Cultura

Ah! Ça Ira, Ça Ira, Ça Ira

Celebram-se os 230 anos da Revolução Francesa. Como todos os grandes momentos históricos teve as suas expressões artísticas, nomeadamente as canções, “espelho dos acontecimentos, seu catalisador, e sua memória”. Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários.

Durante séculos, as canções participaram directamente na vida social. Eram o espelho dos acontecimentos, o seu catalisador, a sua memória. Registavam a evolução dos costumes, do trabalho, dos amores e desamores, das batalhas, das ilusões e desilusões, cóleras e esperanças.

Relatavam os principais acontecimentos, apropriavam-se naturalmente da actualidade que estava a ser vivida. Difundiam-se das cidades para os campos, faziam o caminho inverso, voando de boca em boca. Nem sempre ficando impressas em folhas volantes muitas perderam-se outras foram recuperados nas recolhas gravadas de musicólogos, etnólogos e antropólogos.

Uma boa parte delas são de autores anónimos. É vulgar colarem os versos a músicas que estavam em voga. Compulsar os cancioneiros de uma determinada época acrescenta conhecimento ao conhecimento que os historiadores recolhem de outras fontes. São reveladores das diversas pontes existentes entre as formas populares e as que tendo origem nos cultos enquanto objecto ritual se secularizaram como forma cultural e estética.

Num tempo em que o analfabetismo era corrente as canções eram uma forma popular particularmente eficaz de circulação das ideias e das notícias.

Da boca para os ouvidos reproduziam-se saltando por cima das barreiras entre os salões aristocráticos e as tascas populares, entre as cidades e os campos. As folhas volantes, os periódicos, os almanaques, registam as suas variações, por vezes burlescas, dando relevo ao papel ocupado pelas canções como retrato crítico dos acontecimentos mas também o seu papel interventivo nas acções consciencializando, politizando. Tudo começava e tudo acabava numa canção.

Tudo muda com a invenção da rádio, que de recurso tecnológico de comunicação nos finais do séc. XIX se expande para as transmissões radiofónicas de entretenimento nas primeiras décadas do séc. XX, popularizando-se no mundo.

Há a necessidade de preencher o tempo, que foi crescendo até estar no ar durante as vinte e quatro horas do dia. O grande recurso foram as canções que se diversificaram por vários géneros desanexando-se da sua complexa origem.

Em paralelo, também nos finais do séc. XIX, surgiram as primeiras gravações sonoras que muito evoluíram desde as primitivas técnicas de gravação comercial em massa, até às que hoje são mais comuns, CD e streaming.

As canções e as músicas de variedades entraram definitivamente no quotidiano descontextualizando-se da realidade. O consumo da música universalizou-se, as canções multiplicaram-se nos mais diversos géneros explorados por uma poderosa indústria progressivamente submetida ao marketing e ao sistema do star-system, uma realidade iniludível que se vê à vista desarmada quando se percorrem as grandes superfícies comerciais, aqui e em qualquer parte do mundo ocidental, em que a música anglo-saxónica na forma e internacional nos sentimentos é dominante e domina, de forma directa e indirecta, as músicas locais. Em que o que pouco escapa a esse formato é remetido para os nichos das músicas étnicas, músicas de um pequeno mundo que vai conseguindo subsistir, para onde são mesmo atiradas as músicas e os músicos de países com França, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda, etc.

Como em tudo há sempre quem resista e as excepções mais sublinham a regra. Os cantores de intervenção política são cada vez mais raros. Por vezes aparecem mensagens sociais inscritas no padrão dominante, polvilhando-as com o mesmo pó de diamante dos sapatos de Andy Warhol. Dão-lhes um ar comprometido que não alarma nenhuma sirene, é um auxiliar de vendas.

Evidentemente que no meio de tanta tralha é inevitável surgirem boas canções, bem mais escassas que as trombeteadas com alarde nos media.

Neste contexto, ouvir hoje as canções da Revolução Francesa, que este ano comemora o 230.º aniversário no dia 14 de Julho, dia da Tomada da Bastilha, é fazer uma escuta quase arqueológica, que é também um acto de resistência e de suspensão do tempo para reflectir contra a vulgaridade que invade as ondas sonoras e os palcos do mundo, num tempo em que, por dá cá aquela palha, as tão na moda artes performativas, muitas integram formas cantadas, reclamando reflectir sobre o mundo em que vivemos quando se limitam a transmitir a imagem de uma cultura de consumo irreflectido, sem espaço para discursos significativos. Em que a sedução é a única estratégia de funcionamento e esse reclamo não passa de uma frágil fachada intelectual para justificar um mundo embriagado pelas imagens e seus acessórios, a sua marca de água.

Marca de água do nosso tempo de embriaguez estética. De uma estética da embriaguez pela imagem, qualquer que seja a forma que assuma, que reduz até anular a consciência crítica e impõe às pessoas um vazio saturadamente preenchido por uma oferta cultural bulímica em que o espaço social é uma abstracção fetichizada. Em que a cultura e as práticas culturais contemporâneas activamente participam num sofisticado processo de controlo social, que planta ilusões de liberdade pessoal para que o sacrifício nos viciantes altares do consumo seja indolor e voluntário, promovendo uma eficaz submissão.

Um processo de dominação que Edward Said descreveu em Cultura e Imperialismo, evidenciando como desse modo o imperialismo chegou a lugares que frotas navais nunca poderiam alcançar, em que nenhum exército de ocupação poderia subsistir, com a vantagem de ser muitíssimo mais barato e ser vendável.
Exceptuando-se a Marselhesa, adoptada como hino nacional de França, pouco ou nada resta do vasto cancioneiro revolucionário. Procurar registos sonoros é tarefa árdua. Nas lojas de gravações sonoras é agulha em palheiro, mesmo em França.

Nas vendas on-line estão, quando estão, disponíveis, todos por via indirecta, um numero reduzidíssimo de exemplares de L’Histoire de France par des Chansons (Chant du Monde), o segundo disco dedicado à Revolução Francesa, Chansons Revolutionnaires ou l’Esprit de 1789, por Serge Kerval (Editions du Petit Véhicule), Marc Ogeret Chante la Revolution (Chant du Monde), Hinos da Revolução Francesa (Rouge de l’Isle, Paisiello, Méhul, Gossec),Coros e Orquestra du Capitole de Toulouse, maestro Michel Plasson (EMI), La Republicaine, Hélène Delavault (Chant du Monde).

La Republicaine foi um espectáculo, em 6 de Janeiro de 1989, que deu brado em França quando Hélène Delavault, mezzo-soprano que também faz espectáculos com canções de cabaret (esteve em Portugal com um desses espectáculos nos anos 90 no Fórum Luísa Todi, integrado no programa do Festival dos Capuchos), viu o palco ser invadido por fascistas encapuçados que acorreram ao apelo do jornal de extrema-direita Présent, que a colocavam no pelourinho como «a hiena vestida de vermelho berrando os seus cantos de ódio sobre os túmulos dos nossos mortos». O que nos remete para a actualidade de se revisitar as canções da Revolução Francesa para agitar a normalização e apatia em curso imposta pelo imperialismo quando dispensa acções mais radicais, embora as tenham guardado no bolso.

O catálogo das canções elaborado por Constant Pierre, Les Hymnes et Les Chansons de La Révolution, (Imprimerie Nationale, Paris 1904) regista 2257 entradas em três rubricas Hymnes (1/167), Canções (168/2142), Teatro (2143/2257), o que dá uma excelente imagem da força participava e interventiva das canções mesmo tendo em consideração que a Revolução Francesa não estourou num dia e tudo mudou, que foi um processo revolucionário que se inicia em 1788 e acaba em Novembro de 1799.

Que só nos anos 91 e 92 se desencadeia a vertigem da Revolução quando o rei Luís XVI, pressentindo que mais valia prevenir quando pouco sobraria para remediar, procurou sobrevivência na conciliação, enfiou o barrete vermelho dos revolucionários, saudou a nação, um conceito colectivo que se opunha ao de soberano, mas recusa assinar a deportação dos padres refractários. Fazia isso, enquanto na sombra recorria aos exércitos estrangeiros para invadirem a França e estrangularem a Revolução.

A Assembleia Legislativa não perdoa. A 10 de Agosto de 1792 vota a suspensão do rei e convoca uma nova assembleia: a Convenção de Paris, que proclama a República e inicia o período revolucionário que acabará com um golpe de estado de Napoleão Bonaparte, com o apoio da grande burguesia, em 18 de Brumário (9 de Novembro de 1799).

Há canções que se vão alterando no balanço dos acontecimentos. Algumas pelo seu grande poder atractivo, são recuperadas pelos contra-revolucionários. A mais conhecida é «Ah! Ça Ira». A música é de uma contra-dança de grande êxito na altura.

Na primeira versão, o refrão altera-se para enfatizar as coplas. No primeiro, a abrir a canção: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / o povo repete sem se cansar / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Apesar dos motins isto vai, que introduz a primeira copla: Os nossos inimigos confessos estão aí / Vamos cantar Aleluia! / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai, e continua na defesa da liberdade, de melhores dias, de leis mais justas terminando com aviso sobre a guerra que a Revolução terá que enfrentar: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ soldados pequenos e grandes tenham a mesma alma/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Durante a guerra ninguém trairá.

Noutra variante, a certeza que estão a escrever história: Mas isto vai, isto vai, isto vai!/ À liberdade devemos a glória/ Ah! isto vai, isto vai, isto vai!/ A felicidade para todos acontecerá/ Seremos todos irmãos de armas/ amigos verdadeiros cada um será/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai! Ninguém protestará em vão/ para sempre na história/ o nosso século será celebrado/ Como isto foi, isto foi, isto foi! Os realistas, os contra-revolucionários também se aproveitam da popularidade da canção para a inverter em seu favor: Helás! Não há mais honra nem lealdade/ contra o seu rei o povo revoltou-se/ Ah inumana humanidade/ os direitos foram destruídos/ a essa liberdade sem lei/ chamam fraternidade.
Ganho o balanço, terminavam: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Os democratas para a lanterna 1/ Todos os deputados iremos enforcar.
Ao que os revolucionários imediatamente responderam à letra: Os aristocratas para a lanterna / Todos os aristocratas iremos enforcar.
«Ah! Ça Ira» tornou-se tão popular que muitos se divertiram a improvisar variantes do refrão: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ Apesar dos aristocratas e da chuva / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ ficamos molhados mas isto acabará.
São várias as canções que recuperam a música de «Ah! Ça ira» com variações sobre o seu refrão como em «L’Aristocratie en Déroute»: Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ podemos repeti-lo sem parar/ Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ a aristocracia pôs-se a milhas, que intercalava com coplas invectivando, a nobreza, os seus financiadores e as tramas que teciam e estavam a ser desarmadilhadas.

Outra das canções que foi base de muitas variações, tanto de revolucionários como de contra revolucionários, foi «La Carmagnole». A carmagnole é um fato de trabalho dos operários da região do Midi, importado para Paris pelos marselheses e adoptado pelos patriotas.

Os estudiosos do Cancioneiro Revolucionário não conseguem precisar quando a canção surgiu. O que é certo é que rapidamente se tornou tão popular como «Ah! Ça ira», tendo inúmeras versões. A mais célebre é «La Carmagnole des Royalistes»: Senhora Veto prometeu (bis) / Mandar Degolar Paris inteira, (bis) / O seu golpe falhou/ Bombardeado pela nossa artilharia // Dancemos a Carmagnole/ Viva o som (bis)/ Dancemos a Carmagnole/ Viva o som dos canhões (refrão).
As canções registam todos os acontecimentos da Revolução. Da Tomada da Bastilha à formação da Guarda Nacional, da Declaração dos Direitos do Homem à Liberdade para os Negros, dos cantos a Marat e Lepeletier à Morte de Robespierre, dos Hinos à Razão, à Liberdade, a Rousseau, às muitas que incentivam os patriotas a defender as conquistas revolucionárias.
Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários. A canção era e continua a ser uma arma, embora nos nossos tempos esteja cercada pelas banalidades que são a sua marca contemporânea.

1.À la lanterne é uma referência a julgamentos sumários em que se penduravam os condenados nos postes das lanternas

Fonte: https://www.abrilabril.pt/cultura/ah-ca-ira-ca-ira-ca-ira

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Legado de Kubrick conta com três textos inéditos

Ainda que incompletos, foram encontrados três textos ainda inéditos de Stanley Kubrick, nos arquivos legados por este à Universidade das Artes de Londres.

Créditos / Photofest

A recente descoberta dá mais conteúdo, e mais diversificado, ao estudo da obra do conhecido realizador norte-americano e que entusiasma a comunidade académica da sétima arte.

Os argumentos que foram agora descobertos datam de 1954 a 1956 e têm os títulos de The Married Man, The Perfect Marriage e Jealousy.

O prestigiado cineasta e produtor cinematográfico foi autor de assinaláveis clássicos do cinema como Paths of Glory (1957), Spartacus (1960), Dr. Strangelove (1964), A Clockwork Orange, (1971), 2001: A Space Odyssey (1968) The Shining (1980), entre outros.

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/legado-de-kubrick-conta-com-tres-textos-ineditos

COMO O RESPIRAR DA TERRA

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Há uma exposição diferente na Tinturaria da Covilhã. Abre esta sexta-feira, dia 12, às 18.30. A autora é Jina Nebe, uma arquitecta checa que, no plano da sua aventura plástica, é cidadã do mundo. É essa qualidade, tão pouco comum no domínio da arte, que se pode descobrir na exposição Paisageando coisas reais por dentro, em que os seus quadros dialogam com as fotografias de Miguel Proença. É um acontecimento cultural a não perder. Escrevi para o catálogo o texto que segue:

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"É dentro da arte que as coisas estão
Fernando Paulouro Neves
Tive a sorte de um dia subir à Serra do Caldeirão, com a Maria Eugénia, para nos acolhermos à casa dos amigos Eduardo Vaz e Jina Nebe. Lá no alto, a casa é um barco ancorado à montanha, onde o vento é brisa para navegação do olhar. Os horizontes da paisagem são tão vastos e diversos que nos fazem esquecer, por momentos, o agro agreste e desolado da serra, para fixarmos os olhos na lonjura da terra que caminha à procura de outras amenidades, abençoadas pelo sol do Algarve. Mas aqui não é preciso desfraldar velas para sonhar. O vento do sonho habita o lugar. Quando, depois, Jine me abriu a porta do seu universo criador, percebi que a metáfora do navio arpoado à montanha, que era a casa, se articulava com o fascínio da sua viagem plástica  -- paisageando coisas reais por dentro – na descoberta de uma matriz marcada por inquietação inovadora e um espírito de incessante busca de linguagens. Nesse desafio estará contida a fonte de inspiração desta arquiteta checa, que trouxe decerto da Praga de Rilke o segredo de saber recriar realidades onde a escala humana se relaciona numa relação intimista e sóbria com os rumores do mundo. Tudo isso e muito mais revela o cruzamento de olhares da artista, captando linhas austeras ou modernas, uma luz densa de ternura que poisa no horizonte até onde a vista alcança e se projeta depois no inventário dos detalhes das paisagens. E aí temos uma geografia ampla, vista do céu, uma arte feita do lume de outros sóis, de outros verdes e azuis, de outros desertos e oásis. Essa geografia passou por Bruxelas, caminhou para a claridade do sul, ancorou-se à luz do Algarve e de Tavira, foi a Bruxelas, às Ilhas Maurícias e a Madagáscar, ao Chade e ao Iraque, deteve-se na Ibéria. Aqui, voamos sobre Portugal e Espanha e descemos ao chão das pátrias em belíssimas aguarelas. Olho para as cores e lembro-me do poema de Torga: «De um lado terra, doutro lado terra;/ De um lado gente, doutro lado gente;/ Lados e filhos desta mesma serra. / O mesmo céu os olha e os contempla.» Desenhos, linogravuras, fotografias, pastéis, aguarelas mapeiam os territórios. Às vezes, as fotografias, são um caleidoscópio de espaços geométricos ou de caminhos que podem explodir num vermelho intenso; ou voos sobre um Iraque a preto e branco que parece espelho de um mundo irreal. Jina ama essa dualidade de paisagens, dicotomia tão propícia às surpreendentes explosões cromáticas que alimentam as suas telas e as suas gravuras. É aí, nessas linhas que são rosto da terra de um vasto museu imaginário (André Malraux), de que as artes plásticas se apropriam como objeto de (re)criação, que a paleta de cores da artista reinventa com o seu olhar e a sua rigorosa observação estética.
No caso, podemos dizer que, entre outros desafios, estamos face a uma especial arte da terra, não com a sua mera expressão física, antes com a força criadora de um olhar que materializa uma espantosa cartografia de cores na territorialidade que a sua pintura inventa.
Mas esta exposição, Paisageando coisas reais por dentro, tem a virtualidade especial de as obras de Jina Nebe dialogarem com as fotografias de Miguel Proença. Poucos artistas poderiam combinar tão bem as aventuras que, um e outro, prosseguem, naquilo que eu chamo a invenção do real. Basta olhar a foto Cadavre exquis para confirmar essa ideia de partilha criadora. Miguel Proença, cultor do preto e branco, que é talvez a forma mais autêntica para tentar iludir a realidade, mostra bem essa aproximação sem artifícios ao real na foto O buraco. Mas ele logo avança para mundos de outra dimensão poética, navegando nas nuvens, que provocam sempre um imaginário desmedido face à sua mutação constante. No plano cultural, estra exposição na Covilhã tem também a mensagem inovadora de nos convocar a pensar a Terra como casa comum. Uma viagem plástica que é um permanente recomeço lembrando sempre que só há uma Terra. Uma forma de nos encantar levando o nosso olhar ao encontro de múltiplas emoções estéticas, que a pintura e a fotografia devem provocar. Cores, muitas cores, arte, muita arte, que voam por cima dos dias. Sem fronteiras. Covilhã, 17 de Junho de 2019"

Quarta-Feira, 10 de Julho

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Morte do cantor João Gilberto "é uma perda para o património cultural" - vídeo

O Comité do Património da UNESCO considerou, este sábado, que a morte do cantor brasileiro João Gilberto "é uma perda para o património cultural", na reunião em que o Palácio de Mafra e o Santuário do Bom Jesus de Braga foram classificados Património Mundial.
A morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural" afirmou Abulfas Garayev, presidente do Comité do Património da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no início da 43.ª reunião, que decorre em Baku, no Azerbaijão, até 10 de julho.
Os membros do comité fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem, colocando João Gilberto "entre as pessoas que tiveram impacto na história da música".
Na reunião, o conjunto composto pelo Palácio, Basílica, Convento, Jardim do Cerco e Tapada de Mafra e o Santuário do Bom Jesus, em Braga, receberam a classificação de Património Cultural Mundial da UNESCO.
Os dois monumentos faziam parte "das 36 indicações para inscrição na Lista do Património Mundial", que estão a ser avaliadas na 43.ª Sessão do Comité do Património, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
O cantor e compositor brasileiro João Gilberto, considerado um dos pais da Bossa Nova, morreu no sábado no Rio de Janeiro, Brasil, aos 88 anos, informou um dos filhos do artista.
O compositor, um dos nomes mais importantes da música brasileira, morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, revelou o seu filho João Marcelo Gilberto, citado pelos media brasileiros.
João Marcelo Gilberto anunciou a morte do pai na rede social Facebook, enaltecendo "a sua luta nobre" e a tentativa de "manter a dignidade", apesar de ter perdido "a sua autonomia".
O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado e em solidão no Rio de Janeiro.
Derivado do samba e com influências do jazz, o estilo Bossa Nova surgiu no fim da década de 1950 pelas mãos de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e de jovens cantores e compositores da classe média do Rio de Janeiro.
O álbum que marcou o início da Bossa Nova, "Chega de saudade", foi composto por Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980). João Gilberto deu voz à versão mais conhecida da música, lançada em agosto de 1958.

Em 1961, o cantor e compositor concluiu a trilogia de álbuns que, de acordo com o portal da Globo, "apresentaram a Bossa Nova ao mundo": "Chega de saudade" (1959), "O amor, o sorriso e a flor" (1960) e "João Gilberto" (1961).
Jornal de Notícias

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/morte-do-cantor-joao-gilberto-e-uma.html

Património da Humanidade?!

Vai por aí grande foguetório por causa da aceitação da Unesco em integrar o Palácio Nacional de Mafra e o Bom Jesus de Braga nos monumentos reconhecidos como Património Mundial da Humanidade, mas será bom lembrar a importância do desempenho do embaixador António Sampaio da Nóvoa nesse sucesso ao mesmo tempo que se devem evocar algumas reservas quanto ao mérito de um e outro monumento.

 

Mafra continuará a ser o símbolo do despesismo de um poder autocrático, que esbanjou as riquezas do Brasil para satisfazer o capricho de quem demorara a cumprir uma das tarefas que lhe estavam incumbidas, a de garantir sucessão. O «Memorial do Convento» bem denuncia o sofrimento de quem teve de acartar com as pedras, os sinos e demais materiais para cumprir a vontade real enquanto em Lisboa se queimavam cristãos-novos por conta da vontade dos inquisidores.

 

Na realidade o Palácio de Mafra nada tem de arquitetonicamente admirável para além da dimensão de quem o quis equivalente à prosápia do seu encomendador, valendo sobretudo por ter suscitado no melhor dos nossos escritores uma notável obra literária justamente premiada com o Nobel. Mas nem isso o presidente da câmara de então o quis reconhecer por mais que hordas ininterrupta de turistas ali se têm deslocado desde então só para verem o cenário do romance. Quando alguns professores quiseram dar o nome do escritor à escola secundária da vila o autarca logo a ideia vetou.

 

Por todas essas razões convenhamos que só vejo razão para o Palácio de Mafra ser Património da Humanidade por ter estimulado Saramago a escrever uma das grandes obras da língua portuguesa e não tanto pelo que, mais carrilhão, menos carrilhão, o edifício e a sua tapada verdadeiramente mereçam.

 

Quanto ao Bom Jesus, valha-me o tal Deus em que não acredito. Para além da escadaria a incitar os crentes a fiarem-se de ser árduo o caminho até à salvação, e umas capelas sem nada de interessante a justificar que nelas estaquemos, que mérito possui o monumento? A vista lá de cima até pode ser aprazível, mas o verdejante Minho não é propriamente o tipo de paisagem, que me suscite entusiasmos.

 

Deixe-se, pois, acabar o foguetório para reconhecer que, acabados os injustificados brios nacionalistas nem Mafra, nem o Bom Jesus, passam a valer mais do que já valiam.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/patrimonio-da-humanidade.html

JOÃO GILBERTO E O MUNDO

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Às vezes, porque inscreve a doçura da fala no tempo da vida e faz da plasticidade das sonoridades uma convivialidade tão íntima que se torna companheira de jornada, a música parece-nos a mais eterna das artes.  Na verdade, todas o são, à sua medida, mas esta logo foi baptizada como divina e a mais universal de quantas existem à face da Terra. Essa sensação torna-se mais forte quando ouvimos obras dos grandes compositores, em qualquer lugar do planeta, e logo percebemos pela apoteose dos aplausos, que é linguagem comum a todos.
Dei comigo a fazer essa extensão do pensamento, quando, confrontado com a notícia da morte de João Gilberto, o compositor ia sendo revisitado e a sua narrativa biogáfica construída através das suas canções. É verdade que ele estava há anos fora de circulação -- o que acontece sempre que um compositor e intérprete da sua dimensão deixa de pisar os palcos: uma certa forma de morrer --, mas a força da sua arte há muito se tornara intemporal e vivia por cima das fronteiras furando o cinzentismo dos quotidianos.
Oiço-o, agora, como se lhe quisesse fazer uma reverência e dizer simplesmente obrigado. Escuto a Garota de Ipanema e Chega de Saudade (como ele entendia bem a língua portuguesa!), vou pelo seu universo criador, vejo um homem, com a sua viola nas mãos, começar a cantar. Então, o palco já não é palco, mas um mundo que faz corpo com a sua criação, as suas sílabas, os seus versos, a sua música, a sua bossa nova, o seu samba. Tudo, numa surpreendente doçura poética, para celebrar a vida e o amor.
Lembro-me bem de uma crónica magistral de Drummond sobre a morte de Vinicius (seu parceiro e amigo), que publiquei no "Jornal do Fundão", em que ele imaginava o poeta entrando no céu, de copo na mão e com o seu violão. Também eu, agora, fiquei a ver João Gilberto, não de copo, mas com a sua guitarra, suavemente batendo à porta do paraíso. E, talvez, como no poema de Bandeira, S. Pedro aparecesse a franquear a entrada, dizendo apenas:
-- Entre, João Gilberto! Você não precisa de pedir licença...
Domingo, 7 de Julho

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Greve suspensa no São Carlos e na CNB

Os trabalhadores do OPART decidiram, no sábado, suspender os pré-avisos de greve, graças ao reconhecimento pela administração de que «os trabalhadores e o CENA-STE fazem parte da solução».

Os trabalhadores garantem que este novo processo de negociação «não partirá do zero» e terá em conta as negociações desenvolvidas nos últimos anosCréditosAntónioCotrim / LUSA

A suspensão, segundo o comunicado do Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), não significa que se tenha encontrado a solução para todas as reivindicações e problemas laborais criados pelos acontecimentos das últimas semanas. 

Afirma, porém, que esta suspensão acontece porque os trabalhadores consideraram que o novo Conselho de Administração da empresa demonstrou ter a capacidade, em cerca de 48 horas, de «propor um caminho de compromisso e negociação em que reconhece que os trabalhadores e o CENA-STE fazem parte da solução».

A intenção é de criar uma comissão paritária para análise e proposta de soluções para a questão do horário de trabalho e respectiva harmonização salarial entre a Companhia Nacional de Bailado (CNB) e o Teatro Nacional São Carlos (TNSC), e o compromisso do Conselho de Administração em envidar todos os esforços para que se prorrogue a decisão sobre a aplicação das 40 horas na CNB até 30 de Setembro.

Segundo o sindicato, o Conselho de Administração compromete-se igualmente a entregar, esta terça-feira, um projecto de protocolo negocial das matérias e calendário das negociações, onde constará uma proposta de Acordo de Empresa, bem como de Regulamento Interno de Pessoal.

 «Os trabalhadores mandataram o sindicato para a suspensão desta greve, mas mantêm-se unidos e unânimes nas reivindicações constantes dos pré-avisos, mantendo a sua natural vigilância relativamente ao decorrer das negociações», alertou o CENA-STE.

Acrescenta que estes profissionais não têm dúvidas quanto à origem dos problemas, dizendo que houve um erro na gestão da situação, que é da total responsabilidade do Governo e do Ministério da Cultura.

Garantem que este novo processo de negociação «não partirá do zero» e terá em conta as negociações desenvolvidas nos últimos anos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/greve-suspensa-no-sao-carlos-e-na-cnb

João Gilberto | Chega de saudade

Meu Deus, como a gente se divertiu, obrigada por tudo. Por prestar atenção a todas as harmonias e melodias, por amar cada momento da vida como se não houvesse amanhã, por sempre me fazer mudar todas as passagens, ou partidas, por valorizar tanto cada momento da vida. Obrigada pelo último olhar, pela última risada, por ser honesto, por ser um homem de família, por ter sido o melhor pai que alguém poderia desejar. Meu Amor, que os anjos e Mamãe te recebam, descanse em paz. Te amo”. (Bebel Gilberto)

 

Esta foi a mensagem que Bebel deixou nas redes sociais para seu pai, João Gilberto, que faleceu aos 88 anos no seu apartamento da Rua Carlos Góis, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, deixando-nos a todos bem mais pobres.

Baiano, João Gilberto sintetizou a música popular brasileira nos seus passos fundamentais: o ritmo, a harmonia, a técnica de canto e sobretudo a batida do violão. O seu estilo musical, apesar de revolucionário, não rompeu com a música que o antecedeu, pois João sempre gravou nos seus discos velhas composições de Ary Barroso e Dorival Caymmi, entre outros. Desde o adolescente que cantava música do rádio no altifalante da praça matriz em Juazeiro, cidade onde nasceu, ao jovem que foi para Salvador sonhando ser músico profissional, ao músico que foi para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua, João Gilberto foi grande e único. Graças a ele, a bossa nova (termo emprestada da letra de “São Coisas Nossas”, samba de Noel Rosa de 1930) consolidou-se e a música brasileira teve portas abertas para conquistar seu lugar no mundo. A geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque não teria ido tão longe se não fosse a inspiração de “Chega de Saudade”, disco que João lançou em 1958. Foi no dia 10 de julho, no estúdio da Odéon, no Rio de Janeiro. João Gilberto colocou à sua frente dois microfones (um para a sua voz, outro para o violão) e gravou o que seria a versão definitiva de “Chega de Saudade”, samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes num estilo que, alguns meses depois, seria chamado de bossa-nova.

Com a revolucionária gravação de “Chega de Saudade”, João Gilberto dava forma e conteúdo à bossa nova, inventando um novo ritmo e uma nova forma de cantar e tocar violão. O resto é história que, como um rio com muitos afluentes, desagua no mar de nossa memória pessoal e coletiva. Com o sucesso de João revelaram-se a mestria de Antonio Carlos Jobim e do poeta Vinicius de Moraes, bem como o talento de jovens compositores como Carlos Lyra e Roberto Menescal. De 1959 a 1962, João Gilberto lançou três LP históricos e a bossa nova virou moda.

Os jovens enchiam as academias de violão de Copacabana, para aprender a nova batida e as músicas que marcavam a banda sonora da época. Nesses anos, o Brasil ganhou pela primeira vez a copa do mundo de futebol, na Suécia, e entrou num ciclo de progresso e desenvolvimento nunca visto, com a construção de Brasília em apenas quatro anos, a industrialização, a televisão, as novas estradas e fábricas: os brasileiros apaixonavam-se pelo futuro. Todos queriam surfar a onda do sucesso da bossa nova. A publicidade e a imprensa adoraram o rótulo. Kubitschek foi apelidado de “presidente bossa nova”. Surgiram o carro bossa nova, o apartamento bossa nova, o fato bossa nova, com um casaco e duas calças. Tudo virou bossa nova num Brasil deslumbrado pelo futuro.

Apesar de uma campanha recheada de sucessos, desde 2008 João foi ficando cada vez mais distante. A sua última apresentação ao vivo foi esse ano, na comemoração dos 50 anos da bossa nova. A decadência física e as questões de família, monetárias e contratuais, foram remetendo o génio para um limbo de onde só a morte o veio retirar. Desafinado na música e desafinado na vida, João Gilberto deixa-nos uma saudade imensa, pois “no peito dos desafinados também bate um coração”.

 

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Morreu João Gilberto, cantor e compositor brasileiro

Aquele sobre quem Caetano Veloso disse: "Melhor do que o silêncio, só João", faleceu ontem, no Rio de Janeiro, com 88 anos.

O cantor e compositor brasileiro João Gilberto, considerado um dos pais da bossa nova, morreu hoje no Rio de Janeiro, aos 88 anos, informou um dos filhos do artista.

A morte de João Gilberto «é uma perda para o património cultural» afirmou Abulfas Garayev, presidente do Comité do Património da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no início da 43.ª reunião, que decorre em Baku, no Azerbaijão, até 10 de Julho.

Os membros do comité fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem, colocando João Gilberto «entre as pessoas que tiveram impacto na história da música».

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, nascido em Juazeiro, no estado brasileiro da Bahia, a 10 de Junho de 1931, é considerado o fundador legítimo da bossa nova, já que a sua batida de violão, à data revolucionária e inconfundível, esteve na origem da eclosão do movimento.

com Agência Lusa

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Nos 90 anos de Zeca Afonso, preservar uma obra de interesse nacional

A Associação José Afonso (AJA) lançou recentemente uma petição para «declarar a obra de José Afonso de interesse nacional», para salvaguardar o acesso ao trabalho do artista.

Zeca Afonso faria 90 anos no próximo dia 2 de AgostoCréditos / Glosas

Numa petição online que já ultrapassa as 11 mil assinaturas, a Associação José Afonso (AJA) dirige ao Presidente da Assembleia da República e aos deputados o pedido de reconhecimento e protecção da obra do artista.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, também conhecido por Zeca Afonso, foi uma figura maior da cultura portuguesa, cumprindo-se, no próximo dia 2 de Agosto, 90 anos desde o seu nascimento. A sua obra conta com o tema «Grândola, Vila Morena», sendo esta uma das duas canções-senha escolhidas pelo Movimento das Forças Armadas na madrugada do 25 de Abril de 1974.

A AJA lançou recentemente uma petição para «declarar a obra de José Afonso de interesse nacional» para tornar o acesso ao trabalho do reconhecido artista não só mais fácil, mas mesmo possível. De acordo com a AJA, «a sua obra encontra-se esgotada, sem editora que assuma a respectiva reedição, impossibilitando assim o seu acesso público». 

Esta Associação refere ainda que existe «um imbróglio jurídico, porque a Movieplay [a editora que detém os direitos comerciais da obra de José Afonso] está em situação de insolvência e não se sabe do paradeiro dos masters das músicas gravadas pelo Zeca Afonso».

Por iniciativa do PCP, foi apresentada, dia 4 de Julho, na Assembleia da República, uma recomendação ao Governo que vai no mesmo sentido, considerando «urgente preservar e divulgar a obra de José Afonso, permitindo o seu acesso a todos».

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O revolucionário João Gilberto

As novas gerações não sabem, talvez nem imaginem o que era ouvir Chega de Saudade, na Rádio Tamandaré, no Recife de 1959. Nós, meninos suburbanos, parávamos tudo diante daquela interpretação. Como aquela voz era diferente e como era familiar ao mesmo tempo!

 

Nós não tínhamos explicação, apenas suportávamos as censuras dos vizinhos, da família, ao novo modo de cantar daquela voz baixinha. E sem forças ou iluminação para responder, virávamos o rosto à procura de uma saída, que não vinha. Somente mais tarde na juventude, no tempo da ditadura, pudemos receber uma luz para a revolução que foi o disco Chega de Saudade, em 1959. Então, com o estrondoso sucesso de Tom Jobim, com Chico Buarque, Caetano Veloso, o estranho veio ficar mais claro. Tudo pareceu vir daquele esquisito. João era mais que cantor e compositor e violonista: ele era semente da nova música popular brasileira.

E mais, percebemos depois. Dele, um homem de esquerda, veio a compreensão de assimilar a tradição dos sambistas que estavam marginalizados. Dele veio um modo de reinterpretar a tradição do samba, quando deu uma nota cálida, inteligente, sensível, a Geraldo Pereira, Wilson Batista, Ari Barroso, Caymmi, entre muitos. Quem não viveu esse tempo, como pode avaliar e sentir a mudança que houve em nossa canção?

Há quem entenda a palavra repercussão como o número de gravações vendidas de uma só música. Na verdade, penso que repercussão significa o que ‘repercute’ até hoje, que é objeto fecundante, composição a gerar filhos e filhas em toda a nossa música. Nessa aproximação do conceito vivo, seria bom que os vendedores de sucessos ouvissem mil e uma vezes Chega de saudade com João Gilberto. Não seria castigo.


João Gilberto, com Caetano Veloso e Gal Costa, em 1971

O autor de hits poderia fazer pausas, como um refresco do suplício, e nos intervalos bem poderia pesquisar de Milton Nascimento a Caetano, de Chico Buarque a Gilberto Gil, de Edu Lobo a Carlos Lyra, e outros ‘menores’ imensos da nossa riquíssima Música Popular Brasileira, para saber afinal qual a música que maior repercussão teve no trabalho de todos eles até hoje. Nos limites do Brasil, Chega de Saudade repercutiu mais que a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta no mundo.

O intérprete João Gilberto, com seu modo de cantar baixinho, que a maioria em 1959 reprovava “isso é lá cantor de rádio?!”, com o seu canto que era o oposto absoluto do vozeirão de Vicente Celestino, Francisco Alves, pois no Brasil da época o maior cantor seria aquele de voz de quebrar cristais no teatro, João Gilberto foi o cara que usou para cantar a técnica do microfone, que para ser ouvido não precisaria receber brados retumbantes. Ele incorporou para a música, para a interpretação, o que jazia apenas para ser transmitido a milhões de ouvintes. Com a sua voz, ele parecia perguntar: se existe microfone, pra que gritar pra madame?

O que uma vez escrevi sobre a crônica do rádio, sobre a leitura de um texto no rádio, veio de João Gilberto. Ao se ler diante do microfone um poema, uma crônica, as palavras têm que ser desentranhadas do seu casulo escrito. Isso quer dizer que a leitura exige recursos de ator, se por isso não entendemos o mau gosto das impostações de voz artificiais, ou, supremo mal dos males, as entonações melodramáticas. O texto deve ser interpretado com a voz que não passa a impressão de interpretar. Como dizer isso? – O texto merece uma interpretação natural, que se dê em um fluxo de conversa em uma sala, como um diálogo entre duas pessoas. Ainda que fale para milhões de pessoas, o locutor se dirige a um só ouvinte. Como um João Gilberto da fala.

Com a morte do nosso maior intérprete, não se vai um modo de cantar, não se vai uma genialidade de falar novo para os corações. A sua morte não define o seu fim. Ele continua com a revolução que espalhou dos compositores às cantoras, cantores, arranjadores, a tudo enfim que faz a nossa música imensa no mundo. Quem sabe se com o seu falecimento físico poderemos ouvir mais João Gilberto no rádio? Quem sabe se neste Brasil selvagem, estúpido de Bolsonaro, de destruição das conquistas brasileiras, teremos uma pausa para a sensibilidade e um carinho no coração?

Consola, se conseguirmos esse intervalo. Mas o que eu queria mesmo era ouvir Chega de Saudade como em 1959. E sei que isso não mais será possível. Fazer o quê? Escrever estas mal traçadas linhas apenas.

 


Texto em português do Brasil


 

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PCP quer inscrever 1% para a Cultura na lei

A criação de um Serviço Público de Cultura através da atribuição, no mínimo, de 1% do Orçamento do Estado é a proposta dos comunistas para a democratização do acesso e fruição cultural.

Créditos / Jornal Espaço do Povo

O projecto de resolução dos comunistas, cuja discussão no Parlamento foi adiada para amanhã de manhã, será votado esta sexta-feira e corresponde a uma reivindicação antiga, tanto dos comunistas como dos trabalhadores do sector.

No centro está a necessidade de afirmar a Cultura como «componente essencial da democracia», tal como a Constituição consagra, a que se junta o combate à precariedade. A valorização dos trabalhadores, através do reconhecimento dos seus direitos, de salários e horários dignos, é um dos aspectos centrais da proposta.

«A enorme e gravíssima falta de trabalhadores nos serviços públicos e, especificamente, nos que se enquadram na tutela do Ministério da Cultura e respectivos organismos dependentes, é marca comum que urge contrariar», denuncia-se no texto.

No diagnóstico dos comunistas, «a aparente "falta de política para a Cultura" é uma opção política» ou, mais concretamente, «uma opção da política de direita», materializada no desinvestimento e ataque às funções sociais do Estado, a que se juntam, entre outros aspectos, o «esvaziamento da diversidade e destruição do tecido cultural» e a transformação da Cultura numa «imensa área de negócio». 

Para o PCP, a ruptura com as políticas seguidas até aqui, e que o processo de luta dos trabalhadores do Organismo de Produção Artística (OPART) ilustra, passa pela estruturação de um «Serviço Público de Cultura» e um aumento orçamental «significativo», atingindo o mínimo de 1% do Orçamento do Estado (OE), em nome de um «pilar da democracia» que «não pode ser tratado como «componente menor». 

Porque, refere-se no texto, «se, por iniciativa do PCP, foi possível recuperar a existência de bolsas de criação literária, a verdade é que continua a ser um programa muito limitado, com escassas verbas, necessitando de aprofundamento em termos de abrangência e de alteração do próprio financiamento».

Por outro lado, denuncia-se a falta de medidas de apoio às pequenas editoras e livrarias independentes, tendo em conta a concentração editorial na indústria livreira e dos circuitos de distribuição, e também ao cinema. Tendo deixado de receber apoios à produção por via do OE, o cinema está dependente das taxas pagas pelos operadores de televisão, «comprometendo o desenvolvimento da produção nacional e da pluralidade estética, em termos de livre criação».

A situação, lembram os comunistas, levou ao estrangulamento financeiro e burocrático da Cinemateca, encontrando-se actualmente em risco uma parte substancial da sua actividade, designadamente, do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM).

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Ministra da Cultura quer baixar salários para que haja «igualdade» na CNB

Chamada à Comissão da Cultura, Graça Fonseca mantém a intransigência do Governo em relação aos trabalhadores do OPART. Harmonização salarial equivale, para a ministra, a retirar direitos.

Graça Fonseca foi à Comissão da Cultura a pedido do PCPCréditosMIGUEL A. LOPES / LUSA

Por iniciativa do PCP, a ministra esteve esta manhã na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, para esclarecer a situação do Organismo de Produção Artística (OPART) e responder às perguntas dos deputados sobre a forma de solucionar o conflito com os trabalhadores, que se prolonga desde Março.

Depois de duas reuniões com a ministra da Cultura, Graça Fonseca, e a secretária de Estado da Cultura, Ângela Ferreira, o Governo apresentou três cenários para os trabalhadores da Companhia Nacional de Bailado (CNB), integrada no OPART. Ou ficarem com as 35 horas e aceitarem um corte remuneratório; ou manterem o salário e trabalharem as 40 horas; ou trabalharem as 35 horas e ficarem com cinco horas semanais num banco de horas. Cada trabalhador poderia optar por cada uma das soluções, sendo certo que se trata, em qualquer caso, de aceitar a retirada de direitos.

Para o Governo, o acordo obtido em 2017 entre os trabalhadores e a administração para a harmonização do horário de trabalho, no seguimento da integração da CNB e do Teatro Nacional São Carlos (TNSC), é ilegal, e é aqui que reside o diferendo.

Em declarações ao AbrilAbril, Ana Mesquita, deputada do PCP, lançou a questão: «Se o Governo considera a solução encontrada em 2017 como ilegal, e até inconstitucional, por que razão apenas nas vésperas da greve é que apresenta esse argumento? Esteve o Governo dois anos a manter uma situação que considerava ilegal?». Para a deputada, foi a organização e a luta dos trabalhadores que incomodaram a ministra, e não a suposta ilegalidade.

«Por outro lado, o despacho que a ministra assinou em 2018 entra em total contradição com a posição agora assumida», referindo-se ao documento vindo do então presidente do Conselho de Administração do OPART que assinalava a solução encontrada com o consentimento evidente de Graça Fonseca:«Concordo com o solicitado», escreveu então.

A deputada acusa ainda o Governo de tentar «atirar areia para os olhos dos trabalhadores», compromentendo-se com a realização de obras no valor de 3 milhões de euros quando em 2017 o Ministério da Cultura havia anunciado uma verba de 4,1 milhões, sem se ter até hoje verificado o início dos trabalhos.

Uma estratégia de «chantagem e ameaça aos trabalhadores»

A nomeação de André Moz Caldas para presidente do Conselho de Administração, vindo directamente do gabinete do Ministério das Finanças, também não tranquiliza a comunista. «Depois de recorrerem a uma estratégia de chantagem e ameaça aos trabalhadores, e de porem em causa uma conquista desta legislatura que foi o regresso às 35 horas, vêm pôr as finanças no comando», alertou.

A deputada comunista segue esta tarde para um encontro com os trabalhadores da CNB no Teatro Camões, onde estará também o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa.

Amanhã, a Comissão da Cultura recebe o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN).

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Os espectadores activos contra os espetadores ativos – a inércia e o desprezo pela nossa língua

(José Pacheco Pereira, in Público, 29/06/2019)

Pacheco Pereira

À memória do Vasco Graça Moura.

Se pensam que este artigo é duro, imaginem o que ele escreveria.


Prometi a mim próprio escrever um ou dois artigos por ano contra o chamado acordo ortográfico. E fiz essa promessa para não pecar do mesmo mal da inércia, que é a principal força que mantém este acordo vivo. Na verdade, são duas forças conjugadas, uma, a inércia, e a outra o desprezo pela língua portuguesa. São duas forças muito poderosas e, conjugadas entre si, ainda mais poderosas são. Mas são forças negativas, que misturam preguiça, indiferença, incultura, desprezo pela memória e irresponsabilização pelo desastre e fracasso diplomático que representou o acordo.

 

O resultado é que todos os anos o português escrito em Portugal se afasta do do Brasil, de Angola, Cabo Verde, onde o acordo ou não existe ou não é aplicado. Ficamos com um português de ortografia pobre, menos resistente a estrangeirismos e menos expressivo, em nome de um objectivo falhado: o de fazer a engenharia da língua de forma artificial. E não me venham com o “pharmácia” e farmácia, porque o contexto deste acordo inútil é muito diferente dos anteriores, porque foi feito num momento em que tudo aconselharia prudência em mexer numa língua cujas ameaças principais não vêm da falta de unificação ortográfica, mas da correlação entre a perda de dinamismo social e a riqueza da língua, ortografia, léxico, gramática e oralidade. E aqui Portugal fica sempre a perder com o Brasil.

E não me venham também com o facto de ser apenas um acordo na ortografia, que não afecta a oralidade, nem a riqueza lexical. Afecta e muito porque lemos com os olhos, e para lá dos olhos é a imagem das palavras que fica, e uma coisa é ser “espetador” e outra ser espectador, apesar da inútil dupla grafia. Por detrás do espetador, como diria o Napoleão diante das pirâmides, mais de dois mil anos de civilização contemplam os infelizes do acordo, sem pai nem mãe latina e grega. Mas quem é que quer saber disso?

Este é um dos casos em que fico populista e atiro em cima “deles”, os políticos. “Eles” preocupam-se muito com as beatas no chão, mas nada pela riqueza ortográfica do português, na sua memória nas palavras antigas que são o solo que pisamos. E é por isso que o acordo serve a ignorância, dos políticos do PS e do PSD e do CDS, que deixaram à suposta geração designada de “a mais preparada de sempre” um dos mitos com que alimentamos a nossa mediocridade colectiva. Sim, uma geração que faz cursos universitários sem ler um livro, e que fala com a expressividade dos SMS e do Twitter numa linguagem gutural e pobre, que o acordo ajuda a consolidar.

Big Brother de Orwell eliminava do vocabulário todos os anos algumas palavras. Para ele a linguagem patológica dos escassos caracteres do Twitter, onde não passa um argumento racional, mas passa com facilidade um insulto, seria um ideal a conseguir. Falar com vocabulário variado e rico, algo que só se tem lendo, dá poder. O Big Brotherqueria retirar poder e não tenho dúvidas que gostaria do acordo ortográfico, para eliminar a memória das palavras vindas dos dias de cor e passar ao cinzento da farda.

Na verdade, é um problema maior do que a ortografia, é o problema da cultura e da democracia, onde todos os dias os parâmetros de mínima exigência são baixados, pelos pais, pelos professores, pelas instituições e, como o peixe apodrece pela cabeça, pela nonchalance dos nossos políticos pelas coisas importantes. E se há comparação que me honra é com o “velho do Restelo”. Na verdade, o velho do Restelo é uma das personagens mais interessantes e criativas dos Lusíadas. E tinha razão.

E deixem-me lá as excepções. A regra é que os mais velhos traíram a memória da língua, e os mais novos vivem bem no mundo do Big Brother. O tecido cultural do país, agredido pelo acordo, não é feito de excepções mas sim da regra, e a contínua enunciação das excepções só serve para esconder a regra.

Pode-se ser culto sem saber quem era Ulisses, ou Electra, ou Lear, ou Otelo, ou Bloom? Não, não pode. Como não se pode ser culto sem perceber a inércia, ou o princípio de Arquimedes. E, no caso português, sem ter lido umas frases de Vieira, ou saber quem eram Simão Botelho, Acácio, o sr. Joãozinho das Perdizes, ou Ricardo Reis, ele mesmo. E não me venham dizer que sabem outras coisas. Sabem, mas não chega, são menos, são diferentes e não têm o mesmo papel de nos fazer melhores, mais donos de nós próprios e mais livres. Sim, livres, porque é de liberdade que se está a falar.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Superar a vertigem antes que a democracia acabe

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” A frase de Che Guevara chega em 2019 como um verdadeiro desafio. Afinal, no Brasil de Bolsonaro, que vai de 39 kg de cocaína num avião presidencial à venda de bijuteria de nióbio no G20 em um piscar de olhos, parece impossível não se embrutecer. Por isso, é impressionante que Petra Costa tenha feito de Democracia em Vertigem um dos mais potentes registros deste caos em que o País foi lançado, sem perder a leveza.

 

Em março deste ano, o mundo da sétima arte perdeu uma de suas maiores entusiastas. Atrás das câmeras, Agnés Varda se consolidou na Nouvelle Vague francesa com sua obra feminina e feminista e abriu caminho para as mulheres que vieram depois. Na esteira das homenagens à diretora belga, Petra Costa confessou que quando descobriu o cinema de Agnés sentiu que encontrava ali inspiração para o tipo de obra que sonhava em fazer.

Elena é o primeiro filme de Petra. O Brasil era outro quando ele foi lançado, em 2012. Os jovens artistas ainda tinham espaço, incentivo e fôlego para se dedicar às complexidades da alma humana. Isso acontecia não só no cinema – mas na música, na literatura, nas artes plásticas. A arte não precisava, necessariamente, ser trincheira.

Se hoje Democracia em Vertigem se destaca na lista de melhores filmes do New York Times ao retratar o Brasil do golpe contra Dilma Rousseff, a primeira obra de Petra está distante da política. É um relato sobre a morte de sua irmã mais velha, Elena. Apesar de ser um assunto delicado e dolorido, ela consegue tratar com sensibilidade e beleza as memórias da família sem fazer do filme um dramalhão pretensioso sobre as dores da classe média. Os recortes e colagens nos remetem à obra de Agnés, a mestre em fazer da telona o palco perfeito para aliar arte à política sem deixar de lado uma profunda preocupação estética.

Cena do filme Democracia em Vertigem, dirigido por Petra Costa e lançado pela Netflix

Essa sensibilidade, aliada à capacidade de trazer para a conjuntura recortes de sua vida pessoal, ou vice-versa, são a assinatura de Petra no cinema brasileiro. Quando foi anunciado o lançamento de Democracia em Vertigem, uma produção Netflix, temi que uma das jovens diretoras com mais potencial do País se perdesse em uma estética comercial apenas para vender uma boa história ao grande público.

Mas Petra conseguiu fazer de Democracia em Vertigem um relato potente da conjuntura nacional sem deixar de lado suas pitadas de poesia, principal característica de seus filmes anteriores, Elena e O Olmo e a Gaivota.

Ao longo de duas horas, ela reconstrói a história recente do Brasil que, por um breve momento, acreditou na solidez do Estado de Democrático de Direito após o fim da ditadura militar. A voz mansinha narra os fatos com vaivéns que se amarram aos fragmentos de sua vida pessoal. A diretora e nossa democracia têm quase a mesma idade, mas o filme mostra o risco iminente de que a segunda não faça mais festa nos próximos anos.

Imagens exclusivas, ângulos inesperados, questionamentos duros e uma análise sensível fazem de Democracia em Vertigem urgente e necessário. Com dureza, mas sem perder a ternura, Petra confessa seus medos e decepções com os governos Lula e Dilma. Certamente ela não está sozinha no cordão dos que acreditaram que seria possível um projeto de governo romper com as velhas práticas do sistema político brasileiro. Mas como ela também mostra, não importa o partido ou a ideologia, os interesses da elite nacional sempre sobressaíram ao processo coletivo.

O que alterou a ordem natural do sistema foi a operação Lava Jato, que, para conseguir destituir o PT do governo, sacrificou um braço importante da elite local, o empresariado da construção civil. Essa análise quem faz é a mãe da diretora, que, assim como Dilma Rousseff, entregou a juventude para combater a ditadura militar e viveu anos na clandestinidade.

Desde que foi lançado, há pouco mais de uma semana, o filme tem levantado debates acalorados entre os diversos setores da esquerda brasileira. Enquanto uns o colocam num pedestal, outros acusam a diretora de ser uma defensora previsível da democracia burguesa.

Entretanto, Democracia em Vertigem se propõe a contar – através dos bastidores dos palácios e das grandes manifestações que sacudiram o Brasil nos últimos anos – a história que aconteceu, e não a que gostaríamos que tivesse sido. A única forma de a narrativa ser outra é aprender com os erros cometidos até aqui, superar a vertigem e construir um projeto sólido para avançar à esquerda – mas tudo isso… antes que a democracia acabe.


por Mariana Serafini, Jornalista |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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Hélia Correia vence prémio maior da ficção portuguesa

A escritora Hélia Correia, voz notável da literatura portuguesa contemporânea, venceu o Grande Prémio do Romance e Novela com a sua mais recente obra, «Um bailarino na batalha». A decisão do júri foi unânime.

Hélia Correia intervém na abertura da 14.ª edição das Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim (2013). Foto de arquivo.CréditosEstela Silva / LUSA

A escritora Hélia Correia é a vencedora por unanimidade do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB1 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pela obra Um bailarino na batalha, refere a Agência Lusa citando comunicado da APE.

O prémio, um dos mais prestigiados do panorama literário nacional, foi atribuído por decisão unânime do júri coordenado por José Manuel de Vasconcelos e constituído por Clara Rocha, Cristina Robalo Cordeiro, Fernando Pinto do Amaral, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Teles de Menezes.

Os finalistas do prémio, além de Hélia Correia, foram Djaimilia Pereira de Almeida, Joana Bértholo, Julieta Monginho e Rui Laje.

O Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB, no valor de 15 mil euros, é um prémio literário atribuído pela APE desde 1982 com o objectivo de consagrar uma obra de ficção de autor português publicada no ano anterior à atribuição do prémio.

O prémio já foi atribuído a 31 autores, tendo-o obtido por duas vezes os escritores Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e Ana Margarida de Carvalho.

Hélia Correia

Hélia Correia nasceu em Lisboa em Fevereiro de 1949. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica e, mais tarde, fez uma pós-graduação em Teatro da Antiguidade Clássica. Foi professora de Língua Portuguesa do ensino secundário.

O seu fascínio pela civilização grega, na sua dimensão humana e equilíbrio, é um traço contínuo do percurso literário de Hélia Correia. «Tudo era feito à medida do homem e pelo homem, e o homem tinha consciência disso. Depois perdemos essa noção», afirmou um dia, por ocasião da recepção de um prémio literário. Na mesma ocasião exprimiu a vontade de que a sua obra pudesse ser «um convite ao pensamento, um convite à filosofia, um convite a que nos desafiemos a tomarmos outra vez as palavras no seu sentido original, na sua pureza».

A casa eterna (1991), que marca uma primeira incursão da autora na biografia ficcionada – uma forma que viria a utilizar nos romances Lillias Fraser e Adoecer – é, para alguma crítica, um momento de cisão na sua escrita.

«Escrever é uma servidão que eu agradeço»

Hélia Correia

Em 1981 estreou-se com O Separar das Águas – ponto de partida para uma obra que se veio a espraiar por vários géneros literários e pela tradução. A novela Montedemo (1983), encenada pelo grupo O Bando, deu-lhe uma primeira notoriedade e correspondeu ao interesse da autora pelo teatro, em particular pelo teatro clássico grego, que a conduziu a uma «breve participação na peça Édipo Rei, onde profere algumas falas em grego» e se traduziu em diversas obras dramáticas, entre as quais Perdição, Exercício sobre Antígona (1991), levado à cena pela Comuna (1993); Florbela (1991), que viria a ser encenada pela companhia Maizum; A ilha encantada (2008), uma adaptação para jovens da peça A tempestade, de William Shakespeare; e com a revisitação de As troianas (2018) renova uma parceria criativa com o seu companheiro, o poeta e dramaturgo Jaime Rocha, com quem publicara anteriormente A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (poesia, 1986).

Em 1991, com o romance A casa eterna, recebeu o Prémio Máxima de Literatura, primeiro de outros galardões literários que se lhe sucederiam: com Lillias Fraser recebe o Prémio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus (2001) e o Prémio PEN Clube Português de Novelística (2002); de novo o Prémio Máxima de Literatura (2006), com Bastardia; o romance Adoecer proporcionou-lhe o Prémio Inês de Castro (2010); em 2013, com A terceira miséria (poesia), recebe o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído pelo festival Correntes d’Escritas, e o Prémio PEN Clube Português de Poesia; e com Vinte Degraus e Outros Contos vence o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco (2014).

O conjunto da sua obra literária é reconhecido pela primeira vez em 2013, ano em que lhe foi atribuído o Prémio Vergílio Ferreira pela Universidade de Évora, seguindo-se-lhe, em 2015, o mais importante galardão da literatura lusófona, o Prémio Camões. A Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega (AELG) atribuiu-lhe, em 2017, o Prémio Escritora Galega Universal.

Para José Manuel Mendes, presidente da APE, Hélia Correia é «uma narradora de excepção, uma personalidade fulgurante que consegue, com uma peculiar imaginação e um poder encantatório de construção de histórias, atmosferas e personagens, escrever num português perfeito, exímio, de grande qualidade, feito de rigor, num trabalho criativo invulgar».

Um deserto habitado

O romance Um bailarino na batalha – título que, conforme explica a autora em entrevista ao JL-Jornal de Letras, se destinava inicialmente a um romance que estava a escrever e que foi substituído, num momento iluminado, por este «poema em prosa sobre o que anda a acontecer» – foi publicado em fins de 2018.

Créditos

Sobre ele escreveu Mário Santos tratar-se de «um (magnífico) poema narrativo épico em prosa», que «prolonga a eloquência nobre de A Terceira Miséria» e cuja «dicção alta e meditada, o seu andamento largo, herbertiano, bíblico e homérico, a sua assombrosa capacidade de mitificar o real quotidiano, transfigurando-o, poética e politicamente» está nos antípodas da «indústria da ficção jornalístico-realista» que nos sitia.

Com Um bailarino na batalha Hélia Correia aborda, no dizer do seu editor, «um dos grandes problemas da actualidade, que, de certo modo, o foi de todos os tempos, as migrações dos deserdados». Os seus personagens «movem-se no deserto […] fora de um espaço e tempo reconhecíveis», com um ritmo construído «na cadência dos caminhantes e da sucessão dos dias e das noites, em busca de uma Europa cada vez mais próxima e inacessível».

  • 1. DGLAB: Direcção-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.

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Portugal | Olá Ruben. Como é a minha vida hoje?...

Ruben de Carvalho
Pedro Tadeu | Diário de Notícias | opinião
Milhares de vezes, quando aquele número aparecia no mostrador do meu telemóvel, soava no auscultador a voz do Ruben de Carvalho: "Olá Pedro, estás bom?... Olha lá, como é a tua vida hoje?".

Por causa dos telefonemas do Ruben, desde que o conheci, em 1983, a minha vida profissional incluiu o jornal "Avante!", a Festa do "Avante!", a Telefonia de Lisboa, o Lisboa 94, e lembro-me lá agora de tantas outras coisas que fiz com ele, de tantas outras coisas que fiz para ele, de tantas outras coisas que fiz por causa dele. Ruben de Carvalho foi meu chefe.

Por causa dos telefonemas do Ruben, tive milhares de horas de conversa, milhares de jantares, milhares de discussões sobre política, história, sociologia, arte, música, relações humanas. Ruben de Carvalho foi meu mestre.

Por causa dos telefonemas do Ruben fui obrigado a estudar livros que ignorava, a ouvir discos que subestimava, a saber duvidar de certezas absolutas, a procurar questionar as minhas convicções para encontrar boas respostas sobre novos problemas, a recusar dogmas e lugares-comuns mas, ao mesmo tempo, a respeitar os milhares de anos de saber acumulado pela humanidade. Ruben de Carvalho ensinou-me a pensar.
Por causa dos telefonemas do Ruben conheci de perto dezenas de pessoas extraordinárias: a incrível companheira dele, a jurista Madalena Santos (que, aliás, nos apresentou); a Ivone Dias Lourenço; o grafista e desenhador José Araújo; o músico, musicólogo e realizador de TV e rádio, Manuel Jorge Veloso; os jornalistas João Chasqueira, Anabela Fino, Carlos Nabais, Domingos Mealha, Henrique Custódio e Leandro Martins; a Noémia; o apresentador Cândido Mota, o locutor Mário Dias...

Ruben de Carvalho foi ponto central e completou a circunferência do meu círculo de relações pessoais. Ruben de Carvalho foi meu amigo.

Contactei com importantes dirigentes comunistas que me impressionaram: António Dias Lourenço, Carlos Brito, Domingos Abrantes, Carlos Carvalhas e, claro, Álvaro Cunhal. Ruben de Carvalho foi meu camarada.

A biografia do Ruben é impressionante.

Foi militante comunista, logo durante a ditadura fascista, antes do 25 de abril; conspirou e lutou contra o regime.

Esteve nos movimentos unitários, da candidatura presidencial de Humberto Delgado às candidaturas eleitorais da CDE; esteve no apoio ao aparelho clandestino do PCP.
Foi preso político seis vezes.

Foi um jovem jornalista que chegou precocemente a subchefe de redação de um grande jornal diário, o "Século".

Fez a guerra colonial em Angola como enfermeiro, decidindo não dar "o salto" para o estrangeiro, mas encontrando uma forma de estar no exército português que não violentasse a sua solidariedade com os movimentos de libertação.

Fez a revista "Vida Mundial", que abriu uma janela de luz na informação opaca da época.
Foi chefe de gabinete de um ministro no primeiro governo da democracia.

Fez a primeira redação legal do "Avante!". Até construiu mobiliário, pois adorava o trabalho manual - não era acaso o brinquedo preferido em criança ter sido o das construções em Meccano.

Esteve no centro da criação da "Carvalhesa", o hino sem letra que tantos trauteiam nas campanhas eleitorais da CDU.

Fez, desde 1976 até hoje, a organização dos espetáculos da Festa do "Avante!".

Fez uma rádio local chamada Telefonia de Lisboa que o cavaquismo, assustado, fechou ilegalmente, como o tribunal administrativo veio a confirmar numa sentença tardia sobre um concurso para novas frequências de rádios.

Fez parte do comissariado do Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura - e isso fez dele, contava com ironia, um dos comendadores da nação, com direito a medalha e tudo.

Fez trabalho parlamentar como deputado eleito por Setúbal.

Foi um vereador empenhado na câmara de Lisboa.

Escreveu, publicou e ajudou a editar várias obras de referência sobre o fado. Lutou muito contra a ideia de que o fado era uma música "salazarenta", como alguma esquerda, mais tonta, logo a seguir à Revolução dos Cravos, crismara o género popular.

Esteve sempre no centro do debate político; publicou milhares de artigos de jornal na "A Capital", "Diário de Notícias", "Público", "Expresso", "Sábado", "24horas", entre outros.

Foi comentador regular na SIC e na RTP.

Fez dois programas na Antena 1 que se tornaram referência na rádio portuguesa e demonstram publicamente a sua personalidade culta, pluralista e tolerante: com Iolanda Ferreira o "Crónicas da Idade Mídia"; com Rui Pego e Jaime Nogueira Pinto, o "Radicais Livres".

Fazer, construir, deixar obra feita num contexto de trabalho coletivo - este era o seu projeto pessoal.

É nesse sentido que deveríamos entender o seu maior legado: o da Festa do "Avante!".

A própria ideia inicial da organização da Festa, inspirada em festas similares de partidos comunistas, como o italiano e o francês, tinha como pressuposto o envolvimento coletivo de milhares de militantes comunistas na organização de um projeto político e cultural que demonstrasse, numa pequena cidade improvisada, o modelo de sociedade igualitária que o PCP defende. A Festa não é, portanto, obra de um indivíduo, é obra de um coletivo.

Com o engenheiro Fernando Vicente e o artista plástico Rogério Ribeiro, o Ruben moldou a forma técnica e estética inicial que milhares de camaradas seus desenvolveram, fizeram evoluir e construíram em vários terrenos e espaços, desde os pavilhões da antiga FIL, na rua da Junqueira, à atual Quinta da Atalaia, no Seixal.

A organização dos espetáculos, a sua tarefa central na Festa do "Avante!", suscitou-me há alguns anos estas palavras:

"Com ele aprendi ser sempre mais difícil decidir quem atua a meio da tarde do que escolher quem encerra a noite. Vi como era preciso ter coragem para dizer não a músicos ligados ao PCP, que caíam na tentação de querer transformar a festa de todos numa coutada exclusiva.

"Aprendi como se fabricam as grandes ideias e as dezenas de horas de discussão redonda, esgotantes, que é preciso ter para lá chegar. Vi como surgiram os filões das músicas brasileiras, folk ou africana, sempre um pouco à frente das modas em que elas depois se transformaram, e registei como aconteceu a que agora é marca definitiva do evento: o grande concerto de música clássica.

"Na Festa do Avante! ensinaram-me, como a muitos outros, o essencial do que me transformou num profissional bem-sucedido: é preciso entender o quadro geral de um problema e dar importância aos detalhes que fazem a diferença".

A Festa do "Avante!" é também relevante porque criou uma indústria: foi lá que se formou a primeira geração de técnicos e de produtores que tornaram os concertos e festivais de verão uma banalidade, que antes não existia em Portugal.

O Ruben foi sempre um intelectual ao serviço da classe operária. Era um génio que não acreditava nos golpes de génio, que acreditava cegamente no trabalho de equipa.

Há uma dezena de anos estivemos cerca de 20 minutos chateados.

Num fim de semana que passámos juntos, discutíamos as mudanças no mundo da comunicação que a internet trouxe. Às tantas fiz uma catilinária sobre a "burrice" da esquerda que deixava para a direita e para o PS o domínio ideológico dos "blogues" e das redes sociais. Ele, zangado (ui!, como era bravo...), espantava-se comigo: como é que eu, militante comunista, defendia a utilização de uma forma de comunicação que, pela sua natureza atomizada, promove o individualismo, o egocentrismo, a vaidade pessoal, o desprezo pelo outro? "Vamos mas é fazer bons sites coletivos, deixa lá isso dos blogues e dos Facebooks que isso é para quem tem a mania de ser vedeta..."

Ruben de Carvalho era um intelectual ao serviço da classe operária. Um revolucionário. Foi essa a missão que cumpriu na vida.

Olho para o telefone, depois de receber a notícia da morte do Ruben de Carvalho, o homem mais impressionante que conheci.

Não evito a comoção e pergunto-me: sem Ruben, como é a minha vida hoje?...

Um grande beijo, Madalena.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/portugal-ola-ruben-como-e-minha-vida.html

“Tiveram a fineza de me apresentar todas as prisões do fascismo”

Com o falecimento de Ruben de Carvalho desaparece uma singular figura de intelectual militante, de homem de excepcional cultura dedicado à causa da emancipação humana, um comunista. Reproduzimos uma entrevista de 2016 que traduz de forma muito impressiva a sua trajectória pessoal e política, a sua lúcida visão do mundo, a sua personalidade irrepetível.

(Entrevista publicada no Observador, originalmente, em Setembro de 2016)
As bombas ameaçaram tirar-lhe a vida por duas vezes. Esteve preso outras seis. Aos 14 anos já tinha levado a primeira sova da polícia durante uma manifestação em Lisboa. Mais tarde, sofreria tortura às mãos da PIDE. Herdou a costela de esquerda dos pais, embora a política corresse nas veias familiares desde os bisavôs.
Jornalista de profissão, Ruben de Carvalho chegou a diretor do “Avante!” fintando a censura prévia num “jogo do gato e do rato”. Aficionado pelo fado numa época em que ser comunista e gostar de fado eram fenómenos contraditórios, era já um melómano quando o conceito seria estranho à grande maioria dos portugueses. A sensibilidade musical acima da média foi decisiva na organização da primeira Festa do Avante!, em 1976, e as 39 edições que lhe seguiram. É única pessoa da primeira comissão executiva da Festa que “ainda anda por cá”. No ano em que se celebram os 40 anos da primeira edição, Ruben de Carvalho puxa a fita para trás e fala do seu percurso e da história da Festa do Avante!

Estávamos a 22 de setembro de 1976, a dois dias da primeira Festa do Avante. Mas uma explosão numa cabine elétrica deixou o recinto da antiga FIL praticamente às escuras. Recorda-se dessa noite?

Se me lembro. Dei um pulo na cadeira. Foi posta uma bomba na cabine elétrica que dava para a Avenida 24 de julho, que privou metade das instalações de corrente elétrica. Era uma tentativa de impedir que a gente fizesse a festa, porque nessa altura, a dois, três dias de começar, já era evidente que a gente a ia fazer. Que íamos ser capazes de fazer a Festa do Avante!. Foi uma tentativa de a impedir por meios violentos.

Hoje, à distância de 40 anos, não tem dúvidas de que se tenha tratado de um atentado?
Nenhuma. Absolutamente nenhuma.

O PCP incomodava assim tanto?
Ao que parece, sim. Mas tem de perguntar a quem pôs lá a bomba. Continua-se a não saber quem foi porque o atentado nunca foi reivindicado e as investigações ficaram sempre em águas de bacalhau. Aquilo do ponto de vista operacional até foi uma coisa relativamente fácil. Uma vez feita a bomba, o que também não era nenhuma proeza especial e na altura não era — havia bombas por todos os lados –, bastou parar o carro na 24 de julho, pôr uma bomba de trotil junto à porta da cabine e acioná-la. Mas conseguimos resolver o problema em menos de dois dias.

Como?
Arranjou-se um gerador junto da EDP. Estava no arquivo de identificação, no Torel. Foi preciso ir lá buscá-lo, levar um camião e a grua, trazer o camião para a FIL, pôr o gerador no chão, ligar aquilo tudo, refazer as ligações, etc. A FIL não tinha nada. Tinha equipamento, estrados, expositores. Tudo o mais teve de ser feito. Tudo teve que ser concebido e construído dentro da FIL. E tudo se arranjou.

Ainda assim, tinha sido um atentado à bomba, havia essa perceção…
Felizmente, não houve feridos, só danos materiais. A bomba rebentou perto do local onde tínhamos instalado a regie da parte dos espetáculos, que era exatamente onde eu estava. Saltei por cima da mesa e ainda hoje estou para saber como. Mas também bombas para mim não eram novidade.

Porquê?
Tinha estado em Angola. [Silêncio] Vim evacuado da guerra com uma perna partida depois de um mina me ter mandado pelo ar. Tinha 23 anos.

Porque é que foi tão importante realizar a primeira Festa do Avante! em 1976? O PREC esvaziara-se com a tentativa fracassada de golpe de Estado a 25 de Novembro, o PCP vinha de três resultados aquém das expectativas (constituintes, legislativas e presidenciais), Mário Soares era primeiro-ministro, o Governo era socialista… A Festa do Avante! era uma tentativa de demonstração de força do PCP?
Qualquer grande iniciativa partidária é sempre uma afirmação de força, seja ela um comício, um jantar, ou um piquenique. No caso concreto das festas, como as festas dos jornais e da imprensa comunista, era também uma iniciativa que tinha que ver com a sobrevivência económica das próprias publicações. As festas constituíam uma forma de angariar fundos. Isto tanto era verdade em Paris, como em Berlim, como em Lisboa. Digamos que esse era o objetivo fundamental. Claro que se tratava também de uma afirmação de capacidade de organização, de mobilização e um meio concreto de levar a mensagem às pessoas.

Era, de alguma forma, uma prova de vida do PCP?
É exagerado dizer isso. Não estava em causa se o PCP existia ou não ou se tinham ou não condições para existir. Agora que constituiu uma poderosa afirmação de força isso constituiu.

Mas era uma forma de dizer que o partido estava unido…
A questão da unidade do partido é um leitmotiv constante da vida do PCP. Isso tanto era verdade no dia 25 de Novembro de 1975, como no dia 15 de Setembro de 2015. É evidente que, numa altura de crise política generalizada, um dos elementos fundamentais de força e de capacidade de resposta do partido era a sua unidade, a sua coesão, o virar para uma ação conjunta e não se desperdiçar e dividir em várias tendências.

Como se explica a alguém que não viveu aquele contexto o significado de uma Festa daquelas proporções?
É difícil. A primeira Festa aconteceu em circunstâncias muito complicadas do ponto de vista histórico. Fez-se poucos meses depois do 25 de Novembro, depois de uma viragem importante no processo político português. Mas a ideia de a fazer a já existia há muito tempo.

Quando é que perceberam que era possível avançar com a ideia?
Na passagem de ano de 75 para 76 fizemos uma festa na FIL, que tinha sido ocupada pela Comissão de trabalhadores. Arrendámos o espaço, praticamente apenas a nave central, para fazer uma festa, com umas bifanas e música e tal. E isto revelou que a FIL tinha uma coisa que praticamente não havia em mais lado nenhum: condições materiais, físicas e técnicas para receber a Festa do Avante!. Isto aconteceu pouco depois do 25 de novembro e correu muito bem. Era o tilt de que precisávamos para avançar. E avançou-se.

O que se recorda desses três dias de Festa?
Excedeu muito as nossas expectativas. Não se podia andar dentro da FIL. Estava rigorosamente a deitar por fora.

Como é que alguém, nascido no seio de uma família burguesa, com o pai médico e a mãe professora primária, que estudara no Lar da Criança, um colégio privado por onde desfilavam os filhos do regime, como Marcelo Rebelo de Sousa, acaba envolvido neste caldo político?
O envolvimento na política na família vinha de trás. O meu bisavô foi vice-governador da Índia e o outro também viria a ser governador de São Tomé. Curiosamente, um dos meus dois avôs era monárquico e o outro republicano. A costela de esquerda seria a costela da família. O meu pai e a minha mãe eram pessoas de esquerda, sobretudo a minha mãe, que era militante do partido em 1930. Havia mais militantes do partido na família. Depois, havia as visitas de casa, os amigos dos meus pais. O meu pai era médico de metade dos neorrealistas desta terra. Esse convívio influenciou-me muito. O Alves Redol, o Leão Penedo, o Rogério de Freitas, o Lima de Freitas, eram visitas frequentes. Estamos a falar de 1958, das eleições presidenciais do Humberto Delgado. Tinha 14 anos. O mesmo ano em que levei pela primeira vez uma cacetada da polícia numa manifestação na Estefânia. Era também o arranque com mais força, nos anos 50, da resposta à tentativa do fascismo de controlar as associações de estudantes, que tinham adquirido uma importância muito grande. E isso alarga-se também aos liceus. O Liceu Camões estava dividido entre direita e esquerda e a minha turma era de esquerda. Portanto, houve um conjunto de circunstâncias de ordem social e política que empurraram as pessoas para esquerda.

Foi perseguido e preso pela PIDE…
Fui preso seis vezes. A primeira vez, em 62, fui preso em casa. Depois, no mesmo ano, fui preso na cantina universitária, durante a famosa greve de fome. Fui novamente preso em 63… E a última prisão lembro-me que foi em 74. Tinha saído de Caxias quinze dias antes do 25 abril e havia largas probabilidades de lá voltar se não tivesse havido o 25 de abril. Andei por toda a parte. Só não andei por Peniche. De resto, tiveram a fineza de me apresentar todas prisões do fascismo.

Sob que acusação?
Nenhuma. Rigorosamente nenhuma. Era esse o comportamento da polícia. Estavam afastadas quaisquer hipóteses de falar, de fazer denúncias ou até de confirmar coisas que a polícia já sabia. A polícia até podia saber tudo, mas o princípio era negar sistematicamente. E isto não era um problema menor para a polícia. Negando a polícia ficava a braços com um problema complicado: ou denunciava as próprias fontes ou era o próprio a confirmar. Como eu nunca disse nada em todas as prisões acabavam por nunca me conseguir julgar.

Sofreu algum tipo de tortura?
O costume. Tortura do sono. Cheguei a estar seis meses em Caxias isolado. Preso sozinho, numa cela, sem falar com ninguém, sem jornais, sem livros, rigorosamente sozinho.

Alguma vez teve medo?
Ouça, se alguma vez alguém lhe disser que nunca teve medo, mande-o dar uma volta de bicicleta. Eu estive na guerra, estive na atividade política na clandestinidade, fui preso. É evidente que tive medo. So what?

Acompanhava este lado de militância política com a carreira de jornalista — foi chefe de redação da Vida Mundial e redator paginador d’O Século antes de se tornar, finalmente, diretor do “Avante!”, já depois do 25 de abril. Como era viver permanentemente a tentar fintar a censura?
Complicado, claro. No fundo, era um jogo do gato e do rato. Criava-se uma forma de escrever por elipses. Era comum escrever uma coisa introduzindo um ou dois parágrafos que já se sabia a priori que a censura ia cortar, umas afirmações bombásticas exatamente para isso: para libertar as partes realmente importantes. Mas as limitações eram enormes. A censura foi um dos mais eficazes instrumentos do fascismo. Os jornais de todo o período do fascismo refletem um país que não existia. Um país onde não havia greves, onde as pessoas nem sequer se suicidavam… Não se podia dizer num jornal que o fulano se tinha suicidado. Tinha aparecido morto. Ou caído de uma janela. Qualquer tipo de acontecimento que perturbasse a tranquilidade e o sossego do fascismo, a censura encarregava-se de cortar e limitar. Não se podia criar alarme social.

Ao mesmo tempo, era já um aficionado pelo fado. Não era algo contraditório para um destacado militante comunista?

Na altura, chocavam um bocado. A ideia de que o fado era uma expressão decadente a que o regime dava um certo apoio existia. Foi um problema que só se esclareceu já muito depois do 25 de abril. E isso não aconteceu só com o fado. As músicas populares e urbanas sempre foram consideradas um fenómeno menor do ponto de vista musical.

Mas como nasceu essa paixão pelo fado?
Não diria só pelo fado. Era pela música em geral. Se falar com qualquer pessoa da minha idade todas elas são amadores musicais. A música tornou-se a partir dos anos 50 um fenómeno muito presente na vida cultural juvenil. Desde o Zeca Afonso até à Amália, passando pelos Rolling Stones, Beatles, Pete Seeger ou Chico Buarque, a música era já uma forma de intervenção.

Já nessa altura era aquilo a que se pode chamar de melómano. Esse conhecimento, essa sensibilidade acima da média, foi de alguma forma decisiva na organização da Festa do Avante!?
Sim. Até porque tinha iniciado, como jornalista, um secção de crítica musical no Século Ilustrado e era o que se pode chamar presunçosamente um estudioso do assunto. Assinava publicações estrangeiras, tinha muitos amigos que trabalhavam em companhias de aviação que iam ao estrangeiro, o que me dava uma certa atualização sobre o que ia aparecendo em termos de música por esse mundo fora. Era um especialista no assunto.

Recorda algum concerto na Festa do Avante! que o tenha deixado especialmente orgulhoso?
Foram muitos… Chico Buarque, Judy Collins, Richie Havens, os Dexys Midnight Runners, os Bogus Brothers… Estive a fazer as contas no outro dia, assim por alto, e, entre portugueses e estrangeiros, ao longo destes anos passaram pela Festa do Avante seguramente mais de 20 mil artistas. Houve espetáculos a todos os níveis memoráveis. Espetáculos que, de certa forma, que são irrepetíveis. Às vezes digo que houve artistas que fizeram espetáculos no Avante! melhor do que eles próprios. O Chico [Buarque], por exemplo, que tem um horror a palcos, fez um espetáculo notável e histórico, em 1980. Depois, há uma coisa que contém uma certa dose de originalidade — e que mantém essa originalidade — que foi termos introduzido música erudita, música clássica, num festival com aquelas características. Uma coisa que nunca tinha sido feita e só nós é que a fazemos. Meter uma orquestra com 90 pessoas a tocar “A Sagração da Primavera” em cima de um palco de rock não é propriamente muito comum. Foi daquelas coisas que, quando se fez pensámos: ‘Vamos ver o que é que dá’. E deu.
Voltando um bocadinho atrás para regressar depois ao presente. Na primeira edição da Festa do Avante, Álvaro Cunhal aproveitaria para dizer que o PCP estava “são, unido e firme como uma rocha”. 40 anos depois, com o PCP a suportar, pela primeira vez, uma solução de Governo socialista, podemos dizer que o partido está menos firme?
Acho que não. Do meu ponto de vista está tão firme, tão são e tão rocha como sempre foi. Não vejo que haja qualquer indício de que assim não seja.

Perguntava-lhe indiretamente se o PCP, envolvido nesta solução de poder, não corre o risco de perder a identidade…
Votei favoravelmente esta solução que, diga-se em abono de verdade, não marca nenhuma alteração particular da parte do PCP.. Nós sempre defendemos a necessidade de uma alternativa de esquerda para a governação. Não tiramos nenhum coelho do chapéu. Mas nas últimas eleições criaram-se condições objetivas [os resultados eleitorais] e subjetivas [os protagonistas] para que isso acontecesse.

Foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa entre 2005 e 2013. Trabalhou diretamente com António Costa. Ele era o homem certo para concretizar esta solução?
Sou suspeito para falar sobre o António Costa. Andei com ele ao colo e quando digo que andei com o António Costa ao colo não é uma figura de retórica. O meu pai e o pai do António Costa eram amigos. Quando eu tinha 18 anos o António Costa tinha dois ou três. E apesar de o pai do António Costa ser militante do partido ele lá acabou por ir para o PS por causa de uma brotoeja qualquer. Nunca percebi o que é que lhe deu. Mas sempre nos demos bem. E, de certa forma, pode dizer-se que António Costa sempre foi um homem que esteve nas bandas mais à esquerda do PS durante as clivagens do partido.

Sim, mas o partido que emergiu no pós-25 de abril rever-se-ia neste PCP?
É uma comparação um bocado difícil de fazer. Sim e não. Por um lado, sim, porque há características intrínsecas do partido que me parece que se mantêm. Mas, por outro lado, a própria sociedade portuguesa modificou-se. Não seria muito frequente ver militantes do partido a caçar Pokémons. Não seria plausível, até pelo excelente motivo de que não existiam Pokémons. As coisas mudaram. Os hábitos, os costumes, os interesses da sociedade são outros. Repare, dentro de cinco anos o partido vai fazer 100 anos. Ora, uma estrutura que dura 100 anos tem de se transformar, mas tem de manter a identidade. Se aparecessem cá agora o Bento Gonçalves ou o Pavel [pseudónimo de Francisco de Paula Oliveira] e olhassem para o partido não seria exatamente o partido que eles conheceram, mas também não seria uma coisa que eles não sabiam o que era.

Ao fim de 40 anos como membro do executivo da Comissão Organizadora da Festa do Avante, a motivação para continuar é a mesma?
Do ponto de vista do ânimo e da vontade sem dúvida. Agora noto que os anos passam. Uma coisa é ter 32 anos, outra é ter 72. Não é por acaso que eu sou a única pessoa da primeira comissão executiva da Festa do Avante! que ainda cá está. Os outros reformaram-se ou, enfim, desapareceram. Garanto-lhe que aqui há dez anos não me encontrava a dormir no dia anterior a abrir a festa. A fadiga é muito maior. Já tive um enfarte do miocárdio, sofro de insuficiência renal, tive este sarilho que foi complicado da fratura do fémur há dois anos [a mesma que partira na Guerra Colonial]. Portanto, o normal da vida.

Fonte: https://observador.pt/especiais/ruben-de-carvalho-tiveram-a-fineza-de-me-apresentar-todas-as-prisoes-do-fascismo/[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

No ano em que se comemora o nonagésimo aniversário de José Afonso, sintomaticamente ,a sua obra encontra-se esgotada, sem editora que assuma respectiva reedição, impossibilitando assim o seu acesso público.

 

A obra de José Afonso é parte incontornável do património cultural do nosso país.

Neste contexto, a Associação José Afonso divulga em Conferência de Imprensa a petição que lançou, no sentido de que a sua obra seja declarada pelo Ministério da Cultura como facto relevante desinteresse cultural.

Francisco Fanhais, Presidente da Direcção da Associação José Afonso, realiza hoje, dia 13 de Junho, uma conferência de imprensa na Sede Nacional da AJA, em Setúbal, para promover este propósito.

O objectivo

Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

  1. Considerando que a obra de José Afonso é referência maior da cultura musical portuguesa;
  2. Constitui património de inestimável e de inexcedível grandeza, integrando o que de mais valioso se contém na música portuguesa do séc xx;
  3. Integra a mais vivida memória do nosso passado em ditadura e do nosso renascimento em Abril na construção de democracia;
  4. Não obstante a indesmentível importância desta obra, encontram-se indisponíveis para aquisição 11 (onze) álbuns, integrando a maioria da obra de José Afonso, face à suposta dissipação de todo o património da Movieplay, perante a insolvência, encontrando-se apenas existentes no mercado discográfico 3 álbuns;
  5. Nos termos da Lei numero 107/2001, de 8 de Setembro,” integram o património cultural todos os bens que sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura, portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização” ((artigo 2, numero 1);
  6. A supracitada lei refere, ainda, no artigo. 2, numero 3, que o interesse cultural relevante, deve reflectir valores de memória, autenticidade, originalidade e singularidade, entre outros atributos;
  7. Prescreve de igual modo que o Estado deve, através de salvaguarda e valorização, assegurar a transmissão “de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional” (artigo 3, numero 1);
  8. Atento a atrás exposto, os cidadãos abaixo assinados vêm, ao abrigo do disposto no artigo 25 da Lei numero 107/2001, de 8 de Setembro, requerer a V. Excia, a classificação da obra de José Afonso como de interesse nacional, com vista à sua protecção nos termos do artigo. 31 da mesma lei, designadamente, “a uma especial tutela do Estado”.


Petição pública – Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

 

 

 


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/declarar-a-obra-de-jose-afonso-de-interesse-nacional/

Morreu Ruben de Carvalho, «homem de combate e confronto de ideias»

Em nota do Secretariado do Comité Central do PCP, destaca-se o contributo que deixou à sociedade portuguesa, do jornalismo à cultura, bem como o empenho com que lutou toda a sua vida, pela democracia e a liberdade.

Rúben de Carvalho na conferência de imprensa para apresentação do programa da Festa do "Avante!" 2016, na Quinta da Atalaia, Amora, 22 de Agosto de 2016CréditosMANUEL DE ALMEIDA / LUSA

«É com profundo pesar que o Secretariado do Comité Central do PCP informa que Ruben de Carvalho faleceu hoje, com 74 anos, em consequência de problemas de saúde que exigiram internamento hospitalar», lê-se na nota emitida esta manhã.

Jerónimo de Sousa destaca o «homem de combate e de confronto de ideias, [...] de diálogo com quem discordava mas simultaneamente respeitava», que «abraçou a luta pelo projecto do partido que o animava e o acompanhou durante toda a sua vida».

Do movimento estudantil à luta antifascista

Ruben de Carvalho, jornalista e intelectual comunista, envolveu-se desde muito jovem na luta antifascista.

«Ao longo de toda a sua vida, Ruben de Carvalho empenhou-se na luta, com o seu Partido, pela liberdade e a democracia, por uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão, o socialismo e o comunismo»

Nota do Secretariado do Comité Central do PCP.

Foi preso várias vezes entre 1961 e 1966, e novamente a 7 de Abril de 1974, libertado pouco antes de eclodir a Revolução dos Cravos. Ainda estudante do Ensino Secundário, integrou, em 1960, a Direcção da Comissão Pró-Associação dos Estudantes do Ensino Liceal e da Comissão Nacional do Dia do Estudante (de 1961 a 1964). Participou na luta académica de 1962, já estudante do Ensino Superior. E em 1963 integrou a Direcção da Comissão Pró-Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa.

Foi membro das «comissões juvenis de apoio» à candidatura do General Humberto Delgado em 1958 e activista da Oposição Democrática nas «eleições» para a Assembleia Nacional de 1961, 1965 e 1973.

Militante do Partido Comunista Português

Aderiu ao Partido Comunista Português em 1970 e, após o 25 de Abril de 1974, foi da Direcção Nacional do Movimento Democrático Português – Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE) e chefe de gabinete do Ministro Sem Pasta, Prof. Francisco Pereira de Moura, no I Governo Provisório.

Era membro da Direção da Festa do Avante! desde a sua primeira edição, em 1976, com um reconhecido papel na escolha da programação cultural, particularmente dos espectáculos musicais. Um caminho que se inicia quando em Portugal não existiam ainda os meios técnicos necessários à realização de espectáculos com estas características e dimensões, como teve oportunidade de contar em entrevista ao AbrilAbril por ocasião da 40.ª edição da Festa do Avante!. Dos milhares de músicos que passaram pelos vários palcos, destaca-se a predominância de artistas portugueses e uma grande variedade.

Foi eleito deputado à Assembleia da República pela Coligação Democrática Unitária (CDU), em 1995, vereador da Câmara Municipal de Setúbal, em 1997, e vereador na Câmara Municipal de Lisboa, entre 2005 e 2013.

Foi funcionário do PCP entre 1974 e 1997, membro do Comité Central desde 1979, e chefe de redacção do Avante!, órgão central do PCP, entre 1974 e 1995.

Jornalista, historiador e programador cultural

Foi repórter e redactor coordenador de O Século em 1963 e editor-paginador em 1971. Foi chefe de redacção da Vida Mundial em 1967. Teve colaborações em numerosas publicações, nomeadamente na Seara Nova e no Expresso. Foi cronista no Diário de Notícias e comentador da SIC Notícias. Dirigiu entre 1986 e 1990 a rádio local Telefonia de Lisboa. Produzia, desde 2009, o programa Crónicas da Idade Mídia e participava no programa Os Radicais Livres na Antena 1.

Foi membro da Comissão Executiva das Festas de Lisboa e da Comissão Municipal de Preparação de LISBOA 94 – Capital Europeia da Cultura, comissário para as áreas de Música Popular e Edições de LISBOA 94 e director artístico do Festival das Músicas e Portos, em 1999, nomeado pela Câmara Municipal de Lisboa. Foi também membro do Conselho Consultivo do Centro Cultural de Belém.

Publicou os livros Dossier Carlucci-CIA, Festas de Lisboa, As Músicas do Fado, Seis Canções da Guerra de Espanha, Um Século de Fado, Histórias do Fado, As Palavras das Cantigas, de José Carlos Ary dos Santos. Produziu vários discos, entre os quais Uma certa maneira de cantar, A Internacional, Pete Seeger em Lisboa, 25 Canções de Abril, Lisboa Cidade Abril, CarvalhesaGrândolas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/morreu-ruben-de-carvalho-homem-de-combate-e-confronto-de-ideias

NA MORTE DE UM CRIADOR COMUNISTA

Um imenso adeus
ao
Rúben

Embora infelizmente esperada mas nem por isso menos dolorosa e brutal, chega a notícia da morte de Rúben de Carvalho. E, neste momento, tenho diante de mim a maior das dificuldades em encontrar as palavras e ideias adequadas a respeito deste amigo e camarada que deixa as nossas vidas, a nossa luta e os nossos sonhos. Porque se trata de um grande amigo e de um marcante camarada desde há cerca de 50 anos, com quem tanto aprendi, com quem travei tantos e tantos momentos de reflexão e discussão, tantas batalhas contra o fascismo, na revolução de Abril e nos complexos e desafiantes tempos posteriores. Recordo de imediato, a propósito de Rúben de Carvalho a sua participação nas lutas estudantis do inicio dos anos 60, o tempo em que ele e eu éramos o aparelho clandestino de imprensa e propaganda da CDE de Lisboa (71-74), o seu qualificado percurso de jornalista ( «O Século»,« Vida Mundia» e «Avante!»), a sua vasta e irrequieta cultura, o seu papel no desenvolvimento do «Avante1» legal. Recordo também o seu papel na fisionomia musical (e não só) da Festa do Avante, o seu especial conhecimento da história dos EUA e do seu movimento operário, a sua qualidade de especialista no fado, a sua dimensão de organizador ou colaborador destacado de projectos especiais como Lisboa 94, as Festas de Lisboa e a Telefonia de Lisboa, a sua dimensão de intelectual comunista que, sem os preconceitos que se sabe, teria obtido um ainda maior reconhecimento público. Enfim, tudo isto e muito mais seria pouco para honrar com justiça a memória do Ruben que partiu e me (nos) vai fazer falta. Abraço apertado para a Madalena Santos.
E neste momento de tristeza, decido deixar aqui duas pequenas marcas, entre tantas outas de natureza cultural e política, que o Ruben nos deixou :
- uma é, num quadro de trabalho
colectivo, a sua destacada contribuição para a criação da «Carvalhesa»:
- outra, o Manifesto, que ele
inspiradamente redigiu,
do
XIII Congresso (Extraordinário)
do PCP e que, 29 anos depois, ainda
conserva uma revigorante actualdade :

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Falta de conhecimento e ausência de norte

Tenho uma convicção reforçada a cada dia: a de que as grandes conquistas políticas e sociais apenas são irreversíveis, e têm condições de antecipar outras que as irão ampliar, se não dependerem apenas de interesses e acordos conjunturais. Isto é, se forem articuladas com uma consciência coletiva, de ordem histórica e cultural, da sua necessidade e da sua justeza. A partir da Revolução Francesa, os princípios emancipatórios da igualdade perante a lei, do valor da liberdade individual, da fraternidade como elemento edificador do Estado-Providência, da justiça social e dos direitos humanos puderam vingar – apesar da linha irregular de avanços e recuos – porque estiveram presentes no combate de ideias e em grande número de obras literárias e artísticas. Foram estes que estruturam em boa parte do mundo as convicções, as expetativas, o gosto e a noção de humanidade pelos quais tantos se bateram ao longo de gerações, oferecendo coesão e fundamento subjetivo a essa luta.

Quem leu Os Miseráveis, de Victor Hugo, não esquecerá a luta de décadas de Jean Valjean pela reparação da injustiça que o convertera num proscrito. Quem olhou o quadro O Viajante Sobre o Mar de Névoa, de Caspar D. Friedrich, guardará consigo uma ideia de grandeza a propósito do confronto heroico do indivíduo com o mundo rude e instável que o rodeia. Quem seguiu as páginas de Cabra-Cega (Drôle de Jeu), de Roger Vailland, aprenderá para sempre que mesmo os mais corajosos e dedicados podem ter escolhas pérfidas. Já no século XX, os meios «de reprodutibilidade técnica» – como chamou Walter Benjamin aos instrumentos que permitiram popularizar artes como a fotografia, o cinema e a música –, associados à redução do custo de livros e publicações periódicas, ampliaram aquelas possibilidades. Foi do seu encontro com o alargamento das populações educadas que resultaram gerações de homens e de mulheres capazes de viver as mudanças do mundo apoiados em representações e relatos que iluminavam, mobilizavam ou corrigiam as suas escolhas e as suas expectativas. O acentuado recuo da cultura literária e artística ocorrido nas últimas décadas tem feito com que começássemos a ver diluído esse corpo de referências, mesmo entre largos setores de pessoas que hoje, em muito maior quantidade que no passado, frequentam o sistema de ensino e têm uma escolaridade mais extensa. Sendo verdade que isto de modo algum se aplica a toda a gente – e que existem muitíssimas pessoas jovens que escapam de todo a este novo padrão dominante –, mesmo nos espaços cruciais de salvaguarda e propagação da tradição cultural herdada que são as universidades é agora facílimo deparar, até nos cursos de humanidades, com turmas inteiras de alunos que desconhecem de todo esse património e que, pior, não manifestam interesse em conhecê-lo, rejeitando em particular a prática regular e imersiva da leitura. Mesmo o conhecimento adquirido circula sem um fundamento sólido e funciona muitas vezes como algo que serve basicamente para cumprir «objetivos pedagógicos», mas não para alimentar as consciências e as vidas de quem com ele convive e para municiar o debate crítico. Porque consta sobretudo de ideias recebidas, juntas como peças de um puzzle, e não tanto de experiências conquistadas, dinâmicas e solidificadas na memória, que podem, essas sim, ficar para a vida inteira e apoiar as consciências. Como faço parte do exército, talvez não muito extenso, mas firme e obstinado, dos otimistas, e além disso como historiador vivo particularmente consciente da efemeridade de tudo, sei que este panorama corresponde a uma fase que será superada, e que a humanidade não sobreviverá sem o contributo do património de conhecimento e criação que lhe permitiu diferenciar-se das outras espécies. Mas é imperativo tomar-se consciência desta situação, pois sem bússola é muito mais fácil perdermos o norte e enganarmo-nos nas rotas, ficando ao dispor de todas as tempestades. Os programas políticos, sobretudo os de índole progressista, devem ter esta dimensão em conta, não a remetendo, como têm feito, para parágrafos invisíveis empurrados para a última página. Rui Bebiano Fotografia de Jared Lank
Versão ligeiramente revista de artigo publicado no Diário As Beiras de 1/6/2019

Ver o original em "A Terceira Noite"

Proteger o Património Cultural

«Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão, a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame.»


 

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntrica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa.
Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

Fonte: https://pracadobocage.wordpress.com/2019/05/09/proteger-o-patrimonio-cultural/

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Bela iniciativa

Uma nova e incontornável
página WEB sobre Garcia Lorca
aqui

«(...)Con fotografías cedidas en muchos casos por la fundación que representa a la familia del poeta, la web permite establecer "un viaje de ida y vuelta" a través de los numerosos recursos culturales y turísticos. Es precisamente esa vertiente turística y de promoción del patrimonio la que puso en valor José Entrena, presidente de la Diputación Provincial de Granada, durante la presentación del proyecto. Un labor que, en palabras del político socialista, tiene una “enorme trascendencia” pues abre el universo de Lorca “a millones de personas” y, de paso,permitirá dar “a conocer la provincia [de Granada] que tanto amó y que tanto le debe” al poeta. Además de una completa biografía y otra sección dedicada a la obra de García Lorca, dividida esta a su vez en su impronta literaria, musical y filmográfica,la web dispone de un índice alfabético con cerca de un centenar de personas relacionados con el poeta y datos útiles que incluyen museos, tours y una agenda actualizada de eventos.(...)»
(aqui)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Obra de José Mário Branco "é um mundo" e é revisitada em álbum tributo

De Osso Vaidoso a Ermo, de Camané aos Walkabouts, são mais de dez os artistas que interpretam temas de José Mário Branco, num disco-tributo que sai no dia 24 pela Valentim de Carvalho.

"O objetivo era mostrar a plasticidade da música do Zé Mário Branco, é muito abrangente e inspirou muita gente de várias gerações. A obra dele é um mundo", afirmou à agência Lusa Rui Portulez, produtor executivo do álbum.
Com data de lançamento para o dia 24, véspera do 77.º aniversário do cantor e compositor, 'Um disco para José Mário Branco' apresenta 16 temas revisitados por outros tantos nomes, quase todos da música portuguesa.

A abrir surge o músico brasileiro Lucas Argel, que canta 'Queixa das almas jovens censuradas', e a fechar está o ator João Grosso a interpretar 'FMI'.

Para falar deste disco, Rui Portulez recuou a 2014, quando a Casa da Música, no Porto, acolheu um espetáculo por ele idealizado em torno do "maior cantor de intervenção/cantautor revolucionário" de Portugal, ainda vivo.


Na altura, no espetáculo participaram alguns dos músicos que entram agora no disco de homenagem, como João Grosso, Batida, e JP Simões, de quem é conhecida a versão de "Inquietação".

Para o álbum foram ainda convidados outros nomes que Rui Portulez sabia que tinham afinidades ou já tinha passado pelo repertório de José Mário Branco, como Osso Vaidoso, de Ana Deus e Alexandre Soares, e Primeira Dama.

Ermo compuseram 'Eram mais de cem', com música nova para letra de José Mário Branco, e o rapper Ruas escreveu 'Comboios parados', com um 'sample' da música 'Cantiga para pedir dois tostões'.

O produtor repescou ainda versões mais antigas que tinham já sido feitas, como 'Fado Penélope', por Camané, 'Loucura', por Mão Morta, e 'Década de Salomé', dos Peste & Sida.

Destaque ainda para a inclusão de 'Cantiga para pedir dois tostões', dos espanhóis Single, e 'Hard Winds Blowin', dos norte-americanos The Walkabouts, fruto de uma temporada que o músico Chris Eckman viveu em Lisboa.

A edição física do álbum inclui textos de quase todos os convidados, com impressões muito pessoais, memórias e opiniões sobre o universo musical de José Mário Branco.

"Depois de José Afonso, é este José o nome mais importante a fixar na música de intervenção, em particular, e como referência incontornável da música portuguesa, em geral", afirma Rui Portulez num dos textos que acompanham o álbum.

Nascido no Porto em 1942, José Mário Branco cumpriu em 2018 meio século de carreira, tendo editado um duplo álbum com inéditos e raridades, gravados entre 1967 e 1999. A edição sucede à reedição, no ano anterior, de sete álbuns de originais e um ao vivo, de um período que vai de 1971 e 2004.

Na altura, em declarações à Lusa, José Mário Branco dizia que não dá qualquer importância a efemérides e celebrações de datas redondas.

"Não são coisas que me motivem muito, tenho respeito pelo respeito das pessoas, mas essas histórias das efemérides...", afirmou.

O compositor não mostrava, então, pressas em gravar coisas novas, por preferir trabalhar para outros músicos - "Não me sinto menos interessado por não ser eu a cantar" - e a isto juntava ainda uma certa resistência em subir a um palco.

"Comecei a sentir-me um bocado museológico em cima do palco. Há uns tempos que eu não faço concertos nem recitais, mas felizmente não paro de trabalhar e de fazer coisas de que gosto imenso", disse.

Lusa | Notícias ao Minuto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/obra-de-jose-mario-branco-e-um-mundo-e.html

Pete Seeger: De que lado você está?

Esta canção, gravada por Pete Seeger em 1940, virou hino da luta sindical nos Estados Unidos. E mantém sua atualidade nas lutas atuais, inclusive no Brasil, quase 90 anos depois de sua composição pela ativista Florence Reece. 

Pete Seeger – que teria completado cem anos no início deste mês (em 3 de maio) – foi um cantor intimamente ligado à luta popular. As canções que gravou não apenas tinham como tema a luta dos trabalhadores, mas muitas vezes surgiram dela. Como a canção Which Side Are You On? (De que lado você está?), que ele gravou em 1940 e se tornou uma espécie de hino da luta sindical nos Estados Unidos. 

Which Side Are You On? foi composta em 1931, pela poeta, militante e escritora popular Florence Reece (1900-1986), que era filha e esposa de mineiros de carvão no Kentucky (EUA). Ela a compôs durante a greve conhecida como a Guerra do Condado de Harlan. Seu marido, Sam Reece, era um dos líderes da United Mine Workers (Sindicato dos Mineiros) em Harlan County, Kentucky, sendo um dos dirigentes da greve. 

Num certo dia, para intimidá-lo, a repressão – comandada pelo xerife J. H. Blair (citado na música como chefe de bandidos) – invadiu a casa dos Reece, mas Sam já não estava lá. Naquela noite, Florence escreveu a música (no verso de um calendário de parede!) que ficaria famosa. Ela foi coletada em 1937 pelo folclorista Alan Lomax, parceiro de Pete Seeger, que a gravou em 1940. 

A letra, com a autenticidade da voz que vem diretamente da luta operária, exige a tomada de posição na luta contra a opressão, e sua atualidade é renovada em nossos dias, quase 90 anos após sua criação por Florence Reeve. Ela diz, com clareza: 

“De que lado você está?”

Venham todos vocês bons trabalhadores,
trago boas notícias para vocês 
de que o bom e velho sindicato 
veio aqui para ficar. [Refrão:] De que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está? Meu pai era mineiro
e eu sou filho de um mineiro
e vou ficar com o sindicato
até que todas as batalhas sejam vencidas. [Refrão] Eles dizem que no condado de Harlan 
não há neutralidade;
você vai ser um sindicalista
ou um bandido de J. H. Blair. [Refrão] Oh trabalhadores, vocês aguentam?
Oh me diga como podem.
Você vai ser uma péssima sarna
ou será um homem? [Refrão] Não fure [a greve] para os patrões,
não ouça suas mentiras.
Nós, gente pobre, não temos chance 
a não ser que nos organizemos. [Refrão]

 

“Which Side Are You On?”

Come all of you good workers,
good news to you I’ll tell
of how the good old union
has come in here to dwell. [Chorus:] Which side are you on?
which side are you on?
which side are you on?
which side are you on? My daddy was a miner
and I’m a miner’s son,
and I’ll stick with the union
’til every battle’s won. [Chorus] They say in Harlan County
there are no neutrals there;
you’ll either be a union man,
or a thug for J. H. Blair. [Chorus] Oh workers can you stand it?
Oh tell me how you can.
Will you be a lousy scab
or will you be a man? [Chorus] Don’t scab for the bosses,
don’t listen to their lies.
Us poor folks haven’t got a chance
unless we organize. [Chorus]

 

 


Texto em português do Brasil


 

https://www.jornaltornado.pt/pete-seeger-de-que-lado-voce-esta/

Feira do Livro de Grândola homenageia Fernando Namora

A 33.ª edição da Feira do Livro de Grândola, no distrito de Setúbal, assinala o centenário do nascimento do escritor neo-realista Fernando Namora. Abre ao público na próxima sexta-feira, 10 de Maio.

Fernando NamoraCréditosManuel Moura / Agência LUSA

O Cineteatro Grandolense acolhe a 33.ª edição da Feira do Livro de Grândola, com centenas de livros que traduzem a participação de várias dezenas de editoras, numa edição que homenageia Fernando Namora, um dos arautos do neo-realismo.

A par dos livros, no dia 12 de Maio, pelas 16h, realiza-se o colóquio «Retalhos da Vida de Um Escritor», seguindo-se um «Lanche Namoriano», cuja ementa será criada com base nas referências encontradas na obra do autor, que foi também médico e pintor.

Na obra Retalhos da Vida de um Médico, cujo primeiro volume é publicado em 1949, Namora, então jovem médico, apresenta um verdadeiro documento social, resultado da sua incursão pelo País de Salazar. 

A Câmara Municipal de Grândola, promotora da Feira do Livro, destaca ainda a apresentação do livro José Afonso, o Tempo e o Modo, de Alcides Bizarro, no dia 18 de Maio, às 16h30, seguindo-se um espectáculo com o Ensemble da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (SMFOG) – Música Velha, que interpreta José Afonso e Carlos Paredes.

As crianças e os jovens terão também o seu espaço na 33.ª Feira do Livro de Grândola. Haverá sessões de contos, apresentação de livros e um ciclo de «Cinema e Literatura» com a exibição de filmes como Se Esta Rua Falasse. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/feira-do-livro-de-grandola-homenageia-fernando-namora

A Gioconda, Leonardo da Vinci

“A Gioconda”, de Leonardo da Vinci. Leonardo da Vinci é considerado por muitos como o maior génio da história.

Procurei resistir à fácil ideia da publicação desta pintura mundialmente conhecida, ao arrepio, todavia, da sua igual compreensão e fruição pelas gentes mais fascinadas com o mito do que com a obra de arte. Pobre dela que padece em embalagens de sabonetes ou em celofanes de spaghetti.

Mas acontece que esta aura quase futebolística não lhe retira, a meu ver, a importância do trabalho notável do mestre. Figuração tida como uma afirmação incontestável do ideal do Renascimento, há no retrato uma composição intelectual de um novo tempo que se procurava nos tempos passados, como afirmou, genialmente, Sophia de Mello Breyner em que «a Grécia é o ponto de partida a que é preciso chegar».

É justo fazer-se uma comparação do seu famoso sorriso àquele outro, também do autor, de “Santa Ana com a Virgem e o Menino”, embora este menos pronunciado, mais divinizado, digamos assim.

Paisagem do contexto imagético leonardesco de uma atmosfera poética é a figura que se protagoniza pela valorização das mãos, pelo enigmático sorriso que tanto pode ser púdico como vicioso, pelas sombras esbatidas (o “sfumato”) que lhe ocupam a face mais visível e o pescoço, num alarde florentino de superioridade insofismável do desenho acrescido de uma pincelada fluída.

Informação adicional

 

Artista: Leonardo da Vinci
Dimensões: 77 cm x 53 cm
Local: Museu do Louvre (desde 1797)
Material: Tinta a óleo
Criação: 1503
Período: Renascimento


Nota de edição

Leonardo da Vinci 
1452-1519

Nasceu em Anchiano, pequena aldeia toscana perto de Vinci. Passou a maior parte do início de sua vida profissional a serviço de Ludovico Sforza, em Milão.

Leonardo da Vinci era, como até hoje, conhecido principalmente como pintor. No entanto, foi também escultor, arquitecto, matemático, urbanista, físico, astrónomo, engenheiro, químico, naturalista, geólogo, cartógrafo, estrategista e inventor italiano.

Leonardo da Vinci é considerado por muitos como o maior génio da história, devido à sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, e pela sua engenhosidade e criatividade.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-gioconda-leonardo-da-vinci/

Tão generosos que eles são!

Poucos dias passados sobre o incêndio, que destruiu boa parte da cobertura da Catedral de Notre Dame de Paris, a «generosidade» dos principais capitalistas franceses, e uns quantos estrangeiros mais, parece bastar para o financiamento da sua reconstrução. Só o Vaticano parece ter faltado à chamada do mecenas, porventura por ver na operação custos exagerados para quase inexistentes benefícios.

 

Que bela operação de marketing se desencadeou com a colaboração da prestimosa imprensa ao serviço dos seus próprios donos. Os que virão a deduzir nos impostos tão lautas doações reduzindo a nada o custo que, inchados de orgulho, dizem vir a ter...

 

É o capitalismo no seu esplendor e na sua mais inominável hipocrisia!

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/tao-generosos-que-eles-sao.html

Notre-Dame e os bombardeamentos imperialistas

por Cecilia Zamudio [*]

É triste, sim, o incêndio da Notre-Dame de Paris, mas mais triste ainda é que a França, os Estados Unidos e os restantes países imperialistas, bombardeiem países por todo o planeta, com desconcertante facilidade, para massacrar milhões de pessoas, destruir património histórico da humanidade, ainda mais extenso e mais antigo do que Notre-Dame, destruir escolas, hospitais e infraestruturas vitais para a salubridade, utilizar urânio empobrecido e deixar dezenas de milhares de amputados e índices de cancro descomunais nesses países que bombardeiam e torturam através de mercenários por eles fomentados (como o ISIS ou como os supostos "rebeldes líbios")… Tudo isso para saquear até à medula os recursos dos países invadidos. Porque essa fera, que invade e espezinha, tem as fauces ávidas do capitalismo transnacional.

 Os meios de comunicação da Ditadura do Capital ditam hoje que temos de nos desesperar pela catedral de Paris. Mas, em contrapartida, quando os países imperialistas bombardeiam outros países, dia e noite, truncando vidas e exterminando sonhos, esses mesmos meios de comunicação do Capital ditam que devemos "aplaudir" aquilo a que cinicamente chamam "bombardeamentos humanitários", ditam que devemos aplaudir invasões e pilhagens. E, para os meios de comunicação do Capital, segundo parece, a destruição do património cultural da Humanidade não interessa minimamente, a não ser que ocorra numa metrópole capitalista.

A destruição do património cultural da Humanidade não é digna de ser referida pelos meios de comunicação do Capital se for produzida pelas mãos dos fuzileiros norte-americanos, que roubam avidamente os tesouros de Bagdad, ou se for produzida pelos bombardeamentos da NATO, ou pelos mercenários fanáticos semeados pelo imperialismo europeu e norte-americano em numerosos países. Os meios de comunicação do Capital pouco se interessam pelos sublimes monumentos líbios que se conseguiram salvar aos bombardeamentos dos "aliados" e que hoje correm perigo nas mãos dos fanáticos ali instalados pela brutalidade do imperialismo. Os mercenários armados e treinados pelos EUA, mal conquistaram o poder na Líbia, instauraram a lei religiosa da Sharia, de extrema crueldade para com as mulheres e destruidora da diversidade da cultura líbia, sob os enérgicos aplausos da União Europeia e dos EUA, que aclamaram aquilo a que cinicamente chamaram "democracia". Os meios de comunicação do Capital transnacional pouco se importaram, quando o imperialismo europeu e norte-americano despejou toneladas de bombas, arrasando monumentos antiquíssimos e destruindo até a colossal obra do Grande Rio Artificial, que ia levar as águas do aquífero núbio para o deserto, dentro da lógica de solidariedade entre os países de África. O FMI prefere que os países assolados pela seca e pela desertificação continuem a endividar-se sob condições leoninas, em vez de permitir que a Líbia de Kadhafi reverdecesse parte do deserto.

O que interessava ao imperialismo europeu e norte-americano na Líbia era poder saquear os enormes recursos petrolíferos da Líbia, controlar o aquífero núbio e poder apoderar-se das enormes reservas de ouro da Líbia. A motivação real do imperialismo nunca foi o povo líbio, que martirizou até não poder mais. O povo líbio e os restantes africanos radicados ou de passagem pela Líbia continuam ainda hoje a sofrer o terror do regime fantoche instaurado depois da invasão pelas potências imperialistas.

Os meios de comunicação do Capital pouco se importam com a destruição do património cultural da Humanidade, se esta for produzida pelas "expedições punitivas" dos autoproclamados "polícias do mundo", descarregando bombas e mercenários na magnificência para sempre perdida de Palmira ou de Alepo (Síria), nas preciosas Hatra, Mossul e Nimrud esquartejadas (Iraque), na Saná supliciada (Iémen). Os meios de comunicação do Capital pouco se importam que os mercenários do imperialismo norte-americano e europeu, treinados no fanatismo para semear o caos controlado, destruam património em Tombuctu (Mali) ou em Bamiyan (Afeganistão), só para falar de dois exemplos. E os seres humanos lacerados, torturados, amputados e empurrados para o êxodo ainda interessam menos aos olhos desses meios de comunicação cujos donos também enriquecem com o saque e a exploração… fica claro que, para os impérios, os seres humanos são menos importantes que a acumulação capitalista.

Os meios de comunicação da Ditadura do Capital dizem hoje que temos de nos desesperar pela catedral de Paris, as televisões enchem-se de católicos a rezar freneticamente. Tenta-se tapar, com o espetáculo mediático, o protesto social contra a precariedade cada vez mais premente com que o capitalismo oprime a população mundial, faz-se uma coleta que em poucas horas reúne somas faraónicas para Notre-Dame… E, entretanto, tanto a Notre-Humanité como o Notre-Planète continuam a lutar – sem aparecerem na televisão – para sobreviverem ao capitalismo e à sua barbárie. E, entretanto, continuam os bombardeamentos imperialistas a atirar pelo ar as vidas de milhões de crianças, continua a ser implementado o treino de técnicas de tortura nas bases militares norte-americanas, continua-se a acionar os fuzileiros, os mercenários e os paramilitares semeados pelo imperialismo por todo o planeta, destruindo comunidades, massacrando resistências obstinadas e sempre renovadas à pilhagem capitalista, exterminando selvas e povos indígenas, condenando populações ao desterro… continua a voracidade multinacional, pulverizando montanhas e sequestrando rios, fazendo aumentar a fome e a morte… continua a guerra permanente que a classe exploradora trava contra a classe explorada… mas isso, para os meios de comunicação do Capital, não merece que se rasguem as vestes.

Um duplo critério e uma infâmia sem limites, uma colonização mental para confirmar a barbárie e a pilhagem que o imperialismo perpetra.

20/Abril/2019

 

[*] Artista plástica.

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org/... e em
cecilia-zamudio.blogspot.com/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/franca/notre_dame_20abr19_p.html

"O INFORMADOR" NO FUNDÃO

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Capa de Francisco Elias
Os meus leitores sabem que amanhã, dia 24, vou apresentar, no Fundão, o meu livro mais recente: O Informador e Outros Contos. É na Biblioteca Eugénio de Andrade, às 18.30, e a sessão integra-se nas comemorações do 25 de Abril que o Município está a promover. É sempre um frémito de emoção falar de Abril, o "dia inicial inteiro e puro", como o definiu poeticamente Sofia, num tempo em que, verdadeiramente, a poesia saiu à rua.
Para que os acontecimentos sobrevivam no tempo é imprescindível que a memória não os atire para o limbo do esquecimento. Este livro também tem a ver com isso. O Informador, o conto que dá o título ao livro, é a história de um sujeito que se torna informador da polícia política, e, por serviços distintos, alcança patamar elevado na hierarquia da organização, onde pratica com eficiência a teoria geral da tortura. A história reflecte o universo concentracionário do país e de como "a banalidade do mal" pode transformar a vida de uma pessoa. Basta o grãozinho de areia na engrenagem da natureza humana.
Reuni em O Informador 20 histórias que, na linha de Os Fantasmas não Fazem a Barba e Fellini na Praça Velha, constituem narrativas habitadas por personagens de um mundo imaginário que, às vezes, são memórias dilaceradas de (i)realidades quotidianas.
A apresentação estará a cargo da Prof. Maria Antonieta Garcia e a sessão terá intervenções de Paulo Fernandes e do Autor. No início, leitura de Adelino Pereira.
Como dizia o Zeca, traga um amigo também. A literatura é a pele da alma.
Terça-Feira, 23 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Livros gratuitos e sessões de leitura com vista 360º sobre Lisboa

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 

Esta terça-feira, dia 23 de abril, assinala-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor e para celebrar a data há diversas atividades, um pouco por todo o país, para todo o tipo de leitores.
A Bertrand Editora vai oferecer livrosna sua loja instalada na Rua Professor Jorge da Silva Horta, em Benfica, na cidade de Lisboa. Basta aparecer entre as 15h00 e as 18h00 e poderá receber um dos exemplares disponíveis até estes esgotarem. Apesar de não poder escolher qual o livro que vai levar para casa, os volumes gratuitos incluem títulos como ‘Samitério de Animais’, ‘Contador de Histórias’ e ‘A Vida Oculta das Coisas’.

Já a Fnac vai lançar um movimento de leitura e distribuir mais de 2 mil livros através de dez ciclistas que irão percorrer a capital de bicicleta entre as 8h00 e as 16h00. Para saber por onde andam a distribuir os exemplares, a cadeia de lojas aconselha que dê uma espreitadela ao Twitter e Instagram da Fnac.


Além disso, se depois de ter o livro partilhar uma fotografia do momento no Instagram, com a hashtag #Tenstantoparaler e identificar a Fnac Portugal, ainda se habilita a ganhar 100 euros em livros para gastar nesta cadeia de lojas.

Tal como a Bertrand, a Fnac vai ainda dar descontos entre os 20 e os 50% nas suas lojas, espalhadas um pouco por todo o país.

Quem passar pela Biblioteca da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Largo da Trindade Coelho, entre as 9h30 e as 17h00 também pode levar livros gratuitos para casa. Cada pessoa pode levar dois volumes. Claro que, até estes esgotarem. Além dos livros, há uma iniciativa de ‘Encontros Imaginários’, onde um moderador vai lançar temas sobre a vida de autores como Luís Vaz de Camões, Alexandre Dumas e Gabrielle D’ Annunzio. Este evento decorre entre as 17h30 e as 18h45 e é gratuito. Contudo, é limitado a 60 participantes.

Já no Amoreiras, há uma sessão de leitura com vista 360º sobre a cidade de Lisboa pela voz de vários atores portugueses. A iniciativa ‘Coroai-me de Rosas’, também gratuita, vai realizar-se no Amoreiras 360º Panoramic View entre as 18h30 e as 19h30 e conta com a participação de Teresa Coutinho, Miguel Loureiro e António Fonseca.

A lotação é de 45 lugares por isso o melhor é inscrever-se através do e-mail info@casafernandopessoa.pt ou do número 213 913 270

Natacha Nunes da Costa | Notícias ao Minuto ! Foto: © José Frade EGEAC

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/livros-gratuitos-e-sessoes-de-leitura.html

O Altar de Isenheim, Matthias Grünewald

“O Altar de Isenheim”, de Matthias Grünewald

Kenneth Clark, incontornável Historiador de Arte do século XX, considera que esta pintura, é, talvez, o quadro mais extraordinário jamais pintado.

Pintor visionário que se exprime especialmente através da luz, assinala este seu trabalho com grande sumptuosidade do seu conjunto de 9 painéis, de que esta sua tábua central é a mais conhecida.

Informação adicional

Artista: Caravaggio
Dimensões: 2,30 cm × 1,75 cm
Local: Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália 
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1600-1601
Movimento: Barroco


Nota de edição

Matthias Grünewald 1470-1528

Matthias Grünewald, foi um pintor alemão, precursor do expressionismo e um dos maiores pintores germânicos do gótico tardio. Um biógrafo do século XVII, Joachim von Sandrart, erroneamente o identificou pelo nome Grünewald; o seu nome real foi descoberto apenas em 1920.

O caráter visionário da sua obra, com sua expressão de linhas e cores, contrasta com seu contemporâneo Albrecht Dürer.

Começou a aparecer como profissional da pintura sacra quando vivia em Aschaffenburg.

Assumiu o cargo de pintor oficial do arcebisp de Mogúncia em 1509. Mudou-se em 1515 para Issenheim, na Alsácia, para realizar um retábulo para a Igreja dos Antoninos, obra máxima de seu estilo dramático, de intenso colorido. De volta a Aschaffenburg, foi contratado para outras pinturas religiosas.

Da sua obra, revalorizada no século XX pelos expressionistas por sua vanguarda, hoje conservam-se apenas dez pinturas e alguns desenhos.

O compositor Paul Hindemith compôs, em 1938, a ópera Mathis der Maler baseada na vida de Grünewald.

 

Fonte: Wikipédia


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-altar-de-isenheim-matthias-grunewald/

Faleceu Albino Moura

O pintor, ceramista e poeta Albino Moura, figura notável da cultura e das artes almadenses, faleceu na sexta-feira, dia 19 de Abril. Permanece a sua obra, afirma nota de pesar emitida pela CDU de Almada.

Painel de azulejos na rotunda das Cavaquinhas, Seixal, da autoria de Albino Moura.Créditos / Albino Moura/Facebook

Faleceu ontem, dia 19 de Abril, o criador e artista plástico Albino Moura. «Nascido em Lisboa em 19321, vivia e trabalhava em Almada há mais de 40 anos», lembra a nota de pesar emitida pela Coligação Democrática Unitária (CDU) de Almada, que apresenta, «à família e aos muitos amigos do Pintor Albino Moura, os mais sentidos pêsames», numa «hora tão difícil em que o Homem nos deixa fisicamente» mas permanece «a sua obra e o seu exemplo».

Trabalho do pintor Albino Moura para o cartaz da Festa da Poesia de Almada, em 2011. Créditos

A mesma nota lembra «as figuras femininas que, com traço e estilo muito próprios, Albino Moura retratou nas mais diversas formas e expressões» e, sobre essa característica do artista, recorda as palavras de uma «outra grande figura das artes e da educação almadense», a escritora Maria Rosa Colaço, que escreveu serem «inconfundíveis as figuras femininas de Albino Moura que crescem em paisagens tranquilas, onde há uma aragem branda que nos aproxima dos deuses e da paz, onde flores da terra e estrelas do céu convivem harmoniosamente».

Cartaz de Albino Moura. Créditos

Ao longo da sua vida o artista – que recebeu orientação artística de Fred Kradolfer e começou a expor a partir de 1959 – «percorreu diferentes caminhos profissionais, tendo trabalhado em publicidade, como designer gráfico e como ilustrador», antes de se dedicar mais completamente à pintura, à escultura e à cerâmica. A sensibilidade literária não lhe foi estranha, tendo integrado alguns colectivos poéticos e publicado livros de poesia a partir dos anos 90. Escreveu também sobre Fred Kradolfer, tendo a sua opinião sido considerada em trabalhos de tese sobre aquele artista.

O Pintor Autodidacta, como também foi conhecido, participou em exposições colectivas e expôs individualmente a partir dos anos 60, mas é depois da Revolução de Abril que a sua produção se concentra.

Albino Moura. Créditos

Albino Moura encontra-se representado em colecções nacionais e estrangeiras e recebeu várias distinções ao longo da sua carreira. Além da Medalha de Ouro de Mérito Cultural, atribuída pela Câmara Municipal de Almada (2006), relevada na nota de pesar recebida, foi-lhe também atribuída a Medalha de Mérito Municipal pela Câmara Municipal do Seixal (2005) e a Medalha de Prata da Costa do Estoril (1992)

Albino Moura foi cidadão participativo e interveniente. Como ele próprio escreveu, teve sempre presente «a luta e a conquista». A luta, «dos trabalhadores, mulheres, homens, jovens»; as conquistas, «pelos seus direitos». Por isso mesmo, afirmou, «dou todo o meu apoio, como sempre dei», à CDU.

França vs. Iraque

A realidade, partida a meio, é sentida pela parte que sente mais uma que outra, e perde a visão do todo que devia provocar dor com igual intensidade. O incêndio em Notre Dame é (já) uma enorme perda para a Humanidade. Mas há outras perdas, que quando ocorreram não fizeram correr tanta tinta, tanta imagem nem tanta lágrima. 
Lembram-se do saque dos museus iraquianos após a ocupação militar das principais cidades do país?
Lembram-se do saque e o incêndio  daBiblioteca Nacional do Iraque? 
Não se lembrarão pois as parangonas  dos jornais, as que então houveram, voaram rápidas e breves foram as notícias e as reportagens. E até, agora mesmo, consultado o google quase parece nada ter acontecido. É verdade, França é aqui logo. Até se dizia que todos os bebés vinham de lá. E, assim, perda de Notre Dame é, por aqui, bem sentida. O Médio Oriente, é longe... e os povos de lá jamais esquecerão.  Sobre as metades das verdades, o vídeo (retirado da página da Ana Margarida de Carvalho) é a expressão exacta daquilo que me vai na alma...
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Eduardo Souto de Moura wins 2019 Arnold W. Brunner Memorial Prize - Archinect

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The American Academy of Arts and Letters has announced Portuguese architect Eduardo Souto de Moura as the the 2019 Arnold W. Brunner Memorial Prize winner. Started in 1955, the prize awards US$20,000 to an architect of any nationality who has made a significant contribution to architecture as an art. Previous winners of the last few years include Phyllis Lambert, Sheila O'Donnell and John Tuomey, Alberto Campo Baeza, Kathryn Gustafson, and Diébédo Francis Kéré.

Selected from a group of 33 nominated individuals, the Pritzker Prize winning architect was recognized for an architecture that is described by the jury chair, Annabelle Selldorf, as "[feeling] inevitable" and having a "timeless and profoundly humanist quality." He was honored for a body of work that includes notable projects such as the Estádio Municipal de Braga in Braga, Portugal (2003), the Burgo Tower in Burgo, Portugal (2007), and the Paula Rego Museum in Cascais, Portugal (2009). Annabelle Selldorf, chair of the jury, said of Souto de Moura's architecture

In addition, the jury awarded four $10,000 Arts and Letters Awards to: Hernan Dias Alonzo,the director of Sci-Arc, for his influence on the future of architecture; Mario Goodenand Mabel O Wilson,who run the Global Africa Lab at Columbia's GSAPP, for advocating for a more just world; Eric Höwelerand Meejin Yoon of Höweler + Yoon, for their innovative forms and structures; and Anne Rieselbach,the Program Director at the Architectural League of New York, for supporting the exploration of new ideas in urban design and architecture.

Winners will be presented with their awards during the Academy's annual Ceremonial in New York City this May.

The 2017 jury featured: Annabelle Selldorf (chair), Henry N. Cobb, Kenneth Frampton, Steven Holl, Thom Mayne, Laurie Olin, James Polshek, Billie Tsien, and Tod Williams.

Ver a notícia original na seginte ligação:

https://archinect.com/news/bustler/7221/eduardo-souto-de-moura-wins-2019-arnold-w-brunner-memorial-prize

Identificado local onde foi escrito «Romeu e Julieta»

A peça «Romeu e Julieta» foi escrita por William Shakespeare num local diferente daquele que, até agora, era reconhecido como tal, revela uma nova investigação.

A primeira edição «in folio» das obras de William Shakespeare, impressa em 1623, continha 36 peças, das quais metade eram, até então, originais. Na foto, um exemplar exposto em 2016, quando passavam 400 anos da morte do dramaturgo e poeta inglês.CréditosEPA/Jerome Favre / LUSA

Uma nova investigação identificou o local de Londres onde o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) viveu enquanto escrevia a obra Romeu e Julieta.

A investigação, conduzida pelo historiador Geoffrey Marsh durante dez anos, rebateu a tese segundo a qual o autor tinha vivido, entre 1597 e 1598, no local preciso da estação de metro de Liverpool Street, como até agora fora concluído, apontando para um local um pouco mais longe, na rua Great St. Helen, nas imediações da referida estação de metro.

O historiador, que é o director do departamento de teatro do Museu Victoria & Albert, de Londres, concluiu que Shakespeare foi inquilino da empresa Leathersellers, que detinha o comércio de peles na época isabelina, durante o período em que escreveu Romeu e Julieta – uma das suas obras mais famosas – noticiou a televisão pública britânica BBC.

«Poucos anos depois de se mudar de Stratford para Londres, estava a viver num dos bairros mais ricos da cidade, junto de personalidades poderosas, comerciantes internacionais ricos, médicos da sociedade e peritos musicais», afirmou Marsh, acrescentando que «viver num dos lugares importantes de Londres terá elevado a posição de Shakespeare» e que este «tentava obter um escudo de armas para a sua família e planeava comprar uma casa espectacular e cara em Stratfford».

O centro da cidade de Londres foi devastado por um incêndio em 1666 – o chamado Grande Incêndio de Londres – após o qual a zona onde residia Shakespeare foi completamente desenhada. Hoje, segundo a Lusa, é uma zona de edifícios de escritórios.

No próximo dia 25 de Abril o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, organiza os «Dias da Música em Belém» sob o signo de Shakespeare, que pode consultar nas sugestões culturais que o nosso colaborador José António Gomes propõe para este mês de Abril.

com Agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/identificado-local-onde-foi-escrito-romeu-e-julieta

Conversão de S. Paulo, Caravaggio

“Conversão de S. Paulo”, de Caravaggio. Esta pintura será, provavelmente, a mais revolucionária de toda a história da arte sacra.

Esta pintura será, provavelmente, a mais revolucionária de toda a história da arte sacra. A imagem iluminada emerge do fundo escuro, o que faz esse efeito de luz ser a marca inconfundível do caravagismo tenebrista, que iria abalar toda a pintura do Maneirismo, já sem resposta aos novos anseios do Barroco.

Trabalho muito polémico este, em que o grande plano do cavalo foi entendido como uma ofensa à significação de deus. Caravaggio contra-argumentou que não sendo a figura divina, o cavalo recebia, no entanto, a luz directa de deus. Estamos perante um mestre das trevas e um militante da contra-corrente estabelecida pelos efeitos da Contra-Reforma.

Informação adicional

Artista: Caravaggio
Dimensões: 2,30 cm × 1,75 cm
Local: Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália 
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1600-1601
Movimento: Barroco


Nota de edição

Caravaggio 1903-1962

Sobre Caravaggio foi dito que foi um revolucionário, quer pela sua vida turbulenta, quer pelo facto da sua pintura ter proposto uma oposição consciente ao Renascimento e ao Maneirismo.

Procurou, sempre, a intensidade de efeitos através de veementes contrastes entre o claro e o escuro que modelam as figuras e objectos, e através de uma presença física de um vigor incomparável. Ao evitar qualquer vestígio de idealização e fazer do realismo a sua bandeira, Caravaggio pretendia que nenhum espectador ficasse indiferente aos seus quadros.

Considerado o maior pintor italiano de seu tempo, aprendeu a pintar com Simone Peterzano e, sobretudo, a partir do estudo das obras de alguns artistas venezianos. Algumas de suas obras são rejeitadas pelo naturalismo com o qual aborda as paisagens bíblicas, mas não faltaram mecenas dispostos a adquirir de bom grado aqueles quadros que o clero não via com bons olhos.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/conversao-de-s-paulo-caravaggio/

Nina Simone | A luta pelos direitos dos negros

Além de exímia pianista, Nina Simone tornou-se uma compositora inspirada e comprometida com a luta pelos direitos civis.

Essa última caraterística granjeou-lhe amizades com Malcom X e Martin Luther King, bem como um discurso forte, como o da música “Mississippi Goddam” (Mississippi puta-que-pariu), que escreveu em minutos após o assassinato de quatro meninas negras em 1963, numa igreja em Birmingham, Alabama:

Cães de caça no meu trilho, escola, crianças sentadas em prisão, gato preto que atravessa o meu caminho, eu acho que qualquer dia pode ser o meu último”.

Wikipédia

Em 1964, Nina mudou de editora discográfica, passando da Colpix, uma empresa americana, para a holandesa Philips Records. Para além das questões comerciais, esta mudança potenciou uma profunda alteração no conteúdo das suas músicas. Nina sempre inspirou as suas canções na sua herança afro-americana. No seu álbum de estreia pela Philips, “Nina Simone in Concert”, de 1964, ela abordou pela primeira vez a desigualdade racial nos Estados Unidos. Esta foi sua resposta ao assassinato de Medgar Evers em 12 de junho de 1963 e ao atentado à bomba contra a Igreja Batista da 16th Street em Birmingham, Alabama, em 15 de setembro de 1963.

Em “Mississippi Goddam” Nina dizia que a música era “como disparar dez balas de volta para eles”, tornando-se uma das principais canções de protesto que escreveu. A canção foi lançada em single com o selo da Philips e foi de imediato boicotada em diversos estados sulistas. Uma estação de rádio da Carolina destruiu as cópias promocionais que recebeu e depois devolveu-as à Philips. Mais tarde, Nina recordou como “Mississippi Goddam” fora a sua “primeira canção de direitos civis” e que a inspiração lhe chegou “numa onda de fúria, ódio e determinação”.

Ao dizer “eu e meu povo estamos quase vencidos”, a canção desafiou a crença de que as relações raciais poderiam mudar gradualmente, exigindo pelo contrário medidas imediatas. Por este motivo, “Mississippi Goddam” foi um momento-chave na sua radicalização política, passando a ser norma a existência de mensagens sobre direitos civis nas suas músicas e espetáculos. Tal ocorreu com “Old Jim Crow”, tema do mesmo disco que abordava as leis de segregação racial com o mesmo nome.

O sucesso da cantora crescia em compasso com os conflitos raciais. Nina participava em encontros e manifestações ligadas aos direitos civis, como as marchas de Selma a Montgomery em 1965. Como Malcolm X, seu vizinho em Mount Vernon, Nova Iorque, apoiava o nacionalismo negro e defendia uma revolução violenta, contrária à abordagem não violenta de Martin Luther King. Nina desejava que os negros americanos usassem o combate armado para criar um estado independente, embora tenha escrito na sua autobiografia que considerava todas as raças iguais.

Em 1967, troca a Philips pela RCA Victor. Nesse ano lança “Nina Simone Sings the Blues”, onde canta “Backlash Blues”, canção escrita por Langston Hughes, sua amiga e líder do Harlem Renaissance. Seguem-se “Silk & Soul”, ainda em 1967, e ‘Nuff Said!”, no ano seguinte. Em 1968 ocorre o assassinato de Martin Luther King Jr. O trágico acontecimento mexeu muito com Nina, que mais uma vez utilizou o seu talento musical para expressar o que lhe ia na alma. A canção “Why? The King of Love is Dead” (Porquê? O rei do amor está morto) foi por composta pelo seu baixista, Gene Taylor, e cantada por ela 3 dias depois, numa performance emocionada durante o funeral.

A luta de Nina pela igualdade racial era tão forte que a pianista decidiu fazer uma pausa na sua carreira para residir durante algum tempo na Libéria, país africano fundado por antigos escravos norte-americanos que regressam ao continente ancestral. Segundo Nina, a Libéria era um país onde podia ser vista de igual para igual, vivendo com a sua raça negra sem ter de se submeter às injustiças de uma sociedade racista e supremacista branca.

Vídeos
Nina Simone

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/nina-simone-a-luta-pelos-direitos-dos-negros/

Portugal | "Fui insultado por uma corja de bandidos ao serviço do Passos Coelho" - Tordo

Fernando Tordo é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. Fernando Tordo regressou e multiplicou-se. 
Em 'Duetos - Diz-me Com Quem Cantas' redescobrimos Fernando Tordo na mais variada companhia. Há veteranos como Rui Veloso e Jorge Palma a pegar em clássicos do cantor e a torná-los também seus. Há a voz quase sussurrada de Rita Redshoes e a inimitável Maria João num jazz que não pede licença para abrir caminho. Há Héber Marques a tratar 'Adeus Tristeza' com todo o cuidado pop e a elasticidade das palavras de Ary dos Santos na letra de 'Tourada', aqui cantiga e rap num só.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, o cantor falou de 'Duetos' e da Eurovisão, de Portugal e do Brasil de diferentes facetas que conheceu. Recordou ainda a luta que teve de vencer contra o alcoolismo e o dia em que se viu na 'mira' de uma "corja de bandidos" - palavras suas - porque anunciou que ia partir, deixando para trás um país então governando pela troika e pelo governo de Passos Coelho.

Aos 71 anos, o brilho é semelhante quando se ouve Fernando Tordo falar da música que já fez e da que ainda vai fazer. Está lá o tal fascínio de miúdo. Mas também a voz de quem leva décadas de carreira musical, com canções que ainda serão ouvidas daqui a muitos anos. "Haverá alguma coisa mais extraordinária do que isto?".


Já tinha imaginado certas vozes com certas músicas ou os convidados fizeram as suas escolhas?

Alguns ou tinham de ser ou já estavam previamente marcados. O Rui Veloso canta comigo o ‘Só Ficou o Amor por Ti’, uma canção que já me tinha dito há muitos anos que gostava muito. Em 2008 cantei-a no Coliseu com orquestra e convidei-o. O Jorge Palma, que é meu amigo há 50 e tal anos, sempre me apercebi que ele gostava muito do ‘Cavalo à Solta’.

Nalguns casos as escolhas eram muito claras, é isso?

Sim. Porque também lhes facilitava as coisas e vejo isso por mim. Se me convidarem para apresentar uma canção de outra pessoa, apesar de a conhecer, há sempre um trabalho para fazer. E é preciso saber que estas pessoas são profissionais e não têm todo o tempo do mundo.

As agendas são sempre complicadas.

Sim, e por isso demorou tanto tempo a gravar. Houve conciliações de agendas muito difíceis. Alguns destas artistas passam muito tempo fora.

Quanto tempo demorou a fazer o álbum?

Foram 14 meses. Para mim foi completamente inesperado precisamente por causa de dificuldades várias, com datas e horários, e depois porque foi um disco muito trabalhado, em que cada caso é um caso. Quando se começa a fazer uma mistura com o Tim é diferente do que é com o Camané ou com a Maria João. São coisas que têm de ser respeitadas. Não se convida uma pessoa para cantar num disco para depois ser ‘Agora só cantas isto’.

Houve várias razões para se estender no tempo, como nunca em toda a minha carreira. Mas ficou feito. Estou satisfeito. Muita gente dirige-se a mim com surpresa, e isso é interessante, porque o objetivo do disco também era esse.

Alguns dos músicos com quem gravou têm menos anos de vida do que o Fernando Tordo tem de carreira. Como funcionou quando chegavam ao estúdio?

Sim, muitos deles. O Héber Marques, que eu não conhecia pessoalmente, canta muito bem a ‘Adeus Tristeza’. Ele podia ir um pouco intimidado, mas pôs-se à minha frente e mal abriu a boca para cantar… não é por acaso, é a primeira canção do álbum, com aquele ambiente orquestrado. Estava apreensivo para ver como se ia dar com aquilo e deu-se muito bem.

Há ainda uma pessoa que não conheço pessoalmente mas que vou conhecer em breve, a Capicua, que faz um rap com a ‘Tourada’. Quando decidi que ia ser um rap mesmo assim não queria uma voz masculina e isso não é a coisa mais fácil de encontrar no nosso país. Sabia da Capicua porque ela ganhou no mesmo ano do que eu prémios da SPA, conhecia-a era da Internet. É uma pessoa muito interessante. Quando lhe liguei estava muito grávida nessa altura mas estava em estúdio. Gravou, e enviou-me uma coisa muito bem interpretada e depois misturámos.

É uma letra muito interessante, do Ary dos Santos, com ritmo.

Como a letra não tem uma métrica própria da linguagem rap, o que ela fez foi tudo muito seguido, o que cria um contraste comigo a cantar, enquanto a voz dela é injetada àquela velocidade.

Houve uma versão que o tenha surpreendido particularmente?

Há momentos muito especiais. Por exemplo a ‘Rato Roeu a Rolha’, que é próximo do jazz e já foi gravado com orquestra. Também queria uma voz feminina e só havia uma pessoa em Portugal que também tinha o sentido de humor, não só a interpretação – e aquele texto é muito difícil de dizer, só o consigo fazer cantando. E a Maria João fez uma interpretação extraordinária.

Mas para mim há muitas surpresas. O trabalho feito com a Carminho, que também foi preciso contornar dificuldades com a tonalidade. Às tantas como que tive de improvisar sobre a melodia original. Mas não houve problemas que como fui eu que fiz [a canção original], abusei à vontade.

E houve alguma nova versão que depois de ouvir o tenha feito pensar ‘Porque é que não a fiz logo assim na primeira vez’?

As canções estão separadas por muitos anos. Não seria possível, até pela idade da maior parte dos intérpretes – alguns ainda nem eram nascidos [risos]. Mas o resultado final é de uma satisfação muito grande. Primeiro, de gratidão para com eles. Depois, porque são tão bons intérpretes que podem pegar nas coisas mais variadas e pode-se confiar, são grandes profissionais. Cantar com o Camané, por exemplo, é como estarmos aqui os dois à conversa. A descontração é muito grande, até porque ele conhecia algum do meu reportório. É a chamada ‘economia de horas de estúdio’. Não demora muito tempo e a gente só se diverte, porque sabe que o que está gravado, está bem.

Estamos a caminho da Eurovisão e o Fernando Tordo tem história no Festival da Canção. Como vê esta atenção renovada ao festival?

É verdade. Sou de uma geração que tem a sua projeção através do Festival da Canção. Nesse tempo os nomes só eram revelados se a canção fosse apurada. O que se enviava para a televisão não era cantado. Era um processo completamente democrático nesse sentido, ninguém sabia de nada. Foi uma brecha onde conseguimos entrar e há uma geração dos anos 60 que surge assim.

A Eurovisão passou a ser um pequeno trauma da sociedade portuguesa porque a gente concorria e não ganhava, e não ganhava e as pessoas gostam de ganhar. Foram quase 50 anos. E de repente surge uma grande surpresa.

E uma canção que fugia a uma certa pop mais comercial.

Pois e isso significa que a música bonita, bem estruturada, pode ganhar a Eurovisão. Não é necessário aquele foguetório. Os foguetes não cantam.

E uma vitória em português.

Mas independentemente da canção, da originalidade e até da voz, aconteceu um fenómeno que se sabe há muitos anos que acontece: quem é que tem capacidade de pagar a fatura, que é cara. Hoje há um conjunto de condições que tornam a posição internacional em relação ao nosso país muito positiva. E esses fatores ajudaram, tal como a diferença em relação às outras canções que estavam a competir.

Como é que viu a vitória do Salvador Sobral?

Com um grande alegria. Eu sou de uma geração de vários cantores que acabaram por cerzir a passadeira que acabou por, ao fim destes anos, funcionar.

É uma vitória também coletiva?

Vejo que, de repente, um país que tem um mercado baixíssimo, não é por isso que não pode ganhar. Não é por causa do mercado do disco. A que ganhou no ano passado nunca mais vamos ouvir. Mas houve fatores extra-música que ajudaram. Também ganhámos a Eurovisão porque finalmente estavam abertas portas à escala internacional. Aliás, já ouvi dizer que o intérprete deste ano [Conan Osiris] está muito bem colocado para ganhar.

A vitória de Conan Osiris foi de algum ‘amor-ódio’, com algumas críticas entre tantos elogios.

[Risos] Não estou interessado nessa conversa. Mas ouço opiniões – e hoje em dia até temos apostas, o que é uma coisa extraordinária [risos]. Se for assim, significa que todos os outros países gostaram tanto de estar cá, tiveram tratamento de luxo, uma Lisboa sitiada por segurança por causa do festival, o que é ridículo, mas de qualquer maneira todos estes fatores terão tido importância. Na hora da votação não tiveram porque nos puseram no último lugar outra vez, aliás merecidamente. Aí a hospitalidade não contou. Mas parece que de repente se começa a proporcionar uma situação engraçadíssima, que era ganhar o festival de dois em dois anos. Parece que o nosso país continua com boas condições. Aquela malta ficou com saudades [risos].

Desejo-lhe o melhor [a Conan Osiris] e, se ganhar, ainda melhor.
Em 2014, ainda no tempo da troika e do governo de Passos Coelho, foi notícia por anunciar a sua partida para o Brasil. Em que momento é que percebeu que já estava pronto para voltar?

Eu estaria pronto a voltar do momento em que não estivesse aquela gente a governar o meu país. Tenho 71 anos, sou do antes, do durante e do depois do 25 de Abril. Tenho filhos e netos e o que tenho para lhes contar é do que foi bom, mau, assim-assim e do que ainda há para fazer. Mas, para mim, o fator hoje fundamental da sociedade portuguesa é a luta pela liberdade em permanência. Num determinado momento, em que há um governo em Portugal durante esse período da troika e não só, há como que uma vaga de fundo - de que se calhar muitas pessoas não se apercebem -, mas em que a liberdade começa a ser diminuída. Falo da liberdade na sua totalidade.

Talvez seja dos anos de vida, que dão para ver a liberdade com uma panorâmica maior. A liberdade não é apenas poder dizer ‘Abaixo o Governo’. É muito mais coisas. E, naquele tempo, aquele governo ultrapassava em meu entender tudo o que era possível. Pelo seguinte: pertenço à geração anterior, fiz o que pude, dentro da modéstia do que consigo fazer, durante e depois. O conceito que tenho de liberdade tem esta abrangência. É ela que autoriza os partidos, as nossas conversas, os nossos filhos a serem felizes. A democracia é uma consequência da liberdade e não o contrário.

Houve um determinado momento em que disse assim: vou embora. E fui. Demorei muito mais tempo – quase quatro anos – a voltar do que pensava por causa da música. Compus muita música no Brasil, gravei muito e, principalmente a esse nível, da facilidade dos músicos, da qualidade, daquele ambiente que é natural nos brasileiros, muito especialmente nos músicos, e conheci grandes craques da música, fez-me ficar mais tempo.

Foi ficando.

A partir do momento em que acabou aquele governo podia ter regressado. Mas para onde vamos criamos laços. A minha mulher passou largos períodos comigo lá, os meus filhos e netos visitaram-me, a gente não abandona assim por não sei quê, até porque isso faria da minha vida demasiada ligada às questões políticas.

Mas há algo que quero salientar. Jamais esperei – eu sou o número 139029 do arquivo de identificação de Lisboa. Sou de 29 de março de 1948. Mas eu sou só um gajo. Jamais pensei que a minha saída, numa conversa distraída na televisão…

...Gerasse aquele debate todo.

Eu recordo-me. Estava num programa em estúdio com o Paulo Magalhães e o Fernando Correia. Eu distraído ‘agora vou para o Brasil’. Senti logo no estúdio uma agitação muito grande. Vi duas pessoas que corriam de um lado para o outro. E de repente ‘Boom’ [gesto de dimensão com as mãos]. Depois fui insultado, eu e a minha família, por uma corja de bandidos ao serviço do Passos Coelho, que vieram dizer nas redes sociais que eu tinha andado a fazer contratos de não sei quê e tinha ganho contratos de milhares de euros.

Eu, para fazer 22 concertos com grande orquestra, para poder mostrar aos portugueses que aquilo era possível fazer, tive de perder a possibilidade de ganhar dinheiro para ter aquele conjunto de 36 pessoas, mais os assistentes todos. E na altura um tipo fica muito magoado. Não porque me trataram mal - estou habituado a isso, tenho 54 anos de carreira -, mas porque insultaram a minha família. E aí meteram o pé na argola. Nem foi pelo insulto. Tive tipos a investigar junto das Finanças. Tudo o que fizeram...

Isso ainda antes de ir para o Brasil?

Antes, sim. E depois de ter ido ainda tinha insultos, a investigação. Isto é uma tropa que Passos Coelho tinha montado. Os poderes têm estas coisas montadas para insultar. E, muito especialmente dentro daquele âmbito, o senhor Passos Coelho teve no governo um tipo chamado Miguel Relvas, por exemplo. Por aqui está tudo esclarecido. É o tipo [Passos Coelho] que foi ao beija-mão à senhora Merkel antes de ser eleito, para ela lhe dizer o que ele ia fazer. E o que ele fez foi pôr os portugueses encostados à parede. De qualquer maneira, eu limito-me a observar, como no Brasil.

Você tinha de lá estar para ver: o minuto a minuto, a sequência, quem manda, quem obedece, quem é corrupto, os grandes bandidos. O [Michel] Temer é um crápula e só esteve quatro dias preso [gargalhadas]. Eu rio-me porque sei bem como é que são as investigações no Brasil. Ainda hoje tenho muita gente surpreendida quando conto certas coisas.

Mas tudo isto coincidiu com a segunda eleição da Dilma, com os erros da Dilma, que estão diretamente ligados a Lula da Silva; o quanto erraram para permitir aquilo que aconteceu no Brasil. O presidente agora é um tipo chamado Jair Bolsonaro que eu assistia nos discursos na Assembleia. Há um documento muito interessante que correu mundo, creio que foi no célebre dia 17 de abril [de 2016].

De votação do impeachment.

Sim e eles, claro, votam a favor do impeachment, e juram pela mãe, pelos filhos, pelo tio, por não sei quê, uma cena absolutamente ridícula, em que este decide citar o coronel que foi um torcionário [Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado por tortura] durante a ditadura militar. Este tipo, o Bolsonaro, é hoje o Presidente da República. A história de como se chega a isto, eu assisti sem querer, dia a dia.

Entre 2014 e 2019, há uma mudança política em Portugal mas também esta mudança grande no Brasil. São duas perguntas: É muito diferente o Portugal que reencontra? Que Brasil deixou lá por comparação ao que encontrara em 2014?

Podia chamar ao Brasil simbolicamente António Carlos Jobim. Havia o Brasil cidade maravilhosa, de encantos mil, que encheu a minha infância. Esse Brasil seria o paraíso. E hoje há um Brasil pimba. Estas duas coisas com um intervalo de anos podem acontecer no mesmo país, porque há um mesmo país onde são possíveis. É o chamado ‘sem rei nem roque’. É possível de um momento para o outro que os donos do Brasil, que não são os políticos, façam as coisas. E quando o Brasil tenta, com Lula da Silva, uma figura mundial, fazer o brilharete de dar qualquer coisa a 30 milhões de pessoas, há um outro lado do muro que está a fazer os seus negócios. Este fator é desconhecido. A notícia que vem para fora é de crescimento do Brasil. ‘Lula da Silva faz isto’. Barack Obama olha para Lula e diz ‘So, you’re the man’. Mas para poder fazer isto há como que uma negociação com os donos do Brasil para que ‘agora não interfiram – mas estejam à vontade’.

Não há memória. Quando se vai analisar historicamente o Brasil, é nos anos de Lula que se inicia uma coisa extraordinária – o chamado ‘café da manhã’ para 30 milhões de gente miserável – em simultâneo está a acontecer no país o que conduz a esta situação.

São coisas que eu creio que a história contará muito bem, assim haja gente séria que tenha registado de forma profissional. Um dia contarão como isto pôde acontecer. Os assassinatos são aos milhares e milhares por ano, 60, 65 mil. O tipo que devia pôr ‘água na fervura’, com um discurso sério, profundo, direto, é um tipo que diz ‘para resolverem isto, comprem uma arma’. É uma vergonha.

Era um Brasil sem alternativa?

Nós portugueses deixámos várias heranças no Brasil, a histórica é única no mundo, mas evidentemente deixámos muitos defeitos. E um deles é a incontornável posse de terra. É um marco profundo na vida das pessoas. Saímos daqui miseráveis para ir trabalhar e quando damos por nós estamos dentro de um continente que vai andando sempre mais e mais quilómetros. É giro ver livros do séc. XVIII, XIX para se perceber que a própria estrutura da freguesia é toda levada de Portugal. Mas depois em vez de se registarem 10 mil metros quadrados registam-se 10 milhões.

Creio que esta herança que deixámos, cultural, pessoal, humana, é tão negativa quanto positiva. E hoje boa parte do Brasil nega. Tive várias conversas sobre isso. Os brasileiros não sabem rigorosamente nada sobre Portugal. Os que estão agora a vir, pode ser que já saibam. Mas a escola no Brasil ainda ensina os alunos contra Portugal. Somos os malandros, os da escravatura, os que mataram os índios, tudo isso é aprendido na escola.
Curiosamente em Portugal discute-se que também falamos pouco do lado negativo dos nossos Descobrimentos. Os dois países mantém uma narrativa conflituante?

É que se não fosse a escravatura também não haveria o Brasil, independentemente do que isso significa, séculos depois. É também a escravatura que vai fazer do país, a dada altura provavelmente o país mais rico do mundo, produtor de açúcar que é uma coisa completamente louca. A cidade onde vivi, o Recife, chegou a ser a mais importante por culpa dos engenhos onde trabalhavam os escravos, alguns ainda lá estão em ruínas. Sãoos holandeses que depois fazem aí a sua aprendizagem e quando são postos fora vão para outros locais do país pôr o açúcar mais barato. Somos especialistas em miscigenação, enquanto que os ingleses e holandeses são especialistas em avançar no terreno. Isto deixa marcas.

A nossa presença no Brasil é extraordinária, emocionante, e é terrível verificar que o país não se apercebe disso.

Mas há dificuldade, dos dois lados do Atlântico, em falar do lado bom e lado mau deste assunto?

Nós temos grandes historiadores no Brasil, há um que é um querido amigo meu que já escreveu uma série de livros, nomeadamente sobre a ida da corte portuguesa para o Brasil, no séc. XIX, o Paulo Rezzuti, que são uma análise imparcial sobre a influência que a corte acaba por ter no Brasil. Mas depois há um problema, e que existe em particular, em que nem todas as pessoas leem livros, nem todas estão interessadas em saber. Eno Brasil a luta pela sobrevivência é muito grande, as pessoas não têm assim tanto tempo para se informar. Mas quem estiver interessado, tem, da autoria de brasileiros muito bons, muita documentação para perceber o que foi isto, o que é que aconteceu.

Depois os laços, a tarefa, a saga dos portugueses no Brasil é algo incontável, de uma dimensão única. Como é que avançámos centenas, milhares de quilómetros, naquele país. Mas pronto. Temos muito com que nos preocupar. E, quer dizer, hoje Portugal é mais interessante para o brasileiro do que o Brasil é interessante para o português.

Reencontrou um Portugal diferente?

Eu nunca estive desligado, vim cá algumas vezes, não tive aquela sensação de ‘ah, uma avenida nova, um prédio novo’. Não tive isso mas tive uma sensação respiratória. Respirava-se liberdade, coisa que não se respirava quando eu fui. É difícil explicar.

É o tal conceito alargado de liberdade de que falava?

É. É olhar a toda a volta e sentir isso. Tem erros, tem falhas? Tem. As democracias também vivem da guerra partidária e tudo o mais.

Faz uma avaliação positiva da chamada Geringonça?

Faço. Não é agora, mas António Costa é um homem que vai ficar na história portuguesa. É o homem que, mais de 40 anos depois do 25 de Abril, desmonta essa velha máxima do Bloco Central, de que não é possível governar à Esquerda em Portugal. E desmonta com um sorriso e a força que tem pessoalmente, e digo isto independentemente de gostar dele, que o conheço desde criança.

E admitindo que o PSD de Rui Rio ganha eleições. A questão era mais de relação com o PSD ou em particular com o governo de Passos Coelho?

O Passos Coelho é um péssimo político, uma pessoa que jamais deveria ter aparecido na política. Não tenho nada pessoal contra ele mas incompetentes como ele não podem. E temos de estar muito atentos a isso. Se me perguntar Passos Coelho ou Rui Rio? Acho o Rui Rio uma pessoa muito mais sensata, capaz, do que Passos. Mas prefiro um país mais à esquerda, do que mais à direita. Embora haja uma frase muito engraçada de um amigo meu, o maestro Victorino de Almeida. Uma vez perguntaram-lhe: ‘Oh maestro, é mais à esquerda ou à direita?’ E ele respondeu assim: ‘Depende de onde está o centro’. É uma resposta muito interessante.

Além dos ‘Duetos’, tem andado também em concertos. Aidade influencia?

Influencia e é bestial. A idade acrescenta – e falo por mim – responsabilidade, capacidade de trabalho que não se tem aos 30, 40, 50 anos e acrescenta uma coisa fabulosa: o à vontade.

É finalmente chegar àquela conclusão de que não se deve levar muito a sério. O que é interessante é entrar num palco e divertir as pessoas, distraí-las, em vez de as massacrar com mais problemas. Ninguém vai a um espectáculo para se chatear. Vai por curiosidade artística, até pode ser um espectáculo mais triste, sombrio, mas que tem um potencial artístico que vale a pena ver. Agora ir para cima do palco, cantar canções com ar sério e a pessoa a levar-se demasiado a sério, não. A minha obra é tão extensa e tão variada que estou à vontade. E faço-o com o mesmo interesse numa sala cheia na Casa da Música ou numa Fnac com 30 pessoas a ouvir, porque isso me diverte. Diverte-me ver as pessoas divertidas.

E mantém a vontade de fazer músicas novas?

Estou sistematicamente a fazer. Estava a fazer agora, interrompi para vir aqui conversar consigo. Saiu agora o ‘Duetos’, mas o próximo disco que quero gravar está praticamente pronto.

Tudo originais?

Tudo originais. E ainda há disco um que gravei no Brasil musicando poetas brasileiros, que ainda não saiu nem sei quando vai sair. Há uns anos gravei em Barcelona um disco em que musiquei 12 prémios Nobel da Literatura que ainda está para ser comercializado. Não sou dessa coisa de elaborar os discos mas gostava de fazer uma caixa com algo aproximado à minha obra toda na música. Gostava de em qualquer altura em que tenha de abandonar a profissão – embora espere exercer isto por alguns mais anos – que tudo isso ficasse ao alcance das pessoas. Não é justo que eu tenha gravado vários discos que ainda não são conhecidos.

Durante algum tempo pensei que isso se devia à minha guerra secular com as discográficas, porque nunca permiti que me dissessem que gravasse isto ou aquilo. É que estou disposto ao diálogo, mas não reconheço capacidade a nenhuma agência para me dizerem o que gravar.

Trabalhou com alguns novos nomes da música portuguesa. Como vê a música portuguesa atual?

Ainda recentemente na gala da SPA houve dois momentos para mim marcantes. Um, é um tema do JP Simões, que ganhou um prémio, com um arranjo muito bem feito e tive oportunidade de lhe dar os parabéns. Não é para toda a gente mas é uma música em que dizemos ‘aqui está um património interessante da música portuguesa’. E os Xutos. Aquilo é uma máquina, pá. Tecnicamente é fantástico, entra uma equipa que monta o palco em dois minutos, tocaram um tema com uma intervenção do guitarrista muito boa, tudo muito bem feito, o Tim é uma voz do nosso país. Quando o convidei para o ‘Duetos’ disse-lhe isso. Eles foram e aquilo é impecável, o som...

Já é uma banda com muitos anos de estrada também, não é?

É. Mas aquilo podia ser uma merda e não é. É muito bem feito. Mas como está a música portuguesa? Em certos casos está muito bem. Entre os mais jovens o que espero é que não haja pressa. Falo por mim. Há um tempo. Não se é vedeta de um momento para o outro. Não se canta uma canção caindo do céu aos trambolhões e se transforma numa vedeta. Isto é falso. Veja-se os concursos que as televisões fazem para terem cantigas de graça. É uma forma fantástica de ter horas de emissão sem pagar. Foi inventado este esquema que é convocar os jovens: ‘Queres ser artista?’ e aquilo vai reduzindo, com muita treta, e às tantas está-se a dizer genial. Dez pontos! Não se dá dez pontos a ninguém, nem ao Frank Sinatra, nem ao Tony Bennet. Há que deixar uma margem. E depois o que acontece aos vencedores, sabe deles? Aquilo é para render logo no momento.

É diferente o tempo da música hoje em dia?

Espero que as minhas palavras sejam bem entendidas: mas acho muito difícil jovens que chegam agora à música chegarem aos 71 anos de idade e continuarem. Há que estudar muito, ouvir muita música, têm que se disciplinar muito e não se levar demasiado a sério. E, principalmente na música, há uma coisa fundamental, que é ouvir música.

E como é a sua relação como ouvinte? Que artistas costuma ouvir?

Eu em casa componho. Depois meto-me no carro, vou a uma garagem que aluguei para mim e é aí que ouço música. Gosto de ouvir um Rachmaninoff, um Coltrane [risos]. Sou um bocado esquisito mas é porque desde miúdo o meu percurso mudou porque comecei a ouvir génios da música. A que ouço ou é do meu tempo, uma espécie de homenagem aos dos anos 50 e 60 com quem aprendi a tocar e a afinar a guitarra, até depois dar um salto para Duke Ellington, Charlie Parker. Já não tenho o mesmo tempo de vida e portanto só quero ouvir coisas boas.

Em entrevista ao ‘Alta Definição’ falou sobre o problema que teve com o alcoolismo. Nem sempre vemos uma figura pública a assumir abertamente um problema desta natureza.

Uma das regras que tem de ser respeitada nos Alcoólicos Anónimos é o anonimato. Quando cheguei pela primeira vez, há 13 anos, a uma reunião, não conseguia. As pessoas olhavam para mim, reconheciam-me e ficavam surpreendidas. Depois ficámos confidentes. Mas há um compromisso. Eu não posso ser anónimo. Mas considerando o facto de ser figura pública e o quanto isto foi útil para mim, acho que sempre que for possível eu transmito esse recado.

Temos um país em que ainda somos muitos a abusar da bebida. E é preciso ter muita vontade. Mas isto do alcoolismo, vou-lhe dizer, eu gastei milhares de contos para deixar de beber. Fui aos médicos, psiquiatras, tudo - e não resultou. Mas os Alcoólicos Anónimos resultou comigo...

Eu compreendo muito bem a dificuldade de deixar. O alcoolismo é uma doença que não tem cura, mas tem recuperação.

Hoje em dia incomoda-o, a bebida?

A mim não me incomoda que as pessoas bebam perto de mim. Em casa sou eu quem abre as garrafas. Mas há alcoólicos que não se sentam a uma mesa onde haja uma garrafa de vinho. A única coisa que não gosto é ver um tipo bêbado que nem um cacho dizer que controla perfeitamente a bebida. É a única coisa que me perturba. Porque é muito difícil, por uma questão de orgulho, pela solidão que se sente, com a bebida a prejudicar cada vez mais. Compreendo que a pessoa tenha muita dificuldade em sair disso. Mas ao mesmo tempo recordo que vale a pena aquele dia único na vida em que a pessoa decide ir a uma reunião.

E para lá da música, continua a pintar?

Sempre. Interrompi nesta fase mas foi por causa do lançamento do disco e todas estas coisas. A pintura é muito importante porque eu com a linguagem musical estou mais ou menos à vontade. Com a pintura, não faço ideia.

Tem sido autodidata?

Completamente. Leio muito, pinto muito. Pinto também porque tenho uma grande paixão pelos tipos que transformaram a pintura. Sou um apaixonado por Picasso, Vermeer, Mondrian, Braque, os impressionistas. Mas também porque os estudei. Estes tipos com muito talento foram descobrindo as várias maneiras que o nosso cérebro tem de expressar sentimentos e isso é fascinante. Ter a possibilidade de ter uma tela e transmitir algo é fantástico. Porque se eu quisesse verbalizar certos estados de alma, não conseguia. Mas, se estou a pintar, a dada altura percebo que aquilo quer dizer alguma coisa de mim.

Pintei muito no Brasil também, ainda lá tenho quadros para ir buscar. Aqui tenho pintado muito porque tenho um local onde posso ‘cagar’ tudo à vontade. A pintura é o processo que felizmente consegui encontrar para dessintonizar. Não me faz bem estar sistematicamente a pensar na música, embora seja difícil para mim. Enquanto estou a pintar, não me lembro de nada. Embora já me tenha acontecido pintar e fazer música ao mesmo tempo.

Um compositor tem dificuldade em desligar, gostaria de ter um tempo eterno. Como o objetivo é a excelência e ela é inalcançável, quer-se ir melhorando. É este o processo.

Foi assim consigo?

Concorri cinco anos seguidos ao Festival da Canção e fiquei duas vezes em último e isso não provocou nenhuma dor porque alguém tinha que ficar em último. Nem fiquei envergonhado por ter cantado uma porcaria de canção, que nunca foi o caso. De facto a canção seria desajustada para aquele efeito. Mas foi para o Festival que fiz canções que ainda canto muitos anos depois. A ‘Tourada’ tem 47 anos. O ‘Cavalo à Solta’ 49. São canções em que, hoje, subo ao palco e não posso deixar de cantar. Há alguma coisa mais extraordinária do que isto, um tipo conseguir no seu tempo de vida fazer uma coisa que ultrapassa o seu próprio tempo? Fazer canções que em vez de serem esmigalhadas pelo tempo, esmigalham o tempo? É uma coisa extraordinária.

A última música do ‘Duetos’ é com um dos seus filhos, curiosamente o único que também escolheu a música.

Sim, mas não por mim. Foi pela mãe, é um filho que viveu sempre um pouco afastado de mim e que é um grande pianista clássico.

Como é que foi partilhar o estúdio com um filho?

Foi ótimo. Eu já há uns tempos pensava ‘vou falar com o Filipe a ver se me acompanha’. Ele é uma joia de rapaz, professor no Conservatório, completamente vocacionado para a música. Ia pensando nisso e ia adiando. Mas aqui houve muito tempo para pensar. Tinha a ‘Cantores da Minha Terra’, que era uma canção que queria a fechar o álbum, um resumo de tudo. Mas com trio, quarteto, orquestra? Não, não é isto. E então falei com o Filipe, que acedeu imediatamente, e ele vai ao estúdio tocar aqueles acordes, uma coisa muito simples, mas que ele acompanha com algo fantástico que ele tem: uma alma de músico, um tempo, uma respiração, uma maneira de tocar especial. O Filipe é responsável, disciplinado, muito profissional e completamente dedicado. E é também [sorrindo] o meu convidado mais próximo.

Pedro Filipe Pina | Notícias ao Minuto | Foto: © Rita Carmo/Contos da Praça

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-fui-insultado-por-uma-corja-de.html

Câmara de Setúbal assinala 90.º aniversário de Zeca Afonso

Arranca esta sexta-feira o programa que assinala o nascimento do cantautor e poeta. A exposição Por Terras de Zeca,um concerto e a apresentação de dois CD inéditos são algumas iniciativas em destaque.

Zeca Afonso nasceu em Aveiro a 2 de Agosto de 1929Créditos / Antena Miróbriga

Inserida nas comemorações dos 45 anos do 25 de Abril, que a Câmara Municipal de Setúbal promove, a exposição Por Terras de Zeca, com trabalhos do ilustrador Pedro Sousa Pereira, tem inauguração marcada para amanhã, às 18h, na Galeria de Exposições da Casa da Cultura, onde ficará patente até ao próximo dia 28. 
 
Meia hora mais tarde, será feita a apresentação de José Afonso ao vivo, um conjunto composto por um livro de Adelino Gomes, um vinil e dois CD com concertos inéditos de Zeca Afonso, realizados a 4 de Maio de 1968, no Teatro Avenida, em Coimbra, e a 23 de Fevereiro de 1980, no Salão da Sociedade de Instrução e Recreio de Carreço, Viana do Castelo.
 
Também amanhã, pelas 21h30, estreia no Fórum Municipal Luísa Todi um espectáculo musical de homenagem a Zeca Afonso com algumas das suas mais conhecidas composições, como «Verdes são os campos, «Que amor não me engana», «Índios da Meia Praia» e «Venham mais cinco, revestidas de novos arranjos, aliadas a temas originais e a composições menos conhecidas do público, como «Papuça», «Lá no Xepangara» e «Ali está o rio». 

Os temas são interpretados por Zeca Medeiros, Filipa Pais, Maria Anadon e João Afonso, acompanhados por Davide Zaccaria, na guitarra acústica e no violoncelo, Armindo Neves, na guitarra eléctrica, Pedro Batalha, no baixo, e André Sousa Machado, na bateria.
 
O programa comemorativo do 90.º aniversário do nascimento de José Afonso prossegue no sábado, 13, às 15h, na Casa da Cultura, com um workshop de ilustração conduzido por Pedro Sousa Pereira, no âmbito da exposição Por Terras de Zeca.
 
A iniciativa pretende dar a conhecer a vida de José Afonso através da obra do ilustrador, bem como os valores que marcaram a história da liberdade em Portugal.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/camara-de-setubal-assinala-90o-aniversario-de-zeca-afonso

A luta contra a corrupção deve ser também um combate pela criação de valores morais

Mia Couto esteve em Luanda no passado sábado, 6 de Abril, numa sessão intensiva de trabalho, com os escritores José Eduardo Agualusa e Cynthia Perez, para criaram três livros infantis apresentados na Rádio LAC, uma iniciativa do Goethe-Institut Angola. O Jornal de Angola entrevistou o escritor moçambicano que acaba de publicar “O Bebedor de Horizontes”, um livro que desenterra do passado colonial a figura do Imperador Ngungunyane. Com este livro, o autor propõe que se olhe para o passado de modo menos politizado. A excessiva politização da história que os africanos vão fazendo mostra-nos, segundo o autor, que não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Actualmente existe uma mudança positiva, embora, diz o escritor, tenha chegado tarde. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. Assim pensa o autor moçambicano, que tem em Luandino Vieira, o primeiro escritor que o desafiou na busca de uma escrita que integrasse a oralidade.

Mia Couto adoptou este pseudónimo devido à sua paixão pelos gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome. Ainda gosta de gatos? Tem-nos em casa?

Gosto de animais, mas não como criaturas domésticas. Gosto de bichos mas quero manter com eles uma relação em que espero que eles sejam animais e, assim sendo, me ajudem a ser mais humano. Tenho cães, se é que se pode dizer que se "tem" cão. E por essa razão, os cães é que fazem as suas escolhas. E escolheram não ter a companhia dos gatos.


Com 14 anos de idade, publicou poemas no jornal Notícias da Beira. Em 1983, publica o seu primeiro livro de poesias Raiz de Orvalho. Você próprio um dia disse: "Eu sou da poesia". Como e de onde nasceu esse afecto pela Poesia?

A poesia vivia em minha casa. O meu pai era poeta, não apenas porque escrevia versos. Mas porque vivia de forma poética. O que quer dizer que ele ensinou-nos a dar valor às coisas que passavam desapercebidas. Às coisas que, na aparência, não tinham valor. Reaprendi essa lição quando encontrei a poesia de Manoel de Barros que mostra como descobrir beleza no meio da poeira.

No Poema Da Despedida, você diz: "Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei ainda assim,escrevo." Contudo, a sua palavra alcançou o Mundo, tendo a sua obra sido traduzida em mais de 20 países. Além do mérito reconhecido e do percurso editorial, valeu a pena ter escrito? 

Valeu. Eu acho que nenhuma outra coisa que eu faça me dá tanto sentido de realização. Há algo que insisto em dizer aos mais jovens. Não busquem fama, nem glória. O que vale é o gosto que temos em ser escritores, o que vale é termos amigos e não fãs.

No livro Mar Me Quer, o narrador fala assim para Luarmina: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.” Você acredita na eternidade, não só do homem, mas de toda a Vida?

A eternidade é alcançada em momentos de absoluta felicidade. São instantes em que podemos ser inteiros. E isso quase sempre se faz em harmonia com os outros, com quem amamos, com o que nos comove por uma razão de beleza.

João Passarinheiro, em Todo o Homem é Uma Raça, diz: “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.” Você, enquanto biólogo, pode explicar porque é que o ser humano, dono de tanta beleza que é a cor da pele, se implica tanto com a sua diversidade biológica?

Cada vez mais, a ciência nos ensina que grande parte do nosso corpo não é composto por células humanas. Nós, humanos, somos feitos por outros organismos que não tem material genético hu-mano. Não vivem connosco apenas. Nós somos eles. Esta descoberta tem repercussões fundamentais no modo como nos pensamos e como pensamos o mundo. A biodiversidade não está fora de nós. Está dentro. Há muito que a ciência biológica sabe que, quando se fala de espécie humana, o conceito “raça” não se aplica. Há mais diversidade dentro de um grupo que chamamos da mesma raça do que entre grupo e outros. O que quer dizer que dentro da chamada raça branca (é só um exemplo) há mais diversidade genética do que entre essa raça e qualquer outra raça. Aquilo que chamamos de diversidade é apenas um outro nome da própria vida.

O seu livro Cronicando mereceu um prémio da Organização dos Jornalistas Moçambicanos, em 1989. Além do seu carácter moralizante, as suas crónicas e intervenções públicas fazem também a denúncia da pobreza e da corrupção em Moçambique. A que se deve essa sua preocupação com as violações dos direitos humanos?

Não sei ficar calado, não sei aceitar a injustiça. Sei o que devo fazer como escritor. A minha obrigação de cidadão não se esgota no exercício da literatura. Mas não confundo a minha intervenção cívica com o que faço como escritor. Em Moçambique, colaboro com jornais, vou a escolas, intervenho nas redes sociais e nos espaços de debate público. O mais importante não é tanto o que se defende nesse espaço, mas a sugestão de que o importante é a discussão franca e aberta de ideias. E não o ataque pessoal, não a imposição da razão pela autoridade e pelo medo.

Numa entrevista, você diz que “O dinheiro não está ligado nunca às coisas do espírito. É a antítese do mundo real, onde tudo é comprável e as pessoas têm sempre um preço. Mesmo em Moçambique, apesar da importância que se atribui aos espíritos e à relação com os antepassados.” O falhanço na edificação do Estado africano terá algo a ver com a desatenção dada ao espírito, nas suas várias nuances (Educação, Cultura, etc.)?

Eu creio que os países africanos não tiveram tempo para completar essa edificação de um Estado central. Não chamaria a isso um “Estado Africano” porque não sei bem se temos um consenso sobre o que isso seria. Mas nós estamos também a pagar o preço de termos importado um modelo de Estado copiado dos Estados colonizadores. Não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Mas tudo isso não pode ser discutido se não aceitarmos que os nossos modos de produzir riqueza não mudaram tanto assim depois das independências. Extraímos matéria prima que exportamos para o Primeiro Mundo que depois nos revende de forma manufacturada. Essa era a base da economia colonial.

Será essa desatenção ou aversão que leva os políticos no poder a rejeitarem as propostas e as vozes críticas dos intelectuais africanos?

Eu creio que existe uma mudança positiva. Chegou tarde, em muitos casos. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. As novas gerações dos países africanos não viveram a opressão colonial. Muitos já não fizeram a luta pelas independências. Esses jovens estão ligados ao mundo, sabem como funcionam os outros países e como a liberdade se pode conquistar. A questão já não é dos intelectuais. A questão também não é a forma como os regimes rejeitam as vozes críticas. A questão é inversa: como as vozes críticas rejeitam os poderes autoritários.

Será essa constatação que o levou, tal como Pepetela, a afastar-se da actuação política directa? Para si, quem são o herói e o vilão hoje em Moçambique? 

Fui membro da FRELIMO durante anos. Muito do que sou aprendi nessa luta. Mas devo dizer que, mais do que os lemas políticos, havia imperativos éticos que me motivaram. Um deles era este: a FRELIMO defendia o princípio de que um militante devia ser o primeiro no sacrifício e o último nos benefícios. Durante um tempo isso foi verdade. Mas depois, tudo se adulterou. E hoje quem está no poder acredita ser legítimo servir-se e não servir os outros. Não acontece evidentemente em Moçambique apenas. Deixei de ser membro de um partido mas não abandonei a defesa dos princípios éticos que me fizeram ser militante.

Um personagem de Germano Almeida diz num dos seus romances que a falta de pontualidade é um dos factores de atraso do Continente. Já Samora Machel vivia preocupado com este problema. Esta falta de pontualidade que Pepetela diz ser para os dirigentes vincarem o seu poder, não terá nada a ver com a idiossincrasia do africano? Como é que podemos mudar este modo de pensar e agir?

Não creio que se possa falar da idiossincrasia do “africano”. Há milhões de africanos e cada um tem a sua identidade pessoal. Eu acho que a pontualidade é algo que só existe quando é criado e alimentado numa dada sociedade. Para isso há que dar o exemplo. Quando os nossos pais nos ensinarem o valor do tempo, quando os nosso chefes derem o exemplo na pontualidade então deixaremos para trás isso que pensávamos ser da nossa idiossincrasia. E repare, a pontualidade não tem a ver com o Tempo. Tem a ver com o respeito pelos outros, por esses que são obrigados a ficar à espera.

O seu romance O Bebedor de Horizontes faz uma retrospectiva ficcional da História de Moçambique, indo desenterrar ao passado colonial a vida de Ngungunyane, preso em Dezembro de 1895 em Chaimite. Porque é que a figura do Imperador Ngungunyane o apaixonou? Tem esse livro alguma lição para os poderes estabelecidos em Moçambique?

Existem vários recados nessa obra. Talvez o mais importante seja que devemos olhar para o nosso passado de modo menos politizado. A nossa História oficial, aquela que ensinamos na escola, é uma narrativa simplificada que deitou fora outras narrativas paralelas mas que não serviam certos interesses. A nossa história está cheia de histórias silenciadas. É muito mais rica e complexa do que aquilo que surge no discurso patrioteiro que nos ensinaram.

A Água e a Águia é o seu mais recente livro infantil saído no ano passado. E não é o único. Que ingredientes deve ter uma boa estória para crianças? 

Deve ter beleza, como qualquer obra literária. Existe uma tendência para minimizar a capacidade de entendimento das crianças. Então, explica-se o que só pode ser sugerido, simplifica-se aquilo que imaginamos que as crianças não entendem. O resultado são obras moralistas e paternalistas que perdem o mistério e o fascínio que as crianças naturalmente buscam.

Em A Confissão da Leoa você levanta, de forma mais completa, a problemática da Mulher em África e no Mundo. Com o crescimento da pobreza, cresce também o comércio do sexo, a chamada profissão mais antiga do Mundo. Se Mia Couto fosse mulher e pobre em Moçambique, como fugiria desta profissão, muitas vezes a última alternativa para sobreviver?

Eu responderia que, quando escrevo, sou mulher e sou pobre. Como sou qualquer outro personagem dos meus livros. Eu vejo que a prostituição é bem mais vasta que o comércio que erradamente se atribui apenas às mulheres. Raramente se fala em prostitutos mas há tantos ou mais homens do que mulheres que se prostituem. E falo apenas do ponto de visto da venda do corpo para o sexo. Mas existe a prostituição moral e essa não é domínio exclusivo dos po-bres. Quantos são hoje ricos porque se prostituíram? A fuga, como você lhe chama, depende muito da construção de uma sociedade que se constrói com verdade sobre valores morais.

Luandino Vieira teve alguma influência no seu estilo de “falinventar” o português e na reinvenção da narrativa africana, como observamos nas Estórias Abensonhadas?

Sem dúvida. Foi Luandino o primeiro escritor a me desafiar na busca de uma escrita que integrasse a oralidade. Faço questão de invocar o nome deste que foi um dos instigadores do meu caminho. Há escritores que se esquecem dos seus mestres. Quando se tornam mais conhecidos deixam de mencionar aqueles que foram as suas referências. Não será o meu caso.

Em 2014, Mia Couto ganhou o Prémio Neustadt International Prize for Literature, considerado o Nobel americano. Você acredita que se não tivesse sido traduzido para o inglês, teria alguma vez ganho este prémio? Como é que podemos, nós, escritores africanos de língua portuguesa, sair do gheto editorial, quando não temos possibilidades de ser publicados no estrangeiro?

Tem razão. Se eu não tivesse sido publicado em inglês, (e diria por certas editoras) eu não teria visibilidade para que o júri do Prémio Neustad tivesse pensado no meu nome. É uma injustiça? Sim, é. Mas todos sabemos da hegemonia da língua inglesa e de como os prémios actuam associados aos mercados do livro. Mas temos que deixar de chorar. Eu creio que te-remos que organizar nos nossos próprios países formas de nos tornar mais visíveis. Os africanos podiam explorar melhor plataformas de visibilidade internacional como é, por exemplo o Prémio Camões. Mas na verdade, não nos interessamos em prestigiar esse galardão. Quais são os países africanos que contribuem financeiramente para este prémio? Nenhum. Queixamo-nos muito e fazemos pouco. É preciso dizer que para esse prémio Neustad eu fui proposto por uma escritora africana, de nacionalidade etíope. Temos que ter um trabalho paciente mas firme de nos valorizar enquanto continente.

Líderes dos processos são determinantes

Quando recebeu o Prémio Camões, você celebrou “o que há ainda por fazer, (...) para que seja mais viva e mais verdadeira esta família que celebramos na nossa língua comum”. Porque é que a literatura dos PALOP é tão cara e tem tão pouca circulação nos nossos países e como ultrapassar esta situação?

Essa pergunta deve ser dirigida aos que mandam no mercado editorial. Os governos demitiram-se desta matéria. É um daqueles assuntos em que os Estados deram um passo atrás e entregaram tudo à lógica dos mercados. Tenho esperança que os livros possam circular por outras vias.

Após o desastre causado pelo Ciclone Idai, o representante da Renamo em Portugal considerou que o Governo falhou no combate à prevenção. Como biólogo, você concorda ou discorda deste pronunciamento? Porquê?

Eu creio que não seja muito edificante procurar, neste momento, culpas e desculpas. Ainda por cima, fazendo isso roupa suja a ser lavada fora de casa. Moçambique tem que se preparar de forma muito séria e consistente. Ocorrem em média três ciclones de grande escala por ano no Canal de Moçambique. Alguns destes ciclones atingem inevitavelmente a costa de Moçambique que é muito extensa e muito vulnerável. Moçambique tem que ter sistemas de prevenção e resposta instalados e isso é urgente e uma das lições que se deve retirar desta ocorrência. Mas é preciso dizer que a escala deste ciclone e das enxurradas que se seguiram é algo de proporções que superam as capacidades da maior partes dos países.

Angola e Moçambique têm uma experiência política muito parecida. Filipe Nyusi e João Lourenço estão ambos empenhados no combate sem tréguas contra a corrupção. Que diferença representa, neste combate, a leveza das instituições de controle e fiscalização da economia, nascidas de uma situação de monopólio dos poderes políticos pelo Executivo?

As pessoas que lideram os processos são, num dado momentos, determinantes. E que estes processos sejam consistentes; eles não podem depender de vontades pessoais. Deve ser um processo institucional. Mas deve ser também um combate pela criação de valores morais, desde a mais tenra idade. É preciso entender que se deixou que a corrupção se convertesse num sistema que é vivido desde casa e desde a escola como a normalidade.

José Luís Mendonça | Jornal de Angola | Foto em JA 

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/a-luta-contra-corrupcao-deve-ser-tambem.html

Do amor romântico

Durante cerca de três décadas dei aulas sobre a dimensão cultural, política e vivencial do romantismo oitocentista. Começavam invariavelmente por procurar diluir a conceção do romantismo tardio, ou ultrarromantismo, que transformava o conceito numa expressão doentia – sob a forma de sentimento aparentemente dócil e contemplativo, mas traduzida em gestos por vezes bárbaros – da posse de alguém por outro alguém. Em regra, de uma mulher por um homem, embora pudesse ocorrer o contrário, ou pudesse também acontecer algo de menos convencional.

Depois mostrava que o verdadeiro romantismo pouco tinha disso. Era antes exaltação, heroísmo, liberdade, rebeldia ou rebelião, valorização do sujeito, jogo, autonomia da vontade, fusão da pessoa com a mudança do mundo. E também que, apesar de maioritariamente masculino – não esquecer que as circunstâncias eram outras – dera também lugar a inúmeros momentos de emancipação de mulheres. Como seres autónomos, como pessoas, já que como movimento coletivo, orgânico, até ao final de Oitocentos não existia ainda qualquer vislumbre de feminismo. Mostrava também como uma boa parte da idealização do feminino pelos homens e pelas mulheres do romantismo, apesar de hoje totalmente ultrapassada e insustentável, foi na época um instrumento de valorização das mulheres como seres humanos autónomos e até independentes dentro de uma cultura hegemonicamente masculina. Apesar de em algumas variantes elas serem também diabolizadas pelos homens românticos com medo da sua influência. Devo ter passado este testemunho a umas cinco mil pessoas, no mínimo.

Eis quando deparo com textos concebidos por estes dias que deturpam tudo isto e procuram agora, a partir do desenvolvimento da caricatura tardo-romântica, utilizada atualmente pelos mecanismos da indústria do consumo, apresentar o romantismo como um mero instrumento de manipulação e de exploração, como meio de ilusão, ou como fator negativo indutor de formas veladas ou implícitas de violência de género. Claro que mesmo aqui se vai a um ponto extremo, considerando-se até a sincera oferta de uma flor ou de um poema, ou de belas palavras de carinho e de elogio, por parte de um homem a uma mulher, como inevitável instrumento de dominação ou de chantagem emocional. Claro também que algumas das pessoas que o defendem terão problemas com a interpretação da realidade e com a sua própria vida, metendo tudo no mesmo saco, mas outras fazem-no por irem atrás de leituras ligeiras e fáceis. Deveriam, pelo menos, informar-se um pouco melhor sobre os conceitos que usam. E sobre a sua história também. O que significa sobre as pessoas que já não existem, mas lhe deram forma.

Muito mais haveria a dizer sobre o tema, incluindo a vertente do amor pela humanidade no seu todo, que na sequência da filosofia das Luzes o romantismo também desenvolveu, bem como sobre o lado oposto da influência romântica na nova forma de entender o amor na transformação das masculinidades. E ainda sobre romantismo e revolução, ontem e hoje (Marx foi romântico). E ainda sobre as cabeças que giram à volta do problema, naturalmente. Assunto que dará sempre para livros inteiros, daqueles bem volumosos. E para filmes e séries. E para longas conversas também. Mas não é aqui o seu lugar.

Imagem: «The Escape», gravura em aço aguarelado à mão, 1862; sobre desenho de J. Browns.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/04/10/do-amor-romantico/

Obra de Saramago ganha nova urgência perante avanço da extrema-direita

A obra de José Saramago O Ano da Morte de Ricardo Reis ganha uma nova urgência com o regresso dos populismos, afirma João Botelho, que decidiu adaptar o romance para o cinema face à sua actualidade.

Em 2018 assinalaram-se 20 anos do Nobel atribuído a José SaramagoCréditos / www.m-x.com.mx

Depois de pegar noutros autores importantes da literatura portuguesa, como Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa ou Eça de Queirós, João Botelho queria adaptar José Saramago, acabando a actualidade por conduzir o realizador para O Ano da Morte de Ricardo Reis, que tem como pano de fundo a afirmação da ditadura de Salazar e o surgimento da extrema-direita na Europa.

Na obra de José Saramago, Ricardo Reis regressa do Brasil, um mês depois de o seu criador Fernando Pessoa morrer. A Lisboa que encontra, em 1935/1936, é cinzenta e triste, onde quase sempre chove.

Os mais pobres juntam-se para o bodo, assiste-se à escolha das cores do fascismo português num comício no Campo Pequeno, um gerente de hotel sempre à procura de saber tudo simboliza os bufos, ao mesmo tempo que o heterónimo de Pessoa lê notícias que vêm do resto da Europa, de Mussolini, de Hitler, do arranque da Guerra Civil espanhola.

«Eu acho que, nos tempos que correm, estamos a viver umas épocas muito parecidas, muito estranhas, com o regresso dos populismos, nacionalismos», disse João Botelho à agência Lusa durante as rodagens do filme, em Coimbra.

Luís Lima Barreto, que interpreta Fernando Pessoa na longa-metragem de Botelho, também salienta «uma maior urgência» em adaptar esta obra.

«Este filme há dez anos ainda se podia perguntar o porquê de o fazer. Neste momento, as pequenas referências que há no filme são tão parecidas com o que se está a passar no mundo que até faz impressão», diz.

O actor conta que, a estudar o texto, prendeu-se com uma frase de Pessoa a Ricardo Reis: «O mundo ainda está pior do que quando o deixei.»

«Neste momento, as coisas estão absurdamente perigosas», constata.

Também o actor brasileiro Chico Diaz, que interpreta Ricardo Reis, considera «extremamente oportuno» o momento de adaptação da obra. «Vem com muita força para tornar clara a discussão que estamos a viver no mundo inteiro. O filme veio para tornar essa discussão bem fértil», acrescenta, apontando para o seu próprio país que está a viver «um momento ímpar, que chega a ser surreal», onde «a razão se perdeu».

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/obra-de-saramago-ganha-nova-urgencia-perante-avanco-da-extrema-direita

José Saramago e a indiferença social

José Saramago e a indiferença social

Uma das obras mais famosas e célebres de José Saramago é Ensaio sobre a Cegueira, romance que convida a uma reflexão profunda sobre a alma humana e sobre o que aos nossos olhos parece invisível.

José Saramago foi a voz mais autoritária da literatura portuguesa. O refinamento de sua escrita lhe valeu o Prêmio Nobel, mas não menos importante foi seu compromisso do ponto de vista político e social. Obras como “Ensaio sobre a cegueira” são um meio excepcional de catarse, um ponto de partida para a reflexão filosófica, um convite claro para “acordar”.

De José Saramago diz-se frequentemente que ele era um agitador de consciências. Ele nunca desistiu de denunciar as injustiças e sempre assumiu uma posição clara contra os conflitos de sua época. Em uma de suas palestras, ele se definiu como um escritor apaixonado, impulsionado pela necessidade de levantar cada pedra, mesmo sabendo que monstros reais poderiam estar escondidos em baixo.

A busca da verdade e o desejo de estimular a mente eram os ingredientes de um estilo literário único. Suas parábolas, construídas com imaginação, ironia e compaixão, desenham uma realidade que ninguém pode permanecer indiferente.

Vários anos após sua morte, os trabalhos de Saramago continuam sendo reimpressos em diferentes idiomas. E nem mesmo as novas gerações permanecem insensíveis ao encanto de uma personalidade tão multifacetada, um homem que chegou a pensar em completar a Declaração Universal dos Direitos Humanos com sua Carta de Deveres e Obrigações. .

Foi o escritor mais brilhante que Portugal nos deu, ao lado de outros nomes ilustres como o de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz . Sua provocativa, mágica e perturbadora obra nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

“Os três males do homem moderno são a ausência de comunicação, a revolução tecnológica e uma vida centrada no triunfo pessoal”.

-José Saramago-

Biografia de José Saramago, um estudioso de origens humildes

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 na Golegã, Portugal. Seus pais eram José de Sousa e María da Piedade, um casal de agricultores de origem humilde que ganhavam a vida com o trabalho duro da terra. Quando o pequeno José tem apenas dois anos, os dois decidem emigrar para Lisboa em busca de melhor sorte.

Na capital portuguesa conseguem alcançar uma certa estabilidade econômica. O pai começa a trabalhar como policial e José tem a oportunidade de receber educação primária. Por alguns anos ele frequentou um Instituto Técnico, mas foi forçado a sair quando seus pais não podiam mais pagar a ele o ensino médio.

Por esse motivo, o jovem José não tem escolha senão começar a trabalhar em uma fundição. Ao realizar essa atividade, com a qual ele ganha a vida, ele também usa outras roupas: as de erudito . Na verdade, ele nunca para de ler, aprendendo sozinho e, acima de tudo, escrevendo . Assim, em 1947, aos 25 anos, publicou seu primeiro romance, Terra del Peccato . Nesse mesmo ano nasceu sua filha Violante, fruto do primeiro casamento.

Maturidade como escritor e jornalista comprometido

A partir de 1955, José Saramago começou a traduzir as obras de Hegel e Tolstoi para a editora Estúdios Cor. Ao mesmo tempo, ele se esforça para tornar seu estilo de escrita mais maduro, e está empenhado em buscar novas oportunidades para alcançar o sucesso com seus romances. No momento, na verdade, apesar do talento inquestionável, nenhum editor está disposto a publicar seus trabalhos.

Depois de ver o novo romance rejeitado, Claraboia (que será publicado somente após sua morte), Saramago leva vários anos para decidir tentar novamente. Teremos que esperar até 1966, com Poemas Possíveis e uma segunda coleção de poemas, Provavelmente Alegria

Tendo alcançado o sucesso literário, Saramago sente a necessidade de embarcar em uma nova carreira no mundo do jornalismo. Começou a trabalhar para o jornal Diário de Notícias, onde mais tarde retornou como vice-diretor. Mais tarde trabalhou como comentarista político no Diário de Lisboa.

Em 25 de abril de 1974, a chamada Revolução dos Cravos explode em Portugal e, desde então, Saramago tomou a decisão de dedicar-se exclusivamente à escrita. Agora é uma figura conhecida e respeitada, e o que ele quer é deixar mais obras, mais livros para o mundo. Desde 1976 publica Os Apontamentos, obras teatrais como A Noite (1979) e livros de histórias como Objecto quase (1978).

O Prêmio Nobel

Nos anos 80, José Saramago é agora um escritor mundialmente famoso. Memorial do Convento (1982) consagra-o definitivamente como um autor internacionalmente apreciado. Alguns anos depois, ele consolidou seu sucesso com A Jangada de Pedra (1986), o polêmico O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e, em particular, Ensaio sobre a cegueira (1995).

Seu estilo agora é mais procurado e seus livros são mais engajados, de modo que, em 1998, o Comitê de Estocolmo (Suécia) deu a ele o maior prêmio por um escritor: o Prêmio Nobel de Literatura. Naquela época, José Saramago dividia sua vida entre duas terras: Lisboa e Lanzarote (Ilhas Canárias). Neste último lugar, ele passou os últimos anos de sua vida com sua terceira esposa, Maria del Pilar del Rio Sánchez, jornalista e tradutora espanhola.

Ele morreu em 18 de junho de 2010 depois de lutar por um longo tempo contra a leucemia. Ele tinha 87 anos e acabava de começar um novo romance , dos quais existem apenas as primeiras 30 páginas.

Ensaio sobre cegueira

“Nós não somos cegos, mas nós não vemos”. Essas palavras resumem bem a metáfora argumentativa de uma das obras mais perturbadoras de Saramago. Em Cegueira, falamos sobre a incapacidade dos seres humanos de reconhecer o próximo. As pessoas de repente se transformam em criaturas mesquinhas, seres cegos que precisam da orientação dos outros para entender as coisas e sobreviver.

O romance é uma profunda reflexão sobre a alma humana. É um conto distópico, que mantém você preso até pela curiosidade de descobrir por que essa estranha forma de cegueira afetou a população e continua a se espalhar como uma infecção. As coisas precipitam quando o governo decide colocar em quarentena os doentes, sujeitando-os a formas estritas de controle.

Entre os protagonistas da história, só se pode ver: uma mulher que acompanha o marido naquela prisão, emprestando-lhe, por sua vez, seus olhos para ajudá-lo em tudo o mais. No entanto, todo o cenário não é menos opressivo. A higiene é escassa, os soldados não hesitam em atirar em quem chega perto demais e a degradação começa a se espalhar. Lentamente, a situação assume a forma de uma verdadeira ditadura. O caos reina e a esperança é consumida inexoravelmente.

Uma obra em que nos é mostrada a cegueira interna do ser humano. Essa incapacidade de reconhecer um ao outro e que evoca egoísmo, perda de razão, conflito e medo. Um cenário perturbador, através do qual Saramago convida a uma reflexão moral corajosa.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro chocante, um marco na literatura contemporânea que vale sempre a pena redescobrir ou descobrir pela primeira vez.

Adaptado de lamenteemeravigliosa

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/jose-saramago-e-a-indiferenca-social/

Este pode ser o instrumento náutico antigo usado na viagem de Vasco da Gama à Índia

Durante as investigações de um naufrágio no mar da Arábia, perto de Omã, mergulhadores descobriram um disco de metal pouco comum que provou ser o astrolábio náutico mais antigo de que há conhecimento, segundo as informações dos investigadores britânicos.

O instrumento de navegação, que foi encontrado no local de naufrágio de um dos navios da armada portuguesa durante a segunda viagem à Índia (1502-1503) do explorador Vasco da Gama.Após terem analisado as decorações do artefato, os pesquisadores sugerem que este objeto era usado já em 1496.

O astrolábio contém a gravura do brasão de armas do reino de Portugal com uma esfera armilar, que está associada ao rei Manuel I de Portugal que reinou entre 1495 até 1521.

O objeto tem 175 milímetros de diâmetro e pesa 344 gramas, de acordo com o relatório da equipa de investigadores.


Astrolábio náutico é um instrumento usado pelos marinheiros durante as viagens para medir a altura do Sol e calcular assim a latitude do sítio onde se encontravam. Só um outro destes artefatos de disco sólido foi encontrado, mas sua autenticidade e datação não foram provadas.

Dos 104 astrolábios encontrados até agora, esta descoberta considera-se não só a mais antiga, mas também a única decorada com símbolos nacionais, afirmam os investigadores.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019032213542630-astrolabio-oma-naufragio-vasco-da-gama-armada/

Dominical liturgia [citando Sophia] - 9

Dominical liturgia [citando Sophia] - 9
Dominical liturgia [citando Sophia] - 9
RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA*
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972
_________________________
*Poema que tinha destinado ao Dia Internacional da Mulher mas que por razões conhecidas adiei para hoje...

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

MORREU O ARMANDO CALDAS, MEU AMIGO, por ANTÓNIO GOMES MARQUES

MORREU O ARMANDO CALDAS

 

Telefonou-me o João Machado, o que é habitual, mas o que motivou o seu telefonema de hoje surpreendeu-me. «Morreu o Armando Caldas», informa-me o João, acrescentando mais alguns pormenores, nomeadamente o ter sido uma morte repentina.

Não li, nem ouvi, qualquer referência à morte do Armando, acontecida no passado dia 13 e, por isso, não marquei presença no seu funeral.

Conheci o Armando em 1961, no Teatro Moderno de Lisboa, sendo-me apresentado por um amigo comum, o saudoso Rogério Paulo.

Mantivemos contacto ao longo destes anos, participámos em colóquios sobre teatro e nunca o Armando me deixou de convidar para assistir às suas encenações, nas quais nem sempre pude marcar presença. Falávamos depois sobre os espectáculos, mostrando-se sempre o Armando interessado em ouvir o que tinha para dizer, não mostrando qualquer contrariedade quando a minha crítica era contundente, proporcionando essa discordância um diálogo mais vivo do que habitualmente. O amor ao teatro, um teatro comprometido com a vida, unia-nos e a amizade foi-se sempre fortalecendo, mesmo com as minhas discordâncias em relação ao seu querido Partido Comunista Português, a que pertencia desde 1956. «Mesmo discordando, gosto de te ouvir, Gomes Marques», era assim que, normalmente, terminavam as nossas conversas que envolviam o seu partido.

Publiquei um ou outro texto com referências ao seu trabalho no «Intervalo-Grupo de Teatro», residente no Auditório Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha, que ele sempre me agradeceu com um abraço de amizade.

Um dia, disse-me: «Este ano o homenageado é o Hélder Costa. Sabes quem vai falar sobre ele? És tu!» Ao aperceber-se que eu iria dizer algo, logo acrescentou: «És tu, está decidido!» E fui eu, pois logo verifiquei que dessa não me safava. Como também, com a mesma determinação, me tinha «exigido» um texto para o livro sobre o Teatro Moderno de Lisboa, organizado pelo Tito Lívio, com a colaboração de Carmen Dolores, que viria a ser publicado com o título «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) – Um Marco na História do Teatro Português» (edição da Editorial Caminho-Agosto de 2009).

A sua vida confundiu-se com o Teatro Português desde que, em 1958, se estreou como actor no Teatro Avenida, em Lisboa, na peça de Carlo Goldoni, tendo sido um dos corajosos fundadores do Teatro Moderno de Lisboa, companhia de actores que é marcante na história do teatro português, para além de ter trabalhado em algumas das companhias de teatro mais relevantes no nosso país, como o Teatro Nacional Popular —do seu Mestre Francisco Ribeiro, o Ribeirinho, Mestre esse a quem sempre se referia com enorme respeito e gratidão—, no Teatro de Sempre, no Grupo 4. Principal animador do Primeiro Acto – Clube de Teatro de Algés, onde aconteceram algumas reuniões clandestinas acordando acções a desenvolver na luta por um teatro digno, interventivo na sociedade portuguesa, intervenção essa que exigia coragem aos intervenientes, terminando a sua actividade no já referido Intervalo – Grupo de Teatro, em 2016.

Em 2008 foi-lhe feita uma justa homenagem, no Teatro da Trindade, pelos seus 50 anos de dedicação ao teatro, iniciativa que teve como protagonistas Carmen Dolores, Rui Mendes e Fernando Tavares Marques.

Recebeu uma outra não menos justa homenagem da Câmara Municipal de Oeiras, em 2013, de que se publicou uma brochura, cuja capa abaixo se reproduz.

MORREU O ARMANDO CALDAS

 

O Armando ofereceu-me um exemplar com a seguinte dedicatória:

«Para o António Gomes Marques, bom amigo e amante de teatro como eu, com a fraternidade do Armando Caldas. 8.02.2014»

É um momento de grande pesar para quem, como eu, deixou de ter a presença física de alguém que comigo partilhou muitas lutas, muitas tristezas, mas também muitas alegrias, numa sã camaradagem de quase 58 anos.

Adeus amigo, não serás esquecido enquanto eu respirar!

Portela (de Sacavém), 2019-03-16

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/03/17/morreu-o-armando-caldas-meu-amigo-por-antonio-gomes-marques/

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»
Andava eu naquela labuta conhecida da procura da notícia, para a candonga costumada, trazendo para este meu espaço textos que outros vão escrevendo, quando tropeço no título "Não se deve perder de vista um mundo mais justo e solidário" e onde o escritor alerta para as «tremendas transformações» que o mundo está a sofrer, em que se assiste à recuperação de pontos de vista que se pensavam «completamente ultrapassados». Trata-se, como pode (e deve) ler aqui, de um enquadramento a um anúncio querido (mais um livro). Para além de ter eu encontrado este modo em divulgá-lo e porque às tantas ele refere ter sido criado numa família de ideais republicanos, que nunca o quis ver vestido, quando aluno do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, com a farda da Mocidade Portuguesa, organização juvenil da ditadura de Salazar, de pronto me ocorreu aquele outro texto seu, por mim aqui citado:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.
Mário de Carvalho - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

FRENTE A VINCENT | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

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Às vezes, é um livro; outras uma sinfonia ou um quadro. Há obras que se transformam em companheiras de vida e nos enchem os olhos de espanto quando as lemos ou relemos, as ouvimos ou vemos na pureza original de um confronto directo, que são aqueles instantes únicos que nos deixam de respiração suspensa pela emoção estética.

Penso muito nessas emoções que se cruzam connosco nos caminhos da vida e nos parecem, no circunstancialismo quotidiano de que emergem, momentos e situações que a memória guarda como inesquecíveis para todo o sempre. É assim, e já o escrevi mais de uma vez, quando ficamos diante da Guernica, de Picasso, cruzamos os olhos com os sonhos de Goya ou a caligrafia plástica de van Gogh, a exuberância de Portinari, por exemplo, mas também quando ouvimos a genialidade de Mozart, Beethoven ou Mahler, assistimos a Verdi no Teatro alla Scala, lemos a poesia grega clássica, escutamos a leveza da língua de Camões ou versos de Pessoa e de Herberto. Também poderíamos falar na música das palavras de Drummond, na 350px Quarto Statoexplosão telúrica de Gabo, na inquietação interior de Proust, na polifonia literária de Aquilino, da abertura de A Casa Grande de Romarigães. E de tantos outros criadores que emprestaram intemporalidade às artes e deram corpo à profecia de Antígona de que nada há mais maravilhoso do que o Homem.

Essa perplexidade do reencontro, que se funde em espanto, sentida em Milão, na famosa Pinacoteca ou Galeria Brera, ao deparar com um quadro que tem habitado o imaginário dos meus dias, o famoso Quarto Estado, tão emblemático que Bertoluci foi buscá-lo para o início do fantástico Novecento. Volpedo pintaro-o entre 1895 e 1896, uma espécie de manifesto do proletariado italiano do século XIX. Sempre achei espantosa a explosão colectiva e épica da tela, encerrando uma expressiva dinâmica social, como se o pintor quisesse mostrar uma multidão de condenados da Terra, subitamente levantados do chão da História. Daí a escolha de Bertoluci.
Agora, de novo, a mesma emoção, ao ficar frente a frente com o auto-retrato de Vincent van Gogh, no Rijksmuseum em Amsterdão. Parar e olhar, como se quiséssemos entrar nos olhos do pintor e descobrir nas suas águas a sua curta aventura existencial, a tristeza e o drama da sua história de vida, o compromisso nunca renegado da sua paixão pela pintura, a incapacidade da sociedade para compreender a sua genialidade, como mostra exemplarmente o filme At Eternity's Gate, de Julian Schnabel. 
Frente a Vincent, mergulhados na fundura do seu olhar, estamos decerto face àquelas "vozes do silêncio", de que falava Malraux para definir a relação entre a obra de arte e aqueles que, vendo-a, a interiorizam como acto criador desafiante.
Às vezes, um quadro é quanto basta. Para percebermos tudo. Quarta-Feira, 27 de Fevereiro

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

José Afonso (1929-1987).

Não se separa um homem inteiro, 
das partes e facetas que lhe dão a dimensão. 
Não se separa o andarilho, dos trilhos percorridos. 
Não se separa o professor, dos seres a quem deu saberes. 
Não se separa o cantor, dos seus cantos. 
Não se separa o poeta, dos poemas que nós dizemos.
Não se separa o criador, da obra criada. 
Não se separa o resistente, da luta travada. 
Não se separa o sonhador, da utopia sonhada. 
Não se separa a razão, da alma. 
E quando tal se separa, o homem parte. 
E omite-se a inteira memória de um homem digno.
Rogério Pereira
(reeditado)

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

José Afonso não é uma estátua. Celebremos por fim a sua música

(In Expresso Diário, 23/02/2019)

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Ferido desde a infância, esforçava-se por ser justo, sofria de insónias e, com ou sem dinheiro, perseguido ou não, sonhava dia e noite com música – toda a música, da Beira Baixa a Moçambique. No dia em que passam 32 anos sobre a sua morte, voltamos a José Afonso: o dos discos e o humano.


Quando em 1968 José Afonso entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar aquele que seria o seu segundo LP e primeiro pela Orfeu, Cantares do Andarilho, estaria muito possivelmente longe de imaginar que aquele punhado de canções iria pôr em marcha duas revoluções: uma de ordem musical, rompendo com tudo o que havia para trás na música portuguesa, outra de ordem política, visto a sua obra ter servido de bandeira de contestação ao antigo regime.

Na realidade ele tinha preocupações mais prementes e pragmáticas: conseguir simplesmente gravar. «Ele era muito nervoso», conta hoje Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, «e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar dum lado para o outro a dizer ‘Não vou gravar, não vou gravar’. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha».

O episódio é simultaneamente caricato e comovente mas traz ao de cima uma dimensão humana mais palpável que a da imagem icónica que o tempo impôs a José Afonso. Nos vinte e cinco anos que decorreram desde a sua morte, a 23 de fevereiro de 1987, José Afonso tornou-se lentamente na figura icónica da luta pela liberdade. É inteiramente merecido que o seja. O problema é que, como assinalam Arnaldo Trindade, Vitorino, Carlos Guerreiro, Júlio Pereira e o sobrinho João Afonso, a iconografia se sobrepôs a tudo o resto, ensombrando o fundamental: a complexidade (e espantosa análise social) que as suas palavras retratavam; o lado humano, de dúvida e angústia; e, pior ainda, a música. Porque José Afonso era, antes de mais, um músico possuído pelo génio, daqueles que «não podiam ser inventados», como diz Trindade.

Talvez agora, no momento em que a Orfeu reedita a obra que José Afonso lá gravou [reportamo-nos a 2012, altura em que este artigo foi publicado na revista BLITZ] e que constitui o grosso da sua produção, já seja possível voltar a falar de José Afonso enquanto homem e músico, um homem que a geração nascida depois da década de 70 desconhece, um ser com feridas fundas de infância, à conta de uma trágica história de separação dos pais, hipocondríaco, que sofria de insónias e precisava, como conta Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, da esposa Zélia para o transportar por Lisboa, um ser constantemente em conflito consigo mesmo, a pôr em causa a forma mais justa de atuar; esse homem também jaz, hoje, na sombra das homenagens e dos cravos.

Isto não implica desmerecer por completo a iconografia. Arnaldo Trindade lembra que Afonso «sabia que era um ídolo desde que “Os Vampiros” saiu». “Os Vampiros”, até hoje uma das canções emblemáticas de José Afonso, foi editado originalmente em single em 1963 e constitui, juntamente com “Menino do Bairro Negro”, a primeira incursão pela canção política. Até então, José Afonso dedicara-se exclusivamente ao fado coimbrão, de que era um exímio praticante, tendo gravado alguns singles do género.

José Afonso na adolescência

             José Afonso na adolescência

Eles comem tudo

É nessas canções que José Afonso promove uma rutura com a música da época e inicia o seu caminho: larga a guitarra portuguesa, abandona o cantar fadista (ainda que tenham restado marcas) e começa, numa primeira fase, a recuperar o legado do cancioneiro português (mormente a música da Beira Baixa), como é verificável ouvindo os três primeiros LPs que gravou, Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho e também um pouco em Contos Velhos, Rumos Novos (1969), sendo este último já ele próprio um disco de rutura face aos dois anteriores, antecipando o que se seguiria na década de 1970. Também começa aí a usar as suas próprias palavras, em vez dos poemas populares, como era de tradição com o fado coimbrão.

Quem ouvir hoje as primeiras canções isoladas que gravou, bem como esse par de LPs iniciais, assentes apenas em voz e guitarra clássica, pode ter dificuldade em perceber em que sentido é que são discos de rutura ao ponto de Rui Pato, o guitarrista que acompanhou Afonso até 1969, afirmar hoje que «o primeiro LP [Baladas e Canções] acaba por ser inócuo». Ainda assim, Pato assinala que Baladas e Canções «foi importante na medida em que rompeu com a tradição de Coimbra e trouxe à música portuguesa um modo diferente, sob o ponto de vista musical e harmónico».

Pato deixa bem claras as diferenças entre o que havia antes de José Afonso e o que José Afonso fez: «Quem tiver memória, lembra-se que a canção portuguesa ia do fado tradicional ao nacional-cançonetismo da Maria José Valério e do Tony de Matos. Era isto que se ouvia na Emissora Nacional [a única rádio da altura] e que as pessoas ouviam e conheciam; não havia muito mais na música portuguesa. Toda a estrutura musical das Baladas não tem nada a ver com o ambiente das cançonetas e é completamente diferente da forma do fado».

Pato, que hoje é médico em Coimbra, não tem a mínima dúvida que num país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, as canções dos primeiros discos constituem «um corte radical, ao ponto de em Coimbra as Baladas não serem bem vistas. Em Lisboa ainda nem sequer tinha surgido gente que introduzisse novos poemas nas canções». Pato conclui: «O Zeca, quando aparece, é uma verdadeira pedrada no charco».

Há uma razão para Pato chamar «inócuo» a Baladas e Canções: apesar de ser o primeiro LP e de ter sido editado em 1964, um ano depois do single “Os Vampiros”, não é propriamente um disco de corpo inteiro, antes a reunião das primeiras experiências que Afonso fizera fora do fado, e que editara em EPs e singles. “Os Vampiros”, por exemplo, foi gravado depois, mesmo tendo saído antes. E constitui, sem dúvida, um avanço musical e lírico face ao que se encontra no LP de 1964. «Os problemas de repressão», conta o guitarrista, «começaram por causa de “Menino do Bairro Negro” [outra canção editada em single antes do primeiro LP]. Depois, “Os Vampiros” tornou-se o hino da Rádio Argel [onde se encontravam vários dissidentes políticos perseguidos pelo regime]». Há quem afirme que a Pide proibiu “Os Vampiros”, mas isto não é claro: Arnaldo Trindade, que não editou essa canção, e reportando-se apenas ao que foi lançado sob o selo que comandava, afirma que «se dizia que os discos eram proibidos, mas é mentira: eram censurados nas rádios mas nunca estiveram fora do mercado». Essa censura criou «uma espécie de aura à volta de Zeca», diz Arnaldo, «ao ponto de Cantares do Andarilho ter vendido muito bem».

Não há dúvida que “Os Vampiros”, com o seu ataque violento ao sistema económico, tornou Afonso em alguém a ter em conta. Segundo Pato, «os núcleos de esquerda começaram a chamar o Zeca para cantar em reuniões de trabalhadores e de estudantes: a música do Zeca estava a servir de fermento». É difícil quantificar quantas pessoas terão ouvido a canção na altura, mas percebe-se quão longe ia o alcance daquela canção ao ouvir Vitorino, que mais tarde viria a gravar com José Afonso e atuar com ele ao vivo, contar a história de como se conheceram: «Isto passou-se em 1967. Eu estava em Tavira, na ropa, e fui ver um concerto intitulado “Dr José Afonso canta Baladas de Coimbra” na Casa de Pescadores de Olhão. Foi a primeira vez que o vi, não podia perder a oportunidade». Se um tropa nascido no Redondo sabia da existência do Dr. José Afonso, quantos mais saberiam? A continuação da história é também altamente reveladora do modus operandide José Afonso: «ele estava com dificuldade em afinar a guitarra e eu ofereci-me para a afinar. Ficámos amigos».

A amizade levou Vitorino a passar férias com a família Afonso na Fuzeta, de onde era natural Zélia, a segunda mulher de José Afonso. Foi aí que começaram «a cantar juntos, em simples brincadeira», o que redundou em parceria musical. Isto aconteceu dezenas de vezes na carreira: acabar a convidar músicos para tocar ou cantar em discos seus após uma (ou muitas) noite(s) de cantorias. A amizade, dizem todos, era-lhe fundamental.

Foi também assim que Rui Pato acabou a tocar nos discos de José Afonso. «Eu conheci-o através do meu pai», recorda hoje. «Ele um dia foi ter com os amigos à Brasileira [café coimbrão frequentado por estudantes e licenciados], muito entusiasmado com umas novidades musicais. Tinha feito umas canções, mas não era fado, e para mostrar aquela nova modalidade precisava de uma viola. E o meu pai lembrou-se que eu tinha uma viola, pelo que foram todos para minha casa e foi então que o conheci. Eu estava sentado nas escadas, ele apresentou as suas primeiras canções e ia tocando muito mal – sempre foi mau guitarrista. Tocava uma nota e dizia “e depois isto vai para aqui e depois vai para ali”. E eu pedi para apresentar alguns acompanhamentos em contraponto à maneira como ele estava a tocar, que era muito básica. Ele gostou e começou a dizer ao meu pai: “o miúdo é que me vai acompanhar”. E foi assim que nasceu a nossa relação».

O simples facto de ter escolhido um garoto de 16 anos como seu acompanhante em disco diz bem da abertura de espírito de José Afonso. Na prática, foi assim que nasceram “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”. «Trabalhar com ele era fácil, dava-me completa liberdade», recorda Pato. «Ele apresentava-me o esboço da canção e depois eu organizava-a do princípio ao fim». Será este, aliás, o esquema de trabalho de José Afonso com os seus futuros parceiros musicais de discos subsequentes. E já então havia uma particular obsessão: «a grande preocupação dele era a parte rítmica, aí era muito rigoroso».

Ter uma carreira musical, naquela altura, era complicado. Para mais quando o cartão-de-visita era uma canção como “Os Vampiros”, com o seu refrão assombrado, que tanto desagradava ao regime: «eles comem tudo e não deixam nada». De 1962, quando Pato e José Afonso iniciam a colaboração musical, até 1964, quando o último emigra para Moçambique, a «carreira» vive ao sabor da colocação de José Afonso como professor. «Ele dava aulas pelo país fora e eu ia ter com ele para ensaiar», recorda Pato. Desde que se licenciou e até 1964, lecionou em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro e Alcobaça; daí o «andarilho».

«Havia muita dificuldade em fazer concertos», lembra Pato. «Tinha de se enganar os governos-civis, dizendo que íamos tocar fados de Coimbra: à tarde tínhamos de lhes tocar dois ou fados de demonstração, e depois tocávamos outra coisa à noite. Começou a haver medo de chamar o Zeca para concertos, porque podia haver pancadaria com a polícia, em particular em zonas como a Baixa da Banheira».

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

Uma editora chamada Orfeu

José Afonso torna-se um homem marcado, os problemas financeiros acumulam-se e depois de lançar Baladas e Canções vai para Moçambique. Tinha vivido em África, em Angola, dos três aos oito anos, e ficara sempre marcado pelo continente. No período em que permanece em Moçambique, de 1964 a 1967, corresponde-se com Rui Pato, e conta que anda a fazer «coisas com música africana, com a qual estava muito entusiasmado. Fazia teatro e música em agremiações de negros». Rapidamente se envolve com movimentos políticos locais, o que lhe vale, novamente, o opróbrio, regressando a Portugal no final de 1967, mais propriamente a Setúbal.

Sem poder ensinar, vira-se definitivamente para a música. É aí que vem em seu auxílio Adriano Correia de Oliveira. É ele que revela Afonso a Arnaldo Trindade, como este recorda: «O Adriano trouxe-me uma maqueta do Zeca com acompanhamento à guitarra acústica. Pensei: ‘isto é tão bonito’. Era o Cantares do Andarilho, que para mim ainda é das melhores coisas que ele tem; ele chamava àquilo a sua fase contemplativa. Pensei de imediato que, apesar de ninguém o querer editar por motivos políticos, tinha de arriscar».

Trindade ofereceu a Afonso «o mesmo contrato que tinha oferecido a Adriano: um salário mensal em troco de um disco por ano, cujos direitos de autor eram pagos à parte». Mais tarde, Afonso levaria para a Orfeu Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou Francisco Fanhais, tudo gente que gravou nos seus discos antes de prosseguir uma carreira a solo.

A história de Trindade é exemplar do que era a época: quando começou a Orfeu tinha apenas «19 ou 20 anos», diz. O dinheiro vinha do pai, que era «o representante em Portugal da Philco, uma subsidiária da Philips com linha de televisão e frigoríficos». Trindade era um estudante de engenharia interessado pelas artes na década de 1950; chegou a conhecer Teixeira de Pascoaes. Igualmente apaixonado por música, queria fazer uma editora e começou por juntar os seus dois amores lançando discos de poetas a ler a sua poesia: Torga, Régio, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, etc. «Eles não percebiam porque é que eu os queria gravar. Tive de lhes explicar que em França o Sartre e o Cocteau já faziam isto há muito».

Era, a todos os títulos, um homem sofisticado e, rapidamente, começou a gravar vários tipos de música: «grupos amadores de jazz, de ingleses e alemães que viviam no Porto, gente como Pedro Osório e os Pop Five, um trio chamado Los Paraguaios, o Conjunto António Mafra, a fadista Maria da Fé». A seguir começou a gravar música folclórica: «os grupos folclóricos eram produções muito baratas e por isso davam dinheiro».

Depois passou para os fados de Coimbra, com Adriano, e foi assim que José Afonso lhe chegou. E também este lhe deu dinheiro: «o Cantares do Andarilhovendeu bem». Apesar disto, Afonso sempre se queixou de falta de dinheiro e, por vezes, os amigos juntavam-se para o ajudar (como fizeram ao comprar-lhe um carro, num peditório organizado por Carlos do Carmo). As versões diferem: Arnaldo Trindade diz que José Afonso tinha «o melhor contrato» da Orfeu, «equiparável ao de qualquer grande artista português».

Carlos Guerreiro diz que se lembra de José Afonso sempre sem dinheiro. E que, depois do 25 de Abril, quando começou a tocar muito lá fora, no final dos concertos «dizia sempre que tinha discos para vender porque a editora não lhe vendia os discos». Uma canção de Cantares do Andarilho, em particular, tornou-se rapidamente um marco: “Vejam Bem”. Pelo que Trindade aumentou o orçamento para o disco seguinte: «Com o José Afonso posso garantir que não só lhe melhorámos o contrato várias vezes como aumentámos sempre o orçamento para as gravações». Isto poderá explicar o aumento do número de músicos usados em Contos Velhos, Rumos Novos, em que se começam a usar mais acompanhamentos além da guitarra.

Rui Pato conta que foi Afonso quem teve a ideia de experimentar «arranjos com marimbas, harmónicas, trompa», sendo que as marimbas denunciam, desde logo, influência africana. Também usa cavaquinho, insistindo na sua recuperação na música popular portuguesa, e recorre a poemas de gente recente, como Ary dos Santos e Luís de Andrade; as palavras deste resultaram na magnífica “Era de Noite e Levaram”, uma denúncia das prisões aleatórias da polícia política.

O próprio José Afonso foi vítima dessas prisões e foi na última delas, em Caxias, que compôs “Era Um Redondo Vocábulo”, incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973. Uma boa parte desse disco foi escrito na prisão não se percebe como, mas Afonso saiu cá para fora com as melodias na cabeça. O clima da época era pesado, com «constantes concertos clandestinos que acabavam em prisões», segundo conta Vitorino. «Andávamos sempre com dinheiro no bolso para fugir do país a qualquer altura», acrescenta.

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

De Woody Guthrie a Debussy

Em finais da década de 60, início da de 70, Trindade já tinha percebido que tinha em mãos um sujeito superior. Admirava-lhe a cultura musical, que «ia do Woody Guthrie ao Debussy, passando por canto gregoriano, que adorava». Curiosamente, Rui Pato diz que nunca trocou discos com Afonso. «Não estou a dizer que ele não tivesse um gira-discos. Mas nunca vi nenhum nas casas que lhe conheci», afirma. Segundo Trindade, uma boa parte do folclore «foi buscá-lo ao Giacometti: o Zeca quis conhecê-lo e aprendeu muito com ele».

Por outro lado, assevera, Afonso era efetivamente «um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante». Júlio Pereira, multiinstrumentista e colaborador frequente, corrobora esta ideia afiançando que viu muitas vezes «o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele».

Segundo o sobrinho João Afonso, também músico, havia outra influência marcante no conhecimento da música popular, mas desta feita associada a algo potencialmente mais trágico. O tio Filomeno, com quem José viveu a partir dos oito anos, em Belmonte, onde Filomeno era presidente da Câmara. «Era salazarista, mas se bem me recordo foi ele que lhe ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio». A separação dos pais marcou muito José Afonso: o pai era procurador da República e foi colocado em Angola, era José Afonso ainda bebé. Depois Afonso voltou para Belmonte e em 1939 «os pais e a irmã foram para Timor, por causa do emprego do pai. Entretanto começou a II Guerra Mundial e eles foram capturados pelos japoneses. Pensou-se que tinham morrido. O meu tio pensou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Mesmo depois de saber que estavam vivos só voltou a vê-los passados mais três anos».

No total, foram sete anos de separação que poderão muito bem ter criado na criança uma espécie de sintonia para com os mais desfavorecidos. Exemplos concretos podem ser encontrados em canções como “Teresa Torga”, de Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976. Carlos Guerreiro, o líder dos Gaiteiros de Lisboa, que nunca chegou a gravar em discos de José Afonso (ou gravou, mas as canções não entraram e permanecem por editar), mas começou a tocar com ele em 1976, numa altura em que Afonso já fazia digressões constantes lá fora, conta a história dessa canção: «Era uma mulher que já tinha sido conhecida e um dia despiu-se no meio da rua, já não recordo porquê. Houve um fotógrafo que em vez de a ajudar resolveu fotografá-la e ele ficou horas a pensar nisso, achava isso incorreto. Acabava por exorcizar isso em canção».

Vitorino concorda que «essa separação [face aos pais] o desequilibrou muito. Marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho». Vitorino está convencido de que essa estupenda canção que é “Cantigas do Maio”, do álbum homónimo de 1971, é uma premonição de morte: «Morrer antes da mãe, uma ideia que sempre o obcecou». A palavra exata para recordar a letra encontra-se na própria letra: amargura.

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

Também não será excessivo ver nessa separação a fonte da ansiedade e hipocondria que o acometeram até morrer. Pese embora a maior parte das pessoas o visse apenas como «inquieto», no dizer de João Afonso. «Nessa época não se usavam termos como ansiedade», diz.

A sua educação, no entanto, foi, pelas descrições a que temos acesso, privilegiada em termos de leituras. Júlio Pereira, que o encontrará mais à frente, confirma esta erudição: «Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas». Guerreiro corrobora esta ideia: «As digressões naquele tempo eram diferentes, tínhamos mais tempo. Pelo que íamos ver museus, ver igrejas, e ele contava a história daquilo tudo».

Arnaldo Trindade descreve-o como «um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples». Carlos Guerreiro diz que Afonso, com os seus problemas de insónias, aproveitava as noites para ler. Trindade também se recorda do leitor compulsivo: «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos» e que além da erudição era um homem atento: em finais da década de 1960, José Afonso «tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo». Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade».

De qualquer modo, vendiam. Ao ponto de, em 1970, Trindade o ter mandado para os estúdios Pye, em Londres, para gravar o que viria a ser Traz Outro Amigo Também. Rui Pato não o pôde acompanhar devido a problemas políticos e é difícil perceber exatamente como o disco foi feito. Os dois violas do disco estão incontactáveis. Gilberto Gil aparece nos créditos como assistente, mas é dúbia a sua participação, a avaliar pelo relato de Arnaldo Trindade: «O Zeca tinha acabado de gravar o disco e fomos beber para comemorar. Depois, estávamos a passear em Hyde Park quando, segundo as notas do meu diário, apareceram o Gilberto Gil e o Caetano Veloso», que na altura estavam no exílio em Londres.

Trindade diz que ambos tinham ouvido os primeiros discos de Afonso e «tinham uma imensa admiração» por ele. Os outros músicos com quem falámos confirmam o encontro e a admiração, embora os pormenores sejam mais vagos, visto não terem estado presentes no encontro.

José Afonso em meados dos anos 70

José Afonso em meados dos anos 70

Modo de fazer

De qualquer modo este é, segundo João Afonso, «o disco em que começa a aparecer África» na música do seu tio, África que foi mais uma das influências que o marcaram. Pode notar-se essa influência logo na canção “Carta a Miguel Djé-Djé”: este era «um empregado de Zeca em Moçambique, com quem passava horas a tocar. O Zeca, por causa do trabalho, mudou de residência para outra zona do país e teve de despedi-lo. E um dia, sem aviso, estava o Zeca em Lourenço Marques e o Djé-Djé apareceu-lhe à porta de casa com uma vassoura e a guitarra». Segundo Guerreiro, era difícil arrancar-lhe histórias, mas esta era uma que o comovia imenso.

Não é fácil para quem não é etnomusicólogo dizer exatamente o que é africano na obra, mas João Afonso avança logo com uma ideia: «o uso de certas palavras que não são palavras, são apenas vocábulos, que ele usa de forma lúdica, a brincar com as suas potencialidades», como se pode notar numa canção como “Ailé Ailé”, de Coro dos Tribunais, de 1975. E, acrescenta, com graça, «nos taninaninôs [referência à canção “O País Vai de Carrinho”] dele». Esse disco, note-se, conta ainda com uma canção como “Lá no Xepangara” que, segundo Vitorino, «é um mercado em Lourenço Marques». A obsessão era tanta com conseguir o som certo que, segundo Vitorino (que participou nesse disco tocando órgão Moog), «o Zeca mandou vir uma cantora soul inglesa para cantar esses coros».

Carlos Guerreiro tem mais pormenores que aclaram como é que a cabeça de José Afonso funcionava em termos africanos. Segundo Guerreiro, «era um tipo profundamente despistado. Os ensaios podiam durar horas mas ele estava sempre a sair para telefonar ou comer uma bucha». No entanto, havia uma matéria com a qual era implacável: «com o ritmo era extremamente rigoroso. Se eu não conseguia o balanço que ele queria, e é mais essa a palavra, balanço, chateava-me até eu conseguir».

Diz Guerreiro que José Afonso tinha uma teoria a que ninguém ligava, mas que fazia um certo sentido: «ele achava que havia uma ligação entre África e a música da Beira. Musicalmente não faz muito sentido, mas ao nível de usar as palavras como brincadeira rítmica talvez haja parecenças, embora não heranças diretas».

Trindade achou o disco de 1970 uma obra-prima, a começar pelo tema-título e passando por coisas como “Canto Moço”. Entusiasmado, o editor pediu novo disco e não olhou a meios: mandou Afonso para o estúdio Le Château d’ Hérouville, em Paris. «Era o melhor estúdio da Europa. Na véspera tinham estado lá os Rolling Stones [na realidade foram os Grateful Dead e depois seriam os Pink Floyd]». A «brincadeira» custou-lhe uns astronómicos «mil contos». «Houve retorno», diz, «porque dali saiu o “Grândola, Vila Morena”».

Todos são unânimes em reconhecer que o aumento do orçamento para os discos foi fundamental: deu mais tempo para gravar, mais músicos e, neste caso, um produtor, José Mário Branco. João Afonso acrescenta que «a possibilidade de trazer músicos como o Yório [a partir de 1973], que tocava à moda brasileira, ou do Fausto, que era muito africano, entre estrangeiros espanhóis ou franceses, trouxe outras cores à música de José Afonso».

Não foi possível falar com José Mário Branco (ausente do país) nem com Fausto, que mais tarde veio a produzir José Afonso, dois elementos fulcrais na obra Afonsina. Mas a Orfeu teve a delicadeza de ceder algumas das declarações que José Mário Branco prestou ao jornalista Gonçalo Frota, e que estarão incluídas nos libretos das reedições. «Que eu me lembre, não me pôs grandes condicionantes», diz José Mário, que funcionou como diretor musical, o que faz sentido, se tivermos em conta que todos os músicos que trabalharam com ele dizem que era muito aberto às suas contribuições. No entanto, havia uma exceção: ele tinha «alguma prevenção contra a eletrificação do som dos discos». Preferia ter «sons nobres: as cordas, os sopros, as percussões, sim, mas sem tomadas por perto».

Sabemos um pouco mais acerca de como decorria a parceria entre José Afonso e José Mário nesse disco de 1971 e no de 1973, Venham Mais Cinco, através das histórias que o primeiro contou. Segundo Guerreiro, «ele tinha uma espécie de mnemónica, de grafia musical que tinha inventado, e mostrava ao José Mário que tinha de deslindar aquilo. Era do género: a primeira nota, depois sobe, sobe, a seguir desce». Guerreiro diz que Afonso também tinha por norma «ideias acerca dos instrumentos a usar», o que bate certo com as declarações de José Mário Branco. Na versão de Vitorino «os arranjos eram cantados ao produtor; pelo menos com o José Mário foi assim». Vitorino diz que José Mário Branco «apontava os arranjos e organizava-os meticulosamente», o que faz sentido para quem já viu as fichas que José Mário Branco faz para cada gravação de disco (por exemplo, para um disco de Camané é capaz de ter tabelas chamadas «Impacto Emocional», onde se incluem pormenores como a respiração ouvir-se ou não).

Mas há mais um pormenor, e é fundamental: José Afonso, desde talvez 1968 ou 1969, tinha um gravador que, segundo Júlio Pereira, «levava para toda a parte», o que Guerreiro, Vitorino, João Afonso e Arnaldo Trindade confirmam. O gravador servia-lhe para tudo: desde gravar pequenas melodias, até canções completas, harmonias. Gravava uma coisa, depois outra, uma terceira e a seguir ouvia de novo e arranjava uma harmonia para a primeira melodia, um arranjo para a segunda, etc. De certo modo era como se as canções estivessem em esquisso nessas cassetes.

Carlos Guerreiro lembra-se de estar numa casa de banho, durante uma digressão pelo norte de Espanha, em 1976 ou 77, quando na porta ao lado ouve uma voz a trautear «tururu turu turu». Era José Afonso enfiado na casa de banho a gravar uma melodia que lhe tinha aparecido. Doutra vez, em Setúbal, interrompeu um jantar para ir à casa de banho com o gravador na mão. «Voltou todo ufano, com a sua melodiazinha».

Júlio Pereira também tem histórias dessas. «Estávamos em Vigo, julgo que em 1978, íamos a passar debaixo de uma ponte e o Zeca de súbito mandou-me subir ao hotel para ir buscar o gravador, de que se tinha esquecido. Eu fui e quando voltei ele fez uma canção ali mesmo: era o “Achegate a Mim, Maruxa” [de Fura-Fura, 1979]». Uma nota: a letra dessa canção é popular, mas a melodia é toda de José Afonso. João Afonso realça o trabalho «absolutamente vanguardista» que o tio fez com a tradição: «Pegava numa melodia popular e usava uma parte, e depois inventava o resto e punha como letra um poema moderno, ou usava uma lengalenga popular e mudava a música».

Sabemos portanto que em Cantigas do Maio e Venham Mais Cinco, entre as suas pautas improvisadas que mostrava a José Mário, as indicações que dava sobre que instrumentos usar e as melodias principais que levava, José Afonso já ia para estúdio com linhas de orientação bastante razoáveis que cabia aos músicos preencher. Sabemos que em Eu Vou Ser Como a Toupeira(de onde saíram canções como “A Morte Saiu à Rua”, “O Avô Cavernoso” ou “No Comboio Descendente”) já tinha o gravador para mostrar as melodias e as harmonias que imaginara para cada melodia. Mas como é que as coisas realmente aconteciam, por exemplo, nesse magnífico disco que é Coro dos Tribunais, de 1974, produzido por Fausto? Vitorino, que está nesse disco, bem como em Com as Minhas Tamanquinhas, dá uma ideia: «Para já, tinha-se o tempo que fosse necessário. Se fosse preciso um mês ficava-se um mês a gravar. Bons tempos. E ficava-se em bons hotéis». Vitorino afirma que «os arranjos desse disco são em parte do Fausto», o que faz sentido a cada escuta. Mas também «havia arranjos que ele ditava, cantando».

Contudo, e apesar das muitas melodias e harmonias que levava, bem como do seu apurado sentido de ritmo, José Afonso precisava efetivamente de músicos e tempo para experimentar. Diz Vitorino: «Quando entrávamos em estúdio as músicas estavam mal acabadas. Como ele não sabia música tínhamos de interpretar o que ele queria». Afonso podia dizer «e se puséssemos umas palmas nesta música?», mas também podia ser um músico a fazer uma proposta de arranjo ou o produtor a fazer uma definição, a que depois se retiravam e acrescentavam coisas.

Mas há uma história que Júlio Pereira, que começa a gravar com José Afonso em “Índios da Meia-Praia”, do disco Com as Minhas Tamanquinhas (em que aparece um Joaquim Barreiros a tocar acordeão, que mais tarde se tornaria figura popular ao diminuir o nome para Quim), conta que sendo praticamente um detalhe é elucidativa do génio. «Já não me lembro de que canção estávamos a gravar nem para que disco, mas o Zeca sentia que faltava alguma coisa. Ouvia e ouvia a canção até que se virou para mim e disse: “havia uma coisa que vi umas mulheres fazerem em África: tinham uns chocalhos presos nas pernas e nos braços e dançavam e o som era muito cheio”. Experimentámos e lembro-me de resultar. Foi já no fim da carreira».

Além de ser um melodista de exceção, que sabia intuitivamente que ritmo queria e como dividir cada sílaba, era isto que trazia para as suas canções e que as tornavam únicas; algo difícil, de facto, de explicar numa pauta e talvez uma das razões pelas quais José Afonso permanece um mistério, e que levou a que «as pessoas se tenham esquecido dele enquanto músico», segundo diz Júlio Pereira, secundado pelos restantes.

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

O «Zeca político»

Há, talvez, outra razão: a ascensão do «Zeca político». A partir de 1974 ele foi ajustando contas, deixando sair um lado mais amargo, dentro e fora das canções, como é notório em temas como “Tenho um Primo Convexo” (que era sobre um primo de que não gostava) ou “Como se Faz um Canalha” (sobre Aventino Teixeira, que Afonso considerava que tinha traído a causa da esquerda); e tornou-se mais radical politicamente, o que é notório em temas como “Os Fantoches de Kissinger” e “Alípio de Freitas” de Com as Minhas Tamanquinhas. A segunda é um bom exemplo do político e posteriormente mitificado: graças à canção salvou-se a vida a Alípio de Freitas, preso no Brasil durante a ditadura militar; o embaixador português procurou-o e conseguiu a sua libertação. Apesar dessa radicalização, José Afonso nunca integrou nenhum partido político.

Guerreiro lembra o que o músico dizia em entrevistas: «o meu Comité Central sou eu», numa alusão a um certo distanciamento do Partido Comunista. Arnaldo Trindade refere que «ele não se sentia muito próximo do PC», porém «tornou-se próximo da LUAR», um grupo político que intentou a luta armada.

De acordo com Vitorino, «quando começou a haver violência, ele afastou-se, era um pacifista». Ainda assim, apoiou a candidatura de Otelo a Presidente da República (e Otelo não era um menino do coro). A radicalização do discurso acabou por ter efeitos paradoxais: por um lado, tornou-o um ícone; por outro, as vendas pós-1974 caíram. «Depois do PREC», conta Trindade, «as pessoas não queriam mais mata-e esfola. Os tempos tinham mudado. Muitos dos que lhe compravam os discos não concordavam com ele politicamente, porque ele foi-se radicalizando. Também se perdeu o lirismo metafórico dos primeiros discos».

Começa então a tocar lá fora, acompanhado por gente mais nova, como Guerreiro ou Júlio Pereira. Passaram por países como Espanha (que o adorava), França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e com muito mais sucesso do que o que tinha conseguido quando foi tocar ao Brasil, em 1971, na companhia de Paulo de Carvalho: «Era um festival de música mais pop e não foi bem recebido», conta Trindade. Mas foi-o na Europa. Em parte por causa do 25 de abril: «Os europeus queriam conhecer o que se fazia no país que tinha saído da ditadura e tinha estado tantos anos fechado», diz Vitorino.

Mas também porque os seus concertos eram entusiásticos. Guerreiro diz não ter «a mínima dúvida de que o Zeca foi, juntamente com a Amália e o Paredes o grande embaixador de Portugal lá fora durante anos». Júlio Pereira corrobora a ideia e acrescenta que «é um crime que nunca se tenha falado cá dentro dos êxitos que o Zeca alcançou lá fora. Os espanhóis, então, amavam-no».

Talvez Trindade tivesse razão: o país tinha mudado e as pessoas queriam iogurteiras em vez de discurso, caixilhos de alumínio em vez de fúria. Depois de 1976 fez ainda três discos para a Orfeu: Enquanto Há Força (78), Fura-Fura(79) e Fados de Coimbra (81), um estranho regresso ao início, concebido quando já estava doente (embora não se saiba exatamente quando começou a doença, Guerreiro e Pereira, olhando para trás, têm ideia de que por volta de 1977, 1978, o músico começou a ter problemas físicos constantes, como falta de força nos braços).

Fura-Fura, tendo ainda grandes canções, é pouco homogéneo, porque os arranjos se dividem entre José Afonso, Júlio Pereira e os Trovante. Enquanto Há Força, dirigido por Fausto, que co-compõe aqui e ali, é de outra cepa. Afonso ainda se reergueu, após a saída da Orfeu e há quem defenda que Como Se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato (em que cantarola as melodias e em que Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros, tocam, gravam e dirigem cantores e instrumentistas) estão entre os seus discos mais inventivos. Mas José Afonso era já um mito e aos mitos não se pede que progridam e arrisquem, mas sim que sejam consensuais, e para isso era preciso não ser ouvido. No fundo não o foi mais: como sublinham todos, foi usado como bandeira da liberdade, visto como património exclusivo da esquerda, o que não é correto: Pedro Ayres de Magalhães é fanático de José Afonso, Manuel Fúria, ex-líder d’Os Golpes, fez uma versão de “Tenho Barcos, Tenho Remos”. Mas, à conta da mitologia, o interminável talento foi esquecido.

«Estamos a falar de um dos maiores génios da segunda metade do século XX», diz Júlio Pereira. «Não se criava um Zeca por mais que se tentasse», diz Trindade. Os elogios continuam. Hoje, mais apaziguados, menos motivados pela ideologia, ou talvez apenas mais distantes, podemos admirar apenas a música e as palavras e perceber que Zeca, afinal de contas, era um homem.

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2012

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | "Um povo sem cultura é um povo desgraçado e nós estamos muito mal"

José Raposo é uma das figuras mais conhecidas e acarinhadas pelo público. Seja no cinema, televisão ou teatro, são muitos os trabalhos que completam o seu vasto currículo e há muito para recordar e contar. Hoje é o entrevistado do Vozes ao Minuto, partilhando os muitos momentos que já viveu, recordando os que já partiram e enumerando o que poderia melhorar no país… e no mundo.
"O teatro é que eu não deixo, nunca”. A afirmação pertence a um dos mais reconhecidos atores portugueses, José Raposo, que privilegia os palcos, "porque essa é a base de representar”.
Aos 55 anos anos, o artista, que nasceu em Angola e que se mudou para Portugal na adolescência, vai estrear já este sábado, dia 2 de fevereiro, a peça 'Vou Levar-Te Comigo', no Auditório da Gandaia, Centro Comercial O Pescador, na Costa de Caparica, Lisboa. Apesar do grande amor por esta forma de arte, não deixa de dar o seu contributo à ficção nos ecrãs portugueses e soma também muitas participações em televisão e cinema.
Não tem o 'canudo', mas a larga experiência faz de si uma dos atores mais conhecidos e acarinhados pelo público. Tudo o que sabe aprendeu com os mais velhos, por quem continua a ter uma enorme estima e vai sempre lembrar. 
José Raposo é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. Além da representação, fala ainda das mudanças que faria no mundo se lhe fosse concedido esse poder, isto sem esquecer do que falta melhorar no país (quando o tema são as artes).
A família não ficou de parte, até porque se prepara para ser pai pela terceira vez, de uma menina, o primeiro bebé fruto do casamento com Sara Barradas. Além da filha que nasce em março, o ator é ainda pai de Ricardo, de 25 anos, e de Miguel, de 32, do casamento anterior com Maria João Abreu.
Vai estrear-se em palco com a peça ‘Vou Levar-te Comigo’ já amanhã. Um espetáculo cheio de música que além da sua participação, conta ainda com Sara Barradas e Vera Mónica. O que de melhor há nesta peça e por que razão as pessoas a devem ver?
Queria fazer uma peça para andar pelo país e quando estava a fazer o ‘Circo Paraíso’, numa conversa com a Vera Mónica, como somos atores e cantamos os dois, a Vera deu-me o exemplo de um show brasileiro dos anos 50/60, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, em que eles estiveram três anos a fazer aquilo em tournées… O espetáculo consistia em ela cantar e ele dizer uns textos - ora poemas, ora umas crónicas sobre o Brasil da altura. Vi aquilo e disse que podíamos fazer isto cá, com algo relacionado connosco. Falámos com o Fernando Heitor, que é o autor do texto, apresentei-lhe a ideia e ele escreveu a história, que é um fio condutor para nós cantarmos.
É uma história de dois atores já com uma certa carreira que se conheceram há muitos anos e que tiveram, inclusivamente, uma relação e depois separaram-se, e falaram com uma guionista encenadora, que é a Sara, que lhes vai dirigir um espetáculo baseado nos percursos profissionais e pessoais que eles os dois tiveram nas suas carreiras. Isto vai desaguar nas canções das suas vidas. 
Por exemplo, eu nasci em Angola e vim para Portugal aos 13, 14 anos, enquanto a Vera no Brasil mas veio embora com seis anos e foi para Angola. De Angola veio com 16, 17 para Portugal… ‘Vou Levar-te Comigo’ é o nome de uma canção dos Duo Ouro Negro, um grupo angolano que teve muito sucesso nos anos 60, 70 e 80 e ainda hoje é um pouco transversal às várias gerações. Por isso, deu título à peça.
Acho que se pode definir este espetáculo como uma comédia musicada, porque não é nem comédia, nem revista, nem musical. Somos três atores e três músicos ao vivo. No fundo somos seis protagonistas porque, aliás, os músicos também têm falas pelo meio. O espetáculo é uma espécie de um ensaio para um futuro espetáculo, onde existe a encenadora, os dois atores e os três músicos.
Portanto, no fundo vai mostrar o processo da criação de um espetáculo?
Sim, baseado nestas condições que disse.
Esta não é a primeira vez que está em palco com a companheira, Sara. A preparação para um trabalho torna-se mais fácil quando feita com alguém com quem partilha o dia a dia?
Quando esse alguém tem talento, que é o caso da Sara, sim. E óbvio que há cumplicidades que se criam. Mas, acima de tudo, tem a ver com sermos os dois atores e termos talento e cumplicidade. Óbvio que é a nossa produtora que produz este espetáculo, ‘Estreia, Sucesso e Despedida’, é o terceiro espetáculo que nós produzimos. O primeiro foi em 2012, uma comédia do brasileiro Paulo Pontes que se chamava ‘Isto É Que Me Dói!’; o segundo foi um texto baseado no Woody Allen mas escrito pelo meu filho, Miguel Raposo.
Mas por exemplo, no processo de criação de uma personagem, ensaiam juntos?
Não, até porque nem temos muito tempo. Não temos tido porque felizmente há outras coisas. Aliás, estamos a ensaiar todas as tardes e depois há sempre coisas para fazer. Além dos outros trabalhos que estamos a fazer, nós produzimos, por isso temos telefonemas a fazer, ida aos sítios para falar com os teatros… Não temos mesmo muito espaço para estar a ensaiar em casa. Quer dizer, a pessoa pode ler o texto antes de se deitar, isso sim. Mas não ensaiamos concretamente os dois. Só lá com o encenador, o Paulo César.
O espetáculo vai andar pelo país e a Sara, que vai ser mãe no final de março, vai estar em cena até ter o bebé. De certa forma deixa-o mais descansado por poder acompanhá-la nestes últimos meses? Sente-se mais seguro por saber que está consigo?
Sim, isto é só aos fins de semana. Durante a semana estamos juntos. É claro que é bom ela estar próxima porque assim mais proximamente a acompanho. Mas, se pensarmos bem, as pessoas que têm outras profissões, que durante a semana trabalham das 9h às 19h, estão, se calhar, menos tempo com as respetivas mulheres ou maridos do que nós. Nesse sentido não nos podemos queixar. A Sara é como qualquer grávida do mundo e enquanto puder trabalhar… Aliás, no espetáculo a encenadora (que é a Sara) está grávida, não se sabe muito bem de quem e depois do fim acaba-se por perceber quem é o pai. Mas quando ela tiver a bebé no final de março, aí terá de ser substituída.
Está prestes a chegar a primeira menina à família e como referiu numa conversa anterior com o Fama ao Minuto, vai ser a princesa… O que mais o deixa ansioso nesta nova jornada?
A ansiedade normal de um pai que está desejoso de ver a cara daquela coisinha linda, como é que é, oxalá saia à mãe porque ela é muito bonita…
O seu maior desejo é poder vê-la crescer, casar e ter filhos?
Sim, é o normal. É o que aconteceu com os meus filhos. Por exemplo, um casou e o outro não. Não faço essas previsões. Nessas coisas acho que, sem dúvida, cada um é que deve fazer as suas opções, a partir do momento em que é adulto e que tem capacidade para o fazer. Agora, o que me interessa é passar os valores que me passaram os meus pais.
E quais são esses valores?
Os normais, aqueles do respeito pelo próximo, de perceber que a ganância e a mediocridade e essas coisas todas que sabemos que são inerentes ao ser humano, mas que se houver uma boa formação pode-se, e deve-se, excluí-las da nossa vida. Os valores positivos que acho que qualquer pai normal, pelo menos, deseja passar aos filhos e foi o que tentei passar aos meus. Não estou a dizer que é só pela educação que se tem uma boa formação, porque depois há personalidades próprias e há influências da sociedade nas pessoas. Mas a formação de casa, dos pais, tem sempre muita influência na maneira de ser das pessoas.
Antes de viver este amor com a Sara, esteve mais de 20 anos ao lado de Maria João Abreu… O amor que se sente numa nova relação é igual ao da primeira?
O amor é o amor. Não há respostas para isto. O amor é um sentimento que não se explica. Não há esses termos de comparações. As pessoas apaixonam-se e depois amam-se… é o amor.
Como já referiu várias vezes, tem uma família muito unida e conta com o apoio dos filhos em tudo. Isto foi fruto do que semeou ao longo destes anos?
Sim, claro. Eles, por exemplo, ficaram felicíssimos quando souberam da notícia da irmãzinha. Acho natural, normal. Como disse há bocado, isso tem a ver com a formação que nós [pais] damos, com os valores…
Recordando a sua infância… Já que nasceu em Angola, o que de mais angolano há em si?
A noção do tempo, muito retardada, muita calma… Gosto de ter tempo para ter tempo e é uma coisa que cada vez há menos nas nossas sociedades atuais. É muito ritmo acelerado em relação a tudo. Passa tudo muito depressa. Por exemplo, já não há tempo, o respeito pelas pessoas mais velhas, aquela adulação que se tinha pelos mais velhos por serem os sábios, por serem as pessoas que têm o conhecimento. Agora tudo se passa muito rápido, descartam-se os mais velhos. Vejo isso na minha profissão, e nas outras também acontece, mas falo da minha porque é onde estou inserido. Cada vez se dá menos trabalho aos mais velhos, cada vez se ouve menos os mais velhos e isso a mim é uma das coisas que mais me choca.
Em entrevistas anteriores falou sobre quando foi chamado para o casting que acabou por marcar o seu primeiro trabalho na representação, nessa altura a sua mãe preferia que tivesse ido a uma entrevista na Caixa Geral de Depósitos…
Sim, isso é uma história que se conta muito e que se sabe porque a minha mãe ainda hoje acha que eu devia estar na Caixa Geral e Depósitos…
Os seus pais nunca concordaram com a sua escolha?
Não, a minha mãe. O meu pai concordava. Aliás, ele foi ator amador e tinha um grande orgulho em mim. A minha mãe é que dizia que era melhor estar na Caixa Geral de Depósitos. E há muitas pessoas que pensam assim porque veem isto não como um profissão, mas como um hobbie, uma coisa engraçada, umas palhaçadas... As pessoas não têm noção do quão exigente esta profissão é, e difícil. Trabalha-se muito, é muito irregular porque os trabalhos são uns a seguir aos outros, portanto, nunca se sabe quanto tempo é que se está parado ou não. As pessoas estão sempre à espera de um telefonema... Não é nada fácil. Claro que há exceção, há casos de pessoas que tiveram sorte e talento. Mas a maior parte dos profissionais, principalmente em Portugal, onde não há apoio quase nenhum para a cultura por parte dos governos. Aqui é muito difícil da pessoa aguentar-se enquanto artista, e estou a referir-me a todas as áreas da arte.
Mas sempre sentiu que o teatro fazia parte da sua vida?
Sim, desde que comecei, aos 18 anos. Faz parte da minha vida e faria, com certeza, sempre porque tenho essa tendência e tenho talento. Acima de tudo, isto é um dom, não é qualquer pessoa que é ator.
A aparência pode ser um fator limitativo no mundo do espetáculo?
Sim, nos dias de hoje a imagem conta muito. Principalmente na televisão, a imagem é uma das coisas que conta muito, até demais, na minha opinião. Acho que nos últimos tempos se descura um pouco o talento em função da imagem. Claro que é possível juntar as duas coisas.
Sente que é por isso que os atores mais velhos acabam por não ter o devido reconhecimento e que acabam por não ser chamados com o passar da idade?
Sim. Estou a falar em relação à televisão em que, de facto, os atores mais velhos, os atores gordos e feios, que não tenham a tal aparência mínima, são postos de lado. E é muito injusto.
Considera então que hoje em dia a seleção dos novos talentos é muito diferente do seu tempo?
Sim, sem dúvida nenhuma.
Para melhor ou para pior?
Pois, se descuram o talento, nesse sentido, é para pior. Felizmente, e é importante dizer isto, não é em todos os mercados. No teatro não se passa isso e também há exceções na própria televisão, mas cada vez são mais pequenas. Mas, principalmente em relação aos atores mais velhos, é muito injusto não os chamarem para personagens da idade deles.
Como referiu há pouco, a vida de um ator nem sempre é fácil e por vezes o telefone deixa de tocar… Alguma vez se sentiu afastado?
Sim, claro que sim. Para já, no início, andamos a mostrar-nos, a pesquisar grupos, pessoas e a saber como é que funciona o mercado... Eu não sou dos que mais se pode queixar. Felizmente, ao longo da vida tenho tido sempre trabalho, mas há realmente períodos que são mais complicados. Mas conheço casos dramáticos, pessoas, inclusivamente, que tiveram que procurar outras profissões porque isto não estava a dar.
E acha que muitas vezes não ser chamado pode estar ligado ao facto de não estarem em contacto com as pessoas certas? Ou seja, também existem os chamados ‘tachos’ no universo do entretenimento?
Sim, claro, mas isso não é só na nossa profissão. É em todo lado. Qualquer tipo de profissão tem os lobbies muito bem cimentados e, sim, dificulta a entrada nos vários mercados. Por exemplo, quando as pessoas se formam têm sempre mais dificuldade em entrar sem ter os tais conhecimentos. É cada vez mais complicado. 
Hoje consegue-se viver apenas do teatro?
Não, isso é impossível.
O que é que é preciso para o conseguir ou para possibilitar que isso aconteça?
Era preciso que o Estado primeiro apoiasse mais a cultura. Depois que o Estado também possibilitasse que nas escolas houvesse uma ligação ao teatro muito mais intensa. Ou seja, criarem disciplinas de teatro e subsidiarem as escolas no sentido de levarem as crianças a ver teatro. Além de se estudar teatro, devia-se levar as crianças ao teatro porque são hábitos que se criam. E um povo sem cultura é um povo desgraçado. A cultura é o espelho do povo e nós nesse aspeto estamos muito mal. Nós regredimos, o que é uma coisa estranhíssima, devíamos era ter progredido muito. E estou a falar concretamente do teatro. De facto, se não é por iniciativa própria de alguns professores e algumas escolas que levam os alunos a ver teatro, não se faz porque não vem no plano de estudos. Devia pertencer ao Estado ter essa função de educar. Não é só para serem atores, antes pelo contrário, é para serem espetadores. Isso só havendo uma cultura, só incentivando a gostar-se de dramaturgos, de autores…
Cada vez se retira mais ao currículo escolar os nomes dos nossos escritores. Não percebo como é que, por exemplo, o Gil Vicente já não é obrigatório, que era o pai do teatro português… Muitas vezes ouço opiniões de que, de facto, a nossa história dramatúrgica não é tão rica como, por exemplo, a inglesa ou a francesa, mas temos os nossos dramaturgos e temos belíssimos dramaturgos. Não são em tão grande quantidade, não temos um Shakespeare ou um Molière, mas temos um Gil Vicente. Os próprios autores mais contemporâneos, temos gente extraordinária…
O próprio Governo devia obrigar as companhias a que representassem uma percentagem de autores portugueses por ano para nós conhecermos a nossa cultura. Isto para não falar do teatro mais popular, por exemplo, o da revista, que é um teatro que fiz muito, do qual gosto muito, e que é muito falado pejorativamente. Ou seja, há um preconceito muito grande em Portugal que esse é um teatro de menor qualidade e isso é mentira. Sempre disse isto, depende de quem escreve, de quem faz, de quem dirige… Se se juntar uma boa equipa de profissionais pode ser um espetáculo fabuloso. Nas escolas de teatro em Portugal sei que se diz mal deste género, da revista. Não entendo, nem nunca vou entender isso porque é um teatro em que és devidamente português. É uma coisa que tem características muito nossas e que podia ser elevada a outro nível, se houvesse apoio estatal e se não houvesse tanta contestação da parte da própria classe artística.
Entre os muitos trabalhos feitos, tanto na representação como na dobragem de personagens, deu voz ao famoso Pumba, personagem de um dos desenhos animados mais acarinhados, ‘O Rei Leão’. Formato que vai regressar agora em filme... Também vai fazer de Pumba nesta longa-metragem?
Por acaso ainda não me disseram nada, não sei. Pode ser que haja outro Pumba.
Aprendeu a arte do Hakuna Matata (a arte de não se preocupar e levar a vida sem problemas)?
Sim, por acaso tem muito a ver comigo. Sou muito tranquilo, muito descontraído na vida. Gosto de conhecer pessoas, de estar bem, de tentar fazer felizes os que estão à minha volta. Mas isto não é conversa da boca para fora, basta perguntar a pessoas que me conhecem. Sou uma pessoa bem disposta e que gosta de estar com energias positivas das outras pessoas à volta.
De todos os projetos que fez até aqui, qual foi o que mais lhe tocou particularmente?
Muitos!!! E depois é aquela coisa de que gosto de recordar as coisas boas. Quando as pessoas dizem que a nostalgia é uma coisa horrível… Não, não é nada. Quando as coisas são boas não é tão bom recordar?
E qual é o projeto que mais gostava de ter feito (TV, Cinema, Teatro)?
Tantos! Não há um específico. Mas é muito complicado. Já apresentei vários projetos em televisão, mas nunca me levam muito a sério porque só há duas ou três grandes instituições que decidem, como todos nós sabemos. Entre as direções das televisões e as grandes produtoras é que se decide tudo. Não é um rapazinho tão pequenino como eu que pode dizer: ‘Olha, gostava de fazer isso’. Eles querem lá saber. Por isso é que no teatro eu posso fazer isso. Este projeto, ‘Vou Levar-te Comigo’, é exatamente uma coisa que quero fazer e com quem quero. Só aqui é que posso fazer aquilo que quero mesmo.
Em relação às televisões, temos de nos sujeitar aos trabalhos que existem. E quando nos convidam, é evidente, temos de ganhar a vida e eu já fiz muitas coisas que gosto em televisão. Às vezes na RTP Memória passam coisas de que já nem me lembrava bem. Está a passar agora, por exemplo, a ‘Roseira Brava’. Adorei fazer aquela telenovela com colegas que muitos deles já faleceram. Eram mestres autênticos da arte de representar. Vejo aquilo e recordo com todo o prazer. Há coisas muito boas em televisão que se fazem, claro, agora não são propostas por mim porque não tenho esse poder, não sou nenhum produtor conhecido…
Como disse mesmo agora, já contracenou com vários atores e alguns deles até já partiram… Quais as maiores saudades que ficam do que foi vivido?
Acima de tudo é isso, são as saudades das pessoas com quem aprendemos. Fazem-me falta esses mestres. Nunca gosto de dizer nomes porque me esqueço sempre de uma pessoa ou de outra e é injusto. Mas tive a sorte de trabalhar com gente fantástica, fabulosa, que sabia muito disto. As gerações depois são outras e há sempre gente fantástica em todas as gerações, obviamente. Mas aprendi, claro, com gente mais velha e tenho que falar deles.
Há algum momento em especial que lhe tenha tocado e que continua muito vivo na memória?
Há muitos. Não posso falar de um… Por exemplo, a propósito desta novela, estão lá nomes que me ensinaram muito e que também fizeram teatro comigo, como o Nicolau Breyner, Armando Cortez, Henrique Canto e Castro… Não fiz conservatório, não tive formação académica e aprendi com os encenadores, os atores e os realizadores com quem trabalhei, que foram estas pessoas mais antigas. Fui vendo e aprendendo.
Já com 55 anos de vida, mais de 40 vividos em Portugal, o que mudou para melhor no nosso país e o que continua escondido?
O que mudou, como todos nós sabemos, foi o tempo do fascismo para depois a democracia. A liberdade é uma coisa que não tem preço. Tudo mudou para melhor nesse sentido. Para pior tudo o que tem mudado é o que nós sabemos e que está à nossa volta. A corrupção que existe, as desigualdades que não deveriam acontecer num regime de democracia. Por muitos governos que se formem, parece que é muito difícil de combater coisas que já estão a ser corrigidas há muito tempo. Concretamente em relação à cultura, que é a área onde trabalho, é um crime nos dias de hoje, num regime democrático, a cultura estar tão maltratada.
Se lhe fosse concedido o poder de mudar apenas uma coisa em si ou no mundo, o que mudaria?
No mundo não mudava só uma coisa, tinha de mudar muitas… Posso dar o exemplo desta história da questão ecológica. Estamos a destruir-nos aos poucos e os políticos estão a marimbar-se para isto porque só veem o presente e a economia sobrepõe-se a tudo, a todas essas formas ideológicas de poder mudar o mundo para melhor. E não deixam que a questão ecológica possa evoluir. Sabemos o que se está a passar no mundo em relação às florestas que destroem, às grandes indústrias que mandam e decidem tudo e se sobrepõem a esses interesses. É tudo isso que está mal e era isso tudo que mudava se pudesse, mas é muito complicado. 
Marina Gonçalves | Notícias ao Minuto | Foto: Global Imagens

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-um-povo-sem-cultura-e-um-povo.html

Canto Geral, de Pablo Neruda

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta.

“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”, diz a belíssima canção de Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime.

Na internet é possível encontrar debates sobre o porquê de o livro de Neruda ter sido citado na disputa de separação de um casal; sobre a dor de quem pede, em tom magoado, o livro de volta; sobre a insinuação de que o livro não foi valorizado ou compreendido por quem o tomou emprestado etc. Porém, não seria desperdício indagar também qual o título do livro que o magoado amante pede de volta à amada de quem se separa.

A obra de Pablo Neruda, cuja relevância foi reconhecida com a premiação do Nobel de literatura em 1971, é extensa. De modo que só haveria um modo se saber exatamente a que título Chico Buarque e Francis Hime se referem.

Seria a Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada? Ou seria a Cem Sonetos de Amor? Ou seria ainda a Canto Geral? Qualquer que seja a obra, desde que a amada decida não restituir, o prejuízo será considerável.

Como o objeto desta resenha é o Canto Geral de Neruda, ela, a resenha, corporativistamente pode considerar, a título de hipótese, que o alvo da discórdia é mesmo este magnífico volume de poemas de amor pela América Latina e por seu povo.

Se a amada o tomou emprestado e não o leu mesmo – como lamenta a canção –, não sabe o que perdeu. Nessa condição, se vier a nunca restituí-lo, o agravo será ainda maior, pois sequer há a consciência da extensão do dano causado ao ex-namorado.

A canção termina antes que o dilema se resolva, quer entre os amantes, quer para os fãs dos dois músicos que, privados do título do livro citado em meio à discórdia, se veem forçados a tecer hipóteses sobre a obra de Neruda e sobre as imponderáveis razões do coração.

A tradução de Paulo Mendes Campos para este Canto Geral franqueia ao leitor um mergulho sem par na linguagem virtuosa desse poeta chileno que, nessa obra, aventura-se por tempos geológicos e históricos, em meio a uma geografia soberba em vegetação, em fauna, em minério e em sacrifícios:

“Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantaram. O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.”

(“XIII. Araucária – Canto Geral do Chile”)

Em Canto Geral, o abundante vocabulário a descrever vida e chão, personagens e intenções, e a narração, a recompor fatos históricos, se embaraçam num exuberante entrelaçamento de raízes, troncos, galhos, folhas, planícies, montanhas, heróis, traidores…

O som e o ritmo dos versos embalam a audição e projetam na retina do leitor paisagens monumentais e cenas de contornos e volumes quase palpáveis, nas quais os dramas humanos se configuram e nas quais a água e o sangue jorram das cordilheiras e dos homens com igual generosidade.

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta. Cotejar o que ele diz nesse Canto Geral com livros de história ou com conteúdos da internet é uma atividade instigante. Será que o poeta exagerou em algo?

Fonte: Neruda, Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. 14 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2008. 


por Jeosafá Fernandez, Doutor em Letras pela USP e Pesquisador colaborador do Depto. de História da USP. Tem, entre seus mais de 50 títulos, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X e o ciclo de romances paulistanos Era uma vez no meu bairro (Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste)   | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/canto-geral-de-pablo-neruda/

Saramago: a cegueira social e o dever moral dos que enxergam

Do site O Martelo de Nietzsche

José Saramago foi um dos maiores intelectuais que nós tivemos nos últimos tempos. Era também um dos maiores críticos da sociedade. Em seu livros Ensaio sobre a Cegueira, lançado em 1995, ele nos deu uma obra prima.

O livro não se trata da cegueira física como nós conhecemos, Saramago usava suas personagens para fazer uma crítica ácida a sociedade, principalmente no que diz respeito à cegueira moral.

Ele deu o nome de “cegueira branca’, no decorrer do livro ele discorre sobre assuntos polêmicos e delicados, já que se trata da “patologia”, como uma das piores doenças humanas.

O termo “cegueira branca” é usado pelo autor para representar o egoísmo, a imparcialidade, o medo, a covardia, a raiva e outros sentimentos que cegam o ser humano e o levam à perdição. As personagens não possuem nomes, características físicas nem comportamentais. Saramago tem uma linguagem muito singular, se você nunca leu nenhum livro dele poderá ter alguma dificuldade no início, pois ele usa poucas virgulas, pontos e parágrafos.

A história começa com a primeira personagem do livro, que ficou cega após um acidente de automóvel. Saramago dá o primeiro soco na cara em todos nós leitores apáticos :

“de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta”.

A situação fica bem pior. Com altas doses de sarcasmo e explícita indignação diante do comportamento passivo do ser humano, Saramago lança fortes comentários que levam o leitor a refletir sobre as próprias ações:

“O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”(…) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Eles não querem enxergar (grifo nosso)

Saramago brinca de maneira proposital com maestria com as palavras “ver” e “olhar”. O “olhar” é visto como o ato de enxergar o que está explícito, isto é, a luta pela comida, a violência imposta pelo mais forte, a ausência de pudor justificada pela nulidade do sentido visual, a tirania do governo.

O ato de “ver” e “reparar” refere-se a se posicionar diante dos fatos e fazer algo para mudar o quadro triste e degradante da sociedade. “Se não formos capazes de viver como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”

A cegueira social é entendida como alienação do homem em relação a ele mesmo. Quando a cegueira branca se torna uma epidemia, os problemas da sociedade ficam expostos e aumentam notavelmente, já que ninguém “enxerga” para mudar. Em outras palavras: as regras da civilização são quebradas e o instinto de sobrevivência toma conta do homem, constatando o velho ditado, “quem pode mais chora menos”.

Em relação a cegueira moral na sociedade, o que mudou de 1995 para cá?

Nós vivemos uma época de claro retrocesso, e cegueira total em relação a temas absurdos, como violência verbal e física, assassinatos, torturas, extremismo político, falsidade ideológica, descaso, sobretudo amor ao ódio e ódio explícito a tudo que é diferente. Aceita-se, passivamente, a violência psicológica e abusiva, dentro de relacionamentos amorosos, profissionais e familiares, só para “não criarem atritos”. Aceita-se a violência social, desde que ela não nos atinja. Finge-se não ver os abusos que as crianças sofrem, para que “famílias” não sejam destruídas”. Aceita-se um governo autoritário, aceita-se um extremista, aceita-se tudo, exceto a necessidade de mudança real. Será que, nós também, não fomos infectados pela cegueira moral e fingimos não perceber?

Saramago nos convida a uma autocrítica e a uma reflexão sobre até que ponto estamos cegos ou somos maldosos:

“-É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”

Pergunte a si mesmo: até que ponto aguentaremos a violência, os roubos, a tirania como situações normais? Até quando seremos passivos diante da fome alheia? Até quando nossos braços ficarão cruzados sabendo que nossas crianças estão sendo abusadas e maltratadas? Até quando aguentaremos relacionamentos abusivos dentro da própria casa? “Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”.

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem”

O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser. as responsabilidades que lhes competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações, um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional.” (p. 50)

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/saramago-a-cegueira-social-e-o-dever-moral-dos-que-enxergam/

Poeta e ensaísta, Manuel Gusmão, vê reconhecido mérito cultural

Manuel Gusmão vai receber a Medalha de Mérito Cultural em reconhecimento, pelo Governo português, do «inestimável trabalho de uma vida dedicada à produção literária e à poesia».

O poeta e ensaísta Manuel GusmãoCréditos / angnovus.wordpress.com

Poeta, ensaísta e professor universitário, Manuel Gusmão foi galardoado pelo Governo português com a Medalha de Mérito Cultural, em reconhecimento do «inestimável trabalho de uma vida dedicada à produção literária e à poesia, difundindo amplamente, em Portugal e no estrangeiro, a Língua e a Cultura portuguesas, ao longo de mais de cinquenta anos», lê-se em nota do ministério liderado por Graça Fonseca, citado pela Agência Lusa.

A condecoração será entregue a Manuel Gusmão na próxima-terça-feira, dia 5 de Fevereiro, pelas 15h, na biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa.

A nota ministerial refere que, «como ensaísta, crítico e professor universitário, a obra de Manuel Gusmão associa o rigor académico à sensibilidade de poeta», e destaca os ensaios que «redigiu sobre duas figuras maiores da poesia portuguesa, Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimos) e Carlos de Oliveira, contribuindo activamente para o debate público sobre a renovação do ensino da Literatura».

A Medalha de Mérito Cultural, criada pelo Governo português em 1984, é atribuída pelo Ministério da Cultura e distingue pessoas ou instituições cuja vida tenha sido dedicada a actividades de acção ou divulgação cultural.

Depois de Eugénio de Andrade (2004) e de António Ramos Rosa (2006), Manuel Gusmão torna-se o terceiro poeta a receber da distinção.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/poeta-e-ensaista-manuel-gusmao-ve-reconhecido-merito-cultural

No sistema do vale tudo

Pegue-se num filme como «O Fundador», que John Lee Hancock realizou em 2016, e podem-se adotar duas perspetivas ideológicas completamente opostas. Os mentores da nossa imprensa económica tenderão a vê-lo pelas lentes de alguns dos seus axiomas preferidos, mesmo que, nesse capítulo, a realidade os tenha tornado em teses mais do que controversas. Por exemplo, que um empreendedor persistirá no seu afã de alcançar a riqueza passando por múltiplos fracassos antes de descobrir a fórmula da pólvora. Que a América é grandiosa na capacidade para fomentar os sonhos e permitir realizá-los. Ou que, retomando a famosa frase de Gordon Gekko em «Wall Street» a “ganância é boa!”.
Oposta será a perspetiva de quem se posiciona na contestação ao atual sistema económico, baseado na exploração do homem pelo homem, e vê em Ray Kroc (Michael Keaton) um escroque. Porque, à partida, existe um conceito de restauração de inegável sucesso, criado pelos irmãos McDonald, que alia um equilíbrio insuperável entre preço e qualidade, com este último fator a revelar-se inquestionável. Ao convencer esses dois honestos patrões de restaurante a deixá-lo franchisar o modelo de negócio, Kroc não recuará perante nenhum escrúpulo: começa por implorar a quem o financie e a quem lhe dê autorização para expandir o negócio, falsifica a receita dos batidos (usando leite em pó em vez do genuíno), fica com a mulher de um dos seus associados, e acaba por, despudoradamente, roubar a marca e o conceito aos seus dois inventores, que acabarão falidos.
Ray Kroc é o paradigma do homem sem qualidades, porque isento de padrões morais e de conhecimentos quanto àquilo que o enriquece - até mesmo a transformação estrutural do negócio, afinal pouco tendo a ver com a restauração, porque se converte num de cariz preponderantemente imobiliário, lhe é dado pelo seu futuro diretor financeiro, que acaba por também dispensar, quando dele já não necessita! - mas se sabe movimentar habilmente nos meandros do sistema.
Se tivesse de dar aula sobre a forma como o capitalismo se expressa no dia-a-dia, a visão prévia deste filme serviria, e muito!, para lançar a futura discussão. Porque está lá quase tudo: o capitalismo como expressão do vale tudo como o próprio Kroc acaba por confessar a uma das suas infaustas vítimas: se visse um concorrente a afogar-se ainda trataria de pôr-lhe uma mangueira goelas abaixo, para o eliminar mais rapidamente. E esse ainda é o mundo em que nos movemos.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/no-sistema-do-vale-tudo.html

Ary dos Santos

(1937 – 1984)

Militante da Resistência, José Carlos Ary dos Santos foi, até ao fim, a voz e a palavra conjugadas num raro e inato talento. Poeta criativo, expressivo, um poderoso inventor de metáforas e de imagens que ficaram no território dos afectos e dos combates contra o fascismo.

Tornou-se conhecido do grande público como um dos mais talentosos poetas da sua geração e, durante a Ditadura, contribuiu para a renovação da música ligeira portuguesa, através dos poemas, que considerava serem a sua maneira de falar ao povo[1]. «A sua importância para a poesia moderna portuguesa é inegável, não só por ser um cidadão-poeta empenhado desde sempre na transformação social, o que adquire expressão maior pós 25 de Abril, como na renovação do fado, a canção típica da sua bem amada cidade Lisboa». Apropriou-se da linguagem popular e recuperou-a para uma linguagem erudita da poesia[2].

A vida

Filho mais velho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Castro Pereira, José Carlos Pereira Ary dos Santos nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1937, numa família aristocrata da alta burguesia[3]. Iniciou a instrução no Colégio Infante Sagres mas, (expulso por “mau comportamento”) transitou para o Instituto Nuno Álvares, um colégio interno em Santo Tirso. Mais tarde, regressou aos estudos em Lisboa, no Colégio São João de Brito, no Lumiar. Apesar de não ter terminado nenhum curso superior frequentou as faculdades de Direito e de Letras de Lisboa.
Ary dos Santos inicia-se muito cedo na escrita de poesia. Após a morte da mãe foram publicados, pela mão de familiares, alguns dos seus poemas. Tinha 14 anos e viria a rejeitar esse livro (“Asas”), considerando-o de fraca qualidade, mas não tardou, porém, a revelar-se como poeta, ao ser incluído na Antologia do Prémio Almeida Garrett, em 1954 (ladeando com nomes consagrados da poesia portuguesa).

Pela mesma altura, aos 16 anos, incompatibilizado com o pai, abandonou a casa da família e, para assegurar o sustento económico, exerce as mais variadas actividades, desde vendedor de máquinas de pastilhas elásticas a paquete na Sociedade Nacional de Fósforos ou escriturário no Casino Estoril. Em 1958 Ary dos Santos inicia uma carreira profissional na área da publicidade, onde irá ter bastante êxito, fruto da enorme criatividade que revela em “slogans” publicitários que ficaram na memória dessa geração.

Ary dos Santos inicia a actividade política em 1969, integrando a CDE de Lisboa. Publicitário com uma imaginação prodigiosa, foi então um dos autores dos cartazes da campanha eleitoral das CDEs [com destaque para algumas expressões, tais como “No teu voto a força do povo”], elementos determinantes na mobilização popular conseguida nessa altura. A partir daí, apoia pessoas e causas com uma generosidade que verá reconhecida, afirma-se contra a Ditadura e, a par da intervenção como poeta, desenvolve intensa actividade de militante da Resistência, deslocando-se por todo o país para se integrar em espectáculos da Oposição, declamando poesia. Após o 25 de Abril entra para o PCP, partido em que militará até à morte, servindo-o como poeta, com coragem e humildade, derramando assiduamente poesia, em comícios ou em sessões políticas da esquerda[4].Torna-se um activo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. Notabilizou-se então como declamador. [Gravou um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira].

Homossexual assumido, viveu praticamente toda a sua vida no nº 23 da Rua da Saudade, um histórico lugar de encontro de intelectuais progressistas, amigas e amigos do poeta, e de gente ligada ao mundo da canção e da música. 

José Carlos Ary dos Santos era um homem de causas, generoso e excessivo, temperamento que não foi alheio à sua morte prematura. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, vítima de uma cirrose e foi sepultado no cemitério do alto de São João.

A obra. Os poemas. A voz. A memória de Ary

A sua estreia literária (efectiva) dá-se em 1963 com a publicação do livro de poemas “A liturgia do sangue”. No ano seguinte é editado o “Tempo da lenda das amendoeiras” e o poema “Azul existe” que será representado no Tivoli, no Teatro da Estufa Fria e na RTP.

Depois, ao longo da carreira, Ary dos Santos foi publicando livros de poemas, como:

  • “Adereços, endereços”, em 1965;
  • “Insofrimento in sofrimento”, em 1969;
  • “Fotos-grafias”, um livro que foi apreendido pela PIDE, em 1971;
  • “Resumo”, em 1973;
  • “As Portas que Abril Abriu”, em 1975;
  • “O Sangue das Palavras”, em 1979;
  • “20 Anos de Poesia”, em 1983. 

As extraordinárias capacidades criativas de Ary dos Santos estiveram patentes numa área que, cedo, lhe logrou grande sucesso e popularidade junto do grande público: a de autor de poemas de canções e fados, editados em disco e apresentados repetidamente na rádio e na televisão, bem como em espectáculos por todo o país. Autor de mais de 600 poemas para canções, colaborava assiduamente com vários compositores, de que se destacam Nuno Nazareth Fernandes e Fernando Tordo, mas também Alain Oulman, José Mário Branco, Paulo de Carvalho e António Victorino de Almeida.

A sua ligação ao fado foi iniciada com José Manuel Osório, editando disco, em 1967, o poema “Desespero” [publicado no livro “Liturgia de Sangue”, 1963]. Posteriormente, escreverá para vários fadistas, tendo colaborações muito regulares com Amália Rodrigues e Carlos do Carmo[5]. Representativos do grau de popularidade, que os poemas de Ary dos Santos atingiam junto do grande público, são os temas “Estrela da Tarde”, “Lisboa, Menina e Moça” ou “Os Putos”, interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho. O seu nome ficou ligado para sempre a um disco de Carlos do Carmo, que marcou a História do Fado, o LP “Um Homem na Cidade”, de 1977, inteiramente concebido com poemas de Ary dos Santos. [O mesmo formato será aplicado no álbum “Um Homem no País”, editado em 1984, também com as letras do poeta, musicadas por vários compositores]. Com Fernando Tordo escreveu mais de 100 poemas, destinados a canções do músico; e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais notáveis da História da música ligeira portuguesa.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, que foi publicado pelas Edições Avante, em 1989, (com coordenação de Ruben de Carvalho); e, também, uma autobiografia romanceada a que pretendia dar o título de “Estrada da Luz – Rua da Saudade”. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor, de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 1994, foi editada “Obra Poética”, uma colectânea dos seus poemas.

Edições discográficas

A teatralidade patente na sua voz vibrante encontra-se registada em várias edições discográficas, onde se apresenta como declamador. O seu primeiro disco, “Ary por si próprio” data de 1970. No ano seguinte participa no LP “Cantigas de Amigos”, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues. Em 1974 surge “Poesia Política”, em 1975 “Llanto para Afonso Sastre y Todos”, em 1977 “Bandeira Comunista”, em 1979 “Ary por Ary” e, no ano seguinte, “Ary 80” [que seria reeditado em CD em 1999].

Homenagens

A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo.

O seu nome foi atribuído a um largo do Bairro de Alfama, e descerrada uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida; foi também dado o seu nome a uma rua em Benfica, no Bairro das Pedralvas (Lisboa).

Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade – canções de Ary dos Santos.

Em 5 de Outubro de 2013, a Associação Conquistas da Revolução levou a cabo, na Voz do Operário, em Lisboa, uma sessão pública de homenagem ao poeta, com o espectáculo «As Portas que Abril Abriu – Homenagem ao Poeta da Revolução», uma homenagem integrada nas comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril.

Em 2014, trinta anos depois da sua morte, foi homenageado na Festa do Avante, num espectáculo-Café-Concerto.

Hoje, o poeta é conhecido e reconhecido por muitos como “poeta do povo” e a sua obra permanece na memória da geração da Revolução. Muitos dos grandes cantores o interpretaram e, ainda hoje, surgem novas vozes a cantá-lo[6].

[1] Escreveu poemas de 4 canções vencedoras do Festival RTP da Canção, apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção: Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos. São de suas autorias canções intemporais, como Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu canto, Café, Dizer Que Sim à Vida, Rock Chock, Meu amigo está longe. Estas canções foram interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho.

[2]

São raros os poetas que conseguem o ritmo encantatório, quase alucinado que imprime aos seus versos. Ler Ary no silêncio das páginas acaba sempre por acordar a sua poderosa voz de declamador em que sabia como poucos enfatizar a oralidade omnipresente na sua poesia escrita para ser dita ou cantada. (…) Uma poesia viril, uma voz indomada e indomável, como bem escreveu Baptista-Bastos».

Manuel Augusto Araújo, Praça do Bocage

in ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO

[3] Além de José Carlos, o casal teve mais duas filhas, Maria do Rosário e Maria Isabel, e um outro filho, Diogo. Quando era ainda adolescente a sua mãe morre e o pai volta a casar. Dessa relação nasce a sua meia-irmã Ana Maria.

[4]

Sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa. (,,,) Com a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência»

Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”

in O poeta que Abril nos deu

[5] A convite de Alain Oulman escreve, em 1968, o poema “Meu amor meu amor” para ser interpretado por Amália Rodrigues. Seguiram-se temas como “Amêndoa Amarga”, “Alfama”, “Rosa Vermelha”, “O Meu é Teu” e “O Meu Amigo está Longe”.

Ainda no âmbito da sua criação de poemas interpretados por fadistas, Ary dos Santos escreverá “Adagio”, em 1973, para a música “Adagio” do compositor Albinoni, a qual foi interpretada por Teresa Silva Carvalho; “Meu Corpo”, em 1974, para o repertório de Beatriz da Conceição; o poema “Roseira, botão de gente”, interpretado por Vasco Rafael na revista “Ó da Guarda”, de 1977; o tema “O País”, de 1981, cantado por Tony de Matos; e os temas “Mãe Solteira”, “Fado Mulher”, “Os Pinheiros” e “A Cidade”, escritos no início da década de 1980 para a fadista Maria Armanda.

[6] Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.


Dados biográficos

«ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO», Manuel Augusto Araújo, 
in https://pracadobocage.wordpress.com/…/ary-o-poeta-do-povo-…/
Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”, inhttp://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos
http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=276
http://www.avante.pt/pt/2078/nacional/127119/
http://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
http://www.citi.pt/…/li…/poesia/ary_dos_santos/ary_biog.html
https://toponimialisboa.wordpress.com/…/ary-dos-santos-da-…/


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/ary-dos-santos/

Aquilino Ribeiro

(1885 – 1963)

Democrata antifascista, conspirador contra a monarquia, militante republicano e resistente durante a Ditadura, este notável escritor é autor de uma das mais importantes obras literárias portuguesas do século XX, abrangendo ficção, crítica, biografia, evocação histórica, ensaio, teatro, etnografia, polémica, tradução e contos para crianças.

Aquilino Gomes Ribeiro nasceu em Carregal de Tabosa, Sernancelhe, em 13 de Setembro de 1885 e faleceu em Lisboa a 27 de Maio de 1963.

Democrata antifascista e conspirador contra a monarquia

Depois de ter frequentado o colégio jesuíta da Senhora da Lapa, entra no Colégio de Lamego (Lamego) em 1900, estuda Filosofia em Viseu e ingressa, depois, no Seminário de Beja, obedecendo a um desejo de sua mãe que queria fazê-lo sacerdote. Em 1903, por falta de vocação, abandona os estudos durante a primeira parte do Curso Teológico no Seminário e fixa-se em Lisboa. Em 1904 regressa a Soutosa (Concelho de Moimenta da Beira), onde fica até 1906, ano em que se fixa em Lisboa. Colabora então no jornal republicano A Vanguarda.

Coimbrão,1921.

Aquilino Ribeiro e Raul Brandão; atrás: Ilídio Teixeira de Vasconcelos, Raúl Proença e Câmara Reys.

Em 1907, em parceria com José Ferreira da Silva, escreve A Filha do Jardineiro, obra de ficção de propaganda republicana e de crítica às figuras do regime monárquico. Na capital, a par dos estudos e de pequenos trabalhos de tradução e jornalismo, entregou-se a actividades de conspiração contra a Monarquia e de promoção dos ideais da República. Foi preso (1907) na sequência de um acidente com explosivos que, no seu quarto, vitimou dois “carbonários”, mas conseguiu evadir-se e partir para Paris (1908), onde veio a diplomar-se na Universidade da Sorbonne – aqui, inscrito no curso de Filosofia, tem a oportunidade de ouvir mestres como George Dumas, André Lalande, Levy Bruhl, Durckeim, e contacta com a intelectualidade portuguesa que, também por motivos políticos, se via forçada a viver fora de Portugal. Entre 1908 e 1914, divide a sua residência entre Paris e Berlim, e publica, então, a sua obra de estreia, Jardim das Tormentas (1913).

Resistente durante a Ditadura

Aquilino Ribeiro, 1885-1963

Com a eclosão da 1ª Grande Guerra (1914), regressou a Portugal. Leccionou no Liceu Camões (Lisboa) e juntou-se ao grupo que constituiu a Seara Nova, integrando a sua primeira direcção [1].

Em 1918 publica o primeiro romance, “A Vida Sinuosa”, que dedica à memória do seu pai, Joaquim Francisco Ribeiro. A convite de Raul Proença, entrou em 1919 para a Biblioteca Nacional, onde iria trabalhar até 1927. Porém, intransigente defensor da justiça e da liberdade, envolveu-se em conspirações contra o regime de ditadura do Estado Novo, sofreu perseguições (1927-28) e a prisão, e foi forçado a novo exílio em Paris. (Em 1928 entrou na revolta de Pinhel, foi encarcerado no presídio de Fontelo, Viseu, evadiu-se e voltou a Paris).

Em 1929, casa com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.

Entretanto, em Lisboa, é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.

Em 1930 nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado (que viria a ser Presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1977 e 1979). Em 1931 vai viver para a Galiza e, em 1932, volta a Portugal clandestinamente.


Casamento de Aquilino Ribeiro em 1929
Aquilino Ribeiro casou em segundas núpcias, em Paris, em 1929, com Jerónima Rosa Dantas Machado, filha de Bernardino Machado (na foto). [A sua primeira esposa, Grete Tiedemann, mãe do seu filho mais velho, morre em 1927].
Foto retirada, com a devida vénia, do blogue Almanaque Republicano

Em 1952, faz uma viagem ao Brasil onde é homenageado por escritores e artistas, na Academia Brasileira de Letras. Em 1956, é fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores. Em 1957, publica A Casa Grande de Romarigães e, em 1958, Quando os Lobos Uivam. Nesse mesmo ano, é nomeado sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e destaca-se como apoiante da candidatura de Humberto Delgado à presidência da República.

Em 1960, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura por Francisco Vieira de Almeida, proposta subscrita por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros.

Em 1963 foi homenageado em várias cidades do país, por ocasião dos cinquenta anos de vida literária, e morreu no dia 27 de Maio desse ano. A Censura não perdeu tempo a comunicar aos jornais que não seria permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas. Aquilino Ribeiro foi sepultado no Cemitério dos Prazeres.

Homenagear a sua memória

Em 1982, Aquilino Ribeiro foi agraciado, a título póstumo, com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.


Telegrama dos estudantes enviado à família por ocasião da sua morte.

Em 2007, a Assembleia da República decide homenagear a sua memória e conceder aos seus restos mortais as honras de Panteão Nacional. A cerimónia de trasladação para a Igreja de Santa Engrácia (Lisboa) ocorreu a 19 de Setembro desse mesmo ano.

Notável escritor

Escritor ímpar, quer no modo de trabalhar a linguagem, com recurso a um vocabulário exuberante, original e pitoresco, quer no rigor extremo da expressão.

Em cinquenta anos de actividade literária, Aquilino produziu romances, contos, novelas, ensaios, biografias e literatura infantil. Escreveu:

  • Jardim das Tormentas (contos, 1913),
  • A Via Sinuosa (romance, 1918),
  • Terras do Demo (romance, 3919),
  • Filhas de Babilonia (novelas, 1920),
  • Estrada de Santiago (contos, 1922),
  • Andam faunos pelos bosques (romance, 1926),
  • O homem que matou o Diabo (romance, 1930)
  • Batalha sem Fim (romance, 1931),
  • As três Mulheres de Sansão (romance, 1932),
  • Maria Benigna (romance, 1933),
  • S. Banaboião, Anacoreta e Mártir (romance, 1937),
  • Monica (romance, 1939),
  • Volfrâmio (romance, 1944),
  • A Casa Grande de Romarigães (novela, 1957),
  • Quando os lobos uivam (romance, 1958);

Ensaios e biografias:

  • O Cavaleiro de Oliveira. Estudo Crítico e Biográfico (1922),
  • O Galante Século XVIII (1936), Anastácio da Cunha;
  • O Lente Penitenciado (Vida e Obra) (1936),
  • Camões, Camilo, Eça e Alguns mais (1949),
  • Luís de Camões, Fabuloso e Verdadeiro (2 vols., 1950),
  • O Romance de Camilo. Biografia e crítica (1956).

Embora nestas últimas obras estejam patentes as qualidades de lucidez e de estilo que caracterizam a Aquilino, seus contos, novelas e romances é que lhe granjearam a fama de que goza hoje em dia. Aquilino entronca-se numa linhagem de prosadores que, passando por Eça e Fialho entre os nacionais, e por Anatole France entre os estrangeiros, remonta a Camilo Castelo Branco, pelo menos no que toca ao culto da “escritura-artística” e perfeita enquanto pureza e precisão vernaculares. Sendo antes de tudo um escritor, mais do que um ficcionista, (…), Aquilino acreditou a vida toda no ofício de escrever como vocação e como realização da sentença buffoniana de que “o estilo é o homem”. Para atingir seu objectivo, teve de levantar um impressionante vocabulário e uma rica sintaxe, e não duvidou em fazer uso de arcaísmos e tipismos regionais de sua província natal, a Beira Alta. Sua primeira marca, portanto, é a pesquisa estilística, a volúpia da forma cinzelada e brilhante (…). Além disso, especialmente nas primeiras obras, Aquilino recebeu alguma influência do Decadentismo, por via do exemplo de Fialho, mas caldeando-a já com sua maneira peculiar, que lhe faria a fortuna de escritor voltado para a terra e para as matrizes do Idioma. Despontavam então algumas de suas características fundamentais, que iriam confluir para formar a vertente melhor de sua volumosa produção: aquela em que o romancista estampa uma profunda simpatia pelo homem rústico das Beiras, vivendo rudes dramas de criatura reduzida à condição de animal irracional, paganicamente embrutecido pelo exclusivo contacto com a terra áspera e primitiva e com velhos e gastos preconceitos sociais, firmemente arraigados nos meios rurais. É o que se observa na maior parte de suas obras de ficção, especialmente Terras do Demo, Andam faunos pelos bosques, São Banaboião. Nesse particular, o melhor de sua obra está na novela “O Malhadinhas”, inserta na Estrada de Santiago. Em matéria de narrativa longa, mas ainda com estrutura de novela, A Casa Grande de Romarigães leva a palma. O escritor subintitula-a de “Crónica romanceada” e no prefácio narra as peripécias de sua composição, inclusive respondendo ambígua e jocosamente a um “académico de Argamasilha, ou lente de Coimbra”: “- Um romance… ? Deus me livre! A minha ambição foi bem outra. Isto é monografia histórica local, história romanceada, se quiser, agora novela, abrenúncio!”» [2]

Testemunho

O neto de Aquilino Ribeiro, Aquilino Machado, no dia 3 de Janeiro de 2018, tornou público o seguinte testemunho:

O meu avô Aquilino quando morreu foi velado por centenas de populares, a larga maioria operários e gente humilde que vivia em Lisboa ou nas periferias urbanas. Alguns eram leitores, mas a maior parte deles não o era. Cumpriam sim uma homenagem igualitária na luta contra a ditadura salazarista. No dia do funeral, os esbirros da PIDE impediram que a grande mobilização estudantil a ele se juntasse, já perto do Cemitério dos Prazeres. O que não conseguiram controlar foram os milhares de telegramas que chegaram a casa dos meus avós, numa emotiva onda de solidariedade e pesar com a morte do escritor beirão. Para além do testemunho de inúmeros notáveis ligados ao campo democrático, uma intensa mole de gente anónima, prestaria um sentido tributo à elevação literária e humana de Aquilino Ribeiro, afrontando politicamente um regime repressivo e anti-democrático: centenas de estudantes – até estudantes liceais! – trabalhadores, essencialmente gente humilde ligada a associações Republicanas da Lisboa Operária».

Aquilino Machado

Aquilino Ribeiro

Foi membro efectivo (a partir de 1958) da Academia das Ciências.

Foi iniciado mação (1907) na Loja Montanha (Lisboa, Grande Oriente Lusitano Unido).

Há uma biblioteca e uma Fundação/Casa-museu com o seu nome em Moimenta da Beira.

Em Setembro de 2018, como forma de evocar Aquilino Ribeiro, a sua vida e percurso literário, o Município e a Biblioteca Abade Vasco Moreira levaram a cabo uma semana de actividades culturais e educativas, que contemplaram a “semana aquiliniana da leitura”, visitas guiadas, apresentação de documentários, séries e sessões de leitura.

A Câmara Municipal de Sernancelhe assinalou 133 anos do escritor Aquilino Ribeiro

Mensagem dos presos de Peniche ao escritor Aquilino Ribeiro (1885 – 1963)

Senhor Aquilino Ribeiro:

Neste ano de 1963, em que perfaz meio século de labor literário, queira escutar mais esta voz que se vem juntar ao coro amigo que o saúda – voz que chega do fundo duma prisão, falando pela boca de mais de uma centena de portugueses encarcerados, há longos anos, pelo único crime de muito amarem a liberdade do seu povo, o progresso da sua Pátria, a Paz no mundo.

Outros dirão dos méritos do escritor, da pujança do seu estilo, da verdade das personagens que criou, da seiva espessa que lhe sobe das raízes mergulhadas no povo e na terra, e vai florescer em fecunda alegria de viver nas páginas dos seus livros, Outros dirão ainda do acordo exemplar entre o homem e o artista, e da íntima comunhão da sua vida com as vicissitudes da vida nacional nos últimos 50 anos. Outros dirão – e nós estamos também entre os que celebram a glória do escritor, sem dúvida uma das figuras cimeiras da nossa história literária.

Mas outra é a especial saudação que o nosso coração e o nosso pensamento nos ditam e aqui lhe trazemos.

Queremos saudar o cidadão corajoso e íntegro, que não se vendeu nem dobrou aos poderosos e aos tiranos, que denunciou com desassombro a torpe mentira dos tribunais políticos e a ferocidade da repressão policial, que exaltou a revolta popular, e que soube fazer frente, com o cajado firme da sua pena de escritor, aos lobos fascistas que assolam os povoados da nossa terra.

Queremos saudar o intelectual generoso e lúcido, que tantas vezes soube erguer alto a sua voz em defesa da paz, contra o furor dos fautores da guerra. Queremos saudar o homem viril e fraterno, pela sua inabalável confiança nas forças populares e no destino dos homens, nas suas conquistas científicas e no seu progresso moral, e confiança que o leva, em meio da noite fascista e ao cabo de setenta anos duma vida tantas vezes dura, a saber ainda olhar em frente, olhar para o sol, e apontar aos companheiros a visão estimulante do futuro radioso da humanidade.

Senhor Aquilino Ribeiro: Longa vida lhe desejamos! Para que possa prosseguir por muitos anos ainda no seu belo trabalho criador. Para que a sua figura altiva de lutador se possa manter presente na frente de combate pela Democracia, a Justiça e a Paz.

E para que, sobretudo, em breve possa ver o sol esplendoroso da Liberdade brilhar de novo e para sempre sobre o nosso querido Portugal.

Os presos políticos do Forte de Peniche

[1] A Seara Nova é uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses da época.

Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumindo fins pedagógicos e políticos. O grupo de intelectuais reunidos em torno do projecto editorial definiram-na como “de doutrina e crítica”, tendo como objectivo, como se lê no editorial do N.º 1, datado de 15 de Outubro de 1921, ser de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes. Com a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Nos seus anos iniciais o projecto reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, Cabral do Nascimento e Augusto Casimiro.

[2] Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa. Editora Cultrix, São Paulo


Dados biográficos

  • Aula de literatura Portuguesa: Aquilino Ribeiro, perfil literário
  • República e Laicidade: Biografias – Aquilino Ribeiro
  • Escola freixinho: Aquilino Ribeiro
  • Wikipédia: Aquilino Ribeiro

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/aquilino-ribeiro/

O comunista e o escritor Dalcídio Jurandir

O escritor paraense Dalcídio Jurandir completaria, nesta quinta-feira (10), 110 anos de idade. Ele nasceu em 10 de janeiro de 1909 em Ponta de Pedras, na Ilha de Marajó. E viveu até 16 de junho de 1979. Este ano marca, portanto, também os 40 anos que deixou a vida.

Dalcídio Jurandir, que é injustamente pouco conhecido, foi um escritor do primeiro time das letras nacionais. Comunista desde a juventude, quando atuou na Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo sido preso por esta ousadia, sua literatura oscila entre os aspectos social e político e a finura e clareza da escrita, numa verdadeira artesania artística que remete, garante o especialista e professor de Literatura na Universidade Federal do Pará, Gunter Karl Pressler, a escritores como Marcel Proust e James Joyce.

Dalcídio Jurandir, que é injustamente pouco conhecido, foi um escritor do primeiro time das letras nacionais. Comunista desde a juventude, quando atuou na Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo sido preso por esta ousadia, sua literatura oscila entre os aspectos social e político e a finura e clareza da escrita, numa verdadeira artesania artística que remete, garante o especialista e professor de Literatura na Universidade Fedeal do Pará, Gunter Karl Pressler, a escritores como Marcel Proust e James Joyce.

Leia, a seguir, o artigo do professor Gunter Karl Pressler:

Em 2009 comemora-se o centenário do escritor Dalcídio Jurandir (1909 a 1979). A premiada obra dalciana reflete a crise social e política da primeira metade do século XX, fazendo da arte literária campo de luta

O projeto literário de Dalcídio Jurandir (1909-1979) foi esboçado em 1929 e resultou em onze romances, o último publicado em 1978 (Ribanceira). Dalcídio trabalhou, naquele ano, como secretário municipal no Baixo Amazonas, onde vivenciou o final da “Velha República”. As publicações iniciaram com sua premiação no Concurso Vecchi-Dom Casmurro (Rio de Janeiro) (1), em 1940, quando os romances Chove nos Campus de Cachoeira e Marajó ganharam o primeiro e o terceiro lugar. Suas atividades como jornalista e escritor e suas publicações abrangem cinquenta anos, desde o movimento dos Modernistas, passando o auge do romance social dos anos 1930 (Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins e Rego, Graciliano Ramos), até bem além das experiências da poesia concreta (iniciadas em 1956) e do romance que mudou a história e a crítica da literatura brasileira Grande Sertão: Veredas (também em 1956), ou – se medirmos em coordenadas políticas – do período da República Velha e do movimento do Tenentismo, entre 1922 e 1930, e do Estado Novo de Getúlio Vargas, do governo Juscelino Kubitschek, passando pela primeira experiência do Parlamentarismo, na década de 1960, até ao início do Governo Militar do general João Baptista Figueiredo.

O “Ciclo do Extremo Norte” – Chove nos Campos de Cachoeira (1941), Marajó (1947), Três Casas e um Rio (1958), Belém do Grão Pará (1960), Passagem dos Inocentes (1967), Primeira Manhã (1967), Ponte do Galo (1971), Os Habitantes (1976), Chão dos Lobos (1976) e Ribanceira (1978) – narra a história e trajetória do personagem Alfredo. O romance Marajó não contém Alfredo, mas outros personagens (Alaíde, Missunga e Ramiro) são referidos posteriormente em outros. O romance pode ser lido como painel preparatório da história de Alfredo. O horizonte da expectativa do jovem personagem central, nos primeiros dois romances, é a grande cidade, Belém. Nos romances posteriores, Alfredo realiza o curso primário e inicia seus estudos no ginásio; o interior é lembrado a partir da vivência urbana em Belém. No penúltimo romance, Chão dos Lobos, o jovem de aproximadamente dezenove anos embarca para o Rio de Janeiro, tentando a sorte. O último, Ribanceira narra a volta de Alfredo, entretanto com vinte anos, ao interior, desta vez como secretário municipal: “Aqui desembarco, não como no cais do Rio de Janeiro, descarregado nas muletas da Sem Nome […] Aqui Secretário o lavrador de pratos do Café São Silvestre na Saúde” (Ribanceira, 1978: 10).

Esses onze romances trazem a história social, cultural e política da Amazônia (o mundo dos donos da terra, os fazendeiros, e o povo que trabalha e sobrevive) no contexto cultural e político do Brasil; descrevem os conflitos da humanidade, em geral, pelo conjunto dos discursos narrativo e metafórico complexo. A experiência na vida real do autor se duplicou na obra ficcional, pois do interior Jurandir foi para Belém e, depois, à capital política e cultural do país: Rio de Janeiro.

Diante do poder econômico centralizado e da fragmentação social, visível na Europa – e particularmente na Amazônia em sua dependência da exploração da borracha – Jurandir configura com a trajetória de Alfredo o ideal socialista “Saber é poder” (August Bebel). Neste sentido, o projeto romanesco foi escrito contra a decadência econômica da vasta e rica região da Amazônia, mas sabendo e expressando um fundo melancólico. Sem esperança nenhuma, depois da breve experiência como secretário municipal, removido pela conjuntura política, Alfredo encontra-se desiludido na casa de Dona Dudu, em Belém:

“Novamente na pedra. Os santos na mesa. Quero abrir uma janela. Roçando a cabeça na palha do teto, o Santo Antônio: te desengana, meu filho, que não faço milagres. A máquina de costura, as três cadeiras velhas.Novamente na pedra. Toda faca, nessa pedra, acha o seu gume?”

(Ribanceira, 1978: 330)

No plano estético do Ciclo se expressa a densidade da experiência individual e espiritual da situação político-cultural do país no início do século XX, posterior à Semana da Arte Moderna e à recondução da independência nacional tanto no campo político e cultural quanto na situação do intelectual do Norte – da Amazônia. No contexto do romance moderno, Jurandir é sem dúvida herdeiro dos grandes narradores e romancistas do século XIX, executando a inquietação existente desde o início do século XX: “a pretensão a fazer estilo” (02). Sua obra cria uma visibilidade externa por “necessidade” cultural-ideológica (o projeto literário) e uma visibilidade interna (humana, universal), na verdade, em busca de uma terceira visibilidade – a mais característica e mais duradoura: a visibilidade poética, a da palavra.

Jurandir inicia o projeto literário em duas direções: ainda no espírito niilista da virada do século em Chove nos Campos de Cachoeira (o fracassado poeta Eutanázio, leitor de Schopenhauer), mas já configura com Marajó um romance social da década de 1930. A autenticidade e a vontade do projeto – mais tarde, explicado como tentativa de transmitir “em termos de ficção, o que vive, sente e sonha o homem marajoara” (1996: 28) – recusam a adaptação do realismo socialista do programa da política cultural da União Soviética. Uma vez experimentou o estilo político-didático com o romance Linha do Parque (1959), fora do Ciclo. Trata-se da história do movimento sindicalista no Rio Grande do Sul.

Considerar a situação política daquelas décadas (o golpe de Getúlio Vargas, a Segunda Guerra Mundial, a volta de Vargas, o anticomunismo feroz) significa refletir sobre as condições da vontade e da autenticidade moral do escritor como exercício estético em torno das possibilidades de resistência política e cultural. A consciência das limitações de ação, a necessidade de não perder o passado, sua cultura e os costumes não tinham como evitar a melancolia. Desta forma, Leandro Konder focaliza em Walter Benjamin o “Marxismo da Melancolia”.

A consciência revolucionária não pode se prosternar diante das representações usuais do passado. A crítica revolucionária do que está acontecendo implica a crítica revolucionária do que aconteceu. “Redenção do passado é revolucionamento do presente […] coincidem”, para Benjamin (1989: 8).

“Os meus livros ficaram como um instrumento de nostalgia, o registro de uma cultura que está sendo destruída pela invasão da Amazônia”, diz Jurandir (1996: 29). O que Konder constata para Benjamin vale também para Jurandir: “era também um revolucionário, que não cedia à tentação da acedia, porque estava possuído pela paixão de contribuir para a transformação do mundo” (1989: 11). “Meu romance é um romance político”, diz Jurandir:

“Fui menino de beira-rio, do meio do campo, banhista de igarapé. Passei a juventude no subúrbio de Belém, entre amigos nunca intelectuais, nos salões da melhor linguagem que são os clubinhos de gente de estiva e das oficinas, das doces e brabinhas namoradas que trabalhavam na fábrica […] Os temas dos meus romances vêem do meio daquela quantidade de gente das canoas, dos vaqueiros, dos colhedores de açaí […] Acumulei experiências, pesquisei a linguagem, o falar paraense, memórias, imaginação, indagações”.

Ele fala do “desmatamento cultural” e expressa sua esperança, mas uma esperança benjaminiana: “Nós somos obrigados a ter um pessimismo viril, como dizia Gorki. Um pessimismo positivo, que vem da crítica constante. Um pessimismo com esperança” (03). Jurandir compreende sua obra no contexto do romance moderno e cita “três grandes políticos no romance moderno sob a aparência de artistas puros ou puros visionários: Kafka, Joyce, Faulkner” (1996: 33). Retomando o termo da terceira visibilidade, aquela mais característica e mais duradoura, a visibilidade poética, o próprio escritor confirma:

“Já uma banalidade dizer que é impossível a um romanista, o menos intemporal dos artistas, fugir do seu tempo. E intemporal, uma palavra, ela existe? Atrás dela pode estar o paraíso, ou a evasão mais sem vergonha. O que existe é o homem, terrestre, temporal como o diabo, e está aí a sua grandeza” (1996: 33).

A ficcionalização de Jurandir tanto comenta a situação histórica mais recente quanto lança uma visão geral sobre o projeto colonial, por exemplo, através da voz de Dona Inácia quando olha para a goiabeira no pátio da casa. O trecho descreve metaforicamente aquilo que aconteceu com o senador Antonio Lemos e marca a vida política no Brasil até os dias atuais.

“– Ah, passarinhos do meu peito. Tivesse leite nestas mamas, eu amamentava vocês todos e não homens. Não foi vocês que traíram o velho, lhe pregando flor na lapela, no peito da sobrecasaca. E com homem caído, não foi vocês que cuspiram no rosto do homem nem deram pontapé onde antes lambiam. Não foi vocês que assaltam a casa do homem e tudo comem e tudo roubam. Os canalhas, os ladrões, os perjuros estão ali no galho da goiabeira? Estão?”

(Belém do Grão Pará, 2004: 55)

Walter Benjamin diz que o cronista “narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e os pequenos” (1987: 223), considerando que nada seja perdido para a história. O cronista é anterior ao historiador que seleciona entre os acontecimentos aqueles que poderiam ser “fatos históricos”, a fim de “classificar as formas, defini-las, expor seus mecanismos e sua dinâmica” (Mauro, 1975: 14). O romancista organiza a história de forma diferente, reconhecendo “outros sistemas dialéticos das vontades […] dialéticas no plural” (1975: 14). Ele sabe da misteriosa relação entre passado e presente, daquela que Benjamin fala na segunda tese “Sobre o Conceito da História”. Benjamin liga essa relação à “imagem da felicidade”, que é “totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência” (1987: 222). Jurandir vive consciente e ativamente a relação entre história e política como amazônida no Brasil da primeira metade do século XX: o declínio da era da borracha traz o passado da toda colonização ao presente numa citação “na ordem do dia” (Löwy, 2005: 54). O romancista Jurandir revive sua história individual no contexto histórico da região através do “sistema dialético da vontade” de escrever um romance.

No último romance, o personagem central Alfredo dialoga com o personagem central do primeiro romance, Eutanázio, que somente representa no mundo ficcional a tentativa da “redenção individual”: o fracassado empregado de uma livraria da capital não consegue sair da infelicidade do homem esquisito como poeta/escrivão do interior que lutou contra o “princípio do mundo” na figura da Irene:

“Sim, como veio tão bela! […] Veio calma na sua marcha para a maternidade […] Desejou passar a mão naquele ventre como a enchente, como a chuva que estava caindo sobre os campos. Desejaria beijá-lo. Estava vendo ali a Criação, a Gênesis, a Vida” (1998: 399s).

Alfredo não só queria aceitar ou sofrer seu destino; ele queria estudar, a fim de conhecer o mundo e de se meter no mundo. Em Ribanceira, seu projeto de se tornar escritor (não poeta como seu irmão) está no lado inverso da sua atividade de secretário (ou jornalista, na vida real do autor). O comunista Jurandir está engajado no presente, mas sabe que o direito à felicidade também deveria valer para o passado, não só como projeção para o futuro.

Diante da situação histórica das décadas de 1920 e 1930, Terry Eagleton constata duas soluções para escritores socialistas: “Uma é o socialismo, que se apresentou na Europa Oriental como o stalinismo […] A outra solução, de certo modo, menos abusiva, é a estética“ (1993: 235). No caso de Jurandir, podemos dizer que viveu as duas opções, uma como romancista do Ciclo do Extremo Norte, e outra pelo engajamento político, experimentado no plano estético com a realização do romance Linha do Parque. Significativamente, este romance é o único até agora traduzido para uma língua estrangeira – para o russo – em 1961. No plano do Ciclo, Jurandir criou uma linguagem poética própria à denúncia da injustiça social. A oralidade figurada proporciona um ritmo lento, que lembra “certas músicas em órgão, lentas e profundas” (Jorge Amado, 1996: 10), em que o leitor mais que desejaria se perder. Como diz o próprio Jurandir:

“Eu não sou um escritor de grande público. Os meus livros não têm o principal encanto das grandes tiragens, que é essa habilidade para fazer o leitor ser atraído pelo enredo, pelo desenvolvimento da urdidura. Eu me fixo muito na linguagem, nos vagares da narrativa, no ritmo lento das cenas” .

(1996: 29)

A estrutura complexa da narrativa mescla-se com a denúncia social e mostra “uma objetividade do subjetivo que implica enriquecimento mais que estranhamento”. Nisso resulta numa “desconstrução da antítese entre liberdade e necessidade, na medida em que cada elemento da obra de arte aparece ao mesmo tempo milagrosamente autônomo e misteriosamente subordinado à lei do todo” (Eagleton, 1993: 235). O leitor é chamado a resolver a charada da história (do enredo e da história real). O crítico literário contemporâneo das edições não conseguia ver a inovação e entendeu o mundo apresentado na moldura do horizonte de expectativa da crítica social do romance da década de 1930 ou como obra regionalista, então, menor.

Eagleton defende uma visão ideológica materialista diante um mundo em fragmentos: “A ideia não é o que está por trás do fenômeno como uma essência que o informa, mas é o modo pelo qual o objeto é conceitualmente configurado nos seus elementos diversos, extremos e contraditórios”. Nesta sensível aceitação e preservação dos “elementos díspares em toda sua irredutível heterogeneidade” (1993: 239), Jurandir narra as histórias da gente de Marajó como gente deste mundo numa espécie de “sociologia poética” (1993: 240), mas numa complexidade narrativa que desafiava demais – como ressaltamos – o horizonte de expectativa da crítica literária contemporânea.

Concluímos. Três características marcam o trabalho de Dalcídio Jurandir como obra literária sui generis: a linguagem altamente poética como recriação plástica da oralidade, o recurso linguístico moderno do discurso indireto livre, mesclando diversos tipos de narradores ou vozes numa complexidade estrutural que proporciona descrição e narração – até o leitor se confunde –, por exemplo, somente três a quatro meses passam, na verdade, só quatro dias constroem o plano da narração de Chove nos Campos de Cachoeira, 16 dos 20 capítulos. Nos romances posteriores, parece que Alfredo não cresce. No detalhe, observa-se a arte de lidar com o tempo: em Três Casas e um Rio, o narrador resume em seis linhas a história do acidente da Marinha com o fogo, um assalto no meio de uma introspecção do personagem central, depois, em intervalos, o leitor conhece toda a história e sua importância para Alfredo e para a composição.

As cores regionais caracterizam a paisagem dos acontecimentos, dos personagens e dos autores, mas não são critérios estéticos ou genéricos –, são características da visão do mundo de um grande escritor. Os conflitos da história, os sentimentos e pensamentos dos personagens e o próprio discurso do narrador expressam a qualidade humana como tal e, particularmente, nas situações de limite e de luta social pela felicidade e pela identidade cultural.

Gunter Karl Pressler é doutor em Teoria Literária e professor da Universidade Federal do Pará/UFPA

Notas

(01) Jorge Amado, editor-chefe da revista literária semanal Dom Casmurro criou, em 1937, juntamente com a editora Vecchi um concurso literário para romances. A revista, que circulou entre 1937 e 1944, foi a mais importante publicação do gênero no Brasil. Na época, chegou a atingir 50 mil exemplares por semana, foi um ponto de referência para toda a esquerda política (cf. http://pt.wikipedia.org).

(02) “Me lembro que fiz essa tentativa com uma literatura desenfreada e uma pretensão a fazer estilo, que era um espetáculo” (1941/1996: 14). Em relação a outro escritor brasileiro, já famoso, Oswald de Andrade, o jovem A. Candido ressalta: “Nota-se n’Os Condenados […] uma técnica original de narrativa e uma procura constante de estilo. Um esforço de ‘fazer estilo’” (“Estouro e Libertação”, publicado primeiramente em 1943 e incluído no livro Brigada Ligeira (1945); reeditado in: Vários Escritos (1970: 38).

(03) 1996: 29. Quem não pensa na famosa frase de Benjamin: “A esperança só nos é dada por consideração àqueles que não têm mais esperança” (1974: 201), citado por Herbert Marcuse em One-Dimensional Man, publicado no Brasil sob o título Ideologia da Sociedade Industrial.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften. Vol. I. Frankfurt A. M.: Suhrkamp 1974 (WA 1).______________. Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense 1987, 3ª ed.CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades 1970.EAGLETON, Terry. A Ideologia da Estética. Tradução de Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 1993.JURANDIR, Dalcídio. “Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte…”. In: Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 14-16.______________. “Um Escritor no Purgatório” (Entrevista por Antonio Torres, Haroldo Maranhão e Pedro Galvão). In: Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 28-30.______________. “Eneida entrevista Dalcídio”. Eneida de Morais, entrevista publicada originalmente em Folha do Norte, em 23-10-1960, republicada em Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 32s.______________. Chove nos Campos de Cachoeira. Belém: UNAMA, 1998, 6ª ed.______________. Marajó. Belém/Rio de Janeiro: EDUFPA/FCRB, 2008, 4ª ed.______________. Três Casas e um Rio. Belém: CEJUP: 1994, 2ª ed.______________. Linha do Parque. Belém: Falangola, 1987, 2ª ed.______________. Belém do Grão Pará. Belém/Rio de Janeiro: EDUFPA/FCRB, 2005, 4ª ed.______________. Passagens dos Inocentes. Belém: Falangola: 1984, 2ª ed.______________. Primeira Manhã. São Paulo: Martins, 1967.______________. Ponte de Galo. São Paulo/Rio de Janeiro: Martins/NLE, 1971.______________. Os Habitantes. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.______________. Chão dos Lobos. Rio de Janeiro: Record, 1976.______________. Ribanceira. Rio de Janeiro: Record, 1978.LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma Leitura das Teses ‘Sobre o Conceito da História’. Tradução de Wanda Nogueira C. Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.MAURO, Frédéric. Do Brasil à América. Tradução de Magda P. França de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 1975 (Debates, 108).


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


40 anos de Xutos & Pontapés

Os Xutos & Pontapés cumprem 40 anos este domingo. Para assinalar a data, no próximo dia 25 lançam o álbum Duro, um legado de luto e de alegria que inclui gravações feitas por Zé Pedro.

Créditos / NiT

A data de aniversário serve para assinalar o nascimento oficial de uma das bandas portuguesas mais emblemáticas, que aconteceu a 13 de Janeiro de 1979 no salão de baile dos Alunos de Apolo, em Lisboa, numa noite em que tocaram quatro músicas em pouco mais de cinco minutos.

O grupo, que chegou a chamar-se Delirium Tremens e depois Beijinhos e Parabéns, integrava então os jovens Zé Pedro, Kalú, Tim e Zé Leonel, influenciados pelo punk-rock que entrava em força na cena musical estrangeira.

Quarenta anos depois, e já sem os fundadores Zé Pedro e Zé Leonel, a banda persiste na música portuguesa, com mais de uma dezena de álbuns e muitas canções que servem de âncora para um clã do rock com milhares de fãs de várias gerações.

Para festejar a data redonda, os Xutos & Pontapés editam um novo álbum, Duro, que sairá no dia 25, coincidindo com um concerto no espaço Lisboa ao Vivo. A 1 de Fevereiro apresentam-no no Hard Club, no Porto.

Este é também o primeiro álbum que Kalú, Tim, João Cabeleira e Gui editam sem o guitarrista Zé Pedro, que morreu em 2017, mas o registo incluirá gravações feitas ainda por este músico.

Aos fãs, a banda explica que o álbum é «um legado de perseverança e persistência, de luto e de alegria, de ansiedade e calma».

Com Agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

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Maria do Céu Guerra distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, em reconhecimento à sua ímpar carreira artística.

Maria do Céu Guerra em "Menino de sua avó", de Armando Nascimento Rosa, encenação de Maria do Céu Guerra e Adérito Lopes, A Barraca, 2013.Créditos / A Barraca

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra, uma das fundadoras da companhia de teatro A Barraca, foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, segundo comunicado da Estoril-Sol distribuído pela Agência Lusa.

Maria do Céu Guerra, de 75 anos, «desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma carreira ímpar ligada às artes», reconhece o júri do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, presidido por Guilherme d’Oliveira Martins e integrado, ainda, por Maria Alzira Seixo, José Manuel Mendes, Manuel Frias Martins, Maria Carlos Loureiro, Liberto Cruz, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu.

O júri justificou a sua escolha acrescentando que foi a personalidade escolhida «por se ter destacado, ao longo da vida, numa prática de cidadania cultural, enquanto actriz, que levou à cena e por diferentes modos divulgou os grandes textos da literatura portuguesa e, nessa intervenção, que manteve A Barraca como núcleo de irradiação cultural, formativo e vocacionado para a descoberta e criação de novos públicos».

«colocamos no trabalho e no jogo do actor o nosso mais alto investimento cenográfico. O corpo físico do actor bem como a roupa que a personagem enverga e a define são na maior parte das produções a nossa principal cenografia»

Maria do Céu Guerra

A actriz e encenadora é a primeira mulher a receber o prémio, que nas suas três edições anteriores distinguiu o ensaísta Eduardo Lourenço (2016), o jornalista e escritor José Carlos Vasconcelos (2017) e o ensaísta e prestigiado camoniano Vítor Aguiar e Silva (2018).

A cerimónia da entrega do Prémio a Maria do Céu Guerra «será anunciada oportunamente», segundo o referido comunicado.

O Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural tem um valor pecuniário de 20 mil euros e visa «distinguir um escritor, ensaísta, poeta, jornalista, tradutor ou produtor cultural que ao longo da carreira – ou através de uma intervenção inovadora e de excepcional importância –, haja contribuído para dignificar e projectar no espaço público o sector a que pertença», lê-se no regulamento elaborado pela Estoril-Sol, entidade promotora da iniciativa.

O nome da distinguida foi conhecido no dia 3 de Janeiro, em que o escritor Vasco Graça Moura (1942-2014), cuja memória o prémio homenageia, completaria 77 anos.

Maria do Céu Guerra: uma vida no palco

Maria do Céu Guerra de Oliveira e Silva nasceu em Lisboa, a 26 de maio de 1943. Frequentou a licenciatura de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1962 a 1964). Como referiu em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, «no primeiro ano, achava que ia ser escritora, no segundo achava que ia ser escritora e actriz, e no terceiro achava que ia ser actriz». Adere ao Grupo Cénico onde se estreia (1963) na peça Assembleia ou Partida, de Correia Garção, encenada por Claude-Henri Frèches. Foi o início de uma carreira que jamais abandonou e que, mais de cinco décadas depois, se evidencia como enriquecedora e marcante do panorama teatral português, mas que também abrangeu o cinema e a televisão.

Até ao início dos anos 70 integra o grupo fundador da Casa da Comédia (1963), participa na fundação do Teatro Experimental de Cascais (1965), onde se profissionalizou e desdobra-se entre o teatro de revista e a comédia, entre 1970 e 1974.

Maria do Céu Guerra em "Bodas de Sangue", de Federico García Lorca, encenação de Carlos Avillez, Teatro Experimental de Cascais, 1968 Créditos

Com a Revolução dos Cravos inicia-se uma época de liberdade com a qual a sua carreira se entrelaçará definitivamente.

Em 1975 fundou a companhia de teatro A Barraca, que começa a trabalhar num projecto da própria Maria do Céu Guerra. «Durante um ano se trabalhou em silêncio para que este projecto fosse possível», relembrará a artista em 2016, em texto dedicado ao 40.º aniversário da companhia. Tratava-se de levar à cena a peça Por estes Santos Latifúndios, do colombiano Teatro de La Candelaria. Rebaptizada como A Cidade Dourada, a peça teve cenário de Mário Alberto, poemas de José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo sobre um fado de José Manuel Osório, encenação coordenada por Fernanda Alves.

Maria do Céu Guerra em Santa Joana dos Matadouros, de Bertolt Brecht. Foto de arquivo Créditos

Estreou a 4 de Março de 1976 na Incrível Almadense e foi a primeira de cerca de 110 produções nos últimos 42 anos, em que, para além de actriz, Maria do Céu Guerra foi desempenhando outras funções, como figurinista ou direcção ou concepção de guarda-roupa, cenografia ou direcção plástica, produção, adaptação ou dramaturgia e, com maior preponderância, como encenadora.

«Em arte não se podem separar os universos. Digo gestão - digo estética. Por isso, A Barraca não pára de fazer sessões para manter a Companhia. Por isso, A Barraca aceita todos os convites, mesmo em péssimas condições, para manter a Companhia. Por isso grande parte das pessoas trabalhou durante estes últimos anos, horas sem fim pro bono, para manter a Companhia. Porque a Companhia é o corpo dos actores que dá corpo às peças, o corpo dos técnicos que dá luz às peças. A Companhia é a voz que atende o público, sem o qual não vivemos.»

Maria do Céu Guerra

Além, naturalmente, da direcção da companhia, que há largos anos partilha com Hélder Costa, e que passou de não ter espaço algum para o Espaço Cinearte, que ainda hoje mantém, num singular projecto artístico e cultural que o júri do Prémio Vasco Graça Moura soube reconhecer.

Seria fastidioso enumerar todas as produções que compõem o rico historial d’A Barraca, tal como seria fastidioso enumerar os autores de textos e de músicas, actores e actrizes, cenógrafos, encenadores, músicos e tantos outros colaboradores que a companhia trouxe ao público.

Entre outros galardões, Maria do Céu Guerra recebeu o Prémio da Imprensa para Actriz de Teatro de Revista (1970) e para Actriz de Teatro (1981), o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro (2007) e para Melhor Actriz de Cinema (2015); e o Prémio Sophia para Melhor Actriz Principal (2015).

Como personalidade destacada da vida cultural portuguesa, foi condecorada com o grau de Dama da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1985) e recebeu o grau de Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique (1994).

O trabalho de Maria do Céu Guerra estendeu-se ao cinema e à televisão. No primeiro estreou-se em O Mal-Amado (1974), de Fernando Matos Silva, e participou em diversos filmes de outros destacados realizadores portugueses, com o seu desempenho mais recente, no filme Os Gatos não têm Vertigens (2015), de António-Pedro Vasconcelos, a valer-lhe um Globo de Ouro e o Prémio Sophia. Na segunda participou em peças televisivas e desde o final dos anos 90 que participa em telenovelas, as mais recentes das quais são Jardins Proibidos (2014-2015) e A Impostora (2016)

Maria do Céu Guerra é irmã do jornalista e escritor João Paulo Guerra. É mãe de outra actriz, Rita Lello (do seu casamento com o actor Luís Lello) e de Mário Guerra (do seu casamento com o cenógrafo e pintor Mário Alberto).

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12 ilustrações que retratam o triste presente em que estamos vivendo

Tradução feita pela CONTI outra, do original de UPSOCL

Não podemos nos cegar para a realidade de que as redes sociais têm incentivado a maneira como nos mostramos diante do mundo.

Tecnologia, redes sociais e individualismo parecem estar consumindo nossas vidas. Não podemos nos cegar para a realidade de que as redes sociais têm incentivado a maneira como nos mostramos diante do mundo.

Infelizmente, todos os dias conhecemos apenas a máscara dos outros, perdemos a compaixão, a lealdade e até permitimos que o status e as redes sociais afetem completamente as nossas vidas.

Essas 12 ilustrações mostram uma triste realidade, mas isso pode fazer você refletir sobre a vida que você leva versus a que você quer levar.

1. O que mostramos contra o que somos.

2. Boas ações são feitas principalmente para serem “admiradas”.

3. Aqueles que têm menos dão mais.

4. O dinheiro pode comprar tudo?

5. Onde está o amor pela vocação?

6. Parece que as prioridades mudam quando é necessário permanecer conectado.

7. Alguns gostam de assistir a pirotecnia já outros sofrem quando o fogo cai sobre eles.

8. Todos dizem que você tem que estudar, mas depois os profissionais imploram por empregos decentes.

9. Imerso em um consumismo que não foi controlado.

10. Continuamos nas redes, mas limitamos quem nos acompanha.

11. Migração e pobreza são as realidades mais cruéis que enfrentamos.

12. Inimigos se disfarçam como seus “melhores amigos”.

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/12-ilustracoes-que-retratam-o-triste-presente/

Companhia de teatro da Covilhã distinguida com prémio europeu

A Companhia ASTA – Teatro e Outras Artes foi distinguida com o European Language Label pelo seu projecto «Tell Me», onde o teatro é ferramenta de integração de migrantes.

Créditos / ASTA

O prémio é atribuído anualmente a projectos e iniciativas que promovam o acesso e aprendizagem das diferentes línguas, através de formas inovadoras. A entrega da distinção à multipremiada ASTA deverá acontecer no Europe Festival, que decorre de 7 a 9 de Maio, em Florença, Itália.

O presidente e director artístico da ASTA, Sérgio Novo, explica numa nota enviada à imprensa que o «Tell Me – Theatre for Education and Literacy Learning of Migrants in Europe», cuja ferramenta é o teatro, é um «projecto europeu ímpar» no campo do ensino não formal da língua e da matemática, tendo sido desenvolvido nos últimos dois anos.

Concluído com «enorme êxito», o projecto com vista à inclusão social contemplou o desenvolvimento de ferramentas e metodologias de trabalho e pesquisa que decorreram em Portugal, na Itália e na Suécia.

Entre os materiais didácticos desenvolvidos pela equipa pedagógica e criativa do «Tell Me» encontra-se disponível na página do projecto um manual em cinco idiomas para o ensino da língua e da matemática. 

Além da ASTA, a equipa do projecto junta as associações IFALL – Integration for Alla de Örkelljunga (Suécia) e os organismos italianos Nuovo Comitato (associação criada pelo Nobel da Literatura Dario Fo, representada pelo seu filho Jacopo Fo, director científico do projecto) e a ANL – Associazione Nuovi Linguaggi.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/companhia-de-teatro-da-covilha-distinguida-com-premio-europeu

Deus e Marx

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Durante anos, de cada vez que na universidade iniciava a minha aula anual sobre o pensamento político e social de Karl Marx usava uma piada que me parecia ter algum sucesso: afirmava ir falar «daquele senhor de barbas muito parecido com Deus». Tinha na cabeça, é claro, a conhecida imagem da criação da Luz que Gustav Doré desenhou para a versão da Bíblia editada em 1843 que encheu de sagrado e de temor parte da minha infância. Só muito mais tarde lhe associei os acordes magníficos de Haydn que na oratória A Criação acompanham a exclamação «Und es war LICHT!», «E fez-se LUZ!». Suspeito, no entanto, que nem no sentido inverso posso agora repetir a brincadeira, pois quase ninguém possui uma imagem fixa de Deus e a Marx – mesmo com o auxílio da famosa fotografia de estúdio tirada em Londres no ano de 1875 por John Mayal – poucos identificariam se com ele chocassem numa viela escura. O jogo inicial tornou-se puro nonsense, mas melhores dias virão.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/01/deus-e-marx/

Aculturar para dominar

Estados Unidos: quando as armas não são suficientes
A fim de superar a resistência dos povos, as armas nunca foram suficientes. À guerra, as ocupações e colonizações acompanha e muitas vezes antecede, a imposição da cultura do invasor.
Entre os anos 58 e 52 a.C. as legiões romanas, sob o comando de Júlio César, invadiram a Gália. Oitocentas cidades conquistadas, um milhão de prisioneiros vendidos como escravos e cerca de três milhões de mortos foi o saldo, segundo Plutarco, da conquista.
Para estender a campanha para além do Reno, César precisava do apoio do Senado. Para conseguir isso criou uma ameaça, a ameaça alemã. Tibério, sucessor de Augusto, preferiu não usar a guerra para subjugar os alemães belicosos, mas tentou isso através da cultura. Nas margens do Reno, o imperador construiu uma cidade romana com banhos, teatros, templos e avenidas, oferecendo-lhes as «vantagens» da civilização romana.
Construir uma ameaça, demonizar o inimigo, use o medo, foram recursos frequentemente utilizados pelos invasores para obter o apoio de seu povo e mobilizá-los ou desmobilizá-los, de acordo com seus interesses.
Depois da 2ª Guerra Mundial, o Medo Vermelho foi gerido de forma eficaz pelo império norte-americano, se o povo estadunidense estava inquieto, tocava-se a rebate: vêm os russos!
Destruir a identidade dos povos, impor a cultura do conquistador com sangue e fogo, apagar a memória histórica, é essencial para perpetuar o saque e a dominação, um povo sem memória é facilmente acorrentado e explorado.
A Cidade do México foi construída sobre as ruínas de Tenochtitlan, os conquistadores espanhóis não deixaram pedra alguma. Nas Américas «descobertas», destruíram os quipos inca, os códices maias, os observatórios astrológicos, os calendários, os templos, as imagens e símbolos religiosos, os monumentos, cidades e vilas e impuseram sua língua e religião.
Durante a guerra no Iraque, as tropas norte-americanas saquearam centenas de monumentos históricos, roubaram peças de museu de valor incalculável, livros insubstituíveis; roubaram o Museu Nacional do Iraque, em 48 horas o prédio foi destruído e saqueado e, pelo menos, 50 mil peças foram roubadas.
A Biblioteca Nacional do Iraque, em Bagdá, foi atacada e incendiada, a Universidade de Bagdá incendiada duas vezes no mesmo dia. «Ao destruir a herança do Iraque, seu povo, sua arquitetura, milênios de cultura da humanidade foram varridos». (1)
Durante o período de reconstrução, no país destruído pela guerra, uma das primeiras propostas feitas pelos «libertadores» foi construir um mundo da Disney.
Mir Ahmad Joyenda, deputado do Parlamento afegão, afirma que, no caso daquela nação, soldados estrangeiros, à noite, minavam as muralhas e entravam no Museu Nacional para roubar. O Afeganistão foi vítima de roubo e da destruição intencional de seus tesouros arqueológicos.
Nos povos pesam séculos de engano, engano que, com a chegada dos meios de comunicação em massa e das novas tecnologias da informação e da comunicação, tomaram dimensões muito difíceis de medir em toda a sua magnitude.
Segundo Luis Brito García, através da cultura a vontade é imposta ao inimigo e as ideias do mundo, valores e atitudes são incutidos. «Em longo prazo, o aparelho político não pode defender vitoriosamente na guerra, nem impor na paz, o que a cultura nega». (2)
O poder global capitalista agora tem poderosas armas culturais. «Com operações de penetração, de pesquisa motivacional, de propaganda e de educação, os aparelhos políticos e econômicos assumiram a tarefa de operar no corpo vivente da cultura. A operação tem uma variedade de símbolos como instrumentos cirúrgicos; como campo o planeta, como presa a consciência humana. Seus canhões são os meios de comunicação em massa, seus projéteis são as ideologias».
Os grandes capitalistas sabem que o controle ideológico é fundamental para que os povos não se revoltem contra a exploração das multinacionais, e investem e dominam os meios de comunicação em massa, uma rede multifatorial que age para influenciar e manipular a opinião pública.
Como nos livramos da americanização de nossos hábitos, gostos, costumes e pensamentos? Como podemos privar as pessoas de seus gostos e práticas ao longo da vida? Os jogos, o entretenimento, os shows fazem parte do nosso jeito de ser, de viver. Como abandonar a maneira como nos vestimos, a série de televisão que gostamos, a música que ouvimos, o esporte que vemos; a tudo aquilo que nos causa prazer, quando estamos sentados na poltrona da sala de estar da nossa casa, diante da televisão, esperamos «distrair-nos» por algum tempo, descansar, «desligar»?
A influência romana atingiu apenas uma parte do planeta, os sucessivos impérios tiveram suas áreas limitadas a espaços mais ou menos extensos. Do império de Carlos V diziam que o sol nunca se pôs. A influência cultural da Espanha, Grã-Bretanha e Portugal foi enorme, espalharam sua língua, hábitos e costumes em grande parte do mundo, mas os Estados Unidos conseguiram levar sua influência ao mundo inteiro, da política à moda.
Os habitantes deste mundo, mesmo no recanto mais remoto da terra, usam jeans azuis, comem hambúrgueres, bebem Coca-Cola, mastigam goma de mascar, usam bonés e camisetas com imagens ou sinais estadunidenses, são seguidores dos grupos e cantores norte-americanos, são fãs de séries de televisão e do cinema de Hollywood, acompanham as notícias e fofocas das estrelas de cinema, divertem-se com imagens mórbidas que descobrem os paparazzi, o amor, o sexo, a moda, os sonhos são cada vez mais made in USA.
A globalização da cultura é uma realidade, mas devemos acrescentar um sobrenome, a globalização da cultura estadunidense.
O poder do império hoje tem uma vasta experiência, seu domínio da indústria cultural, da mídia e informação, dá-lhes uma grande vantagem, mas esse poder é contrabalançado pelo projeto socialista cubano, um projeto cultural validado por 60 anos existência, que também possui, por sua própria autenticidade, a virtude de se nutrir das contraculturas que gera. Sua exemplaridade fomenta o surgimento de projetos semelhantes, autônomos, em outras partes do mundo.
O poder de uma cultura, disse Antonio Gramsci, é medido pelo seu nível de assimilação crítica e de ser superado por novas realidades. Livre de todo determinismo histórico, Cuba é uma ‘anomalia’ que não pode ser aceite pela ordem capitalista mundial.
Antagonista da religião do mercado imposta ao mundo como a última estação do seu caminho, em um mundo que pretende negar a história, conta com sua cultura como a primeira, segunda e última linha de defesa.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Nu Vermelho, Henri Matisse

“Nu Vermelho”, de Henri Matisse. Henri-Émile-Benoît Matisse foi um artista francês, conhecido pelo uso da cor.

Figura majestosa e harmónica, eis uma pintura encantada de optimismo pela envolvência da cor e da luz. Pode-se assinalar como um tema alegre e quente, em que todo o trabalho é consagrado à composição. A forma é determinante, as cores são sempre vivas, brilhantes, de que resulta uma luminosidade própria muito acentuada. O requinte é vibrante e pouco lhe interessa o conteúdo.

Informação adicional

Artista: Henri Matisse
Local: Museu de Arte Walters
Criação: 1935
Período: Expressionismo


Nota de edição

Henri Matisse1869-1954

Henri-Émile-Benoît Matisse,
foi um artista francês, conhecido pelo uso da cor e sua arte de desenhar, fluída e original.

Foi um desenhista, gravurista e escultor, mas é principalmente conhecido como um pintor. Matisse é considerado, juntamente com Picasso e Marcel Duchamp, como um dos três artistas do século XX, responsável por uma evolução significativa na pintura e na escultura.

Embora fosse inicialmente rotulado de fauvista (uso de cores puras, sem misturar com outras), na década de 1920 ele foi cada vez mais aclamado como um defensor da tradição clássica na pintura francesa.

O seu domínio da linguagem expressiva da cor e do desenho, exibido num conjunto de obras ao longo de mais de meio século, valeram-lhe o reconhecimento como uma figura de liderança na arte moderna.

Fonte: Wikipédia

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/nu-vermelho-henri-matisse/

Podemos levar o #MeToo até Neruda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

A polémica começa de forma simples: há uma proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda. A proposta não espanta. O Nobel de 1971 é provavelmente o chileno mais conhecido no mundo. Só que Neruda confessou, no seu livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão, onde desempenhou funções diplomáticas em 1929: “Era como se ela fosse uma estátua. Manteve os olhos bem abertos o tempo todo, sem reagir de forma nenhuma ao que estava a acontecer. De certo modo, ela fez bem em desprezar-me.” E isto tem feito crescer um movimento de mulheres contra a homenagem ao poeta. Numa estranha “aliança” com muitos políticos de direita e saudosistas da ditadura que, por razões óbvias, não apreciam Neruda e já tinham vetado esta denominação em 2015.

Uma das expressões que mais me irrita da vulgata política e não só é a de que a História julgará determinado acontecimento ou pessoa. A História não julga. Ou pelo menos não julga com Justiça. A História olha para o passado com os olhos do presente. E olhará para o presente com os olhos do futuro, nunca compreendendo plenamente o que hoje acontece. Pode olhar através da lente moral ou da lente política dos vencedores. Mas tem sempre essa distorção. E quando se trata de homenagear figuras do passado, o passado é quase irrelevante. As homenagens que fazemos serve para sublinhar valores conquistados no presente ou no passado próximo. Apenas reivindicamos o passado em nome deles.

Mas este processo tem de ser, apesar de tudo, cuidadoso. Se não devemos erguer heróis ignorando os seus crimes, devemos evitar julgamentos anacrónicos, que esquecem que há valores que hoje temos como indiscutíveis e que não o eram no passado. Mas, acima de tudo, não podemos olhar para as figuras históricas como figuras totais. Elas foram relevantes por alguma razão, não foram relevantes por todas as razões. E é pelas razões que as levaram a ser relevantes que as temos de evocar.

Não faz sentido homenagear um político se foi um tirano. Mas podemos homenagear um político que, apesar de ter sido um grande estadista, plagiou um texto. Não faz sentido homenagear um escritor se foi um plagiador. Mas podemos homenagear um escritor que tenha sido um fascista. Não faz sentido homenagear um padre, que se dedica a pregar a moral, que tenha sido um pedófilo. Mas faz sentido homenagear um cineasta que abusou de um menor. Há, claro, casos de fronteira. Elias Kazan foi um dos maiores realizadores da história do cinema. Mas a sua colaboração com o macartismo fez muito mal ao cinema. Do ponto de vista plástico, Leni Riefenstahl deixou uma obra notável. Mas é impossível separar essa obra – e não apenas a realizadora – do nazismo.

No essencial, o que quero dizer é julgamos um escritor como escritor, um político como político. As biografias podem contar todas as facetas dessas pessoas e isso ajuda-nos a humanizar os heróis e os vilões. Mas cada homenagem que fazemos não é uma beatificação. E não podemos revisitar todos os que deixaram marcas fortes na história do mundo à luz dos critérios morais de cada momento. Houve feministas racistas, houve abolicionistas homofóbicos, houve ativistas LGBT misóginos, houve revolucionários que juntaram tudo isto. Até porque todas as lutas não ganharam a mesma relevância na consciência de todos os que lutaram por um mundo melhor. E houve, entre todos, pessoas que cometeram crimes. Se assim foi com ativistas, com mais aguda consciência política, imagine-se com aqueles que são recordados por razões bem diferentes. Caso a causa animal venha a ser realmente triunfante, imagine-se apagar todas as homenagens a Hemingway ou Picasso porque enalteceram a tourada.

Apesar de todos os riscos neste tempo de indignação fácil, o #MeToo é um movimento globalmente positivo. Todas as injustiças, que nos obrigam a não ser meigos com linchamentos virais, não podem esconder o mais relevante: a voz das mulheres está a ganhar uma força que desconhecíamos. Sendo elas metade da humanidade, os efeitos serão profundos, por vezes assustadores, seguramente revolucionários. Com todos os perigos que estas mudanças trazem sempre, este sobressalto é indiscutivelmente positivo. Mas essa luta não pode ser totalitária. Ela não pode fazer esquecer todas as outras dimensões da história e da vida.

Podemos sublinhar que Neruda violou. E, já agora, que só o sabemos porque ele o escreveu. Mas não podemos, porque não faz sentido, fazer disso o mais relevante do que ele nos deixou. Se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém.

Com o risco de uma luta para que o futuro seja diferente se transformar num interminável ajuste de contas com o passado que nos encaminha para a amnésia coletiva, sem pontos de referência que sobrevivam à limpeza.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Há muitos Amós Oz e um só Netanyahu

Estou chorando por Amós Oz e nem sei porque. Eu não o conheci, nunca estive com ele, não entrevistei nem por telefone. Nunca fui leitor fanático de seus livros. Se muito, li trechos de “Caixa preta” que dei de presente de aniversário ao meu pai.

O que me fez chorar talvez tenha sido o fato de ele ter morrido exatamente no dia em que Benjamin Netanyahu veio ao Brasil acertar uma aliança com o futuro presidente Jair Bolsonaro. Estou chorando por Amós Oz porque eu gostaria que os brasileiros associassem o Estado de Israel ao grande escritor e não ao pequeno estadista israelense ora no poder.

Oz era mais velho que Israel. Nasceu numa Jerusalém onde judeus, cristãos e muçulmanos conviviam em paz. Talvez por isso sempre defendeu a existência de dois estados – Israel e Palestina -, na contramão da extrema-direita de Netanyahu que não tolera a convivência pacífica com os vizinhos e sempre estimula conflitos nas fronteiras, e, dada a superioridade militar dos israelenses fornece manchetes nas quais Israel aparece como uma espécie de estado genocida, muitas vezes comparado – injustamente – ao nazismo.

Eu estive em Israel em 1971. Estranhei a onipresença de soldados nas ruas e nas estradas, jovens e velhos, homens e mulheres. De manhã, à tarde e à noite. Para mim, que vivia uma ditadura militar era o sinal de que também ali vigia um regime ditatorial. Mas também conheci um país de pessoas alegres, vibrantes, dinâmicas, tolerantes, dispostas a aceitar as diferenças e os diferentes.

Embora haja, em Israel, pessoas de direita, de esquerda e de centro, como em todo o mundo, e Benjamin Netanyahu tenha mandato obtido pelo voto popular, de alguns anos para cá o país passou a ser estigmatizado por setores da esquerda mundial e brasileira. Extremistas como o músico Roger Waters criaram campanhas de boicote. Incitavam artistas a não se apresentarem no país, como fosse uma República do Mal.

Nunca fui, não sou e nunca serei militante de esquerda, mas sou uma pessoa de esquerda desde a infância. Sempre associei a esquerda a liberdade, tolerância e convivência pacífica. A viver e deixar viver. A respeitar a si mesmo e aos outros. A cultivar valores éticos. A defender intransigentemente os direitos humanos. A lutar pelos oprimidos.

Por isso estranho muito e não entendo quando pessoas que se dizem de esquerda tratam Israel com a fúria e a intolerância de Waters. Isso significa demonizar os israelenses. Demonizar pessoas. O que não é aceitável.

A esquerda demoniza Israel como a direita demoniza Venezuela.

Netanyahu vai passar, como passaram todos os outros estadistas. O que Oz escreveu vai ficar para sempre.

Em Israel há um só Netanyahu, e – felizmente – muitos Amós Oz.


por Alex Solnik, Jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. Autor de treze livros, dentre os quais “Porque não deu certo”, “O Cofre do Adhemar”, “A guerra do apagão” e “O domador de sonhos” | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


A distância entre as palavras e as ações

Terminei neste Natal a leitura de um livro comprado há dez anos. A demora não ficou a dever-se a outras prioridades – leio sempre três ou quatro livros em simultâneo e não teria sido difícil juntá-lo a uma das séries –, mas ao facto de o seu conteúdo me ter perturbado tanto quanto me interessou, o que fez protelar algumas vezes a passagem ao capítulo seguinte. Refiro-me a Intelectuais, do historiador britânico Paul Johnson, obra escrita com um propósito desassossegador: observar um conjunto de poetas, escritores e pensadores cuja obra pública integrou uma vontade declarada de sugerir caminhos melhores e mais justos para o trajeto da humanidade, ao mesmo tempo que a sua vida ia contrariando, por vezes de forma extrema, as belas ideias e os grandes propósitos que preconizavam.

Johnson dedicou-se a demolir,aos olhos dos leitores, algumas lendas construídas à volta dos autores que aborda,sugeridas em parte por uma observação dos seus escritos que não teve em conta as escolhas objetivas da sua vida pessoal. Um pouco como na sentença que sugere «olha para o que eu digo, mas não para o que faço». Já conhecia alguns dos episódios evocados no livro, mas nunca estes me haviam sido revelados de forma tão clara e encadeada em modelos de comportamento, abalando, admito, o modo como passei a olhar Rousseau, Shelley, Karl Marx, Ibsen, Tolstoi, Hemingway, Brecht, Bertrand Russell, Sartre, Lilian Hellman, Norman Mailer e alguns outros. E nem o facto de conhecer as tendências politicamente conservadoras do autor, e os preconceitos de abordagem que em alguns dos casos elas determinaram, reduziu o efeito de choque perante tantos sinais objetivos de traição, inveja, perfídia,vaidade, escroqueria, deslealdade ou desonestidade, tanto intelectual quanto pessoal.

Não que fosse novidade – para mim, bem como para a generalidade das pessoas não totalmente crédulas ou ingénuas – a distância que tantas vezes vai entre a imagem pública que muitos notáveis procuram projetar de si e a realidade das escolhas e dos gestos que foram praticando em vida. Todos conhecemos pessoas, vivas ou mortas, com uma obra pública notável, amplamente reconhecida, e com uma vida triste ou mesmo lamentável.Podem mesmo incluir-se na longa lista grandes nomes dos combates pela liberdadee pela democracia que pouco ficaram a dever à honestidade pessoal e se comportaram muitas vezes como tiranos junto da família chegada, amantes, colegas, alunos, admiradores,correligionários, ou, pior ainda, pessoas dependentes. Cheios de amor pela distante humanidade, é certo, mas indiferentes aos mais próximos.

Na realidade, a adequação da vida pessoal aos grandes princípios proclamados de forma pública exige esforço de coerência e vontade, comportando ainda um elevado número de riscos. Fazê-los corresponder às relações quotidianas com os outros, transformar a ética individual que se exalta num código de conduta, não é tarefa fácil, requerendo um constante esforço. E muitos dos que o procuraram fazer pagaram caro por isso, dado ser frequentemente mais fácil exibir ou esconder diferentes rostos que expor de forma pública um único, reconhecível em todos os momentos e aplicável a todas as relações humanas. Albert Camus, um dos que sempre procurou fazê-lo, considerou a moral individual – não a coletiva, que julgava um fator de opressão – como «uma teoria da ação», como uma forma de compromisso, capaz de definir alguns deveres de conduta a todo aquele que pretender viver coerentemente e em paz com a sua consciência.

Um comentário final. Com esta crónica não pretendo contribuir para arruinar a reputação dos autores cuja vida pessoal e social foi revolvida no livro citado por Paul Johnson. Pessoalmente, continuo a admirar a obra imortal de quase todos eles, em particular as de Rousseau, Marx e Sartre, mas depois desta experiência de leitura admito que deixei de os encarar da mesma forma. Porque falíveis, talvez na minha consciência se tenham até tornado mais humanos. Em contrapartida, perderam o estatuto de semideuses. Um ou outro deixou de me interessar.

Fotografia: Outside, por Iwan Puken.
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 29/12/2018

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2018/12/29/a-distancia-entre-as-palavras-e-as-acoes/

A teoria de tudo, a história de um gênio

Tem havido muita conversa sobre a vida de Stephen Hawking, sua doença, seu grande senso de humor e sua importante contribuição para o campo da física. A teoria de tudo é um filme de 2014 dirigido por James Marsh que conta o lado mais cotidiano e humano do famoso físico inglês. É inspirado na biografia Verso l’infinito ( Viagem ao infinito: minha vida com Stephen ), escrita por Jane Hawking, primeira esposa de Hawking, sobre os anos que passaram juntos.

O filme A teoria de tudo encontrou grande consenso entre os críticos e recebeu várias indicações ao Oscar. O ator que desempenhou o papel de Stephen Hawking, Eddie Redmayne, ganhou o Oscar de Melhor Ator. Não foi fácil levar esse filme para a tela grande, precisou da aprovação de Jane e Stephen , já que é uma história pessoal e delicada. Foi uma aposta arriscada.

Stephen Hawking apreciou tanto o filme que se ofereceu para emprestar sua voz sintetizada às partes finais, elogiou a interpretação de Redmayne e não se empolgou. A teoria de tudo , em vez de se transformar em drama, nos excita, nos move e nos envolve completamente. Isso nos aproxima do outro lado da vida de um gênio , um lado mais amargo, de uma pessoa que comete erros como qualquer outra pessoa e que tem um excepcional senso de humor, apesar de ter perdido a capacidade de se mover.

Às vezes idealizamos pessoas ilustres e famosas em todo o mundo, pensamos que sua vida é muito diferente da nossa, não sofrem, são perfeitas, o dinheiro resolve seu problema … A teoria de tudo nos mostra a pessoa por trás do gênio, no bem e no mal, na espontaneidade de sua vida cotidiana. É também a história de uma mulher, Jane, uma grande lutadora, que nos lembra da importância do amor e do apoio a uma pessoa apesar das dificuldades.

Após a morte do físico, muito tem sido dito sobre sua vida e seu trabalho como cientista e não há dúvida de que ele foi um dos grandes gênios do século 21 e que ele será lembrado para sempre. A teoria de tudo é uma homenagem à vida, ao cotidiano, à esposa de Hawking, aos seus filhos e um grande presente para todos os espectadores.

Superação pessoal: A teoria de tudo

O filme começa com uma festa universitária durante a qual um jovem Stephen sabe o que mais tarde se tornará sua esposa, Jane. Os dois parecem muito diferentes: ele estuda ciências, ela escreve cartas, ele é ateu, ela é crente. Muito em breve, no entanto, eles se apaixonam. Stephen começa a notar os primeiros sintomas de uma doença estranha, que então será diagnosticada como doença do neurônio motor (ligada à ELA, ou seja, esclerose lateral amiotrófica).

Stephen tem apenas 21 anos quando recebe o diagnóstico, ele está prestes a discutir a tese de doutorado e um futuro brilhante espera por ele. Os médicos, no entanto, dizem que ele tem com menos de dois anos de vida. Por esta razão, Stephen decide se afastar de Jane e esconder a verdade, mesmo que não por muito tempo.

Quando Jane descobre sobre a doença, ela decide ficar com ele, mesmo que o tempo pareça estar contra eles. Hoje sabemos que Stephen Hawking não só superou esses dois anos de vida, mas se tornou um exemplo de superação pessoal e nenhuma cadeira de rodas parou sua curiosidade e seu desejo de conhecimento.

O filme transmite o sofrimento do jovem Hawking, seu medo e a rejeição inicial do terrível diagnóstico, sua luta interior, raiva e finalmente a aceitação … Passamos por todas essas fases graças à magnífica interpretação de Eddie Redmayne e Felicity Jones no papel de sua esposa Jane. Contra todas as probabilidades, Jane e Stephen criam uma família e têm três filhos. Stephen dedica sua vida à ciência e Jane, sem qualquer ajuda, cuida de todo o resto.

É incrível ver o sacrifício de Jane e sua devoção ao marido, especialmente quando ele recusa toda a ajuda e não percebe que ela se sente frustrada, porque ela tem que lidar com três filhos pequenos e um marido que dificilmente pode ajudá-la. Jane desiste de tudo por Stephen, por sua família, e se torna um grande apoio para o gênio da física.

O legal desse filme é que ele não homenageia apenas a figura de Hawking como físico, mas retrata seu lado mais humano e, acima de tudo, é um tributo a Jane, uma mulher que foi capaz de tudo por amor, um guerreira cuja batalha inspirou o filme que todos podemos ver hoje. A superação pessoal é um tema fundamental neste filme, não só no que diz respeito a Stephen, mas também com Jane.

Aulas de vida na teoria de tudo
A teoria de tudo é também um espelho que reflete a realidade de um mundo em que certas pessoas são recompensadas por seu trabalho e outras deixadas de lado pela mesma razão. Em várias ocasiões, falamos sobre os problemas econômicos que Jane e Stephen enfrentam, algo que nunca teríamos imaginado de um físico tão famoso.

Na verdade, o filme é um retorno às raízes, quando o gênio ainda não era uma celebridade e nos lembra que, ao contrário dos astros da música ou do esporte, muitos geniosnão são recompensados por seus esforços, eles não são reconhecidos antes. de uma certa idade e ter dedicado sua vida à pesquisa não é garantia de sucesso.

Somos convidados a refletir sobre o que realmente importa na vida, lembrar os valores a não perder, entender como é importante ter um propósito, não desistir apesar da adversidade, ter uma família e amigos para abraçar, o dom da vida … Por que nós não sabemos quando tudo isso terminará.

“A vida seria trágica se não fosse divertida.” – Stephen Hawking

Stephen e Jane acreditam que o tempo é contra eles, que a vida do físico pode chegar ao fim a qualquer momento e por isso eles escolhem queimar os estapas, formar uma família o mais rápido possível e aproveitar cada momento juntos, conscientes de que a estrada nem sempre será fácil. Os dois acabam se separando, mas não vemos sua separação como um acontecimento trágico; antes, é um gesto de amor pelo outro.

Jane sacrificou tudo por seu marido e Stephen foi o único a tomar outro rumo e mesmo que a ideia pareça improvável, egoísta e irracional, não é. Jane teve uma segunda chance, um renascimento, sem deixar de amar Stephen, mas começando um novo caminho.

A interpretação de Eddie Redmayne merece elogios porque ser Hawking e moldar seus gestos poderia ter sido artificial e forçado, mas isso não aconteceu. Redmayne é um Hawking em movimento, natural, sem artifícios e totalmente credível.

A teoria de tudo é uma bela maneira de lembrar Stephen Hawking, mas também para nos lembrarmos de que ninguém escapa à morte, que todos nós podemos redimir o lado humano que parece que perdemos, que nunca devemos perder o sorriso e o senso de humor. A vida também é feita de adversidade, de obstáculos, somos nós que escolhemos como vivê-la, como delinear o caminho a ser percorrido para que valha a pena.

Via la mente e meravigliosa

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/a-teoria-de-tudo-a-historia-de-um-genio/

Senhora do Pescoço Longo, Parmigianino

“Senhora do Pescoço Longo”, Parmigianino. Parmigiano foi um proeminente pintor italiano do maneirismo.

É um quadro fundador do maneirismo (Sec. XVI)

Do italiano “maniera” que equivalia no tempo a estilo. Posteriormente à morte de Rafael, passou a encarar-se como degenerescência do Renascimento. Premeditada transgressão das regras codificadas durante o Renascimento clássico.

Na PINTURA, a figura humana aparece distorcida, alongada e de atitudes afectadas ou de formas profundamente musculosas, por vezes inseridas em complexas alegorias.

Na ESCULTURA, a figura humana aparece em espiral (serpentinata), as formas esguias, o gosto complexo das referências mitológicas são referenciais a que pode juntar-se atitudes violentas ou em equilíbrio, quer na estatuária, quer no baixo-relevo.

Na ARQUITECTURA, registam-se requintadas soluções ambíguas, extrema complexidade dos ritmos decorativos, ambivalência espacial e gosto pelo efeito bizarro.

Informação adicional

Artista: Parmigianino
Local: Galeria dos Ofícios
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1534–1535
Períodos: Maneirismo


Auto-retrato em espelho convexo.

Nota de edição

Parmigianino1503-1540

Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido por Parmigianino (que significa “pequeno parmesão”) ou ainda Parmigiano, foi um proeminente pintor italiano do maneirismo, tendo pintado também em Florença, Roma e Bolonha, para além da sua cidade natal, Parma.

A importância de sua obra supera amplamente as poucas obras que hoje existem. Entre estas contam-se A Conversão de São Paulo, de 1527, A Virgem da Rosa (1529), A Virgem com Longo Pescoço (c. de 1535 – imagem), o Auto-retrato diante do espelho côncavo, a Escrava Turca e a Antea.

A sua obra e personalidade afirmam-se em contacto com o primeiro maneirismo toscano, e através das obras dos grandes mestres Rafael e Michelangelo, conseguindo traduzir de forma original os modelos do Renascimento com uma orientação já plenamente maneiristas.

Para Parmigiano, a função da arte era transmitir sensações estranhas e excitantes, para o que teria de criar um necessário artificialismo.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/senhora-do-pescoco-longo-parmigianino/

Marx e a dimensão antropogenética da obra de arte*

Tanto nos “Manuscritos Económico-Filosóficos” como na “Introdução à Crítica da Economia Política” Marx aborda tanto aspectos da historicidade da Arte – que transcende o seu momento histórico - como o papel das Artes e da experiência artística enquanto factores de construção dos próprios sentidos humanos, eles também construção histórica.

É conhecida a dificuldade que Marx coloca no final da «Introdução à Crítica da Economia Política» (de 1857): essa dificuldade confunde-se com a da especificidade da história tal como o método da economia política a enfrenta.

Mas a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. A dificuldade reside no facto de nos proporcionarem ainda um prazer estético e terem ainda para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis.

A resposta de Marx a esta dificuldade pode ser considerada algo equívoca e levar consigo alguns juízos que revelam aspectos da ideologia de quem os emite, no caso, podemos ver, na atribuição desse estatuto, traços de uma posição estética tradicionalista própria da idade clássica. Mas só um fraco leitor ficaria por este equívoco. A resposta efectivamente dada à dificuldade é um dos momentos em que o pensamento de Marx aflora uma concepção da arte como construção antropológica aberta.

Um homem não pode voltar a ser criança sob pena de cair na puerilidade. Mas não é verdade que acha prazer na inocência da criança e, tendo alcançado um nível superior, não deve ele próprio imitar aquela verdade? Em todas as épocas não se julga ver repetido o seu próprio carácter na verdade natural do temperamento infantil? Porquê então a infância histórica da humanidade naquilo precisamente em que atingiu o seu mais belo florescimento, porquê esse estado de desenvolvimento para sempre perdido, não há-de exercer um eterno encanto?

Há crianças mal-educadas e crianças que se dão ares de pessoas crescidas. A maior parte dos povos da antiguidade pertenciam a esta categoria. Os gregos eram crianças normais. O encanto que a sua arte exerce sobre nós não está em contradição com o carácter primitivo da sociedade em que ela se desenvolveu. Pelo contrário, é uma consequência desse carácter primitivo e está indissoluvelmente ligado ao facto de as condições sociais e suficientemente maduras em que esta arte nasceu – nem poderia ter nascido em condições diferentes – nunca mais poderem repetir-se.

Esta resposta à perplexidade provocada pela perenidade dos efeitos estéticos face à dimensão histórica da arte não é satisfatória tal qual, mas coloca-nos numa situação em que se faz a experiência de um anacronismo: as obras de um passado relativamente distante são experienciadas num dado presente como sendo a infância histórica da humanidade que permanece à nossa disposição como uma infância perdida mas revisitável. Esta resposta apresenta-se-nos como uma resposta alegórica, ou seja, uma resposta que narrativiza uma metáfora. Essa metáfora apresenta-nos a relação entre os sujeitos modernos e o seu passado artístico como uma relação entre as diversas idades do homem e, logo, como uma metáfora antropológica que nos transporta para o terreno de uma antropologia cultural ou mesmo para uma visão da antropogénese.

Assim, essa narrativa de uma metáfora torna-se uma concepção que se abre à complexidade da história. Na história, as obras modificam e acumulam os sentidos que nelas são lidos pelas diferentes gerações humanas. O valor de normas e de modelos inacessíveis são uma construção constante e descontínua dessas gerações que, ao lerem historicamente, de acordo com o seu presente, sentem a diferença entre esses dois presentes; aquele em que leem, e aquele em que foram escritas essas obras e fazem essa diferença recuar para uma espécie de origem perdida, esse passado histórico.

Assim, a tragédia e a epopeia gregas, a Divina Comédia de Dante Alighieri e o teatro de Shakespeare, aparecem para sucessivos presentes futuros, como obras que formam a nossa infância histórica como humanos, o que significa também que são obras em que a formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até hoje.

Leia original aqui

(DL) Dulce Maria Cardoso e a necessidade de nos dessalazarisarmos

No Jornal de Letras desta quinzena o tema de capa foi a publicação de «Eliete», o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso, podendo nele ler-se uma entrevista por ela concedida a Luís Ricardo Duarte e uma encomiástica crítica de Miguel Real. Logo de início este escreve que,“do ponto de vista da ficção em Portugal, não conhecemos outro romance que tenha explorado e analisado tão perfeitamente a situação atual da família, isto é, com uma tão grande soma de pormenores do quotidiano, aparentemente irrelevantes, que, porém, acumulados e estruturalmente nem organizados, constituem o estilo realista da escritora.”
O enredo gira em torno da protagonista, cujo nome decorre de ter podido ser o outro escolhido pelos pais da autora para lhe darem identidade, e que vê a vida virada do avesso, quando a avó se vê acometida da doença de Alzheimer. Ora fora essa senhora muito religiosa, quem induzira na neta os seus padrões morais muito rígidos. Que ela se sente agora tentada a pôr em causa, insatisfeita na relação conjugal com Jorge, e com as filhas próximas da emancipação definitiva. De súbito as suas diferenças comportamentais em relação à melhor amiga de infância, Milena, deixam de fazer sentido, dispondo-se a olhar interessadamente para outros amores e expetativas de futuro.
Num romance em que as realidades tecnológicas, mormente as possibilidades abertas pelas novas redes sociais, multiplicam as oportunidades de se descobrir o que antes era insuspeitável, a própria Eliete vai surpreender-se quando Oliveira Salazar vai revelar-se-lhe numa faceta inesperada, que não só a do ditador, que, décadas a fio, impossibilitara o desejo natural à felicidade dos que oprimira.
Na referida entrevista a escritora faz incómodomea culpa:“como é um romance sobre a identidade , também a minha, com muito desgosto tive de reconhecer que sou herdeira de Salazar. Ou seja, carrego uma série de pensamentos salazaristas, porque, ao longo de quase cinquenta anos, ele deixou a resignação, o conformismo, a pouca capacidade cívica, o medo. Teve certamente um papel no nosso modo de vida e é estranho que não seja reconhecido.”
O romance tem, logo à partida, essa virtude: a de nos ajudar a identificar o que o salazarismo inculcou em nós, por muito que o execrássemos, e dele nos quiséssemos livrar. A necessidade de expulsarmos de nós a marca dessa ditadura continua a ser um trabalho de todos os dias.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/dl-dulce-maria-cardoso-e-necessidade-de.html

FREUD E EINSTEIN – PORQUÊ A GUERRA? – REFLEXÕES SOBRE O DESTINO DO MUNDO por Clara Castilho

Foi em 1932 que  a Sociedade das Nações incumbiu Albert Einstein de eleger um interlocutor com o qual se manifestasse por via epistolar sobre a questão de ser ou não possível antever a evolução do homem relativamente à superação da sua agressividade destrutiva.  Foi sugerido o nome de Sigmund Freud. Em Junho de 1932, o secretário do Instituto escreveu a Freud, convidando-o a participar, ao que ele prontamente acedeu. A carta de Einstein chegou-lhe no início de Agosto, e sua resposta estava concluída um mês depois. A correspondência foi publicada em Paris, pelo Instituto, em Março de 1933, em alemão, francês e inglês, simultaneamente. No entanto, sua circulação foi proibida na Alemanha.

Einstein e Freud apenas tiveram um encontro no início de 1927, na casa do filho mais novo de Freud, em Berlim. Em carta a Ferenczi, dando conta do ocorrido, Freud escreveu: ‘Ele entende tanto de psicologia quanto eu entendo de física, de modo que tivemos uma conversa muito agradável.’

Einstein tinha 47 anos, Freud 70, com cancro da boca e surdo de um ouvido. Eles discutiram seu trabalho em seus respectivos campos. Einstein não estava entusiasmado com a psicanálise.Freud, por sua vez, pensou que Einstein era um homem bom, mas totalmente ignorante sobre a psicanálise. Ele escreveu a um amigo: “Einstein entende tanto sobre a psicologia como eu sobre física, por isso, tivemos uma conversa muito agradável.”

Já anteriormente Freud escrevera sobre o tema da guerra cujos textos vêm incluídos no livro : “Considerações actuais sobre a Guerra e Morte”  e “Caducidade”, ambos de 1915). Tinham sido escritos logo após o início da primeira guerra mundial.

Einstein para Freud:….”como é possível que as massa se deixem inflamar pelos meios referidos, até ao holocausto de si próprias? Impõe-se uma única resposta: é porque o homem tem dentro de si o prazer de odiar e de destruir. Em situações normais a sua paixão está latente, e somente emerge em circunstâncias excecionais; mas é muito fácil atiçá-la e elevá-la à altura de uma psicose coletiva. Aqui reside, talvez, o núcleo do complexo de fatores que procuramos destrinçar, um enigma que somente pode ser resolvido por quem é perito no conhecimento dos instintos humanos.

Chegamos aqui à última pergunta. Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica dos homens de modo a tornarem-se capazes de resistir às psicoses do ódio e da destruição.”

Responde Freud: …”Durante quanto tempo deveremos esperar até que os outros se tornem também pacifistas? É difícil dizê-lo, mas talvez não seja uma esperança utópica a de que estes dois factores – a atitude cultural e a angústia justificada face às consequências da guerra futura – ponham fim aos conflitos bélicos num prazo previsível. É-nos impossível adivinhar por que caminhos ou desvios se conseguirá tal fim. Por agora, só podemos dizer: Tudo o que fomente a evolução cultural actua contra a guerra.

Saúdo-o cordialmente, e peço desculpa se a minha exposição o desiludiu”.

Passaram-se 86 anos e estaremos talvez pior. A esperança de Freud não se concretizou. Mas não há dúvida de que a evolução cultural actua contra a guerra.

 

Ver original em 'A Noite dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/15/freud-e-einstein-porque-a-guerra-reflexoes-sobre-o-destino-do-mundo-por-clara-castilho/

Bernardo Bertolucci morre em Roma aos 77 anos

Bernardo Bertolucci morreu em sua casa em Roma após uma longa doença, disse seu empresário. Ele estava doente há anos e confinado a uma cadeira de rodas desde o início dos anos 2000 devido a uma operação na coluna.

Estrelado por Marlon Brando, “O Último Tango em Paris” foi censurado em vários países, inclusive a Itália, onde só foi liberado para exibição no início de 1987.

O filme rendeu uma indicação ao Oscar a Bertolucci e poliu suas credenciais internacionais, mas o filme seguinte, “1900”, um épico histórico de cinco horas estrelado por Robert De Niro, Gerard Depardieu, Donald Sutherland e Burt Lancaster, marcou o início de um longo período de fracassos comerciais.

Em 1987 ele se recuperou com “O Último Imperador”, lindamente filmado com seu diretor de fotografia de longa data Vittorio Storaro, que levou os nove Oscar aos quais foi indicado e reafirmou a posição de Bertolucci como um cineasta com um olhar diferenciado.

Nascido em Parma, no centro da Itália, Bertolucci era filho do poeta e crítico de cinema Attilio Bertolucci.

Ele começou a escrever poesias na infância e publicou seu trabalho em revistas antes da adolescência, conquistando um prêmio nacional de poesia quando estudava em Roma.

Aos 15 anos ele conseguiu uma câmera emprestada para fazer seus primeiros filmes, curtas mudos de 16 milímetros, e em 1961 abandonou a faculdade para se tornar diretor assistente do jovem Pier Paolo Pasolini na filmagem de “Accattone – Desajuste Social”.

Os primeiro trabalhos de Bertolucci estavam longe do sensacional, mas são notáveis por seus retratos apaixonados dos males sociais, refletindo suas opiniões contundentes de esquerda.

“O Último Tango” causou polêmica por causa do sexo explícito —em particular uma cena de estupro anal— e foi repudiado pelos tribunais italianos por ser “obsceno, indecente e incitar os instintos mais baixos da libido”.

A cena de estupro, lembrada principalmente pelo uso de manteiga por Brando como lubrificante, também traumatizou a atriz principal do filme, Maria Schneider, à época uma desconhecida de apenas 19 anos.

“Me senti humilhada e, para ser honesta, me senti um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem pediu desculpas. Felizmente, houve apenas uma tomada”, disse ela ao jornal britânico Daily Mail antes de sua morte em 2011.

A controvérsia ressurgiu em 2016, quando foi divulgado um vídeo de Bertolucci contando em uma aula de mestrado em Paris: “Eu fui, de certo modo, horrível com Maria porque não contei a ela o que estava acontecendo”.

Respondendo a uma onda de indignação, o diretor disse que Schneider sabia tudo sobre a cena com antecedência, exceto o uso de manteiga, que era uma ideia que ele havia discutido com Marlon antes de filmar.

O período subsequente a “Último Tango” foi de fracassos para o diretor, que se voltou ao Oriente em busca do tema de “O Último Imperador”, que trata da vida de Pu Yi, o derradeiro regente imperial da China.

Bertolucci continuou fazendo filmes até 2012, mas nunca com tanto sucesso crítico e comercial. Ele foi homenageado com prêmios pelo conjunto de sua obra nos festivais de cinema de Cannes e Veneza.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Reuters) / Tornado

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https://www.jornaltornado.pt/bernardo-bertolucci-morre-em-roma-aos-77-anos/

APRESENTAÇÃO DOS CADERNOS SELVAGENS DE DEZEMBRO

                    CS DEZ2017 banner.jpg Os Cadernos Selvagens[1] é uma publicação da Fábrica de Alternativas com textos de análise, de crítica, reportagens, entrevistas, reflexões e poemas, escritos pelos nossos associados. Os temas são variados e sempre interessantes. 

Às 20 horas teremos, como sempre, um jantar vegetariano seguido de convívio. 

Reservas para o jantar para o email: 

Contamos contigo, contamos com todos

(*) ASSOCIAÇÃO FÁBRICA DE ALTERNATIVAS

      Morada: Rua Margarida Palla 19A – Algés

      Email: fabrica.de.alternativas@gmail.com

References

  1. ^ Cadernos Selvagens (www.fabricadealternativas.pt)

Leia original aqui

O hábito de ler é o que nos torna mais humanos, diz a ciência

A gente já sabia, mas os estudiosos confirmaram: ser um leitor de ficção te faz ter mais empatia pelo próximo.

por Giovana Feix, via M de Mulher

Você pode estar precisando de uma desculpinha para ler mais (ou para estimular alguém a fazer o mesmo) ou de um empurrãozinho para decidir qual será sua próxima leitura. Ou pode estar, simplesmente, querendo entender um pouco melhor como funciona essa coisa bem louca chamada “humanidade”.

Para qualquer um destes três casos, nós temos boas notícias: para a ciência, tem ficado cada vez mais claro o quanto aqueles que leem literatura de ficção desenvolvem o dom da empatia muito mais do que os outros.

E por “ficção” entende-se que vai além da científica – estamos falando de romances, mesmo, histórias inventadas, daquelas que nos transportam diretamente para a cabeça de um ser que, na verdade, não existe.

Em meados do século passado, surgiu a Teoria da Mente, descrita pela revista Science como “a capacidade humana de compreender que as outras pessoas têm crenças e desejos e que eles podem ser diferentes de suas próprias crenças e desejos”.

Um estudo publicado em 2013 na mesma revista descobriu, justamente, que os leitores de romances costumam se sair melhor, quando testados a respeito da Teoria da Mente. Ou seja: eles compreendem melhor o fato de que os seres humanos têm opiniões diferentes.

Em julho deste ano, outra pesquisa sobre empatia e a leitura examinou como essa relação é poderosa. Entre os participantes, alguns foram convidados a ler o conto Saffron Dreams, da autora paquistanesa Shaila Abdullah, enquanto outros só foram informados sobre como a história se desenrolava.

Depois, todos eles foram expostos a fotografias de olhares – de várias pessoas diferentes – e estimulados a supor o que cada um dos fotografados estava pensando e sentindo.

Os que leram o conto viam com empatia semelhante os rostos de pessoas árabes e de pessoas brancas, mais do que os outros que não leram. Resumindo: além de ler ficção, precisamos investir nas narrativas, mesmo.

Entre um livro de ficção e uma biografia, portanto, você já pode ter certeza do que escolher, para a próxima leitura. Aproveite!

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-habito-de-ler-e-o-que-nos-torna-mais-humanos-diz-a-ciencia/

Poesia no Feminino - Maria Teresa Horta

JOELHO
 
Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

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Ver original em 'Ventania' na seguinte ligação:

https://ventania.blogs.sapo.pt/poesia-no-feminino-maria-teresa-horta-1290787

PENSAMENTO E FILOSOFIA

Deixei passar o Dia Mundial da Filosofia e, ao ler agora o texto de Helena Damião, neste blogue, de 16 de Novembro, alusivo à efeméride, parece-me oportuno deixar aqui algumas reflexões em torno deste tema.
O pensamento, todos sabemos, é um produto imaterial do cérebro e o cérebro é matéria, é oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e umas pitadas de outros elementos químicos Não tem dimensão física. Não tem volume nem massa, nem peso, nem cor, não é quente nem frio e não ocupa espaço. Para ele não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras materiais. É ubiquista, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz. Não surgiu da noite para o dia, por obra e graça divina. É o culminar de uma evolução da matéria surgida com o começo do Universo, há cerca de 13 800 milhões de anos. O cérebro, cuja estrutura vai sendo a pouco e pouco desvendada, adquiriu, na espécie humana, complexidade que lhe permite pensar, criar conhecimento. Feito dos mesmos átomos do universo que conhecemos, o cérebro humano, aceite como fruto dessa evolução, além de coordenar toda a actividade vegetativa do corpo em que está inserido, é matéria que atingiu o superior patamar do pensamento, criando e combinando ideias a partir das percepções que os sentidos lhe fornecem do mundo físico que o rodeia. Através dele, o homem adquiriu capacidade de intervir no seu próprio curso e no da Natureza que o criou e lhe permite viver, seguindo por caminhos ditados pela sua imensa capacidade de decisão Na sua possibilidade de obter conhecimento, de deduzir, inferir e de o transmitir, o cérebro humano, surgido à superfície da Terra, é a expressão mais complexa de uma dinâmica própria da evolução da matéria, na qual foi consumida a totalidade do tempo do Universo, os ditos cerca de 13 800 milhões de anos Pelos testemunhos que deixaram, sabemos, sem sombra de dúvida, que os nossos antepassados pré-históricos exerceram actividade psíquica, ou seja, que pensaram. Se tivermos em atenção a evolução do ser humano, desde o mais antigo primata, até ao “Homo sapiens” actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, as perguntas que se ocorre fazer são:
- Em que patamar evolutivo da hominização surge o pensamento mais elaborado do que o dos animais vulgarmente tidos por irracionais? 
- Foi no do “Neanderthal”, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no do “Cro-Magnon”, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
Cingindo-nos ao “Homo sapiens”, a Pré-história ensina que, ao longo da sua evolução física e psíquica, este nosso antepassado observou, experimentou e estabeleceu relações de causa-efeito, transmitindo aos descendentes o saber que foi acumulando, servindo-se para tal da linguagem de que dispunha, de início o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. Fez tudo isto e muito mais antes dos sumérios terem iniciado a arte de escrever, há cerca de 5000 anos. E foi só, a partir do momento em que passou a viver em grupos progressivamente mais alargados, que se deparou com questões associadas aos valores morais, estéticos, políticos e religiosos. Foi nesta caminhada que surgiram os primitivos filósofos, designação genérica pela qual são habitualmente referidos matemáticos, geógrafos, historiadores, astrónomos e outros pensadores desse tempo Foi o confronto entre a realidade que se lhes deparou e as ideias que, a partir dessa realidade, foram formulando, que conduziu o pensamento no caminho de uma ciência embrionária que, nessa fase, se confunde com a filosofia, no sentido de interesse ou preocupação pelo saber. É nesta fase que a filosofia ganha o estatuto de “mãe de todas as ciências". Foi a admiração e, por vezes, a perplexidade decorrentes de tudo o que os sentidos traziam ao seu conhecimento, que desencadearam neles esta atitude mental que está na base do maravilhoso edifício do conhecimento científico e tecnológico que temos ao nosso alcance. Alistoriadores, classificados por alguns como “orientalistas”, defendem que a filosofia grega teria sido herança e posterior desenvolvimento de uma sabedoria vinda de povos orientais. Tem havido controvérsias sobre a origem desta forma de organização do pensamento, se na Grécia, se em civilizações orientais mais antigas, na Pérsia, na Índia, na China... Actualmente parece haver unanimidade em considerar a Grécia como o berço da filosofia, o que parece ser confirmado por estudos recentes, com ênfase nos arqueológicos. Terá sido, então, que foi entre os gregos que começou a audácia e a grande aventura do pensamento. Terá sido no decurso do século VII a. C., com o desenvolvimento e progresso nos trabalhos diários, que alguns gregos começaram a esboçar explicações racionais que foram conduzindo à progressiva rejeição das explicações míticas da realidade. É hoje consensual que a filosofia, como superior elaboração do pensamento, nasceu da recusa ao carácter sobrenatural dos mitos, que então dominavam as crenças, não só da sociedade grega, mas de toda a Ásia Menor. A passagem de uma mentalidade fundamentada em crenças de carácter religioso, a uma outra, assente no raciocínio, marca, pois, o início da filosofia. A filosofia surge, assim, como uma espécie de rompimento com a visão mítica do mundo grego. Enquanto que os mitos não dispunham de qualquer suporte racional, a filosofia inaugurava o discurso abstrato e universal, amparado na reflexão e argumentação, formulando concepções do mundo isentas de contradições e imperfeições no que respeita o raciocínio lógico. Ao contrário da religião, baseada na fé, que não contesta, respeita e, praticamente, não se afasta da tradição e dos textos sagrados, a filosofia serve-se exclusivamente da razão para aceitar ou rejeitar as teses que se lhe deparam.
A. Galopim de Carvalho

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/pensamento-e-filosofia.html

Quatro prémios internacionais para o cinema português

Os filmes Terra Franca, de Leonor Teles, e Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora, foram distinguidos em festivais no Brasil, na Argentina e em França.

O filme Terra Franca, primeira longa-metragem de Leonor Teles, foi premiado em mais dois festivais internacionais, na Argentina e em França, em cerimónias que aconteceram na sexta e no sábado.

Em comunicado, a produtora Uma Pedra no Sapato refere que o filme recebeu, no sábado, o Prémio de Melhor Primeira Obra da Competição Internacional na 33.ª edição do Festival Internacional de Cine de Mar del Plata (Argentina). Um dia antes, foi distinguido com o Prix de La Ville d'Amiens, no 38.º Festival International du Film d'Amiens, em França.

O filme já recebeu vários prémios, como o SCAM International Award no Festival Cinema du Réel, a Menção Especial no FIDADOC – Agadir International Documentary Festival e a Menção Especial no Les Rencontres Cinematographiques de Cerbère-Portbou.

Terra Franca, que retrata a vida de um pescador que vive numa comunidade piscatória à beira do Tejo, chega às salas de cinema portuguesas no dia 10 de Janeiro.

Leonor Teles conquistou o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, em 2016, pela curta-metragem Balada de Um Batráquio.

Dupla distinção também para João Salaviza

A longa-metragem Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora, foi premiada nos festivais de cinema de Mar del Plata, na Argentina, e Rio de Janeiro, no Brasil.

Segundo um comunicado da produtora Karõ Filmes, o filme foi distinguido, na noite de sábado, com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, depois de, dias antes, ter sido duplamente premiado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (Melhor Realização e Melhor Fotografia).

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, que teve estreia na última edição do Festival de Cannes, já foi exibido em mais de trinta festivais internacionais e recebeu nove prémios.


Venceu, em Agosto, o prémio de melhor obra de ficção do Festival de Cinema de Lima, no Peru, e, em Maio, o prémio especial do júri da secção «Un Certain Regard» no Festival de Cannes, além de uma distinção por melhor fotografia.

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos foi rodado durante nove meses, em 16mm, sem equipa, na aldeia Pedra Branca, no estado de Tocantins, no Brasil. O filme – que vai poder ser visto nos cinemas em França e no Brasil - só chegará às salas portuguesas em Março.

O realizador português João Salaviza recebeu distinções por anteriores curtas: Arena (2009) foi distinguida com a Palma de Ouro, em Cannes, e Rafa (2012) com o Urso de Ouro, em Berlim.

Com Agência Lusa

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Camané e Mário Laginha juntos em novo projecto ao vivo

 

O fadista Camané e o pianista e compositor Mário Laginha juntaram-se num novo projecto, «Aqui está-se sossegado», que será apresentado ao vivo no próximo ano.

«Aqui está-se sossegado» será apresentado em várias localidades, sendo certo que, a 26 de Janeiro, passa pela Casa da Música, no Porto, e, a 9 de Fevereiro, por Águeda, disse à Lusa o agente de Camané.

O fadista e o pianista «já deram vários concertos juntos», e do «excelente entendimento sentido nessas colaborações esporádicas» resulta «o inevitável aprofundamento desta simbiose».

Este novo projeto é «de raiz para dar mais brilho a uma voz e a um piano que se descobriram cúmplices desde a primeira vez que encheram um palco».

O alinhamento dos concertos incluirá «cerca de duas dezenas de temas, saídos do cânone fadista tradicional, do repertório de Camané, e incluirá também inéditos compostos por Mário Laginha que, recorde-se, musicou já um poema de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) para Camané, "Ai Margarida"».

O álbum mais recente de Camané, Camané canta Marceneiro, foi editado em Outubro do ano passado. No disco, que conta com a participação de Carlos do Carmo, o fadista recriou temas do repertório de Alfredo Marceneiro (1891-1982), como «Ironia» ou «A Casa da Mariquinhas».

Em Julho venceu, com aquele que é o seu oitavo álbum de estúdio, o Prémio Manuel Simões para Melhor Disco de Fado, no ano da criação do galardão. Já foi distinguido com três prémios Amália e venceu por duas vezes a Grande Noite do Fado de Lisboa, em juniores e seniores.

Camané fez parte do projecto Humanos, de homenagem a António Variações, com Manuela Azevedo, David Fonseca, Helder Gonçalves e Nuno Rafael, lançado em 2004.

Mário Laginha tem uma carreira de mais de duas décadas no jazz, em nome próprio e em partilha com outros artistas, como Maria João, Carlos Bica e Miguel Amaral.

Em finais de Setembro do ano passado, o pianista editou o álbum Setembro, com o saxofonista inglês Julian Arguelles e o baterista norueguês Helge Andreas Norbakken.

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Vêm aí os Dias do Desassossego

Duas semanas a festejar Saramago e Pessoa. Quinze dias dedicados aos livros e à leitura. Assim vai ser até dia 30 de Novembro, na Casa Fernando Pessoa e na Fundação José Saramago, que voltam a programar em conjunto os Dias do Desassossego com leituras encenadas, música, entrevistas, passeios literários e arte urbana.

Os encontros agendados acontecem entre o dia de nascimento de José Saramago e o dia da morte de Fernando Pessoa. Mas a edição deste ano é alargada a outros locais da cidade de Lisboa, como o Teatro São Carlos ou o Teatro São Luiz, e, pela primeira vez, também ao teatro do Campo Alegre, no Porto.

Os Dias do Desassossego, que celebram ainda os 20 anos da atribuição do Nobel ao escritor português e os 130 anos do nascimento de Pessoa, arrancam esta sexta-feira com a apresentação do Livro de Anabela Mota Ribeiro. “Por Saramago”, com fotografias de Estelle Valente, é apresentado pela escritora Ana Margarida de Carvalho e comentado por Pilar del Rio, na sede da Fundação José Saramago, em Lisboa, às 21 horas.

Segundo a autora, o livro, nas livrarias desde o início do mês, inclui entrevistas a José Saramago e a Pilar del Río – entrevistas que dizem respeito aos três últimos livros: “As Pequenas Memórias”, “A Viagem do Elefante” e “Caim” – bem como textos sobre a casa de Lanzarote e uma viagem ao México com Saramago.

Ilustrado com cerca de 65 fotografias originais, que percorrem alguns dos caminhos do escritor, tanto em Lanzarote como em Lisboa, a obra inclui ainda um posfácio de Fernando Gómez Aguilera, director da Fundação César Manrique e curador da Fundação José Saramago.

Decidi fazer este livro porque há a admiração imensa e um acreditar modesto mas firme de que o conjunto dos textos possibilita uma compreensão do escritor em casa. Casa-infância, casa-escrita, casa-Pilar, casa-Lanzarote, casa-mundo. O admirável trabalho fotográfico da Estelle Valente e o profundo trabalho exegético de Fernando Gómez Aguilera sobre a obra de Saramago e destes textos engrandecem imensamente o alcance deste livro. Por Saramago é uma forma de prestar tributo e agradecer o legado de Saramago».

escreve Anabela Mota Ribeiro

Os Dias do Desassossego terminam com um espectáculo criado especialmente para a ocasião: Miguel Loureiro reúne em palco Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, onde os cinco percorrem a heteronímia e os escritos esotéricos. Este trabalho intimista, que repete a 1 de Dezembro, pelas 18:30, na Casa Fernando Pessoa, desenha um percurso antológico que marca os 130 anos do nascimento do autor.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/vem-ai-os-dias-do-desassossego/

O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua’ – Ken Loach

O filme Eu, Daniel Blake, é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.

Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o El País em seu escritório no Soho londrino.

Como chegamos à situação que seu filme descreve?
É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.

Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.

A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.

As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.

Todo o cinema é político?
O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.

Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.

Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.

O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.

Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.

Como gostaria de ser lembrado?
Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.

Fonte:  El País – Brasil  Via revistaprosaversoearte

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-estado-cria-a-ilusao-de-que-se-voce-e-pobre-a-culpa-e-sua-ken-loach/

SOBRE A PARAPSICOLOGIA APOIADA PELA FUNDAÇÃO BIAL

A jornalista do Observador Vera Novais pediu-me uma opinião sobre os dois últimos livros de Luís Portela, médico e empresário ligado à Fundação Bial que apoia projectos de parapsicologia, alguns deles bastante estranhos como telepatia em animais. Está aquio seu artigo e em baixo, o meu depoimento, do qual foi destacado o excerto mais significativo para o assunto:
 
Ser Espiritual
Os dois livros mais recentes do Dr. Luís Portela, "Ser espiritual" e "Da ciência ao amor", não são de ciência nem de divulgação de ciência. Serão de especulação, de auto-ajuda, não sei. Tive dificuldade em lê-los, por nem sequer entender alguns dos termos utilizados. Não percebo muito do que dizem. O autor fala, por exemplo, de "energia universal" mas a "energia" de que fala não tem nada a ver com a energia da física, uma grandeza física bem definida . Não se percebe o que é essa "energia", pelo que a afirmação de que "somos partículas de energia universal" apesar de usar as palavras "partículas", "energia" e "universal," todas elas palavras da ciência, nada tem de científico. Nem há, em princípio, problema nenhum nisso, uma vez que o ser humano tem dimensões para além das da ciência. A questão surge apenas se algum leitor pensar que as afirmações desse tipo do livro têm alguma base científica: não têm. O título "Da ciência ao amor" engana, pois a ciência não tem maneira de descrever nem explicar o amor assim como não tem maneira de descrever a espiritualidade. Ciência, amor e espiritualidade podem coexistir sem que a primeira tenha de dominar as outras: isso seria cientismo. Disse isto mesmo disse no debate sobre os livros em que estive presente em Lisboa.
Fenómenos ditos parapsicológicos como, por exemplo, a telepatia ou comunicação com mortos referidos nos livros não tem a mínima base científica. Muitos trabalhos citados não têm suficiente credibilidade. Sei que a Fundação Bial tem apoiado um tipo de investigações muito estranho, que por vezes se aproxima da pseudociência, mas, como é evidente, é da sua responsabilidade gerir os dinheiros de que dispõe. Organiza colóquios no Porto, alguns dos quais já assisti, nos quais houve algumas apresentações interessantes: vi uma sobre o efeito placebo.