamento das desigualdades no acesso à saúde devido às dificuldades do SNS

Neste estudo analiso, utilizando os dados que Autoridade Tributária e Aduaneira do Ministério das Finanças divulgou recentemente, a repartição dos rendimentos em Portugal mostrando que a desigualdade na sua distribuição se agravou entre 2015 e 2017, ou seja, mesmo com o actual governo. E que apesar do desemprego ter diminuído entre 2015 e 2019, a percentagem de desempregados a viver no limiar da pobreza aumentou devido à redução do numero de desempregados a receber o subsidio de desemprego (menos de 32 em cada 100).

As desigualdades no nosso país estão também a aumentar devido ao subfinanciamento crónico do SNS que reduziu drasticamente o investimento e promoveu a promiscuidade dos profissionais que trabalham simultaneamente no SNS e no sector privado porque o sector publico não lhes oferece nem remunerações nem carreiras dignas em troca da exclusividade. Tal facto está a causar a falta de profissionais no SNS e uma gestão ineficiente do SNS, o que acarreta desperdícios de meios e subutilização de equipamentos, e a determinar dificuldades crescentes aos portugueses no acesso a cuidados de saúde, fazendo explodir o negócio privado de saúde. Enquanto isto acontece, os partidos de esquerda no lugar de se unirem para resolver estes problemas graves do SNS que afectam os portugueses e estão a provocar a sua destruição e o florescimento do negócio privado de saúde, desentendem-se em relação às PPP e às taxas moderadoras, que são problemas mas menores em relação a estes.

Espero que este estudo, seja um contributo para um melhor conhecimento da situação vivida e sentida por muitas centenas de milhares de portugueses e para a reflexão.

 

Estudo

O agravamento das desigualdades dos rendimentos em Portugal entre 2015 e 2017, a miséria crescente dos desempregados e o agravamento das desigualdades no acesso à saúde devido às dificuldades do SNS

A Autoridade Tributária e Aduaneira acabou de publicar as estatísticas do IRS referentes ao período 2015-2017 (infelizmente o Ministério de Vieira da Silva continua a não publicar a Conta da Segurança Social – Parte II de 2017 e ninguém na Assembleia da República parece importar-se com esta falta de transparência e com esta intenção de ocultar a situação dos reformados). E essas estatísticas revelam que a desigualdade na repartição dos rendimentos em Portugal se agravou entre 2015 e 2017, com o actual governo, conforme mostra o quadro seguinte.

Quadro 1 – Rendimentos brutos declarados para efeitos de IRS e sua repartição por escalões

ESCALÕES DE RENDIMENTO EM EUROS 2015 2016 2017
Número de agregados Rendimento Bruto – Milhões€ Rendimento médio anual do agregado Número de agregados Rendimento Bruto – Milhões€ Rendimento médio anual do agregado Número de agregados Rendimento Bruto – Milhões€ Rendimento médio anual do agregado
01 – [ 0 A 5.000 [ 793 388 2 036 2 566 € 744 923 1 868 2 507 € 718 643 1 796 2 499 €
02 – [ 5.000 A 10.000 [ 1 544 012 11 603 7 515 € 1 536 298 11 658 7 7 588 € 1 534 136 11 794 7 688 €
03 – [ 10.000 A 13.500 [ 686 587 7 963 11 598 € 713 129 8 271 11 598 € 750 179 8 698 11 595 €
04 – [ 13.500 A 19.000 [ 666 016 10 650 15 990 € 687 843 11 000 15 993 € 708 246 11 336 16 006 €
05 – [ 19.000 A 27.500 [ 575 497 13 083 22 733 € 602 145 13 704 22 758 € 632 429 14 393 22 758 €
06 – [ 27.500 A 32.500 [ 181 129 5 404 29 833 € 190 224 5 678 29 849 € 204 196 6 090 29 825 €
07 – [ 32.500 A 40.000 [ 183 937 6 613 35 954 € 191 700 6 898 35 985 € 202 917 7 303 35 993 €
08 – [ 40.000 A 50.000 [ 143 604 6 385 44 461 € 152 614 6 794 44 517 € 162 417 7 236 44 551 €
09 – [ 50.000 A 100.000 [ 198 000 13 088 66 099 € 211 279 14 003 66 276 € 223 331 14 810 66 314 €
10 – [ 100.000 A 250.000 [ 34 030 4 556 133 877 € 38 202 5 141 134 572 € 40 932 5 538 135 305 €
11 – [ 250.000 A *** [ 2 452 1 096 447 162 € 2 794 1 229 439 711 € 3 217 1 436 446 294 €
Nº vezes que rendimento do escalão mais elevados é superior ao do escalão mais baixo (coluna a amarelo, nas outras é a SOMA) 5 008 652 82 475 174,3 5 071 151 86 243 175,4 5 180 643 90 430 178,6
FONTE: Dossier Estatístico de IRS 2015-2017- AT – Autoridade Tributária e Aduaneira – Ministério das Finanças

No quadro anterior constam os rendimentos declarados pelos portugueses para efeitos de pagamento de IRS, que inclui as remunerações dos trabalhadores, as pensões dos reformados e aposentados, e todos os restantes rendimentos (prediais, de capitais, mais valias, etc.). Os rendimentos do trabalho mais o de pensões representam, segundo a AT, cerca de 90% dos rendimentos declarados para efeitos de IRS, o que mostra bem a dimensão da fuga ao pagamento de IRS pelas outras categorias ( do capital) assim como as isenções de que gozam os rendimentos de capitais e outros no nosso país.

A analise dos dados divulgados pela Autoridade Tributária revela que, em 2015, o rendimento médio dos agregados com rendimentos mais elevado (acima de 250.000€ por ano) era superior ao rendimento médio bruto dos agregados do escalão mais baixo (rendimento até 5000€ por ano) em 174,3 vezes e, em 2017, aumentou para 178,6 vezes (o do escalão mais elevado é 178,6 vezes superior ao do escalão mais baixo). É evidente o agravamento da distribuição dos rendimentos no nosso país revelado pelos próprios dados oficiais.

O aumento do IRS foi maior nos rendimentos mais baixos do que nos mais elevados

Outro agravamento da injustiça revelado pelos dados da Autoridade Tributária é o de um aumento maior, em termos percentuais, do IRS pago (liquidado) pelos rendimentos mais baixos.

Quadro 2 – Variação do IRS pago por escalões entre 2015 e 2017

ESCALÕES DE RENDIMENTO LIQUIDADO – Em euros IRS médio liquidado/pago por escalão Variação % 2015-2017
2015 2016 2017
01 – [ 0 A 5.000 [ 900 € 958 € 1 053 € 16,9%
02 – [ 5.000 A 10.000 [ 527 € 506 € 495 € -6,2%
03 – [ 10.000 A 13.500 [ 722 € 736 € 732 € 1,5%
04 – [ 13.500 A 19.000 [ 1 239 € 1 297 € 1 318 € 6,4%
05 – [ 19.000 A 27.500 [ 2 243 € 2 300 € 2 300 € 2,5%
06 – [ 27.500 A 32.500 [ 3 856 € 3 847 € 3 856 € 0,0%
07 – [ 32.500 A 40.000 [ 5 683 € 5 653 € 5 631 € -0,9%
08 – [ 40.000 A 50.000 [ 7 909 € 7 925 € 7 933 € 0,3%
09 – [ 50.000 A 100.000 [ 14 947 € 15 144 € 15 247 € 2,0%
10 – [ 100.000 A 250.000 [ 42 207 € 42 451 € 43 062 € 2,0%
11 – [ 250.000 A *** [ 192 025 € 189 550 € 195 861 € 2,0%
FONTE: Dossier Estatístico de IRS 2015-2017- AT – Autoridade Tributária e Aduaneira – Ministério das Finanças

Segundo os dados do Ministério das Finanças, entre 2015 e 2017, o IRS médio pago no escalão até 5000€/ ano aumentou em 16,9%, enquanto o IRS médio pago no escalão de valor mais alto, superior a 250.000€ a subida foi apenas de 2%. É mais um dado oficial que confirma o aumento das desigualdades na distribuição dos rendimentos no nosso país mesmo 2015/17.

O aumento da miséria dos desempregados: apenas 32 em cada 100 recebe subsídio

O governo e os seus defensores nos media têm-se multiplicado em afirmações sobre a redução do desemprego em Portugal, procurando assim esconder a dura realidade de centenas de milhares de desempregados que continuam a existir no nosso país, e da falta de apoio crescente dado aos desempregados, para assim obter a redução do défice orçamental com o qual Mário Centeno e António Costa têm “brilhado” em Bruxelas, ou seja, à custa de miséria de muitos portugueses. O quadro seguinte mostra o numero de desempregados existentes no nosso país, e o reduzido numero dos que recebem subsidio de desemprego.

Quadro 3- O total de desempregados e os que recebem subsidio de desemprego

PORTUGAL Valor trimestral – Milhares
1ºTrim.-2018 4ºTrim.-2018 1ºTrim.-2019
1- Desempregados (nº oficial) 410,1 349,1 353,6
2-Inactivos disponíveis mas que não procuram emprego (desempregados não considerados no nº oficial) 199,6 178,7 177,0
3- DESEMPREGO REAL (1+2) 609,7 527,8 530,6
4-DESEMPREGADOS E RECEBER SUBSIDIO 188,2 173,8 168,9
TAXA COBERTURA SUB.DESEMPREGO (4 : 3) 30,9% 32,9% 31,8%
5-SUBSIDIO MÉDIO DE DESEMPREGO 487,4 € 496,7 € 494,2 €
Fonte: INE, Inquérito ao Emprego – 1.º trimestre de 2019

Os dados do INE, contrariam a propaganda oficial, pois mais de meio milhão de portugueses – precisamente 530.600 – encontravam-se desempregados no fim do 1º Trimestre de 2019. E apenas 168.900, ou seja, menos de 32 em cada 100 é que recebiam o subsídio de desemprego. E o subsídio médio era apenas de 494,2€ pouco superior ao valor do IAS que é 435,76€. Tal facto determina que a percentagem de desempregados na miséria tenha aumentado mesmo com o actual governo como provam os dados do INE no quadro seguinte.

Quadro 4- Taxa de risco de pobreza após transferências sociais, segundo a condição perante o trabalho, Portugal, 2014-2017

Ano de referência 2015 2016 2017
CAUSAS DA POBREZA EM PORTUGAL Total Total Total
Empregado 10,9% 10,8% 9,7%
Sem emprego 25,4% 25,1% 24,8%
Desempregado 42,0% 44,8% 45,7%
EU-SILC 2016 2017 2018
FONTE: Inquérito às Condições de Vida e Rendimento – INE

Quando o actual governo tomou posse 42% dos desempregados (255,8 mil) viviam na pobreza; em 2017 aquela percentagem aumentou para 45,7% (242,5 mil). Portanto, apesar do desemprego ter diminuído os desempregados na miséria não diminuíram na mesma proporção.

As dificuldades crescentes do SNS estão a agravar ainda mais as desigualdades

As dificuldades crescentes que enfrenta o SNS, devido ao subfinanciamento crónico que reduziu drasticamente o investimento e promoveu a promiscuidade dos profissionais que trabalham simultaneamente no SNS e no sector privado porque o sector publico não lhes oferece nem remunerações nem carreiras dignas em troca da exclusividade que é urgente implementar para defender o SNS, está a causar a falta de profissionais no SNS que associada a uma gestão ineficiente do SNS acarreta desperdícios de meios e subutilização de equipamentos, e dificuldades crescentes aos portugueses no acesso a cuidados de saúde, fazendo explodir o negócio privado de saúde. Enquanto isto acontece, os partidos de esquerda no lugar de se unirem para resolver estes problemas graves do SNS que afectam os portugueses e estão a provocar a sua destruição e o florescimento do negócio privado de saúde, desentendem-se em relação às PPP e às taxas moderadoras que, embora sejam problemas, são menores para os portugueses em relação àqueles.



 


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/aumentam-as-desigualdades-em-portugal-2015-2017/

O Censo viciado em Portugal

por Jorge Fonseca de Almeida [*]

Sede do INE. O Instituto Nacional de Estatística (INE) contrariando a opinião do Grupo de Trabalho formado para o efeito e numa decisão inédita anunciou, pela voz do seu Presidente Francisco Lima, que ao contrário do que seria normal não vai recolher no censo de 2021 dados étnico-raciais que há muito vêm sido solicitados pelo movimento anti-racista.

Em Abril, o Grupo de Trabalho recomendou a inclusão da recolha de dados étnico-raciais, a exemplo do que é feito num conjunto alargado de países ocidentais, no sentido de aferir a composição do país e, mais importante, de identificar e quantificar o tratamento desigual dos vários grupos na nossa sociedade em termos de habitação, rendimentos, acesso à educação, acesso à saúde, acesso ao trabalho, representação política.

Estes dados permitiriam desenhar um conjunto de políticas e estratégias de combate ao racismo institucional, à discriminação e à segregação.

As razões avançadas pelos Presidente do INE para a não inclusão foram as seguintes:
i) Risco de institucionalizar as categorias étnico-raciais, 
ii) Complexidade do tema requereria mais tempo, 
iii) Incerteza no resultado por a questão ser facultativa.

Vejamos se estes argumentos são sólidos.

Incerteza associada ao carácter facultativo

Existem outras perguntas facultativas no censo, nomeadamente uma sobre a filiação religiosa. Uma pergunta melindrosa a que, contudo, muitas pessoas respondem – nomeadamente as que são membros de minorias religiosas como a judaica e a muçulmana.

Nunca o INE pôs em causa os resultados obtidos por esta pergunta facultativa, nem a retirou do censo. Pelo contrário, o INE divulga esses resultados com plena confiança. Este facto mostra que o carácter facultativo não gera automaticamente incerteza quanto à fiabilidade dos resultados.

Nos censos de vários países as perguntas sobre etnicidade e raça são facultativas. Vejamos: na Bulgária diz-se "perguntas de resposta voluntária"; na Hungria o impresso do censo informa "Responder às próximas perguntas não é obrigatório"; no da Roménia lê-se "cada pessoa é livre de expressar a sua opinião sem constrangimentos"; no da Sérvia "a pessoa não é obrigada a declarar". Não se trata de países mais desenvolvidos tecnicamente que Portugal em termos de recolha estatística para um censo.

Poderíamos citar muitos outros exemplos. Em nenhum destes países se levantou a questão da fiabilidade dos resultados. Pelo contrário, eles são muito importantes para tomada de decisão.

Na verdade, perguntas controversas ou facultativas devem ser testadas antes de incluídas para verificar a robustez dos resultados obtidos. Sem tal verificação não é cientificamente correcto emitir uma opinião sobre a certeza ou incerteza dos dados.

Assim, a afirmação do Presidente do INE deve ser lida não como uma constatação técnica mas antes como uma simples opinião política.

Complexidade do tema

No momento em que escrevemos, os EUA debatem a introdução de uma pergunta no censo de 2020 deste país sobre se o inquirido tem ou não nacionalidade norte-americana. Sendo muitos imigrantes latinos ilegais, muitos vêem essa pergunta como uma forma de afastar milhares de imigrantes latinos de responder ao censo e, dessa maneira, reduzir estatisticamente o peso da população latina. A ser assim seria desastroso para o censo, que daria resultados errados.

Existem vibrantes campanhas da direita para incluir a pergunta; e da esquerda, aliada às comunidades latinas e imigrantes, para não a incluir.

Os latinos são a segunda maior comunidade norte-americana, representando já mais de um sexto do total da população.

Sendo controversa, a pergunta está a ser analisada pelo Supremo Tribunal, que decidirá se pode ou não ser incluída no Censo. O Departamento de Estatísticas, contudo, não se queixou de ser uma pergunta controversa e está já a testar a melhor forma de a incluir. Note-se que o Supremo Tribunal ainda não se pronunciou sobre o tema e que o censo norte-americano é em 2020, um ano antes do português.

Assim, a resposta do Presidente o INE mostra incompetência e falta de prudência. Sabendo que o Grupo de Trabalho poderia vir a aprovar a pergunta, não se preparou. Confrontado desde Abril com a luz verde do Grupo de Trabalho queixa-se, agora, de falta de tempo. O caso norte-americano mostra que o tempo existe; a competência para o aproveitar é que parece que escasseia.

Esperava-se que o Presidente do INE, em face disto, terminasse demitindo-se e abrindo lugar a outro mais prudente e competente. Pelo contrário, aparentemente, tal ideia não lhe passou pela cabeça.

Risco de institucionalizar as categorias étnico-raciais

 

Pergunta sobre raça no último censo norte-americano

Censo nos EUA

Este seria um risco absurdo de se correr em troca da recolha de informação estatística. Acontece, porém, que esse risco não existe, pelo simples facto de que a institucionalização do racismo sobre os grupos étnico-raciais já existe.

Qualquer observador atento verificará que a habitação está fortemente segregada, com extensos bairros habitados maioritariamente por negros e ciganos; e outros, normalmente mais abastados, por brancos. Que nas Universidades não existem, apenas algumas ínfimas excepções que confirmam a regra, alunos portugueses oriundos das minorias negra e cigana. Que o acesso à saúde é muito diverso e que a comunidade cigana tem uma esperança de vida muito inferior à média nacional, que os negros para as mesmas habilitações são mais mal pagos que os brancos, etc, etc.

O risco não só não existe como a inclusão destas perguntas permitiria diminui-lo no futuro, uma vez que, identificados com rigor os problemas, mais depressa e mais eficazmente se pode avançar na sua resolução.

 

Pergunta sobre raça no último censo do Reino Unido

Censo na Gr

Pergunta do último Censo Irlandês

Censo na Irlanda.Note-se que Irish Traveller equivale à categoria Cigano.

Pergunta traduzida do Censo Húngaro

Censo na Hungria.

Aqui deixámos várias perguntas colocadas em vários censos europeus e americanos para que se perceba que não existe um tabu sobre esta pergunta e que ela é vista como útil em países com diversidade étnico-racial.

Longe de contribuir para a institucionalização dessas categorias, o que há que reconhecer é a sua existência e contribuir para que não sejam fonte de discriminação e segregação.

Censo Viciado

Portugal é uma sociedade étnica e racialmente diversificada. Não o querer aferir e reconhecer é viciar o censo.

Portugal é um país estrutural e institucionalmente racista, onde as desigualdades entre grupos são gritantes, onde a discriminação é visível e a segregação espacial patente. Não querer recolher a informação básica e fundamental que poderia ajudar a ultrapassar este terrível problema é viciar o censo e agir de forma politicamente motivada.

Um censo viciado, em que se não tem a coragem de colocar as perguntas certas e essenciais, é um censo parcialmente inútil, em que a informação é incompleta e traça um quadro enviesado da sociedade.

Portugal não deve agir como a avestruz, que perante os problemas enterra a cabeça na areia, mas antes como um confiante agente social que quer conhecer a realidade para a mudar.

Como diz o povo com razão "o pior cego é o que não quer ver". Não precisamos deste tipo de pessoas à frente do INE.

22/Junho/2019

[*] Economista, MBA

O original encontra-se em https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=417

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/portugal/censo_ine.html

Ternura

Os príncipes e os anormais que os adoram babam-se com o Archie, a mamã diz que “é magia”. Ao lado dos mágicos coloquei um menino palestino, não sei o seu nome, sei sim, que é vítima dos canalhas que apoiam o nazissionismo e os guaidós que apavoram povos indefesos.  image

No mesmo jornal e na mesma página, meia dúzia de linhas sem interesse, o genocídio programado pelos príncipes, donos disto tudo.

image  São os nazissionistas que impedem a entrada de "material e médicos".

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Liberdade, desigualdade e pouca fraternidade

(João Silvestre, in Expresso Diário, 02/05/2019)

João Silvestre

 

A escolha de uma versão alterada do slogan da Revolução Francesa não é casual. Igualdade e fraternidade, ou falta dela, são duas palavras que estão frequentemente subjacentes a muitos dos protestos na Europa. A começar nos coletes amarelos franceses e nas suas reivindicações: redução dos impostos sobre os combustíveis que penalizam quem vive fora das grandes cidades (Igualdade); proteção da indústria francesa (falta de Fraternidade); maior tributação das grandes empresas(Igualdade); subida do salário mínimo e da pensão mínima (Igualdade).

Há mais exigências e muitas são até contraditórias entre si. Mas, no fundo, as questões de igualdade e fraternidade estão quase sempre presentes. Portugal tem vivido, para já, praticamente imune à margem da onda populista europeia embora tenha tido um resgate da troika e tenha vivido a recessão mais grave em quatro décadas. Ainda assim, foi criada uma série de sindicatos novos nos últimos anos – quase nenhum alinhado com as centrais sindicais – que têm adotado formas de luta mais agressivas e que podem espelhar precisamente esta crise de representação política e a revolta em vários sectores da sociedade.

Pode gostar-se ou não da forma. Concordar ou discordar com as reivindicações. Mas há dados que mostram bem o que está em causa: a desigualdade tem-se agravado em muitos países e estas revoltas são muitas vezes uma forma de a tentar corrigir, ainda que, no limite, possam funcionar como uma agravante se pequenos grupos tiverem benefícios maiores em função da sua maior capacidade reivindicativa. Ou então, são tentativas de não ficar para trás na hora de repartir benesses. Mas este aparente desejo de igualdade pode não ter exatamente um reflexo em termos de fraternidade. Pelo menos, se fraternidade significa aceitar – e contribuir para – medidas e políticas de correção das desigualdades e, numa vertente mais externa, no acolhimento de migrantes que procuram fugir de zonas em conflito ou alta tensão política.

PAÍSES DA UE COM MAIORES QUEDAS NA FATIA DOS RENDIMENTOS DO TRABALHO

Em pontos percentuais do PIB. Entre 2008 e 2018
FONTE: AMECO (COMISSÃO EUROPEIA); EXPRESSO

Nada como olhar para os números para se perceber do que estamos a falar. A parte dos salários no PIB, ou seja a fatia do produto que cabe aos trabalhadores, tem vindo a diminuir em muitos países da Europa nos últimos anos. Portugal é um dos casos onde a descida é mais acentuada nestes anos. Entre 2008 e 2018, de acordo com a base de dados AMECO, da Comissão Europeia, a parte dos rendimentos do trabalho no PIB caiu 4,7 pontos percentuais.

Mesmo assim, em 2018 ainda representava mais de metade – 51,9%. Em 16 dos países da União Europeia houve também descidas neste período. O mesmo aconteceu em economias fora da Europa, como os EUA, a Austrália ou o Japão.

No caso português, na viragem para o século XXI a fatia dos trabalhadores no PIB estava em 60%. Esta redução significa que a parte dos trabalhadores é menor, o que pode tender a agravar a desigualdade – a tese de Thomas Piketty é precisamente a dinâmica dos rendimentos do capital ser mais favorável que o trabalho – a que se soma o facto de haver igualmente desigualdade entre rendimentos de trabalho. Segundo problema, se os trabalhadores recebem uma parte menor de um bolo mais ou menos idêntico – tendo em conta que o PIB real só agora regressou ao que era em 2008 – é natural que possam ter razões para estar descontentes em muitos casos.

Isto é apenas um indicador numa perspetiva macroeconómica da repartição do rendimento entre capital e trabalho. Que pode ser uma das fontes de desigualdade. Mas há outras. E os dados não enganam: a fatia do rendimento dos 1% mais ricos ultrapassou a fatia dos 50% mais pobres nos EUA e aproximou-se na Europa (ver gráficos). Os números são dos economistas Thomas Blanchet (Paris School of Economics), Lucas Chancel (Paris School of Economics e World Inequality Lab) e Amory Gethin (World Inequality Lab), publicados no portal Vox, que sublinham que a desigualdade se agravou na maior parte dos países europeus desde 1980 e que, neste período, “os 1% de rendimentos mais levados capturaram 17% do crescimento europeu, comparado com os 15% dos 50% de rendimentos mais baixos”.

Precisamente porque a desigualdade de origem acaba por se reproduzir no tempo e nem sempre existem mecanismos que a possam corrigir. Era mais ou menos esta a tese de Thomas Piketty no seu “Capital no Século XXI”: a taxa de retorno do capital tende a ultrapassar o ritmo de crescimento da economia, o que deixa uma menor fatia dos rendimentos para salários e agrava a desigualdade.

A solução são mecanismos que passam pela intervenção do Estado mas que são muitas vezes rejeitados pelos mesmos movimentos que, aparentemente, defendem maior igualdade e justiça social. Seja porque estão contra a fraternidade entre países europeus, porque querem pagar menos impostos mas gastar mais ao mesmo tempo, porque são contra a entrada de imigrantes ou porque criticam as medidas de combate à pobreza e outros apoios sociais. Existe praticamente de tudo. A realidade é que desigualdade alimenta populismos mas a desinformação também e, para o bem e para o mal, ninguém é obrigado a prestar provas de coerência para organizar um protesto.

Em Portugal, a situação é menos grave mas é igualmente preocupante. Porque os 10% mais ricos ganham mais do que ganhavam em 1980 e os 50% mais pobres ganham menos. Ainda assim, a diferença esbateu-se. E a intervenção do Estado com os impostos tem um efeito substancial (ver gráficos).

A desigualdade esteve na moda há uns anos quando saiu a obra de Piketty, mas entretanto o entusiasmo esfriou-se. Pelo menos no debate político. Porque as pessoas estão atentas e sentem-no no papel. Sabe-se como muitas vezes tendem a valorizar mais o seu rendimento relativo, ou seja como se comparam com os outros à sua volta, do que propriamente o valor absoluto que levam para casa. Precisamente porque, além da questão estritamente económica, se preocupam com conceitos de justiça e equidade. E é por isso que as elites são olhadas com desdém e desconfiança.

É por isso que a desigualdade devia ter um papel mais central no debate político. Porque não é apenas medir diferenças de rendimentos. Tem a ver com acesso a serviços públicos, com meritocracia, com igualdade de oportunidades e com a mobilidade social. Assim, o terreno fica fértil para quem quer cultivar ódios. Martin Wolf escrevia esta semana um artigo no “Financial Times” – “The politics of hope agains the politics of fear” – onde lembrava que a democracia já sobreviveu a enormes desafios no passado – como as duas guerras mundiais – e sugeria dez formas de ter uma alternativa ao apelo dos populismos e de líderes extremistas. Além de exigir capacidade de liderança e competência aos políticos, insistia na necessidade de apostar na inclusão, de fazer reformas para tornar a economia mais próspera para todos, de ter atenção aos serviços públicos e, entre outras coisas, apelar à cidadania.

Porque temos liberdade, mas a igualdade e a fraternidade têm dias. Nuns mais que noutros. E, mesmo que os políticos não lhes deem a devida atenção, elas estão na cabeça das pessoas. Que não esquecem e que, não raras vezes, se agarram a explicações excessivamente simples – e simplistas – para questões demasiado complexas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Quem parte e reparte?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/04/2019)

Daniel Oliveira

 

Sobre a história das famílias, tenho sublinhado a pequenez da nossa elite e a brutal desigualdade da nossa sociedade como principal fator para a endogenia nos vários círculos de poder. Em todos os círculos de poder e não apenas na política e nos partidos. Já foi muito pior do que hoje. Mas continuamos a ser um dos países mais desiguais da Europa. E era aí, e não em leis inúteis para entreter campanhas eleitorais, que devia estar o debate político que nos interessa.

Na semana passada, o “Diário de Notícias” fez umas contas interessantes. Que mostram como funcionam os mecanismos de perpetuação e aprofundamento das desigualdades. Segundo o DN, os presidentes executivos (CEO) das empresas do PSI20 (as maiores cotadas em bolsa) ganharam, em 2018, 52 vezes mais do que os trabalhadores que dirigem. Receberam, em média, 1,1 milhões de euros. Isto são valores brutos e incluem, além dos salários, prémios de desempenho e contribuições para planos de pensões. Mas não estão aqui dividendos dos administradores que são simultaneamente acionistas.

Em 2014, os CEO das empresas do PSI20 recebiam 33 vezes mais do que os seus trabalhadores. Agora recebem 52 vezes mais. Porque de 2014 a 2018 os salários dos administradores aumentaram muito mas o custo médio com os funcionários manteve-se quase inalterado. O que quer dizer que aos primeiros sinais de recuperação económica os gestores trataram apenas de si

Os trabalhadores destas mesmas empresas receberam, em média, 21,1 mil euros por ano, seguindo os mesmos critérios. Os valores dos custos com pessoal incluem funcionários noutros países, que ocupam cerca de metade dos postos de trabalho. Ainda assim, a diferença é abissal. Sobretudo quando também não estão aqui os salários dos trabalhadores que trabalham para estas empresas através de call centers e subcontratações, o que em empresas como a EDP, por exemplo, é bastante significativo.

Se fizermos uma espécie de ranking da desigualdade temos, logo no topo, a Jerónimo Martins. Na dona do Pingo Doce a diferença entre os rendimentos de Pedro Soares dos Santos e os seus trabalhadores é de 140 vezes. Se não fosse este grupo de distribuição a diferença entre os ganhos dos CEO e os trabalhadores cairia, no conjunto das empresas, para 37 vezes. Ele ganha 1,9 milhões de euros (um dos rendimentos mais altos), os seus funcionários ganham, em média, 13,5 mil euros (os mais baixos). Esta é a empresa onde os trabalhadores estrangeiros têm de ser tidos em conta, já que muitos estão na Polónia. Ainda assim, os polacos já se começam a aproximar de Portugal, com um salário mínimo de 500 euros. Eles não chegam para explicar esta diferença brutal.

Depois temos a EDP, com uma diferença de 39 vezes (graças aos rendimentos anuais de 2,2 milhões de euros de António Mexia), a Sonae (os rendimentos anuais de Paulo Azevedo, se contarmos com prémio de 2015 liquidado em 2018, são metade dos do dono da Jerónimo Martins), a GALP e Semapa, com diferenças superiores a 30 vezes, e a Navigator e EDP Renováveis.

Mas o mais impressionante não são estes valores. É o que aconteceu neste período de recuperação económica. Isso sim, dá-nos a dimensão de como as coisas funcionam. Em 2014, a média dos rendimentos dos CEO era 700 mil euros anuais. Recebiam 33 vezes mais. Agora recebem 1,1 milhões de euros e ganham 52 vezes mais. Porquê? Porque de 2014 a 2018 o custo médio com cada funcionário manteve-se quase inalterado. O que quer dizer que aos primeiros sinais de recuperação económica os gestores trataram de si e deixaram os seus trabalhadores quase na mesma. A conversa que para distribuir é preciso produzir choca com estes números. Claro que para distribuir é preciso produzir. Mas não chega. Para distribuir é preciso que os mecanismos de pressão dos trabalhadores funcionem. E não estão a funcionar.

Quando isto foi debate pela última vez, o PS apresentou um projeto de resolução para penalizar as grandes diferenças salariais nas contribuições à segurança social. Os patrões não aceitaram a proposta em sede de concertação social e tudo morreu. Assim como morreu a proposta do Bloco de Esquerda para punir esta desigualdade salarial. Compreendo e não discordo da tentativa de legislar sobre esta pornográfica diferença. Mas a questão não é, mais uma vez, moral. É política. É que instrumentos criamos que forcem a uma redistribuição mais justa. Com um sindicalismo fraco e leis laborais que fragilizam a posição do trabalhador na empresa é inevitável que esta desigualdade se aprofunde. Quem tem a faca e o queijo na mão não costuma dividir o queijo de forma justa. É preciso que a faca seja partilhada. Não depende da bondade ou da maldade, depende da distribuição de poder. E temos tirado poder aos trabalhadores e a quem os representa.

Já citei aqui várias vezes o livro “Espírito da Igualdade”, dos britânicos Richard Wilkinson e Kate Pickett. Nele, comparam-se dados estatísticos de doenças mentais, toxicodependência, alcoolismo, esperança de vida, mortalidade infantil, obesidade, desempenho escolar, gravidez na adolescência, homicídios, taxas de encarceramento, mobilidade social e confiança entre cidadãos em vários países desenvolvidos.

E conclui-se que, no primeiro mundo, são os índices de igualdade na distribuição da riqueza e não a riqueza produzida os que mais determinam a qualidade de vida de todos os cidadãos. Até os mais ricos vivem melhor em sociedades igualitárias do que em sociedades como a nossa. É a desigualdade, ilustrada por esta multiplicação por 52, que está na base do nosso atraso. A endogamia da elite é só uma das suas muitas consequências.

Nota: deixarei, para quando ficar mais claro o que irá acontecer com a greve dos motoristas de matérias perigosas, a análise desta paralisação e das suas repercussões.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Rapa, tira e deixa

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião

As notícias sobre as remunerações de 15 presidentes executivos (CEO) de empresas cotadas na Bolsa de Lisboa (PSI 20), obrigam-nos a refletir sobre as profundas desigualdades de rendimento e de riqueza.

Seria importante conhecer-se, não apenas o que recebem aqueles CEO, mas também o que se passa no conjunto das grandes empresas da indústria e dos serviços.

O que explica estas desigualdades? O mérito dos gestores de topo? Talvez tenham algum talento, mas afinal só são motivados com muitos milhões, quando exigem ao comum dos trabalhadores motivação a troco de quase nada.

Os dados disponíveis não nos chocam todos na mesma dimensão, pois os 2288,3 milhões que recebe António Mexia estão distantes dos 349,9 mil do António Rios Amorim. Outras questões pontuais se podem considerar, por exemplo, o facto de, no mesmo setor de atividade, o CEO da Jerónimo Martins/Pingo Doce auferir o triplo do CEO da Sonae/Continente.


Há um conjunto de perguntas fundamentais a colocar para percebermos significados daquelas remunerações. Estes executivos são acionistas das empresas que gerem? Qual a sua origem e como construíram as suas posições nas empresas e no sistema financeiro? Que tipo de emprego têm as empresas que dirigem?

António Mexia recebe o correspondente à retribuição de 40 trabalhadores que auferem o salário médio da EDP. Mas, no cálculo deste, não são considerados os baixíssimos salários dos milhares e milhares de trabalhadores que trabalham para a EDP nos call centers e em imensas subcontratações.

O Grupo Jerónimo Martins/Pingo Doce - que pretende projetar-se na sociedade como exemplo de ética social e de filantropia - está inserido num tipo de atividade que normalmente é identificada como de mão de obra barata, mas o seu CEO tem uma retribuição choruda, correspondente a 140 vezes o salário médio da empresa. No Pingo Doce o salário de topo de carreira de operador de loja era, em 2010, 614,5€, ou seja, 139,5€ superior ao salário mínimo nacional (SMN). Em 2019, o salário daquela categoria é de 650€, ou seja, apenas mais 50€ que o SMN. Esta situação mostra-nos duas coisas: o grupo apenas consegue ser generoso em situações de miséria, pois basta o SMN ter um valor minimamente digno para essa generosidade se evaporar; não efetiva uma negociação coletiva séria.

Muitos dos presidentes executivos daquela lista são acionistas das empresas que os remuneram, recebendo, assim, dividendos por duas vias. O conluio entre os grande acionistas e os executivos destas empresas permitem que estes se aumentem escandalosamente, com prejuízo, quer para os trabalhadores que veem os seus salários comprimidos, quer para os pequenos acionistas das respetivas empresas.

As retribuições dos CEO são contabilizadas como remunerações do trabalho. Puro engano, estes "salários" exorbitantes são na realidade remunerações do capital, escondidas.

Estamos perante um jogo em que os grandes detentores do capital e os seus executivos tanto rapam em nome da crise como quando há recuperação económica. Tiram o que pertence aos trabalhadores quando precarizam o trabalho ou praticam atos de gestão danosa, deixam cada vez menos para os salários e, quantas vezes, comprometem os investimentos que deviam fazer.

*Investigador e professor universitário

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-rapa-tira-e-deixa.html

Luxos

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Para além do luxo de estar isenta do pagamento de impostos, a Universidade Católica Portuguesa também parece estar por vezes isenta do respeito pelos limites morais ao capitalismo que a Doutrina Social da Igreja prescreve. Digo isto, entre outras razões, por causa do seu programa executivo de gestão do luxo, o enéssimo exemplo de promoção intelectual do porno-riquismo neste país. Neste contexto, talvez seja oportuno lembrar alguns excertos da Encíclica Laudato Sido Papa Francisco, um notável texto sobre a questão ecológica: “Uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres (...) Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão das compras e gastos supérfluos. O consumismo obsessivo é o reflexo subjectivo do paradigma tecno-económico (...) O referido paradigma faz crer a todos que são livres pois conservam uma suposta liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria que detém o poder económico e financeiro (...) A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o modelo consumista, transmitido pelos meios de comunicação social e através dos mecanismos eficazes do mercado.” É caso para perguntar, neste contexto: será este tipo de programa um eficaz mecanismo de mercado?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O porno-riquismo é tudo menos cor-de-rosa

O porno-riquismo é tudo menos cor-de-rosa
O luxo está de volta a Portugal, informa-nos desta vez a Sábado. Há quem vá almoçar de helicóptero à praia e tudo. Como já aqui defendi, o porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política. Neste contexto, certa comunicação social contribui para que os standards pecuniários pornográficos fixados pelos mais ricos, de resto tão pouco taxados quanto social e ambientalmente insustentáveis, sejam devidamente reconhecidos. Este é só a enéssima reportagem do género.
O porno-riquismo é tudo menos cor-de-rosa
Esta abordagem celebratória dos hábitos e costumes dos ricos e famosos há muito tempo que deixou de estar confinada às revistas ditas cor-de-rosa. Da imprensa dita séria a um certo tipo de universidade, é toda uma cultura que celebra e ao mesmo tempo ofusca uma economia política que é tudo menos cor-de-rosa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O problema da economia lusa reside na baixa qualidade dos seus gestores e acionistas

Eles comem tudo, é o que escreve Marco Capitão Ferreira no «Expresso», e refere-se aos já denunciados pelo Zeca na sua célebre canção. É que ouvimos as “eminências” do costume, formatadas pelo pensamento ideológico das direitas, a considerarem como problema maior da falta de competitividade das empresas portuguesas a produtividade dos que nelas trabalham. Mas, como assim, se basta mudarem de país para, logo, os mesmos trabalhadores “improdutivos” logo se baterem, de igual para igual, com os novos colegas desses destinos de emigração? Ou como assim se a produtividade na Autoeuropa é muito maior do que na generalidade das empresas pertencentes a acionistas nacionais? Conclui o autor da crónica: “parte (talvez mesmo a maior parte) da falta de competitividade da nossa Economia não vem do fator trabalho, vem do fator capital.”
Ou seja: mais ainda do que os trabalhadores, que carecem de formação (e já agora de melhores meios de produção!) para aumentarem as competências, deveriam ser os gestores e os acionistas a recebe-la para se tornarem aptos a solucionarem as disfuncionalidades na organização das empresas e decidirem melhores estratégias para as alavancar. E, no entanto, são eles quem reivindicam bónus e dividendos muito acima do que mereceriam. Como acaba de se comprovar num estudo hoje divulgado, que denunciaas excessivas remunerações dos acionistas portugueses, só superados na tabela em causa pelos congéneres russos...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/o-problema-da-economia-lusa-reside-na.html

Cuidado, amigos plutocratas, as forquilhas estão a chegar

Nick Hanauer é um homem rico, um capitalista impenitente e tem algo a dizer aos colegas plutocratas: Acordem!

A crescente desigualdade está prestes a empurrar as nossas sociedades para condições semelhantes à França pré-revolucionária. Ouçam o seu argumento sobre como um grande aumento no salário mínimo poderia fazer crescer a classe média, entregar prosperidade económica … e evitar uma revolução.

Nick Hanauer has become an important voice in the raging debate on inequality — and his provocative argument is aimed at his fellow plutocrats.


Apoio a Cuba, Venezuela e Síria presente em encontro internacional

Mais de 600 delegados de 65 países participam na IV Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, que esta quinta-feira termina em Havana, em defesa de um mundo mais justo, equilibrado e em paz.

A IV Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, que decorre em Havana, conta com delegações de 65 paísesCréditos / escambray.cu

O encontro, que este ano é dedicado à figura do poeta e revolucionário cubano José Martí (1853-1895) e está a decorrer no Palácio das Convenções da capital cubana, teve início esta segunda-feira, contando, na sessão inaugural, com a presença do presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, além de embaixadores, chefes de missões diplomáticas, intelectuais e mais de 600 delegados de 65 países.

Na sessão de ontem, os participantes expressaram solidariedade ao governo e ao povo da Venezuela, que são alvo de uma ofensiva golpista liderada pelos Estados Unidos, com o apoio de países aliados na região e da União Europeia.

Adán Chávez, membro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), interveio para explicar o panorama que se vive no país sul-americano, tendo afirmado que os Estados Unidos e os seus aliados utilizam desde 2016 a mesma estratégia que implementaram no Brasil, e que conduziu à saída forçada da presidente Dilma Rousseff do poder e ao encarceramento do ex-presidente Lula da Silva, indica a Prensa Latina.

Por seu lado, o presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), Iacovos Tofari, disse que Cuba «continua a ser um exemplo que inspira os povos a lutar contra as correntes do imperialismo e do colonialismo». O dirigente cipriota da FMJD sublinhou que o «processo social cubano proporciona os argumentos para convencer os povos de que um mundo melhor é possível».

«Os inimigos da Síria fracassaram»

Também presente no encontro, o embaixador da Síria em Cuba, Idris Mayya, interveio na primeira sessão do evento, tendo-se centrado na «firmeza da Síria na luta antiterrorista» e no impacto da sua vitória «no reequilíbrio do mundo».

O diplomata declarou que «os inimigos da Síria fracassaram nos seus planos graças à lendária resistência do povo e do exército». Hoje, o país árabe «encontra-se à beira da vitória final e está-se a preparar para a etapa da reconstrução», disse, citado pela agência SANA.

Recebendo o apoio e a solidariedade dos participantes na conferência, Mayya referiu-se às tentativas dos Estados Unidos e dos seus aliados para, através da aplicação de sanções económicas e medidas coercivas unilaterais, evitar a reconstrução do que foi destruído pelos grupos terroristas.

Quatro dias de debate por um mundo mais justo e equilibrado

Organizado pelo Projecto José Martí de Solidariedade Internacional, patrocinado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em coordenação com o Gabinete do Programa Martiano de Cuba, o encontro promove o estudo, o conhecimento e a divulgação da vida e da obra daquele que é conhecido como o «Apóstolo» cubano.

Nesta edição da Conferência estiveram e estão ainda em debate questões como a democracia na América Latina; o combate às desigualdades e paz no mundo; a arte ao serviço da humanidade; o papel dos novos movimentos sociais; a necessidade de fazer frente ao terrorismo; a luta contra todas as formas de discriminação; o papel da juventude, dos estudantes e das suas organizações nos processos de mudança; o papel do movimento sindical nas lutas por um mundo melhor, refere a Prensa Latina.

No âmbito do encontro, o intelectual cubano Roberto Fernández Retamar, presidente há quatro décadas da Casa das Américas, recebeu o Prémio Internacional José Martí 2019, atribuído pela UNESCO.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/apoio-cuba-venezuela-e-siria-presente-em-encontro-internacional

Acorde. Acordem, isto não vai durar.

Em mensagem anterior - "Um futuro preocupante" -, o Professor Galopim de Carvalho mencionou a posição de Nick Hanauer, um dos grandes capitalistas à escala mundial, sobre a crescente desigualdade social. Uma desigualdade que, tendo raízes económicas, reflecte-se, abertamente, na saúde, na justiça, na educação. Em virtude daquilo que estudo e faço na área da educação escolar, é sobretudo a partir dela que vejo esse futuro. E o que vejo é preocupante, mesmo muito preocupante. Os sistemas de ensino estatais - que, verdade seja dita, nunca foram completamente independentes dos "poderes que podem", tornaram-se, neste século, reféns do "poder que pode mais do que todos os outros poderes": o tal capitalismo que Nick Hanauer denuncia, recorrendo a argumentos pragmáticos, que não subscrevo inteiramente, mas que compreendo e que entendo serem compatíveis com argumentos de distinta natureza. É este capitalismo que se tornou a base do currículo que se implanta à escala global: em cada país, estado, região, escola, sala de aula... E como é muito bem apresentado, numa "narrativa" capaz de convencer os mais incrédulos e de vencer os mais resistentes, acreditamos que ele vai formar muito bem as nossas crianças e os nossos jovens, que lhes permite ter sucessos académicos e nas suas carreiras, que lhes permite serem cidadãos do futuro. Temo que quando acordarmos desta espécie de torpor seja um pouco tarde... Ou, talvez, não. Em suma, vale a pena ver conferência que se encontra aqui.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2019/01/acorde-acordem-isto-nao-vai-durar.html

Davos e o resto

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/01/2019)

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Todos os anos, por esta altura, boa parte da elite empresarial, financeira e política global desloca-se a Davos para discutir tendências, estabelecer contactos e trocar influências no encontro anual do Fórum Económico Mundial. Desde a sua primeira edição em 1988, e apesar dos esforços da organização para melhorar a imagem do evento, Davos tornou-se conhecido como uma cimeira plutocrática, um símbolo por excelência do carácter elitista e inacessível das estruturas de decisão do capitalismo global. Não foi por acaso que o Fórum Social Mundial, criado em 2001, surgiu em oposição e contraste explícitos face a Davos, até mesmo no nome.

É por causa deste mesmo simbolismo que a Oxfam, confederação internacional de ONGs de luta contra a pobreza, escolhe também esta altura para publicar a edição anual do seu relatório sobre a desigualdade no mundo, que chama a atenção para as enormes disparidades na distribuição do rendimento e riqueza entre a população mundial. O relatório da Oxfam baseia-se principalmente em dados produzidos por outras organizações, mas tem sobretudo o mérito de apresentar esses dados de uma forma facilmente apreensível, e inevitavelmente chocante, para o público em geral.

Entre outras coisas, o relatório deste ano assinala que cerca de metade da população mundial vive com menos de 5 dólares e meio por dia, ao mesmo tempo que o número de bilionários é maior do que nunca: 2208 indivíduos com um património líquido superior a mil milhões de dólares.

Talvez mais impressionante ainda é saber que se os 1% mais ricos da população mundial pagassem 0,5% a mais de imposto sobre o património, isso geraria receita suficiente para educar os 262 milhões de crianças que não frequentam a escola em todo o mundo, ou para proporcionar cuidados de saúde susceptíveis de salvar 3,3 milhões de vidas.

A desigualdade global é enorme, sexista (prejudicando desproporcionalmente as mulheres em todo o mundo), traduz-se em milhões de mortes evitáveis e assenta em grande medida na capacidade dos mais ricos pagarem menos impostos por vias lícitas e ilícitas.

As soluções apontadas pela Oxfam para combater a desigualdade são as que já conhecemos; não é preciso reinventar a roda nesta matéria. Passam por proporcionar educação, saúde e outros serviços básicos de forma universal e gratuita, dando especial atenção à melhoria da situação das mulheres e raparigas, e por assegurar que os indivíduos mais ricos e as empresas pagam a justa quota parte de impostos, acabando com os offshores e eliminando as oportunidades de evasão e elisão fiscais.

O principal problema com que a humanidade se encontra confrontada nos nossos dias consiste em assegurar a dignidade e a satisfação das necessidades de todos sem exceder as capacidades do planeta em termos de recursos e de equilíbrio dos sistemas naturais. O relatório da Oxfam, ao mostrar que o problema da pobreza e prosperidade globais é fundamentalmente um problema de distribuição, é mais um elemento que nos ajuda a perceber que não são realmente precisas soluções técnicas, nem se vai lá com actos individuais bem intencionados. É indispensável, em contrapartida, que se dê prioridade ao bem comum sobre a riqueza privada.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O agravamento da desigualdade…

O agravamento da desigualdade na repartição da riqueza criada em Portugal e a sua ocultação durante vários anos pelo crédito fácil

O gráfico 1, com dados do Eurostat, mostra de uma forma clara e sintética a evolução da parte da riqueza criada (PIB) que reverte para os trabalhadores soba forma de ”remunerações”, que inclui também as contribuições das empresas para a Segurança Social e todas outras despesas sociais das empresas entre 2006 e 2017, tanto em Portugal como nos países da Zona euro.

Gráfico 1- A Repartição da riqueza criada (PIB) em Portugal e nos países do euro

Os dados do Eurostat são claros, não deixam margens de dúvidas. Em 2006, apenas 46,8% da riqueza criada em Portugal revertia para os trabalhadores que representavam cerca de 84% da população empregada; em 2011, tinha diminuído para 46,3%, e no fim do governo de Passos Coelho / Paulo Portas / troika” tinha-se reduzido para 43,7%, tendo subido em 2017 para 44,3% mas continuando a ser inferior à média da Zona Euro que, em 2017, era 47,5%.

Mas o que os trabalhadores levam para suas casas, que são os “Ordenados e salários”, é muito menos. O gráfico 2 mostra a variação da percentagem que os “Ordenados e salários” representaram em Portugal num período de 20 anos (1996 a 2016).

Gráfico 2 – Percentagem que “ordenados e salários representam do PIB em Portugal

Em 1996, antes do euro, 38,2% da riqueza criada no país (PIB) revertia para os trabalhadores sob a forma de “Ordenados e salários”; em 2002, ano em que efectivamente o euro começou a circular no nosso país, correspondia a 38,4%; a partir desse ano regista-se uma descida continua atingindo o seu valor mínimo em 2015 – 34,1% do PIB – tendo aumentado para 34,5% em 2016, ultimo ano em que o INE disponibilizou dados sobre “Ordenados e salários”.

E como se sabe, os “Ordenados e salários” são ainda sujeitos a descontos para a Segurança Social e CGA, e para o IRS. O que fica é ainda menos que os 34,5% do PIB. E tenha presente que os trabalhadores representam 84% da população empregada, mas revertendo para eles uma parcela final muito pequena da riqueza criada por eles. Os resultados da introdução do euro em Portugal não são brilhantes como os mostram os dados divulgados pelo Eurostat e pelo INE, contrariamente ao que firmou o ministro Mário Centeno de que o “euro devia ser um instrumento de prosperidade”.

Esta desigualdade na repartição da riqueza criada no nosso país foi durante vários anos disfarçada através de um enorme crescimento do crédito fácil concedido aos particulares, a um juro baixo, criando a ilusão de uma falsa riqueza e de um falso poder de compra. O gráfico 3, retirado do Boletim Económico de Dezembro de 2018 do Banco de Portugal, dá bem a ideia da enorme riqueza fictícia das famílias criada pelo crédito.

Gráfico 3 – Endividamento das famílias: instrumento utilizado para criar um falso poder de compra e paralisar a luta dos trabalhadores por uma melhor repartição do PIB Fonte: Boletim Económico – Dez.2018 – Banco de Portugal

Entre 1999 e 2009, mas particularmente após a entrada na Zona Euro, a divida dos particulares à banca explodiu, passando de 73% para cerca de 115% do Rendimento Disponível. Em euros, a divida das famílias, entre 1999 e 2009, subiu de cerca de 88.000 milhões € para cerca de 195.000 milhões € (+ 107.000 milhões €).

Tal como aconteceu em outros países, também em Portugal o credito fácil foi um instrumento utilizado pelo poder económico e pelo poder politico dominante para dominar e desmobilizar os trabalhadores da luta por uma melhor repartição da riqueza criada por eles, pois funcionou como um garrote utilizado para paralisar os trabalhadores (não lutavam por uma melhor distribuição da riqueza, por salários dignos, para não correrem o risco de não ter no fim de cada mês o dinheiro indispensável para pagar os juros e o capital do credito à habitação e para compra do carro, pois caso contrário, podiam perder a casa viviam do carro que utilizavam ).A divida funcionou como uma ameaça indirecta constante que paralisava e iludia muitos trabalhadores.

Com a crise, e com o travão posto à concessão de crédito, o crédito às famílias deixou de crescer, diminuindo bastante como mostram os dados do gráfico anterior, e a ilusão de poder de compra fictício desmoronou-se e tornaram-se claras as consequências da desigualdade crescente da riqueza criada anualmente no país. Agora é muito mais difícil iludir a insuficiência dos salários, e as graves injustiças sociais existentes, de que é também prova a existência de mais de 1,7 milhões de portugueses a viverem abaixo do limiar da pobreza como o INE revelou recentemente. E a situação ainda poderá ser mais grave para as famílias se as taxas de juro do crédito à habitação já concedido, com as quais centenas de milhares de portugueses adquiriram a sua habitação, aumentarem o que desequilibrará ainda mais os orçamentos familiares. É urgente fazer uma melhor repartição da riqueza criada no país com salários e pensões mais dignos.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-agravamento-da-desigualdade/

Oxfam: 26 super-ricos possuem a mesma riqueza de 3,8 bilhões de pessoas

Mendigo na rua
© Sputnik / Valeriy Melnikov

O fosso entre os super-ricos e o resto do mundo nunca foi tão grande como hoje, com 26 indivíduos possuindo a mesma quantidade de riqueza que 3,8 bilhões de pessoas menos privilegiadas, informou a organização Oxfam em um novo relatório anual.

O novo relatório, intitulado "Bem Público ou Riqueza Privada", lança luz sobre a contínua acumulação de riqueza pelos mais ricos, assim como a tendência inversa para a metade mais pobre da população, que cresceu 11% em todo o planeta no ano passado.

Durante o mesmo período, os ativos dos que ocupavam o topo da pirâmide de riqueza, os bilionários, dispararam, aumentando em US$ 900 bilhões em 2018, ou em impressionantes US$ 2,5 bilhões por dia. Entre 2017 e 2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias, diz o relatório.


Em comparação com o ano anterior, quando 43 pessoas possuíam o mesmo que a metade mais pobre do mundo, em 2018 foram necessários apenas 26 bilionários para igualar a riqueza de 3,8 bilhões de pessoas.

Em suma, o mundo financeiro se recuperou totalmente da devastadora crise econômica de 2008, com o número de bilionários quase dobrando desde então, segundo o levantamento.

A Oxfam publicou seu relatório anual nesta segunda-feira, antes do Fórum Econômico Mundial (FEM) em Davos, conhecido como um clube exclusivo para convidados de super-ricos e poderosos, famoso por festas luxuosas ocasionalmente feitas pelos participantes.

A instituição de caridade argumentou que a única maneira viável de combater a crescente desigualdade é aumentar os impostos para os ricos. O documento diz que aumentar a carga tributária no primeiro por cento em apenas meio por cento cobriria os custos educacionais de 262 milhões de crianças e forneceria assistência médica para salvar a vida de 3,3 milhões de pessoas.

Alguns bilionários se envolvem em filantropia e trabalho de caridade — um exemplo é Bill Gates, que doa dinheiro na esperança de erradicar a pobreza — outros parecem assumir pouca responsabilidade pelo futuro cada vez mais alarmante do mundo. O relatório da Oxfam baseia-se no CEO da Amazon, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 112 bilhões, que disse não ver melhor maneira de se desfazer de sua tremenda riqueza do que financiar viagens espaciais.

Embora sua admissão possa ter animado os entusiastas do espaço, também provocou indignação, reforçando a necessidade de mais impostos para os ricos.

A Oxfam diz que a impressão de que o 1% mais rico não devolve o suficiente à comunidade é justificada, já que, de fato, eles estão pagando cada vez menos.

"Nos países ricos, a taxa média de imposto de renda caiu de 62% em 1970 para 38% em 2013", pondera o relatório, enquanto nos países em desenvolvimento a média é de 28%.


Outro problema é a camada super-rica que evita pagar impostos, o que custa aos governos cerca de US$ 7,6 trilhões. A crescente desigualdade de renda afeta particularmente as mulheres, que ganham 23% menos que os homens no mundo, de acordo com o relatório.

"As pessoas em todo o mundo estão zangadas e frustradas. Os governos devem agora promover mudanças reais, garantindo que corporações e indivíduos ricos paguem sua parte justa de impostos e invistam esse dinheiro em saúde e educação gratuitas que atendam às necessidades de todos", declarou Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam International.

"O tamanho da sua conta bancária não deve ditar quantos anos seus filhos passam na escola ou por quanto tempo você mora — mas essa é a realidade em muitos países em todo o mundo", acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019012113150037-oxfam-relatorio-pobreza/

Lutas em tempos financeiros

Os regimes opressivos escondem as desigualdades económicas com pão e circo. Os EUA fazem-no com uma mera ideia: não há classes. Isto explica a auto-imagem nacional enraizada da mobilidade social, que os dados impertinentes tendem a refutar. Uma elite não precisa de se definir pelo sotaque ou pelo sangue para ser tão ossificada como a aristocracia do Velho Mundo.   Um dos principais comentadores políticos do Financial Times recomenda a luta de classes como alternativa à infinita fragmentação identitária norte-americana, vejam lá onde isto chegou. Lembrei-me de uma uma velha intuição da economia política radical: as descriminações raciais ou de género, por exemplo, são uma forma de o capitalismo dividir as classes subalternas para reinar.  Na realidade, as lutas de classes nunca cessaram nos EUA. Afinal de contas, o bilionário Warren Buffett explicou as coisas de forma clara: “a luta de classes existe e a minha classe está a ganhá-la”. E daí as desigualdades económicas cavadas, só com precedentes nos anos 20. Como Sanders e outros socialistas norte-americanos sabem, a luta dos de baixo contra a elite económica é a melhor forma de criar um “nós” maioritário contra um “eles” minoritário que pode congregar. Como dizia Ernesto Laclau nos anos setenta, o socialismo é a forma mais potente e acabada de populismo. E eu conheço um velho país, ou aquilo a que por hábito ainda chamamos de país, brutalmente desigual e onde as classes e as suas lutas, o povo e os seus combates, também não existem…

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A liberdade de escolha e a dignidade da pessoa humana

paulo trigo pereira 02Autonomia e liberdade de escolha, no público ou no privado, pressupõem níveis de instrução, de rendimento, de saúde, de liberdades cívicas e políticas adequadas

Paulo Trigo Pereira

Professor do ISEG/ULisboa 

6 de Agosto de 2015 in 'Público'

  1. As propostas de políticas públicas diferenciadas derivam de opções ideológicas distintas. Para perceber as primeiras, as reveladas nos programas e as latentes, é preciso compreender o espaço ideológico. Há os que se autoidentificam como de direita, outros de esquerda, outros que, ou por convicção, ou na ânsia de parecer modernos e de ganhar alguns votos dos descrentes nos políticos “tradicionais”, dizem que essa distinção não faz sentido.

Faz sentido, mas não é óbvia e não esgota as clivagens do espaço político. A distinção não deriva de nenhuma superioridade moral, ética, técnica ou de qualquer outra da esquerda sobre a direita (ou vice-versa). Certa esquerda tem advogado uma superioridade moral (vejam-se alguns clássicos do socialismo ou, entre nós, o livro de Álvaro Cunhal A superioridade moral dos comunistas) enquanto a direita advoga a superioridade técnica, de uma maior capacidade de gestão e como hipotético corolário, da capacidade de governação. Está por demonstrar  a maior capacidade da direita para gerir. Veja-se o caso da gestão do grupo Espírito Santo, como exemplo. Mas mesmo que em média, tal fosse verdadeiro, não constituiria um argumento para a maior capacidade de governação (no campo técnico) por várias razões. A primeira é que os objetivos da gestão no sector privado (maximizar lucros ou vendas) são diferentes dos do sector público (serviço público), a segunda é que a natureza da competição no privado é diferente da do público (como veremos), a terceira é que, do ponto de vista do cidadão, o que interessa não são apenas os ganhos de eficiência na produção de bens e serviços de interesse público (produzidos no público, no privado ou no terceiro sector), mas a forma como esses ganhos se repercutem no esforço fiscal do contribuinte ou na tarifa paga pelo serviço. De que nos vale que uma empresa privada, a quem foi concessionado um serviço de abastecimento de água, seja mais eficiente do que uma pública se os ganhos de eficiência se traduzem apenas num aumento dos lucros e não numa repercussão parcial desses ganhos de eficiência na descida da tarifa paga pelos consumidores?

2. Clarificado o campo em que não deve ser colocado o debate ideológico, centremo-nos no essencial a partir de dois conceitos fundamentais: liberdade de escolha e dignidade da pessoa humana. Não é por acaso que a expressão “liberdade de escolha” aparece dez vezes no programa eleitoral da coligação PSD-CDS e apenas uma no do PS. Ali, surge associada às políticas públicas essenciais: na Segurança Social, na educação e na saúde. Há três níveis distintos em que “liberdade de escolha” deve ser discutida. O valor do conceito em si, a possibilidade técnica de o implementar no sector público, e o das consequências práticas. O argumento conservador segue uma teoria da defesa da justeza da distribuição inicial dos direitos de propriedade, numa dada sociedade, e da sua redistribuição. Aqui o velho libertário Nozick continua a servir de inspiração filosófica. O paradigma é obviamente o indivíduo e o mercado competitivo onde a liberdade de escolha é máxima. Dada a natureza  das trocas ser voluntária, desde que o que cada indivíduo possui não tenha sido obtido por roubo, violência, extorsão, corrupção, etc. o que obterá do funcionamento do mercado é também considerado justo. Desigualdades que resultem do funcionamento dos mercados são plenamente justas e não deverão ser corrigidas. Neste âmbito, a dimensão do Estado, que obtém os seus recursos através da tributação,  deve ser mínima, pois está, através dos impostos, a diminuir essa liberdade de escolha. O Estado deverá assegurar apenas as funções de soberania essenciais (defesa nacional, justiça, infraestruturas) sem as quais os próprios mercados não poderiam florescer. Quanto maior o peso do Estado menor a liberdade, entendida no seu sentido negativo (Isaiah Berlin), pois maior a coerção sobre o indivíduo. Assim argumentam os autores neoliberais de direita.  

3. A tentativa de transposição da “liberdade de escolha” dos bens e mercados privados para os bens que devem ser financiados publicamente, quer pela sua natureza (bens públicos), quer porque embora sendo bens mistos (educação, saúde), são considerados meritórios do ponto de vista constitucional, levanta vários problemas práticos e éticos que parecem ser ignorados pelos defensores da liberdade de escolha no sector público. Antes do mais, os equipamentos associados ao fornecimento destes serviços (tribunais, hospitais, sistemas de abastecimento de água e escolas) têm uma localização territorial e apresentam algumas economias de escala, sobretudo os três primeiros. Estas duas características fazem com que, quer por razões de eficiência produtiva e de minimização de custos de transporte, quer por razões de equidade (bens de mérito) não deva haver competição no sentido em que o termo é usado no privado. No mercado de bens privados as empresas que não satisfazem os consumidores, desaparecem do mercado. No caso dos bens públicos, ou mistos, mas em que se considera que todos deverão ter semelhantes condições de acesso, de qualidade e de sucesso (educação), o sistema de incentivos tem de ser diferente do sector privado. Desde logo porque as entidades mais ineficientes (que as há) nunca poderão fechar desde que a procura seja relevante. Fecha-se um hospital público porque é ineficiente? Fecha-se uma escola porque a taxa de insucesso escolar é elevada, mesmo controlando pelas características socioeconómicas dos pais? Obviamente que a resposta, nos dois casos, é não. O que se deverá fazer é aumentar a qualidade na prestação de serviços de saúde e de educação nos estabelecimentos ineficientes, para não privar aqueles que, ou por não terem rendimentos, ou por não terem conhecimentos, não conseguiriam exercer essa “liberdade de escolha”. Isto significa que os incentivos para os ganhos de eficiência no sector público devem existir, mas não podem ser baseados na liberdade de escolha, do lado dos utentes, nem no risco de falência, do lado das entidades prestadoras de serviços. 

4. Para além da questão da não praticabilidade da liberdade de escolha em muitas situações, existe a questão das consequências dessa liberdade quando tal for possível. A principal consequência desse acréscimo de liberdade é o aumento das desigualdades, como bem foi já argumentado aqui por Ana Rita Ferreira (PÚBLICO de 06/08/15). As desigualdades sociais expressivas, a pobreza, a exclusão social atentam contra o princípio da dignidade da pessoa humana, cuja noção intuitiva é imemorial, mas que teve uma expressão maior em Kant, e está consagrado na nossa Constituição, logo no artigo primeiro. Este princípio está, para pessoas de esquerda, expresso nos direitos  de cidadania e traduz-se em conceitos fundamentais como os de liberdades positivas (Berlin), bens primários (John Rawls) ou capacidades básicas (Amartya Sen). Na sua diversidade, remetem para um conceito de liberdade diferente, e que está associado à capacidade individual de ter autonomia para desenvolver os planos de vida que cada um considera mais adequados para si próprio. Nesta perspetiva, o Estado é considerado como um instrumento para, através das políticas de redistribuição de rendimento e de promoção de igualdade de oportunidades, alargar a esfera de liberdade e autonomia de todos, mas em particular daqueles que, na sua ausência, não teriam condições para  a exercer. Autonomia e liberdade de escolha, no público ou no privado, pressupõem níveis de instrução, de rendimento, de saúde, de liberdades cívicas e políticas adequadas.

Nem o Estado mínimo, nem a “liberdade de escolha” na privatização parcial da Segurança Social, e proposta na educação ou na saúde pela coligação PSD-CDS, asseguram níveis adequados de dignidade da pessoa humana.

O ultra-capitalismo controlará a longevidade?

Avanços médicos prometem ampliar em décadas a expectativa de vida humana. Mas – sinal dos tempos – pode ser apenas para um punhado de super-ricos. Quais as consequências econômicas e éticas?
Jessica Powel | Outras Palavras | Tradução: Felipe Calabrez
Você já deve ter lido sobre os bilionários da tecnologia que estão apoiando pesquisas ambiciosas sobre a longevidade. Entre eles estão Larry Ellison, que investiu centenas de milhões de dólares em pesquisa anti-envelhecimento; Larry Page, da Alphabet, que colocou um bilhão de dólares na Calico, uma misteriosa empresa de extensão de vida. E há o fundador do PayPal e o senhor das sombras de todos os propósitos, Peter Thiel, que está sugando o sangue do pescoço de… bem, espere, não está muito claro o que Peter Thiel está fazendo. Mas ele demonstrou interesse na parabiose, que envolve a obtenção de transfusões de sangue de jovens.
O interesse da indústria de tecnologia na imortalidade não é surpreendente: conquistar a morte seria o último santo graal a romper – e uma nova e fabulosa oportunidade de mercado. Embora neste caso o interesse provavelmente não seja apenas intelectual e capitalista. Acessar a eternidade (ou algo próximo disso) seria o ato mais extremo de auto-exaltação: prova eterna do gênio e superioridade de alguém.
É por isso que muitos dos esforços empregados na busca da vida eterna têm se concentrado compreensivelmente na ciência e nas personalidades por trás dela – o vasto financiamento proveniente de pessoas que construíram suas fortunas fazendo software e que parecem acreditar que o envelhecimento é um código que pode ser quebrado.
No entanto, pouco tem sido escrito sobre as consequências que poderiam surgir se esses bilionários – vamos chamá-los de Centenários — conseguissem empurrar a si mesmos, e seus amigos ricos, para o clube de três dígitos.
O contexto é: as estimativas atuais preveem que a expectativa de vida de alguém nascido em 2050 estará em torno dos 90 anos – um avanço pequeno, mas importante, devido ao progresso gradual na pesquisa e combate a doenças específicas. Mas os que buscam projetos de longevidade muito mais ambiciosos dizem que podemos ir bem além. Alguns cientistas duvidam que haja um limite absoluto para o corpo humano e outros afirmam que este limite pode se estender até os 1000 anos (neste caso, ao fim, chamaremos os Centenários de Milenários)…
Em países como os Estados Unidos, já existe uma diferença de vida de 20 anos entre diferentes grupos socioeconômicos, com uma idade média de 66 anos em algumas das comunidades mais pobres, em comparação com 87 em áreas mais ricas1. É possível imaginar que, até o final do século, o abismo entre as expectativas de vida possa aumentar ainda mais, já que os caríssimos avanços em biotecnologia, nanotecnologia, robótica e outros estão disponíveis apenas para os verdadeiramente ricos.
Sabemos há muito que a expectativa de vida não é apenas a combinação de bons genes e vida saudável, mas que riqueza e meio ambiente também desempenham papéis importantes. A diferença é que, no futuro, mais ainda do que o presente, uma vida mais longa pode ser algo que se pode adquirir imediatamente. E o que pode ser adquirido por uma pessoa é muitas vezes cobiçado por muitos; o que é cobiçado por muitos em geral se torna uma grande oportunidade de mercado.
Uma oportunidade de mercado, no setor de tecnologia, é frequentemente expressa como “democratização”. Assim como o Vale do Silício democratizou publicações, comunicações, informações e pagamentos, agora os Centenários de tecnologia estariam se preparando para ajudar a “democratizar a longevidade”.
Como quer que seja chamado — longevidade, extensão de vida, “melhor envelhecimento” — o campo provavelmente seguirá os passos da blockchain, realidade virtual e inteligência artificial, repleto de avanços legitimamente inspiradores, bem como de alegações ilusórias. Ainda mais do que hoje, provavelmente veremos substâncias bioativas e suplementos que prometem melhorar a vida em nossos alimentos e bebidas, além de gadgets e aplicativos que estimulam, lembram ou até mesmo exigem certas modificações no estilo de vida para manter o usuário saudável. Sob a promessa de vencer a morte, nossos corpos poderão ser medidos, monitorados e manipulados a cada momento, numa extensão muito mais impressionante do que um Fitbit primitivo dizendo quantos passos você dá durante o dia.
Aos poucos, viveremos todos um pouco mais — não de forma exponencial, mas gradual – com as migalhas das conquistas obtidas pelos Centenários. E você pode apostar: o mesmo setor que quer nos ajudar a decifrar a imortalidade terá muitos serviços suplementares para nos vender, enquanto nos dirigimos suavemente ao túmulo. É apenas o mais leve ato de futurismo imaginar o setor de tecnologia trazendo fármacos entregues por drone, cadeiras de rodas terrestres auto pilotadas e dentaduras que analisam a composição da saliva para alertar, a nós e a nossos médicos robôs, sobre qualquer mudança preocupante em nossa vida. Podemos esperar algum sinal desses serviços bem antes do meio deste século.
É claro, há muito se afirma que o envelhecimento da população exercerá enorme pressão sobrea infra-estrutura social. Basta pensar nas implicações para o meio ambiente, transporte, assistência médica e a quantidade de espaço alocado para reclamações longas na seção Cartas ao Editor do único jornal restante. Mas menos atenção tem sido dada à desigualdade de idade. Embora qualquer discussão sobre o futuro esteja fadada a ser especulativa, a desigualdade potencial de nossas datas de morte merece mais atenção.
Em primeiro lugar, a desigualdade de renda provavelmente piorará. Isso porque a morte tem sido um grande redistribuidor de riqueza. Sem a morte, para efetivar um pesado imposto sobre herança, os Centenários concentrarão uma fatia ainda maior do dinheiro do mundo. Você julga que a distribuição de riqueza é desigual hoje em dia? Pense sobre como seria quando os ricos morressem muito mais lentamente do que o resto da população e quando não houvesse imposto sobre o capital para impedi-los de acumular mais.
O poder é um corolário da riqueza. É derivado de quanto capital você controla e dos relacionamentos que você constrói com outras pessoas ricas. Em um futuro de grande desigualdade de renda, seria possível esperar uma concentração muito maior de poder nas mesmas mãos (antigas) de antes. Isso pode ser uma benção para o financiamento estatal de rampas de acesso para cadeiras de rodas, mas um mar de líderes ricos e de pele enrugada dificilmente representará a população total ou se alinhará com seus interesses. O que acontece quando um presidente norte-americano de 130 anos determina o orçamento de educação para os alunos que não se aposentam até um século depois?
Isso pode soar como o prelúdio de uma revolta do tipo “Os filhos do Comum contra os Centenários”, mas o aspecto insidioso da desigualdade de idade — como o daa maioria das desigualdades — é que nós a apoiamos tanto quanto a criticamos. Fazemos o possível para melhorar nossa posição pessoal, enquanto simultaneamente tentamos lutar porum princípio maior. E é muito possível que nos lamentemos sobre a desigualdade, porém sejamos impotentes para revertê-la, porque estaremos comprando todos os Kylie Kollagen Kits que pudermos ,e as pessoas com poder de enfrentar a situação serão as mesmas ameaçadas pela revolta.
De todos os bilionários que nos governaram ao longo da história recente, são os bilionários da tecnologia, em particular, que não professam nada além de boas intenções quando falam sobre os problemas que eles próprios criaram. Pode-se imaginar os Centenários da tecnologia — conhecidos por seus fortes valores e declarações de missão — fazendo declarações grandiosas sobre o quão profundamente entristecidos estão com a disparidade de idade. Eles podem fazer promessas para combatê-la; eles vão encomendar pesquisas para explorar suas causas. Talvez eles até doem desodorante de célula-tronco ou o Neural Lace de Elon Musk em cidades de baixa renda.
De fato, podemos imaginar que um período marcado por grande desigualdade de idade, riqueza e poder também será marcado por grandes ações na filantropia, permitindo que os Centenários da tecnologia apresentem-se como forças do Bem. É claro que grande parte de suas doações pode estar concentrada em aliviar as pressões que seus próprios negócios de saúde e extensão de vida criaram. As comunidades de aposentados e os centros de cuidados paliativos poderiam proliferar em número, com o nome do doador do Centenário estampado na entrada, servindo como um lembrete constante de sua generosidade. Lembre-se de tudo isso em seus momentos finais, enquanto eles te levam para o Ambulance Airtube de Travis Kalanick [o fundador do Uber] e você vê sua cidade – agora conhecida como Zucker Berg — zunindo adiante, a cara enrugada de homens brancos e enrugados olhando para baixo com benevolência. Lembre-se de que foi você quem comprou os suplementos e os tratamentos; foi você quem devorou imagens dos rostos de plástico dos Centenários e corpos alegres de 120 anos de idade, pulando em um campo de golfe.
Foi você quem quis viver para sempre. Os Centanários estavam lá para tornar tudo isso possível. Tudo o que aconteceu depois estava fora do controle deles. Um “efeito colateral”, se quiser, da imortalidade.
1Sem falar no Brasil: o Mapa da Desigualdade revela que num único município (São Paulo), a diferença de expectativa de vida chega a 23,7 anos – quando se compara, por exemplo, os elegantes Jardins com o singelo Jardim Ângela [Nota da Tradução].
Na imagem: Vitalik Buterin, bilionário fundador do Ethereum e estimulador da pesquisa de longeividade ampliada, retratado em paródia de imagem do Deus cristão, com uma Lamborghini em mãos
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Explicar a igualdade aos 1% mais ricos do Mundo

O Primeiro Fórum Mundial do Pensamento Crítico, realizado em Buenos Aires pela CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais) de 19 a 21 do mês passado, fez-me um desafio surpreendente: explicar a igualdade aos 1% mais ricos do mundo.

Fazer tal explicação perante oito mil pessoas é quase uma provocação. Mas não fugi ao desafio. Como tenho escrito, a fórmula dos 1% contra os 99% não foi inventada pelo movimento dos indignados de 2011. Está nas páginas finais do diário de Leon Tolstoi, de 1910. A voga desta fórmula está menos na figura de Tolstoi do que nas condições atuais do capitalismo mundial, atravessado por desigualdades entre ricos e pobres que têm muitas semelhanças com as de há cem anos. Perante o desafio, decidi começar por desconstruir a pergunta. Era uma pergunta velha, uma pergunta típica do século XX. Em primeiro lugar, no século XXI e depois de todas as vitórias dos movimentos feministas e anti-racistas, seria mais correto explicar não a igualdade, mas a diferença. A igualdade não existe sem ausência de discriminação, ou seja, sem o reconhecimento de diferenças sem hierarquias entre elas (homem/mulher, branco/negro, heterossexual/homossexual, religioso/ateu). Neste ano em que celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos recordo a formulação que tenho dado a este tema: temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.

Em segundo lugar, a pergunta visava explicar aos 1% mais ricos. Não faria mais sentido, ou não seria mais útil, explicar a igualdade aos 99% mais pobres? Explicar a igualdade aos 1% é como explicar ao Diabo que Deus é bom. Se eu o tentar fazer, talvez não me entendam; e se me entenderem, talvez me expulsem ou proíbam de escrever sobre o tema. Recordei a propósito esse sinistro movimento de extrema direita educacional no Brasil, conhecido pelo nome ardiloso de Escola Sem Partido, que nos seus últimos documentos inclui entre os autores proibidos: Karl Marx, Paulo Freire, Milton Santos, José Saramago, António Gramsci. Lembrei, a propósito, a situação de antigos estudantes meus, hoje professores nas universidades brasileiras, que se sentem perseguidos e monitorados (senão mesmo filmados) nas suas aulas de sociologia política e direitos humanos, suspeitos de defender “ideias vermelhas” ou “ideologia de genero”, a mais recente inovação conceptual das cloacas autoritárias e neofascistas.

Perguntei-me, pois, se não seria mais útil e adequado explicar a igualdade aos 99%. Mas aí auto-suspendi-me na minha reflexão: seria afinal necessária tal explicação? Não saberão eles melhor que ninguém, e com a prova de todas as rugas da vida, o que é igualdade e desigualdade? Precisarão de alguém que lhas explique? No domingo anterior tinha passado uma boa parte do dia num dos bairros mais pobres e mais resistentes de Buenos Aires, o bairro Zavaleta, onde um grupo de ativistas produz cooperativamente uma revista, a Garganta Poderosa, que vai sendo conhecida em todos os bairros pobres do continente. Aí pude verificar como para eles e elas a igualdade se explica facilmente pela desigualdade que sofrem nos corpos e na vida todos os dias. Acompanhado à distância por militares (não polícia civil) que controlam a comunidade, pude ver que não é igualdade quando umas senhoras voluntárias se organizam para receber doações de produtos alimentares e criar um restaurante comunitário onde os jovens comem uma boa refeição por dia. Que não é igualdade quando quase todos os habitantes têm um jovem parente, amigo, filho ou neto assassinado pela polícia. Que não é igualdade quando as inundações das últimas semanas impedem as cloacas improvisadas de aguentar e as crianças acordem com a cama cheia de merda. Que não é igualdade se alguém em coma diabético morre no transporte em braços solidários pela rua estreita até chegar ao local onde a ambulância o pode recolher. Em Zavaleta, a igualdade explica-se bem pela desigualdade, pela violência policial, pela desvalorização da vida, pela degradação ontológica de quem lá vive.

Mas mesmo admitindo que a explicação tem sentido, a formulação do convite padece ainda de um outro erro, um erro epistemológico. Pressupõe que há um conhecimento específico e o único válido para explicar a igualdade, isto é, o conhecimento científico. Ora tal não é verdade e, neste caso concreto, é particularmente importante que isso se esclareça. A filosofia eurocêntrica – e as epistemologias do Norte que dela nasceram e deram origem à ciência moderna – assenta na contradição de defender em abstrato a igualdade universal e ao mesmo tempo justificar que parte da humanidade não é plenamente humana e não é, por isso, abrangida pelo conceito de igualdade universal, seja ela constituída por escravos, mulheres, povos indígenas, povos afrodescendentes, trabalhadores sem direitos, castas inferiores. Nem é preciso mencionar que John Locke, grande patrono da igualdade, foi dono de escravos, ou que a eugenia, “a ciência mais popular” do início do século XX, demonstrava cientificamente a inferioridade dos negros, uma ciência que Hitler estudou atentamente na prisão ao preparar Mein Kampf. Por isso, confiar em que as ciências nascidas das epistemologias do Norte expliquem adequadamente a igualdade é o mesmo que escolher o lobo para guardar as ovelhas. Uma metáfora menos chocante será a de pensar que a ajuda ao desenvolvimento ajuda de fato os países a desenvolver-se. Ao contrário do que promete, ela contribui, não para desenvolver os países, mas para os manter subdesenvolvidos e dependentes dos mais desenvolvidos.

As epistemologias do Sul que tenho vindo a defender partem dos conhecimentos nascidos nas lutas daqueles e daquelas que viveram e vivem a desigualdade e a discriminação, e resistem contra elas. Estes conhecimentos permitem tratar a igualdade como denúncia das desigualdades que oculta ou considera irrelevantes para a contradizerem. Permitem também tratá-la como instrumento de luta contra a desigualdade e a discriminação. Apenas para dar um exemplo: as epistemologias do Sul permitem reconceituar o capital financeiro global, o verdadeiro motor da extrema desigualdade entre pobres e ricos e entre países ricos e países pobres, como uma nova forma de crime organizado. Trata-se de um crime contra a propriedade dos trabalhadores e das classes empobrecidas, constituído por vários crimes-satélites, sejam eles, o estelionato, o abuso de poder, a corrupção. Só para dar um exemplo extremo: um trabalhador no Brasil que use o seu cartão para comprar a crédito chega a pagar uma taxa de juros de 326%! Como diz o economista Ladislau Dowbor, o crédito no Brasil não é estímulo, é extorsão. A sua natureza criminosa é o que explica o exército de advogados ao seu serviço para se defender das múltiplas violações das leis e para mudar as leis quando tal seja necessário. Só assim se explica que no Brasil, segundo dados da Oxfam, 6 pessoas tenham mais patrimônio do que a metade mais pobre da população, e que os 5% mais ricos tenham mais do que os 95% restantes.

Mas o capital financeiro global, na sua atual configuração, não é apenas um crime contra a propriedade dos mais pobres, é também um crime contra a vida e contra o meio ambiente. Dados de várias agências internacionais, incluindo a UNICEF, revelam que as políticas neoliberais de ajustamento estrutural ou de austeridade têm conduzido à diminuição da esperança de vida na África e à morte por subnutrição ou doenças curáveis de milhões de crianças. As mesmas políticas tem vindo a exercer uma pressão enorme sobre os recursos naturais, exigindo a sua exploração cada vez mais intensiva, com a consequente expulsão das populações camponesas e indígenas, a contaminação das águas e a desertificação dos territórios. Além disso, as poucas regras de proteção ambiental que tinham sido conquistadas nas últimas décadas estão a ser violadas ou anuladas pelos governos de direita. O exemplo mais grotesco é hoje Donald Trump; amanhã será certamente Jair Bolsonaro. Com isto, torna-se muito provável que os cenários mais pessimistas propostos pela ONU possam vir a concretizar-se.

À luz das epistemologias do Sul, os crimes cometidos pelo capital financeiro global serão uns dos principais crimes de lesa-humanidade do futuro. Junto com eles e articulados com eles estarão os crimes ambientais. No ano em que celebramos os 70 anos da Declaração Universal, recomendo que comecemos a pensar na revisão da sua redação (e num modo totalmente novo de participação na redação) para dar conta da nova criminalidade que nos próximos 70 anos continuará a impedir a humanidade de ser plenamente humana.


por Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo português

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/explicar-a-igualdade-aos-1-mais-ricos-do-mundo/

BOM NATAL? FELIZ NATAL? PARA QUEM?

A todos um bom natal... A todos? A quem? A todos? A todos? Deixem-se de hipocrisias políticas, cristãs ou de qualquer outra religião porque não há bons dias para todos nem bom natal para todos. A responsabilidade não é só dos sistemas políticos nem religiosos mas também da carneirada que vai na "leva" das doutrinas de ignorar os outros de tão ocupados que levamos o tempo a olhar para os nossos umbigos, a alinhar em democracias viciadas, fraudulentas, em empregos de duração periclitante, instáveis, com remunerações que calculadamente servem para manter amedrontados os que trabalham no limiar da pobreza ou um pouco mais, enquanto os que usufruem dos lucros como esclavagistas da era moderna são cada vez mais ricos à custa da pobreza, da miséria, da fome, da maioria da população mundial.

BOM NATAL? FELIZ NATAL? PARA QUEM?
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Qual é a minha Terra? - Opinião JM - jm-madeira.pt

 

Morre esfaqueado por causa de cerveja Cascais, Alcabideche

(Ao lermos o artigo do escultor Francisco Simões salta-nos à vista a frase em que exemplifica Cascais e Estoril como "novos espaços sociais de luxo" onde deputados da nação são "pomposamente residentes em condomínios fechados".

Na verdade é esta a imagem que uma pequena aristocracia possidente tem procurado projetar de um território que, assumidamente, considera como 'coutada' sua. Como se este concelho se resumisse à Quinta Patino, da Marinha ou a uns tantos outros imobiliários de luxo.

Mas não é assim. Cascais é muito mais do que isso e é, sobretudo, pertença dos milhares de cidadãos que o habitam. Assim estes o queiram.

Comentário à seguinte notícia)

Francisco Simões
Francisco Simões

Este último artigo de 2018, no mês de Dezembro, mês do Natal, do nascimento de Jesus em Belém, lembra-me que ele é conhecido como Jesus de Nazaré ou por Jesus da Galileia, duas terras numa região da antiga Palestina.

Mas nunca é conhecido por Jesus de Jerusalém, sendo, no entanto, esta cidade o lugar mais referenciado na sua biografia. Este exemplo, que todos conhecemos, leva-me a pensar em tantos outros de diversas personalidades, onde nos questionamos quais são as suas terras.

Qual é a terra de Jesus?

Qual é, afinal, a terra de cada um de nós, aquela onde nascemos, ou aquela que depois escolhemos, ou nos calha na sorte da vida, ou ainda a terra que nos adopta?

Sabemos de muita gente que nascendo em locais recônditos do nosso país, surgem como deputados da nação e pomposamente residentes em condomínios fechados, luxuosos, de Cascais, do Estoril ou de Sintra. Não têm terra, são os donos dos novos espaços sociais de luxo. Outros, como Almeida Garrett, que escreveu no prefácio da primeira edição de “O Arco de Sant´Ana”, ter nascido no Porto e sido criado em Gaia.

D. Afonso Henriques, por exemplo, cujo berço se diz ser Guimarães, mas que os investigadores históricos afirmam que o homem é de Viseu.

Luís Vaz de Camões é um dos casos a quem lhes são atribuídas várias terras, várias cidades e vilas e cuja celebração monumental se observa em diversos locais do país, em África, na Índia e até em França. Qual será, verdadeiramente, a sua terra? Será na Ilha onde inventou a Ilha dos Amores? Ou terá ele nascido num amor por essa ilha?

Eça de Queiroz, para uns nasceu na Póvoa de Varzim, mas para outros, em Vila do Conde e outros ainda que o preferem de Aveiro.

O meu Camilo de Castelo Branco, do Amor de Perdição, nascido em Lisboa, é no Porto e no Minho que se instala e reside toda a sua história e todo o seu impulso de grande romancista.

Reparem que, até, Santo António é, para nós, de Lisboa e para os Italianos, de Pádua.

E o Vasco da Gama? Qual é afinal a sua terra, Sines ou Vidigueira?

​Tudo isto para vos dizer: Eu, nasci no Porto Brandão-Almada. Vivi em Paris, Roma, Lisboa, Funchal, Ribeira Brava e Sintra. Mas qual é a minha terra? No fundo do meu coração, eu sou Madeirense, e espero poder viver, o resto da minha vida, nessa ilha da Madeira, nessa ilha dos amores.

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Renda de pobres diminui e de ricos aumenta: Brasil se torna o 9º país mais desigual do mundo

Brasil desigual01.jpgDesigualdade: na zona sul de São Paulo, barracos de Paraisópolis contrastam com edifícios de luxo do Morumbi

Clayton de Souza/Estadão Conteúdo

A redução da desigualdade de renda no Brasil foi interrompida, entre 2016 e 2017, pela primeira vez em 15 anos – um reflexo direto da recente recessão econômica. Divulgados na segunda-feira (26), os dados fazem parte de relatório da organização não governamental Oxfam Brasil. Com isso, o País se tornou o 9º mais desigual do planeta – antes, era o 10º.

“Vivemos uma crise econômica recente muito severa que gerou uma onda de desemprego. Essa onda reduziu a renda geral do Brasil, sobretudo a renda da base da pirâmide social, os primeiros a sofrerem nos tempos de crise”, explicou o autor do estudo, Rafael Georges. “Como efeito, houve aumento na desigualdade da renda do trabalho.”

Segundo Georges, que também coordena campanhas da ONG em território nacional, outras consequências foram o “aumento da pobreza e a estagnação da equiparação entre gêneros, além de recuo na equiparação de negros e brancos”. O estudo “País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras – 2018” está disponível na internet.

Retração da renda dos mais pobres

Os 50% mais pobres da população brasileira sofreram em 2017 uma retração de 3,5% nos rendimentos de trabalho. Dessa forma, a renda média desse grupo foi de R$ 787,69 mensais, menos que um salário mínimo (R$ 937,00 no ano passado).

Na contramão, a faixa dos 10% mais ricos teve crescimento de quase 6% nos mesmos rendimentos. Essa parcela ganhou 9.519,10 por mês, de acordo com o PNAD, o que equivale a pouco mais de 10 salários mínimos.

Aumento da pobreza

O ano passado também teve um registro de aumento da pobreza. O Brasil tinha 15 milhões de pessoas pobres em 2007 (7,2% da população). A quantidade aumentou 11% em relação a 2016, quando havia 13,3 milhões. O critério para definição de “pobre” é do Banco Mundial. Entra nessa categoria quem ganha até US$ 1,90 por dia – cerca de R$ 7.

A distância entre os mais ricos e os mais pobres vinha diminuindo desde 2002 no Brasil. Segundo Rafael Georges, do ponto de vista estrutural, o País está tendo que aprender a “dura lição” de que conquistas sociais se perdem muito rapidamente. “Em 2017, nós voltamos para os mesmos níveis de 2012 em termos de porcentagem da população na pobreza.”

“Em dois anos, voltamos cinco. Esse movimento nos lembra que é importante adotar medidas estruturais. O Brasil aprendeu a combater a desigualdade por meio do incremento de renda, o que é importante, mas renda não é tudo. É importante garantir infraestrutura social por meio da oferta de serviços de saúde e educação, com aumento de investimentos nessas áreas”, defendeu.

Impostos

Para viabilizar investimentos sociais, o relatório aponta mudanças no sistema tributário. “A questão fiscal é fundamental. Não dá para fazer políticas sociais sem que as contas estejam equilibradas. O que não dá também é deixar de fora da equação os benefícios dos gastos sociais. A questão fiscal não é puramente fiscal, ela é social acima de tudo.”

Entre as medidas apontada pela Oxfam estão o aumento real do salário mínimo, o estabelecimento de metas para o fim da discriminação salarial em função de raça e gênero e a revogação do teto de gastos. Mas a principal recomendação é a redução da carga tributária indireta, que pesa especialmente sobre os mais pobres.

“O Brasil nunca seguiu o princípio constitucional de que a capacidade contributiva precisa ser respeitada. O conjunto da obra do sistema tributário nacional é regressivo, o que é inconstitucional. Existe necessidade urgente que o Brasil repense o sistema tributário e redistribua a conta, reduzindo o peso da tributação indireta sobre bens e serviços e aumentando a tributação sobre renda individual e patrimônio”, explicou Georges.

Entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil é o que menos tributa renda e patrimônio. Por aqui, a cada R$ 1 arrecadado, R$ 0,22 vêm de impostos sobre essas categorias. A média mundial é de R$ 0,40 para cada R$ 1. Nos Estados Unidos, 59,4% da arrecadação vêm de impostos sobre renda e patrimônio da população.

*Com informações da Agência Brasil

Costa e a política líquida

«Em finais da década de 90, o sociólogo Zygmunt Bauman cunhou a definição "modernidade líquida" para definir a sociedade que desfilava defronte dos nossos olhos. Vivemos agora nela. É um tempo de valores líquidos, flexíveis, volúveis e instáveis. Nada que admire os portugueses: quase sempre viveram em tempos assim. Instabilidade e capacidade de sobrevivência são os seus referentes. Em cada português há um Urtigão dos desenhos animados da Disney. Na política há uma dieta diária, líquida, que serve estes dias. Donald Trump é o corolário desta modernidade líquida: os seus tweets, ziguezagueantes, criam a novidade diária. E fazem esquecer a do dia anterior. Em Portugal, seria difícil encontrar tempos políticos mais líquidos e menos sólidos do que os actuais. E ainda serão mais em 2019, como anunciou ao povo António Costa. Por trás, a modernidade sólida dos números económicos, que escondem ao pântano da dívida que nos atirará novamente para o buraco se algo externo se produzir, vive-se a liquidez do momento. Criou-se o paradoxo perfeito: a oposição pede mais gastos orçamentais. Não era disso que se costumava acusar o Governo em funções? É esta a nossa política: água da torneira para convencer os portugueses.
Por trás do aparente jogo de água com gás reforçado que vai ser a maioria pós-eleições de 2019 há um país frágil, de Tancos a Borba. Mas não só. Eugénio Santos, o dono da Colunex, foi há dias claro sobre o país líquido que temos: "As costureiras em Xangai ganham mais 30% do que as costureiras em Portugal." Mais: "Em países como a Áustria e a Alemanha paga-se três vezes mais a uma empregada de limpeza do que a um engenheiro que se firmou no Técnico em Lisboa." E ainda foi mais mortal: "Andamos embebedados com esta coisa de sermos um país atractivo. Portugal é atractivo porque paga salários do terceiro mundo e se aplicasse a média salarial europeia às empresas portuguesas desapareceriam 70%." Esta é a política que não se discute neste Portugal líquido: hoje há conquilhas, amanhã não sabemos.»
Fernando Sobral
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Desigualdade Crescente: A Raiz do Mal Americano

“Nunca os lucros empresariais superaram a remuneração dos empregados tão claramente e por tanto tempo”, afirma um recente relatório do St. Louis Fred.

Essa ascensão da desigualdade está a desmoronar o pacto social nos USA e a descredibilizar o “sonho americano”. Wall Stret e a Main Street entraram em divergência e o que é bom para as grandes “corporations” deixou de ser bom para os USA. Esta contradição de interesses está a revelar-se a maior ameaça ao desenvolvimento e à segurança dos USA e, sobretudo, à sua liderança global.

USA – O gráfico que explica tudo (e que Clinton e Obama não parecem saber ler… ou talvez nem sequer tenham visto)

Chris Ingraham, no Wonkblog, analisa

“As this chart from the St. Louis Federal Reserve shows, corporate profits and labor income — the total wages and salaries paid to American workers — tracked pretty closely for most of the latter half of the 20th century: In percentage terms, the two rose roughly in tandem from 1947 until about 2003 … But starting in 2003, profits take off, leaving wages in the dust. The Great Recession took a bite out of corporate profits, but since about 2009, profits have been on an unstoppable tear while labor income has plodded along much more slowly. … The American economy has been rewarding owners and shareholders much more richly than workers.

“Never have corporate profits outgrown employee compensation so clearly and for so long,” the St. Louis Federal Reserve writes.

The two lines on the chart essentially represent two different ways of making money in the American economy. Think of it from the perspective of General Motors: The people who work for the company — who do a job to earn a paycheck — are on the blue line. The people who own General Motors, the shareholders and investors who reap the profits, are on the red line.

Between 1947 and 2003, it didn’t matter much which line you were on: You could expect your income to increase at roughly the same rate whether you got your money from working for GM or by owning part of GM. But since the early 2000s it has been a very different story. The American economy has been rewarding owners and shareholders much more richly than workers.

It’s worth noting that this is not exactly a binary proposition, since many employees own stock in companies through vehicles like their retirement accounts. But given that well over 90 percent of the stock market is owned by the richest 20 percent of families, in practical terms the overwhelming majority of returns to the red line are flowing to a small percentage of households.

Another way of looking at the chart: Until about 2003 you could plausibly say that what was good for investors and corporations was also generally good for workers. Post-2003, it’s a lot harder to make that case.

There are a lot of factors driving the divergence. Workers have become much more productive, contributing more and more to companies’ bottom lines, but companies haven’t been sharing those profits with the employees who make them possible. Union membership continues to decline, making it harder for workers to negotiate favorable terms of employment. In an era of rising health-care costs, companies are shifting more and more of that expense to workers.

Think of money the way you think of gravity: Money exerts a gravitational pull on other money — you put $100 in the bank, you end up with $102 at the end of the year. You put $1 million into GM stock first thing this morning, it’s worth $1.08 million by noon. In effect, the fundamental laws of financial gravity have been changing in this country, making it easier for large sums of accumulated wealth to draw even more money to themselves.

But what if you don’t have enough money to kick-start that gravitational process? What if you’re part of the majority of American households that own no stock at all? What do you do when you’re a worker in an economy whose benefits increasingly go to owners?

The diverging trends in the chart above are part of what’s driving this country’s extremely high levels of inequality.”

Exclusivo Tornado / IntelNomics

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https://www.jornaltornado.pt/desigualdade-crescente-a-raiz-do-mal-americano/

88% da diferença salarial entre homens e mulheres não se deve a qualificações

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A fatia esmagadora da diferença salarial entre homens e mulheres não é explicada por fatores como as qualificações ou a formação. A conclusão é da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no seu mais recente estudo sobre os salários à escala global e que este ano inclui um tópico dedicado à desigualdade salarial de género.

De acordo com o estudo hoje conhecido, 88% do fosso salarial que se observa nos países ricos, onde se inclui Portugal, não é explicado pelas qualificações ou pela formação. Ou seja, a explicação que muitos apontam para a diferenciação salarial não se verifica. A organização conclui assim que esta diferença se deve sobretudo ao menor acesso das mulheres a cargos de chefia e a uma desvalorização do trabalho das mulheres. A OIT avaliou os salários em empresas de perfil idêntico mas com predominâncias de género opostas e concluiu que nas empresas em que há mais mulheres os salários são 14,7% inferiores às empresas onde há mais homens.

Em Portugal a discriminação salarial é acentuada mas é sobretudo mais expressiva no setor privado. Enquanto no setor público a diferença salarial entre homens e mulheres se situa nos 13,5%, já no setor privado esta diferença atinge uns alarmantes 23,7%. Dentro do grupo dos países ricos, Portugal é o 5º em que a diferença salarial é mais acentuada no setor privado. Já quando olhamos para a Administração Pública a diferença salarial registada coloca Portugal na segunda metade da tabela.

gpg

 

 

Fonte: OIT

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Portugal | Trabalhar para empobrecer?

Rafael Barbosa* | Jornal de Notícias
Andámos os últimos cinco anos a recuperar o emprego destruído nos cinco anos anteriores. Não é coisa pouca, ainda que a tarefa esteja incompleta, uma vez que, como sempre, a destruição foi mais eficaz que a reconstrução.
Segundo o estudo do Observatório sobre Crises e Alternativas (que pode ler mais à frente), na tempestade de 2008 a 2013, desapareceram 700 mil postos de trabalho. Depois, entre 2013 e 2018, veio a bonança, e recuperaram-se 450 mil. Num caso como no outro, cruzam-se governos de diferentes cores. PS e PSD, partidos dominantes, partilham responsabilidades no pior e no melhor. Sendo que o melhor, não é assim tão bom. É verdade que a economia cresce, que se recupera emprego, mas os salários ficaram congelados. Na verdade, segundo os mesmos especialistas (e outros, como a OCDE), o valor médio dos salários varia entre a estagnação e a redução. E o cenário poderia ser pior, não fosse o aumento do salário mínimo nacional dos 485 euros de 2013, para os 580 euros de 2018. Há duas explicações imediatas para esta divergência entre maior criação de riqueza e menor distribuição de riqueza. A primeira, diz-nos que os setores onde o emprego mais cresceu estão entre os que pagam pior (empresas de trabalho temporário; restauração; comércio a retalho; alojamento). A segunda, que os que entram no mercado de trabalho ganham salários mais baixos do que os que saíram. Fica explicado porque se diz que, pela primeira vez, os filhos vão viver pior que os pais. Como se fica a perceber melhor uma outra estatística sombria: o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social está a diminuir, ainda que lentamente (serão cerca de 2,4 milhões de pessoas, quase um em cada quatro portugueses), mas o número de pessoas que, mesmo trabalhando, continua pobre, está a crescer (serão cerca de meio milhão). A continuar assim, vai ser preciso alterar a expressão "trabalhar para aquecer" para "trabalhar para empobrecer".
* Chefe de Redação

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/portugal-trabalhar-para-empobrecer.html

Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano

Uma elite ínfima – porém poderosa ao extremo – crê que o planeta tornou-se inviável e quer isolar-se após o “Evento”. O que isso revela sobre a grande crise civilizatória em que mergulhamos
Douglas Rushkoff *| Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.

Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.

Ao chegar, fui introduzido no que ma pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.

Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?”

O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.

Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.

Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Muskcolonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.

Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.

É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.

Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.

Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim aaprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.

A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?

Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.

Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…

Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.

Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.

Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.

Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.

Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.

A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.

Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.

Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.

Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.

Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.

Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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*Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.

LEIA TAMBÉM NO PG

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O novo salto global da desigualdade

Na sequência do artigo intitulado “Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano”, agora publicado e que pode ler ou talvez já tenha lido, decidimos no PG fazer a reposição deste, também retirado do Outras Palavras, onde foi publicado em 16.01.2017, que recomendamos leia a seguir. Afinal tudo está interligado e é útil que chegue ao seu conhecimento.(PG)

Políticas de “austeridade” ampliam concentração de riqueza. Oxfam denuncia: agora, oito homens já têm mais que a metade dos habitantes do planeta. Mas há alternativas

Oxfam | Outras Palavras | Imagem: Sara Distin

Estamos criando condições para recuperar o país e voltar a crescer, diz o presidente Michel Temer – e repetem os jornais – a cada medida adotada para reduzir o investimento social, eliminar direitos previdenciários, “simplificar” as exigências das leis trabalhistas e, supostamente, “equilibrar” as contas públicas. Exatamente como Temer agem, desde a crise de 2008, quase todos os governantes do mundo. “Austeridade”, “ajustes fiscais”, “apertar os cintos” tornaram-se conceitos dominantes no jargão politico e econômico da última década. Qual foi o resultado?

Um relatório que acaba de ser divulgado pela organização internacional Oxfam – voltada ao estudo e denúncia da desigualdade – revela. Tais políticas permitiram que apenas oito homens possum a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade. O documento Uma economia humana para os 99% mostra que a diferença entre ricos e pobres aumenta a cada edição do estudo, numa velocidade muito maior do que a prevista. Os 50% mais pobres da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida. Nesse grupo, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem abaixo da “linha ética de pobreza” definida pela riqueza que permitiria que as pessoas tivessem uma expectativa de vida normal de pouco mais de 70 anos.

“O relatório detalha como os grandes negócios e os indivíduos que mais detêm a riqueza mundial estão se alimentando da crise econômica, pagando menos impostos, reduzindo salários e usando seu poder para influenciar a política em seus países”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam no Brasil.

Os números da desigualdade foram extraídos do documento Credit Suisse Wealth Report 2016. (Veja link abaixo.) Segundo a organização, 1 em cada 10 pessoas no mundo sobrevive com menos de US $ 2 por dia. No outro extremo, a ONG prevê que o mundo produzirá seu primeiro trilhardário em apenas 25 anos. Sozinho, esse indivíduo deterá uma fortuna tão alta que, se ele quisesse gastá-la, seria necessário consumir US$ 1 milhão todos os dias, por 2.738 anos, para acabar com tamanha quantia em dinheiro. O discurso da Oxfam em Davos também mostrará que 7 de cada 10 pessoas vivem em países cuja taxa de desigualdade aumentou nos últimos 30 anos. “Entre 1988 e 2011, os rendimentos dos 10% mais pobres aumentaram em média apenas 65 dólares (US$ 3 por ano), enquanto os rendimentos dos 10% mais ricos cresceram uma média de 11.800 dólares – ou 182 vezes mais”, aponta o documento.
“A desigualdade está mantendo milhões de pessoas na pobreza, fragmentando nossas sociedades e minando nossas democracias. É ultrajante que tão poucas pessoas detenham tanto enquanto tantas outras sofrem com a falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação”, reforça Katia Maia.

O relatório destaca ainda a situação das mulheres que, muitas vezes empregadas em cargos com menores salários, assumem uma quantidade desproporcional de tarefas em relação à remuneração recebida. O próprio relatório do Fórum Econômico Mundial (2016) sobre as disparidades de gênero estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens. Segundo o texto, as mulheres ganham de 31 a75% menos do que os homens no mundo.

A sonegação de impostos, o uso de paraísos fiscais e a influência política dos super-ricos para assegurar benefícios aos setores onde mantêm seus investimentos são outros destaques do documento da Oxfam.

Oxfam é uma confederação internacional de 20 organizações que trabalham em mais de 90 países, incluindo o Brasil, com o intuito de construir um futuro livre das desigualdades e da injustiça causada pela pobreza. Uma das características centrais de seu estudo é a postura não-contemplativa. A organização está empenhada em buscar alternativas que permitam construir “uma economia para os 99%”. Eis, a seguir, algumas de suas propostas para tanto.

Uma Economia Humana para os 99%

Outras conclusões do Relatório da Oxfam (Davos, 2017)

Desde 2015, o 1% mais rico detinha mais riqueza que o resto do planeta.i

Atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo.ii

Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes.iii

A renda dos 10% mais pobres aumentou em menos de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou 11.800 dólares – 182 vezes mais.iv

Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh.v

Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.vi

No Vietnã, o homem mais rico do país ganha mais em um dia do que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.vii

Uma em cada nove pessoas no mundo ainda dorme com fomeviii.

O Banco Mundial deixou claro que, sem redobrar seus esforços para combater a desigualdade, as lideranças mundiais não alcançarão seu objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2030.ix

Os lucros das 10 maiores empresas do mundo somam uma receita superior à dos 180 países mais pobres juntos.x

O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.xi

Na década de 1980, produtores de cacau ficavam com 18% do valor de uma barra de chocolate – atualmente, ficam com apenas 6%.xii

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas são trabalhadores forçados que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas anualmente.xiii

As maiores empresas de vestuário do mundo têm ligação com fábricas de fiação de algodão na Índia que usam trabalho forçado de meninas rotineiramente.xiv

Embora as fortunas de alguns bilionários possam ser atribuídas ao seu trabalho duro e talento, a análise da Oxfam para esse grupo indica que um terço do patrimônio dos bilionários do mundo tem origem em riqueza herdada, enquanto 43% podem ser atribuídos ao favorecimento ou nepotismo.xv

Mulheres e jovens são particularmente mais vulneráveis ao trabalho precário: as atividades profissionais de dois em cada três jovens trabalhadores na maioria dos países de baixa renda consistem em trabalho vulnerável por conta própria ou trabalho familiar não remunerado.xvi

Nos países da OCDE, cerca de metade de todos os trabalhadores temporários tem menos de 30 anos de idade e quase 40% dos jovens trabalhadores estão envolvidos em atividades profissionais fora do padrão, como em trabalho por empreitada ou temporário ou empregos involuntários em tempo parcial.xvii

A edição de 2016 do relatório anual do Fórum Econômico Mundial sobre as disparidades de gênero revela que a participação econômica de mulheres ficou ainda mais baixa no ano passado e estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens.xviii

Sugestões da Oxfam para uma economia mais humana
1. Governos que trabalhem para os 99%
2. Incentivo à cooperação entre os países
3. Modelos de empresas com melhor distribuição de benefícios
4. Tributação justa à extrema riqueza
5. Igualdade de gênero na economia humana
6. Tecnologia a serviço dos 99%
7. Fomento às energias renováveis
8. Valorização e mensuração do progresso humano

Links:
Credit Suisse Wealth Report 2016 –
Bilionários da Forbes –
Notas
iiCálculos da Oxfam baseados na riqueza dos indivíduos mais ricos segundo a lista anual de bilionários da Forbes e a riqueza dos 50% mais pobres segundo o relatório Global Wealth Databook do Banco Credit Suisse (2016)
iiiUBS Billionaire’s Report de setembro de 2016 http://uhnw-greatwealth.ubs.com/media/8616/billionaires-report-2016.pdf
ivD. Hardoon, S. Ayele, e Fuetes Nieva, R., (2016), “Uma Economia para o 1%”. Oxford: Oxfam. http://policy-practice.oxfam.org.uk/publications/an-economy-for-the-1-how-privilege-and-power-in-the-economy-drive-extreme-inequ-592643 Versão em português disponível em https://www.oxfam.org.br/noticias/relatorio_davos_2016
vCálculos da Ergon Associates baseados em dados sobre os salários de diretores-presidentes estimados pelo High Pay Centre e os pacotes médios de benefícios oferecidos a trabalhadores.
viiNguyen Tran Lam. (2017, no prelo), “Even It Up: How to tackle inequality in Vietnam”. Oxfam.
viiiO Programa Mundial de Alimentos estima que 795 milhões de pessoas no mundo não têm comida suficiente para levar uma ativa saudável. Isso é cerca de uma em cada nove pessoas na terra. https://www.wfp.org/hunger/stats
ixBanco Mundial (2016), “Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality”, Washington DC: Banco Mundial doi:10.1596/978-1-4648-0958-3. http://www.worldbank.org/en/publication/poverty-and-shared-prosperity
xGlobal Justice Now. “Corporations vs governments revenues: 2015 data”. http://www.globaljustice.org.uk/sites/default/files/files/resources/corporations_vs_governments_final.pdf
xiM. Karnik. (6 de Julho de 2015). “Some Indian CEOs make more than 400 times what their employees are paid”. Site da Quartz India. http://qz.com/445350/heres-how-much-indian-ceos-make-compared-to-the-median-employee-salary/
xiiiProtocolo da OIT relativo à Convenção sobre o Trabalho Forçado de 2014. http://www.ilo.org/dyn/normlex/en/f?p=NORMLEXPUB:12100:0::NO::P12100_ILO_CODE:P029
xivAs empresas implicadas em um estudo realizado em 2012 pela ONG Anti-Slavery International intitulado “Slavery on the High Street: Forced labour in the manufacture of garments for international brands” incluem Asda-Walmart (Reino Unido/Estados Unidos), Bestseller (dinamarquesa), C&A (alemã/belga), H&M (sueca), Gap (americana), Inditex (espanhola), Marks and Spencer (Reino Unido), Mothercare (Reino Unido) e Tesco (Reino Unido) http://www.antislavery.org/includes/documents/cm_docs/2012/s/1_slavery_on_the_high_street_june_2012_final.pdf
xvD. Jacobs. (2015). “Extreme Wealth Is Not Merited”. Documento para Discussão da Oxfam. https://www.oxfam.org/en/research/extreme-wealth-not-merited
xviOIT (2015). “Global Employment Trends for Youth 2015”. pág. 49.
xviiOCDE (2015), “In It together: Why Less Inequality Benefits All”. Paris: OECD Publishing. DOI: http://dx.doi.org/10.1787/9789264235120-en
xviiiWorld Economic Forum. (2016). ‘The Global Gender Gap Report’. http://www3.weforum.org/docs/GGGR16/WEF_Global_Gender_Gap_Report_2016.pdf

Na imagem de topo: Rio Bhuriganga, em Dhaka (Bangladesh), destruído pelo despejo de resíduos industriais. A cidade é uma das que mais cresce no mundo e abriga transnacionais têxteis atraídas para lá por salários baixos e ausência de direitos sociais. É o caso da Zara, cujo fundador é um dos 8 homens mais ricos do mundo

LEIA O ARTIGO ANTERIOR NO PG

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/o-novo-salto-global-da-desigualdade.html

Ver o país, não esquecer o país

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No domingo, cinco pessoas morreram intoxicadas numa casa miserável aquecida a gerador. Na segunda, uma estrada desaparecia entre duas pedreiras e, perante a sucessão trágica, muita gente terá feito a interrogação-lamento: “É isto que nós somos”? É. É isto que também somos, mesmo que nem sempre o vejamos e quase sempre o esqueçamos. Um país onde há gente que continua a esgadanhar para viver e um país onde a incúria e a ganância matam.

Para variar, o editorial de hoje do Público, da autoria de David Pontes, cruza a questão social com a sua declinação territorial: um país de múltiplas formas fracturado, em suma. Um país, não o esqueçamos.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Papa Francisco: a injustiça é a raiz perversa da pobreza

Ao presidir a celebração eucarística neste domingo (18), o papa Francisco falou sobre a pobreza que atinge milhões de pessoas no mundo. O líder católico identifica na injustiça a raiz principal da pobreza da qual são vítimas, segundo ele, crianças, jovens, idosos, refugiados e populações atingidas por guerra e pela exclusão. O papa afirmou ainda que os cristãos não devem ficar de braços cruzados diante das injustiças. “Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama”, enfatizou Francisco.

Na celebração deste domingo, que marcou o Dia Mundial dos Pobres, o papa fez uma homilia com forte teor social e uma crítica enfática à concentração de riqueza. Entre os milhares de católicos de todo o mundo que costumam participar das celebrações de domingo no Vaticano, estavam seis mil pobres, a quem o papo dedicou atenção especial.

“O grito dos pobres: é o grito estrangulado de bebês que não podem vir à luz, de crianças que passam fome, de adolescentes acostumados ao estrondo das bombas ao invés da algazarra alegre das brincadeiras. É o grito de idosos descartados e deixados sozinhos. É o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga. É o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio. É o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem. É o grito dos inúmeros Lázaros que choram, enquanto poucos epulões se banqueteiam com aquilo que, por justiça, é para todos”, afirmou o sumo pontífice. Para Francisco “a injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte a cada dia, e a cada dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos.”

Segundo Francisco, “diante da dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de braços cruzados ou então de braços abertos, impotentes diante da força obscura do mal. Mas o cristão não pode ficar de braços cruzados, indiferente, nem de braços abertos, fatalista”. O papa concluiu a homilia afirmando: 

Não somos chamados a fazer o bem só a quem nos ama. Retribuir é normal, mas Jesus pede para ir mais longe dar a quem não tem para restituir, isto significa, amar gratuitamente”.

Ao final da celebração, o papa Francisco almoçou milhares de pessoas carentes que participaram da celebração do Dia Mundial dos Pobres. A data foi instituída por Francisco com a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, publicada em 21 de novembro de 2016, na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/papa-francisco-a-injustica-e-a-raiz-perversa-da-pobreza/

ORDENADO MÍNIMO E DESEMPREGO: MITOS E REALIDADES

As posições tomadas hoje pela CIP e CCP a propósito do salário mínimo leva-me até leitura recente. Trata-se  do artigo escrito por Jorge Fonseca de Almeida*, em colaboração especial para O Lado Oculto, um verdadeiro "antídoto para a propaganda global". Passo a transcrever para este meu espaço a introdução e as conclusões.(pode ler tudo, aqui).
«A teoria neoliberal professa que a subida de salários gera uma imediata e consequente subida do desemprego. Mais afirma que qualquer direito laboral acrescenta custos e, desta forma, desemprego. Nesta lógica, a luta dos trabalhadores por melhores salários e mais direitos laborais traduzir-se-ia por uma luta entre trabalhadores procurando uns expulsar os outros do mercado de trabalho. Os sindicatos seriam, assim, um malefício para os trabalhadores desempregados. Esta é a ladainha que nos vendem todos os dias. No entanto, os países onde os salários são mais baixos e os direitos nulos ou inexistentes são aqueles em que o desemprego é, em geral, superior. Naturalmente o desemprego é mais baixo no Reino Unido, onde o ordenado mínimo se situa nos 1.463 euros por mês, do que no Mali, onde se fica por 43 euros por mês. Ou seja, é necessário ao trabalhador maliano trabalhar dois anos e 10 meses para receber o mesmo que o trabalhador inglês num mês! Serão os empregadores totalmente irracionais? Não deveria o Reino Unido enfrentar um desemprego tremendo e o Mali não ter um único desempregado? A verdade, contudo, é que a teoria neoliberal sobre os salários, por não levar em conta factores como a qualidade das infraestruturas, a proximidade ao mercado consumidor, a segurança, os níveis educacionais da população, a estabilidade política e social, os níveis de corrupção, a cultura, e focando-se apenas no valor dos salários, não consegue dar uma visão correcta da dinâmica do mercado de trabalho. Insistir, contra toda a evidência, que aumentar os salários gera desemprego, é simplesmente propaganda patronal disfarçada de teoria económica.»
Conclusões
  • A aparentemente lógica e apelativa, para os empregadores, relação entre aumento do salário mínimo e aumento da taxa de desemprego defendida pela teoria neoliberal não se verifica, na prática, na grande maioria das circunstâncias. Facto que chega para a invalidar.
  • O caso Europeu é bem paradigmático, uma vez que persistem enormes disparidades nos níveis do ordenado mínimo, mesmo na presença de uma livre circulação de capitais e de um mercado único há décadas.
  • Esta disparidade nem sequer tem tendência a diminuir, antes se tem vindo a agravar. Note-se até que muitos países, França, Alemanha, Reino Unido, estão mesmo disponíveis a acolher trabalhadores de outros países da União pagando-lhes mais do que pagariam simplesmente deslocalizado a produção para o país de origem do trabalhador. Tudo isto vai ao arrepio da teoria neoliberal dos salários.
  • Também nos Estados Unidos, mesma moeda, liberdade de circulação de capitais, liberdade de movimentos e mercado único, os Estados que mais aumentam o salário mínimo conseguem reduzir a taxa de desemprego a níveis equivalentes ou superiores aos dos que reduziram ou mantiveram o ordenado mínimo.
  • A realidade mostra que a subida dos salários, por acção sindical, é positiva para as sociedades, para a redução da pobreza e para o desenvolvimento económico dos países.
  • A teoria neoliberal, por não levar em conta as variáveis mais importantes na evolução do mercado de trabalho, torna-se simplista, e a tomada de decisões na sua base errada e muito perigosa, quer para o desenvolvimento económico quer para os níveis de vida das sociedades.
 *Economista, MBA

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Eleições numa oligarquia

Com eleições tão caras, cerca de metade dos membros do Congresso são milionários. Ao nível nacional, os trabalhadores assalariados constituem apenas 4% dos candidatos de ambos partidos.

Resultados de um estudo de 2014 sustentam o retrato dos EUA como sistema «dominado pelas elites económicas, uma oligarquia»Créditos / politicsofpoverty.oxfamamerica.org

Na próxima terça-feira, haverá eleições nos EUA. Juntamente com algumas eleições municipais para presidentes de Câmara e outros postos locais; eleições estaduais para governadores, legislaturas estaduais, procuradores gerais e referendos de medidas a nível estadual; estão também em causa, ao nível federal, os lugares para a Casa dos Representantes e um terço dos lugares no Senado. Actualmente, o Partido Republicano (REPs) detém maioria em ambas as casas do Congresso Federal. Dada as taxas de desaprovação de Trump, consistentemente acima dos 50% durante o ano de 2018, o Partido Democrata (DEMs) tem tido alguma esperança de recuperar a Casa ou até mesmo o Senado.

O período de campanha foi marcado pelo processo de nomeação do Juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA, que, após grande controvérsia em torno de acusações de agressão sexual, foi confirmado pelo Senado por uma margem mínima. Todo o processo contribuiu para polarizar o eleitorado. As intervenções de Trump, retomando temas da sua campanha presidencial — diabolizar os emigrantes, vilipendiar os seus opositores, atacar a imprensa —, têm contribuído para exaltar a sua base. Será surpreendente que um fervoroso apoiante de Trump, Cesar Sayoc, tenha enviado 14 bombas pelo correio a diversas figuras dos DEMs? E que, dias depois, um anti-semita, que na rede social Gab.com — refúgio dos discursos mais extremistas e violentos — acusou os judeus de ajudarem a «invasão» da caravana de migrantes centro-americanos, tenha matado 11 judeus no Templo Árvore da Vida, em Pittsburgh — o evento mais mortal sobre judeus na história dos EUA? Trump reagiu mecanicamente aos casos tentando proferir as palavras esperadas nestas ocasiões. Mas estas soaram a falso, sobretudo quando, horas depois das palavras oficiais, Trump voltou a instigar as chamas em comícios de campanha, recusando-se a aceitar que o seu discurso inflamatório tenha qualquer responsabilidade.

«Estados Unidos es una oligarquía, no una democracia», 'Granma', 27 de Março de 2018Créditos

Todos estes elementos, porém, distraem de toda uma outra realidade que infecta o sistema político dos EUA: este é dominado pelas elites económicas e grandes empresas, onde a voz mais alta é o dinheiro. País da liberdade, que reconheceu o direito à liberdade de expressão (e logo discurso político e contributo financeiro em campanhas) por parte de empresas (decisão do Supremo Tribunal em 2010 conhecida como Citizens United). País onde os que estão no poder reconfiguram os círculos eleitorais por forma a garantir a maximização do número de eleitos do seu partido (engenharia eleitoral conhecida nos EUA como gerrymandering) ou manipulam os critérios de inclusão nos cadernos eleitorais por forma a alienar eleitores do partido adversário. (Esta estratégia poderá ser crítica nas actuais eleições para governador da Geórgia, onde o candidato REP, Brian Kemp, é o secretário de Estado em funções e purgou cerca de meio milhão de eleitores, dificultando a campanha da candidata DEM, Stacey Abrams, uma activista pelos direitos eleitorais.) País onde as três pessoas mais ricas — Jeff Bezos, Bill Gates, e Warren Buffet — têm uma riqueza maior que a metade mais pobre. País onde os ultra-ricos investem milhões de dólares para eleger os seus candidatos, como os Irmãos Koch, que gastaram 250 milhões de dólares nas eleições de 2016 em apoio a candidatos REPs e, apesar de se oporem a Trump em matérias como o comércio livre, prometeram 400 milhões de dólares nas eleições de 2018. Os DEMs também têm os seus financiadores ultra-ricos, como Michael Bloomberg e George Soros (um dos alvos de Sayoc).

Embora algumas campanhas — sobretudo de figuras progressistas, como foi o caso da campanha presidencial de Bernie Sander em 2016 — assentem em contributos modestos de muitas pessoas, cerca de 71% das contribuições são acima de 200 dólares dadas por apenas 0,42% da população. Os contributos financeiros são críticos. A corrida presidencial de 2016 custou 2,4 mil milhões de dólares. Tal não inclui o dinheiro gasto nas corridas para o Senado e a Casa dos Representantes, onde várias campanhas gastam mais de 40 milhões de dólares e 10 milhões de dólares, respectivamente. Em 2016, ao todo, entre campanhas presidenciais e para o Congresso de candidatos de ambos partidos, foram gastos mais de 6,5 mil milhões de dólares. Nas eleições intercalares de 2018, estima-se que o número possa atingir os 5,2 mil milhões de dólares.

«Alimentando o medo, atacando e criando inimigos, fingindo-se adversários do poder político estabelecido, candidatos conservadores, de extrema-direita, «populistas», xenófobos, racistas, misóginos, fascistas têm assumido posições de poder»

Com eleições tão caras, ser rico pode ser crítico para iniciar uma campanha. Cerca de metade dos membros do Congresso são milionários. Entre 2007 e 2013, enquanto a riqueza média das famílias estado-unidenses diminuiu um terço, a riqueza média de um membro do Senado subiu de 2,3 para 2,8 milhões de dólares. Um trabalhador raramente terá o tempo e o dinheiro necessários para uma campanha. Ao nível nacional, os trabalhadores assalariados constituem apenas 4% dos candidatos de ambos partidos.

Não é portanto surpreendente que o cidadão médio tenha um efeito negligenciável nas políticas do país. Um estudo de 2014 estimou que as «elites económicas», correspondendo aos 10% mais ricos e representando interesses comerciais, têm uma influência política 15% superior ao cidadão médio, e concluiu que os resultados apoiam um retrato dos EUA como um sistema Dominado pelas Elites Económicas, uma oligarquia.

As forças conservadoras têm conseguido tirar proveito do ambiente criado pela desigualdade e a percepção (fundamentada) de falta de poder político. Alimentando o medo, atacando e criando inimigos, fingindo-se adversários do poder político estabelecido, candidatos conservadores, de extrema-direita, «populistas», xenófobos, racistas, misóginos, fascistas têm assumido posições de poder, fazendo uso da mentira e da propaganda. Cabe às forças de esquerda, progressistas, da paz e da solidariedade unirem-se, resistirem, combaterem e conquistarem o poder.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Um mundo só para ricos?

Não é que o mundo tenha parecido particularmente bonançoso em tempos idos, porque em todas as suas épocas históricas sempre abundaram as mais cruéis mortandades de gente indefesa para que os vitoriosos do momento julgassem chegado o tempo da sua livre exploração. Momentos de grande esperança, como o da Revolução de Abril ou, mais para trás, o da celebração do fim da II Guerra Mundial, logo se viram abafados pelo habitual exercício do domínio dos opressores económicos sobre quem sempre lhes tem sido útil ferramenta de acumulação de riqueza.
Quem se arma de um ideário marxista pode sofrer na pele os efeitos de se ver ostracizado e reprimido, mas confia sempre na dialética da luta de classes e em como lá virá o dia em que os derrotados de hoje se afirmarão como os ganhadores de amanhã. Aquele que está vivo não diga nunca NUNCA!, aconselhava o mestre Brecht.
Há, ainda assim, alturas em que seria lícito, que a tendência às avessas da evolução histórica, não parecesse tão forte com gente infecta a comandar atualmente o destino dos norte-americanos, dos turcos, dos húngaros, dos filipinos, dos polacos, dos italianos e, para além de muitos outros povos aqui omitidos, o dos brasileiros.
Contrariando o que seria lícito esperar dos valores em que acreditava, José Saramago costumava ostentar um grande pessimismo sobre o porvir da Humanidade. E o que escreve no seu imprescindível último caderno de Lanzarote, parece ajustar-se que, nem uma luva, ao presente do nosso descontentamento, apesar de ter sido assumido há vinte anos, nesse 1998 em que viria a ser consagrado com o Nobel:“o que está em preparação no planeta azul é um mundo para ricos (a riqueza como uma nova forma de arianismo), um mundo que não podendo, obviamente, dispensar a existência de pobres, só admitirá conservar os que forem estritamente necessários ao sistema.”
No Brasil isso é mais do que evidente, quando sabemos que as classes de rendimentos mais altos e com formação académica superior votou maciçamente no jagunço. Não é por ele lhes ser simpático, nem corresponder ao tipo de pessoa com quem gostam de conviver. Mas sabem-no que, no seu fascismo sem escrúpulos, ele lhes pode facilitar os negócios, fazendo acelerar a destruição da Amazónia para uma maior extensão das áreas dedicadas ao setor agroalimentar, nem que para tal se exterminem os ameríndios ainda aí reduzidos a bolsas de precária sobrevivência. Confiam em que aperte a tal ponto a legislação laboral, que, a exemplo dos sem terra ou dos sem teto, qualquer operário disposto a insurgir-se pela greve, seja legalmente tratado como um terrorista. E esperam que o disparo fácil contra os ladrões acoitados nas favelas se torne tão frequente, que se sintam em maior segurança no recato dos seus condomínios privados.
Saramago previa uma reformatação do modelo capitalista, que o neoliberalismo económico tornasse inevitável o fim das aparências democráticas das classes dominantes. Resta ver como o Brasil evoluirá nos próximos meses viabilizando, ou não, esse modelo. Para já surge a confirmação da notícia de Sérgio Moro ocupar a pasta da Justiça, algo em que ontem aqui previa não vir a acontecer. Enganei-me, pois! Mas procurando racionalizar o motivo dessa aceitação até é possível compreendê-la: se o mandato do jagunço correr bem, Moro apressar-se-á a colar-se-lhe totalmente para vir a surgir como natural sucessor, repondo a ocupação do poder pelas classes mais altas depois do episódio intermédio do bronco. Se, como tudo aponta para tal, a crise social tornar-se tão aguda, que a repressão não consiga pôr-lhe travão, Moro poderá sempre sair da carruagem, assumindo-se como público opositor do agora cúmplice, para que mudando alguma coisa, tudo fique exatamente na mesma como agora se prefigura.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/um-mundo-so-para-ricos.html

O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo

Prabhat Patnaik [*]
Aquilo a que hoje chamamos terceiro mundo nem sempre existiu na sua forma actual. Ele experimentou uma transformação estrutural específica devido à intrusão do capitalismo metropolitano, devido ao que alguns economistas, a começar por Andre Gunder Frank, classificam como "o desenvolvimento do subdesenvolvimento". Na Índia por exemplo os processos de "des-industrialização" (importações da metrópole deslocando produtores artesanais internos) e a "drenagem de excedente" (o desvio sem qualquer contrapartida de uma parte do excedente do país através do sistema de tributação colonial), provocou um enorme aumento na pressão sobre a terra por parte da população e engendrou a moderna pobreza em massa. Uma vez que o "subdesenvolvimento" do terceiro mundo foi o resultado da maneira pelo qual ele foi integrado na economia capitalista mundial, na época da descolonização acreditava-se geralmente que os povos desta região só poderiam progredir sob um regime económico alternativo que os livrasse de tal integração. E uma vez que o capital metropolitano não iria tolerar isto, e a burguesia – temerosa quanto à ameaça à sua própria posição devido à sua chegada tardia ao cenário histórico (razão pela qual ela também fazia causa comum com os interesse fundiários internos) – era incapaz de enfrentar o capital metropolitano, tal libertação só poderia ser efectuada através de um estado baseado numa aliança dos trabalhadores com o campesinato. Este argumento da esquerda exerceu na época uma considerável influência intelectual; e estes países eram vistos a procederem tal libertação por etapas ao longo do tempo rumo ao socialismo. O desenvolvimento do terceiro mundo não era, portanto, encarado como ocorrendo através da busca de um caminho capitalista de desenvolvimento; isso só poderia ocorrer através da busca de uma trajectória alternativa que o levasse ao socialismo. Tal entendimento, entretanto, começou a ser desafiado na era neoliberal com o argumento de que os factores que no passado haviam produzido a segmentação do mundo não estavam mais operacionais. Subjacente a esta segmentação, a qual exprimia-se na dicotomia entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, estava o facto de que o trabalho destes últimos não era livre para mover-se para os primeiros e o capital destes, através de movimentos juridicamente livres para os segundos, por variadas razões relutava em fazê-lo, excepto para capturar o mercado destes últimos ou apossar-se das matérias-primas dos mesmos. Por outras palavras, apesar de os salários destes últimos serem muito mais baixos, o capital dos primeiros não localizava ali fábricas para atender ao mercado global, incluindo o metropolitano. Esta situação, de acordo com este novo argumento, mudou sob a globalização neoliberal. O capital metropolitano estava agora desejoso de localizar fábricas no terceiro mundo a fim de explorar seus salários mais baixos para atender à procura global. De facto, a relocalização de várias actividades manufactureiras e do sector de serviços da metrópole em países do terceiro mundo, especialmente no Leste, Sudeste e Sul da Ásia, sugeriam agora que mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial estes países poderiam ainda assim experimentar desenvolvimento económico rápido. Tal argumento naturalmente era falho, mesmo no momento em que estava a ser avançado. A mesma ordem neoliberal sob a qual tal difusão de actividades estava a ocorrer, da metrópole para o terceiro mundo, também estava a lançar um feroz ataque à pequena produção e infligia um processo de acumulação primitiva de capital dentro do terceiro mundo. E, ao mesmo tempo, estava a gerar empregos tão escassos no terceiro mundo, mesmo quando as taxas de crescimento do PIB dessas economias eram impressionantes e sem precedentes, que a pobreza em massa realmente se agravou, ao invés de ser aliviada, apesar desse crescimento elevado. Mas agora o capitalismo mundial entrou numa nova fase em que até mesmo essa difusão, como estava a ocorrer na era neoliberal, está a ser restringida. Portanto a própria premissa do argumento que via o terceiro mundo como a desenvolver-se dentro do quadro do capitalismo mundial, ou seja, mesmo sem desligar-se do quadro do capitalismo mundial através de controles adequados de comércio e capital, perdeu sua relevância. O proteccionismo de Trump pretende precisamente restringir tal difusão da actividade da metrópole para o terceiro mundo, e isto é apenas um sinalizador do facto de que o regime neoliberal está agora num beco sem saída. Trump, deve-se notar, não pretende de modo algum desfazer-se do neoliberalismo. Ao contrário, ele está a manter o núcleo da organização neoliberal, a qual é mobilidade global do capital financeiro. Mas ele está a estabelecer restrições ao capital americano (e a outros capitais metropolitanos, bem como capitais do terceiro mundo) a que localizem instalações de produção dentro do terceiro mundo a fim de atender à procura americana. E ele está a compensar o capital americano que seria prejudicado por tais restrições através de concessões fiscais em grande escala sobre lucros corporativos. As medidas de Trump, por outras palavras, são calculadas de modo a não provocar danos ao capital americano; mas elas certamente impediriam a difusão de actividades da metrópole para o terceiro mundo que supostamente são o instrumento para inaugurar o desenvolvimento do terceiro mundo mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial. As medidas de Trump têm de ser entendidas no contexto da crise que engolfou o capitalismo mundial no período da globalização neoliberal. Na raiz desta crise está o facto de que a própria relocalização de actividades das metrópoles para o terceiro mundo tem mantido baixos os salários reais nas metrópoles. Ao mesmo tempo, isto não elevou os salários reais no terceiro mundo pois a grandes reservas de trabalho nestes, criadas no período colonial, longe de ficarem esgotadas, estão a crescer ainda mais. Se bem que o vector dos salários reais na economia mundial permaneça assim mais ou menos constante, o vector da produtividade do trabalho aumentou muitíssimo, resultando em um enorme aumento na fatia de excedente da produção mundial. Isso cria uma tendência à superprodução na economia mundial, uma vez que a fatia do consumo do excedente é menor do que a dos salários. Esta tendência, no entanto, foi mantida sob controle nos EUA devido a dois booms baseados em "bolhas", primeiro a “bolha das dot.com” nos anos noventa e depois a “bolha habitacional” no início deste século. Com o colapso da bolha habitacional e sem nenhuma nova bolha a substituí-la, a economia dos EUA, e com ela a economia capitalista mundial, entrou num período de crise, provocando descontentamento generalizado em massa e uma ameaça à estabilidade social do sistema. A classe trabalhadora, já afligida há muito por salários estagnados, agora tem de enfrentar o fardo agravado do aumento do desemprego. A solução de Trump para a crise é a busca daquilo a que economistas chamam a política do "roubo o meu vizinho"("beggar-my-neighbour"), a qual equivale a roubar empregos de outros países, especialmente países do terceiro mundo, a fim de aumentar o emprego nos EUA. A estagnação na economia mundial, por outras palavras, não está a ser superada. Mas dentro desta estagnada economia mundial, os EUA estão a tentar melhorar sua posição a expensas dos outros. Embora isso possa melhorar a posição dos EUA por algum tempo, até que outros comecem a retaliar, ela não supera a crise do capitalismo mundial. Ao contrário, quando outros retaliarem, esta crise será agravada ainda mais, o que só confirma o facto de que o capitalismo neoliberal chegou a um beco sem saída. Nesta situação desaparecem claramente quaisquer esperanças de que o terceiro mundo continuasse a ser o beneficiário da difusão de actividades da metrópole e dessa forma continuasse a crescer rapidamente dentro do quadro do capitalismo mundial. Este crescimento, como vimos, foi acompanhado por um agravamento da pobreza em massa e não do seu alívio. Mas agora até esta trajectória de desenvolvimento chegou ao fim. Os países do terceiro mundo terão doravante de adoptar medidas para desenvolver o seu mercado interno. Daqui em diante, para qualquer crescimento terão de confiar no mercado interno ao invés do mercado de exportação, o qual é atingido pela estagnação económica mundial e pelo proteccionismo dos EUA. Isto exigirá o crescimento da agricultura camponesa, de maior igualdade de rendimento interno, de um aumento generalizado nos salários reais, de uma elevação do salário mínimo e de uma activação da despesa estatal. Uma vez que tais medidas enfrentarão a oposição da finança globalizada, a qual precipitaria uma fuga de capitais e portanto uma crise financeira, terão de ser postos em vigor controles de capitais. E como isto é provável que torne muito mais difícil financiar défices de transacções correntes das balanças de pagamentos, também terão de ser instituídos controles de importações. Contudo, todas estas medidas exigiriam uma mudança na natureza do Estado, na aliança de classe que o sustenta. Só uma aliança trabalhadores-campesinato que possa sustentar um estado [poderá] assistir a uma ultrapassagem da crise e estagnação para a qual o terceiro mundo está a ser inexoravelmente empurrado nesta nova situação, a qual assinala o beco sem saída do capitalismo neoliberal. E uma vez que a trajectória de desenvolvimento anunciada por um estado apoiado por uma tal aliança será caracterizada por um movimento rumo ao socialismo através de etapas, o velho argumento de que o desenvolvimento do terceiro mundo pode ocorrer só através da busca de um caminho que conduza ao socialismo readquire uma relevância enfática na nova situação. 

21/Outubro/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia  O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/1021_pd/capitalism-and-third-world-development . Tradução de JF.  Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/o-capitalismo-e-o-desenvolvimento-do.html

Quantos pobres para fazer um rico?

João Rodrigues
Num país com tantos pobres, com tantos trabalhadores pobres, num país com desigualdades “chocantes”, seguindo o Comissão Nacional Justiça e Paz, é preciso insistir na questão garrettiana: quantos pobres para fazer um rico? Num tempo ainda de desigualdades pornográficas, de grande impotência democrática, em que até parece que tudo se compra e tudo se vende, incluindo direitos de residência, é preciso criticar a economia política dominante, até para que se identifiquem as políticas dominantes do capitalismo realmente existente; um sistema plutocrático onde no topo da pirâmide social não há vergonha, até porque não há receio político. Num contexto destes, não pode haver complacências por parte dos que querem construir uma alternativa a este estado de coisas. Foi também por causa de preocupações destas que escrevi para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa de Setembro o artigo que agora deixo por aqui: Porno-riquismo Numa reportagem do Expresso sobre o crescimento do luxo em Portugal, Miguel Guedes de Sousa, director do grupo Amorim Luxury (CEO, acrónimo em inglês, a língua dominante dos negócios sem fronteiras), afirmou que «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados»[1]. Guedes de Sousa é casado com Paula Amorim, o principal rosto da maior fortuna nacional, deixada por Américo Amorim e hoje avaliada em 4502 milhões de euros[2]. Daí o nome do grupo, detido e presidido por Paula Amorim, e que inclui, entre outros, «um espaço de indulgência único» na Avenida da Liberdade chamado JNcQuoi (a língua francesa ainda dá cartas no campo da distinção), englobando um restaurante e uma loja de luxo; esta última é parte de uma cadeia[3]. A mesma reportagem do Expresso informa-nos que os clientes mais indulgentes têm a honra de ter o seu nome gravado no balcão do bar. Entre os 48 nomes aí gravados no primeiro ano de funcionamento, encontram-se o do milionário francês do imobiliário Claude Berda, de que voltarão a ouvir falar neste artigo, o do político e advogado de privatizações para estrangeiros, José Luís Arnaut, ou o do gestor de rendas eléctricas também para estrangeiros, António Mexia: «Nomes que num fim de tarde passado entre queijos e vinhos Barca Velha e Château Margaux gastam facilmente dez mil euros e outro tanto (ou mais) numa manhã de compras, na loja Fashion Clinic no piso de baixo, entre roupas e calçado Gucci, Valentino e Dolce&Gabbana».  Por sua vez, no novo suplemento mensal do minguado Diário de Notícias chamado DN Ócio«uma revista que aborda informação relativa ao mercado premium e de luxo – das questões práticas às aspiracionais», segundo o seu estatuto editorial – pode ler-se a enésima reportagem sobre a Avenida da Liberdade, sobre os seus «guardiões do luxo»[4]. Nela, Filipa Ferreira, «head concierge» (o inglês cruza-se convenientemente com o francês) do Tivoli Avenida da Liberdade, afirma que «o cliente pede e nós dizemos sempre que sim (…) vamos ter de concretizar o pedido seja como for». De forma certamente não intencional, a DN Ócio homenageia um livro clássico da economia política, que será em breve editado entre nós: A Teoria da Classe Ociosa. Publicado em 1899, numa era de desigualdades igualmente cavadas, Thorstein Veblen cunhou aí a noção de consumo conspícuo, sendo um dos seus críticos mais lúcidos. Para lá do ócio, a classe dominante dos grandes proprietários assentava a sua reputação de base pecuniária no consumo ostentatório, especializando-se de resto em actividades económicas predatórias de natureza predominantemente financeira. Ao mesmo tempo, os seus hábitos infectavam o resto da pirâmide social, gerando uma emulação consumista assente também no desperdício e na criação de obstáculos a uma comunidade inclusiva e com hábitos funcionais[5]. Ao serviço do porno-riquismo  Avançando mais de um século e para este lado do Atlântico, cruzamos as declarações de Guedes de Carvalho e de Filipa Ferreira, oriundas dos dois lados da mesma avenida e da mesma divisão social, e encontramos uma realidade, com amplos reflexos mediáticos, em ascensão neste país e que precisa de um termo novo: porno-riquismo. O porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política. O centro da cidade de Lisboa, ou do Porto, é cada vez mais visto como uma área para os ricos concretizarem todos os seus desejos, do prédio classificado ao hotel, passando pela loja, pelo restaurante e por uma miríade de serviços pessoais associados. Tudo de luxo. O porno-riquismo não se circunscreve ao centro das nossas duas principais cidades, já que também transborda para certos enclaves nas suas periferias e mesmo, usando os termos da reportagem do Expresso acima referida, para a «autenticidade» da «província», ou seja, e só para dar um exemplo, para uma «aldeia recuperada», entre Condeixa e Pombal, onde os clientes «são recebidos num heliporto privado, assinalado com um H em tamanho gigante, com o mesmo tipo de letra da marca francesa Hermès». O que devem fazer muitos dos restantes 99% perante os hábitos dos 1%, e isto na mais heróica das hipóteses numéricas? Para os que são crescentemente compelidos pela especulação imobiliária a viver fora, mas a trabalhar dentro, das grandes cidades, servindo os ricos, a revista Visão, numa representativa reportagem, dedicada às «casas em Portugal que valem mais milhões», tem uma sugestão prática, mas de duvidosa moralidade, como em tudo nesta área: «Como sonhar ainda vai sendo actividade privada isenta de impostos, nada nos impede de apreciar uma moradia como aquela que está à venda na Quinta da Marinha por 28 milhões de euros, comercializada pela Sotheby’s»[6]. Nas sociedades capitalistas, certa comunicação social contribui para que os standards pecuniários pornográficos fixados pelos mais ricos, de resto muito pouco taxados, invadam até os sonhos. Nada que fosse estranho na era anterior de porno-riquismo sobre a qual Veblen escreveu. No entanto, vale a pena descer do mundo onírico para o da realidade material concreta, convocando o conhecimento, explicitamente ao serviço de porno-riquismo, em linha com o que é apanágio, ainda que por vezes disfarçado, de toda a sabedoria económica convencional. Segundo Helena Amaral Neto, coordenadora de cursos executivos na área do luxo no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), que vão da gestão de marcas de luxo ao turismo e ao imobiliário de luxo: «O segmento [do luxo] não tinha qualquer expressão antes de 2012. Tudo o que está a acontecer hoje vem do movimento do imobiliário, que depois gerou turismo»[7]. E tudo, segundo esta também consultora de luxo, já vale quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano dois da Troika, o projecto de transformar Portugal numa espécie de Flórida da Europa ganhou literalmente terreno, assente no nexo entre imobiliário, turismo e finança internacional, com uma componente crescente de luxo, um padrão de especialização que tende a gerar baixos salários e enormes desigualdades socioeconómicas[8]. O conhecimento ao serviço do porno-riquismo requer sempre um Estado que o institucionalize. Não é certamente por acaso que Helena Amaral Neto atribui a máxima importância a duas medidas de política fiscal: o estatuto de residente não habitual, criado ainda no governo de José Sócrates, em 2009, e a autorização de residência para actividade de investimento, vulgo Vistos Gold, criada em 2012; e isto para não falar da possibilidade do que apoda de «global shoppers» (os chamados «consumidores globais») de fora da União Europeia e que podem pedir o reembolso do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) para compras superiores a 75 euros; luxos fiscais para um consumismo conspícuo que não gosta de fronteiras. A União Europeia já havia sido o principal agente na promoção da liberalização dos movimentos de capital em parte do continente. O esvaziamento da soberania democrática a que repetidamente aí se procedeu, privando os Estados nacionais de instrumentos decentes de política económica, favorece uma corrida para o fundo em matéria fiscal, com o capital agora livre para arbitrar: o poder dos mais ricos aumentou e a carga fiscal que sobre eles recai diminuiu, à medida que os Estados competem para os seduzir. Concretizando o «modelo Flórida» deste lado do Atlântico, Portugal transformou-se num «eldorado para os reformados» ricos, oriundos do centro europeu, em busca de sol, serviços pessoais relativamente baratos e, sobretudo, de borlas fiscais à boleia de duplas isenções de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS)[9]. Por sua vez, os estrangeiros em idade activa, que invistam e trabalhem por cá em actividades de «elevado valor acrescentado», podem esperar pagar uma «taxa especial de 20% de IRS» durante uma década[10]. Para lá das seduções fiscais, no âmbito do estatuto do residente não habitual, Portugal transformou-se também num dos muitos países europeus – regiões seria mais correcto do ponto de vista da soberania económica – que vende direitos, neste caso de residência, ao abrigo dos Vistos Gold. Tudo se compra e tudo se vende. O porno-riquismo é sinónimo de corrupção geral. Querem tudo  Revisitemos a declaração de Miguel Guedes de Sousa, director da Amorim Luxury: «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados». A questão da habitação sempre foi um terreno da luta de classes no capitalismo, sendo hoje uma das áreas em que o porno-riquismo mais investe. Entretanto, a sua esposa, uma encarnação do capitalismo de herdeiros cada vez mais saliente, já tinha sido saudada no seu empreendedorismo independente na área do luxo por uma imprensa habituada a idolatrar os ricos, no preciso momento em que sucedia ao pai no conselho de administração da Galp: o luxo é «um negócio que lhe deu independência financeira e o saber quanto a custa ganhar» desde os anos noventa[11]. Paula Amorim certamente aprendeu a aceder ao luxo do lado da procura antes de se lançar do lado da oferta e não foi certamente prejudicada nestes seus hábitos pelos laços familiares, em particular no que diz respeito ao acesso a capital nas suas várias encarnações. Como isto está tudo pornograficamente ligado pela integração europeia, o nome da globalização capitalista mais intensa nesta parte do continente, note-se que a participação da família Amorim na Galp é assegurada através da Amorim Energia. Detendo cerca de 33% da Galp, a Amorim Energia está sediada na Holanda para receber dividendos, com o mínimo de impostos. Ou seja, os pornograficamente mais ricos estão sempre a beneficiar fiscalmente. Na Amorim Energia participa também a angolana Esperanza Holding, detida parcialmente por essa agora periclitante encarnação angolana do porno-riquismo multi-escalar que é Isabel dos Santos, a que um dia declarou: «Tive sentido para os negócios desde muito nova. Vendia ovos quando tinha seis anos»[12]. Naturalmente, o apelido Amorim cruza as rendas, pouco tributadas, dos combustíveis com a cortiça, o rentismo fundiário ou a especulação imobiliária. E daí as declarações do CEO da Amorim Luxury. Uma parte da Herdade da Comporta, correspondente ao fundo de investimento imobiliário nas mãos da falida Rioforte do antigo Grupo Espírito Santo, está na mira de Paula Amorim, em consórcio com o francês Claude Berda, um dos 48 que tem o nome inscrito no bar do restaurante da Avenida da Liberdade com sotaque francês. Este consórcio tem concorrência apertada. Quando o leitor estiver a ler este jornal, poderá já saber quem são os donos daquilo tudo. Sejam eles quem forem, Amorim e Berda, citados no Expresso, afirmam que «a Comporta tem todos os ingredientes para se tornar um destino turístico de excelência no mundo a par de Capri, Sardenha, Punta del Este ou Saint Barths»[13]. Os seus planos de construção incluem, ainda segundo o Expresso, cinco hotéis de luxo, muitos apartamentos e moradias de luxo, o tão inevitável quanto insustentável campo de golfe e até uma igreja, desenhada por Frank Gehry, já que a história da agulha e do camelo parece ser o único espectro que, por agora, paira sob um porno-riquismo sem grandes razões para ter medo nesta vida. Age como se a história tivesse acabado. Lembrando que o problema não é este ou aquele apelido, mas sim o sistema que lhes confere todo o poder, ficámos, entretanto, a saber, por uma reportagem da Visão, que, nos hectares a perder de vista onde os Espírito Santo diziam brincar aos pobrezinhos, foram feitas ao longo dos anos mais de uma centena de obras ilegais, que transformaram cabanas em moradias de luxo, numa zona supostamente protegida por razões ambientais, à boleia de múltiplos indícios de corrupção, tendo sido já constituídos vários arguidos, incluindo antigos responsáveis autárquicos e responsáveis da herdade. Pouco importa, já que mesmo por aí, «há casas a passar de mão por €350 o metro quadrado [falta, pelo menos, um zero, €3500, arrisco eu] (os lotes mais pequenos estão a ser vendidos por mais de um milhão) e a serem alugados por €700 por noite via Airbnb»[14]. A mesma Visão que em Abril recomendava o sonho do porno-riquismo aos que não são ricos deu conta do pesadelo em Julho: na era do porno-riquismo, do desperdício sistemático, dos bens posicionais que implicam exclusão sistémica, tudo se vende e tudo se compra. Mas sendo isto reconhecidamente verdade, a jornalista que assina a reportagem não resiste a convidar o leitor a sonhar com o luxo, embora num tom mais melancólico: «Se ficou com vontade de ser, por um dia, Espírito Santo nos seus tempos áureos, e andar pela Comporta com roupas chiques e chinelo no pé, saiba que algumas dessas casas já têm lotação esgotada até ao fim do ano».  Terminemos onde começamos, no centro da capital desta Flórida da Europa: «Sei que os meus consumidores são raros, diversos e complexos; estão bem conectados e têm poder», revelou Paula Amorim na conferência internacional Condé Nast Luxury[15]. Organizada pela editora internacional da revista Vogue, Suzy Menkes, dedicada à «linguagem do luxo», foi uma das várias do género realizadas recentemente em Lisboa. Numa intervenção onde a introspecção esteve certamente presente, Amorim afirmou ainda: «O que podemos oferecer àqueles que têm tudo? Àqueles que exigem o inesperado? Eles não querem produtos, querem experiências únicas, sentir algo que seja um reflexo dos seus valores. Quanto mais virtuais as nossas vidas se tornam, mais apetite temos por autenticidade, serviços humanos, um respeito pela privacidade, pelo anonimato, pela personalização, por produtos feitos à medida, por conteúdo e por relações». Querem tudo, comem mesmo tudo e deixam cada vez menos: porno-riquismo é um nome feito à medida, por conteúdo e por relações, tal como o capitalismo realmente existente. [1] Expresso, 14 de Julho de 2018.
[2] Forbes, Julho/Agosto de 2018.
[3] www.jncquoi.com/pt/restaurante.
[4] DN Ócio, 28 de Julho de 2018.
[5] Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class, The Modern Library, Nova Iorque, 2001.
[6] Visão, 26 de Abril de 2018.
[7] Diário de Notícias, 14 de Maio de 2018.
[8] Ainda antes de ascender ao cargo de economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, entre 2008 e 2015, Olivier Blanchard já havia explicitamente defendido o «modelo Flórida» para Portugal, acompanhado da redução dos salários, num influente artigo que resultou de um estudo encomendado pelo Ministério das Finanças: «Adjustment within the Euro: the difficult case of Portugal», Portuguese Economic Journal, Abril de 2007, pp. 1-21.
[9] Negócios, 2 de Maio de 2017. [10]www.portaldascomunidades.mne.pt/images/GADG/IRS__Regime_Fiscal_Residente_N%C3%A3o_Habitual.pdf.
[11] Negócios, 26 de Maio de 2017.
[12] Negócios, 20 de Março de 2013.
[13] Expresso, 21 de Julho de 2018.
[14] Visão, 26 de Julho de 2018.
[15] www.vogue.pt/cnilux-dia-1-uma-vis-o-disruptiva-do-luxo.

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Portugal | Pensões secretas de sete milhões

Manuel Molinos | Jornal de Notícias | opinião

Quem são os ex-políticos que recebem subvenções vitalícias? Para ser mais claro: quem são os ex-políticos que recebem uma pensão dourada para o resto da vida só porque foram políticos durante um determinado período?

Não sabemos. Mas sabemos que o Orçamento do Estado prevê compensações no valor de 7,17 milhões de euros a titulares de altos cargos políticos. Repita-se: 7,17 milhões.

Desconhecemos quem merece ser compensado pelos anos de serviço político prestado ao país, porque o Governo suspendeu a publicação da lista onde figuravam os 332 nomes de ex-políticos e juízes com pensão dourada, usando o escudo do novo Regulamento de Proteção de Dados. O que não deixa de ser polémico, visto não ser obrigado, ao abrigo de um regime de exceção, a cumprir o novo Regulamento. Mas se protege a identidade dos pensionistas gold, não tem qualquer pejo em escancarar na Internet os nomes dos devedores à Segurança Social e ao Fisco. Uns são filhos. Outros enteados. Os enteados somos nós, claro.

Por muito que qualquer Governo se esforce, e terá mesmo de se esforçar, é difícil que o país compreenda que ainda haja alguém a receber um bónus por serviços prestados ao Estado. Ainda assim, já que o recebem, queremos saber quem são. Queremos saber quem merece uma fatia do miminho financeiro de 7 milhões pagos por todos nós.

No tempo em que se podia consultar a lista, agora secreta, recorde-se que entre as centenas de nomes, figurava, por exemplo, Duarte Lima. Esse mesmo, o ex-líder parlamentar do PSD condenado, em 2014, a 10 anos de prisão efetiva por burla qualificada e branqueamento de capitais. Mas Duarte Lima é um homem de honra que merece este bónus. E, claro, acreditamos piamente que os outros amigos que recebem a pensão gold também o sejam.

Eventualmente, haverá na lista quem mereça um bónus. Mas digam-nos a quem saiu o jackpot.

*Diretor-adjunto do JN

 

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A «natalidade» e a «família» como pretexto

Já em reentré, e com a discussão do OE de 2019 no horizonte, o CDS-PP propôs um pacote de «políticas integradas de natalidade e de valorização da família». Sim, o mesmo CDS-PP que, nos anos do «ajustamento», se empenhou no «empobrecimento competitivo», responsável por um aumento sem precedentes do desemprego (que atingiu os 16,4% nos jovens com 25 e 44 anos); pelo recrudescer da emigração para níveis próximos dos anos sessenta (600 mil saídas entre 2011 e 2015); e, a par da perda de rendimentos das famílias, pelo corte de Mota Soares na proteção social (com, por exemplo, menos 67 mil crianças e jovens a serem apoiados pelo RSI). Sem estranheza, a natalidade - que agora preocupa os centristas e que registou valores acima dos 100 mil nados-vivos nos primeiros dez anos do século XXI - caiu para valores inéditos, não indo além dos 85 mil nascimentos em 2015.
O que significa esta guinada programática de um partido que até há pouco tempo se estava nas tintas para as condições de vida dos jovens casais e para a natalidade? Terá o CDS-PP percebido o dano demográfico que causou ao país e decidido arrepiar caminho? É apenas mais um episódio de transfiguração política de um partido que tem por hábito fazer uma coisa no Governo e propor o seu contrário quando está na oposição? Ou a «natalidade» e a «família» são só os pretextos para retomar a velha agenda de regressividade fiscal e privatização do Estado Social? Quando se olha para as medidas apresentadas as dúvidas dissipam-se. Além de propostas redundantes (no âmbito das licenças parentais ou da comissão na AR para as questões da natalidade), é retomado o iníquo quociente familiar (que beneficia tanto mais as famílias com filhos quanto mais elevado for o seu rendimento), cujo princípio passaria a desmultiplicar-se em várias deduções fiscais (IMI, tarifas de água, luz e gás, taxas moderadoras, acesso à habitação, etc.). Soma-se a isto o incentivo ao teletrabalho e os tradicionais apoios às empresas (convenientemente revestidos com a película da «responsabilidade social»). E, claro, o reforço dos apoios ao «Estado paralelo», com a criação de gabinetes técnicos de apoio familiar, na «rede protocolar social», e o alargamento da isenção de IVA a todas as creches e ATL privados (a lembrar o tempo em que as prestações do RSI atribuídas às pessoas se convertiam em apoios às organizações para distribuir sopa). Cereja em cima do bolo: a proposta de não aplicação do fator de sustentabilidade quando o requerente tenha mais de dois filhos e aplicação a 50% ao requerente que tenha dois filhos (numa absurda punição a quem não teve ou só teve um filho e recalcando a lógica regressiva do quociente familiar). Por último, como se não bastasse instrumentalizar a família e a natalidade para alimentar mercados e fomentar a desigualdade social e fiscal, a proposta do CDS-PP prima também pelas ausências: nem uma palavra sobre salários, precariedade ou sobre imigração, uma vertente indispensável para quem realmente queira recuperar a sustentabilidade demográfica do país.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Apoiando Stephen Hawking, cientista prevê divisão de humanos em fracos e superpoderosos

DNA (imagem referencial)
CC0 / Pixabay

O livro "Breves Respostas para Grandes Questões" (em tradução livre) é a última obra de Stephen Hawking publicada recentemente. Em um dos capítulos, o famoso físico advertiu a humanidade sobre o provável surgimento de super-humanos com DNA alterado, que poderiam ser ameaça a quem não tiver "superpoderes".

Em entrevista à Sputnik China, o pesquisador da Universidade Duke, Tyler Allen, especializado em mecanismos moleculares de células cancerígenas, avisou que o surgimento de pessoas com supercapacidades pode vir a dividir a sociedade em duas subespécies, onde uma irá dominar a outra. 

"Teoricamente, em breve, talvez seja possível modificar o código genético de seres humanos para criar chamados assim super-humanos que teriam características alteradas para serem mais inteligentes, mais fortes e mais rápidos. Talvez, como resultado, a sociedade será dividida em duas subespécies, onde uma dominaria a outra", assinalou o cientista.


"Entretanto, acredito que a humanidade ainda esteja longe disso. Por enquanto, nenhum país civilizado realizou testes genéticos em humanos. Sendo uma comunidade global, devemos nos juntar para debater as questões de regulamento de uma possibilidade potencial de se mexer com genes humanos", acrescentou o cientista.

Quando perguntado sobre o medo diante das prováveis consequências destas modificações "para o melhor", Allen explicou por que, a seu ver, não devemos temê-las.

"Acredito que não devemos ter medo de descobertas científicas. Só devemos estar cientes das consequências acarretadas por nossas invenções, para que elas sirvam para o bem de todos. É importante levar em consideração não somente a situação atual, mas olhar para décadas adiante", ressaltou.


Stephen Hawking é considerado por muitos um gênio único e o físico mais brilhante desde Albert Einstein. O cientista foi o primeiro a estabelecer uma teoria da cosmologia explicada por uma união da teoria geral da relatividade e da mecânica quântica. Ele foi um partidário vigoroso da interpretação de múltiplos mundos da mecânica quântica.

O físico britânico morreu no dia 14 de março, em Cambridge. Os restos mortais de Stephen Hawking foram enterrados na Abadia de Westminster, ao lado de cientistas como Isaac Newton, Charles Darwin, J.J Thompson e Ernest Rutherford.

 

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018101812470884-stephen-hawking-dna-mutacoes-super-humanos-ameaca/

Nobel Morre na Miséria

(Dieter Dellinger, 15/10/2018)

liderman

Aos 96 anos de idade morreu, no passado dia 3, Leon Lederman, um dos pais dos Neutrinos, nomeadamente do Myon-Neutrino e também um dos construtores da teoria das partículas elementares.

Ledermann era americano de origem russa e judaica, nascido em Manhattan depois dos pais terem fugido ao bolchevismo russo.

Foi Prémio Nobel em 1988 e morreu com demência senil na miséria.

O seguro de doença não cobria já as despesas médicas nem a estadia numa casa para pessoas com a sua doença. Por sua vez, a reforma privada como a de quase todos os americanos sofreu uma forte erosão por via da queda das taxas de juro e, talvez, com a falência de alguns bancos ou seguradoras de reformas..

Ledermann teve de vender a sua medalha do Prémio Nobel, adquirida por favor pela sua universidade por 765.000 dólares e foi com essa quantia que se manteve nos últimos dez anos de vida com despesas médicas gigantescas como são as americanas.

Enfim, é o segundo Prémio Nobel da Física que morre nos EUA na miséria por via dos sistemas privados de saúde e reforma.

Saliente-se que isto é conhecido por se tratar de um cientista laureado com o Nobel, porque, ao mesmo tempo, morrem milhares ou milhões de americanos brilhantes ou apenas de classe média ou baixa na indigência porque as entidades privadas que tudo prometem pouco ou nada pagam quando é mesmo necessário e, por vezes, não existem mais quando se chega à idade da reforma.

Não devemos esquecer que o PSD e o CDS sempre lutaram pela chamada redução do Estado com a privatização total ou parcial da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde.

Imagine-se que milhares de portugueses teriam entregue ao BES o equivalente aos descontos para a reforma. Como estariam agora? Da mesma maneira que os lesados que eram pessoas a quem a propaganda da direita fez não acreditar no Estado, ou julgar que este iria à falência, quando afinal foi o BES que faliu e já engoliu mais de 8 mil milhões de euros para entregar a um fundo carteirista americano.

Ainda há pouco tempo o porta voz para a economia de Rui Rio falava nessa “reforma estrutural” do Estado. Sempre que algum economista fala em “reforma” do Estado é a isso que se refere.

Hoje, temos um Estado com défice praticamente zero, apesar da dívida, que nos dá a garantia de que haverá dinheiro para as reformas de todos os portugueses e para o Serviço Nacional de Saúde.

Mas, há gente dita de esquerda que considera um défice de 0,2 ou 0,3% uma subserviência ao capitalismo quando é precisamente o contrário. O Estado Social não pode ser algo para aumentar eternamente a dívida porque chegaria a uma situação de incapacidade para pagar as reformas, saúde, escola pública e salários dos seus funcionários e os credores são fundos capitalistas.

Há que salientar claramente. O Estado Social tem dois grandes inimigos, um à direita que quer acabar com ele e outro à esquerda que quer despesas tais que significam o seu fim. Contra ambos tem o PS de defender a grande conquista da democracia que é o Estado Social.

A Segurança Social de Portugal tem amplas reservas e consegue aumentá-las todos os anos. O seu orçamento é quase independente e conhecidas as suas contas, não indo dinheiros das reformas para outros fins. Portugal não constrói bombas atómicas, como certos estados que pretendiam e pretendem ser muito sociais, e gastamos pouco em tropas e armas.

Portugal com uma contabilidade equilibrada poderá renacionalizar a ANA, a EDP e a REN, deixando de ser uma colónia de chineses e franceses. Para isso, gastaria menos do já meteu no Novo Banco entregue a larápios americanos.

A ANA foi vendida por três mil milhões de euros, uma ninharia que já embolsaram com os lucros e a EDP/REN não foi por muito mais. Alguém ganhou com estes negócios, mas a Joana não quis investigar.

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Luta nos EUA: trabalhadores da Amazon conseguem aumento do salário mínimo para todos

Os trabalhadores da Amazon nos EUA conseguiram o aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora, após terem iniciado contactos para se sindicalizarem, mas a precariedade continua a ser regra.

A Amazon espera contratar cerca de 100 mil trabalhadores com vínculos temporários para a época natalícia. Para esses, o mínimo de 15 dólares por hora também será aplicadoCréditosFriedemann Vogel / EPA

A maior empresa de comércio digital do mundo anunciou na terça-feira o aumento do salário mínimo para todos os seus trabalhadores nos EUA para 15 dólares por hora, incluindo aqueles que estão a tempo parcial ou com contratos temporários, noticiou o The New York Times (NYT).

A medida, que entra em vigor a 1 de Novembro, seguiu-se à denúncia do The Intercept de que um terço dos trabalhadores da Amazon no estado do Arizona recorre ao programa público federal para apoio à compra de alimentos, dirigido a quem tem rendimentos mais baixos, uma situação que se repete noutros pontos dos EUA.

Sindicalização e reivindicação

No início de Setembro, os trabalhadores da maior cadeia de supermercados de produtos orgânicos, a Whole Foods Market, comprada há pouco mais de um ano pela Amazon, iniciaram contactos para se sindicalizarem, segundo relatava então o The Wall Street Journal.

33%

Um terço dos trabalhadores da Amazon no estado do Arizona depende de senhas de alimentação

As movimentações foram motivadas por alterações nas condições de trabalho impostas pelos novos donos, mas também a imposição de cortes nas remunerações. Em reacção à subida do salário mínimo, um dirigente sindical ouvido pelo NYTconsiderou que, sendo positiva é insuficiente, até porque se mantêm problemas, nomeadamente o peso esmagador dos vínculos precários. A empresa prevê contratar cerca de 100 mil trabalhadores para a época natalícia a título temporário, a somar aos 250 mil que emprega actualmente nos EUA.

O aumento do salário mínimo num dos maiores empregadores nos EUA é ainda reivindicado como uma importante vitória pelo movimento Fight for 15$ (Luta por 15 dólares), nascido em 2012, em Nova Iorque, da luta dos trabalhadores dos restaurantes de fast food por um salário de 15 dólares por hora. O salário mínimo federal está congelado nos 7,25 dólares desde 2007 e, apesar de em alguns estados ser superior, a maioria está abaixo dos dez dólares e em nenhum estado ultrapassa os 11,5 dólares por hora.

Património de Bezos cresce 10 mil dólares por hora

Os lucros da Amazon no segundo trimestre do ano subiram 12 vezes face ao mesmo período do ano passado, tendo-se tornado a segunda empresa avaliada em mais de 1 bilião de dólares, a seguir à Apple. O seu dono, Jeff Bezos, é considerado o homem mais rico do mundo, com um património avaliado em 165 mil milhões de dólares – mais de metade de toda a riqueza produzida num ano em Portugal.

10 000 $

O dono da Amazon, Jeff Bezos, ganha 10 mil dólares por hora – 666 vezes mais do que o novo salário mínimo na empresa

Face ao final do ano passado, quando Bezos se tornou no primeiro bilionário a passar a marca dos 100 mil milhões, a sua riqueza cresceu a um ritmo de 10 mil dólare por hora. Apesar de ser encarada como improvável, não rejeitou completamente a possibilidade de se candidatar à presidência dos EUA.

Para além das ambições do dono da Amazon, a empresa atravessa ainda um momento delicado nas relações com o poder político, que pode trazer dissabores ao nível da opinião pública: tem em curso um concurso entre cidades norte-americanas para a localização de uma segunda sede, para a qual há a expectativa de que sejam concedidos enormes benefícios fiscais.

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Cada vez mais desiguais

Por estes dias, a propósito de algumas iniciativas parlamentares sobre o assunto, tem-se discutido a desigualdade salarial nas empresas do nosso país. O caso não é para menos – nos últimos dez anos, a disparidade entre o topo e a base da distribuição dos salários aumentou de forma significativa. Nesta semana, um estudo elaborado pelo Expresso revela o panorama das 18 empresas cotadas que integram o PSI-20. O estudo confirma a tendência de aumento da disparidade salarial nestas empresas: entre 2010 e 2017, os gestores de topo (presidentes executivos, ou CEO’s) viram o seu rendimento aumentar 49,7%; ao mesmo tempo, o rendimento médio dos trabalhadores das empresas diminuiu 6,2%, o que faz com que o rácio médio entre o salário dos gestores e dos trabalhadores tenha aumentado de 24:1 para 33:1 (excluindo trabalhadores em regime de outsourcing,cujos vencimentos costumam ser ainda menores). É o retrato de um país cada vez mais desigual. O aumento da disparidade na distribuição dos salários foi acompanhado por uma diminuição do peso dos salários no PIB. A interpretação desta tendência é simples: os trabalhadores recebem uma parte cada vez menor da riqueza gerada no país. Segundo dados do INE, a parte dos salários em percentagem do PIB em 2009 era 37,4%, tendo depois diminuído até atingir o seu valor mínimo em 2015 - 34,2% do PIB (nos últimos três anos registou um tímido aumento).
Este aumento da desigualdade salarial é indissociável da evolução do emprego no mesmo período. Se é verdade que a taxa de desemprego oficial tem vindo a diminuir nos últimos anos, também o tipo de emprego criado se alterou profundamente. A precariedade tem ganho cada vez maior peso no mercado de trabalho em Portugal, tornando-se a regra entre os jovens, o que ajuda a explicar o cenário de baixos salários e fraco poder negocial dos trabalhadores. Os empresários e os economistas ortodoxos costumam justificar o comportamento dos salários com a evolução da produtividade. Na verdade, a teoria económica dominante diz-nos que a remuneração do trabalho é equivalente ao contributo relativo dos trabalhadores para a riqueza gerada, pelo que os salários aumentam se aumentar a produtividade do trabalho. Desta forma, excluem-se da análise as relações sociais entre quem emprega e quem trabalha - relações de hierarquia, poder e capacidade negocial, influenciadas por fatores como a legislação laboral em vigor, o nível do desemprego ou o contexto político. No entanto, ao contrário da tese habitualmente defendida, os números do INE contam uma história bem diferente – entre 2009 e 2018, enquanto os salários reais estiveram estagnados, a produtividade aumentou de forma constante.
Se é difícil aplicar a tese descrita à evolução dos salários dos trabalhadores das empresas, mais difícil ainda é procurar aplicá-la às remunerações dos gestores. Neste capítulo, os aumentos verificam-se mesmo em empresas que apresentam resultados negativos. Portugal não é, contudo, um caso isolado – na verdade, a desigualdade salarial tem aumentado na generalidade dos países mais desenvolvidos, sobretudo devido à estagnação dos rendimentos do trabalho, que já discutimos numa série de artigos anterior (aqui, aqui e aqui). Alarmados por esta tendência, vários autores têm alertado para os efeitos negativos da desigualdade no funcionamento das economias capitalistas. Joseph Stiglitz, que recebeu o equivalente ao prémio Nobel da Economia em 2001, tem sido um dos defensores mais destacados do combate às desigualdades. Num livro que escreveu recentemente, O Preço da Desigualdade, Stiglitz defende que a crescente disparidade de rendimento entre o topo e os trabalhadores prejudica a eficiência económica, uma vez que tem um efeito de diminuição do consumo e, por isso, da atividade económica e do lucro realizado. No entanto, os impactos da desigualdade salarial são bastante mais abrangentes. No Reino Unido, um estudo recente concluiu que os jovens com contratos precários (em particular os contratos zero-horas, com cada vez maior peso no mercado de trabalho britânico) costumam apresentar piores índices de saúde física e psicológica em relação aos restantes, além de terem maior probabilidade de desenvolver problemas relacionados com ansiedade e stress. Sociedades mais desiguais prejudicam a qualidade de vida das populações e tendem, por esse motivo, a ter um impacto negativo nos níveis de coesão social. Apesar de ter sido recebida com a relutância habitual por parte das associações de empresários, a discussão dos últimos dias vai ao encontro da tendência que se tem verificado nos países mais afetados pela desigualdade, descrita neste artigo. Como só se podia esperar - afinal, esta não reflete diferenças de mérito, não aumenta a eficiência económica e não pode ser o caminho de uma sociedade democrática e inclusiva. Combater a desigualdade salarial é, por isso, do mais elementar bom senso.

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CEO saem da crise com 50% de aumentos, trabalhadores perdem 6%

O abismo entre a remuneração média dos trabalhadores e a dos gestores de topo, nas empresas do PSI-20 em Portugal, aumentou durante o período da troika e continua a aumentar na actualidade.

António Mexia lidera a empresa mais lucrativa, a EDP, com um salário de 2,5 milhões de euros anuaisCréditosTiago Petinga / Agência LUSA

Durante o período de intervenção da troika em Portugal – entre 2010 e 2017 –, enquanto os trabalhadores viram a sua remuneração reduzida em 6,2%, «os presidentes-executivos (CEO) das empresas cotadas do PSI-20 ultrapassaram o período do resgate da troika com um aumento salarial de 49,7%», segundo noticia este fim-de-semana o Expresso.

A mesma fonte refere que, «há oito anos», as remunerações brutas anuais dos CEO das empresas do PSI-20 já eram, em média, «24 vezes» superiores «aos salários dos trabalhadores», mas que em 2017 os CEO chegaram a ganhar «33 vezes» mais do que estes.

Estamos a falar de média, porque o Expresso conhece «casos em que a remuneração do líder é 160 vezes superior ao salário médio auferido pelos trabalhadores que lidera», e a notícia prossegue referindo que «no período da recuperação da economia, a partir de 2013, quando o PIB bateu no fundo, a diferença é também abissal: 35,8% de aumento nos CEO e 6% nos trabalhadores».

O fosso alarga-se, é ainda maior do que parece...

«O Expresso analisou os relatórios e contas das 18 empresas cotadas que integram o índice principal da Bolsa portuguesa, para traçar a evolução das desigualdades salariais em Portugal entre 2010, o ano anterior à chegada da troika, e 2017, o último ano disponível», prossegue a notícia, na semana em que «a questão da disparidade salarial» foi levada a discussão no Parlamento, e a conclusão é inevitável: o «fosso» salarial «alarga-se» entre a remuneração dos gestores de topo e a da média dos trabalhadores da empresa.

Apesar desta enorme disparidade o Expresso calcula que a mesma possa assumir, na realidade, uma dimensão ainda maior, já que «a análise realizada» incidiu apenas sobre os «custos com pessoal» e o «número de funcionários» nos quadros da empresa. É preciso ter em conta que as grandes empresas, como aquelas que fazem parte do PSI-20, «integram» sistematicamente «trabalhadores em regime de outsourcing», com salários que «são normalmente inferiores aos praticados na empresa», e que se esse conjunto de trabalhadores pudesse ser incluído no estudo a desigualdade salarial relativamente ao CEO seria ainda mais acentuada.

O semanário conclui a sua análise com um conjunto de quadros que podem ser apreciados aqui, tal como a notícia na sua íntegra.

...e nem sequer é uma novidade

Em Março de 2018 o AbrilAbril noticiava que António Mexia ganhava 57 vezes mais que a média dos trabalhadores da EDP, referindo que o presidente executivo da EDP tinha ganho mais de 2,2 milhões de euros em 2017, entre remunerações e prémios, na sequência dos maiores lucros obtidos pela empresa nos últimos seis anos. A EDP registou lucros de 1,113 mil milhões de euros em 2017, contra 961 milhões em 2016. Em 2011 registara 1,12 mil milhões de euros.

A degradação das condições de vida dos trabalhadores e a lenta recuperação dos salários mais baixos levaram o PCP a apresentar, no passado dia 17 de Setembro, o Projecto de Resolução n.º 1808/XIII, sobre «Aumento do salário mínimo nacional», propondo que o mesmo seja fixado em 650 euros a partir do próximo dia 1 de Janeiro de 2019.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Obscenas desigualdades

Há números que justificam plenamente a nossa indignação pelas desigualdades vigentes na nossa sociedade e justificam que exijamos do governo a sua correção, senão acelerada, pelo menos sustentada numa discrepância bem menor entre os percentis de rendimentos mais elevados e os mais pobres.
Podemos considerar um exagero que o PCP pretenda que o Salário Mínimo Nacional seja aumentado para 650 euros já no próximo ano, invocando números do INE, demonstrativos em como, a ter havido correção anual aos valores da inflação do valor inicial aprovado depois do 25 de abril, já andaríamos nos 1267,7 euros - mais de acordo com a média europeia do que os miseráveis 580 euros atuais.
Mas já os administradores das grandes empresas não parecem incomodados por auferirem vencimentos obscenamente acima do que idêntica correção lhes facultaria se fosse levada em conta. É o caso da Jerónimo Martins onde o seu presidente recebe mais de 143 mil euros por mês, que equivale ao que uma sua trabalhadora do Pingo Doce conseguiria ao fim de vinte anos de trabalho. E até mesmo em relação ao salário médio no grupo essa diferença continua desregrada, porque equivale a mais de doze anos de trabalho.
Terá sido devido a esta realidade, que António Costa sinalizou, em recente entrevista, que a governação terá de agir. Importa que dê disso provas tão rapidamente quanto possível...

É tão fácil ser rico

(Francisco Louçã, in Expresso, 08/09/2018)

LOUCA3

As fortunas herdadas pesam, mas vão pesando cada vez menos. No caso dos mais poderosos da economia portuguesa só estão registados herdeiros


lista do “Jornal de Negócios” sobre os 100 mais poderosos em Portugal é um curioso exercício, que mistura empresários, governantes e outras profissões (este vosso escriba lá figura numa modestíssima posição). Mas olhemos para a parte da riqueza. Pelo topo da lista encontramos os óbvios: Pedro Soares dos Santos (na foto), Paula Amorim, Paulo Azevedo, Queiroz Pereira (e agora as suas filhas), Vasco de Mello. O que têm em comum é óbvio: a fortuna, as empresas, a influência são herdadas de avós ou pais. No topo da lista de empresários não entra mais ninguém.

Não é só pecadilho português. Um terço da riqueza total do 1% mais rico no mundo é herdada e, nos próximos vinte anos, 500 pessoas deverão deixar aos seus mais de dois milhões de milhões de dólares, mais do que o PIB da Índia, quase duas vezes Espanha. Mas então onde está o empreendedorismo, o capitalismo inventivo?

A CONFORTÁVEL HERANÇA

Uma pesquisa curiosa levada a cabo por dois investigadores do Banco de Itália sobre o fisco da Florença de 1427 revelou que, verificando os apelidos, as famílias ricas de então tiveram uma probabilidade muito mais elevada do que os outros de vir a gerar descendentes bafejados pela fortuna quase seis séculos mais tarde, em 2011. Os autores notam um “efeito duradouro do estatuto socioeconómico dos antepassados”.

Essas heranças são notórias em Itália, onde a tradição e os novos empresários surgem a par: na lista da “Forbes” temos cinco Pradas, a mais antiga família italiana de negócios, e os mais recentes, quatro Benettons, um Dolce, um Gabbana e um Armani. Aliás, grandes empresas mantêm o nome do fundador, como é o caso da Ferrari, comprada pelos donos da Fiat-Chrysler, os Agnellis, que dominam 10% de todo o mercado bolsista italiano (e a Juventus), o que, embora seja muito para os padrões europeus, é comum noutras paragens. Na Ásia, as dinastias são mais fortes: as primeiras 15 famílias de Hong Kong detêm riqueza no valor de 84% do PIB; na Malásia, a riqueza das 15 famílias mais ricas equivale a 76% do PIB, em Singapura a 48% e nas Filipinas a 47%. Em Portugal, as principais 10 famílias controlavam 34% da capitalização de mercado até ao colapso, em 2014, do grupo Espírito Santo. Em França e na Suíça são 29%. No caso da Suécia, os dois maiores grupos detinham 63% de todo o valor da bolsa. O grupo dominante, a família Wallenberg, representa quase metade, controlando a Ericsson, SAS, Nasdaq, SAAB, Electrolux, Atlas Copco, Café Ritazza, a AstraZeneca e dezenas de outras empresas. Na Alemanha, os Quandts, a nata da nata, são os principais acionistas da BMW, que agora inclui os Minis e Rolls-Royces.

A história repete-se ainda mais frequentemente nos países em desenvolvimento. No Equador, a família Naboa é dona da produção de bananas (a marca Bonita, quinto maior produtor mundial) e de 40% das exportações nacionais. Na Índia, os colossos são herdeiros: as famílias Tata (Tetley Tea, Jaguar, Land Rover e durante um tempo o maior produtor de aço da Grã-Bretanha), Birla (um conglomerado desde 1910) e Hinduja (petróleo, media, manufatura, saúde e banca). Na Coreia do Sul, os maiores conglomerados são heranças familiares, a Samsung, Hyundai, LG, CJ, Hanwha, Lotte, Hanjin e GS Group.

OS HERDEIROS ESTRAGAM TUDO?

Estas histórias nem sempre são de sucesso. O quadro geral é, aliás, soturno. Nas famílias grandes, a herança dispersa o poder. Se olharmos para o universo conhecido dos grupos familiares mundiais, apenas 30% dos herdeiros continuam a deter o poder na segunda geração, somente 12% na terceira e uns meros 3% na quarta e seguintes. A taxa de fracasso é elevada e após algumas gerações (regra geral, nunca mais de três ou quatro), a maior parte das dinastias colapsa. Mesmo sendo bastantes, os que sobrevivem são exceções, não são a regra.

Uma razão é que, com o tempo, o número de herdeiros cresce e pode atingir números avantajados. Na família Mulliez (dona da Auchan, Decathlon e Leroy-Merlin Boulanger), mais de 600 elementos da família possuem ações da empresa-mãe, seguindo todos um pacto interno rígido que garante a coesão da liderança da empresa. A família francesa Wendel emprega mais de um milhar de membros da família nas suas empresas Saint-Gobain e Nippon Oil Pump.

De acordo com um estudo da “Forbes” sobre a riqueza dinástica, nos EUA os Rockefellers são 200 (com uma riqueza de 8,5 mil milhões de dólares), os Mellons são 100 pessoas (com 10 mil milhões) e os Du Ponts 300 (com 12 mil milhões); a França tem a família Michelin (400 pessoas com 1,2 mil milhões); a Alemanha as famílias Porsche e Piech, donos da Volkswagen (50 pessoas com 10 mil milhões), a Boehringer (12 membros que possuem 10,2 mil milhões) e a Merck (100, donos de quatro mil milhões); no Canadá encontramos a família Bombardier (sete pessoas com 2,7 mil milhões); e, espalhada pela Europa e pelos EUA, está a velha família Rothschild (10 elementos com 1,5 mil milhões de dólares).

Na China, nada menos do que 103 descendentes dos “oito imortais”, dirigentes da revolução de Mao Tsé-Tung, chefiam empresas estatais. Três deles gerem empresas cujos ativos, combinados, são um quinto da economia chinesa. Na gigantesca empresa Dalian Wanda — que afirma ter “120 vezes mais funcionários do que o Vaticano” e tem propriedades em Beverly Hills, os cinemas AMC e 20% do Atlético de Madrid —, há ações reservadas para a irmã do Presidente Xi Jinping e para a filha do antigo primeiro-ministro Wen Jiabao.

HERDEIROS E EMPRESÁRIOS

Caroline Freund, antiga economista-chefe do Banco Mundial, estudou a ascensão dos herdeiros, comparando-os com as fortunas emergentes recentes. A sua pesquisa baseia-se na lista de multimilionários da “Forbes”, e verificou que a percentagem dos que devem a sua posição à herança tem vindo a decair, embora ainda seja elevada: passou em duas décadas de 55% em 1996 para cerca de 30% em 2014. Não obstante, nas economias mais ricas, esse valor ultrapassa a média, chegando a um terço nos EUA e no mundo, e a pouco mais de metade na Europa.

Cá está, as fortunas herdadas pesam, mas vão pesando menos. A pergunta que então fica é: porque é que neste tipo de listas portuguesas só estão registados herdeiros que começaram a vida com a colher de prata na boca? A resposta é que são só eles, pois os capitalistas que criaram a sua empresa não chegam lá. Prometeram-nos uma sociedade mais horizontal, é mais vertical; mais democrática, mas está mais fechada; mais aberta, mas é só para a geração dos herdeiros.


A riqueza é de direita?

Dois estudos recentes sobre o enviesamento político da elite económica ou, como antigamente se dizia, da burguesia, apresentam resultados esclarecedores. Três professores das universidades de Northwestern e Vanderbilt, Page, Bartels e Seawright estudaram as opiniões do 1% do topo da escala social nos Estados Unidos, quem tem mais de 40 milhões de dólares. Esta gente, revelam os seus dados, tem uma taxa de participação eleitoral que é o dobro da média nacional, dois terços deles financiam campanhas políticas, sendo mais de metade republicanos e menos de um terço democratas. O mais interessante, embora não surpreendente, é a sua profunda assimilação da ideologia conservadora e neoliberal contra a intervenção do Estado, mesmo na educação e na saúde. Este 1% de mais ricos, que em 30 anos viu a sua fortuna crescer 300% (os 50% de baixo ficaram na mesma), tem alma trumpista.

Outros dois investigadores, Derek Epp, da Universidade do Texas, e Enrico Borghetto, da Universidade Nova de Lisboa, estudaram nove países europeus por um longo período, entre 1941 e 2014, e fizeram a seguinte pergunta no seu artigo “Desigualdade económica e agenda legislativa na Europa”: com o crescimento da desigualdade, como evolui a agenda legislativa? Responde às dificuldades sociais ou agrava-as?

A resposta da sua massa de dados sobre as legislações destes países é conclusiva: quando aumentou a desigualdade, a agenda parlamentar e governativa tornou-se mais enviesada e vulnerável aos interesses da elite social, mais míope nas questões sociais. O que foi reforçada foi a legislação sobre a ordem social, a contenção da imigração e a defesa, e não a que trata de redes de segurança social.

Ou seja, se a vida parlamentar e a responsabilidade governativa são tão vulneráveis a interesses, este sistema oligárquico é cada vez mais deficitário em democracia.

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Um Mundo Rico cheio de Pobres

(Dieter Dellinger, 08/09/2018)

POB_RICOS

Não se pode dizer que os 7,6 milhares de milhões (biliões) de habitantes do nosso Planeta tenham de ser obrigatoriamente pobres.

Considerando que o PIB mundial em PPC é de 134.981 milhares de milhões de dólares, temos um PIB per capita mundial de 17.760,65 dólares anuais que dá 1.480 dólares mensais ou Euros 1.272,48 ao câmbio de hoje por cada habitante do planeta. O cálculo é feito por 12 meses do ano, já que na maior parte dos países só são pagos 12 ordenados por ano.

Então porque razão há tantos pobres no Mundo, tanto maioritariamente nos países muito pobres como em percentagem significativa nos países ditos ricos?

Sucede que mais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar às mãos dos 67 milhões de habitantes mais ricos que representam 1% da população mundial, como informa a organização não-governamental Oxfam. ou Comissão de Combate à Fome com sede em Oxford.

O PIB desse 1% da população (67 milhões de homo sapiens) é da ordem dos 161.170,14 dólares por pessoa e, mesmo assim, está mal distribuído por haver quem tenha muito mais e menos, sendo ainda rico. O verdadeiro número dos super multimilionários ou oligarcas ronda os 2.043 no Mundo e a sua riqueza aumenta em média 13% ao ano, ou seja, 762 mil milhões de dólares, verba que daria para acabar com a pobreza extrema no mundo e cerca de seis vezes o aumento global dos salários dos trabalhadores no Planeta que terá sido da ordem dos 2% ou menos.

O aumento indecoroso da riqueza multimilionária não é um sinal de prosperidade no Mundo, mas pelo contrário, corresponde ao aumenta da pobreza geral.

Efetivamente, metade da população mundial, cerca de 3,8 mil milhões de habitantes auferem rendimentos diários entre os 2 e os 10 dólares que podem dar 630 a 3150 dólares anuais.

Enquanto o 1% mais rico ficou com 27% do crescimento do rendimento global entre 1980 e 2016, a metade mais pobre do mundo ficou com 13%, refere o relatório.

Só o dinheiro dos multimilionários (762 biliões) dariam 200 dólares a cada um dos 3,8 biliões de pessoas de metade dos habitantes do Planeta e há ainda o dinheiro dos 65 milhões de ricos que distribuído pela metade resolveria os problemas da pobreza.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Desigualdades

Notícias recentes, trouxeram para a ribalta a questão das desigualdades de rendimento na pirâmide laboral e se o ECONÓMICO nos informou que um «CEO inglês ganha num ano o que um trabalhador ganha em 134 anos», já o EXPRESSO optou por perguntar «Quanto vale um presidente executivo? 312 vezes mais do que um empregado»…

… acrescentando no corpo da notícia e para tranquilidade nacional que «…é essa a diferença de ganhos financeiros nos EUA, segundo um relatório agora publicado. Noutros países a diferença, embora ainda muito grande, é menor».

Não sendo nova, a questão da desigualdade salarial entre a base e o topo da pirâmide laboral tem-se agravado substancialmente. Assim, se na década de 60 do século passado e para os EUA a diferença entre o topo e o salário médio era da ordem de 20 para 1, os anos 80 (o período da administração Reagan) viram aquela relação disparar até atingir os valores actuais, que se são menores na Europa (134 para 1 na Inglaterra e 71 para 1 em França) nem por isso deixam de ser menos significativos ou questionáveis. Em Portugal o cenário é em tudo idêntico, pois relativamente a 2016 e apenas para as empresas cotadas no PSI20, esse rácio era 46 para 1, com a agravante revelada pelo DN:

dos rendimentos dos gestores terem aumentado mais de 40% entre 2014 e 2016 contra pouco mais de 16% para os custos (salários e encargos sociais) com pessoal.

A OXFAM,uma confederação de organizações que actua em vários países na busca de soluções para os problemas da pobreza e da desigualdade, apresentou no início deste ano um relatório onde revelou que a riqueza anualmente produzida está guardada nas mãos de muito poucos; nele se pode ler que mais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 pertence a 1% da população mundial, enquanto 50% desta recebeu praticamente nada. Os números da desigualdade ganham ainda outra expressão quando ficamos a saber que no último ano a riqueza dos mais ricos aumentou 762 mil milhões de dólares (quase quatro vezes o PIB nacional e, segundo a mesma OXFAM, o suficiente para eliminar sete vezes a pobreza extrema) e que na última década os trabalhadores por conta doutrem viram o seu rendimento aumentar a uma média de 2% ao ano enquanto os multimilionários viram a sua riqueza aumentar a uma taxa média anual de 13%.

Claro que de pronto surgiram vozes acusando o relatório de desonestidade intelectual, defendendo os benefícios da globalização económica e lembrando os milhões de pessoas que esta já retirou da pobreza extrema; o que não sendo mentira também não nega os níveis crescentes de desigualdade e a conjunção de cenários cada vez menos optimistas sobre a evolução do emprego e do rendimento de quem dele depende como única fonte de receita.

Este pocesso de empobrecimento remonta há algumas décadas e tem o seu sustentáculo ideológico no conceito do chamado trickle down economics, que mais não é que a crença (chamo-lhe assim porque além da fraca sustentação técnica o exemplo prático de várias décadas da sua aplicação nas mais variadas regiões do planeta não tem comprovado a teoria) de que as reduções de impostos e outros benefícios fiscais de que beneficiem as empresas e as famílias mais ricas, acabarão por se converter também em benefícios para os segmentos menos favorecidos do conjunto da população.

Embora a sua entrada no léxico corrente seja recente, a origem do conceito é bastante antiga e por isso mesmo são estatisticamente observáveis os efeitos práticos da sua aplicação, mesmo quando a simples observação empírica bastaria para o refutar. Sem truques nem malabarismo desnecessários basta recordar que o período áureo dos seus defensores coincidiu com a aplicação da chamada Reaganomics, ou seja, o predomínio das teorias económicas orientadas para o lado da oferta e directamente influenciadas pela teoria monetarista de Milton Friedman, durante a vigência da administração Reagan.

Daqui a transformar esta corrente de pensamento na espinha dorsal dos tecnocratas do FMI e do Banco Mundial e a “exportá-la” por esse mundo fora, foi apenas um pequeno passo. Aproveitando os pedidos de auxílio financeiro dos Estados em maiores dificuldades económicas, transformando aqueles princípios em condições obrigatórias, foram os Estados convertidos em presas fáceis de interesses espúrios, que rapidamente os desfiguraram em estruturas economicamente dependentes do fornecimento de bens e serviços básicos.

Foi assim que assistimos durante a última geração a uma expansão forçada da globalização (com o que este conceito apresenta de mais prejudicial em termos de aculturação e de destruição de tecidos produtivos autóctones) e á difusão da ideia das enormes vantagens que adviriam para todos duma política de reduções fiscais para uma minoria que não podia deixar de gerar benefícios colectivos. Baixaram-se os impostos sobre os lucros (em especial os das grandes empresas de capitais transnacionais), sobre os rendimentos de capital (gerados nos mercados globais de acções e nos recém inventados offshores financeiros), liberalizaram-se mercados (eliminando barreiras alfandegárias e normas protectoras de territórios e trabalhadores) para chegarmos à situação em que os Estados, privados de receitas suficientes se viram empurrados para o recurso ao endividamento como única via para o financiamento das suas políticas.

Independentemente da qualidade destas políticas, o resultado hoje visível foi o empobrecimento geral das famílias e dos Estados (mais gravoso ainda quando o endividamento foi canalizado para investimentos de duvidosa ou nula rentabilidade económica e social), e o aproveitamento que do mesmo está a ser feito. A lista de prejudicados já vai longa e nela se incluem Estados da América Latina, empurrados nos anos 80 e 90 do século passado pela situação de défices crónicos nas suas balanças comerciais, países do Sudoeste Asiático, empobrecidos pelo sistema de comércio mundial e pela fragilidade das suas divisas, a Rússia, economicamente devastada na sequência da desagregação da União Soviética, e agora os países periféricos da Zona Euro.

Mais recentemente surgiu na Europa uma versão actualizada do conceito do trickle down, onde impera a ideia de que uma austeridade expansionista – traduzida nas palavras dum dos seus campeões, Passos Coelho, como um processo de empobrecimento que nos conduzirá à riqueza – constituirá a panaceia salvadora e remissora de todos os nossos males. Asseguram-nos que um aumento selectivo de impostos (directos e indirectos sobre os assalariados), uma redução de salários (em termos efectivos e/ou através do aumento dos horários de trabalho) e de prestações sociais, tudo factores que reduzirão o rendimento disponível das famílias e a receita directa do Estado, constitui a melhor solução mas não explicam o seu evidente fracasso, bem expresso nas dificuldades continuadas da Grécia ou na constatação de que em Portugal a dívida pública continua acima dos 125% do PIB.

Ver artigo original em "O TORNADO"

A construção social da obesidade

Uma investigação estatística sobre o grande aumento de peso das populações ocidentais, em 40 anos, revela: as causas essenciais são invasão dos ultraprocessados e a ideia de que engordar é culpa individual

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho| Imagem: Fernando Botero

Quando vi a foto, mal pude acreditar que era o mesmo país. O retrato da praia de Brighton, em 1976, estampada pelo Guardian algumas semanas atrás, parecia mostrar uma raça alienígena. Quase todo mundo era magro. Mencionei isso nas mídias sociais, e saí de viagem nos feriados. Quando voltei, encontrei as pessoas ainda debatendo o assunto. A discussão estava quente e me levou a ler os comentários. Como teremos mudado tanto, tão rápido? Para meu espanto, quase todas as explicações propostas revelaram-se falsas.

Lamentavelmente, não há no Reino Unido dados consistentes sobre obesidade anteriores a 1988, quando a incidência já estava aumentando bastante. Mas nos EUA os dados foram levantados bem antes. Eles mostram que, por acaso, o ponto de inflexão foi mais ou menos 1976. De repente, por volta do momento em que a foto foi feita, as pessoas começaram a tornar-se mais gordas, e desde então a tendência se manteve. A explicação óbvia, insistiam muitas daquelas pessoas que comentaram a foto, é que estamos comendo mais. Vários apontaram, não sem razão, que nos anos 1970 a comida era geralmente muito ruim. Era também mais cara. Havia menos restaurantes de fast food e as lojas fechavam mais cedo, de modo que se você perdesse seu chá ficaria com fome. Mas eis aqui a primeira grande surpresa: nós comíamos mais em 1976.

Segundo cálculos do governo, atualmente consumimos uma média de 2131 kcals [quilocalorias] por dia, um número que parece incluir doces e álcool. Mas em 1976 consumíamos 2280 kcal, excluindo álcool e doces, ou 2590, quando os incluímos. Isso pode ser verdade? Não encontrei razão para duvidar desses números.

Outros insistiram que a causa é o declínio do trabalho manual. De novo, isso parece fazer sentido, mas, novamente, não pode ser sustentado pelos dados. Um artigo publicado no Jornal Internacional de Cirurgia afirma que “adultos trabalhando em serviços manuais não especializados têm probabilidade mais de 4 vezes maior de ser classificados como obesos mórbidos, quando comparados com profissionais especializados.

E quanto a exercícios voluntários? Um monte de gente argumentava que, como dirigimos, ao invés de caminhar ou andar de bicicleta, ficamos parados diante de nossas telas e fazemos nossas compras online, exercitamo-nos muito menos do que antes. Parece fazer sentido – e então, lá vai a próxima surpresa. Segundo um estudo de longo prazo da Universidade Plymouth, a atividade física das crianças é hoje a mesma de 50 anos atrás. Um artigo do Jornal Internacional de Epidemiologia revela que, corrigido o tamanho do corpo, não há diferença entre a quantidade de calorias queimadas pelas pessoas nos países ricos ou pobres, onde a norma continua a ser a agricultura de subsistência. Propõe não haver relação entre atividade física e ganho de peso. Vários outros estudos sugerem que exercitar-se, embora crucial para outros aspectos da saúde, é de longe menos importante que a dieta, para regular nosso peso. Alguns sugerem que não tem papel nenhum, uma vez que, quanto mais nos exercitamos, mais famintos ficamos.

Outras pessoas apontaram fatores mais obscuros: infecção por adenovirus-36, uso de antibiótico na infância e produtos químicos disruptivos do sistema endócrino. Embora haja evidências sugerindo que todos eles têm seu papel, e ainda que possam explicar algumas das variações no ganho de peso por pessoas diferentes com dietas semelhantes, nenhum deles parece ser suficientemente poderoso para explicar a tendência geral.

Então, o que aconteceu? A luz começa a surgir quando se olham os dados sobre nutrição mais detalhadamente. Sim, comíamos mais em 1976, mas comíamos de modo diferente. Hoje, compramos metade do leite fresco por pessoa que comprávamos; mas cinco vezes mais iogurte, três vezes mais sorvete e – veja só – 39 vezes mais sobremesas lácteas. Adquirimos metade dos ovos que adquiríamos em 1976, mas um terço a mais de cereais para o café da manhã e duas vezes mais cereais para o lanche; metade das batatas inteiras, mas três vezes mais batatas fritas. Embora nossa compra de açúcar tenha caído fortemente, o açúcar que consumimos em bebidas e doces provavelmente disparou (só há números sobre compra a partir de 1992, quando estava aumentando rapidamente. Talvez, já que em 1976 consumíamos apenas 9 kcal por dia em forma de bebida, ninguém imaginou que valesse a pena levantá-los). Em outras palavras, as oportunidades de sobrecarregar nossos alimentos com açúcar aumentaram. Como alguns especialistas propuseram há muito tempo, essa parece ser a questão.

A mudança não aconteceu por acaso. Como argumentou Jacques Peretti em seu filmeO homem que nos tornou gordos, temos sido goleados deliberada e sistematicamente. A indústria alimentícia investiu pesadamente na criação de produtos que usam açúcar para driblar nossos mecanismos de controle do apetite, embalando-os e promovendo-os de modo a romper o que resta de nossas defesas, inclusive pelo uso de odores subliminares. Emprega um exército de cientistas e psicólogos para nos levar a comer mais junk food (e portanto menos alimentos integrais) do que necessitamos, enquanto seus publicitários usam as últimas descobertas da neurociência para romper nossa resistência.

Ela contrata cientistas corruptos e thinktanks  para nos confundir a respeito das causas da obesidade. Sobretudo, assim como a indústria do tabaco fez com o cigarro, promove a ideia de que manter o peso é uma questão de “responsabilidade pessoal”. Depois de gastar bilhões para anular nossa força de vontade, culpa-nos por não queimar calorias fazendo exercícios.

A julgar pelo debate desencadeado pela foto, tudo isso funciona. “Não há desculpa. Assumam responsabilidade por sua própria vida, gente!”. “Ninguém te força a comer junk food, é uma escolha pessoal. Não somos ratos de laboratório.” “Às vezes penso que ter um sistema de saúde gratuito é um erro. Todo mundo poder ser preguiçoso e gordo, porque há uma sensação de que se tem o direito de ser cuidado.” A emoção da desaprovação coincide desastrosamente com a propaganda da indústria. Temos prazer em culpar as vítimas.

Ainda mais alarmante, de acordo com um artigo do Lancet, mais de 90% daqueles que elaboram políticas públicas acreditam que “motivação pessoal” é “uma influência forte ou muito forte no aumento da obesidade”. Essas pessoas não explicam quais os mecanismos que levaram 61% dos ingleses que estão acima do peso ou obesos a perder sua força de vontade. Mas essa explicação improvável parece imune a evidências.

Talvez isso aconteça porque a gordofobia é frequentemente uma forma disfarçada de esnobismo. Na maioria das nações ricas, as taxas de obesidade são muito mais altas na base da pirâmide socioeconômica. Elas estão fortemente relacionadas com a desigualdade, o que ajuda a explicar por que a incidência no Reino Unido é maior do que na maioria das nações da Europa e da OCDE. A literatura científica mostra como baixo poder aquisitivo, estresse, ansiedade e depressão associados com status social inferior torna as pessoas vulneráveis a más dietas.

Assim como as pessoas sem emprego são culpabilizadas pelo desemprego estrutural, e as pessoas endividadas são culpabilizadas pelos custos impossíveis da moradia, as pessoas gordas são culpabilizadas por um problema social. Sim, a força de vontade precisa ser praticada – pelos governos. Sim, precisamos de responsabilidade pessoal – por parte de quem elabora as políticas públicas. Sim, o controle necessita ser exercitado – sobre aqueles que descobriram nossas fraquezas e as exploram impiedosamente.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/a-construcao-social-da-obesidade/

 

Triplica o número de idosos falidos nos EUA*

Nas extremas desigualdades verificadas na sociedade estado-unidense o grupo social dos trabalhadores idosos veio juntar-se aos outros grupos sociais marginalizados e condenados à miséria: negros, hispano-americanos, desempregados de todas as etnias. Desde 1991, triplicou o número de pessoas com mais de 65 anos que se declaram falidas e incapazes de fazer face a dívidas crescentes. Tal como na crise de 1929 teriam que trabalhar até morrer, se tivessem a sorte de ter trabalho.

Pensões em queda, preço dos seguros de saúde a aumentar, magras poupanças e reformas privadas sujeitas aos humores dos mercados. Segundo o Consummer Bankruptcy Project, a conjugação destes factores está a gerar uma «tempestade perfeita» nas camadas mais envelhecidas da classe trabalhadora estado-unidense. Desde 1991, triplicou o número de pessoas com mais de 65 anos que se declaram falidas e incapazes de fazer face a dívidas crescentes. Se estivermos a falar das pessoas com mais de 75 anos, o número de falências multiplica-se por dez.

Milhões de idosos, que trabalharam toda uma vida nos EUA, vêem desaparecer diante dos seus olhos a rede de segurança que, desde as reformas de Lyndon B. Johnson e Franklin Roosevelt, protegia os trabalhadores na velhice. Cresce a lista de serviços médicos que não são cobertos pelo Medicare, o serviço mínimo de saúde pública para reformados e pensionistas; aumentou para os 70 anos (antes era 65) a idade em que se pode aceder a uma pensão da Segurança Social; vulgarizaram-se os «401(k)», os planos poupança-reforma controlados pelo patronato e sujeitos à especulação, compra e venda das reformas dos trabalhadores.

A consequência, aponta o estudo liderado por Deborah Thorne, foi a duplicação do valor que, em média, as pessoas com mais de 65 anos devem aos bancos.

Trabalhar até morrer

Para sobreviver, cada vez mais idosos estado-unidenses têm de trabalhar até ao último dia de vida. Segundo o Gabinete de Estatísticas do Trabalho da Casa Branca, os trabalhadores com mais de 75 anos representam uma fatia cada vez maior da população activa e correspondem já a 85 por cento do crescimento total da força de trabalho.

Para os autores do estudo, trata-se de «alterações estruturais» que se irão agravar ainda mais nas próximas gerações, à medida que o Estado assume cada vez menos responsabilidades sociais e o endividamento aumenta desde a juventude. Um cenário que, afiança Deborah Thorne, já aconteceu no passado: «durante a Grande Depressão, aproximadamente dois terços dos americanos mais velhos viviam na miséria, sob o terror de uma terceira idade sem um cêntimo, nem apoios». Para os autores, é esse cenário dos anos trinta que se avizinha nas próximas décadas.

Desde os anos 2000 que a pobreza não pára de aumentar nos idosos. Em 2016, o último ano de que são conhecidos dados do Gabinete de Estatística, as pessoas com mais de 65 anos foram mesmo o único grupo etário que, em média, empobreceu: num ano, o índice de pobreza dos idosos dos EUA aumentou 2,1 por cento.

Como notam os autores do estudo, estas alterações são estruturais: em 2018 o capitalismo já não consegue oferecer aos trabalhadores a perspectiva de uma velhice tranquila, confortável e descansada. Diz-nos que, apesar do formidável desenvolvimento tecnológico e produtivo dos nossos tempos, devemos trabalhar até morrer, como na crise capitalista de 1929.

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Ao serviço do porno-riquismo

Se as ideias dominantes são as ideias da elite dominante, se estamos numa forma de capitalismo histórico com desigualdades de novo pornográficas e com formas correspondentes de consumo ostentatório – o porno-riquismo –, então não é de espantar que os centros (re)produtores de conhecimento traduzam de formas cada vez mais variadas o estado de coisas fixado pelo dinheiro concentrado. Por exemplo, já temos actividades ditas de formação para executivos na área do luxo, marcas de luxo, casas de luxo, todo o conhecimento ao serviço do egoísmo a que os ricos são atreitos, da emulação consumista assim gerada, do desperdício sistemático, da busca incessante, e de soma nula, de distinção e de posição sociais, em que para uns terem outros têm necessariamente de ser excluídos. Trata-se de um conhecimento ao serviço do porno-riquismo. Este tipo de conhecimento, ainda que de formas por vezes menos directas, é, na realidade, apanágio de toda a sabedoria económica convencional. Existe hoje toda uma imprensa moralmente corrosiva que ecoa este conhecimento, idolatrando os ricos cada vez mais ricos, os que circulam frequentemente em busca de vantagens fiscais, os grandes beneficiários de paraísos fiscais, dos chamados vistos gold e de outras prebendas associadas à circulação sem entraves do capital. Esta liberdade de circulação foi reconquistada nos anos oitenta e noventa graças à integração europeia, não se esqueçam. A liberdade de uns é a submissão de outros. Os cada vez mais exigentes standards pecuniários dos ricos cada vez mais ricos infectam cada vez mais este país. Numa homenagem certamente inadvertida ao economista institucionalista Thorestein Veblen, o Diário de Notícias(DN), em versão agora minguada, tem um suplemento mensal dedicado ao luxo chamado Ócio. Veblen foi o autor, em 1899, do agora clássico A Teoria da Classe Ociosa, que será em breve editado entre nós, cunhador aí da noção de consumo conspícuo e um dos seus analistas críticos mais lúcidos. Um livro de uma era anterior de porno-riquismo que nos deixa pistas bem úteis para esta nova era de desigualdades pornográficas. Entretanto, a coordenadora de cursos universitários dedicados ao luxo, Helena Amaral Neto, que já naturalmente escreveu para este suplemento, tinha antes afirmado ao DN que a arrancada do luxo no país data por sinal do ano dois da troika, 2012, estando associado ao “movimento do imobiliário, que depois gerou turismo”. Todo um país desigualmente pornográfico, em modo Florida da Europa, começava a ser literal e mateforicamente reconstruído. Aqui chegados, e para atar provisoriamente as pontas soltas, sugiro que revisitemos a declaração de Miguel Sousa Guedes, CEO da Amorim Luxury e marido da milionária-herdeira Paula Amorim: “não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados”. É preciso não esquecer que o apelido Amorim está associado ao luxo, mas também ao rentismo fundiário e à especulação imobiliária, tendo a Herdade da Comporta agora na sua mira, sem esquecer o fundamental: a Amorim Energia, empresa sediada na Holanda para receber dividendos, com o mínimo de impostos, da Galp. Ou seja, estão sempre a beneficiar fiscalmente. E isto está ludo pornograficamente ligado pela integração europeia, o nome da globalização mais intensa em parte deste continente.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

No centenário de Mandela, cresce o abismo entre pobres e ricos

A quarta-feira (18) entrou para a história porque em 1818 nascia nessa data Nelson Rolihlahla Mandela, um dos principais líderes mundiais do século 20. Com sua trajetória de combate ao apartheid (regime de segregação racial de 1948 a 1994), Mandela se transformou num dos principais símbolos de resistência ao racismo e à violência do Estado contra a maioria da população sul-africana e ultrapassou fronteiras ao se tornar um líder mundial na luta antirracista no mundo.

Por isso, Organização das Nações Unidas (ONU) transformou o dia do seu aniversario, 18 de julho, como o Dia Internacional Nelson Mandela.

A vida desse ícone deve ser reverenciada porque se dedicou integralmente a uma causa. E mesmo preso não se rendeu e pôde levar seu povo ao poder acabando com a segregação e a desumanização da maioria da população sul-africana”.
Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)

Mantido prisioneiro por determinação da CIA (agência de espionagem estadunidense), passou 27 anos na prisão do regime segregacionista da África do Sul, conquistando a liberdade em 1990 para se tornar o primeiro presidente negro do país em 1994, cargo que só deixaria em 1999, com amplo apoio popular.

“Com a força de um libertador traduziu a luta contra a apartheid, pela luta dos direitos civis, humanos e pela soberania de seu país”, afirma Mônica. O líder negro faleceu no dia 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, deixando um legado como poucos de resistência e abnegação pela causa de um mundo mais justo e igual.

Com muita justiça recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1993, pela sua trajetória em favor dos oprimidos, porque a sua luta transcendeu as fronteiras-sul-africanas e frutificou pelo mundo. “O valor deste prêmio que dividimos será e deve ser medido pela alegre paz que triunfamos, porque a humanidade comum que une negros e brancos em uma só raça humana teria dito a cada um de nós que devemos viver como as crianças do paraíso”, disse em seu discurso na premiação do Nobel da Paz que dividiu com o último presidente branco de seu país, Frederik de Klerk.

Carinhosamente chamado por seu povo de Madiba, virou referência mundial pela paz e pela emancipação humana. “Primeiro presidente livre de uma das nações que compõe o berço da humanidade, Mandela se constrói no cenário contemporâneo das lutas de classe, e de direitos como um herói para vários povos em todo mundo”, acentua Mônica.

Muitas comemorações ocorrem na África do Sul e em diversos países para homenagear um dos grandes homens que a humanidade conheceu. No âmbito progressista popular, Mandela tem a grandeza equivalente a Martin Luther King, Fidel Castro, Che Guevara, Mahatma Ghandi, Malcolm X, Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva. Todos que lutaram em favor de seus povos, da igualdade de direitos e por um mundo de paz e justiça.

Sua trajetória de combate à segregação racial imposta pela minoria branca, oficializada em 1948, Mandela deixou sua terra natal para cursar Direito na primeira universidade para negros da África do Sul. Despontava aí o grande líder que viria a ser. Em 1952, é eleito presidente do Congresso Nacional Africano (CNA), principal organização sul-africana contra o apartheid pela democracia, que marginalizava a imensa maioria da população sul-africana, com mais de 80% constituída de negros.

Defensor da luta pacifista mudou sua trajetória a partir do Massacre de Shaperville em 21 de março de 1960, quando uma manifestação pacífica de aproximadamente 5 mil negros contra a Lei do Passe, que os obrigava a manter uma caderneta na qual dizia onde eles poderiam ir. O protesto foi duramente reprimido causando 69 mortes e 180 pessoas ficaram feridas. Justificou a mudança de posição do CNA ao declarar mais tarde que “nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições”, sintetizou o pensamento de seus compatriotas.

Para a sindicalista carioca, “a grandiosidade de Mandela se forjou na luta cotidiana de seu povo, como se forjam os grandes heróis. Ele se tornou um dos maiores símbolos da luta por um mundo mais igual”.

Ele iniciou sua trajetória fundando a Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano para organizar os jovens e orientar suas atividades por participação na vida política do país. Foi Mandela quem dirigiu o braço armado do CNA, após perceber que a luta pacífica enfrentava enormes dificuldades de execução, devido à repressão da minoria branca. Dessa forma, transformou-se no mais importante líder popular da história da África do Sul e pela liderança na luta contra o racismo e pela democracia constituiu-se numa figura exponencial para todos os que acreditam num futuro melhor para todos.

Mandela é uma dessas pessoas raras, abnegadas, que dedicam a vida à causa da humanidade para levar a mensagem de fé na própria humanidade e na justiça social com liberdade e igualdade de direitos. Por isso, conhecer a vida de Nelson Mandela é conhecer a história da África do Sul e do mundo do século 20.

Mesmo assim, lembra Mônica, “vivemos uma onda conservadora com uma taque brutal aos direitos humanos e à liberdade de ir e vir das pessoas”. Ela se refere às imensas dificuldades colocadas pelas nações do Primeiro Mundo à entrada de imigrantes, em sua maioria, pretos e pobres, atesta o Atlas da Violência 2018.

Para piorar, a Organização Não Governamental britânica Oxfam mostra que em 2017 82% da riqueza produzida ficou nas mãos de apenas 1% da população mundial, enquanto metade dos mais pobres ficou sem nada.

No Brasil, um dos países de maior concentração de renda, uma pessoa que receba um salário mínimo por mês tem que trabalhar 19 anos para ganhar o salário mensal de 0,1% da população.

Essa disparidade cruel reforça “os ataques aos imigrantes oriundos de países pobres é perverso, enquanto imigrantes brancos de países ricos são festejados”. Além disso, somente em 2016 foram assassinados mais de 30 mil jovens entre 15 e 29 anos no país, 70% negros, pobres, moradores da periferia.

Por essas e outras a Organização das Nações Unidas transformou o dia do seu aniversario, 18 de julho, como o Dia Internacional Nelson Mandela. Por isso, “devemos mais do que nunca, levantar bem alto a bandeira pela liberdade, pela superação da exploração do homem pelo homem, por igualdade de direitos, e paz no mundo”, reforça Custódio.

Para ela, Mandela é um dos principais heróis da luta contra o racismo no mundo e, por isso, seu centenário deve ser celebrado por todos os que acreditam no mundo novo e no homem novo.

Por Marco Aurélio Ruy | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (CTB) / Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

Pornoriquismo

Há um novo estilo emergente de reportagens dedicadas ao pornoriquismo dos novos donos estrangeiros, ou como se o fossem, disto tudo. O pornoriquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo com desigualdades pornográficas. Atente-se na capa da última revista do Expresso: “Jantares de 550 euros por pessoa, relógios que custam mais de 20 mil euros, casas alugadas por 1750 euros ao dia. Este é o mapa de um país que está a aprender com os estrangeiros a amar o luxo”. Um país, realmente. E não se esqueçam de repetir com o Primeiro-Ministro: não há dinheiro. A reportagem – Portugal, império do luxo –, da autoria de Catarina Nunes, termina com uma pergunta que é todo um programa: “Será que entre a sofisticação de Lisboa e a autenticidade da província, Portugal é o barómetro mundial do novo luxo?”. Será? E pelo meio temos pérolas de classe como esta: “Esta cidade da vida de muitos estrangeiros, fervilha alheia à gentrificação, ao desalojamento dos lisboetas e aos preços exorbitantes do imobiliário. Miguel Guedes de Sousa concorda que a capital não pode perder a vivência genuína que cativa os estrangeiros, mas ‘não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados’. A Solução para o CEO da Amorim Luxury passa por a Câmara Municipal de Lisboa arranjar alternativas.” Nesta altura, lembrei-me de Warren Buffet – “a luta de classes existe e a minha classe está a ganhá-la”. Guedes de Sousa, como nos informa a reportagem, é casado com Paula Amorim. E daí a Amorim Luxury. Paula Amorim é uma das herdeiras da maior fortuna nacional. Como todas as grandes fortunas, esta foi construída com recursos a expedientes duvidosos. Não é só a fase de acumulação original que os tem. Duvidoso é também, como indica o insuspeito Thomas Piketty, este capitalismo cada vez mais de herdeiros. Guedes de Sousa tem o mérito de resumir numa frase, para a questão da habitação, a que condensa todas as contradições de classe, a arrogância do dinheiro quando está concentrado em poucas mãos, quando não tem qualquer medo, nem freios e contrapesos políticos à altura. Eu bem sei que é fácil uma pessoa deixar-se dominar pelo desespero perante este império do capital. Mas é preciso nunca perder a esperança. As coisas já foram diferentes e podem voltar a sê-lo. Não estamos condenados ao pornoriquismo e ao capitalismo que lhe subjaz. Não podemos estar.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

FELICIDADE E PERCEPÇÃO DA FELICIDADE

WER01Tem sido divulgada uma publicação anual, o «World Happiness Report[1]» ou Relatório Mundial de Felicidade, a qual inclui um ranking (ver as páginas 20-23 do documento[2] citado). O ranking é construído a partir de determinados pressupostos.  Não estou certo que os critérios sejam muito acertados; os parâmetros escolhidos e os modos de medição dos mesmos são contestáveis.

As barras do ranking têm várias cores, correspondentes aos critérios adoptados: ver cores e legendas no baixo da página 21 do documento.

Tenho constatado, ao longo da vida, que povos (e pessoas) com menor bem-estar material são frequentemente mais alegres, vivem a vida de modo mais intenso e por isso são, num certo sentido, mais felizes, que povos com uma grande abundância material, uma eficaz rede de cuidados de saúde, etc. 

Tenho constatado também que os portugueses têm um grau de auto-comiseração enorme e baixa auto-estima. Isto é transversal às classes sócio-económicas e às idades. 

Curiosamente, Portugal situa-se neste ranking construído com base nos dados de 2015-2017, praticamente na posição do meio: no lugar 77, a meio entre a Finlândia (nº1) e o Burundi (nº156). 

Costumo gracejar que Portugal tem um nível de impostos per capita correspondente aos países escandinavos, mas um desempenho em termos de serviços do Estado aos cidadãos, ao nível do Burundi. Afinal estava muito próximo destes dados e não sabia! 

Talvez este tipo de estudo, caso fosse divulgado amplamente nos media, permitisse que algumas pessoas descolassem de uma visão tecnocrática, olhando a distribuição dos parâmetros para além do mero PIB/capita. 

Eu penso que se deveria complementar este ranking com o índice de Gini[3], permitindo avaliar a desigualdade económica dentro de um país. image

Um país com elevado índice de Gini é um país com desigualdade económica (e social) elevada. Ora, tanto a percepção da desigualdade, como a desigualdade em si mesma, podem ser factores importantes para a felicidade.

                           

References

  1. ^ World Happiness Report (s3.amazonaws.com)
  2. ^ páginas 20-23 do documento (s3.amazonaws.com)
  3. ^ o índice de Gini (pt.wikipedia.org)

Leia original aqui

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