Cultura

Proteger o Património Cultural

«Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão, a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame.»


 

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntrica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa.
Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

Fonte: https://pracadobocage.wordpress.com/2019/05/09/proteger-o-patrimonio-cultural/

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Bela iniciativa

Uma nova e incontornável
página WEB sobre Garcia Lorca
aqui

«(...)Con fotografías cedidas en muchos casos por la fundación que representa a la familia del poeta, la web permite establecer "un viaje de ida y vuelta" a través de los numerosos recursos culturales y turísticos. Es precisamente esa vertiente turística y de promoción del patrimonio la que puso en valor José Entrena, presidente de la Diputación Provincial de Granada, durante la presentación del proyecto. Un labor que, en palabras del político socialista, tiene una “enorme trascendencia” pues abre el universo de Lorca “a millones de personas” y, de paso,permitirá dar “a conocer la provincia [de Granada] que tanto amó y que tanto le debe” al poeta. Además de una completa biografía y otra sección dedicada a la obra de García Lorca, dividida esta a su vez en su impronta literaria, musical y filmográfica,la web dispone de un índice alfabético con cerca de un centenar de personas relacionados con el poeta y datos útiles que incluyen museos, tours y una agenda actualizada de eventos.(...)»
(aqui)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Obra de José Mário Branco "é um mundo" e é revisitada em álbum tributo

De Osso Vaidoso a Ermo, de Camané aos Walkabouts, são mais de dez os artistas que interpretam temas de José Mário Branco, num disco-tributo que sai no dia 24 pela Valentim de Carvalho.

"O objetivo era mostrar a plasticidade da música do Zé Mário Branco, é muito abrangente e inspirou muita gente de várias gerações. A obra dele é um mundo", afirmou à agência Lusa Rui Portulez, produtor executivo do álbum.
Com data de lançamento para o dia 24, véspera do 77.º aniversário do cantor e compositor, 'Um disco para José Mário Branco' apresenta 16 temas revisitados por outros tantos nomes, quase todos da música portuguesa.

A abrir surge o músico brasileiro Lucas Argel, que canta 'Queixa das almas jovens censuradas', e a fechar está o ator João Grosso a interpretar 'FMI'.

Para falar deste disco, Rui Portulez recuou a 2014, quando a Casa da Música, no Porto, acolheu um espetáculo por ele idealizado em torno do "maior cantor de intervenção/cantautor revolucionário" de Portugal, ainda vivo.


Na altura, no espetáculo participaram alguns dos músicos que entram agora no disco de homenagem, como João Grosso, Batida, e JP Simões, de quem é conhecida a versão de "Inquietação".

Para o álbum foram ainda convidados outros nomes que Rui Portulez sabia que tinham afinidades ou já tinha passado pelo repertório de José Mário Branco, como Osso Vaidoso, de Ana Deus e Alexandre Soares, e Primeira Dama.

Ermo compuseram 'Eram mais de cem', com música nova para letra de José Mário Branco, e o rapper Ruas escreveu 'Comboios parados', com um 'sample' da música 'Cantiga para pedir dois tostões'.

O produtor repescou ainda versões mais antigas que tinham já sido feitas, como 'Fado Penélope', por Camané, 'Loucura', por Mão Morta, e 'Década de Salomé', dos Peste & Sida.

Destaque ainda para a inclusão de 'Cantiga para pedir dois tostões', dos espanhóis Single, e 'Hard Winds Blowin', dos norte-americanos The Walkabouts, fruto de uma temporada que o músico Chris Eckman viveu em Lisboa.

A edição física do álbum inclui textos de quase todos os convidados, com impressões muito pessoais, memórias e opiniões sobre o universo musical de José Mário Branco.

"Depois de José Afonso, é este José o nome mais importante a fixar na música de intervenção, em particular, e como referência incontornável da música portuguesa, em geral", afirma Rui Portulez num dos textos que acompanham o álbum.

Nascido no Porto em 1942, José Mário Branco cumpriu em 2018 meio século de carreira, tendo editado um duplo álbum com inéditos e raridades, gravados entre 1967 e 1999. A edição sucede à reedição, no ano anterior, de sete álbuns de originais e um ao vivo, de um período que vai de 1971 e 2004.

Na altura, em declarações à Lusa, José Mário Branco dizia que não dá qualquer importância a efemérides e celebrações de datas redondas.

"Não são coisas que me motivem muito, tenho respeito pelo respeito das pessoas, mas essas histórias das efemérides...", afirmou.

O compositor não mostrava, então, pressas em gravar coisas novas, por preferir trabalhar para outros músicos - "Não me sinto menos interessado por não ser eu a cantar" - e a isto juntava ainda uma certa resistência em subir a um palco.

"Comecei a sentir-me um bocado museológico em cima do palco. Há uns tempos que eu não faço concertos nem recitais, mas felizmente não paro de trabalhar e de fazer coisas de que gosto imenso", disse.

Lusa | Notícias ao Minuto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/obra-de-jose-mario-branco-e-um-mundo-e.html

Pete Seeger: De que lado você está?

Esta canção, gravada por Pete Seeger em 1940, virou hino da luta sindical nos Estados Unidos. E mantém sua atualidade nas lutas atuais, inclusive no Brasil, quase 90 anos depois de sua composição pela ativista Florence Reece. 

Pete Seeger – que teria completado cem anos no início deste mês (em 3 de maio) – foi um cantor intimamente ligado à luta popular. As canções que gravou não apenas tinham como tema a luta dos trabalhadores, mas muitas vezes surgiram dela. Como a canção Which Side Are You On? (De que lado você está?), que ele gravou em 1940 e se tornou uma espécie de hino da luta sindical nos Estados Unidos. 

Which Side Are You On? foi composta em 1931, pela poeta, militante e escritora popular Florence Reece (1900-1986), que era filha e esposa de mineiros de carvão no Kentucky (EUA). Ela a compôs durante a greve conhecida como a Guerra do Condado de Harlan. Seu marido, Sam Reece, era um dos líderes da United Mine Workers (Sindicato dos Mineiros) em Harlan County, Kentucky, sendo um dos dirigentes da greve. 

Num certo dia, para intimidá-lo, a repressão – comandada pelo xerife J. H. Blair (citado na música como chefe de bandidos) – invadiu a casa dos Reece, mas Sam já não estava lá. Naquela noite, Florence escreveu a música (no verso de um calendário de parede!) que ficaria famosa. Ela foi coletada em 1937 pelo folclorista Alan Lomax, parceiro de Pete Seeger, que a gravou em 1940. 

A letra, com a autenticidade da voz que vem diretamente da luta operária, exige a tomada de posição na luta contra a opressão, e sua atualidade é renovada em nossos dias, quase 90 anos após sua criação por Florence Reeve. Ela diz, com clareza: 

“De que lado você está?”

Venham todos vocês bons trabalhadores,
trago boas notícias para vocês 
de que o bom e velho sindicato 
veio aqui para ficar. [Refrão:] De que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está? Meu pai era mineiro
e eu sou filho de um mineiro
e vou ficar com o sindicato
até que todas as batalhas sejam vencidas. [Refrão] Eles dizem que no condado de Harlan 
não há neutralidade;
você vai ser um sindicalista
ou um bandido de J. H. Blair. [Refrão] Oh trabalhadores, vocês aguentam?
Oh me diga como podem.
Você vai ser uma péssima sarna
ou será um homem? [Refrão] Não fure [a greve] para os patrões,
não ouça suas mentiras.
Nós, gente pobre, não temos chance 
a não ser que nos organizemos. [Refrão]

 

“Which Side Are You On?”

Come all of you good workers,
good news to you I’ll tell
of how the good old union
has come in here to dwell. [Chorus:] Which side are you on?
which side are you on?
which side are you on?
which side are you on? My daddy was a miner
and I’m a miner’s son,
and I’ll stick with the union
’til every battle’s won. [Chorus] They say in Harlan County
there are no neutrals there;
you’ll either be a union man,
or a thug for J. H. Blair. [Chorus] Oh workers can you stand it?
Oh tell me how you can.
Will you be a lousy scab
or will you be a man? [Chorus] Don’t scab for the bosses,
don’t listen to their lies.
Us poor folks haven’t got a chance
unless we organize. [Chorus]

 

 


Texto em português do Brasil


 

https://www.jornaltornado.pt/pete-seeger-de-que-lado-voce-esta/

Feira do Livro de Grândola homenageia Fernando Namora

A 33.ª edição da Feira do Livro de Grândola, no distrito de Setúbal, assinala o centenário do nascimento do escritor neo-realista Fernando Namora. Abre ao público na próxima sexta-feira, 10 de Maio.

Fernando NamoraCréditosManuel Moura / Agência LUSA

O Cineteatro Grandolense acolhe a 33.ª edição da Feira do Livro de Grândola, com centenas de livros que traduzem a participação de várias dezenas de editoras, numa edição que homenageia Fernando Namora, um dos arautos do neo-realismo.

A par dos livros, no dia 12 de Maio, pelas 16h, realiza-se o colóquio «Retalhos da Vida de Um Escritor», seguindo-se um «Lanche Namoriano», cuja ementa será criada com base nas referências encontradas na obra do autor, que foi também médico e pintor.

Na obra Retalhos da Vida de um Médico, cujo primeiro volume é publicado em 1949, Namora, então jovem médico, apresenta um verdadeiro documento social, resultado da sua incursão pelo País de Salazar. 

A Câmara Municipal de Grândola, promotora da Feira do Livro, destaca ainda a apresentação do livro José Afonso, o Tempo e o Modo, de Alcides Bizarro, no dia 18 de Maio, às 16h30, seguindo-se um espectáculo com o Ensemble da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (SMFOG) – Música Velha, que interpreta José Afonso e Carlos Paredes.

As crianças e os jovens terão também o seu espaço na 33.ª Feira do Livro de Grândola. Haverá sessões de contos, apresentação de livros e um ciclo de «Cinema e Literatura» com a exibição de filmes como Se Esta Rua Falasse. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/feira-do-livro-de-grandola-homenageia-fernando-namora

A Gioconda, Leonardo da Vinci

“A Gioconda”, de Leonardo da Vinci. Leonardo da Vinci é considerado por muitos como o maior génio da história.

Procurei resistir à fácil ideia da publicação desta pintura mundialmente conhecida, ao arrepio, todavia, da sua igual compreensão e fruição pelas gentes mais fascinadas com o mito do que com a obra de arte. Pobre dela que padece em embalagens de sabonetes ou em celofanes de spaghetti.

Mas acontece que esta aura quase futebolística não lhe retira, a meu ver, a importância do trabalho notável do mestre. Figuração tida como uma afirmação incontestável do ideal do Renascimento, há no retrato uma composição intelectual de um novo tempo que se procurava nos tempos passados, como afirmou, genialmente, Sophia de Mello Breyner em que «a Grécia é o ponto de partida a que é preciso chegar».

É justo fazer-se uma comparação do seu famoso sorriso àquele outro, também do autor, de “Santa Ana com a Virgem e o Menino”, embora este menos pronunciado, mais divinizado, digamos assim.

Paisagem do contexto imagético leonardesco de uma atmosfera poética é a figura que se protagoniza pela valorização das mãos, pelo enigmático sorriso que tanto pode ser púdico como vicioso, pelas sombras esbatidas (o “sfumato”) que lhe ocupam a face mais visível e o pescoço, num alarde florentino de superioridade insofismável do desenho acrescido de uma pincelada fluída.

Informação adicional

 

Artista: Leonardo da Vinci
Dimensões: 77 cm x 53 cm
Local: Museu do Louvre (desde 1797)
Material: Tinta a óleo
Criação: 1503
Período: Renascimento


Nota de edição

Leonardo da Vinci 
1452-1519

Nasceu em Anchiano, pequena aldeia toscana perto de Vinci. Passou a maior parte do início de sua vida profissional a serviço de Ludovico Sforza, em Milão.

Leonardo da Vinci era, como até hoje, conhecido principalmente como pintor. No entanto, foi também escultor, arquitecto, matemático, urbanista, físico, astrónomo, engenheiro, químico, naturalista, geólogo, cartógrafo, estrategista e inventor italiano.

Leonardo da Vinci é considerado por muitos como o maior génio da história, devido à sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, e pela sua engenhosidade e criatividade.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-gioconda-leonardo-da-vinci/

Tão generosos que eles são!

Poucos dias passados sobre o incêndio, que destruiu boa parte da cobertura da Catedral de Notre Dame de Paris, a «generosidade» dos principais capitalistas franceses, e uns quantos estrangeiros mais, parece bastar para o financiamento da sua reconstrução. Só o Vaticano parece ter faltado à chamada do mecenas, porventura por ver na operação custos exagerados para quase inexistentes benefícios.

 

Que bela operação de marketing se desencadeou com a colaboração da prestimosa imprensa ao serviço dos seus próprios donos. Os que virão a deduzir nos impostos tão lautas doações reduzindo a nada o custo que, inchados de orgulho, dizem vir a ter...

 

É o capitalismo no seu esplendor e na sua mais inominável hipocrisia!

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/tao-generosos-que-eles-sao.html

Notre-Dame e os bombardeamentos imperialistas

por Cecilia Zamudio [*]

É triste, sim, o incêndio da Notre-Dame de Paris, mas mais triste ainda é que a França, os Estados Unidos e os restantes países imperialistas, bombardeiem países por todo o planeta, com desconcertante facilidade, para massacrar milhões de pessoas, destruir património histórico da humanidade, ainda mais extenso e mais antigo do que Notre-Dame, destruir escolas, hospitais e infraestruturas vitais para a salubridade, utilizar urânio empobrecido e deixar dezenas de milhares de amputados e índices de cancro descomunais nesses países que bombardeiam e torturam através de mercenários por eles fomentados (como o ISIS ou como os supostos "rebeldes líbios")… Tudo isso para saquear até à medula os recursos dos países invadidos. Porque essa fera, que invade e espezinha, tem as fauces ávidas do capitalismo transnacional.

 Os meios de comunicação da Ditadura do Capital ditam hoje que temos de nos desesperar pela catedral de Paris. Mas, em contrapartida, quando os países imperialistas bombardeiam outros países, dia e noite, truncando vidas e exterminando sonhos, esses mesmos meios de comunicação do Capital ditam que devemos "aplaudir" aquilo a que cinicamente chamam "bombardeamentos humanitários", ditam que devemos aplaudir invasões e pilhagens. E, para os meios de comunicação do Capital, segundo parece, a destruição do património cultural da Humanidade não interessa minimamente, a não ser que ocorra numa metrópole capitalista.

A destruição do património cultural da Humanidade não é digna de ser referida pelos meios de comunicação do Capital se for produzida pelas mãos dos fuzileiros norte-americanos, que roubam avidamente os tesouros de Bagdad, ou se for produzida pelos bombardeamentos da NATO, ou pelos mercenários fanáticos semeados pelo imperialismo europeu e norte-americano em numerosos países. Os meios de comunicação do Capital pouco se interessam pelos sublimes monumentos líbios que se conseguiram salvar aos bombardeamentos dos "aliados" e que hoje correm perigo nas mãos dos fanáticos ali instalados pela brutalidade do imperialismo. Os mercenários armados e treinados pelos EUA, mal conquistaram o poder na Líbia, instauraram a lei religiosa da Sharia, de extrema crueldade para com as mulheres e destruidora da diversidade da cultura líbia, sob os enérgicos aplausos da União Europeia e dos EUA, que aclamaram aquilo a que cinicamente chamaram "democracia". Os meios de comunicação do Capital transnacional pouco se importaram, quando o imperialismo europeu e norte-americano despejou toneladas de bombas, arrasando monumentos antiquíssimos e destruindo até a colossal obra do Grande Rio Artificial, que ia levar as águas do aquífero núbio para o deserto, dentro da lógica de solidariedade entre os países de África. O FMI prefere que os países assolados pela seca e pela desertificação continuem a endividar-se sob condições leoninas, em vez de permitir que a Líbia de Kadhafi reverdecesse parte do deserto.

O que interessava ao imperialismo europeu e norte-americano na Líbia era poder saquear os enormes recursos petrolíferos da Líbia, controlar o aquífero núbio e poder apoderar-se das enormes reservas de ouro da Líbia. A motivação real do imperialismo nunca foi o povo líbio, que martirizou até não poder mais. O povo líbio e os restantes africanos radicados ou de passagem pela Líbia continuam ainda hoje a sofrer o terror do regime fantoche instaurado depois da invasão pelas potências imperialistas.

Os meios de comunicação do Capital pouco se importam com a destruição do património cultural da Humanidade, se esta for produzida pelas "expedições punitivas" dos autoproclamados "polícias do mundo", descarregando bombas e mercenários na magnificência para sempre perdida de Palmira ou de Alepo (Síria), nas preciosas Hatra, Mossul e Nimrud esquartejadas (Iraque), na Saná supliciada (Iémen). Os meios de comunicação do Capital pouco se importam que os mercenários do imperialismo norte-americano e europeu, treinados no fanatismo para semear o caos controlado, destruam património em Tombuctu (Mali) ou em Bamiyan (Afeganistão), só para falar de dois exemplos. E os seres humanos lacerados, torturados, amputados e empurrados para o êxodo ainda interessam menos aos olhos desses meios de comunicação cujos donos também enriquecem com o saque e a exploração… fica claro que, para os impérios, os seres humanos são menos importantes que a acumulação capitalista.

Os meios de comunicação da Ditadura do Capital dizem hoje que temos de nos desesperar pela catedral de Paris, as televisões enchem-se de católicos a rezar freneticamente. Tenta-se tapar, com o espetáculo mediático, o protesto social contra a precariedade cada vez mais premente com que o capitalismo oprime a população mundial, faz-se uma coleta que em poucas horas reúne somas faraónicas para Notre-Dame… E, entretanto, tanto a Notre-Humanité como o Notre-Planète continuam a lutar – sem aparecerem na televisão – para sobreviverem ao capitalismo e à sua barbárie. E, entretanto, continuam os bombardeamentos imperialistas a atirar pelo ar as vidas de milhões de crianças, continua a ser implementado o treino de técnicas de tortura nas bases militares norte-americanas, continua-se a acionar os fuzileiros, os mercenários e os paramilitares semeados pelo imperialismo por todo o planeta, destruindo comunidades, massacrando resistências obstinadas e sempre renovadas à pilhagem capitalista, exterminando selvas e povos indígenas, condenando populações ao desterro… continua a voracidade multinacional, pulverizando montanhas e sequestrando rios, fazendo aumentar a fome e a morte… continua a guerra permanente que a classe exploradora trava contra a classe explorada… mas isso, para os meios de comunicação do Capital, não merece que se rasguem as vestes.

Um duplo critério e uma infâmia sem limites, uma colonização mental para confirmar a barbárie e a pilhagem que o imperialismo perpetra.

20/Abril/2019

 

[*] Artista plástica.

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org/... e em
cecilia-zamudio.blogspot.com/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/franca/notre_dame_20abr19_p.html

"O INFORMADOR" NO FUNDÃO

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Capa de Francisco Elias
Os meus leitores sabem que amanhã, dia 24, vou apresentar, no Fundão, o meu livro mais recente: O Informador e Outros Contos. É na Biblioteca Eugénio de Andrade, às 18.30, e a sessão integra-se nas comemorações do 25 de Abril que o Município está a promover. É sempre um frémito de emoção falar de Abril, o "dia inicial inteiro e puro", como o definiu poeticamente Sofia, num tempo em que, verdadeiramente, a poesia saiu à rua.
Para que os acontecimentos sobrevivam no tempo é imprescindível que a memória não os atire para o limbo do esquecimento. Este livro também tem a ver com isso. O Informador, o conto que dá o título ao livro, é a história de um sujeito que se torna informador da polícia política, e, por serviços distintos, alcança patamar elevado na hierarquia da organização, onde pratica com eficiência a teoria geral da tortura. A história reflecte o universo concentracionário do país e de como "a banalidade do mal" pode transformar a vida de uma pessoa. Basta o grãozinho de areia na engrenagem da natureza humana.
Reuni em O Informador 20 histórias que, na linha de Os Fantasmas não Fazem a Barba e Fellini na Praça Velha, constituem narrativas habitadas por personagens de um mundo imaginário que, às vezes, são memórias dilaceradas de (i)realidades quotidianas.
A apresentação estará a cargo da Prof. Maria Antonieta Garcia e a sessão terá intervenções de Paulo Fernandes e do Autor. No início, leitura de Adelino Pereira.
Como dizia o Zeca, traga um amigo também. A literatura é a pele da alma.
Terça-Feira, 23 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Livros gratuitos e sessões de leitura com vista 360º sobre Lisboa

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 

Esta terça-feira, dia 23 de abril, assinala-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor e para celebrar a data há diversas atividades, um pouco por todo o país, para todo o tipo de leitores.
A Bertrand Editora vai oferecer livrosna sua loja instalada na Rua Professor Jorge da Silva Horta, em Benfica, na cidade de Lisboa. Basta aparecer entre as 15h00 e as 18h00 e poderá receber um dos exemplares disponíveis até estes esgotarem. Apesar de não poder escolher qual o livro que vai levar para casa, os volumes gratuitos incluem títulos como ‘Samitério de Animais’, ‘Contador de Histórias’ e ‘A Vida Oculta das Coisas’.

Já a Fnac vai lançar um movimento de leitura e distribuir mais de 2 mil livros através de dez ciclistas que irão percorrer a capital de bicicleta entre as 8h00 e as 16h00. Para saber por onde andam a distribuir os exemplares, a cadeia de lojas aconselha que dê uma espreitadela ao Twitter e Instagram da Fnac.


Além disso, se depois de ter o livro partilhar uma fotografia do momento no Instagram, com a hashtag #Tenstantoparaler e identificar a Fnac Portugal, ainda se habilita a ganhar 100 euros em livros para gastar nesta cadeia de lojas.

Tal como a Bertrand, a Fnac vai ainda dar descontos entre os 20 e os 50% nas suas lojas, espalhadas um pouco por todo o país.

Quem passar pela Biblioteca da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Largo da Trindade Coelho, entre as 9h30 e as 17h00 também pode levar livros gratuitos para casa. Cada pessoa pode levar dois volumes. Claro que, até estes esgotarem. Além dos livros, há uma iniciativa de ‘Encontros Imaginários’, onde um moderador vai lançar temas sobre a vida de autores como Luís Vaz de Camões, Alexandre Dumas e Gabrielle D’ Annunzio. Este evento decorre entre as 17h30 e as 18h45 e é gratuito. Contudo, é limitado a 60 participantes.

Já no Amoreiras, há uma sessão de leitura com vista 360º sobre a cidade de Lisboa pela voz de vários atores portugueses. A iniciativa ‘Coroai-me de Rosas’, também gratuita, vai realizar-se no Amoreiras 360º Panoramic View entre as 18h30 e as 19h30 e conta com a participação de Teresa Coutinho, Miguel Loureiro e António Fonseca.

A lotação é de 45 lugares por isso o melhor é inscrever-se através do e-mail info@casafernandopessoa.pt ou do número 213 913 270

Natacha Nunes da Costa | Notícias ao Minuto ! Foto: © José Frade EGEAC

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/livros-gratuitos-e-sessoes-de-leitura.html

O Altar de Isenheim, Matthias Grünewald

“O Altar de Isenheim”, de Matthias Grünewald

Kenneth Clark, incontornável Historiador de Arte do século XX, considera que esta pintura, é, talvez, o quadro mais extraordinário jamais pintado.

Pintor visionário que se exprime especialmente através da luz, assinala este seu trabalho com grande sumptuosidade do seu conjunto de 9 painéis, de que esta sua tábua central é a mais conhecida.

Informação adicional

Artista: Caravaggio
Dimensões: 2,30 cm × 1,75 cm
Local: Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália 
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1600-1601
Movimento: Barroco


Nota de edição

Matthias Grünewald 1470-1528

Matthias Grünewald, foi um pintor alemão, precursor do expressionismo e um dos maiores pintores germânicos do gótico tardio. Um biógrafo do século XVII, Joachim von Sandrart, erroneamente o identificou pelo nome Grünewald; o seu nome real foi descoberto apenas em 1920.

O caráter visionário da sua obra, com sua expressão de linhas e cores, contrasta com seu contemporâneo Albrecht Dürer.

Começou a aparecer como profissional da pintura sacra quando vivia em Aschaffenburg.

Assumiu o cargo de pintor oficial do arcebisp de Mogúncia em 1509. Mudou-se em 1515 para Issenheim, na Alsácia, para realizar um retábulo para a Igreja dos Antoninos, obra máxima de seu estilo dramático, de intenso colorido. De volta a Aschaffenburg, foi contratado para outras pinturas religiosas.

Da sua obra, revalorizada no século XX pelos expressionistas por sua vanguarda, hoje conservam-se apenas dez pinturas e alguns desenhos.

O compositor Paul Hindemith compôs, em 1938, a ópera Mathis der Maler baseada na vida de Grünewald.

 

Fonte: Wikipédia


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-altar-de-isenheim-matthias-grunewald/

Faleceu Albino Moura

O pintor, ceramista e poeta Albino Moura, figura notável da cultura e das artes almadenses, faleceu na sexta-feira, dia 19 de Abril. Permanece a sua obra, afirma nota de pesar emitida pela CDU de Almada.

Painel de azulejos na rotunda das Cavaquinhas, Seixal, da autoria de Albino Moura.Créditos / Albino Moura/Facebook

Faleceu ontem, dia 19 de Abril, o criador e artista plástico Albino Moura. «Nascido em Lisboa em 19321, vivia e trabalhava em Almada há mais de 40 anos», lembra a nota de pesar emitida pela Coligação Democrática Unitária (CDU) de Almada, que apresenta, «à família e aos muitos amigos do Pintor Albino Moura, os mais sentidos pêsames», numa «hora tão difícil em que o Homem nos deixa fisicamente» mas permanece «a sua obra e o seu exemplo».

Trabalho do pintor Albino Moura para o cartaz da Festa da Poesia de Almada, em 2011. Créditos

A mesma nota lembra «as figuras femininas que, com traço e estilo muito próprios, Albino Moura retratou nas mais diversas formas e expressões» e, sobre essa característica do artista, recorda as palavras de uma «outra grande figura das artes e da educação almadense», a escritora Maria Rosa Colaço, que escreveu serem «inconfundíveis as figuras femininas de Albino Moura que crescem em paisagens tranquilas, onde há uma aragem branda que nos aproxima dos deuses e da paz, onde flores da terra e estrelas do céu convivem harmoniosamente».

Cartaz de Albino Moura. Créditos

Ao longo da sua vida o artista – que recebeu orientação artística de Fred Kradolfer e começou a expor a partir de 1959 – «percorreu diferentes caminhos profissionais, tendo trabalhado em publicidade, como designer gráfico e como ilustrador», antes de se dedicar mais completamente à pintura, à escultura e à cerâmica. A sensibilidade literária não lhe foi estranha, tendo integrado alguns colectivos poéticos e publicado livros de poesia a partir dos anos 90. Escreveu também sobre Fred Kradolfer, tendo a sua opinião sido considerada em trabalhos de tese sobre aquele artista.

O Pintor Autodidacta, como também foi conhecido, participou em exposições colectivas e expôs individualmente a partir dos anos 60, mas é depois da Revolução de Abril que a sua produção se concentra.

Albino Moura. Créditos

Albino Moura encontra-se representado em colecções nacionais e estrangeiras e recebeu várias distinções ao longo da sua carreira. Além da Medalha de Ouro de Mérito Cultural, atribuída pela Câmara Municipal de Almada (2006), relevada na nota de pesar recebida, foi-lhe também atribuída a Medalha de Mérito Municipal pela Câmara Municipal do Seixal (2005) e a Medalha de Prata da Costa do Estoril (1992)

Albino Moura foi cidadão participativo e interveniente. Como ele próprio escreveu, teve sempre presente «a luta e a conquista». A luta, «dos trabalhadores, mulheres, homens, jovens»; as conquistas, «pelos seus direitos». Por isso mesmo, afirmou, «dou todo o meu apoio, como sempre dei», à CDU.

França vs. Iraque

A realidade, partida a meio, é sentida pela parte que sente mais uma que outra, e perde a visão do todo que devia provocar dor com igual intensidade. O incêndio em Notre Dame é (já) uma enorme perda para a Humanidade. Mas há outras perdas, que quando ocorreram não fizeram correr tanta tinta, tanta imagem nem tanta lágrima. 
Lembram-se do saque dos museus iraquianos após a ocupação militar das principais cidades do país?
Lembram-se do saque e o incêndio  daBiblioteca Nacional do Iraque? 
Não se lembrarão pois as parangonas  dos jornais, as que então houveram, voaram rápidas e breves foram as notícias e as reportagens. E até, agora mesmo, consultado o google quase parece nada ter acontecido. É verdade, França é aqui logo. Até se dizia que todos os bebés vinham de lá. E, assim, perda de Notre Dame é, por aqui, bem sentida. O Médio Oriente, é longe... e os povos de lá jamais esquecerão.  Sobre as metades das verdades, o vídeo (retirado da página da Ana Margarida de Carvalho) é a expressão exacta daquilo que me vai na alma...
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Eduardo Souto de Moura wins 2019 Arnold W. Brunner Memorial Prize - Archinect

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The American Academy of Arts and Letters has announced Portuguese architect Eduardo Souto de Moura as the the 2019 Arnold W. Brunner Memorial Prize winner. Started in 1955, the prize awards US$20,000 to an architect of any nationality who has made a significant contribution to architecture as an art. Previous winners of the last few years include Phyllis Lambert, Sheila O'Donnell and John Tuomey, Alberto Campo Baeza, Kathryn Gustafson, and Diébédo Francis Kéré.

Selected from a group of 33 nominated individuals, the Pritzker Prize winning architect was recognized for an architecture that is described by the jury chair, Annabelle Selldorf, as "[feeling] inevitable" and having a "timeless and profoundly humanist quality." He was honored for a body of work that includes notable projects such as the Estádio Municipal de Braga in Braga, Portugal (2003), the Burgo Tower in Burgo, Portugal (2007), and the Paula Rego Museum in Cascais, Portugal (2009). Annabelle Selldorf, chair of the jury, said of Souto de Moura's architecture

In addition, the jury awarded four $10,000 Arts and Letters Awards to: Hernan Dias Alonzo,the director of Sci-Arc, for his influence on the future of architecture; Mario Goodenand Mabel O Wilson,who run the Global Africa Lab at Columbia's GSAPP, for advocating for a more just world; Eric Höwelerand Meejin Yoon of Höweler + Yoon, for their innovative forms and structures; and Anne Rieselbach,the Program Director at the Architectural League of New York, for supporting the exploration of new ideas in urban design and architecture.

Winners will be presented with their awards during the Academy's annual Ceremonial in New York City this May.

The 2017 jury featured: Annabelle Selldorf (chair), Henry N. Cobb, Kenneth Frampton, Steven Holl, Thom Mayne, Laurie Olin, James Polshek, Billie Tsien, and Tod Williams.

Ver a notícia original na seginte ligação:

https://archinect.com/news/bustler/7221/eduardo-souto-de-moura-wins-2019-arnold-w-brunner-memorial-prize

Identificado local onde foi escrito «Romeu e Julieta»

A peça «Romeu e Julieta» foi escrita por William Shakespeare num local diferente daquele que, até agora, era reconhecido como tal, revela uma nova investigação.

A primeira edição «in folio» das obras de William Shakespeare, impressa em 1623, continha 36 peças, das quais metade eram, até então, originais. Na foto, um exemplar exposto em 2016, quando passavam 400 anos da morte do dramaturgo e poeta inglês.CréditosEPA/Jerome Favre / LUSA

Uma nova investigação identificou o local de Londres onde o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) viveu enquanto escrevia a obra Romeu e Julieta.

A investigação, conduzida pelo historiador Geoffrey Marsh durante dez anos, rebateu a tese segundo a qual o autor tinha vivido, entre 1597 e 1598, no local preciso da estação de metro de Liverpool Street, como até agora fora concluído, apontando para um local um pouco mais longe, na rua Great St. Helen, nas imediações da referida estação de metro.

O historiador, que é o director do departamento de teatro do Museu Victoria & Albert, de Londres, concluiu que Shakespeare foi inquilino da empresa Leathersellers, que detinha o comércio de peles na época isabelina, durante o período em que escreveu Romeu e Julieta – uma das suas obras mais famosas – noticiou a televisão pública britânica BBC.

«Poucos anos depois de se mudar de Stratford para Londres, estava a viver num dos bairros mais ricos da cidade, junto de personalidades poderosas, comerciantes internacionais ricos, médicos da sociedade e peritos musicais», afirmou Marsh, acrescentando que «viver num dos lugares importantes de Londres terá elevado a posição de Shakespeare» e que este «tentava obter um escudo de armas para a sua família e planeava comprar uma casa espectacular e cara em Stratfford».

O centro da cidade de Londres foi devastado por um incêndio em 1666 – o chamado Grande Incêndio de Londres – após o qual a zona onde residia Shakespeare foi completamente desenhada. Hoje, segundo a Lusa, é uma zona de edifícios de escritórios.

No próximo dia 25 de Abril o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, organiza os «Dias da Música em Belém» sob o signo de Shakespeare, que pode consultar nas sugestões culturais que o nosso colaborador José António Gomes propõe para este mês de Abril.

com Agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/identificado-local-onde-foi-escrito-romeu-e-julieta

Conversão de S. Paulo, Caravaggio

“Conversão de S. Paulo”, de Caravaggio. Esta pintura será, provavelmente, a mais revolucionária de toda a história da arte sacra.

Esta pintura será, provavelmente, a mais revolucionária de toda a história da arte sacra. A imagem iluminada emerge do fundo escuro, o que faz esse efeito de luz ser a marca inconfundível do caravagismo tenebrista, que iria abalar toda a pintura do Maneirismo, já sem resposta aos novos anseios do Barroco.

Trabalho muito polémico este, em que o grande plano do cavalo foi entendido como uma ofensa à significação de deus. Caravaggio contra-argumentou que não sendo a figura divina, o cavalo recebia, no entanto, a luz directa de deus. Estamos perante um mestre das trevas e um militante da contra-corrente estabelecida pelos efeitos da Contra-Reforma.

Informação adicional

Artista: Caravaggio
Dimensões: 2,30 cm × 1,75 cm
Local: Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália 
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1600-1601
Movimento: Barroco


Nota de edição

Caravaggio 1903-1962

Sobre Caravaggio foi dito que foi um revolucionário, quer pela sua vida turbulenta, quer pelo facto da sua pintura ter proposto uma oposição consciente ao Renascimento e ao Maneirismo.

Procurou, sempre, a intensidade de efeitos através de veementes contrastes entre o claro e o escuro que modelam as figuras e objectos, e através de uma presença física de um vigor incomparável. Ao evitar qualquer vestígio de idealização e fazer do realismo a sua bandeira, Caravaggio pretendia que nenhum espectador ficasse indiferente aos seus quadros.

Considerado o maior pintor italiano de seu tempo, aprendeu a pintar com Simone Peterzano e, sobretudo, a partir do estudo das obras de alguns artistas venezianos. Algumas de suas obras são rejeitadas pelo naturalismo com o qual aborda as paisagens bíblicas, mas não faltaram mecenas dispostos a adquirir de bom grado aqueles quadros que o clero não via com bons olhos.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/conversao-de-s-paulo-caravaggio/

Nina Simone | A luta pelos direitos dos negros

Além de exímia pianista, Nina Simone tornou-se uma compositora inspirada e comprometida com a luta pelos direitos civis.

Essa última caraterística granjeou-lhe amizades com Malcom X e Martin Luther King, bem como um discurso forte, como o da música “Mississippi Goddam” (Mississippi puta-que-pariu), que escreveu em minutos após o assassinato de quatro meninas negras em 1963, numa igreja em Birmingham, Alabama:

Cães de caça no meu trilho, escola, crianças sentadas em prisão, gato preto que atravessa o meu caminho, eu acho que qualquer dia pode ser o meu último”.

Wikipédia

Em 1964, Nina mudou de editora discográfica, passando da Colpix, uma empresa americana, para a holandesa Philips Records. Para além das questões comerciais, esta mudança potenciou uma profunda alteração no conteúdo das suas músicas. Nina sempre inspirou as suas canções na sua herança afro-americana. No seu álbum de estreia pela Philips, “Nina Simone in Concert”, de 1964, ela abordou pela primeira vez a desigualdade racial nos Estados Unidos. Esta foi sua resposta ao assassinato de Medgar Evers em 12 de junho de 1963 e ao atentado à bomba contra a Igreja Batista da 16th Street em Birmingham, Alabama, em 15 de setembro de 1963.

Em “Mississippi Goddam” Nina dizia que a música era “como disparar dez balas de volta para eles”, tornando-se uma das principais canções de protesto que escreveu. A canção foi lançada em single com o selo da Philips e foi de imediato boicotada em diversos estados sulistas. Uma estação de rádio da Carolina destruiu as cópias promocionais que recebeu e depois devolveu-as à Philips. Mais tarde, Nina recordou como “Mississippi Goddam” fora a sua “primeira canção de direitos civis” e que a inspiração lhe chegou “numa onda de fúria, ódio e determinação”.

Ao dizer “eu e meu povo estamos quase vencidos”, a canção desafiou a crença de que as relações raciais poderiam mudar gradualmente, exigindo pelo contrário medidas imediatas. Por este motivo, “Mississippi Goddam” foi um momento-chave na sua radicalização política, passando a ser norma a existência de mensagens sobre direitos civis nas suas músicas e espetáculos. Tal ocorreu com “Old Jim Crow”, tema do mesmo disco que abordava as leis de segregação racial com o mesmo nome.

O sucesso da cantora crescia em compasso com os conflitos raciais. Nina participava em encontros e manifestações ligadas aos direitos civis, como as marchas de Selma a Montgomery em 1965. Como Malcolm X, seu vizinho em Mount Vernon, Nova Iorque, apoiava o nacionalismo negro e defendia uma revolução violenta, contrária à abordagem não violenta de Martin Luther King. Nina desejava que os negros americanos usassem o combate armado para criar um estado independente, embora tenha escrito na sua autobiografia que considerava todas as raças iguais.

Em 1967, troca a Philips pela RCA Victor. Nesse ano lança “Nina Simone Sings the Blues”, onde canta “Backlash Blues”, canção escrita por Langston Hughes, sua amiga e líder do Harlem Renaissance. Seguem-se “Silk & Soul”, ainda em 1967, e ‘Nuff Said!”, no ano seguinte. Em 1968 ocorre o assassinato de Martin Luther King Jr. O trágico acontecimento mexeu muito com Nina, que mais uma vez utilizou o seu talento musical para expressar o que lhe ia na alma. A canção “Why? The King of Love is Dead” (Porquê? O rei do amor está morto) foi por composta pelo seu baixista, Gene Taylor, e cantada por ela 3 dias depois, numa performance emocionada durante o funeral.

A luta de Nina pela igualdade racial era tão forte que a pianista decidiu fazer uma pausa na sua carreira para residir durante algum tempo na Libéria, país africano fundado por antigos escravos norte-americanos que regressam ao continente ancestral. Segundo Nina, a Libéria era um país onde podia ser vista de igual para igual, vivendo com a sua raça negra sem ter de se submeter às injustiças de uma sociedade racista e supremacista branca.

Vídeos
Nina Simone

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/nina-simone-a-luta-pelos-direitos-dos-negros/

Portugal | "Fui insultado por uma corja de bandidos ao serviço do Passos Coelho" - Tordo

Fernando Tordo é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. Fernando Tordo regressou e multiplicou-se. 
Em 'Duetos - Diz-me Com Quem Cantas' redescobrimos Fernando Tordo na mais variada companhia. Há veteranos como Rui Veloso e Jorge Palma a pegar em clássicos do cantor e a torná-los também seus. Há a voz quase sussurrada de Rita Redshoes e a inimitável Maria João num jazz que não pede licença para abrir caminho. Há Héber Marques a tratar 'Adeus Tristeza' com todo o cuidado pop e a elasticidade das palavras de Ary dos Santos na letra de 'Tourada', aqui cantiga e rap num só.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, o cantor falou de 'Duetos' e da Eurovisão, de Portugal e do Brasil de diferentes facetas que conheceu. Recordou ainda a luta que teve de vencer contra o alcoolismo e o dia em que se viu na 'mira' de uma "corja de bandidos" - palavras suas - porque anunciou que ia partir, deixando para trás um país então governando pela troika e pelo governo de Passos Coelho.

Aos 71 anos, o brilho é semelhante quando se ouve Fernando Tordo falar da música que já fez e da que ainda vai fazer. Está lá o tal fascínio de miúdo. Mas também a voz de quem leva décadas de carreira musical, com canções que ainda serão ouvidas daqui a muitos anos. "Haverá alguma coisa mais extraordinária do que isto?".


Já tinha imaginado certas vozes com certas músicas ou os convidados fizeram as suas escolhas?

Alguns ou tinham de ser ou já estavam previamente marcados. O Rui Veloso canta comigo o ‘Só Ficou o Amor por Ti’, uma canção que já me tinha dito há muitos anos que gostava muito. Em 2008 cantei-a no Coliseu com orquestra e convidei-o. O Jorge Palma, que é meu amigo há 50 e tal anos, sempre me apercebi que ele gostava muito do ‘Cavalo à Solta’.

Nalguns casos as escolhas eram muito claras, é isso?

Sim. Porque também lhes facilitava as coisas e vejo isso por mim. Se me convidarem para apresentar uma canção de outra pessoa, apesar de a conhecer, há sempre um trabalho para fazer. E é preciso saber que estas pessoas são profissionais e não têm todo o tempo do mundo.

As agendas são sempre complicadas.

Sim, e por isso demorou tanto tempo a gravar. Houve conciliações de agendas muito difíceis. Alguns destas artistas passam muito tempo fora.

Quanto tempo demorou a fazer o álbum?

Foram 14 meses. Para mim foi completamente inesperado precisamente por causa de dificuldades várias, com datas e horários, e depois porque foi um disco muito trabalhado, em que cada caso é um caso. Quando se começa a fazer uma mistura com o Tim é diferente do que é com o Camané ou com a Maria João. São coisas que têm de ser respeitadas. Não se convida uma pessoa para cantar num disco para depois ser ‘Agora só cantas isto’.

Houve várias razões para se estender no tempo, como nunca em toda a minha carreira. Mas ficou feito. Estou satisfeito. Muita gente dirige-se a mim com surpresa, e isso é interessante, porque o objetivo do disco também era esse.

Alguns dos músicos com quem gravou têm menos anos de vida do que o Fernando Tordo tem de carreira. Como funcionou quando chegavam ao estúdio?

Sim, muitos deles. O Héber Marques, que eu não conhecia pessoalmente, canta muito bem a ‘Adeus Tristeza’. Ele podia ir um pouco intimidado, mas pôs-se à minha frente e mal abriu a boca para cantar… não é por acaso, é a primeira canção do álbum, com aquele ambiente orquestrado. Estava apreensivo para ver como se ia dar com aquilo e deu-se muito bem.

Há ainda uma pessoa que não conheço pessoalmente mas que vou conhecer em breve, a Capicua, que faz um rap com a ‘Tourada’. Quando decidi que ia ser um rap mesmo assim não queria uma voz masculina e isso não é a coisa mais fácil de encontrar no nosso país. Sabia da Capicua porque ela ganhou no mesmo ano do que eu prémios da SPA, conhecia-a era da Internet. É uma pessoa muito interessante. Quando lhe liguei estava muito grávida nessa altura mas estava em estúdio. Gravou, e enviou-me uma coisa muito bem interpretada e depois misturámos.

É uma letra muito interessante, do Ary dos Santos, com ritmo.

Como a letra não tem uma métrica própria da linguagem rap, o que ela fez foi tudo muito seguido, o que cria um contraste comigo a cantar, enquanto a voz dela é injetada àquela velocidade.

Houve uma versão que o tenha surpreendido particularmente?

Há momentos muito especiais. Por exemplo a ‘Rato Roeu a Rolha’, que é próximo do jazz e já foi gravado com orquestra. Também queria uma voz feminina e só havia uma pessoa em Portugal que também tinha o sentido de humor, não só a interpretação – e aquele texto é muito difícil de dizer, só o consigo fazer cantando. E a Maria João fez uma interpretação extraordinária.

Mas para mim há muitas surpresas. O trabalho feito com a Carminho, que também foi preciso contornar dificuldades com a tonalidade. Às tantas como que tive de improvisar sobre a melodia original. Mas não houve problemas que como fui eu que fiz [a canção original], abusei à vontade.

E houve alguma nova versão que depois de ouvir o tenha feito pensar ‘Porque é que não a fiz logo assim na primeira vez’?

As canções estão separadas por muitos anos. Não seria possível, até pela idade da maior parte dos intérpretes – alguns ainda nem eram nascidos [risos]. Mas o resultado final é de uma satisfação muito grande. Primeiro, de gratidão para com eles. Depois, porque são tão bons intérpretes que podem pegar nas coisas mais variadas e pode-se confiar, são grandes profissionais. Cantar com o Camané, por exemplo, é como estarmos aqui os dois à conversa. A descontração é muito grande, até porque ele conhecia algum do meu reportório. É a chamada ‘economia de horas de estúdio’. Não demora muito tempo e a gente só se diverte, porque sabe que o que está gravado, está bem.

Estamos a caminho da Eurovisão e o Fernando Tordo tem história no Festival da Canção. Como vê esta atenção renovada ao festival?

É verdade. Sou de uma geração que tem a sua projeção através do Festival da Canção. Nesse tempo os nomes só eram revelados se a canção fosse apurada. O que se enviava para a televisão não era cantado. Era um processo completamente democrático nesse sentido, ninguém sabia de nada. Foi uma brecha onde conseguimos entrar e há uma geração dos anos 60 que surge assim.

A Eurovisão passou a ser um pequeno trauma da sociedade portuguesa porque a gente concorria e não ganhava, e não ganhava e as pessoas gostam de ganhar. Foram quase 50 anos. E de repente surge uma grande surpresa.

E uma canção que fugia a uma certa pop mais comercial.

Pois e isso significa que a música bonita, bem estruturada, pode ganhar a Eurovisão. Não é necessário aquele foguetório. Os foguetes não cantam.

E uma vitória em português.

Mas independentemente da canção, da originalidade e até da voz, aconteceu um fenómeno que se sabe há muitos anos que acontece: quem é que tem capacidade de pagar a fatura, que é cara. Hoje há um conjunto de condições que tornam a posição internacional em relação ao nosso país muito positiva. E esses fatores ajudaram, tal como a diferença em relação às outras canções que estavam a competir.

Como é que viu a vitória do Salvador Sobral?

Com um grande alegria. Eu sou de uma geração de vários cantores que acabaram por cerzir a passadeira que acabou por, ao fim destes anos, funcionar.

É uma vitória também coletiva?

Vejo que, de repente, um país que tem um mercado baixíssimo, não é por isso que não pode ganhar. Não é por causa do mercado do disco. A que ganhou no ano passado nunca mais vamos ouvir. Mas houve fatores extra-música que ajudaram. Também ganhámos a Eurovisão porque finalmente estavam abertas portas à escala internacional. Aliás, já ouvi dizer que o intérprete deste ano [Conan Osiris] está muito bem colocado para ganhar.

A vitória de Conan Osiris foi de algum ‘amor-ódio’, com algumas críticas entre tantos elogios.

[Risos] Não estou interessado nessa conversa. Mas ouço opiniões – e hoje em dia até temos apostas, o que é uma coisa extraordinária [risos]. Se for assim, significa que todos os outros países gostaram tanto de estar cá, tiveram tratamento de luxo, uma Lisboa sitiada por segurança por causa do festival, o que é ridículo, mas de qualquer maneira todos estes fatores terão tido importância. Na hora da votação não tiveram porque nos puseram no último lugar outra vez, aliás merecidamente. Aí a hospitalidade não contou. Mas parece que de repente se começa a proporcionar uma situação engraçadíssima, que era ganhar o festival de dois em dois anos. Parece que o nosso país continua com boas condições. Aquela malta ficou com saudades [risos].

Desejo-lhe o melhor [a Conan Osiris] e, se ganhar, ainda melhor.
Em 2014, ainda no tempo da troika e do governo de Passos Coelho, foi notícia por anunciar a sua partida para o Brasil. Em que momento é que percebeu que já estava pronto para voltar?

Eu estaria pronto a voltar do momento em que não estivesse aquela gente a governar o meu país. Tenho 71 anos, sou do antes, do durante e do depois do 25 de Abril. Tenho filhos e netos e o que tenho para lhes contar é do que foi bom, mau, assim-assim e do que ainda há para fazer. Mas, para mim, o fator hoje fundamental da sociedade portuguesa é a luta pela liberdade em permanência. Num determinado momento, em que há um governo em Portugal durante esse período da troika e não só, há como que uma vaga de fundo - de que se calhar muitas pessoas não se apercebem -, mas em que a liberdade começa a ser diminuída. Falo da liberdade na sua totalidade.

Talvez seja dos anos de vida, que dão para ver a liberdade com uma panorâmica maior. A liberdade não é apenas poder dizer ‘Abaixo o Governo’. É muito mais coisas. E, naquele tempo, aquele governo ultrapassava em meu entender tudo o que era possível. Pelo seguinte: pertenço à geração anterior, fiz o que pude, dentro da modéstia do que consigo fazer, durante e depois. O conceito que tenho de liberdade tem esta abrangência. É ela que autoriza os partidos, as nossas conversas, os nossos filhos a serem felizes. A democracia é uma consequência da liberdade e não o contrário.

Houve um determinado momento em que disse assim: vou embora. E fui. Demorei muito mais tempo – quase quatro anos – a voltar do que pensava por causa da música. Compus muita música no Brasil, gravei muito e, principalmente a esse nível, da facilidade dos músicos, da qualidade, daquele ambiente que é natural nos brasileiros, muito especialmente nos músicos, e conheci grandes craques da música, fez-me ficar mais tempo.

Foi ficando.

A partir do momento em que acabou aquele governo podia ter regressado. Mas para onde vamos criamos laços. A minha mulher passou largos períodos comigo lá, os meus filhos e netos visitaram-me, a gente não abandona assim por não sei quê, até porque isso faria da minha vida demasiada ligada às questões políticas.

Mas há algo que quero salientar. Jamais esperei – eu sou o número 139029 do arquivo de identificação de Lisboa. Sou de 29 de março de 1948. Mas eu sou só um gajo. Jamais pensei que a minha saída, numa conversa distraída na televisão…

...Gerasse aquele debate todo.

Eu recordo-me. Estava num programa em estúdio com o Paulo Magalhães e o Fernando Correia. Eu distraído ‘agora vou para o Brasil’. Senti logo no estúdio uma agitação muito grande. Vi duas pessoas que corriam de um lado para o outro. E de repente ‘Boom’ [gesto de dimensão com as mãos]. Depois fui insultado, eu e a minha família, por uma corja de bandidos ao serviço do Passos Coelho, que vieram dizer nas redes sociais que eu tinha andado a fazer contratos de não sei quê e tinha ganho contratos de milhares de euros.

Eu, para fazer 22 concertos com grande orquestra, para poder mostrar aos portugueses que aquilo era possível fazer, tive de perder a possibilidade de ganhar dinheiro para ter aquele conjunto de 36 pessoas, mais os assistentes todos. E na altura um tipo fica muito magoado. Não porque me trataram mal - estou habituado a isso, tenho 54 anos de carreira -, mas porque insultaram a minha família. E aí meteram o pé na argola. Nem foi pelo insulto. Tive tipos a investigar junto das Finanças. Tudo o que fizeram...

Isso ainda antes de ir para o Brasil?

Antes, sim. E depois de ter ido ainda tinha insultos, a investigação. Isto é uma tropa que Passos Coelho tinha montado. Os poderes têm estas coisas montadas para insultar. E, muito especialmente dentro daquele âmbito, o senhor Passos Coelho teve no governo um tipo chamado Miguel Relvas, por exemplo. Por aqui está tudo esclarecido. É o tipo [Passos Coelho] que foi ao beija-mão à senhora Merkel antes de ser eleito, para ela lhe dizer o que ele ia fazer. E o que ele fez foi pôr os portugueses encostados à parede. De qualquer maneira, eu limito-me a observar, como no Brasil.

Você tinha de lá estar para ver: o minuto a minuto, a sequência, quem manda, quem obedece, quem é corrupto, os grandes bandidos. O [Michel] Temer é um crápula e só esteve quatro dias preso [gargalhadas]. Eu rio-me porque sei bem como é que são as investigações no Brasil. Ainda hoje tenho muita gente surpreendida quando conto certas coisas.

Mas tudo isto coincidiu com a segunda eleição da Dilma, com os erros da Dilma, que estão diretamente ligados a Lula da Silva; o quanto erraram para permitir aquilo que aconteceu no Brasil. O presidente agora é um tipo chamado Jair Bolsonaro que eu assistia nos discursos na Assembleia. Há um documento muito interessante que correu mundo, creio que foi no célebre dia 17 de abril [de 2016].

De votação do impeachment.

Sim e eles, claro, votam a favor do impeachment, e juram pela mãe, pelos filhos, pelo tio, por não sei quê, uma cena absolutamente ridícula, em que este decide citar o coronel que foi um torcionário [Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado por tortura] durante a ditadura militar. Este tipo, o Bolsonaro, é hoje o Presidente da República. A história de como se chega a isto, eu assisti sem querer, dia a dia.

Entre 2014 e 2019, há uma mudança política em Portugal mas também esta mudança grande no Brasil. São duas perguntas: É muito diferente o Portugal que reencontra? Que Brasil deixou lá por comparação ao que encontrara em 2014?

Podia chamar ao Brasil simbolicamente António Carlos Jobim. Havia o Brasil cidade maravilhosa, de encantos mil, que encheu a minha infância. Esse Brasil seria o paraíso. E hoje há um Brasil pimba. Estas duas coisas com um intervalo de anos podem acontecer no mesmo país, porque há um mesmo país onde são possíveis. É o chamado ‘sem rei nem roque’. É possível de um momento para o outro que os donos do Brasil, que não são os políticos, façam as coisas. E quando o Brasil tenta, com Lula da Silva, uma figura mundial, fazer o brilharete de dar qualquer coisa a 30 milhões de pessoas, há um outro lado do muro que está a fazer os seus negócios. Este fator é desconhecido. A notícia que vem para fora é de crescimento do Brasil. ‘Lula da Silva faz isto’. Barack Obama olha para Lula e diz ‘So, you’re the man’. Mas para poder fazer isto há como que uma negociação com os donos do Brasil para que ‘agora não interfiram – mas estejam à vontade’.

Não há memória. Quando se vai analisar historicamente o Brasil, é nos anos de Lula que se inicia uma coisa extraordinária – o chamado ‘café da manhã’ para 30 milhões de gente miserável – em simultâneo está a acontecer no país o que conduz a esta situação.

São coisas que eu creio que a história contará muito bem, assim haja gente séria que tenha registado de forma profissional. Um dia contarão como isto pôde acontecer. Os assassinatos são aos milhares e milhares por ano, 60, 65 mil. O tipo que devia pôr ‘água na fervura’, com um discurso sério, profundo, direto, é um tipo que diz ‘para resolverem isto, comprem uma arma’. É uma vergonha.

Era um Brasil sem alternativa?

Nós portugueses deixámos várias heranças no Brasil, a histórica é única no mundo, mas evidentemente deixámos muitos defeitos. E um deles é a incontornável posse de terra. É um marco profundo na vida das pessoas. Saímos daqui miseráveis para ir trabalhar e quando damos por nós estamos dentro de um continente que vai andando sempre mais e mais quilómetros. É giro ver livros do séc. XVIII, XIX para se perceber que a própria estrutura da freguesia é toda levada de Portugal. Mas depois em vez de se registarem 10 mil metros quadrados registam-se 10 milhões.

Creio que esta herança que deixámos, cultural, pessoal, humana, é tão negativa quanto positiva. E hoje boa parte do Brasil nega. Tive várias conversas sobre isso. Os brasileiros não sabem rigorosamente nada sobre Portugal. Os que estão agora a vir, pode ser que já saibam. Mas a escola no Brasil ainda ensina os alunos contra Portugal. Somos os malandros, os da escravatura, os que mataram os índios, tudo isso é aprendido na escola.
Curiosamente em Portugal discute-se que também falamos pouco do lado negativo dos nossos Descobrimentos. Os dois países mantém uma narrativa conflituante?

É que se não fosse a escravatura também não haveria o Brasil, independentemente do que isso significa, séculos depois. É também a escravatura que vai fazer do país, a dada altura provavelmente o país mais rico do mundo, produtor de açúcar que é uma coisa completamente louca. A cidade onde vivi, o Recife, chegou a ser a mais importante por culpa dos engenhos onde trabalhavam os escravos, alguns ainda lá estão em ruínas. Sãoos holandeses que depois fazem aí a sua aprendizagem e quando são postos fora vão para outros locais do país pôr o açúcar mais barato. Somos especialistas em miscigenação, enquanto que os ingleses e holandeses são especialistas em avançar no terreno. Isto deixa marcas.

A nossa presença no Brasil é extraordinária, emocionante, e é terrível verificar que o país não se apercebe disso.

Mas há dificuldade, dos dois lados do Atlântico, em falar do lado bom e lado mau deste assunto?

Nós temos grandes historiadores no Brasil, há um que é um querido amigo meu que já escreveu uma série de livros, nomeadamente sobre a ida da corte portuguesa para o Brasil, no séc. XIX, o Paulo Rezzuti, que são uma análise imparcial sobre a influência que a corte acaba por ter no Brasil. Mas depois há um problema, e que existe em particular, em que nem todas as pessoas leem livros, nem todas estão interessadas em saber. Eno Brasil a luta pela sobrevivência é muito grande, as pessoas não têm assim tanto tempo para se informar. Mas quem estiver interessado, tem, da autoria de brasileiros muito bons, muita documentação para perceber o que foi isto, o que é que aconteceu.

Depois os laços, a tarefa, a saga dos portugueses no Brasil é algo incontável, de uma dimensão única. Como é que avançámos centenas, milhares de quilómetros, naquele país. Mas pronto. Temos muito com que nos preocupar. E, quer dizer, hoje Portugal é mais interessante para o brasileiro do que o Brasil é interessante para o português.

Reencontrou um Portugal diferente?

Eu nunca estive desligado, vim cá algumas vezes, não tive aquela sensação de ‘ah, uma avenida nova, um prédio novo’. Não tive isso mas tive uma sensação respiratória. Respirava-se liberdade, coisa que não se respirava quando eu fui. É difícil explicar.

É o tal conceito alargado de liberdade de que falava?

É. É olhar a toda a volta e sentir isso. Tem erros, tem falhas? Tem. As democracias também vivem da guerra partidária e tudo o mais.

Faz uma avaliação positiva da chamada Geringonça?

Faço. Não é agora, mas António Costa é um homem que vai ficar na história portuguesa. É o homem que, mais de 40 anos depois do 25 de Abril, desmonta essa velha máxima do Bloco Central, de que não é possível governar à Esquerda em Portugal. E desmonta com um sorriso e a força que tem pessoalmente, e digo isto independentemente de gostar dele, que o conheço desde criança.

E admitindo que o PSD de Rui Rio ganha eleições. A questão era mais de relação com o PSD ou em particular com o governo de Passos Coelho?

O Passos Coelho é um péssimo político, uma pessoa que jamais deveria ter aparecido na política. Não tenho nada pessoal contra ele mas incompetentes como ele não podem. E temos de estar muito atentos a isso. Se me perguntar Passos Coelho ou Rui Rio? Acho o Rui Rio uma pessoa muito mais sensata, capaz, do que Passos. Mas prefiro um país mais à esquerda, do que mais à direita. Embora haja uma frase muito engraçada de um amigo meu, o maestro Victorino de Almeida. Uma vez perguntaram-lhe: ‘Oh maestro, é mais à esquerda ou à direita?’ E ele respondeu assim: ‘Depende de onde está o centro’. É uma resposta muito interessante.

Além dos ‘Duetos’, tem andado também em concertos. Aidade influencia?

Influencia e é bestial. A idade acrescenta – e falo por mim – responsabilidade, capacidade de trabalho que não se tem aos 30, 40, 50 anos e acrescenta uma coisa fabulosa: o à vontade.

É finalmente chegar àquela conclusão de que não se deve levar muito a sério. O que é interessante é entrar num palco e divertir as pessoas, distraí-las, em vez de as massacrar com mais problemas. Ninguém vai a um espectáculo para se chatear. Vai por curiosidade artística, até pode ser um espectáculo mais triste, sombrio, mas que tem um potencial artístico que vale a pena ver. Agora ir para cima do palco, cantar canções com ar sério e a pessoa a levar-se demasiado a sério, não. A minha obra é tão extensa e tão variada que estou à vontade. E faço-o com o mesmo interesse numa sala cheia na Casa da Música ou numa Fnac com 30 pessoas a ouvir, porque isso me diverte. Diverte-me ver as pessoas divertidas.

E mantém a vontade de fazer músicas novas?

Estou sistematicamente a fazer. Estava a fazer agora, interrompi para vir aqui conversar consigo. Saiu agora o ‘Duetos’, mas o próximo disco que quero gravar está praticamente pronto.

Tudo originais?

Tudo originais. E ainda há disco um que gravei no Brasil musicando poetas brasileiros, que ainda não saiu nem sei quando vai sair. Há uns anos gravei em Barcelona um disco em que musiquei 12 prémios Nobel da Literatura que ainda está para ser comercializado. Não sou dessa coisa de elaborar os discos mas gostava de fazer uma caixa com algo aproximado à minha obra toda na música. Gostava de em qualquer altura em que tenha de abandonar a profissão – embora espere exercer isto por alguns mais anos – que tudo isso ficasse ao alcance das pessoas. Não é justo que eu tenha gravado vários discos que ainda não são conhecidos.

Durante algum tempo pensei que isso se devia à minha guerra secular com as discográficas, porque nunca permiti que me dissessem que gravasse isto ou aquilo. É que estou disposto ao diálogo, mas não reconheço capacidade a nenhuma agência para me dizerem o que gravar.

Trabalhou com alguns novos nomes da música portuguesa. Como vê a música portuguesa atual?

Ainda recentemente na gala da SPA houve dois momentos para mim marcantes. Um, é um tema do JP Simões, que ganhou um prémio, com um arranjo muito bem feito e tive oportunidade de lhe dar os parabéns. Não é para toda a gente mas é uma música em que dizemos ‘aqui está um património interessante da música portuguesa’. E os Xutos. Aquilo é uma máquina, pá. Tecnicamente é fantástico, entra uma equipa que monta o palco em dois minutos, tocaram um tema com uma intervenção do guitarrista muito boa, tudo muito bem feito, o Tim é uma voz do nosso país. Quando o convidei para o ‘Duetos’ disse-lhe isso. Eles foram e aquilo é impecável, o som...

Já é uma banda com muitos anos de estrada também, não é?

É. Mas aquilo podia ser uma merda e não é. É muito bem feito. Mas como está a música portuguesa? Em certos casos está muito bem. Entre os mais jovens o que espero é que não haja pressa. Falo por mim. Há um tempo. Não se é vedeta de um momento para o outro. Não se canta uma canção caindo do céu aos trambolhões e se transforma numa vedeta. Isto é falso. Veja-se os concursos que as televisões fazem para terem cantigas de graça. É uma forma fantástica de ter horas de emissão sem pagar. Foi inventado este esquema que é convocar os jovens: ‘Queres ser artista?’ e aquilo vai reduzindo, com muita treta, e às tantas está-se a dizer genial. Dez pontos! Não se dá dez pontos a ninguém, nem ao Frank Sinatra, nem ao Tony Bennet. Há que deixar uma margem. E depois o que acontece aos vencedores, sabe deles? Aquilo é para render logo no momento.

É diferente o tempo da música hoje em dia?

Espero que as minhas palavras sejam bem entendidas: mas acho muito difícil jovens que chegam agora à música chegarem aos 71 anos de idade e continuarem. Há que estudar muito, ouvir muita música, têm que se disciplinar muito e não se levar demasiado a sério. E, principalmente na música, há uma coisa fundamental, que é ouvir música.

E como é a sua relação como ouvinte? Que artistas costuma ouvir?

Eu em casa componho. Depois meto-me no carro, vou a uma garagem que aluguei para mim e é aí que ouço música. Gosto de ouvir um Rachmaninoff, um Coltrane [risos]. Sou um bocado esquisito mas é porque desde miúdo o meu percurso mudou porque comecei a ouvir génios da música. A que ouço ou é do meu tempo, uma espécie de homenagem aos dos anos 50 e 60 com quem aprendi a tocar e a afinar a guitarra, até depois dar um salto para Duke Ellington, Charlie Parker. Já não tenho o mesmo tempo de vida e portanto só quero ouvir coisas boas.

Em entrevista ao ‘Alta Definição’ falou sobre o problema que teve com o alcoolismo. Nem sempre vemos uma figura pública a assumir abertamente um problema desta natureza.

Uma das regras que tem de ser respeitada nos Alcoólicos Anónimos é o anonimato. Quando cheguei pela primeira vez, há 13 anos, a uma reunião, não conseguia. As pessoas olhavam para mim, reconheciam-me e ficavam surpreendidas. Depois ficámos confidentes. Mas há um compromisso. Eu não posso ser anónimo. Mas considerando o facto de ser figura pública e o quanto isto foi útil para mim, acho que sempre que for possível eu transmito esse recado.

Temos um país em que ainda somos muitos a abusar da bebida. E é preciso ter muita vontade. Mas isto do alcoolismo, vou-lhe dizer, eu gastei milhares de contos para deixar de beber. Fui aos médicos, psiquiatras, tudo - e não resultou. Mas os Alcoólicos Anónimos resultou comigo...

Eu compreendo muito bem a dificuldade de deixar. O alcoolismo é uma doença que não tem cura, mas tem recuperação.

Hoje em dia incomoda-o, a bebida?

A mim não me incomoda que as pessoas bebam perto de mim. Em casa sou eu quem abre as garrafas. Mas há alcoólicos que não se sentam a uma mesa onde haja uma garrafa de vinho. A única coisa que não gosto é ver um tipo bêbado que nem um cacho dizer que controla perfeitamente a bebida. É a única coisa que me perturba. Porque é muito difícil, por uma questão de orgulho, pela solidão que se sente, com a bebida a prejudicar cada vez mais. Compreendo que a pessoa tenha muita dificuldade em sair disso. Mas ao mesmo tempo recordo que vale a pena aquele dia único na vida em que a pessoa decide ir a uma reunião.

E para lá da música, continua a pintar?

Sempre. Interrompi nesta fase mas foi por causa do lançamento do disco e todas estas coisas. A pintura é muito importante porque eu com a linguagem musical estou mais ou menos à vontade. Com a pintura, não faço ideia.

Tem sido autodidata?

Completamente. Leio muito, pinto muito. Pinto também porque tenho uma grande paixão pelos tipos que transformaram a pintura. Sou um apaixonado por Picasso, Vermeer, Mondrian, Braque, os impressionistas. Mas também porque os estudei. Estes tipos com muito talento foram descobrindo as várias maneiras que o nosso cérebro tem de expressar sentimentos e isso é fascinante. Ter a possibilidade de ter uma tela e transmitir algo é fantástico. Porque se eu quisesse verbalizar certos estados de alma, não conseguia. Mas, se estou a pintar, a dada altura percebo que aquilo quer dizer alguma coisa de mim.

Pintei muito no Brasil também, ainda lá tenho quadros para ir buscar. Aqui tenho pintado muito porque tenho um local onde posso ‘cagar’ tudo à vontade. A pintura é o processo que felizmente consegui encontrar para dessintonizar. Não me faz bem estar sistematicamente a pensar na música, embora seja difícil para mim. Enquanto estou a pintar, não me lembro de nada. Embora já me tenha acontecido pintar e fazer música ao mesmo tempo.

Um compositor tem dificuldade em desligar, gostaria de ter um tempo eterno. Como o objetivo é a excelência e ela é inalcançável, quer-se ir melhorando. É este o processo.

Foi assim consigo?

Concorri cinco anos seguidos ao Festival da Canção e fiquei duas vezes em último e isso não provocou nenhuma dor porque alguém tinha que ficar em último. Nem fiquei envergonhado por ter cantado uma porcaria de canção, que nunca foi o caso. De facto a canção seria desajustada para aquele efeito. Mas foi para o Festival que fiz canções que ainda canto muitos anos depois. A ‘Tourada’ tem 47 anos. O ‘Cavalo à Solta’ 49. São canções em que, hoje, subo ao palco e não posso deixar de cantar. Há alguma coisa mais extraordinária do que isto, um tipo conseguir no seu tempo de vida fazer uma coisa que ultrapassa o seu próprio tempo? Fazer canções que em vez de serem esmigalhadas pelo tempo, esmigalham o tempo? É uma coisa extraordinária.

A última música do ‘Duetos’ é com um dos seus filhos, curiosamente o único que também escolheu a música.

Sim, mas não por mim. Foi pela mãe, é um filho que viveu sempre um pouco afastado de mim e que é um grande pianista clássico.

Como é que foi partilhar o estúdio com um filho?

Foi ótimo. Eu já há uns tempos pensava ‘vou falar com o Filipe a ver se me acompanha’. Ele é uma joia de rapaz, professor no Conservatório, completamente vocacionado para a música. Ia pensando nisso e ia adiando. Mas aqui houve muito tempo para pensar. Tinha a ‘Cantores da Minha Terra’, que era uma canção que queria a fechar o álbum, um resumo de tudo. Mas com trio, quarteto, orquestra? Não, não é isto. E então falei com o Filipe, que acedeu imediatamente, e ele vai ao estúdio tocar aqueles acordes, uma coisa muito simples, mas que ele acompanha com algo fantástico que ele tem: uma alma de músico, um tempo, uma respiração, uma maneira de tocar especial. O Filipe é responsável, disciplinado, muito profissional e completamente dedicado. E é também [sorrindo] o meu convidado mais próximo.

Pedro Filipe Pina | Notícias ao Minuto | Foto: © Rita Carmo/Contos da Praça

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Câmara de Setúbal assinala 90.º aniversário de Zeca Afonso

Arranca esta sexta-feira o programa que assinala o nascimento do cantautor e poeta. A exposição Por Terras de Zeca,um concerto e a apresentação de dois CD inéditos são algumas iniciativas em destaque.

Zeca Afonso nasceu em Aveiro a 2 de Agosto de 1929Créditos / Antena Miróbriga

Inserida nas comemorações dos 45 anos do 25 de Abril, que a Câmara Municipal de Setúbal promove, a exposição Por Terras de Zeca, com trabalhos do ilustrador Pedro Sousa Pereira, tem inauguração marcada para amanhã, às 18h, na Galeria de Exposições da Casa da Cultura, onde ficará patente até ao próximo dia 28. 
 
Meia hora mais tarde, será feita a apresentação de José Afonso ao vivo, um conjunto composto por um livro de Adelino Gomes, um vinil e dois CD com concertos inéditos de Zeca Afonso, realizados a 4 de Maio de 1968, no Teatro Avenida, em Coimbra, e a 23 de Fevereiro de 1980, no Salão da Sociedade de Instrução e Recreio de Carreço, Viana do Castelo.
 
Também amanhã, pelas 21h30, estreia no Fórum Municipal Luísa Todi um espectáculo musical de homenagem a Zeca Afonso com algumas das suas mais conhecidas composições, como «Verdes são os campos, «Que amor não me engana», «Índios da Meia Praia» e «Venham mais cinco, revestidas de novos arranjos, aliadas a temas originais e a composições menos conhecidas do público, como «Papuça», «Lá no Xepangara» e «Ali está o rio». 

Os temas são interpretados por Zeca Medeiros, Filipa Pais, Maria Anadon e João Afonso, acompanhados por Davide Zaccaria, na guitarra acústica e no violoncelo, Armindo Neves, na guitarra eléctrica, Pedro Batalha, no baixo, e André Sousa Machado, na bateria.
 
O programa comemorativo do 90.º aniversário do nascimento de José Afonso prossegue no sábado, 13, às 15h, na Casa da Cultura, com um workshop de ilustração conduzido por Pedro Sousa Pereira, no âmbito da exposição Por Terras de Zeca.
 
A iniciativa pretende dar a conhecer a vida de José Afonso através da obra do ilustrador, bem como os valores que marcaram a história da liberdade em Portugal.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/camara-de-setubal-assinala-90o-aniversario-de-zeca-afonso

A luta contra a corrupção deve ser também um combate pela criação de valores morais

Mia Couto esteve em Luanda no passado sábado, 6 de Abril, numa sessão intensiva de trabalho, com os escritores José Eduardo Agualusa e Cynthia Perez, para criaram três livros infantis apresentados na Rádio LAC, uma iniciativa do Goethe-Institut Angola. O Jornal de Angola entrevistou o escritor moçambicano que acaba de publicar “O Bebedor de Horizontes”, um livro que desenterra do passado colonial a figura do Imperador Ngungunyane. Com este livro, o autor propõe que se olhe para o passado de modo menos politizado. A excessiva politização da história que os africanos vão fazendo mostra-nos, segundo o autor, que não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Actualmente existe uma mudança positiva, embora, diz o escritor, tenha chegado tarde. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. Assim pensa o autor moçambicano, que tem em Luandino Vieira, o primeiro escritor que o desafiou na busca de uma escrita que integrasse a oralidade.

Mia Couto adoptou este pseudónimo devido à sua paixão pelos gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome. Ainda gosta de gatos? Tem-nos em casa?

Gosto de animais, mas não como criaturas domésticas. Gosto de bichos mas quero manter com eles uma relação em que espero que eles sejam animais e, assim sendo, me ajudem a ser mais humano. Tenho cães, se é que se pode dizer que se "tem" cão. E por essa razão, os cães é que fazem as suas escolhas. E escolheram não ter a companhia dos gatos.


Com 14 anos de idade, publicou poemas no jornal Notícias da Beira. Em 1983, publica o seu primeiro livro de poesias Raiz de Orvalho. Você próprio um dia disse: "Eu sou da poesia". Como e de onde nasceu esse afecto pela Poesia?

A poesia vivia em minha casa. O meu pai era poeta, não apenas porque escrevia versos. Mas porque vivia de forma poética. O que quer dizer que ele ensinou-nos a dar valor às coisas que passavam desapercebidas. Às coisas que, na aparência, não tinham valor. Reaprendi essa lição quando encontrei a poesia de Manoel de Barros que mostra como descobrir beleza no meio da poeira.

No Poema Da Despedida, você diz: "Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei ainda assim,escrevo." Contudo, a sua palavra alcançou o Mundo, tendo a sua obra sido traduzida em mais de 20 países. Além do mérito reconhecido e do percurso editorial, valeu a pena ter escrito? 

Valeu. Eu acho que nenhuma outra coisa que eu faça me dá tanto sentido de realização. Há algo que insisto em dizer aos mais jovens. Não busquem fama, nem glória. O que vale é o gosto que temos em ser escritores, o que vale é termos amigos e não fãs.

No livro Mar Me Quer, o narrador fala assim para Luarmina: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.” Você acredita na eternidade, não só do homem, mas de toda a Vida?

A eternidade é alcançada em momentos de absoluta felicidade. São instantes em que podemos ser inteiros. E isso quase sempre se faz em harmonia com os outros, com quem amamos, com o que nos comove por uma razão de beleza.

João Passarinheiro, em Todo o Homem é Uma Raça, diz: “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.” Você, enquanto biólogo, pode explicar porque é que o ser humano, dono de tanta beleza que é a cor da pele, se implica tanto com a sua diversidade biológica?

Cada vez mais, a ciência nos ensina que grande parte do nosso corpo não é composto por células humanas. Nós, humanos, somos feitos por outros organismos que não tem material genético hu-mano. Não vivem connosco apenas. Nós somos eles. Esta descoberta tem repercussões fundamentais no modo como nos pensamos e como pensamos o mundo. A biodiversidade não está fora de nós. Está dentro. Há muito que a ciência biológica sabe que, quando se fala de espécie humana, o conceito “raça” não se aplica. Há mais diversidade dentro de um grupo que chamamos da mesma raça do que entre grupo e outros. O que quer dizer que dentro da chamada raça branca (é só um exemplo) há mais diversidade genética do que entre essa raça e qualquer outra raça. Aquilo que chamamos de diversidade é apenas um outro nome da própria vida.

O seu livro Cronicando mereceu um prémio da Organização dos Jornalistas Moçambicanos, em 1989. Além do seu carácter moralizante, as suas crónicas e intervenções públicas fazem também a denúncia da pobreza e da corrupção em Moçambique. A que se deve essa sua preocupação com as violações dos direitos humanos?

Não sei ficar calado, não sei aceitar a injustiça. Sei o que devo fazer como escritor. A minha obrigação de cidadão não se esgota no exercício da literatura. Mas não confundo a minha intervenção cívica com o que faço como escritor. Em Moçambique, colaboro com jornais, vou a escolas, intervenho nas redes sociais e nos espaços de debate público. O mais importante não é tanto o que se defende nesse espaço, mas a sugestão de que o importante é a discussão franca e aberta de ideias. E não o ataque pessoal, não a imposição da razão pela autoridade e pelo medo.

Numa entrevista, você diz que “O dinheiro não está ligado nunca às coisas do espírito. É a antítese do mundo real, onde tudo é comprável e as pessoas têm sempre um preço. Mesmo em Moçambique, apesar da importância que se atribui aos espíritos e à relação com os antepassados.” O falhanço na edificação do Estado africano terá algo a ver com a desatenção dada ao espírito, nas suas várias nuances (Educação, Cultura, etc.)?

Eu creio que os países africanos não tiveram tempo para completar essa edificação de um Estado central. Não chamaria a isso um “Estado Africano” porque não sei bem se temos um consenso sobre o que isso seria. Mas nós estamos também a pagar o preço de termos importado um modelo de Estado copiado dos Estados colonizadores. Não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Mas tudo isso não pode ser discutido se não aceitarmos que os nossos modos de produzir riqueza não mudaram tanto assim depois das independências. Extraímos matéria prima que exportamos para o Primeiro Mundo que depois nos revende de forma manufacturada. Essa era a base da economia colonial.

Será essa desatenção ou aversão que leva os políticos no poder a rejeitarem as propostas e as vozes críticas dos intelectuais africanos?

Eu creio que existe uma mudança positiva. Chegou tarde, em muitos casos. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. As novas gerações dos países africanos não viveram a opressão colonial. Muitos já não fizeram a luta pelas independências. Esses jovens estão ligados ao mundo, sabem como funcionam os outros países e como a liberdade se pode conquistar. A questão já não é dos intelectuais. A questão também não é a forma como os regimes rejeitam as vozes críticas. A questão é inversa: como as vozes críticas rejeitam os poderes autoritários.

Será essa constatação que o levou, tal como Pepetela, a afastar-se da actuação política directa? Para si, quem são o herói e o vilão hoje em Moçambique? 

Fui membro da FRELIMO durante anos. Muito do que sou aprendi nessa luta. Mas devo dizer que, mais do que os lemas políticos, havia imperativos éticos que me motivaram. Um deles era este: a FRELIMO defendia o princípio de que um militante devia ser o primeiro no sacrifício e o último nos benefícios. Durante um tempo isso foi verdade. Mas depois, tudo se adulterou. E hoje quem está no poder acredita ser legítimo servir-se e não servir os outros. Não acontece evidentemente em Moçambique apenas. Deixei de ser membro de um partido mas não abandonei a defesa dos princípios éticos que me fizeram ser militante.

Um personagem de Germano Almeida diz num dos seus romances que a falta de pontualidade é um dos factores de atraso do Continente. Já Samora Machel vivia preocupado com este problema. Esta falta de pontualidade que Pepetela diz ser para os dirigentes vincarem o seu poder, não terá nada a ver com a idiossincrasia do africano? Como é que podemos mudar este modo de pensar e agir?

Não creio que se possa falar da idiossincrasia do “africano”. Há milhões de africanos e cada um tem a sua identidade pessoal. Eu acho que a pontualidade é algo que só existe quando é criado e alimentado numa dada sociedade. Para isso há que dar o exemplo. Quando os nossos pais nos ensinarem o valor do tempo, quando os nosso chefes derem o exemplo na pontualidade então deixaremos para trás isso que pensávamos ser da nossa idiossincrasia. E repare, a pontualidade não tem a ver com o Tempo. Tem a ver com o respeito pelos outros, por esses que são obrigados a ficar à espera.

O seu romance O Bebedor de Horizontes faz uma retrospectiva ficcional da História de Moçambique, indo desenterrar ao passado colonial a vida de Ngungunyane, preso em Dezembro de 1895 em Chaimite. Porque é que a figura do Imperador Ngungunyane o apaixonou? Tem esse livro alguma lição para os poderes estabelecidos em Moçambique?

Existem vários recados nessa obra. Talvez o mais importante seja que devemos olhar para o nosso passado de modo menos politizado. A nossa História oficial, aquela que ensinamos na escola, é uma narrativa simplificada que deitou fora outras narrativas paralelas mas que não serviam certos interesses. A nossa história está cheia de histórias silenciadas. É muito mais rica e complexa do que aquilo que surge no discurso patrioteiro que nos ensinaram.

A Água e a Águia é o seu mais recente livro infantil saído no ano passado. E não é o único. Que ingredientes deve ter uma boa estória para crianças? 

Deve ter beleza, como qualquer obra literária. Existe uma tendência para minimizar a capacidade de entendimento das crianças. Então, explica-se o que só pode ser sugerido, simplifica-se aquilo que imaginamos que as crianças não entendem. O resultado são obras moralistas e paternalistas que perdem o mistério e o fascínio que as crianças naturalmente buscam.

Em A Confissão da Leoa você levanta, de forma mais completa, a problemática da Mulher em África e no Mundo. Com o crescimento da pobreza, cresce também o comércio do sexo, a chamada profissão mais antiga do Mundo. Se Mia Couto fosse mulher e pobre em Moçambique, como fugiria desta profissão, muitas vezes a última alternativa para sobreviver?

Eu responderia que, quando escrevo, sou mulher e sou pobre. Como sou qualquer outro personagem dos meus livros. Eu vejo que a prostituição é bem mais vasta que o comércio que erradamente se atribui apenas às mulheres. Raramente se fala em prostitutos mas há tantos ou mais homens do que mulheres que se prostituem. E falo apenas do ponto de visto da venda do corpo para o sexo. Mas existe a prostituição moral e essa não é domínio exclusivo dos po-bres. Quantos são hoje ricos porque se prostituíram? A fuga, como você lhe chama, depende muito da construção de uma sociedade que se constrói com verdade sobre valores morais.

Luandino Vieira teve alguma influência no seu estilo de “falinventar” o português e na reinvenção da narrativa africana, como observamos nas Estórias Abensonhadas?

Sem dúvida. Foi Luandino o primeiro escritor a me desafiar na busca de uma escrita que integrasse a oralidade. Faço questão de invocar o nome deste que foi um dos instigadores do meu caminho. Há escritores que se esquecem dos seus mestres. Quando se tornam mais conhecidos deixam de mencionar aqueles que foram as suas referências. Não será o meu caso.

Em 2014, Mia Couto ganhou o Prémio Neustadt International Prize for Literature, considerado o Nobel americano. Você acredita que se não tivesse sido traduzido para o inglês, teria alguma vez ganho este prémio? Como é que podemos, nós, escritores africanos de língua portuguesa, sair do gheto editorial, quando não temos possibilidades de ser publicados no estrangeiro?

Tem razão. Se eu não tivesse sido publicado em inglês, (e diria por certas editoras) eu não teria visibilidade para que o júri do Prémio Neustad tivesse pensado no meu nome. É uma injustiça? Sim, é. Mas todos sabemos da hegemonia da língua inglesa e de como os prémios actuam associados aos mercados do livro. Mas temos que deixar de chorar. Eu creio que te-remos que organizar nos nossos próprios países formas de nos tornar mais visíveis. Os africanos podiam explorar melhor plataformas de visibilidade internacional como é, por exemplo o Prémio Camões. Mas na verdade, não nos interessamos em prestigiar esse galardão. Quais são os países africanos que contribuem financeiramente para este prémio? Nenhum. Queixamo-nos muito e fazemos pouco. É preciso dizer que para esse prémio Neustad eu fui proposto por uma escritora africana, de nacionalidade etíope. Temos que ter um trabalho paciente mas firme de nos valorizar enquanto continente.

Líderes dos processos são determinantes

Quando recebeu o Prémio Camões, você celebrou “o que há ainda por fazer, (...) para que seja mais viva e mais verdadeira esta família que celebramos na nossa língua comum”. Porque é que a literatura dos PALOP é tão cara e tem tão pouca circulação nos nossos países e como ultrapassar esta situação?

Essa pergunta deve ser dirigida aos que mandam no mercado editorial. Os governos demitiram-se desta matéria. É um daqueles assuntos em que os Estados deram um passo atrás e entregaram tudo à lógica dos mercados. Tenho esperança que os livros possam circular por outras vias.

Após o desastre causado pelo Ciclone Idai, o representante da Renamo em Portugal considerou que o Governo falhou no combate à prevenção. Como biólogo, você concorda ou discorda deste pronunciamento? Porquê?

Eu creio que não seja muito edificante procurar, neste momento, culpas e desculpas. Ainda por cima, fazendo isso roupa suja a ser lavada fora de casa. Moçambique tem que se preparar de forma muito séria e consistente. Ocorrem em média três ciclones de grande escala por ano no Canal de Moçambique. Alguns destes ciclones atingem inevitavelmente a costa de Moçambique que é muito extensa e muito vulnerável. Moçambique tem que ter sistemas de prevenção e resposta instalados e isso é urgente e uma das lições que se deve retirar desta ocorrência. Mas é preciso dizer que a escala deste ciclone e das enxurradas que se seguiram é algo de proporções que superam as capacidades da maior partes dos países.

Angola e Moçambique têm uma experiência política muito parecida. Filipe Nyusi e João Lourenço estão ambos empenhados no combate sem tréguas contra a corrupção. Que diferença representa, neste combate, a leveza das instituições de controle e fiscalização da economia, nascidas de uma situação de monopólio dos poderes políticos pelo Executivo?

As pessoas que lideram os processos são, num dado momentos, determinantes. E que estes processos sejam consistentes; eles não podem depender de vontades pessoais. Deve ser um processo institucional. Mas deve ser também um combate pela criação de valores morais, desde a mais tenra idade. É preciso entender que se deixou que a corrupção se convertesse num sistema que é vivido desde casa e desde a escola como a normalidade.

José Luís Mendonça | Jornal de Angola | Foto em JA 

 

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Do amor romântico

Durante cerca de três décadas dei aulas sobre a dimensão cultural, política e vivencial do romantismo oitocentista. Começavam invariavelmente por procurar diluir a conceção do romantismo tardio, ou ultrarromantismo, que transformava o conceito numa expressão doentia – sob a forma de sentimento aparentemente dócil e contemplativo, mas traduzida em gestos por vezes bárbaros – da posse de alguém por outro alguém. Em regra, de uma mulher por um homem, embora pudesse ocorrer o contrário, ou pudesse também acontecer algo de menos convencional.

Depois mostrava que o verdadeiro romantismo pouco tinha disso. Era antes exaltação, heroísmo, liberdade, rebeldia ou rebelião, valorização do sujeito, jogo, autonomia da vontade, fusão da pessoa com a mudança do mundo. E também que, apesar de maioritariamente masculino – não esquecer que as circunstâncias eram outras – dera também lugar a inúmeros momentos de emancipação de mulheres. Como seres autónomos, como pessoas, já que como movimento coletivo, orgânico, até ao final de Oitocentos não existia ainda qualquer vislumbre de feminismo. Mostrava também como uma boa parte da idealização do feminino pelos homens e pelas mulheres do romantismo, apesar de hoje totalmente ultrapassada e insustentável, foi na época um instrumento de valorização das mulheres como seres humanos autónomos e até independentes dentro de uma cultura hegemonicamente masculina. Apesar de em algumas variantes elas serem também diabolizadas pelos homens românticos com medo da sua influência. Devo ter passado este testemunho a umas cinco mil pessoas, no mínimo.

Eis quando deparo com textos concebidos por estes dias que deturpam tudo isto e procuram agora, a partir do desenvolvimento da caricatura tardo-romântica, utilizada atualmente pelos mecanismos da indústria do consumo, apresentar o romantismo como um mero instrumento de manipulação e de exploração, como meio de ilusão, ou como fator negativo indutor de formas veladas ou implícitas de violência de género. Claro que mesmo aqui se vai a um ponto extremo, considerando-se até a sincera oferta de uma flor ou de um poema, ou de belas palavras de carinho e de elogio, por parte de um homem a uma mulher, como inevitável instrumento de dominação ou de chantagem emocional. Claro também que algumas das pessoas que o defendem terão problemas com a interpretação da realidade e com a sua própria vida, metendo tudo no mesmo saco, mas outras fazem-no por irem atrás de leituras ligeiras e fáceis. Deveriam, pelo menos, informar-se um pouco melhor sobre os conceitos que usam. E sobre a sua história também. O que significa sobre as pessoas que já não existem, mas lhe deram forma.

Muito mais haveria a dizer sobre o tema, incluindo a vertente do amor pela humanidade no seu todo, que na sequência da filosofia das Luzes o romantismo também desenvolveu, bem como sobre o lado oposto da influência romântica na nova forma de entender o amor na transformação das masculinidades. E ainda sobre romantismo e revolução, ontem e hoje (Marx foi romântico). E ainda sobre as cabeças que giram à volta do problema, naturalmente. Assunto que dará sempre para livros inteiros, daqueles bem volumosos. E para filmes e séries. E para longas conversas também. Mas não é aqui o seu lugar.

Imagem: «The Escape», gravura em aço aguarelado à mão, 1862; sobre desenho de J. Browns.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/04/10/do-amor-romantico/

Obra de Saramago ganha nova urgência perante avanço da extrema-direita

A obra de José Saramago O Ano da Morte de Ricardo Reis ganha uma nova urgência com o regresso dos populismos, afirma João Botelho, que decidiu adaptar o romance para o cinema face à sua actualidade.

Em 2018 assinalaram-se 20 anos do Nobel atribuído a José SaramagoCréditos / www.m-x.com.mx

Depois de pegar noutros autores importantes da literatura portuguesa, como Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa ou Eça de Queirós, João Botelho queria adaptar José Saramago, acabando a actualidade por conduzir o realizador para O Ano da Morte de Ricardo Reis, que tem como pano de fundo a afirmação da ditadura de Salazar e o surgimento da extrema-direita na Europa.

Na obra de José Saramago, Ricardo Reis regressa do Brasil, um mês depois de o seu criador Fernando Pessoa morrer. A Lisboa que encontra, em 1935/1936, é cinzenta e triste, onde quase sempre chove.

Os mais pobres juntam-se para o bodo, assiste-se à escolha das cores do fascismo português num comício no Campo Pequeno, um gerente de hotel sempre à procura de saber tudo simboliza os bufos, ao mesmo tempo que o heterónimo de Pessoa lê notícias que vêm do resto da Europa, de Mussolini, de Hitler, do arranque da Guerra Civil espanhola.

«Eu acho que, nos tempos que correm, estamos a viver umas épocas muito parecidas, muito estranhas, com o regresso dos populismos, nacionalismos», disse João Botelho à agência Lusa durante as rodagens do filme, em Coimbra.

Luís Lima Barreto, que interpreta Fernando Pessoa na longa-metragem de Botelho, também salienta «uma maior urgência» em adaptar esta obra.

«Este filme há dez anos ainda se podia perguntar o porquê de o fazer. Neste momento, as pequenas referências que há no filme são tão parecidas com o que se está a passar no mundo que até faz impressão», diz.

O actor conta que, a estudar o texto, prendeu-se com uma frase de Pessoa a Ricardo Reis: «O mundo ainda está pior do que quando o deixei.»

«Neste momento, as coisas estão absurdamente perigosas», constata.

Também o actor brasileiro Chico Diaz, que interpreta Ricardo Reis, considera «extremamente oportuno» o momento de adaptação da obra. «Vem com muita força para tornar clara a discussão que estamos a viver no mundo inteiro. O filme veio para tornar essa discussão bem fértil», acrescenta, apontando para o seu próprio país que está a viver «um momento ímpar, que chega a ser surreal», onde «a razão se perdeu».

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/obra-de-saramago-ganha-nova-urgencia-perante-avanco-da-extrema-direita

José Saramago e a indiferença social

José Saramago e a indiferença social

Uma das obras mais famosas e célebres de José Saramago é Ensaio sobre a Cegueira, romance que convida a uma reflexão profunda sobre a alma humana e sobre o que aos nossos olhos parece invisível.

José Saramago foi a voz mais autoritária da literatura portuguesa. O refinamento de sua escrita lhe valeu o Prêmio Nobel, mas não menos importante foi seu compromisso do ponto de vista político e social. Obras como “Ensaio sobre a cegueira” são um meio excepcional de catarse, um ponto de partida para a reflexão filosófica, um convite claro para “acordar”.

De José Saramago diz-se frequentemente que ele era um agitador de consciências. Ele nunca desistiu de denunciar as injustiças e sempre assumiu uma posição clara contra os conflitos de sua época. Em uma de suas palestras, ele se definiu como um escritor apaixonado, impulsionado pela necessidade de levantar cada pedra, mesmo sabendo que monstros reais poderiam estar escondidos em baixo.

A busca da verdade e o desejo de estimular a mente eram os ingredientes de um estilo literário único. Suas parábolas, construídas com imaginação, ironia e compaixão, desenham uma realidade que ninguém pode permanecer indiferente.

Vários anos após sua morte, os trabalhos de Saramago continuam sendo reimpressos em diferentes idiomas. E nem mesmo as novas gerações permanecem insensíveis ao encanto de uma personalidade tão multifacetada, um homem que chegou a pensar em completar a Declaração Universal dos Direitos Humanos com sua Carta de Deveres e Obrigações. .

Foi o escritor mais brilhante que Portugal nos deu, ao lado de outros nomes ilustres como o de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz . Sua provocativa, mágica e perturbadora obra nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

“Os três males do homem moderno são a ausência de comunicação, a revolução tecnológica e uma vida centrada no triunfo pessoal”.

-José Saramago-

Biografia de José Saramago, um estudioso de origens humildes

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 na Golegã, Portugal. Seus pais eram José de Sousa e María da Piedade, um casal de agricultores de origem humilde que ganhavam a vida com o trabalho duro da terra. Quando o pequeno José tem apenas dois anos, os dois decidem emigrar para Lisboa em busca de melhor sorte.

Na capital portuguesa conseguem alcançar uma certa estabilidade econômica. O pai começa a trabalhar como policial e José tem a oportunidade de receber educação primária. Por alguns anos ele frequentou um Instituto Técnico, mas foi forçado a sair quando seus pais não podiam mais pagar a ele o ensino médio.

Por esse motivo, o jovem José não tem escolha senão começar a trabalhar em uma fundição. Ao realizar essa atividade, com a qual ele ganha a vida, ele também usa outras roupas: as de erudito . Na verdade, ele nunca para de ler, aprendendo sozinho e, acima de tudo, escrevendo . Assim, em 1947, aos 25 anos, publicou seu primeiro romance, Terra del Peccato . Nesse mesmo ano nasceu sua filha Violante, fruto do primeiro casamento.

Maturidade como escritor e jornalista comprometido

A partir de 1955, José Saramago começou a traduzir as obras de Hegel e Tolstoi para a editora Estúdios Cor. Ao mesmo tempo, ele se esforça para tornar seu estilo de escrita mais maduro, e está empenhado em buscar novas oportunidades para alcançar o sucesso com seus romances. No momento, na verdade, apesar do talento inquestionável, nenhum editor está disposto a publicar seus trabalhos.

Depois de ver o novo romance rejeitado, Claraboia (que será publicado somente após sua morte), Saramago leva vários anos para decidir tentar novamente. Teremos que esperar até 1966, com Poemas Possíveis e uma segunda coleção de poemas, Provavelmente Alegria

Tendo alcançado o sucesso literário, Saramago sente a necessidade de embarcar em uma nova carreira no mundo do jornalismo. Começou a trabalhar para o jornal Diário de Notícias, onde mais tarde retornou como vice-diretor. Mais tarde trabalhou como comentarista político no Diário de Lisboa.

Em 25 de abril de 1974, a chamada Revolução dos Cravos explode em Portugal e, desde então, Saramago tomou a decisão de dedicar-se exclusivamente à escrita. Agora é uma figura conhecida e respeitada, e o que ele quer é deixar mais obras, mais livros para o mundo. Desde 1976 publica Os Apontamentos, obras teatrais como A Noite (1979) e livros de histórias como Objecto quase (1978).

O Prêmio Nobel

Nos anos 80, José Saramago é agora um escritor mundialmente famoso. Memorial do Convento (1982) consagra-o definitivamente como um autor internacionalmente apreciado. Alguns anos depois, ele consolidou seu sucesso com A Jangada de Pedra (1986), o polêmico O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e, em particular, Ensaio sobre a cegueira (1995).

Seu estilo agora é mais procurado e seus livros são mais engajados, de modo que, em 1998, o Comitê de Estocolmo (Suécia) deu a ele o maior prêmio por um escritor: o Prêmio Nobel de Literatura. Naquela época, José Saramago dividia sua vida entre duas terras: Lisboa e Lanzarote (Ilhas Canárias). Neste último lugar, ele passou os últimos anos de sua vida com sua terceira esposa, Maria del Pilar del Rio Sánchez, jornalista e tradutora espanhola.

Ele morreu em 18 de junho de 2010 depois de lutar por um longo tempo contra a leucemia. Ele tinha 87 anos e acabava de começar um novo romance , dos quais existem apenas as primeiras 30 páginas.

Ensaio sobre cegueira

“Nós não somos cegos, mas nós não vemos”. Essas palavras resumem bem a metáfora argumentativa de uma das obras mais perturbadoras de Saramago. Em Cegueira, falamos sobre a incapacidade dos seres humanos de reconhecer o próximo. As pessoas de repente se transformam em criaturas mesquinhas, seres cegos que precisam da orientação dos outros para entender as coisas e sobreviver.

O romance é uma profunda reflexão sobre a alma humana. É um conto distópico, que mantém você preso até pela curiosidade de descobrir por que essa estranha forma de cegueira afetou a população e continua a se espalhar como uma infecção. As coisas precipitam quando o governo decide colocar em quarentena os doentes, sujeitando-os a formas estritas de controle.

Entre os protagonistas da história, só se pode ver: uma mulher que acompanha o marido naquela prisão, emprestando-lhe, por sua vez, seus olhos para ajudá-lo em tudo o mais. No entanto, todo o cenário não é menos opressivo. A higiene é escassa, os soldados não hesitam em atirar em quem chega perto demais e a degradação começa a se espalhar. Lentamente, a situação assume a forma de uma verdadeira ditadura. O caos reina e a esperança é consumida inexoravelmente.

Uma obra em que nos é mostrada a cegueira interna do ser humano. Essa incapacidade de reconhecer um ao outro e que evoca egoísmo, perda de razão, conflito e medo. Um cenário perturbador, através do qual Saramago convida a uma reflexão moral corajosa.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro chocante, um marco na literatura contemporânea que vale sempre a pena redescobrir ou descobrir pela primeira vez.

Adaptado de lamenteemeravigliosa

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/jose-saramago-e-a-indiferenca-social/

Este pode ser o instrumento náutico antigo usado na viagem de Vasco da Gama à Índia

Durante as investigações de um naufrágio no mar da Arábia, perto de Omã, mergulhadores descobriram um disco de metal pouco comum que provou ser o astrolábio náutico mais antigo de que há conhecimento, segundo as informações dos investigadores britânicos.

O instrumento de navegação, que foi encontrado no local de naufrágio de um dos navios da armada portuguesa durante a segunda viagem à Índia (1502-1503) do explorador Vasco da Gama.Após terem analisado as decorações do artefato, os pesquisadores sugerem que este objeto era usado já em 1496.

O astrolábio contém a gravura do brasão de armas do reino de Portugal com uma esfera armilar, que está associada ao rei Manuel I de Portugal que reinou entre 1495 até 1521.

O objeto tem 175 milímetros de diâmetro e pesa 344 gramas, de acordo com o relatório da equipa de investigadores.


Astrolábio náutico é um instrumento usado pelos marinheiros durante as viagens para medir a altura do Sol e calcular assim a latitude do sítio onde se encontravam. Só um outro destes artefatos de disco sólido foi encontrado, mas sua autenticidade e datação não foram provadas.

Dos 104 astrolábios encontrados até agora, esta descoberta considera-se não só a mais antiga, mas também a única decorada com símbolos nacionais, afirmam os investigadores.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019032213542630-astrolabio-oma-naufragio-vasco-da-gama-armada/

Dominical liturgia [citando Sophia] - 9

Dominical liturgia [citando Sophia] - 9
Dominical liturgia [citando Sophia] - 9
RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA*
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972
_________________________
*Poema que tinha destinado ao Dia Internacional da Mulher mas que por razões conhecidas adiei para hoje...

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

MORREU O ARMANDO CALDAS, MEU AMIGO, por ANTÓNIO GOMES MARQUES

MORREU O ARMANDO CALDAS

 

Telefonou-me o João Machado, o que é habitual, mas o que motivou o seu telefonema de hoje surpreendeu-me. «Morreu o Armando Caldas», informa-me o João, acrescentando mais alguns pormenores, nomeadamente o ter sido uma morte repentina.

Não li, nem ouvi, qualquer referência à morte do Armando, acontecida no passado dia 13 e, por isso, não marquei presença no seu funeral.

Conheci o Armando em 1961, no Teatro Moderno de Lisboa, sendo-me apresentado por um amigo comum, o saudoso Rogério Paulo.

Mantivemos contacto ao longo destes anos, participámos em colóquios sobre teatro e nunca o Armando me deixou de convidar para assistir às suas encenações, nas quais nem sempre pude marcar presença. Falávamos depois sobre os espectáculos, mostrando-se sempre o Armando interessado em ouvir o que tinha para dizer, não mostrando qualquer contrariedade quando a minha crítica era contundente, proporcionando essa discordância um diálogo mais vivo do que habitualmente. O amor ao teatro, um teatro comprometido com a vida, unia-nos e a amizade foi-se sempre fortalecendo, mesmo com as minhas discordâncias em relação ao seu querido Partido Comunista Português, a que pertencia desde 1956. «Mesmo discordando, gosto de te ouvir, Gomes Marques», era assim que, normalmente, terminavam as nossas conversas que envolviam o seu partido.

Publiquei um ou outro texto com referências ao seu trabalho no «Intervalo-Grupo de Teatro», residente no Auditório Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha, que ele sempre me agradeceu com um abraço de amizade.

Um dia, disse-me: «Este ano o homenageado é o Hélder Costa. Sabes quem vai falar sobre ele? És tu!» Ao aperceber-se que eu iria dizer algo, logo acrescentou: «És tu, está decidido!» E fui eu, pois logo verifiquei que dessa não me safava. Como também, com a mesma determinação, me tinha «exigido» um texto para o livro sobre o Teatro Moderno de Lisboa, organizado pelo Tito Lívio, com a colaboração de Carmen Dolores, que viria a ser publicado com o título «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) – Um Marco na História do Teatro Português» (edição da Editorial Caminho-Agosto de 2009).

A sua vida confundiu-se com o Teatro Português desde que, em 1958, se estreou como actor no Teatro Avenida, em Lisboa, na peça de Carlo Goldoni, tendo sido um dos corajosos fundadores do Teatro Moderno de Lisboa, companhia de actores que é marcante na história do teatro português, para além de ter trabalhado em algumas das companhias de teatro mais relevantes no nosso país, como o Teatro Nacional Popular —do seu Mestre Francisco Ribeiro, o Ribeirinho, Mestre esse a quem sempre se referia com enorme respeito e gratidão—, no Teatro de Sempre, no Grupo 4. Principal animador do Primeiro Acto – Clube de Teatro de Algés, onde aconteceram algumas reuniões clandestinas acordando acções a desenvolver na luta por um teatro digno, interventivo na sociedade portuguesa, intervenção essa que exigia coragem aos intervenientes, terminando a sua actividade no já referido Intervalo – Grupo de Teatro, em 2016.

Em 2008 foi-lhe feita uma justa homenagem, no Teatro da Trindade, pelos seus 50 anos de dedicação ao teatro, iniciativa que teve como protagonistas Carmen Dolores, Rui Mendes e Fernando Tavares Marques.

Recebeu uma outra não menos justa homenagem da Câmara Municipal de Oeiras, em 2013, de que se publicou uma brochura, cuja capa abaixo se reproduz.

MORREU O ARMANDO CALDAS

 

O Armando ofereceu-me um exemplar com a seguinte dedicatória:

«Para o António Gomes Marques, bom amigo e amante de teatro como eu, com a fraternidade do Armando Caldas. 8.02.2014»

É um momento de grande pesar para quem, como eu, deixou de ter a presença física de alguém que comigo partilhou muitas lutas, muitas tristezas, mas também muitas alegrias, numa sã camaradagem de quase 58 anos.

Adeus amigo, não serás esquecido enquanto eu respirar!

Portela (de Sacavém), 2019-03-16

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/03/17/morreu-o-armando-caldas-meu-amigo-por-antonio-gomes-marques/

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»
Andava eu naquela labuta conhecida da procura da notícia, para a candonga costumada, trazendo para este meu espaço textos que outros vão escrevendo, quando tropeço no título "Não se deve perder de vista um mundo mais justo e solidário" e onde o escritor alerta para as «tremendas transformações» que o mundo está a sofrer, em que se assiste à recuperação de pontos de vista que se pensavam «completamente ultrapassados». Trata-se, como pode (e deve) ler aqui, de um enquadramento a um anúncio querido (mais um livro). Para além de ter eu encontrado este modo em divulgá-lo e porque às tantas ele refere ter sido criado numa família de ideais republicanos, que nunca o quis ver vestido, quando aluno do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, com a farda da Mocidade Portuguesa, organização juvenil da ditadura de Salazar, de pronto me ocorreu aquele outro texto seu, por mim aqui citado:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.
Mário de Carvalho - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

FRENTE A VINCENT | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

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Às vezes, é um livro; outras uma sinfonia ou um quadro. Há obras que se transformam em companheiras de vida e nos enchem os olhos de espanto quando as lemos ou relemos, as ouvimos ou vemos na pureza original de um confronto directo, que são aqueles instantes únicos que nos deixam de respiração suspensa pela emoção estética.

Penso muito nessas emoções que se cruzam connosco nos caminhos da vida e nos parecem, no circunstancialismo quotidiano de que emergem, momentos e situações que a memória guarda como inesquecíveis para todo o sempre. É assim, e já o escrevi mais de uma vez, quando ficamos diante da Guernica, de Picasso, cruzamos os olhos com os sonhos de Goya ou a caligrafia plástica de van Gogh, a exuberância de Portinari, por exemplo, mas também quando ouvimos a genialidade de Mozart, Beethoven ou Mahler, assistimos a Verdi no Teatro alla Scala, lemos a poesia grega clássica, escutamos a leveza da língua de Camões ou versos de Pessoa e de Herberto. Também poderíamos falar na música das palavras de Drummond, na 350px Quarto Statoexplosão telúrica de Gabo, na inquietação interior de Proust, na polifonia literária de Aquilino, da abertura de A Casa Grande de Romarigães. E de tantos outros criadores que emprestaram intemporalidade às artes e deram corpo à profecia de Antígona de que nada há mais maravilhoso do que o Homem.

Essa perplexidade do reencontro, que se funde em espanto, sentida em Milão, na famosa Pinacoteca ou Galeria Brera, ao deparar com um quadro que tem habitado o imaginário dos meus dias, o famoso Quarto Estado, tão emblemático que Bertoluci foi buscá-lo para o início do fantástico Novecento. Volpedo pintaro-o entre 1895 e 1896, uma espécie de manifesto do proletariado italiano do século XIX. Sempre achei espantosa a explosão colectiva e épica da tela, encerrando uma expressiva dinâmica social, como se o pintor quisesse mostrar uma multidão de condenados da Terra, subitamente levantados do chão da História. Daí a escolha de Bertoluci.
Agora, de novo, a mesma emoção, ao ficar frente a frente com o auto-retrato de Vincent van Gogh, no Rijksmuseum em Amsterdão. Parar e olhar, como se quiséssemos entrar nos olhos do pintor e descobrir nas suas águas a sua curta aventura existencial, a tristeza e o drama da sua história de vida, o compromisso nunca renegado da sua paixão pela pintura, a incapacidade da sociedade para compreender a sua genialidade, como mostra exemplarmente o filme At Eternity's Gate, de Julian Schnabel. 
Frente a Vincent, mergulhados na fundura do seu olhar, estamos decerto face àquelas "vozes do silêncio", de que falava Malraux para definir a relação entre a obra de arte e aqueles que, vendo-a, a interiorizam como acto criador desafiante.
Às vezes, um quadro é quanto basta. Para percebermos tudo. Quarta-Feira, 27 de Fevereiro

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

José Afonso (1929-1987).

Não se separa um homem inteiro, 
das partes e facetas que lhe dão a dimensão. 
Não se separa o andarilho, dos trilhos percorridos. 
Não se separa o professor, dos seres a quem deu saberes. 
Não se separa o cantor, dos seus cantos. 
Não se separa o poeta, dos poemas que nós dizemos.
Não se separa o criador, da obra criada. 
Não se separa o resistente, da luta travada. 
Não se separa o sonhador, da utopia sonhada. 
Não se separa a razão, da alma. 
E quando tal se separa, o homem parte. 
E omite-se a inteira memória de um homem digno.
Rogério Pereira
(reeditado)

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

José Afonso não é uma estátua. Celebremos por fim a sua música

(In Expresso Diário, 23/02/2019)

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Ferido desde a infância, esforçava-se por ser justo, sofria de insónias e, com ou sem dinheiro, perseguido ou não, sonhava dia e noite com música – toda a música, da Beira Baixa a Moçambique. No dia em que passam 32 anos sobre a sua morte, voltamos a José Afonso: o dos discos e o humano.


Quando em 1968 José Afonso entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar aquele que seria o seu segundo LP e primeiro pela Orfeu, Cantares do Andarilho, estaria muito possivelmente longe de imaginar que aquele punhado de canções iria pôr em marcha duas revoluções: uma de ordem musical, rompendo com tudo o que havia para trás na música portuguesa, outra de ordem política, visto a sua obra ter servido de bandeira de contestação ao antigo regime.

Na realidade ele tinha preocupações mais prementes e pragmáticas: conseguir simplesmente gravar. «Ele era muito nervoso», conta hoje Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, «e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar dum lado para o outro a dizer ‘Não vou gravar, não vou gravar’. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha».

O episódio é simultaneamente caricato e comovente mas traz ao de cima uma dimensão humana mais palpável que a da imagem icónica que o tempo impôs a José Afonso. Nos vinte e cinco anos que decorreram desde a sua morte, a 23 de fevereiro de 1987, José Afonso tornou-se lentamente na figura icónica da luta pela liberdade. É inteiramente merecido que o seja. O problema é que, como assinalam Arnaldo Trindade, Vitorino, Carlos Guerreiro, Júlio Pereira e o sobrinho João Afonso, a iconografia se sobrepôs a tudo o resto, ensombrando o fundamental: a complexidade (e espantosa análise social) que as suas palavras retratavam; o lado humano, de dúvida e angústia; e, pior ainda, a música. Porque José Afonso era, antes de mais, um músico possuído pelo génio, daqueles que «não podiam ser inventados», como diz Trindade.

Talvez agora, no momento em que a Orfeu reedita a obra que José Afonso lá gravou [reportamo-nos a 2012, altura em que este artigo foi publicado na revista BLITZ] e que constitui o grosso da sua produção, já seja possível voltar a falar de José Afonso enquanto homem e músico, um homem que a geração nascida depois da década de 70 desconhece, um ser com feridas fundas de infância, à conta de uma trágica história de separação dos pais, hipocondríaco, que sofria de insónias e precisava, como conta Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, da esposa Zélia para o transportar por Lisboa, um ser constantemente em conflito consigo mesmo, a pôr em causa a forma mais justa de atuar; esse homem também jaz, hoje, na sombra das homenagens e dos cravos.

Isto não implica desmerecer por completo a iconografia. Arnaldo Trindade lembra que Afonso «sabia que era um ídolo desde que “Os Vampiros” saiu». “Os Vampiros”, até hoje uma das canções emblemáticas de José Afonso, foi editado originalmente em single em 1963 e constitui, juntamente com “Menino do Bairro Negro”, a primeira incursão pela canção política. Até então, José Afonso dedicara-se exclusivamente ao fado coimbrão, de que era um exímio praticante, tendo gravado alguns singles do género.

José Afonso na adolescência

             José Afonso na adolescência

Eles comem tudo

É nessas canções que José Afonso promove uma rutura com a música da época e inicia o seu caminho: larga a guitarra portuguesa, abandona o cantar fadista (ainda que tenham restado marcas) e começa, numa primeira fase, a recuperar o legado do cancioneiro português (mormente a música da Beira Baixa), como é verificável ouvindo os três primeiros LPs que gravou, Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho e também um pouco em Contos Velhos, Rumos Novos (1969), sendo este último já ele próprio um disco de rutura face aos dois anteriores, antecipando o que se seguiria na década de 1970. Também começa aí a usar as suas próprias palavras, em vez dos poemas populares, como era de tradição com o fado coimbrão.

Quem ouvir hoje as primeiras canções isoladas que gravou, bem como esse par de LPs iniciais, assentes apenas em voz e guitarra clássica, pode ter dificuldade em perceber em que sentido é que são discos de rutura ao ponto de Rui Pato, o guitarrista que acompanhou Afonso até 1969, afirmar hoje que «o primeiro LP [Baladas e Canções] acaba por ser inócuo». Ainda assim, Pato assinala que Baladas e Canções «foi importante na medida em que rompeu com a tradição de Coimbra e trouxe à música portuguesa um modo diferente, sob o ponto de vista musical e harmónico».

Pato deixa bem claras as diferenças entre o que havia antes de José Afonso e o que José Afonso fez: «Quem tiver memória, lembra-se que a canção portuguesa ia do fado tradicional ao nacional-cançonetismo da Maria José Valério e do Tony de Matos. Era isto que se ouvia na Emissora Nacional [a única rádio da altura] e que as pessoas ouviam e conheciam; não havia muito mais na música portuguesa. Toda a estrutura musical das Baladas não tem nada a ver com o ambiente das cançonetas e é completamente diferente da forma do fado».

Pato, que hoje é médico em Coimbra, não tem a mínima dúvida que num país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, as canções dos primeiros discos constituem «um corte radical, ao ponto de em Coimbra as Baladas não serem bem vistas. Em Lisboa ainda nem sequer tinha surgido gente que introduzisse novos poemas nas canções». Pato conclui: «O Zeca, quando aparece, é uma verdadeira pedrada no charco».

Há uma razão para Pato chamar «inócuo» a Baladas e Canções: apesar de ser o primeiro LP e de ter sido editado em 1964, um ano depois do single “Os Vampiros”, não é propriamente um disco de corpo inteiro, antes a reunião das primeiras experiências que Afonso fizera fora do fado, e que editara em EPs e singles. “Os Vampiros”, por exemplo, foi gravado depois, mesmo tendo saído antes. E constitui, sem dúvida, um avanço musical e lírico face ao que se encontra no LP de 1964. «Os problemas de repressão», conta o guitarrista, «começaram por causa de “Menino do Bairro Negro” [outra canção editada em single antes do primeiro LP]. Depois, “Os Vampiros” tornou-se o hino da Rádio Argel [onde se encontravam vários dissidentes políticos perseguidos pelo regime]». Há quem afirme que a Pide proibiu “Os Vampiros”, mas isto não é claro: Arnaldo Trindade, que não editou essa canção, e reportando-se apenas ao que foi lançado sob o selo que comandava, afirma que «se dizia que os discos eram proibidos, mas é mentira: eram censurados nas rádios mas nunca estiveram fora do mercado». Essa censura criou «uma espécie de aura à volta de Zeca», diz Arnaldo, «ao ponto de Cantares do Andarilho ter vendido muito bem».

Não há dúvida que “Os Vampiros”, com o seu ataque violento ao sistema económico, tornou Afonso em alguém a ter em conta. Segundo Pato, «os núcleos de esquerda começaram a chamar o Zeca para cantar em reuniões de trabalhadores e de estudantes: a música do Zeca estava a servir de fermento». É difícil quantificar quantas pessoas terão ouvido a canção na altura, mas percebe-se quão longe ia o alcance daquela canção ao ouvir Vitorino, que mais tarde viria a gravar com José Afonso e atuar com ele ao vivo, contar a história de como se conheceram: «Isto passou-se em 1967. Eu estava em Tavira, na ropa, e fui ver um concerto intitulado “Dr José Afonso canta Baladas de Coimbra” na Casa de Pescadores de Olhão. Foi a primeira vez que o vi, não podia perder a oportunidade». Se um tropa nascido no Redondo sabia da existência do Dr. José Afonso, quantos mais saberiam? A continuação da história é também altamente reveladora do modus operandide José Afonso: «ele estava com dificuldade em afinar a guitarra e eu ofereci-me para a afinar. Ficámos amigos».

A amizade levou Vitorino a passar férias com a família Afonso na Fuzeta, de onde era natural Zélia, a segunda mulher de José Afonso. Foi aí que começaram «a cantar juntos, em simples brincadeira», o que redundou em parceria musical. Isto aconteceu dezenas de vezes na carreira: acabar a convidar músicos para tocar ou cantar em discos seus após uma (ou muitas) noite(s) de cantorias. A amizade, dizem todos, era-lhe fundamental.

Foi também assim que Rui Pato acabou a tocar nos discos de José Afonso. «Eu conheci-o através do meu pai», recorda hoje. «Ele um dia foi ter com os amigos à Brasileira [café coimbrão frequentado por estudantes e licenciados], muito entusiasmado com umas novidades musicais. Tinha feito umas canções, mas não era fado, e para mostrar aquela nova modalidade precisava de uma viola. E o meu pai lembrou-se que eu tinha uma viola, pelo que foram todos para minha casa e foi então que o conheci. Eu estava sentado nas escadas, ele apresentou as suas primeiras canções e ia tocando muito mal – sempre foi mau guitarrista. Tocava uma nota e dizia “e depois isto vai para aqui e depois vai para ali”. E eu pedi para apresentar alguns acompanhamentos em contraponto à maneira como ele estava a tocar, que era muito básica. Ele gostou e começou a dizer ao meu pai: “o miúdo é que me vai acompanhar”. E foi assim que nasceu a nossa relação».

O simples facto de ter escolhido um garoto de 16 anos como seu acompanhante em disco diz bem da abertura de espírito de José Afonso. Na prática, foi assim que nasceram “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”. «Trabalhar com ele era fácil, dava-me completa liberdade», recorda Pato. «Ele apresentava-me o esboço da canção e depois eu organizava-a do princípio ao fim». Será este, aliás, o esquema de trabalho de José Afonso com os seus futuros parceiros musicais de discos subsequentes. E já então havia uma particular obsessão: «a grande preocupação dele era a parte rítmica, aí era muito rigoroso».

Ter uma carreira musical, naquela altura, era complicado. Para mais quando o cartão-de-visita era uma canção como “Os Vampiros”, com o seu refrão assombrado, que tanto desagradava ao regime: «eles comem tudo e não deixam nada». De 1962, quando Pato e José Afonso iniciam a colaboração musical, até 1964, quando o último emigra para Moçambique, a «carreira» vive ao sabor da colocação de José Afonso como professor. «Ele dava aulas pelo país fora e eu ia ter com ele para ensaiar», recorda Pato. Desde que se licenciou e até 1964, lecionou em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro e Alcobaça; daí o «andarilho».

«Havia muita dificuldade em fazer concertos», lembra Pato. «Tinha de se enganar os governos-civis, dizendo que íamos tocar fados de Coimbra: à tarde tínhamos de lhes tocar dois ou fados de demonstração, e depois tocávamos outra coisa à noite. Começou a haver medo de chamar o Zeca para concertos, porque podia haver pancadaria com a polícia, em particular em zonas como a Baixa da Banheira».

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

Uma editora chamada Orfeu

José Afonso torna-se um homem marcado, os problemas financeiros acumulam-se e depois de lançar Baladas e Canções vai para Moçambique. Tinha vivido em África, em Angola, dos três aos oito anos, e ficara sempre marcado pelo continente. No período em que permanece em Moçambique, de 1964 a 1967, corresponde-se com Rui Pato, e conta que anda a fazer «coisas com música africana, com a qual estava muito entusiasmado. Fazia teatro e música em agremiações de negros». Rapidamente se envolve com movimentos políticos locais, o que lhe vale, novamente, o opróbrio, regressando a Portugal no final de 1967, mais propriamente a Setúbal.

Sem poder ensinar, vira-se definitivamente para a música. É aí que vem em seu auxílio Adriano Correia de Oliveira. É ele que revela Afonso a Arnaldo Trindade, como este recorda: «O Adriano trouxe-me uma maqueta do Zeca com acompanhamento à guitarra acústica. Pensei: ‘isto é tão bonito’. Era o Cantares do Andarilho, que para mim ainda é das melhores coisas que ele tem; ele chamava àquilo a sua fase contemplativa. Pensei de imediato que, apesar de ninguém o querer editar por motivos políticos, tinha de arriscar».

Trindade ofereceu a Afonso «o mesmo contrato que tinha oferecido a Adriano: um salário mensal em troco de um disco por ano, cujos direitos de autor eram pagos à parte». Mais tarde, Afonso levaria para a Orfeu Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou Francisco Fanhais, tudo gente que gravou nos seus discos antes de prosseguir uma carreira a solo.

A história de Trindade é exemplar do que era a época: quando começou a Orfeu tinha apenas «19 ou 20 anos», diz. O dinheiro vinha do pai, que era «o representante em Portugal da Philco, uma subsidiária da Philips com linha de televisão e frigoríficos». Trindade era um estudante de engenharia interessado pelas artes na década de 1950; chegou a conhecer Teixeira de Pascoaes. Igualmente apaixonado por música, queria fazer uma editora e começou por juntar os seus dois amores lançando discos de poetas a ler a sua poesia: Torga, Régio, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, etc. «Eles não percebiam porque é que eu os queria gravar. Tive de lhes explicar que em França o Sartre e o Cocteau já faziam isto há muito».

Era, a todos os títulos, um homem sofisticado e, rapidamente, começou a gravar vários tipos de música: «grupos amadores de jazz, de ingleses e alemães que viviam no Porto, gente como Pedro Osório e os Pop Five, um trio chamado Los Paraguaios, o Conjunto António Mafra, a fadista Maria da Fé». A seguir começou a gravar música folclórica: «os grupos folclóricos eram produções muito baratas e por isso davam dinheiro».

Depois passou para os fados de Coimbra, com Adriano, e foi assim que José Afonso lhe chegou. E também este lhe deu dinheiro: «o Cantares do Andarilhovendeu bem». Apesar disto, Afonso sempre se queixou de falta de dinheiro e, por vezes, os amigos juntavam-se para o ajudar (como fizeram ao comprar-lhe um carro, num peditório organizado por Carlos do Carmo). As versões diferem: Arnaldo Trindade diz que José Afonso tinha «o melhor contrato» da Orfeu, «equiparável ao de qualquer grande artista português».

Carlos Guerreiro diz que se lembra de José Afonso sempre sem dinheiro. E que, depois do 25 de Abril, quando começou a tocar muito lá fora, no final dos concertos «dizia sempre que tinha discos para vender porque a editora não lhe vendia os discos». Uma canção de Cantares do Andarilho, em particular, tornou-se rapidamente um marco: “Vejam Bem”. Pelo que Trindade aumentou o orçamento para o disco seguinte: «Com o José Afonso posso garantir que não só lhe melhorámos o contrato várias vezes como aumentámos sempre o orçamento para as gravações». Isto poderá explicar o aumento do número de músicos usados em Contos Velhos, Rumos Novos, em que se começam a usar mais acompanhamentos além da guitarra.

Rui Pato conta que foi Afonso quem teve a ideia de experimentar «arranjos com marimbas, harmónicas, trompa», sendo que as marimbas denunciam, desde logo, influência africana. Também usa cavaquinho, insistindo na sua recuperação na música popular portuguesa, e recorre a poemas de gente recente, como Ary dos Santos e Luís de Andrade; as palavras deste resultaram na magnífica “Era de Noite e Levaram”, uma denúncia das prisões aleatórias da polícia política.

O próprio José Afonso foi vítima dessas prisões e foi na última delas, em Caxias, que compôs “Era Um Redondo Vocábulo”, incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973. Uma boa parte desse disco foi escrito na prisão não se percebe como, mas Afonso saiu cá para fora com as melodias na cabeça. O clima da época era pesado, com «constantes concertos clandestinos que acabavam em prisões», segundo conta Vitorino. «Andávamos sempre com dinheiro no bolso para fugir do país a qualquer altura», acrescenta.

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

De Woody Guthrie a Debussy

Em finais da década de 60, início da de 70, Trindade já tinha percebido que tinha em mãos um sujeito superior. Admirava-lhe a cultura musical, que «ia do Woody Guthrie ao Debussy, passando por canto gregoriano, que adorava». Curiosamente, Rui Pato diz que nunca trocou discos com Afonso. «Não estou a dizer que ele não tivesse um gira-discos. Mas nunca vi nenhum nas casas que lhe conheci», afirma. Segundo Trindade, uma boa parte do folclore «foi buscá-lo ao Giacometti: o Zeca quis conhecê-lo e aprendeu muito com ele».

Por outro lado, assevera, Afonso era efetivamente «um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante». Júlio Pereira, multiinstrumentista e colaborador frequente, corrobora esta ideia afiançando que viu muitas vezes «o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele».

Segundo o sobrinho João Afonso, também músico, havia outra influência marcante no conhecimento da música popular, mas desta feita associada a algo potencialmente mais trágico. O tio Filomeno, com quem José viveu a partir dos oito anos, em Belmonte, onde Filomeno era presidente da Câmara. «Era salazarista, mas se bem me recordo foi ele que lhe ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio». A separação dos pais marcou muito José Afonso: o pai era procurador da República e foi colocado em Angola, era José Afonso ainda bebé. Depois Afonso voltou para Belmonte e em 1939 «os pais e a irmã foram para Timor, por causa do emprego do pai. Entretanto começou a II Guerra Mundial e eles foram capturados pelos japoneses. Pensou-se que tinham morrido. O meu tio pensou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Mesmo depois de saber que estavam vivos só voltou a vê-los passados mais três anos».

No total, foram sete anos de separação que poderão muito bem ter criado na criança uma espécie de sintonia para com os mais desfavorecidos. Exemplos concretos podem ser encontrados em canções como “Teresa Torga”, de Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976. Carlos Guerreiro, o líder dos Gaiteiros de Lisboa, que nunca chegou a gravar em discos de José Afonso (ou gravou, mas as canções não entraram e permanecem por editar), mas começou a tocar com ele em 1976, numa altura em que Afonso já fazia digressões constantes lá fora, conta a história dessa canção: «Era uma mulher que já tinha sido conhecida e um dia despiu-se no meio da rua, já não recordo porquê. Houve um fotógrafo que em vez de a ajudar resolveu fotografá-la e ele ficou horas a pensar nisso, achava isso incorreto. Acabava por exorcizar isso em canção».

Vitorino concorda que «essa separação [face aos pais] o desequilibrou muito. Marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho». Vitorino está convencido de que essa estupenda canção que é “Cantigas do Maio”, do álbum homónimo de 1971, é uma premonição de morte: «Morrer antes da mãe, uma ideia que sempre o obcecou». A palavra exata para recordar a letra encontra-se na própria letra: amargura.

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

Também não será excessivo ver nessa separação a fonte da ansiedade e hipocondria que o acometeram até morrer. Pese embora a maior parte das pessoas o visse apenas como «inquieto», no dizer de João Afonso. «Nessa época não se usavam termos como ansiedade», diz.

A sua educação, no entanto, foi, pelas descrições a que temos acesso, privilegiada em termos de leituras. Júlio Pereira, que o encontrará mais à frente, confirma esta erudição: «Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas». Guerreiro corrobora esta ideia: «As digressões naquele tempo eram diferentes, tínhamos mais tempo. Pelo que íamos ver museus, ver igrejas, e ele contava a história daquilo tudo».

Arnaldo Trindade descreve-o como «um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples». Carlos Guerreiro diz que Afonso, com os seus problemas de insónias, aproveitava as noites para ler. Trindade também se recorda do leitor compulsivo: «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos» e que além da erudição era um homem atento: em finais da década de 1960, José Afonso «tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo». Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade».

De qualquer modo, vendiam. Ao ponto de, em 1970, Trindade o ter mandado para os estúdios Pye, em Londres, para gravar o que viria a ser Traz Outro Amigo Também. Rui Pato não o pôde acompanhar devido a problemas políticos e é difícil perceber exatamente como o disco foi feito. Os dois violas do disco estão incontactáveis. Gilberto Gil aparece nos créditos como assistente, mas é dúbia a sua participação, a avaliar pelo relato de Arnaldo Trindade: «O Zeca tinha acabado de gravar o disco e fomos beber para comemorar. Depois, estávamos a passear em Hyde Park quando, segundo as notas do meu diário, apareceram o Gilberto Gil e o Caetano Veloso», que na altura estavam no exílio em Londres.

Trindade diz que ambos tinham ouvido os primeiros discos de Afonso e «tinham uma imensa admiração» por ele. Os outros músicos com quem falámos confirmam o encontro e a admiração, embora os pormenores sejam mais vagos, visto não terem estado presentes no encontro.

José Afonso em meados dos anos 70

José Afonso em meados dos anos 70

Modo de fazer

De qualquer modo este é, segundo João Afonso, «o disco em que começa a aparecer África» na música do seu tio, África que foi mais uma das influências que o marcaram. Pode notar-se essa influência logo na canção “Carta a Miguel Djé-Djé”: este era «um empregado de Zeca em Moçambique, com quem passava horas a tocar. O Zeca, por causa do trabalho, mudou de residência para outra zona do país e teve de despedi-lo. E um dia, sem aviso, estava o Zeca em Lourenço Marques e o Djé-Djé apareceu-lhe à porta de casa com uma vassoura e a guitarra». Segundo Guerreiro, era difícil arrancar-lhe histórias, mas esta era uma que o comovia imenso.

Não é fácil para quem não é etnomusicólogo dizer exatamente o que é africano na obra, mas João Afonso avança logo com uma ideia: «o uso de certas palavras que não são palavras, são apenas vocábulos, que ele usa de forma lúdica, a brincar com as suas potencialidades», como se pode notar numa canção como “Ailé Ailé”, de Coro dos Tribunais, de 1975. E, acrescenta, com graça, «nos taninaninôs [referência à canção “O País Vai de Carrinho”] dele». Esse disco, note-se, conta ainda com uma canção como “Lá no Xepangara” que, segundo Vitorino, «é um mercado em Lourenço Marques». A obsessão era tanta com conseguir o som certo que, segundo Vitorino (que participou nesse disco tocando órgão Moog), «o Zeca mandou vir uma cantora soul inglesa para cantar esses coros».

Carlos Guerreiro tem mais pormenores que aclaram como é que a cabeça de José Afonso funcionava em termos africanos. Segundo Guerreiro, «era um tipo profundamente despistado. Os ensaios podiam durar horas mas ele estava sempre a sair para telefonar ou comer uma bucha». No entanto, havia uma matéria com a qual era implacável: «com o ritmo era extremamente rigoroso. Se eu não conseguia o balanço que ele queria, e é mais essa a palavra, balanço, chateava-me até eu conseguir».

Diz Guerreiro que José Afonso tinha uma teoria a que ninguém ligava, mas que fazia um certo sentido: «ele achava que havia uma ligação entre África e a música da Beira. Musicalmente não faz muito sentido, mas ao nível de usar as palavras como brincadeira rítmica talvez haja parecenças, embora não heranças diretas».

Trindade achou o disco de 1970 uma obra-prima, a começar pelo tema-título e passando por coisas como “Canto Moço”. Entusiasmado, o editor pediu novo disco e não olhou a meios: mandou Afonso para o estúdio Le Château d’ Hérouville, em Paris. «Era o melhor estúdio da Europa. Na véspera tinham estado lá os Rolling Stones [na realidade foram os Grateful Dead e depois seriam os Pink Floyd]». A «brincadeira» custou-lhe uns astronómicos «mil contos». «Houve retorno», diz, «porque dali saiu o “Grândola, Vila Morena”».

Todos são unânimes em reconhecer que o aumento do orçamento para os discos foi fundamental: deu mais tempo para gravar, mais músicos e, neste caso, um produtor, José Mário Branco. João Afonso acrescenta que «a possibilidade de trazer músicos como o Yório [a partir de 1973], que tocava à moda brasileira, ou do Fausto, que era muito africano, entre estrangeiros espanhóis ou franceses, trouxe outras cores à música de José Afonso».

Não foi possível falar com José Mário Branco (ausente do país) nem com Fausto, que mais tarde veio a produzir José Afonso, dois elementos fulcrais na obra Afonsina. Mas a Orfeu teve a delicadeza de ceder algumas das declarações que José Mário Branco prestou ao jornalista Gonçalo Frota, e que estarão incluídas nos libretos das reedições. «Que eu me lembre, não me pôs grandes condicionantes», diz José Mário, que funcionou como diretor musical, o que faz sentido, se tivermos em conta que todos os músicos que trabalharam com ele dizem que era muito aberto às suas contribuições. No entanto, havia uma exceção: ele tinha «alguma prevenção contra a eletrificação do som dos discos». Preferia ter «sons nobres: as cordas, os sopros, as percussões, sim, mas sem tomadas por perto».

Sabemos um pouco mais acerca de como decorria a parceria entre José Afonso e José Mário nesse disco de 1971 e no de 1973, Venham Mais Cinco, através das histórias que o primeiro contou. Segundo Guerreiro, «ele tinha uma espécie de mnemónica, de grafia musical que tinha inventado, e mostrava ao José Mário que tinha de deslindar aquilo. Era do género: a primeira nota, depois sobe, sobe, a seguir desce». Guerreiro diz que Afonso também tinha por norma «ideias acerca dos instrumentos a usar», o que bate certo com as declarações de José Mário Branco. Na versão de Vitorino «os arranjos eram cantados ao produtor; pelo menos com o José Mário foi assim». Vitorino diz que José Mário Branco «apontava os arranjos e organizava-os meticulosamente», o que faz sentido para quem já viu as fichas que José Mário Branco faz para cada gravação de disco (por exemplo, para um disco de Camané é capaz de ter tabelas chamadas «Impacto Emocional», onde se incluem pormenores como a respiração ouvir-se ou não).

Mas há mais um pormenor, e é fundamental: José Afonso, desde talvez 1968 ou 1969, tinha um gravador que, segundo Júlio Pereira, «levava para toda a parte», o que Guerreiro, Vitorino, João Afonso e Arnaldo Trindade confirmam. O gravador servia-lhe para tudo: desde gravar pequenas melodias, até canções completas, harmonias. Gravava uma coisa, depois outra, uma terceira e a seguir ouvia de novo e arranjava uma harmonia para a primeira melodia, um arranjo para a segunda, etc. De certo modo era como se as canções estivessem em esquisso nessas cassetes.

Carlos Guerreiro lembra-se de estar numa casa de banho, durante uma digressão pelo norte de Espanha, em 1976 ou 77, quando na porta ao lado ouve uma voz a trautear «tururu turu turu». Era José Afonso enfiado na casa de banho a gravar uma melodia que lhe tinha aparecido. Doutra vez, em Setúbal, interrompeu um jantar para ir à casa de banho com o gravador na mão. «Voltou todo ufano, com a sua melodiazinha».

Júlio Pereira também tem histórias dessas. «Estávamos em Vigo, julgo que em 1978, íamos a passar debaixo de uma ponte e o Zeca de súbito mandou-me subir ao hotel para ir buscar o gravador, de que se tinha esquecido. Eu fui e quando voltei ele fez uma canção ali mesmo: era o “Achegate a Mim, Maruxa” [de Fura-Fura, 1979]». Uma nota: a letra dessa canção é popular, mas a melodia é toda de José Afonso. João Afonso realça o trabalho «absolutamente vanguardista» que o tio fez com a tradição: «Pegava numa melodia popular e usava uma parte, e depois inventava o resto e punha como letra um poema moderno, ou usava uma lengalenga popular e mudava a música».

Sabemos portanto que em Cantigas do Maio e Venham Mais Cinco, entre as suas pautas improvisadas que mostrava a José Mário, as indicações que dava sobre que instrumentos usar e as melodias principais que levava, José Afonso já ia para estúdio com linhas de orientação bastante razoáveis que cabia aos músicos preencher. Sabemos que em Eu Vou Ser Como a Toupeira(de onde saíram canções como “A Morte Saiu à Rua”, “O Avô Cavernoso” ou “No Comboio Descendente”) já tinha o gravador para mostrar as melodias e as harmonias que imaginara para cada melodia. Mas como é que as coisas realmente aconteciam, por exemplo, nesse magnífico disco que é Coro dos Tribunais, de 1974, produzido por Fausto? Vitorino, que está nesse disco, bem como em Com as Minhas Tamanquinhas, dá uma ideia: «Para já, tinha-se o tempo que fosse necessário. Se fosse preciso um mês ficava-se um mês a gravar. Bons tempos. E ficava-se em bons hotéis». Vitorino afirma que «os arranjos desse disco são em parte do Fausto», o que faz sentido a cada escuta. Mas também «havia arranjos que ele ditava, cantando».

Contudo, e apesar das muitas melodias e harmonias que levava, bem como do seu apurado sentido de ritmo, José Afonso precisava efetivamente de músicos e tempo para experimentar. Diz Vitorino: «Quando entrávamos em estúdio as músicas estavam mal acabadas. Como ele não sabia música tínhamos de interpretar o que ele queria». Afonso podia dizer «e se puséssemos umas palmas nesta música?», mas também podia ser um músico a fazer uma proposta de arranjo ou o produtor a fazer uma definição, a que depois se retiravam e acrescentavam coisas.

Mas há uma história que Júlio Pereira, que começa a gravar com José Afonso em “Índios da Meia-Praia”, do disco Com as Minhas Tamanquinhas (em que aparece um Joaquim Barreiros a tocar acordeão, que mais tarde se tornaria figura popular ao diminuir o nome para Quim), conta que sendo praticamente um detalhe é elucidativa do génio. «Já não me lembro de que canção estávamos a gravar nem para que disco, mas o Zeca sentia que faltava alguma coisa. Ouvia e ouvia a canção até que se virou para mim e disse: “havia uma coisa que vi umas mulheres fazerem em África: tinham uns chocalhos presos nas pernas e nos braços e dançavam e o som era muito cheio”. Experimentámos e lembro-me de resultar. Foi já no fim da carreira».

Além de ser um melodista de exceção, que sabia intuitivamente que ritmo queria e como dividir cada sílaba, era isto que trazia para as suas canções e que as tornavam únicas; algo difícil, de facto, de explicar numa pauta e talvez uma das razões pelas quais José Afonso permanece um mistério, e que levou a que «as pessoas se tenham esquecido dele enquanto músico», segundo diz Júlio Pereira, secundado pelos restantes.

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

O «Zeca político»

Há, talvez, outra razão: a ascensão do «Zeca político». A partir de 1974 ele foi ajustando contas, deixando sair um lado mais amargo, dentro e fora das canções, como é notório em temas como “Tenho um Primo Convexo” (que era sobre um primo de que não gostava) ou “Como se Faz um Canalha” (sobre Aventino Teixeira, que Afonso considerava que tinha traído a causa da esquerda); e tornou-se mais radical politicamente, o que é notório em temas como “Os Fantoches de Kissinger” e “Alípio de Freitas” de Com as Minhas Tamanquinhas. A segunda é um bom exemplo do político e posteriormente mitificado: graças à canção salvou-se a vida a Alípio de Freitas, preso no Brasil durante a ditadura militar; o embaixador português procurou-o e conseguiu a sua libertação. Apesar dessa radicalização, José Afonso nunca integrou nenhum partido político.

Guerreiro lembra o que o músico dizia em entrevistas: «o meu Comité Central sou eu», numa alusão a um certo distanciamento do Partido Comunista. Arnaldo Trindade refere que «ele não se sentia muito próximo do PC», porém «tornou-se próximo da LUAR», um grupo político que intentou a luta armada.

De acordo com Vitorino, «quando começou a haver violência, ele afastou-se, era um pacifista». Ainda assim, apoiou a candidatura de Otelo a Presidente da República (e Otelo não era um menino do coro). A radicalização do discurso acabou por ter efeitos paradoxais: por um lado, tornou-o um ícone; por outro, as vendas pós-1974 caíram. «Depois do PREC», conta Trindade, «as pessoas não queriam mais mata-e esfola. Os tempos tinham mudado. Muitos dos que lhe compravam os discos não concordavam com ele politicamente, porque ele foi-se radicalizando. Também se perdeu o lirismo metafórico dos primeiros discos».

Começa então a tocar lá fora, acompanhado por gente mais nova, como Guerreiro ou Júlio Pereira. Passaram por países como Espanha (que o adorava), França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e com muito mais sucesso do que o que tinha conseguido quando foi tocar ao Brasil, em 1971, na companhia de Paulo de Carvalho: «Era um festival de música mais pop e não foi bem recebido», conta Trindade. Mas foi-o na Europa. Em parte por causa do 25 de abril: «Os europeus queriam conhecer o que se fazia no país que tinha saído da ditadura e tinha estado tantos anos fechado», diz Vitorino.

Mas também porque os seus concertos eram entusiásticos. Guerreiro diz não ter «a mínima dúvida de que o Zeca foi, juntamente com a Amália e o Paredes o grande embaixador de Portugal lá fora durante anos». Júlio Pereira corrobora a ideia e acrescenta que «é um crime que nunca se tenha falado cá dentro dos êxitos que o Zeca alcançou lá fora. Os espanhóis, então, amavam-no».

Talvez Trindade tivesse razão: o país tinha mudado e as pessoas queriam iogurteiras em vez de discurso, caixilhos de alumínio em vez de fúria. Depois de 1976 fez ainda três discos para a Orfeu: Enquanto Há Força (78), Fura-Fura(79) e Fados de Coimbra (81), um estranho regresso ao início, concebido quando já estava doente (embora não se saiba exatamente quando começou a doença, Guerreiro e Pereira, olhando para trás, têm ideia de que por volta de 1977, 1978, o músico começou a ter problemas físicos constantes, como falta de força nos braços).

Fura-Fura, tendo ainda grandes canções, é pouco homogéneo, porque os arranjos se dividem entre José Afonso, Júlio Pereira e os Trovante. Enquanto Há Força, dirigido por Fausto, que co-compõe aqui e ali, é de outra cepa. Afonso ainda se reergueu, após a saída da Orfeu e há quem defenda que Como Se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato (em que cantarola as melodias e em que Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros, tocam, gravam e dirigem cantores e instrumentistas) estão entre os seus discos mais inventivos. Mas José Afonso era já um mito e aos mitos não se pede que progridam e arrisquem, mas sim que sejam consensuais, e para isso era preciso não ser ouvido. No fundo não o foi mais: como sublinham todos, foi usado como bandeira da liberdade, visto como património exclusivo da esquerda, o que não é correto: Pedro Ayres de Magalhães é fanático de José Afonso, Manuel Fúria, ex-líder d’Os Golpes, fez uma versão de “Tenho Barcos, Tenho Remos”. Mas, à conta da mitologia, o interminável talento foi esquecido.

«Estamos a falar de um dos maiores génios da segunda metade do século XX», diz Júlio Pereira. «Não se criava um Zeca por mais que se tentasse», diz Trindade. Os elogios continuam. Hoje, mais apaziguados, menos motivados pela ideologia, ou talvez apenas mais distantes, podemos admirar apenas a música e as palavras e perceber que Zeca, afinal de contas, era um homem.

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2012

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | "Um povo sem cultura é um povo desgraçado e nós estamos muito mal"

José Raposo é uma das figuras mais conhecidas e acarinhadas pelo público. Seja no cinema, televisão ou teatro, são muitos os trabalhos que completam o seu vasto currículo e há muito para recordar e contar. Hoje é o entrevistado do Vozes ao Minuto, partilhando os muitos momentos que já viveu, recordando os que já partiram e enumerando o que poderia melhorar no país… e no mundo.
"O teatro é que eu não deixo, nunca”. A afirmação pertence a um dos mais reconhecidos atores portugueses, José Raposo, que privilegia os palcos, "porque essa é a base de representar”.
Aos 55 anos anos, o artista, que nasceu em Angola e que se mudou para Portugal na adolescência, vai estrear já este sábado, dia 2 de fevereiro, a peça 'Vou Levar-Te Comigo', no Auditório da Gandaia, Centro Comercial O Pescador, na Costa de Caparica, Lisboa. Apesar do grande amor por esta forma de arte, não deixa de dar o seu contributo à ficção nos ecrãs portugueses e soma também muitas participações em televisão e cinema.
Não tem o 'canudo', mas a larga experiência faz de si uma dos atores mais conhecidos e acarinhados pelo público. Tudo o que sabe aprendeu com os mais velhos, por quem continua a ter uma enorme estima e vai sempre lembrar. 
José Raposo é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. Além da representação, fala ainda das mudanças que faria no mundo se lhe fosse concedido esse poder, isto sem esquecer do que falta melhorar no país (quando o tema são as artes).
A família não ficou de parte, até porque se prepara para ser pai pela terceira vez, de uma menina, o primeiro bebé fruto do casamento com Sara Barradas. Além da filha que nasce em março, o ator é ainda pai de Ricardo, de 25 anos, e de Miguel, de 32, do casamento anterior com Maria João Abreu.
Vai estrear-se em palco com a peça ‘Vou Levar-te Comigo’ já amanhã. Um espetáculo cheio de música que além da sua participação, conta ainda com Sara Barradas e Vera Mónica. O que de melhor há nesta peça e por que razão as pessoas a devem ver?
Queria fazer uma peça para andar pelo país e quando estava a fazer o ‘Circo Paraíso’, numa conversa com a Vera Mónica, como somos atores e cantamos os dois, a Vera deu-me o exemplo de um show brasileiro dos anos 50/60, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, em que eles estiveram três anos a fazer aquilo em tournées… O espetáculo consistia em ela cantar e ele dizer uns textos - ora poemas, ora umas crónicas sobre o Brasil da altura. Vi aquilo e disse que podíamos fazer isto cá, com algo relacionado connosco. Falámos com o Fernando Heitor, que é o autor do texto, apresentei-lhe a ideia e ele escreveu a história, que é um fio condutor para nós cantarmos.
É uma história de dois atores já com uma certa carreira que se conheceram há muitos anos e que tiveram, inclusivamente, uma relação e depois separaram-se, e falaram com uma guionista encenadora, que é a Sara, que lhes vai dirigir um espetáculo baseado nos percursos profissionais e pessoais que eles os dois tiveram nas suas carreiras. Isto vai desaguar nas canções das suas vidas. 
Por exemplo, eu nasci em Angola e vim para Portugal aos 13, 14 anos, enquanto a Vera no Brasil mas veio embora com seis anos e foi para Angola. De Angola veio com 16, 17 para Portugal… ‘Vou Levar-te Comigo’ é o nome de uma canção dos Duo Ouro Negro, um grupo angolano que teve muito sucesso nos anos 60, 70 e 80 e ainda hoje é um pouco transversal às várias gerações. Por isso, deu título à peça.
Acho que se pode definir este espetáculo como uma comédia musicada, porque não é nem comédia, nem revista, nem musical. Somos três atores e três músicos ao vivo. No fundo somos seis protagonistas porque, aliás, os músicos também têm falas pelo meio. O espetáculo é uma espécie de um ensaio para um futuro espetáculo, onde existe a encenadora, os dois atores e os três músicos.
Portanto, no fundo vai mostrar o processo da criação de um espetáculo?
Sim, baseado nestas condições que disse.
Esta não é a primeira vez que está em palco com a companheira, Sara. A preparação para um trabalho torna-se mais fácil quando feita com alguém com quem partilha o dia a dia?
Quando esse alguém tem talento, que é o caso da Sara, sim. E óbvio que há cumplicidades que se criam. Mas, acima de tudo, tem a ver com sermos os dois atores e termos talento e cumplicidade. Óbvio que é a nossa produtora que produz este espetáculo, ‘Estreia, Sucesso e Despedida’, é o terceiro espetáculo que nós produzimos. O primeiro foi em 2012, uma comédia do brasileiro Paulo Pontes que se chamava ‘Isto É Que Me Dói!’; o segundo foi um texto baseado no Woody Allen mas escrito pelo meu filho, Miguel Raposo.
Mas por exemplo, no processo de criação de uma personagem, ensaiam juntos?
Não, até porque nem temos muito tempo. Não temos tido porque felizmente há outras coisas. Aliás, estamos a ensaiar todas as tardes e depois há sempre coisas para fazer. Além dos outros trabalhos que estamos a fazer, nós produzimos, por isso temos telefonemas a fazer, ida aos sítios para falar com os teatros… Não temos mesmo muito espaço para estar a ensaiar em casa. Quer dizer, a pessoa pode ler o texto antes de se deitar, isso sim. Mas não ensaiamos concretamente os dois. Só lá com o encenador, o Paulo César.
O espetáculo vai andar pelo país e a Sara, que vai ser mãe no final de março, vai estar em cena até ter o bebé. De certa forma deixa-o mais descansado por poder acompanhá-la nestes últimos meses? Sente-se mais seguro por saber que está consigo?
Sim, isto é só aos fins de semana. Durante a semana estamos juntos. É claro que é bom ela estar próxima porque assim mais proximamente a acompanho. Mas, se pensarmos bem, as pessoas que têm outras profissões, que durante a semana trabalham das 9h às 19h, estão, se calhar, menos tempo com as respetivas mulheres ou maridos do que nós. Nesse sentido não nos podemos queixar. A Sara é como qualquer grávida do mundo e enquanto puder trabalhar… Aliás, no espetáculo a encenadora (que é a Sara) está grávida, não se sabe muito bem de quem e depois do fim acaba-se por perceber quem é o pai. Mas quando ela tiver a bebé no final de março, aí terá de ser substituída.
Está prestes a chegar a primeira menina à família e como referiu numa conversa anterior com o Fama ao Minuto, vai ser a princesa… O que mais o deixa ansioso nesta nova jornada?
A ansiedade normal de um pai que está desejoso de ver a cara daquela coisinha linda, como é que é, oxalá saia à mãe porque ela é muito bonita…
O seu maior desejo é poder vê-la crescer, casar e ter filhos?
Sim, é o normal. É o que aconteceu com os meus filhos. Por exemplo, um casou e o outro não. Não faço essas previsões. Nessas coisas acho que, sem dúvida, cada um é que deve fazer as suas opções, a partir do momento em que é adulto e que tem capacidade para o fazer. Agora, o que me interessa é passar os valores que me passaram os meus pais.
E quais são esses valores?
Os normais, aqueles do respeito pelo próximo, de perceber que a ganância e a mediocridade e essas coisas todas que sabemos que são inerentes ao ser humano, mas que se houver uma boa formação pode-se, e deve-se, excluí-las da nossa vida. Os valores positivos que acho que qualquer pai normal, pelo menos, deseja passar aos filhos e foi o que tentei passar aos meus. Não estou a dizer que é só pela educação que se tem uma boa formação, porque depois há personalidades próprias e há influências da sociedade nas pessoas. Mas a formação de casa, dos pais, tem sempre muita influência na maneira de ser das pessoas.
Antes de viver este amor com a Sara, esteve mais de 20 anos ao lado de Maria João Abreu… O amor que se sente numa nova relação é igual ao da primeira?
O amor é o amor. Não há respostas para isto. O amor é um sentimento que não se explica. Não há esses termos de comparações. As pessoas apaixonam-se e depois amam-se… é o amor.
Como já referiu várias vezes, tem uma família muito unida e conta com o apoio dos filhos em tudo. Isto foi fruto do que semeou ao longo destes anos?
Sim, claro. Eles, por exemplo, ficaram felicíssimos quando souberam da notícia da irmãzinha. Acho natural, normal. Como disse há bocado, isso tem a ver com a formação que nós [pais] damos, com os valores…
Recordando a sua infância… Já que nasceu em Angola, o que de mais angolano há em si?
A noção do tempo, muito retardada, muita calma… Gosto de ter tempo para ter tempo e é uma coisa que cada vez há menos nas nossas sociedades atuais. É muito ritmo acelerado em relação a tudo. Passa tudo muito depressa. Por exemplo, já não há tempo, o respeito pelas pessoas mais velhas, aquela adulação que se tinha pelos mais velhos por serem os sábios, por serem as pessoas que têm o conhecimento. Agora tudo se passa muito rápido, descartam-se os mais velhos. Vejo isso na minha profissão, e nas outras também acontece, mas falo da minha porque é onde estou inserido. Cada vez se dá menos trabalho aos mais velhos, cada vez se ouve menos os mais velhos e isso a mim é uma das coisas que mais me choca.
Em entrevistas anteriores falou sobre quando foi chamado para o casting que acabou por marcar o seu primeiro trabalho na representação, nessa altura a sua mãe preferia que tivesse ido a uma entrevista na Caixa Geral de Depósitos…
Sim, isso é uma história que se conta muito e que se sabe porque a minha mãe ainda hoje acha que eu devia estar na Caixa Geral e Depósitos…
Os seus pais nunca concordaram com a sua escolha?
Não, a minha mãe. O meu pai concordava. Aliás, ele foi ator amador e tinha um grande orgulho em mim. A minha mãe é que dizia que era melhor estar na Caixa Geral de Depósitos. E há muitas pessoas que pensam assim porque veem isto não como um profissão, mas como um hobbie, uma coisa engraçada, umas palhaçadas... As pessoas não têm noção do quão exigente esta profissão é, e difícil. Trabalha-se muito, é muito irregular porque os trabalhos são uns a seguir aos outros, portanto, nunca se sabe quanto tempo é que se está parado ou não. As pessoas estão sempre à espera de um telefonema... Não é nada fácil. Claro que há exceção, há casos de pessoas que tiveram sorte e talento. Mas a maior parte dos profissionais, principalmente em Portugal, onde não há apoio quase nenhum para a cultura por parte dos governos. Aqui é muito difícil da pessoa aguentar-se enquanto artista, e estou a referir-me a todas as áreas da arte.
Mas sempre sentiu que o teatro fazia parte da sua vida?
Sim, desde que comecei, aos 18 anos. Faz parte da minha vida e faria, com certeza, sempre porque tenho essa tendência e tenho talento. Acima de tudo, isto é um dom, não é qualquer pessoa que é ator.
A aparência pode ser um fator limitativo no mundo do espetáculo?
Sim, nos dias de hoje a imagem conta muito. Principalmente na televisão, a imagem é uma das coisas que conta muito, até demais, na minha opinião. Acho que nos últimos tempos se descura um pouco o talento em função da imagem. Claro que é possível juntar as duas coisas.
Sente que é por isso que os atores mais velhos acabam por não ter o devido reconhecimento e que acabam por não ser chamados com o passar da idade?
Sim. Estou a falar em relação à televisão em que, de facto, os atores mais velhos, os atores gordos e feios, que não tenham a tal aparência mínima, são postos de lado. E é muito injusto.
Considera então que hoje em dia a seleção dos novos talentos é muito diferente do seu tempo?
Sim, sem dúvida nenhuma.
Para melhor ou para pior?
Pois, se descuram o talento, nesse sentido, é para pior. Felizmente, e é importante dizer isto, não é em todos os mercados. No teatro não se passa isso e também há exceções na própria televisão, mas cada vez são mais pequenas. Mas, principalmente em relação aos atores mais velhos, é muito injusto não os chamarem para personagens da idade deles.
Como referiu há pouco, a vida de um ator nem sempre é fácil e por vezes o telefone deixa de tocar… Alguma vez se sentiu afastado?
Sim, claro que sim. Para já, no início, andamos a mostrar-nos, a pesquisar grupos, pessoas e a saber como é que funciona o mercado... Eu não sou dos que mais se pode queixar. Felizmente, ao longo da vida tenho tido sempre trabalho, mas há realmente períodos que são mais complicados. Mas conheço casos dramáticos, pessoas, inclusivamente, que tiveram que procurar outras profissões porque isto não estava a dar.
E acha que muitas vezes não ser chamado pode estar ligado ao facto de não estarem em contacto com as pessoas certas? Ou seja, também existem os chamados ‘tachos’ no universo do entretenimento?
Sim, claro, mas isso não é só na nossa profissão. É em todo lado. Qualquer tipo de profissão tem os lobbies muito bem cimentados e, sim, dificulta a entrada nos vários mercados. Por exemplo, quando as pessoas se formam têm sempre mais dificuldade em entrar sem ter os tais conhecimentos. É cada vez mais complicado. 
Hoje consegue-se viver apenas do teatro?
Não, isso é impossível.
O que é que é preciso para o conseguir ou para possibilitar que isso aconteça?
Era preciso que o Estado primeiro apoiasse mais a cultura. Depois que o Estado também possibilitasse que nas escolas houvesse uma ligação ao teatro muito mais intensa. Ou seja, criarem disciplinas de teatro e subsidiarem as escolas no sentido de levarem as crianças a ver teatro. Além de se estudar teatro, devia-se levar as crianças ao teatro porque são hábitos que se criam. E um povo sem cultura é um povo desgraçado. A cultura é o espelho do povo e nós nesse aspeto estamos muito mal. Nós regredimos, o que é uma coisa estranhíssima, devíamos era ter progredido muito. E estou a falar concretamente do teatro. De facto, se não é por iniciativa própria de alguns professores e algumas escolas que levam os alunos a ver teatro, não se faz porque não vem no plano de estudos. Devia pertencer ao Estado ter essa função de educar. Não é só para serem atores, antes pelo contrário, é para serem espetadores. Isso só havendo uma cultura, só incentivando a gostar-se de dramaturgos, de autores…
Cada vez se retira mais ao currículo escolar os nomes dos nossos escritores. Não percebo como é que, por exemplo, o Gil Vicente já não é obrigatório, que era o pai do teatro português… Muitas vezes ouço opiniões de que, de facto, a nossa história dramatúrgica não é tão rica como, por exemplo, a inglesa ou a francesa, mas temos os nossos dramaturgos e temos belíssimos dramaturgos. Não são em tão grande quantidade, não temos um Shakespeare ou um Molière, mas temos um Gil Vicente. Os próprios autores mais contemporâneos, temos gente extraordinária…
O próprio Governo devia obrigar as companhias a que representassem uma percentagem de autores portugueses por ano para nós conhecermos a nossa cultura. Isto para não falar do teatro mais popular, por exemplo, o da revista, que é um teatro que fiz muito, do qual gosto muito, e que é muito falado pejorativamente. Ou seja, há um preconceito muito grande em Portugal que esse é um teatro de menor qualidade e isso é mentira. Sempre disse isto, depende de quem escreve, de quem faz, de quem dirige… Se se juntar uma boa equipa de profissionais pode ser um espetáculo fabuloso. Nas escolas de teatro em Portugal sei que se diz mal deste género, da revista. Não entendo, nem nunca vou entender isso porque é um teatro em que és devidamente português. É uma coisa que tem características muito nossas e que podia ser elevada a outro nível, se houvesse apoio estatal e se não houvesse tanta contestação da parte da própria classe artística.
Entre os muitos trabalhos feitos, tanto na representação como na dobragem de personagens, deu voz ao famoso Pumba, personagem de um dos desenhos animados mais acarinhados, ‘O Rei Leão’. Formato que vai regressar agora em filme... Também vai fazer de Pumba nesta longa-metragem?
Por acaso ainda não me disseram nada, não sei. Pode ser que haja outro Pumba.
Aprendeu a arte do Hakuna Matata (a arte de não se preocupar e levar a vida sem problemas)?
Sim, por acaso tem muito a ver comigo. Sou muito tranquilo, muito descontraído na vida. Gosto de conhecer pessoas, de estar bem, de tentar fazer felizes os que estão à minha volta. Mas isto não é conversa da boca para fora, basta perguntar a pessoas que me conhecem. Sou uma pessoa bem disposta e que gosta de estar com energias positivas das outras pessoas à volta.
De todos os projetos que fez até aqui, qual foi o que mais lhe tocou particularmente?
Muitos!!! E depois é aquela coisa de que gosto de recordar as coisas boas. Quando as pessoas dizem que a nostalgia é uma coisa horrível… Não, não é nada. Quando as coisas são boas não é tão bom recordar?
E qual é o projeto que mais gostava de ter feito (TV, Cinema, Teatro)?
Tantos! Não há um específico. Mas é muito complicado. Já apresentei vários projetos em televisão, mas nunca me levam muito a sério porque só há duas ou três grandes instituições que decidem, como todos nós sabemos. Entre as direções das televisões e as grandes produtoras é que se decide tudo. Não é um rapazinho tão pequenino como eu que pode dizer: ‘Olha, gostava de fazer isso’. Eles querem lá saber. Por isso é que no teatro eu posso fazer isso. Este projeto, ‘Vou Levar-te Comigo’, é exatamente uma coisa que quero fazer e com quem quero. Só aqui é que posso fazer aquilo que quero mesmo.
Em relação às televisões, temos de nos sujeitar aos trabalhos que existem. E quando nos convidam, é evidente, temos de ganhar a vida e eu já fiz muitas coisas que gosto em televisão. Às vezes na RTP Memória passam coisas de que já nem me lembrava bem. Está a passar agora, por exemplo, a ‘Roseira Brava’. Adorei fazer aquela telenovela com colegas que muitos deles já faleceram. Eram mestres autênticos da arte de representar. Vejo aquilo e recordo com todo o prazer. Há coisas muito boas em televisão que se fazem, claro, agora não são propostas por mim porque não tenho esse poder, não sou nenhum produtor conhecido…
Como disse mesmo agora, já contracenou com vários atores e alguns deles até já partiram… Quais as maiores saudades que ficam do que foi vivido?
Acima de tudo é isso, são as saudades das pessoas com quem aprendemos. Fazem-me falta esses mestres. Nunca gosto de dizer nomes porque me esqueço sempre de uma pessoa ou de outra e é injusto. Mas tive a sorte de trabalhar com gente fantástica, fabulosa, que sabia muito disto. As gerações depois são outras e há sempre gente fantástica em todas as gerações, obviamente. Mas aprendi, claro, com gente mais velha e tenho que falar deles.
Há algum momento em especial que lhe tenha tocado e que continua muito vivo na memória?
Há muitos. Não posso falar de um… Por exemplo, a propósito desta novela, estão lá nomes que me ensinaram muito e que também fizeram teatro comigo, como o Nicolau Breyner, Armando Cortez, Henrique Canto e Castro… Não fiz conservatório, não tive formação académica e aprendi com os encenadores, os atores e os realizadores com quem trabalhei, que foram estas pessoas mais antigas. Fui vendo e aprendendo.
Já com 55 anos de vida, mais de 40 vividos em Portugal, o que mudou para melhor no nosso país e o que continua escondido?
O que mudou, como todos nós sabemos, foi o tempo do fascismo para depois a democracia. A liberdade é uma coisa que não tem preço. Tudo mudou para melhor nesse sentido. Para pior tudo o que tem mudado é o que nós sabemos e que está à nossa volta. A corrupção que existe, as desigualdades que não deveriam acontecer num regime de democracia. Por muitos governos que se formem, parece que é muito difícil de combater coisas que já estão a ser corrigidas há muito tempo. Concretamente em relação à cultura, que é a área onde trabalho, é um crime nos dias de hoje, num regime democrático, a cultura estar tão maltratada.
Se lhe fosse concedido o poder de mudar apenas uma coisa em si ou no mundo, o que mudaria?
No mundo não mudava só uma coisa, tinha de mudar muitas… Posso dar o exemplo desta história da questão ecológica. Estamos a destruir-nos aos poucos e os políticos estão a marimbar-se para isto porque só veem o presente e a economia sobrepõe-se a tudo, a todas essas formas ideológicas de poder mudar o mundo para melhor. E não deixam que a questão ecológica possa evoluir. Sabemos o que se está a passar no mundo em relação às florestas que destroem, às grandes indústrias que mandam e decidem tudo e se sobrepõem a esses interesses. É tudo isso que está mal e era isso tudo que mudava se pudesse, mas é muito complicado. 
Marina Gonçalves | Notícias ao Minuto | Foto: Global Imagens

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-um-povo-sem-cultura-e-um-povo.html

Canto Geral, de Pablo Neruda

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta.

“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”, diz a belíssima canção de Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime.

Na internet é possível encontrar debates sobre o porquê de o livro de Neruda ter sido citado na disputa de separação de um casal; sobre a dor de quem pede, em tom magoado, o livro de volta; sobre a insinuação de que o livro não foi valorizado ou compreendido por quem o tomou emprestado etc. Porém, não seria desperdício indagar também qual o título do livro que o magoado amante pede de volta à amada de quem se separa.

A obra de Pablo Neruda, cuja relevância foi reconhecida com a premiação do Nobel de literatura em 1971, é extensa. De modo que só haveria um modo se saber exatamente a que título Chico Buarque e Francis Hime se referem.

Seria a Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada? Ou seria a Cem Sonetos de Amor? Ou seria ainda a Canto Geral? Qualquer que seja a obra, desde que a amada decida não restituir, o prejuízo será considerável.

Como o objeto desta resenha é o Canto Geral de Neruda, ela, a resenha, corporativistamente pode considerar, a título de hipótese, que o alvo da discórdia é mesmo este magnífico volume de poemas de amor pela América Latina e por seu povo.

Se a amada o tomou emprestado e não o leu mesmo – como lamenta a canção –, não sabe o que perdeu. Nessa condição, se vier a nunca restituí-lo, o agravo será ainda maior, pois sequer há a consciência da extensão do dano causado ao ex-namorado.

A canção termina antes que o dilema se resolva, quer entre os amantes, quer para os fãs dos dois músicos que, privados do título do livro citado em meio à discórdia, se veem forçados a tecer hipóteses sobre a obra de Neruda e sobre as imponderáveis razões do coração.

A tradução de Paulo Mendes Campos para este Canto Geral franqueia ao leitor um mergulho sem par na linguagem virtuosa desse poeta chileno que, nessa obra, aventura-se por tempos geológicos e históricos, em meio a uma geografia soberba em vegetação, em fauna, em minério e em sacrifícios:

“Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantaram. O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.”

(“XIII. Araucária – Canto Geral do Chile”)

Em Canto Geral, o abundante vocabulário a descrever vida e chão, personagens e intenções, e a narração, a recompor fatos históricos, se embaraçam num exuberante entrelaçamento de raízes, troncos, galhos, folhas, planícies, montanhas, heróis, traidores…

O som e o ritmo dos versos embalam a audição e projetam na retina do leitor paisagens monumentais e cenas de contornos e volumes quase palpáveis, nas quais os dramas humanos se configuram e nas quais a água e o sangue jorram das cordilheiras e dos homens com igual generosidade.

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta. Cotejar o que ele diz nesse Canto Geral com livros de história ou com conteúdos da internet é uma atividade instigante. Será que o poeta exagerou em algo?

Fonte: Neruda, Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. 14 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2008. 


por Jeosafá Fernandez, Doutor em Letras pela USP e Pesquisador colaborador do Depto. de História da USP. Tem, entre seus mais de 50 títulos, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X e o ciclo de romances paulistanos Era uma vez no meu bairro (Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste)   | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/canto-geral-de-pablo-neruda/

Saramago: a cegueira social e o dever moral dos que enxergam

Do site O Martelo de Nietzsche

José Saramago foi um dos maiores intelectuais que nós tivemos nos últimos tempos. Era também um dos maiores críticos da sociedade. Em seu livros Ensaio sobre a Cegueira, lançado em 1995, ele nos deu uma obra prima.

O livro não se trata da cegueira física como nós conhecemos, Saramago usava suas personagens para fazer uma crítica ácida a sociedade, principalmente no que diz respeito à cegueira moral.

Ele deu o nome de “cegueira branca’, no decorrer do livro ele discorre sobre assuntos polêmicos e delicados, já que se trata da “patologia”, como uma das piores doenças humanas.

O termo “cegueira branca” é usado pelo autor para representar o egoísmo, a imparcialidade, o medo, a covardia, a raiva e outros sentimentos que cegam o ser humano e o levam à perdição. As personagens não possuem nomes, características físicas nem comportamentais. Saramago tem uma linguagem muito singular, se você nunca leu nenhum livro dele poderá ter alguma dificuldade no início, pois ele usa poucas virgulas, pontos e parágrafos.

A história começa com a primeira personagem do livro, que ficou cega após um acidente de automóvel. Saramago dá o primeiro soco na cara em todos nós leitores apáticos :

“de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta”.

A situação fica bem pior. Com altas doses de sarcasmo e explícita indignação diante do comportamento passivo do ser humano, Saramago lança fortes comentários que levam o leitor a refletir sobre as próprias ações:

“O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”(…) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Eles não querem enxergar (grifo nosso)

Saramago brinca de maneira proposital com maestria com as palavras “ver” e “olhar”. O “olhar” é visto como o ato de enxergar o que está explícito, isto é, a luta pela comida, a violência imposta pelo mais forte, a ausência de pudor justificada pela nulidade do sentido visual, a tirania do governo.

O ato de “ver” e “reparar” refere-se a se posicionar diante dos fatos e fazer algo para mudar o quadro triste e degradante da sociedade. “Se não formos capazes de viver como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”

A cegueira social é entendida como alienação do homem em relação a ele mesmo. Quando a cegueira branca se torna uma epidemia, os problemas da sociedade ficam expostos e aumentam notavelmente, já que ninguém “enxerga” para mudar. Em outras palavras: as regras da civilização são quebradas e o instinto de sobrevivência toma conta do homem, constatando o velho ditado, “quem pode mais chora menos”.

Em relação a cegueira moral na sociedade, o que mudou de 1995 para cá?

Nós vivemos uma época de claro retrocesso, e cegueira total em relação a temas absurdos, como violência verbal e física, assassinatos, torturas, extremismo político, falsidade ideológica, descaso, sobretudo amor ao ódio e ódio explícito a tudo que é diferente. Aceita-se, passivamente, a violência psicológica e abusiva, dentro de relacionamentos amorosos, profissionais e familiares, só para “não criarem atritos”. Aceita-se a violência social, desde que ela não nos atinja. Finge-se não ver os abusos que as crianças sofrem, para que “famílias” não sejam destruídas”. Aceita-se um governo autoritário, aceita-se um extremista, aceita-se tudo, exceto a necessidade de mudança real. Será que, nós também, não fomos infectados pela cegueira moral e fingimos não perceber?

Saramago nos convida a uma autocrítica e a uma reflexão sobre até que ponto estamos cegos ou somos maldosos:

“-É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”

Pergunte a si mesmo: até que ponto aguentaremos a violência, os roubos, a tirania como situações normais? Até quando seremos passivos diante da fome alheia? Até quando nossos braços ficarão cruzados sabendo que nossas crianças estão sendo abusadas e maltratadas? Até quando aguentaremos relacionamentos abusivos dentro da própria casa? “Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”.

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem”

O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser. as responsabilidades que lhes competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações, um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional.” (p. 50)

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/saramago-a-cegueira-social-e-o-dever-moral-dos-que-enxergam/

Poeta e ensaísta, Manuel Gusmão, vê reconhecido mérito cultural

Manuel Gusmão vai receber a Medalha de Mérito Cultural em reconhecimento, pelo Governo português, do «inestimável trabalho de uma vida dedicada à produção literária e à poesia».

O poeta e ensaísta Manuel GusmãoCréditos / angnovus.wordpress.com

Poeta, ensaísta e professor universitário, Manuel Gusmão foi galardoado pelo Governo português com a Medalha de Mérito Cultural, em reconhecimento do «inestimável trabalho de uma vida dedicada à produção literária e à poesia, difundindo amplamente, em Portugal e no estrangeiro, a Língua e a Cultura portuguesas, ao longo de mais de cinquenta anos», lê-se em nota do ministério liderado por Graça Fonseca, citado pela Agência Lusa.

A condecoração será entregue a Manuel Gusmão na próxima-terça-feira, dia 5 de Fevereiro, pelas 15h, na biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa.

A nota ministerial refere que, «como ensaísta, crítico e professor universitário, a obra de Manuel Gusmão associa o rigor académico à sensibilidade de poeta», e destaca os ensaios que «redigiu sobre duas figuras maiores da poesia portuguesa, Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimos) e Carlos de Oliveira, contribuindo activamente para o debate público sobre a renovação do ensino da Literatura».

A Medalha de Mérito Cultural, criada pelo Governo português em 1984, é atribuída pelo Ministério da Cultura e distingue pessoas ou instituições cuja vida tenha sido dedicada a actividades de acção ou divulgação cultural.

Depois de Eugénio de Andrade (2004) e de António Ramos Rosa (2006), Manuel Gusmão torna-se o terceiro poeta a receber da distinção.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/poeta-e-ensaista-manuel-gusmao-ve-reconhecido-merito-cultural

No sistema do vale tudo

Pegue-se num filme como «O Fundador», que John Lee Hancock realizou em 2016, e podem-se adotar duas perspetivas ideológicas completamente opostas. Os mentores da nossa imprensa económica tenderão a vê-lo pelas lentes de alguns dos seus axiomas preferidos, mesmo que, nesse capítulo, a realidade os tenha tornado em teses mais do que controversas. Por exemplo, que um empreendedor persistirá no seu afã de alcançar a riqueza passando por múltiplos fracassos antes de descobrir a fórmula da pólvora. Que a América é grandiosa na capacidade para fomentar os sonhos e permitir realizá-los. Ou que, retomando a famosa frase de Gordon Gekko em «Wall Street» a “ganância é boa!”.
Oposta será a perspetiva de quem se posiciona na contestação ao atual sistema económico, baseado na exploração do homem pelo homem, e vê em Ray Kroc (Michael Keaton) um escroque. Porque, à partida, existe um conceito de restauração de inegável sucesso, criado pelos irmãos McDonald, que alia um equilíbrio insuperável entre preço e qualidade, com este último fator a revelar-se inquestionável. Ao convencer esses dois honestos patrões de restaurante a deixá-lo franchisar o modelo de negócio, Kroc não recuará perante nenhum escrúpulo: começa por implorar a quem o financie e a quem lhe dê autorização para expandir o negócio, falsifica a receita dos batidos (usando leite em pó em vez do genuíno), fica com a mulher de um dos seus associados, e acaba por, despudoradamente, roubar a marca e o conceito aos seus dois inventores, que acabarão falidos.
Ray Kroc é o paradigma do homem sem qualidades, porque isento de padrões morais e de conhecimentos quanto àquilo que o enriquece - até mesmo a transformação estrutural do negócio, afinal pouco tendo a ver com a restauração, porque se converte num de cariz preponderantemente imobiliário, lhe é dado pelo seu futuro diretor financeiro, que acaba por também dispensar, quando dele já não necessita! - mas se sabe movimentar habilmente nos meandros do sistema.
Se tivesse de dar aula sobre a forma como o capitalismo se expressa no dia-a-dia, a visão prévia deste filme serviria, e muito!, para lançar a futura discussão. Porque está lá quase tudo: o capitalismo como expressão do vale tudo como o próprio Kroc acaba por confessar a uma das suas infaustas vítimas: se visse um concorrente a afogar-se ainda trataria de pôr-lhe uma mangueira goelas abaixo, para o eliminar mais rapidamente. E esse ainda é o mundo em que nos movemos.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/no-sistema-do-vale-tudo.html

Ary dos Santos

(1937 – 1984)

Militante da Resistência, José Carlos Ary dos Santos foi, até ao fim, a voz e a palavra conjugadas num raro e inato talento. Poeta criativo, expressivo, um poderoso inventor de metáforas e de imagens que ficaram no território dos afectos e dos combates contra o fascismo.

Tornou-se conhecido do grande público como um dos mais talentosos poetas da sua geração e, durante a Ditadura, contribuiu para a renovação da música ligeira portuguesa, através dos poemas, que considerava serem a sua maneira de falar ao povo[1]. «A sua importância para a poesia moderna portuguesa é inegável, não só por ser um cidadão-poeta empenhado desde sempre na transformação social, o que adquire expressão maior pós 25 de Abril, como na renovação do fado, a canção típica da sua bem amada cidade Lisboa». Apropriou-se da linguagem popular e recuperou-a para uma linguagem erudita da poesia[2].

A vida

Filho mais velho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Castro Pereira, José Carlos Pereira Ary dos Santos nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1937, numa família aristocrata da alta burguesia[3]. Iniciou a instrução no Colégio Infante Sagres mas, (expulso por “mau comportamento”) transitou para o Instituto Nuno Álvares, um colégio interno em Santo Tirso. Mais tarde, regressou aos estudos em Lisboa, no Colégio São João de Brito, no Lumiar. Apesar de não ter terminado nenhum curso superior frequentou as faculdades de Direito e de Letras de Lisboa.
Ary dos Santos inicia-se muito cedo na escrita de poesia. Após a morte da mãe foram publicados, pela mão de familiares, alguns dos seus poemas. Tinha 14 anos e viria a rejeitar esse livro (“Asas”), considerando-o de fraca qualidade, mas não tardou, porém, a revelar-se como poeta, ao ser incluído na Antologia do Prémio Almeida Garrett, em 1954 (ladeando com nomes consagrados da poesia portuguesa).

Pela mesma altura, aos 16 anos, incompatibilizado com o pai, abandonou a casa da família e, para assegurar o sustento económico, exerce as mais variadas actividades, desde vendedor de máquinas de pastilhas elásticas a paquete na Sociedade Nacional de Fósforos ou escriturário no Casino Estoril. Em 1958 Ary dos Santos inicia uma carreira profissional na área da publicidade, onde irá ter bastante êxito, fruto da enorme criatividade que revela em “slogans” publicitários que ficaram na memória dessa geração.

Ary dos Santos inicia a actividade política em 1969, integrando a CDE de Lisboa. Publicitário com uma imaginação prodigiosa, foi então um dos autores dos cartazes da campanha eleitoral das CDEs [com destaque para algumas expressões, tais como “No teu voto a força do povo”], elementos determinantes na mobilização popular conseguida nessa altura. A partir daí, apoia pessoas e causas com uma generosidade que verá reconhecida, afirma-se contra a Ditadura e, a par da intervenção como poeta, desenvolve intensa actividade de militante da Resistência, deslocando-se por todo o país para se integrar em espectáculos da Oposição, declamando poesia. Após o 25 de Abril entra para o PCP, partido em que militará até à morte, servindo-o como poeta, com coragem e humildade, derramando assiduamente poesia, em comícios ou em sessões políticas da esquerda[4].Torna-se um activo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. Notabilizou-se então como declamador. [Gravou um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira].

Homossexual assumido, viveu praticamente toda a sua vida no nº 23 da Rua da Saudade, um histórico lugar de encontro de intelectuais progressistas, amigas e amigos do poeta, e de gente ligada ao mundo da canção e da música. 

José Carlos Ary dos Santos era um homem de causas, generoso e excessivo, temperamento que não foi alheio à sua morte prematura. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, vítima de uma cirrose e foi sepultado no cemitério do alto de São João.

A obra. Os poemas. A voz. A memória de Ary

A sua estreia literária (efectiva) dá-se em 1963 com a publicação do livro de poemas “A liturgia do sangue”. No ano seguinte é editado o “Tempo da lenda das amendoeiras” e o poema “Azul existe” que será representado no Tivoli, no Teatro da Estufa Fria e na RTP.

Depois, ao longo da carreira, Ary dos Santos foi publicando livros de poemas, como:

  • “Adereços, endereços”, em 1965;
  • “Insofrimento in sofrimento”, em 1969;
  • “Fotos-grafias”, um livro que foi apreendido pela PIDE, em 1971;
  • “Resumo”, em 1973;
  • “As Portas que Abril Abriu”, em 1975;
  • “O Sangue das Palavras”, em 1979;
  • “20 Anos de Poesia”, em 1983. 

As extraordinárias capacidades criativas de Ary dos Santos estiveram patentes numa área que, cedo, lhe logrou grande sucesso e popularidade junto do grande público: a de autor de poemas de canções e fados, editados em disco e apresentados repetidamente na rádio e na televisão, bem como em espectáculos por todo o país. Autor de mais de 600 poemas para canções, colaborava assiduamente com vários compositores, de que se destacam Nuno Nazareth Fernandes e Fernando Tordo, mas também Alain Oulman, José Mário Branco, Paulo de Carvalho e António Victorino de Almeida.

A sua ligação ao fado foi iniciada com José Manuel Osório, editando disco, em 1967, o poema “Desespero” [publicado no livro “Liturgia de Sangue”, 1963]. Posteriormente, escreverá para vários fadistas, tendo colaborações muito regulares com Amália Rodrigues e Carlos do Carmo[5]. Representativos do grau de popularidade, que os poemas de Ary dos Santos atingiam junto do grande público, são os temas “Estrela da Tarde”, “Lisboa, Menina e Moça” ou “Os Putos”, interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho. O seu nome ficou ligado para sempre a um disco de Carlos do Carmo, que marcou a História do Fado, o LP “Um Homem na Cidade”, de 1977, inteiramente concebido com poemas de Ary dos Santos. [O mesmo formato será aplicado no álbum “Um Homem no País”, editado em 1984, também com as letras do poeta, musicadas por vários compositores]. Com Fernando Tordo escreveu mais de 100 poemas, destinados a canções do músico; e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais notáveis da História da música ligeira portuguesa.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, que foi publicado pelas Edições Avante, em 1989, (com coordenação de Ruben de Carvalho); e, também, uma autobiografia romanceada a que pretendia dar o título de “Estrada da Luz – Rua da Saudade”. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor, de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 1994, foi editada “Obra Poética”, uma colectânea dos seus poemas.

Edições discográficas

A teatralidade patente na sua voz vibrante encontra-se registada em várias edições discográficas, onde se apresenta como declamador. O seu primeiro disco, “Ary por si próprio” data de 1970. No ano seguinte participa no LP “Cantigas de Amigos”, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues. Em 1974 surge “Poesia Política”, em 1975 “Llanto para Afonso Sastre y Todos”, em 1977 “Bandeira Comunista”, em 1979 “Ary por Ary” e, no ano seguinte, “Ary 80” [que seria reeditado em CD em 1999].

Homenagens

A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo.

O seu nome foi atribuído a um largo do Bairro de Alfama, e descerrada uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida; foi também dado o seu nome a uma rua em Benfica, no Bairro das Pedralvas (Lisboa).

Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade – canções de Ary dos Santos.

Em 5 de Outubro de 2013, a Associação Conquistas da Revolução levou a cabo, na Voz do Operário, em Lisboa, uma sessão pública de homenagem ao poeta, com o espectáculo «As Portas que Abril Abriu – Homenagem ao Poeta da Revolução», uma homenagem integrada nas comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril.

Em 2014, trinta anos depois da sua morte, foi homenageado na Festa do Avante, num espectáculo-Café-Concerto.

Hoje, o poeta é conhecido e reconhecido por muitos como “poeta do povo” e a sua obra permanece na memória da geração da Revolução. Muitos dos grandes cantores o interpretaram e, ainda hoje, surgem novas vozes a cantá-lo[6].

[1] Escreveu poemas de 4 canções vencedoras do Festival RTP da Canção, apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção: Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos. São de suas autorias canções intemporais, como Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu canto, Café, Dizer Que Sim à Vida, Rock Chock, Meu amigo está longe. Estas canções foram interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho.

[2]

São raros os poetas que conseguem o ritmo encantatório, quase alucinado que imprime aos seus versos. Ler Ary no silêncio das páginas acaba sempre por acordar a sua poderosa voz de declamador em que sabia como poucos enfatizar a oralidade omnipresente na sua poesia escrita para ser dita ou cantada. (…) Uma poesia viril, uma voz indomada e indomável, como bem escreveu Baptista-Bastos».

Manuel Augusto Araújo, Praça do Bocage

in ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO

[3] Além de José Carlos, o casal teve mais duas filhas, Maria do Rosário e Maria Isabel, e um outro filho, Diogo. Quando era ainda adolescente a sua mãe morre e o pai volta a casar. Dessa relação nasce a sua meia-irmã Ana Maria.

[4]

Sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa. (,,,) Com a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência»

Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”

in O poeta que Abril nos deu

[5] A convite de Alain Oulman escreve, em 1968, o poema “Meu amor meu amor” para ser interpretado por Amália Rodrigues. Seguiram-se temas como “Amêndoa Amarga”, “Alfama”, “Rosa Vermelha”, “O Meu é Teu” e “O Meu Amigo está Longe”.

Ainda no âmbito da sua criação de poemas interpretados por fadistas, Ary dos Santos escreverá “Adagio”, em 1973, para a música “Adagio” do compositor Albinoni, a qual foi interpretada por Teresa Silva Carvalho; “Meu Corpo”, em 1974, para o repertório de Beatriz da Conceição; o poema “Roseira, botão de gente”, interpretado por Vasco Rafael na revista “Ó da Guarda”, de 1977; o tema “O País”, de 1981, cantado por Tony de Matos; e os temas “Mãe Solteira”, “Fado Mulher”, “Os Pinheiros” e “A Cidade”, escritos no início da década de 1980 para a fadista Maria Armanda.

[6] Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.


Dados biográficos

«ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO», Manuel Augusto Araújo, 
in https://pracadobocage.wordpress.com/…/ary-o-poeta-do-povo-…/
Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”, inhttp://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos
http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=276
http://www.avante.pt/pt/2078/nacional/127119/
http://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
http://www.citi.pt/…/li…/poesia/ary_dos_santos/ary_biog.html
https://toponimialisboa.wordpress.com/…/ary-dos-santos-da-…/


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/ary-dos-santos/

Aquilino Ribeiro

(1885 – 1963)

Democrata antifascista, conspirador contra a monarquia, militante republicano e resistente durante a Ditadura, este notável escritor é autor de uma das mais importantes obras literárias portuguesas do século XX, abrangendo ficção, crítica, biografia, evocação histórica, ensaio, teatro, etnografia, polémica, tradução e contos para crianças.

Aquilino Gomes Ribeiro nasceu em Carregal de Tabosa, Sernancelhe, em 13 de Setembro de 1885 e faleceu em Lisboa a 27 de Maio de 1963.

Democrata antifascista e conspirador contra a monarquia

Depois de ter frequentado o colégio jesuíta da Senhora da Lapa, entra no Colégio de Lamego (Lamego) em 1900, estuda Filosofia em Viseu e ingressa, depois, no Seminário de Beja, obedecendo a um desejo de sua mãe que queria fazê-lo sacerdote. Em 1903, por falta de vocação, abandona os estudos durante a primeira parte do Curso Teológico no Seminário e fixa-se em Lisboa. Em 1904 regressa a Soutosa (Concelho de Moimenta da Beira), onde fica até 1906, ano em que se fixa em Lisboa. Colabora então no jornal republicano A Vanguarda.

Coimbrão,1921.

Aquilino Ribeiro e Raul Brandão; atrás: Ilídio Teixeira de Vasconcelos, Raúl Proença e Câmara Reys.

Em 1907, em parceria com José Ferreira da Silva, escreve A Filha do Jardineiro, obra de ficção de propaganda republicana e de crítica às figuras do regime monárquico. Na capital, a par dos estudos e de pequenos trabalhos de tradução e jornalismo, entregou-se a actividades de conspiração contra a Monarquia e de promoção dos ideais da República. Foi preso (1907) na sequência de um acidente com explosivos que, no seu quarto, vitimou dois “carbonários”, mas conseguiu evadir-se e partir para Paris (1908), onde veio a diplomar-se na Universidade da Sorbonne – aqui, inscrito no curso de Filosofia, tem a oportunidade de ouvir mestres como George Dumas, André Lalande, Levy Bruhl, Durckeim, e contacta com a intelectualidade portuguesa que, também por motivos políticos, se via forçada a viver fora de Portugal. Entre 1908 e 1914, divide a sua residência entre Paris e Berlim, e publica, então, a sua obra de estreia, Jardim das Tormentas (1913).

Resistente durante a Ditadura

Aquilino Ribeiro, 1885-1963

Com a eclosão da 1ª Grande Guerra (1914), regressou a Portugal. Leccionou no Liceu Camões (Lisboa) e juntou-se ao grupo que constituiu a Seara Nova, integrando a sua primeira direcção [1].

Em 1918 publica o primeiro romance, “A Vida Sinuosa”, que dedica à memória do seu pai, Joaquim Francisco Ribeiro. A convite de Raul Proença, entrou em 1919 para a Biblioteca Nacional, onde iria trabalhar até 1927. Porém, intransigente defensor da justiça e da liberdade, envolveu-se em conspirações contra o regime de ditadura do Estado Novo, sofreu perseguições (1927-28) e a prisão, e foi forçado a novo exílio em Paris. (Em 1928 entrou na revolta de Pinhel, foi encarcerado no presídio de Fontelo, Viseu, evadiu-se e voltou a Paris).

Em 1929, casa com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.

Entretanto, em Lisboa, é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.

Em 1930 nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado (que viria a ser Presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1977 e 1979). Em 1931 vai viver para a Galiza e, em 1932, volta a Portugal clandestinamente.


Casamento de Aquilino Ribeiro em 1929
Aquilino Ribeiro casou em segundas núpcias, em Paris, em 1929, com Jerónima Rosa Dantas Machado, filha de Bernardino Machado (na foto). [A sua primeira esposa, Grete Tiedemann, mãe do seu filho mais velho, morre em 1927].
Foto retirada, com a devida vénia, do blogue Almanaque Republicano

Em 1952, faz uma viagem ao Brasil onde é homenageado por escritores e artistas, na Academia Brasileira de Letras. Em 1956, é fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores. Em 1957, publica A Casa Grande de Romarigães e, em 1958, Quando os Lobos Uivam. Nesse mesmo ano, é nomeado sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e destaca-se como apoiante da candidatura de Humberto Delgado à presidência da República.

Em 1960, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura por Francisco Vieira de Almeida, proposta subscrita por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros.

Em 1963 foi homenageado em várias cidades do país, por ocasião dos cinquenta anos de vida literária, e morreu no dia 27 de Maio desse ano. A Censura não perdeu tempo a comunicar aos jornais que não seria permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas. Aquilino Ribeiro foi sepultado no Cemitério dos Prazeres.

Homenagear a sua memória

Em 1982, Aquilino Ribeiro foi agraciado, a título póstumo, com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.


Telegrama dos estudantes enviado à família por ocasião da sua morte.

Em 2007, a Assembleia da República decide homenagear a sua memória e conceder aos seus restos mortais as honras de Panteão Nacional. A cerimónia de trasladação para a Igreja de Santa Engrácia (Lisboa) ocorreu a 19 de Setembro desse mesmo ano.

Notável escritor

Escritor ímpar, quer no modo de trabalhar a linguagem, com recurso a um vocabulário exuberante, original e pitoresco, quer no rigor extremo da expressão.

Em cinquenta anos de actividade literária, Aquilino produziu romances, contos, novelas, ensaios, biografias e literatura infantil. Escreveu:

  • Jardim das Tormentas (contos, 1913),
  • A Via Sinuosa (romance, 1918),
  • Terras do Demo (romance, 3919),
  • Filhas de Babilonia (novelas, 1920),
  • Estrada de Santiago (contos, 1922),
  • Andam faunos pelos bosques (romance, 1926),
  • O homem que matou o Diabo (romance, 1930)
  • Batalha sem Fim (romance, 1931),
  • As três Mulheres de Sansão (romance, 1932),
  • Maria Benigna (romance, 1933),
  • S. Banaboião, Anacoreta e Mártir (romance, 1937),
  • Monica (romance, 1939),
  • Volfrâmio (romance, 1944),
  • A Casa Grande de Romarigães (novela, 1957),
  • Quando os lobos uivam (romance, 1958);

Ensaios e biografias:

  • O Cavaleiro de Oliveira. Estudo Crítico e Biográfico (1922),
  • O Galante Século XVIII (1936), Anastácio da Cunha;
  • O Lente Penitenciado (Vida e Obra) (1936),
  • Camões, Camilo, Eça e Alguns mais (1949),
  • Luís de Camões, Fabuloso e Verdadeiro (2 vols., 1950),
  • O Romance de Camilo. Biografia e crítica (1956).

Embora nestas últimas obras estejam patentes as qualidades de lucidez e de estilo que caracterizam a Aquilino, seus contos, novelas e romances é que lhe granjearam a fama de que goza hoje em dia. Aquilino entronca-se numa linhagem de prosadores que, passando por Eça e Fialho entre os nacionais, e por Anatole France entre os estrangeiros, remonta a Camilo Castelo Branco, pelo menos no que toca ao culto da “escritura-artística” e perfeita enquanto pureza e precisão vernaculares. Sendo antes de tudo um escritor, mais do que um ficcionista, (…), Aquilino acreditou a vida toda no ofício de escrever como vocação e como realização da sentença buffoniana de que “o estilo é o homem”. Para atingir seu objectivo, teve de levantar um impressionante vocabulário e uma rica sintaxe, e não duvidou em fazer uso de arcaísmos e tipismos regionais de sua província natal, a Beira Alta. Sua primeira marca, portanto, é a pesquisa estilística, a volúpia da forma cinzelada e brilhante (…). Além disso, especialmente nas primeiras obras, Aquilino recebeu alguma influência do Decadentismo, por via do exemplo de Fialho, mas caldeando-a já com sua maneira peculiar, que lhe faria a fortuna de escritor voltado para a terra e para as matrizes do Idioma. Despontavam então algumas de suas características fundamentais, que iriam confluir para formar a vertente melhor de sua volumosa produção: aquela em que o romancista estampa uma profunda simpatia pelo homem rústico das Beiras, vivendo rudes dramas de criatura reduzida à condição de animal irracional, paganicamente embrutecido pelo exclusivo contacto com a terra áspera e primitiva e com velhos e gastos preconceitos sociais, firmemente arraigados nos meios rurais. É o que se observa na maior parte de suas obras de ficção, especialmente Terras do Demo, Andam faunos pelos bosques, São Banaboião. Nesse particular, o melhor de sua obra está na novela “O Malhadinhas”, inserta na Estrada de Santiago. Em matéria de narrativa longa, mas ainda com estrutura de novela, A Casa Grande de Romarigães leva a palma. O escritor subintitula-a de “Crónica romanceada” e no prefácio narra as peripécias de sua composição, inclusive respondendo ambígua e jocosamente a um “académico de Argamasilha, ou lente de Coimbra”: “- Um romance… ? Deus me livre! A minha ambição foi bem outra. Isto é monografia histórica local, história romanceada, se quiser, agora novela, abrenúncio!”» [2]

Testemunho

O neto de Aquilino Ribeiro, Aquilino Machado, no dia 3 de Janeiro de 2018, tornou público o seguinte testemunho:

O meu avô Aquilino quando morreu foi velado por centenas de populares, a larga maioria operários e gente humilde que vivia em Lisboa ou nas periferias urbanas. Alguns eram leitores, mas a maior parte deles não o era. Cumpriam sim uma homenagem igualitária na luta contra a ditadura salazarista. No dia do funeral, os esbirros da PIDE impediram que a grande mobilização estudantil a ele se juntasse, já perto do Cemitério dos Prazeres. O que não conseguiram controlar foram os milhares de telegramas que chegaram a casa dos meus avós, numa emotiva onda de solidariedade e pesar com a morte do escritor beirão. Para além do testemunho de inúmeros notáveis ligados ao campo democrático, uma intensa mole de gente anónima, prestaria um sentido tributo à elevação literária e humana de Aquilino Ribeiro, afrontando politicamente um regime repressivo e anti-democrático: centenas de estudantes – até estudantes liceais! – trabalhadores, essencialmente gente humilde ligada a associações Republicanas da Lisboa Operária».

Aquilino Machado

Aquilino Ribeiro

Foi membro efectivo (a partir de 1958) da Academia das Ciências.

Foi iniciado mação (1907) na Loja Montanha (Lisboa, Grande Oriente Lusitano Unido).

Há uma biblioteca e uma Fundação/Casa-museu com o seu nome em Moimenta da Beira.

Em Setembro de 2018, como forma de evocar Aquilino Ribeiro, a sua vida e percurso literário, o Município e a Biblioteca Abade Vasco Moreira levaram a cabo uma semana de actividades culturais e educativas, que contemplaram a “semana aquiliniana da leitura”, visitas guiadas, apresentação de documentários, séries e sessões de leitura.

A Câmara Municipal de Sernancelhe assinalou 133 anos do escritor Aquilino Ribeiro

Mensagem dos presos de Peniche ao escritor Aquilino Ribeiro (1885 – 1963)

Senhor Aquilino Ribeiro:

Neste ano de 1963, em que perfaz meio século de labor literário, queira escutar mais esta voz que se vem juntar ao coro amigo que o saúda – voz que chega do fundo duma prisão, falando pela boca de mais de uma centena de portugueses encarcerados, há longos anos, pelo único crime de muito amarem a liberdade do seu povo, o progresso da sua Pátria, a Paz no mundo.

Outros dirão dos méritos do escritor, da pujança do seu estilo, da verdade das personagens que criou, da seiva espessa que lhe sobe das raízes mergulhadas no povo e na terra, e vai florescer em fecunda alegria de viver nas páginas dos seus livros, Outros dirão ainda do acordo exemplar entre o homem e o artista, e da íntima comunhão da sua vida com as vicissitudes da vida nacional nos últimos 50 anos. Outros dirão – e nós estamos também entre os que celebram a glória do escritor, sem dúvida uma das figuras cimeiras da nossa história literária.

Mas outra é a especial saudação que o nosso coração e o nosso pensamento nos ditam e aqui lhe trazemos.

Queremos saudar o cidadão corajoso e íntegro, que não se vendeu nem dobrou aos poderosos e aos tiranos, que denunciou com desassombro a torpe mentira dos tribunais políticos e a ferocidade da repressão policial, que exaltou a revolta popular, e que soube fazer frente, com o cajado firme da sua pena de escritor, aos lobos fascistas que assolam os povoados da nossa terra.

Queremos saudar o intelectual generoso e lúcido, que tantas vezes soube erguer alto a sua voz em defesa da paz, contra o furor dos fautores da guerra. Queremos saudar o homem viril e fraterno, pela sua inabalável confiança nas forças populares e no destino dos homens, nas suas conquistas científicas e no seu progresso moral, e confiança que o leva, em meio da noite fascista e ao cabo de setenta anos duma vida tantas vezes dura, a saber ainda olhar em frente, olhar para o sol, e apontar aos companheiros a visão estimulante do futuro radioso da humanidade.

Senhor Aquilino Ribeiro: Longa vida lhe desejamos! Para que possa prosseguir por muitos anos ainda no seu belo trabalho criador. Para que a sua figura altiva de lutador se possa manter presente na frente de combate pela Democracia, a Justiça e a Paz.

E para que, sobretudo, em breve possa ver o sol esplendoroso da Liberdade brilhar de novo e para sempre sobre o nosso querido Portugal.

Os presos políticos do Forte de Peniche

[1] A Seara Nova é uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses da época.

Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumindo fins pedagógicos e políticos. O grupo de intelectuais reunidos em torno do projecto editorial definiram-na como “de doutrina e crítica”, tendo como objectivo, como se lê no editorial do N.º 1, datado de 15 de Outubro de 1921, ser de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes. Com a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Nos seus anos iniciais o projecto reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, Cabral do Nascimento e Augusto Casimiro.

[2] Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa. Editora Cultrix, São Paulo


Dados biográficos

  • Aula de literatura Portuguesa: Aquilino Ribeiro, perfil literário
  • República e Laicidade: Biografias – Aquilino Ribeiro
  • Escola freixinho: Aquilino Ribeiro
  • Wikipédia: Aquilino Ribeiro

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/aquilino-ribeiro/

O comunista e o escritor Dalcídio Jurandir

O escritor paraense Dalcídio Jurandir completaria, nesta quinta-feira (10), 110 anos de idade. Ele nasceu em 10 de janeiro de 1909 em Ponta de Pedras, na Ilha de Marajó. E viveu até 16 de junho de 1979. Este ano marca, portanto, também os 40 anos que deixou a vida.

Dalcídio Jurandir, que é injustamente pouco conhecido, foi um escritor do primeiro time das letras nacionais. Comunista desde a juventude, quando atuou na Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo sido preso por esta ousadia, sua literatura oscila entre os aspectos social e político e a finura e clareza da escrita, numa verdadeira artesania artística que remete, garante o especialista e professor de Literatura na Universidade Federal do Pará, Gunter Karl Pressler, a escritores como Marcel Proust e James Joyce.

Dalcídio Jurandir, que é injustamente pouco conhecido, foi um escritor do primeiro time das letras nacionais. Comunista desde a juventude, quando atuou na Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo sido preso por esta ousadia, sua literatura oscila entre os aspectos social e político e a finura e clareza da escrita, numa verdadeira artesania artística que remete, garante o especialista e professor de Literatura na Universidade Fedeal do Pará, Gunter Karl Pressler, a escritores como Marcel Proust e James Joyce.

Leia, a seguir, o artigo do professor Gunter Karl Pressler:

Em 2009 comemora-se o centenário do escritor Dalcídio Jurandir (1909 a 1979). A premiada obra dalciana reflete a crise social e política da primeira metade do século XX, fazendo da arte literária campo de luta

O projeto literário de Dalcídio Jurandir (1909-1979) foi esboçado em 1929 e resultou em onze romances, o último publicado em 1978 (Ribanceira). Dalcídio trabalhou, naquele ano, como secretário municipal no Baixo Amazonas, onde vivenciou o final da “Velha República”. As publicações iniciaram com sua premiação no Concurso Vecchi-Dom Casmurro (Rio de Janeiro) (1), em 1940, quando os romances Chove nos Campus de Cachoeira e Marajó ganharam o primeiro e o terceiro lugar. Suas atividades como jornalista e escritor e suas publicações abrangem cinquenta anos, desde o movimento dos Modernistas, passando o auge do romance social dos anos 1930 (Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins e Rego, Graciliano Ramos), até bem além das experiências da poesia concreta (iniciadas em 1956) e do romance que mudou a história e a crítica da literatura brasileira Grande Sertão: Veredas (também em 1956), ou – se medirmos em coordenadas políticas – do período da República Velha e do movimento do Tenentismo, entre 1922 e 1930, e do Estado Novo de Getúlio Vargas, do governo Juscelino Kubitschek, passando pela primeira experiência do Parlamentarismo, na década de 1960, até ao início do Governo Militar do general João Baptista Figueiredo.

O “Ciclo do Extremo Norte” – Chove nos Campos de Cachoeira (1941), Marajó (1947), Três Casas e um Rio (1958), Belém do Grão Pará (1960), Passagem dos Inocentes (1967), Primeira Manhã (1967), Ponte do Galo (1971), Os Habitantes (1976), Chão dos Lobos (1976) e Ribanceira (1978) – narra a história e trajetória do personagem Alfredo. O romance Marajó não contém Alfredo, mas outros personagens (Alaíde, Missunga e Ramiro) são referidos posteriormente em outros. O romance pode ser lido como painel preparatório da história de Alfredo. O horizonte da expectativa do jovem personagem central, nos primeiros dois romances, é a grande cidade, Belém. Nos romances posteriores, Alfredo realiza o curso primário e inicia seus estudos no ginásio; o interior é lembrado a partir da vivência urbana em Belém. No penúltimo romance, Chão dos Lobos, o jovem de aproximadamente dezenove anos embarca para o Rio de Janeiro, tentando a sorte. O último, Ribanceira narra a volta de Alfredo, entretanto com vinte anos, ao interior, desta vez como secretário municipal: “Aqui desembarco, não como no cais do Rio de Janeiro, descarregado nas muletas da Sem Nome […] Aqui Secretário o lavrador de pratos do Café São Silvestre na Saúde” (Ribanceira, 1978: 10).

Esses onze romances trazem a história social, cultural e política da Amazônia (o mundo dos donos da terra, os fazendeiros, e o povo que trabalha e sobrevive) no contexto cultural e político do Brasil; descrevem os conflitos da humanidade, em geral, pelo conjunto dos discursos narrativo e metafórico complexo. A experiência na vida real do autor se duplicou na obra ficcional, pois do interior Jurandir foi para Belém e, depois, à capital política e cultural do país: Rio de Janeiro.

Diante do poder econômico centralizado e da fragmentação social, visível na Europa – e particularmente na Amazônia em sua dependência da exploração da borracha – Jurandir configura com a trajetória de Alfredo o ideal socialista “Saber é poder” (August Bebel). Neste sentido, o projeto romanesco foi escrito contra a decadência econômica da vasta e rica região da Amazônia, mas sabendo e expressando um fundo melancólico. Sem esperança nenhuma, depois da breve experiência como secretário municipal, removido pela conjuntura política, Alfredo encontra-se desiludido na casa de Dona Dudu, em Belém:

“Novamente na pedra. Os santos na mesa. Quero abrir uma janela. Roçando a cabeça na palha do teto, o Santo Antônio: te desengana, meu filho, que não faço milagres. A máquina de costura, as três cadeiras velhas.Novamente na pedra. Toda faca, nessa pedra, acha o seu gume?”

(Ribanceira, 1978: 330)

No plano estético do Ciclo se expressa a densidade da experiência individual e espiritual da situação político-cultural do país no início do século XX, posterior à Semana da Arte Moderna e à recondução da independência nacional tanto no campo político e cultural quanto na situação do intelectual do Norte – da Amazônia. No contexto do romance moderno, Jurandir é sem dúvida herdeiro dos grandes narradores e romancistas do século XIX, executando a inquietação existente desde o início do século XX: “a pretensão a fazer estilo” (02). Sua obra cria uma visibilidade externa por “necessidade” cultural-ideológica (o projeto literário) e uma visibilidade interna (humana, universal), na verdade, em busca de uma terceira visibilidade – a mais característica e mais duradoura: a visibilidade poética, a da palavra.

Jurandir inicia o projeto literário em duas direções: ainda no espírito niilista da virada do século em Chove nos Campos de Cachoeira (o fracassado poeta Eutanázio, leitor de Schopenhauer), mas já configura com Marajó um romance social da década de 1930. A autenticidade e a vontade do projeto – mais tarde, explicado como tentativa de transmitir “em termos de ficção, o que vive, sente e sonha o homem marajoara” (1996: 28) – recusam a adaptação do realismo socialista do programa da política cultural da União Soviética. Uma vez experimentou o estilo político-didático com o romance Linha do Parque (1959), fora do Ciclo. Trata-se da história do movimento sindicalista no Rio Grande do Sul.

Considerar a situação política daquelas décadas (o golpe de Getúlio Vargas, a Segunda Guerra Mundial, a volta de Vargas, o anticomunismo feroz) significa refletir sobre as condições da vontade e da autenticidade moral do escritor como exercício estético em torno das possibilidades de resistência política e cultural. A consciência das limitações de ação, a necessidade de não perder o passado, sua cultura e os costumes não tinham como evitar a melancolia. Desta forma, Leandro Konder focaliza em Walter Benjamin o “Marxismo da Melancolia”.

A consciência revolucionária não pode se prosternar diante das representações usuais do passado. A crítica revolucionária do que está acontecendo implica a crítica revolucionária do que aconteceu. “Redenção do passado é revolucionamento do presente […] coincidem”, para Benjamin (1989: 8).

“Os meus livros ficaram como um instrumento de nostalgia, o registro de uma cultura que está sendo destruída pela invasão da Amazônia”, diz Jurandir (1996: 29). O que Konder constata para Benjamin vale também para Jurandir: “era também um revolucionário, que não cedia à tentação da acedia, porque estava possuído pela paixão de contribuir para a transformação do mundo” (1989: 11). “Meu romance é um romance político”, diz Jurandir:

“Fui menino de beira-rio, do meio do campo, banhista de igarapé. Passei a juventude no subúrbio de Belém, entre amigos nunca intelectuais, nos salões da melhor linguagem que são os clubinhos de gente de estiva e das oficinas, das doces e brabinhas namoradas que trabalhavam na fábrica […] Os temas dos meus romances vêem do meio daquela quantidade de gente das canoas, dos vaqueiros, dos colhedores de açaí […] Acumulei experiências, pesquisei a linguagem, o falar paraense, memórias, imaginação, indagações”.

Ele fala do “desmatamento cultural” e expressa sua esperança, mas uma esperança benjaminiana: “Nós somos obrigados a ter um pessimismo viril, como dizia Gorki. Um pessimismo positivo, que vem da crítica constante. Um pessimismo com esperança” (03). Jurandir compreende sua obra no contexto do romance moderno e cita “três grandes políticos no romance moderno sob a aparência de artistas puros ou puros visionários: Kafka, Joyce, Faulkner” (1996: 33). Retomando o termo da terceira visibilidade, aquela mais característica e mais duradoura, a visibilidade poética, o próprio escritor confirma:

“Já uma banalidade dizer que é impossível a um romanista, o menos intemporal dos artistas, fugir do seu tempo. E intemporal, uma palavra, ela existe? Atrás dela pode estar o paraíso, ou a evasão mais sem vergonha. O que existe é o homem, terrestre, temporal como o diabo, e está aí a sua grandeza” (1996: 33).

A ficcionalização de Jurandir tanto comenta a situação histórica mais recente quanto lança uma visão geral sobre o projeto colonial, por exemplo, através da voz de Dona Inácia quando olha para a goiabeira no pátio da casa. O trecho descreve metaforicamente aquilo que aconteceu com o senador Antonio Lemos e marca a vida política no Brasil até os dias atuais.

“– Ah, passarinhos do meu peito. Tivesse leite nestas mamas, eu amamentava vocês todos e não homens. Não foi vocês que traíram o velho, lhe pregando flor na lapela, no peito da sobrecasaca. E com homem caído, não foi vocês que cuspiram no rosto do homem nem deram pontapé onde antes lambiam. Não foi vocês que assaltam a casa do homem e tudo comem e tudo roubam. Os canalhas, os ladrões, os perjuros estão ali no galho da goiabeira? Estão?”

(Belém do Grão Pará, 2004: 55)

Walter Benjamin diz que o cronista “narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e os pequenos” (1987: 223), considerando que nada seja perdido para a história. O cronista é anterior ao historiador que seleciona entre os acontecimentos aqueles que poderiam ser “fatos históricos”, a fim de “classificar as formas, defini-las, expor seus mecanismos e sua dinâmica” (Mauro, 1975: 14). O romancista organiza a história de forma diferente, reconhecendo “outros sistemas dialéticos das vontades […] dialéticas no plural” (1975: 14). Ele sabe da misteriosa relação entre passado e presente, daquela que Benjamin fala na segunda tese “Sobre o Conceito da História”. Benjamin liga essa relação à “imagem da felicidade”, que é “totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência” (1987: 222). Jurandir vive consciente e ativamente a relação entre história e política como amazônida no Brasil da primeira metade do século XX: o declínio da era da borracha traz o passado da toda colonização ao presente numa citação “na ordem do dia” (Löwy, 2005: 54). O romancista Jurandir revive sua história individual no contexto histórico da região através do “sistema dialético da vontade” de escrever um romance.

No último romance, o personagem central Alfredo dialoga com o personagem central do primeiro romance, Eutanázio, que somente representa no mundo ficcional a tentativa da “redenção individual”: o fracassado empregado de uma livraria da capital não consegue sair da infelicidade do homem esquisito como poeta/escrivão do interior que lutou contra o “princípio do mundo” na figura da Irene:

“Sim, como veio tão bela! […] Veio calma na sua marcha para a maternidade […] Desejou passar a mão naquele ventre como a enchente, como a chuva que estava caindo sobre os campos. Desejaria beijá-lo. Estava vendo ali a Criação, a Gênesis, a Vida” (1998: 399s).

Alfredo não só queria aceitar ou sofrer seu destino; ele queria estudar, a fim de conhecer o mundo e de se meter no mundo. Em Ribanceira, seu projeto de se tornar escritor (não poeta como seu irmão) está no lado inverso da sua atividade de secretário (ou jornalista, na vida real do autor). O comunista Jurandir está engajado no presente, mas sabe que o direito à felicidade também deveria valer para o passado, não só como projeção para o futuro.

Diante da situação histórica das décadas de 1920 e 1930, Terry Eagleton constata duas soluções para escritores socialistas: “Uma é o socialismo, que se apresentou na Europa Oriental como o stalinismo […] A outra solução, de certo modo, menos abusiva, é a estética“ (1993: 235). No caso de Jurandir, podemos dizer que viveu as duas opções, uma como romancista do Ciclo do Extremo Norte, e outra pelo engajamento político, experimentado no plano estético com a realização do romance Linha do Parque. Significativamente, este romance é o único até agora traduzido para uma língua estrangeira – para o russo – em 1961. No plano do Ciclo, Jurandir criou uma linguagem poética própria à denúncia da injustiça social. A oralidade figurada proporciona um ritmo lento, que lembra “certas músicas em órgão, lentas e profundas” (Jorge Amado, 1996: 10), em que o leitor mais que desejaria se perder. Como diz o próprio Jurandir:

“Eu não sou um escritor de grande público. Os meus livros não têm o principal encanto das grandes tiragens, que é essa habilidade para fazer o leitor ser atraído pelo enredo, pelo desenvolvimento da urdidura. Eu me fixo muito na linguagem, nos vagares da narrativa, no ritmo lento das cenas” .

(1996: 29)

A estrutura complexa da narrativa mescla-se com a denúncia social e mostra “uma objetividade do subjetivo que implica enriquecimento mais que estranhamento”. Nisso resulta numa “desconstrução da antítese entre liberdade e necessidade, na medida em que cada elemento da obra de arte aparece ao mesmo tempo milagrosamente autônomo e misteriosamente subordinado à lei do todo” (Eagleton, 1993: 235). O leitor é chamado a resolver a charada da história (do enredo e da história real). O crítico literário contemporâneo das edições não conseguia ver a inovação e entendeu o mundo apresentado na moldura do horizonte de expectativa da crítica social do romance da década de 1930 ou como obra regionalista, então, menor.

Eagleton defende uma visão ideológica materialista diante um mundo em fragmentos: “A ideia não é o que está por trás do fenômeno como uma essência que o informa, mas é o modo pelo qual o objeto é conceitualmente configurado nos seus elementos diversos, extremos e contraditórios”. Nesta sensível aceitação e preservação dos “elementos díspares em toda sua irredutível heterogeneidade” (1993: 239), Jurandir narra as histórias da gente de Marajó como gente deste mundo numa espécie de “sociologia poética” (1993: 240), mas numa complexidade narrativa que desafiava demais – como ressaltamos – o horizonte de expectativa da crítica literária contemporânea.

Concluímos. Três características marcam o trabalho de Dalcídio Jurandir como obra literária sui generis: a linguagem altamente poética como recriação plástica da oralidade, o recurso linguístico moderno do discurso indireto livre, mesclando diversos tipos de narradores ou vozes numa complexidade estrutural que proporciona descrição e narração – até o leitor se confunde –, por exemplo, somente três a quatro meses passam, na verdade, só quatro dias constroem o plano da narração de Chove nos Campos de Cachoeira, 16 dos 20 capítulos. Nos romances posteriores, parece que Alfredo não cresce. No detalhe, observa-se a arte de lidar com o tempo: em Três Casas e um Rio, o narrador resume em seis linhas a história do acidente da Marinha com o fogo, um assalto no meio de uma introspecção do personagem central, depois, em intervalos, o leitor conhece toda a história e sua importância para Alfredo e para a composição.

As cores regionais caracterizam a paisagem dos acontecimentos, dos personagens e dos autores, mas não são critérios estéticos ou genéricos –, são características da visão do mundo de um grande escritor. Os conflitos da história, os sentimentos e pensamentos dos personagens e o próprio discurso do narrador expressam a qualidade humana como tal e, particularmente, nas situações de limite e de luta social pela felicidade e pela identidade cultural.

Gunter Karl Pressler é doutor em Teoria Literária e professor da Universidade Federal do Pará/UFPA

Notas

(01) Jorge Amado, editor-chefe da revista literária semanal Dom Casmurro criou, em 1937, juntamente com a editora Vecchi um concurso literário para romances. A revista, que circulou entre 1937 e 1944, foi a mais importante publicação do gênero no Brasil. Na época, chegou a atingir 50 mil exemplares por semana, foi um ponto de referência para toda a esquerda política (cf. http://pt.wikipedia.org).

(02) “Me lembro que fiz essa tentativa com uma literatura desenfreada e uma pretensão a fazer estilo, que era um espetáculo” (1941/1996: 14). Em relação a outro escritor brasileiro, já famoso, Oswald de Andrade, o jovem A. Candido ressalta: “Nota-se n’Os Condenados […] uma técnica original de narrativa e uma procura constante de estilo. Um esforço de ‘fazer estilo’” (“Estouro e Libertação”, publicado primeiramente em 1943 e incluído no livro Brigada Ligeira (1945); reeditado in: Vários Escritos (1970: 38).

(03) 1996: 29. Quem não pensa na famosa frase de Benjamin: “A esperança só nos é dada por consideração àqueles que não têm mais esperança” (1974: 201), citado por Herbert Marcuse em One-Dimensional Man, publicado no Brasil sob o título Ideologia da Sociedade Industrial.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften. Vol. I. Frankfurt A. M.: Suhrkamp 1974 (WA 1).______________. Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense 1987, 3ª ed.CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades 1970.EAGLETON, Terry. A Ideologia da Estética. Tradução de Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 1993.JURANDIR, Dalcídio. “Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte…”. In: Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 14-16.______________. “Um Escritor no Purgatório” (Entrevista por Antonio Torres, Haroldo Maranhão e Pedro Galvão). In: Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 28-30.______________. “Eneida entrevista Dalcídio”. Eneida de Morais, entrevista publicada originalmente em Folha do Norte, em 23-10-1960, republicada em Asas da Palavras (Belém), n. 4/1996: 32s.______________. Chove nos Campos de Cachoeira. Belém: UNAMA, 1998, 6ª ed.______________. Marajó. Belém/Rio de Janeiro: EDUFPA/FCRB, 2008, 4ª ed.______________. Três Casas e um Rio. Belém: CEJUP: 1994, 2ª ed.______________. Linha do Parque. Belém: Falangola, 1987, 2ª ed.______________. Belém do Grão Pará. Belém/Rio de Janeiro: EDUFPA/FCRB, 2005, 4ª ed.______________. Passagens dos Inocentes. Belém: Falangola: 1984, 2ª ed.______________. Primeira Manhã. São Paulo: Martins, 1967.______________. Ponte de Galo. São Paulo/Rio de Janeiro: Martins/NLE, 1971.______________. Os Habitantes. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.______________. Chão dos Lobos. Rio de Janeiro: Record, 1976.______________. Ribanceira. Rio de Janeiro: Record, 1978.LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma Leitura das Teses ‘Sobre o Conceito da História’. Tradução de Wanda Nogueira C. Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.MAURO, Frédéric. Do Brasil à América. Tradução de Magda P. França de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 1975 (Debates, 108).


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


40 anos de Xutos & Pontapés

Os Xutos & Pontapés cumprem 40 anos este domingo. Para assinalar a data, no próximo dia 25 lançam o álbum Duro, um legado de luto e de alegria que inclui gravações feitas por Zé Pedro.

Créditos / NiT

A data de aniversário serve para assinalar o nascimento oficial de uma das bandas portuguesas mais emblemáticas, que aconteceu a 13 de Janeiro de 1979 no salão de baile dos Alunos de Apolo, em Lisboa, numa noite em que tocaram quatro músicas em pouco mais de cinco minutos.

O grupo, que chegou a chamar-se Delirium Tremens e depois Beijinhos e Parabéns, integrava então os jovens Zé Pedro, Kalú, Tim e Zé Leonel, influenciados pelo punk-rock que entrava em força na cena musical estrangeira.

Quarenta anos depois, e já sem os fundadores Zé Pedro e Zé Leonel, a banda persiste na música portuguesa, com mais de uma dezena de álbuns e muitas canções que servem de âncora para um clã do rock com milhares de fãs de várias gerações.

Para festejar a data redonda, os Xutos & Pontapés editam um novo álbum, Duro, que sairá no dia 25, coincidindo com um concerto no espaço Lisboa ao Vivo. A 1 de Fevereiro apresentam-no no Hard Club, no Porto.

Este é também o primeiro álbum que Kalú, Tim, João Cabeleira e Gui editam sem o guitarrista Zé Pedro, que morreu em 2017, mas o registo incluirá gravações feitas ainda por este músico.

Aos fãs, a banda explica que o álbum é «um legado de perseverança e persistência, de luto e de alegria, de ansiedade e calma».

Com Agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/40-anos-de-xutos-pontapes

Maria do Céu Guerra distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, em reconhecimento à sua ímpar carreira artística.

Maria do Céu Guerra em "Menino de sua avó", de Armando Nascimento Rosa, encenação de Maria do Céu Guerra e Adérito Lopes, A Barraca, 2013.Créditos / A Barraca

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra, uma das fundadoras da companhia de teatro A Barraca, foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, segundo comunicado da Estoril-Sol distribuído pela Agência Lusa.

Maria do Céu Guerra, de 75 anos, «desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma carreira ímpar ligada às artes», reconhece o júri do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, presidido por Guilherme d’Oliveira Martins e integrado, ainda, por Maria Alzira Seixo, José Manuel Mendes, Manuel Frias Martins, Maria Carlos Loureiro, Liberto Cruz, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu.

O júri justificou a sua escolha acrescentando que foi a personalidade escolhida «por se ter destacado, ao longo da vida, numa prática de cidadania cultural, enquanto actriz, que levou à cena e por diferentes modos divulgou os grandes textos da literatura portuguesa e, nessa intervenção, que manteve A Barraca como núcleo de irradiação cultural, formativo e vocacionado para a descoberta e criação de novos públicos».

«colocamos no trabalho e no jogo do actor o nosso mais alto investimento cenográfico. O corpo físico do actor bem como a roupa que a personagem enverga e a define são na maior parte das produções a nossa principal cenografia»

Maria do Céu Guerra

A actriz e encenadora é a primeira mulher a receber o prémio, que nas suas três edições anteriores distinguiu o ensaísta Eduardo Lourenço (2016), o jornalista e escritor José Carlos Vasconcelos (2017) e o ensaísta e prestigiado camoniano Vítor Aguiar e Silva (2018).

A cerimónia da entrega do Prémio a Maria do Céu Guerra «será anunciada oportunamente», segundo o referido comunicado.

O Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural tem um valor pecuniário de 20 mil euros e visa «distinguir um escritor, ensaísta, poeta, jornalista, tradutor ou produtor cultural que ao longo da carreira – ou através de uma intervenção inovadora e de excepcional importância –, haja contribuído para dignificar e projectar no espaço público o sector a que pertença», lê-se no regulamento elaborado pela Estoril-Sol, entidade promotora da iniciativa.

O nome da distinguida foi conhecido no dia 3 de Janeiro, em que o escritor Vasco Graça Moura (1942-2014), cuja memória o prémio homenageia, completaria 77 anos.

Maria do Céu Guerra: uma vida no palco

Maria do Céu Guerra de Oliveira e Silva nasceu em Lisboa, a 26 de maio de 1943. Frequentou a licenciatura de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1962 a 1964). Como referiu em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, «no primeiro ano, achava que ia ser escritora, no segundo achava que ia ser escritora e actriz, e no terceiro achava que ia ser actriz». Adere ao Grupo Cénico onde se estreia (1963) na peça Assembleia ou Partida, de Correia Garção, encenada por Claude-Henri Frèches. Foi o início de uma carreira que jamais abandonou e que, mais de cinco décadas depois, se evidencia como enriquecedora e marcante do panorama teatral português, mas que também abrangeu o cinema e a televisão.

Até ao início dos anos 70 integra o grupo fundador da Casa da Comédia (1963), participa na fundação do Teatro Experimental de Cascais (1965), onde se profissionalizou e desdobra-se entre o teatro de revista e a comédia, entre 1970 e 1974.

Maria do Céu Guerra em "Bodas de Sangue", de Federico García Lorca, encenação de Carlos Avillez, Teatro Experimental de Cascais, 1968 Créditos

Com a Revolução dos Cravos inicia-se uma época de liberdade com a qual a sua carreira se entrelaçará definitivamente.

Em 1975 fundou a companhia de teatro A Barraca, que começa a trabalhar num projecto da própria Maria do Céu Guerra. «Durante um ano se trabalhou em silêncio para que este projecto fosse possível», relembrará a artista em 2016, em texto dedicado ao 40.º aniversário da companhia. Tratava-se de levar à cena a peça Por estes Santos Latifúndios, do colombiano Teatro de La Candelaria. Rebaptizada como A Cidade Dourada, a peça teve cenário de Mário Alberto, poemas de José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo sobre um fado de José Manuel Osório, encenação coordenada por Fernanda Alves.

Maria do Céu Guerra em Santa Joana dos Matadouros, de Bertolt Brecht. Foto de arquivo Créditos

Estreou a 4 de Março de 1976 na Incrível Almadense e foi a primeira de cerca de 110 produções nos últimos 42 anos, em que, para além de actriz, Maria do Céu Guerra foi desempenhando outras funções, como figurinista ou direcção ou concepção de guarda-roupa, cenografia ou direcção plástica, produção, adaptação ou dramaturgia e, com maior preponderância, como encenadora.

«Em arte não se podem separar os universos. Digo gestão - digo estética. Por isso, A Barraca não pára de fazer sessões para manter a Companhia. Por isso, A Barraca aceita todos os convites, mesmo em péssimas condições, para manter a Companhia. Por isso grande parte das pessoas trabalhou durante estes últimos anos, horas sem fim pro bono, para manter a Companhia. Porque a Companhia é o corpo dos actores que dá corpo às peças, o corpo dos técnicos que dá luz às peças. A Companhia é a voz que atende o público, sem o qual não vivemos.»

Maria do Céu Guerra

Além, naturalmente, da direcção da companhia, que há largos anos partilha com Hélder Costa, e que passou de não ter espaço algum para o Espaço Cinearte, que ainda hoje mantém, num singular projecto artístico e cultural que o júri do Prémio Vasco Graça Moura soube reconhecer.

Seria fastidioso enumerar todas as produções que compõem o rico historial d’A Barraca, tal como seria fastidioso enumerar os autores de textos e de músicas, actores e actrizes, cenógrafos, encenadores, músicos e tantos outros colaboradores que a companhia trouxe ao público.

Entre outros galardões, Maria do Céu Guerra recebeu o Prémio da Imprensa para Actriz de Teatro de Revista (1970) e para Actriz de Teatro (1981), o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro (2007) e para Melhor Actriz de Cinema (2015); e o Prémio Sophia para Melhor Actriz Principal (2015).

Como personalidade destacada da vida cultural portuguesa, foi condecorada com o grau de Dama da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1985) e recebeu o grau de Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique (1994).

O trabalho de Maria do Céu Guerra estendeu-se ao cinema e à televisão. No primeiro estreou-se em O Mal-Amado (1974), de Fernando Matos Silva, e participou em diversos filmes de outros destacados realizadores portugueses, com o seu desempenho mais recente, no filme Os Gatos não têm Vertigens (2015), de António-Pedro Vasconcelos, a valer-lhe um Globo de Ouro e o Prémio Sophia. Na segunda participou em peças televisivas e desde o final dos anos 90 que participa em telenovelas, as mais recentes das quais são Jardins Proibidos (2014-2015) e A Impostora (2016)

Maria do Céu Guerra é irmã do jornalista e escritor João Paulo Guerra. É mãe de outra actriz, Rita Lello (do seu casamento com o actor Luís Lello) e de Mário Guerra (do seu casamento com o cenógrafo e pintor Mário Alberto).

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/maria-do-ceu-guerra-distinguida-com-o-premio-vasco-graca-moura

12 ilustrações que retratam o triste presente em que estamos vivendo

Tradução feita pela CONTI outra, do original de UPSOCL

Não podemos nos cegar para a realidade de que as redes sociais têm incentivado a maneira como nos mostramos diante do mundo.

Tecnologia, redes sociais e individualismo parecem estar consumindo nossas vidas. Não podemos nos cegar para a realidade de que as redes sociais têm incentivado a maneira como nos mostramos diante do mundo.

Infelizmente, todos os dias conhecemos apenas a máscara dos outros, perdemos a compaixão, a lealdade e até permitimos que o status e as redes sociais afetem completamente as nossas vidas.

Essas 12 ilustrações mostram uma triste realidade, mas isso pode fazer você refletir sobre a vida que você leva versus a que você quer levar.

1. O que mostramos contra o que somos.

2. Boas ações são feitas principalmente para serem “admiradas”.

3. Aqueles que têm menos dão mais.

4. O dinheiro pode comprar tudo?

5. Onde está o amor pela vocação?

6. Parece que as prioridades mudam quando é necessário permanecer conectado.

7. Alguns gostam de assistir a pirotecnia já outros sofrem quando o fogo cai sobre eles.

8. Todos dizem que você tem que estudar, mas depois os profissionais imploram por empregos decentes.

9. Imerso em um consumismo que não foi controlado.

10. Continuamos nas redes, mas limitamos quem nos acompanha.

11. Migração e pobreza são as realidades mais cruéis que enfrentamos.

12. Inimigos se disfarçam como seus “melhores amigos”.

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/12-ilustracoes-que-retratam-o-triste-presente/

Companhia de teatro da Covilhã distinguida com prémio europeu

A Companhia ASTA – Teatro e Outras Artes foi distinguida com o European Language Label pelo seu projecto «Tell Me», onde o teatro é ferramenta de integração de migrantes.

Créditos / ASTA

O prémio é atribuído anualmente a projectos e iniciativas que promovam o acesso e aprendizagem das diferentes línguas, através de formas inovadoras. A entrega da distinção à multipremiada ASTA deverá acontecer no Europe Festival, que decorre de 7 a 9 de Maio, em Florença, Itália.

O presidente e director artístico da ASTA, Sérgio Novo, explica numa nota enviada à imprensa que o «Tell Me – Theatre for Education and Literacy Learning of Migrants in Europe», cuja ferramenta é o teatro, é um «projecto europeu ímpar» no campo do ensino não formal da língua e da matemática, tendo sido desenvolvido nos últimos dois anos.

Concluído com «enorme êxito», o projecto com vista à inclusão social contemplou o desenvolvimento de ferramentas e metodologias de trabalho e pesquisa que decorreram em Portugal, na Itália e na Suécia.

Entre os materiais didácticos desenvolvidos pela equipa pedagógica e criativa do «Tell Me» encontra-se disponível na página do projecto um manual em cinco idiomas para o ensino da língua e da matemática. 

Além da ASTA, a equipa do projecto junta as associações IFALL – Integration for Alla de Örkelljunga (Suécia) e os organismos italianos Nuovo Comitato (associação criada pelo Nobel da Literatura Dario Fo, representada pelo seu filho Jacopo Fo, director científico do projecto) e a ANL – Associazione Nuovi Linguaggi.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/companhia-de-teatro-da-covilha-distinguida-com-premio-europeu

Deus e Marx

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Durante anos, de cada vez que na universidade iniciava a minha aula anual sobre o pensamento político e social de Karl Marx usava uma piada que me parecia ter algum sucesso: afirmava ir falar «daquele senhor de barbas muito parecido com Deus». Tinha na cabeça, é claro, a conhecida imagem da criação da Luz que Gustav Doré desenhou para a versão da Bíblia editada em 1843 que encheu de sagrado e de temor parte da minha infância. Só muito mais tarde lhe associei os acordes magníficos de Haydn que na oratória A Criação acompanham a exclamação «Und es war LICHT!», «E fez-se LUZ!». Suspeito, no entanto, que nem no sentido inverso posso agora repetir a brincadeira, pois quase ninguém possui uma imagem fixa de Deus e a Marx – mesmo com o auxílio da famosa fotografia de estúdio tirada em Londres no ano de 1875 por John Mayal – poucos identificariam se com ele chocassem numa viela escura. O jogo inicial tornou-se puro nonsense, mas melhores dias virão.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/01/deus-e-marx/

Aculturar para dominar

Estados Unidos: quando as armas não são suficientes
A fim de superar a resistência dos povos, as armas nunca foram suficientes. À guerra, as ocupações e colonizações acompanha e muitas vezes antecede, a imposição da cultura do invasor.
Entre os anos 58 e 52 a.C. as legiões romanas, sob o comando de Júlio César, invadiram a Gália. Oitocentas cidades conquistadas, um milhão de prisioneiros vendidos como escravos e cerca de três milhões de mortos foi o saldo, segundo Plutarco, da conquista.
Para estender a campanha para além do Reno, César precisava do apoio do Senado. Para conseguir isso criou uma ameaça, a ameaça alemã. Tibério, sucessor de Augusto, preferiu não usar a guerra para subjugar os alemães belicosos, mas tentou isso através da cultura. Nas margens do Reno, o imperador construiu uma cidade romana com banhos, teatros, templos e avenidas, oferecendo-lhes as «vantagens» da civilização romana.
Construir uma ameaça, demonizar o inimigo, use o medo, foram recursos frequentemente utilizados pelos invasores para obter o apoio de seu povo e mobilizá-los ou desmobilizá-los, de acordo com seus interesses.
Depois da 2ª Guerra Mundial, o Medo Vermelho foi gerido de forma eficaz pelo império norte-americano, se o povo estadunidense estava inquieto, tocava-se a rebate: vêm os russos!
Destruir a identidade dos povos, impor a cultura do conquistador com sangue e fogo, apagar a memória histórica, é essencial para perpetuar o saque e a dominação, um povo sem memória é facilmente acorrentado e explorado.
A Cidade do México foi construída sobre as ruínas de Tenochtitlan, os conquistadores espanhóis não deixaram pedra alguma. Nas Américas «descobertas», destruíram os quipos inca, os códices maias, os observatórios astrológicos, os calendários, os templos, as imagens e símbolos religiosos, os monumentos, cidades e vilas e impuseram sua língua e religião.
Durante a guerra no Iraque, as tropas norte-americanas saquearam centenas de monumentos históricos, roubaram peças de museu de valor incalculável, livros insubstituíveis; roubaram o Museu Nacional do Iraque, em 48 horas o prédio foi destruído e saqueado e, pelo menos, 50 mil peças foram roubadas.
A Biblioteca Nacional do Iraque, em Bagdá, foi atacada e incendiada, a Universidade de Bagdá incendiada duas vezes no mesmo dia. «Ao destruir a herança do Iraque, seu povo, sua arquitetura, milênios de cultura da humanidade foram varridos». (1)
Durante o período de reconstrução, no país destruído pela guerra, uma das primeiras propostas feitas pelos «libertadores» foi construir um mundo da Disney.
Mir Ahmad Joyenda, deputado do Parlamento afegão, afirma que, no caso daquela nação, soldados estrangeiros, à noite, minavam as muralhas e entravam no Museu Nacional para roubar. O Afeganistão foi vítima de roubo e da destruição intencional de seus tesouros arqueológicos.
Nos povos pesam séculos de engano, engano que, com a chegada dos meios de comunicação em massa e das novas tecnologias da informação e da comunicação, tomaram dimensões muito difíceis de medir em toda a sua magnitude.
Segundo Luis Brito García, através da cultura a vontade é imposta ao inimigo e as ideias do mundo, valores e atitudes são incutidos. «Em longo prazo, o aparelho político não pode defender vitoriosamente na guerra, nem impor na paz, o que a cultura nega». (2)
O poder global capitalista agora tem poderosas armas culturais. «Com operações de penetração, de pesquisa motivacional, de propaganda e de educação, os aparelhos políticos e econômicos assumiram a tarefa de operar no corpo vivente da cultura. A operação tem uma variedade de símbolos como instrumentos cirúrgicos; como campo o planeta, como presa a consciência humana. Seus canhões são os meios de comunicação em massa, seus projéteis são as ideologias».
Os grandes capitalistas sabem que o controle ideológico é fundamental para que os povos não se revoltem contra a exploração das multinacionais, e investem e dominam os meios de comunicação em massa, uma rede multifatorial que age para influenciar e manipular a opinião pública.
Como nos livramos da americanização de nossos hábitos, gostos, costumes e pensamentos? Como podemos privar as pessoas de seus gostos e práticas ao longo da vida? Os jogos, o entretenimento, os shows fazem parte do nosso jeito de ser, de viver. Como abandonar a maneira como nos vestimos, a série de televisão que gostamos, a música que ouvimos, o esporte que vemos; a tudo aquilo que nos causa prazer, quando estamos sentados na poltrona da sala de estar da nossa casa, diante da televisão, esperamos «distrair-nos» por algum tempo, descansar, «desligar»?
A influência romana atingiu apenas uma parte do planeta, os sucessivos impérios tiveram suas áreas limitadas a espaços mais ou menos extensos. Do império de Carlos V diziam que o sol nunca se pôs. A influência cultural da Espanha, Grã-Bretanha e Portugal foi enorme, espalharam sua língua, hábitos e costumes em grande parte do mundo, mas os Estados Unidos conseguiram levar sua influência ao mundo inteiro, da política à moda.
Os habitantes deste mundo, mesmo no recanto mais remoto da terra, usam jeans azuis, comem hambúrgueres, bebem Coca-Cola, mastigam goma de mascar, usam bonés e camisetas com imagens ou sinais estadunidenses, são seguidores dos grupos e cantores norte-americanos, são fãs de séries de televisão e do cinema de Hollywood, acompanham as notícias e fofocas das estrelas de cinema, divertem-se com imagens mórbidas que descobrem os paparazzi, o amor, o sexo, a moda, os sonhos são cada vez mais made in USA.
A globalização da cultura é uma realidade, mas devemos acrescentar um sobrenome, a globalização da cultura estadunidense.
O poder do império hoje tem uma vasta experiência, seu domínio da indústria cultural, da mídia e informação, dá-lhes uma grande vantagem, mas esse poder é contrabalançado pelo projeto socialista cubano, um projeto cultural validado por 60 anos existência, que também possui, por sua própria autenticidade, a virtude de se nutrir das contraculturas que gera. Sua exemplaridade fomenta o surgimento de projetos semelhantes, autônomos, em outras partes do mundo.
O poder de uma cultura, disse Antonio Gramsci, é medido pelo seu nível de assimilação crítica e de ser superado por novas realidades. Livre de todo determinismo histórico, Cuba é uma ‘anomalia’ que não pode ser aceite pela ordem capitalista mundial.
Antagonista da religião do mercado imposta ao mundo como a última estação do seu caminho, em um mundo que pretende negar a história, conta com sua cultura como a primeira, segunda e última linha de defesa.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Nu Vermelho, Henri Matisse

“Nu Vermelho”, de Henri Matisse. Henri-Émile-Benoît Matisse foi um artista francês, conhecido pelo uso da cor.

Figura majestosa e harmónica, eis uma pintura encantada de optimismo pela envolvência da cor e da luz. Pode-se assinalar como um tema alegre e quente, em que todo o trabalho é consagrado à composição. A forma é determinante, as cores são sempre vivas, brilhantes, de que resulta uma luminosidade própria muito acentuada. O requinte é vibrante e pouco lhe interessa o conteúdo.

Informação adicional

Artista: Henri Matisse
Local: Museu de Arte Walters
Criação: 1935
Período: Expressionismo


Nota de edição

Henri Matisse1869-1954

Henri-Émile-Benoît Matisse,
foi um artista francês, conhecido pelo uso da cor e sua arte de desenhar, fluída e original.

Foi um desenhista, gravurista e escultor, mas é principalmente conhecido como um pintor. Matisse é considerado, juntamente com Picasso e Marcel Duchamp, como um dos três artistas do século XX, responsável por uma evolução significativa na pintura e na escultura.

Embora fosse inicialmente rotulado de fauvista (uso de cores puras, sem misturar com outras), na década de 1920 ele foi cada vez mais aclamado como um defensor da tradição clássica na pintura francesa.

O seu domínio da linguagem expressiva da cor e do desenho, exibido num conjunto de obras ao longo de mais de meio século, valeram-lhe o reconhecimento como uma figura de liderança na arte moderna.

Fonte: Wikipédia

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/nu-vermelho-henri-matisse/

Podemos levar o #MeToo até Neruda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

A polémica começa de forma simples: há uma proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda. A proposta não espanta. O Nobel de 1971 é provavelmente o chileno mais conhecido no mundo. Só que Neruda confessou, no seu livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão, onde desempenhou funções diplomáticas em 1929: “Era como se ela fosse uma estátua. Manteve os olhos bem abertos o tempo todo, sem reagir de forma nenhuma ao que estava a acontecer. De certo modo, ela fez bem em desprezar-me.” E isto tem feito crescer um movimento de mulheres contra a homenagem ao poeta. Numa estranha “aliança” com muitos políticos de direita e saudosistas da ditadura que, por razões óbvias, não apreciam Neruda e já tinham vetado esta denominação em 2015.

Uma das expressões que mais me irrita da vulgata política e não só é a de que a História julgará determinado acontecimento ou pessoa. A História não julga. Ou pelo menos não julga com Justiça. A História olha para o passado com os olhos do presente. E olhará para o presente com os olhos do futuro, nunca compreendendo plenamente o que hoje acontece. Pode olhar através da lente moral ou da lente política dos vencedores. Mas tem sempre essa distorção. E quando se trata de homenagear figuras do passado, o passado é quase irrelevante. As homenagens que fazemos serve para sublinhar valores conquistados no presente ou no passado próximo. Apenas reivindicamos o passado em nome deles.

Mas este processo tem de ser, apesar de tudo, cuidadoso. Se não devemos erguer heróis ignorando os seus crimes, devemos evitar julgamentos anacrónicos, que esquecem que há valores que hoje temos como indiscutíveis e que não o eram no passado. Mas, acima de tudo, não podemos olhar para as figuras históricas como figuras totais. Elas foram relevantes por alguma razão, não foram relevantes por todas as razões. E é pelas razões que as levaram a ser relevantes que as temos de evocar.

Não faz sentido homenagear um político se foi um tirano. Mas podemos homenagear um político que, apesar de ter sido um grande estadista, plagiou um texto. Não faz sentido homenagear um escritor se foi um plagiador. Mas podemos homenagear um escritor que tenha sido um fascista. Não faz sentido homenagear um padre, que se dedica a pregar a moral, que tenha sido um pedófilo. Mas faz sentido homenagear um cineasta que abusou de um menor. Há, claro, casos de fronteira. Elias Kazan foi um dos maiores realizadores da história do cinema. Mas a sua colaboração com o macartismo fez muito mal ao cinema. Do ponto de vista plástico, Leni Riefenstahl deixou uma obra notável. Mas é impossível separar essa obra – e não apenas a realizadora – do nazismo.

No essencial, o que quero dizer é julgamos um escritor como escritor, um político como político. As biografias podem contar todas as facetas dessas pessoas e isso ajuda-nos a humanizar os heróis e os vilões. Mas cada homenagem que fazemos não é uma beatificação. E não podemos revisitar todos os que deixaram marcas fortes na história do mundo à luz dos critérios morais de cada momento. Houve feministas racistas, houve abolicionistas homofóbicos, houve ativistas LGBT misóginos, houve revolucionários que juntaram tudo isto. Até porque todas as lutas não ganharam a mesma relevância na consciência de todos os que lutaram por um mundo melhor. E houve, entre todos, pessoas que cometeram crimes. Se assim foi com ativistas, com mais aguda consciência política, imagine-se com aqueles que são recordados por razões bem diferentes. Caso a causa animal venha a ser realmente triunfante, imagine-se apagar todas as homenagens a Hemingway ou Picasso porque enalteceram a tourada.

Apesar de todos os riscos neste tempo de indignação fácil, o #MeToo é um movimento globalmente positivo. Todas as injustiças, que nos obrigam a não ser meigos com linchamentos virais, não podem esconder o mais relevante: a voz das mulheres está a ganhar uma força que desconhecíamos. Sendo elas metade da humanidade, os efeitos serão profundos, por vezes assustadores, seguramente revolucionários. Com todos os perigos que estas mudanças trazem sempre, este sobressalto é indiscutivelmente positivo. Mas essa luta não pode ser totalitária. Ela não pode fazer esquecer todas as outras dimensões da história e da vida.

Podemos sublinhar que Neruda violou. E, já agora, que só o sabemos porque ele o escreveu. Mas não podemos, porque não faz sentido, fazer disso o mais relevante do que ele nos deixou. Se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém.

Com o risco de uma luta para que o futuro seja diferente se transformar num interminável ajuste de contas com o passado que nos encaminha para a amnésia coletiva, sem pontos de referência que sobrevivam à limpeza.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Há muitos Amós Oz e um só Netanyahu

Estou chorando por Amós Oz e nem sei porque. Eu não o conheci, nunca estive com ele, não entrevistei nem por telefone. Nunca fui leitor fanático de seus livros. Se muito, li trechos de “Caixa preta” que dei de presente de aniversário ao meu pai.

O que me fez chorar talvez tenha sido o fato de ele ter morrido exatamente no dia em que Benjamin Netanyahu veio ao Brasil acertar uma aliança com o futuro presidente Jair Bolsonaro. Estou chorando por Amós Oz porque eu gostaria que os brasileiros associassem o Estado de Israel ao grande escritor e não ao pequeno estadista israelense ora no poder.

Oz era mais velho que Israel. Nasceu numa Jerusalém onde judeus, cristãos e muçulmanos conviviam em paz. Talvez por isso sempre defendeu a existência de dois estados – Israel e Palestina -, na contramão da extrema-direita de Netanyahu que não tolera a convivência pacífica com os vizinhos e sempre estimula conflitos nas fronteiras, e, dada a superioridade militar dos israelenses fornece manchetes nas quais Israel aparece como uma espécie de estado genocida, muitas vezes comparado – injustamente – ao nazismo.

Eu estive em Israel em 1971. Estranhei a onipresença de soldados nas ruas e nas estradas, jovens e velhos, homens e mulheres. De manhã, à tarde e à noite. Para mim, que vivia uma ditadura militar era o sinal de que também ali vigia um regime ditatorial. Mas também conheci um país de pessoas alegres, vibrantes, dinâmicas, tolerantes, dispostas a aceitar as diferenças e os diferentes.

Embora haja, em Israel, pessoas de direita, de esquerda e de centro, como em todo o mundo, e Benjamin Netanyahu tenha mandato obtido pelo voto popular, de alguns anos para cá o país passou a ser estigmatizado por setores da esquerda mundial e brasileira. Extremistas como o músico Roger Waters criaram campanhas de boicote. Incitavam artistas a não se apresentarem no país, como fosse uma República do Mal.

Nunca fui, não sou e nunca serei militante de esquerda, mas sou uma pessoa de esquerda desde a infância. Sempre associei a esquerda a liberdade, tolerância e convivência pacífica. A viver e deixar viver. A respeitar a si mesmo e aos outros. A cultivar valores éticos. A defender intransigentemente os direitos humanos. A lutar pelos oprimidos.

Por isso estranho muito e não entendo quando pessoas que se dizem de esquerda tratam Israel com a fúria e a intolerância de Waters. Isso significa demonizar os israelenses. Demonizar pessoas. O que não é aceitável.

A esquerda demoniza Israel como a direita demoniza Venezuela.

Netanyahu vai passar, como passaram todos os outros estadistas. O que Oz escreveu vai ficar para sempre.

Em Israel há um só Netanyahu, e – felizmente – muitos Amós Oz.


por Alex Solnik, Jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. Autor de treze livros, dentre os quais “Porque não deu certo”, “O Cofre do Adhemar”, “A guerra do apagão” e “O domador de sonhos” | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


A distância entre as palavras e as ações

Terminei neste Natal a leitura de um livro comprado há dez anos. A demora não ficou a dever-se a outras prioridades – leio sempre três ou quatro livros em simultâneo e não teria sido difícil juntá-lo a uma das séries –, mas ao facto de o seu conteúdo me ter perturbado tanto quanto me interessou, o que fez protelar algumas vezes a passagem ao capítulo seguinte. Refiro-me a Intelectuais, do historiador britânico Paul Johnson, obra escrita com um propósito desassossegador: observar um conjunto de poetas, escritores e pensadores cuja obra pública integrou uma vontade declarada de sugerir caminhos melhores e mais justos para o trajeto da humanidade, ao mesmo tempo que a sua vida ia contrariando, por vezes de forma extrema, as belas ideias e os grandes propósitos que preconizavam.

Johnson dedicou-se a demolir,aos olhos dos leitores, algumas lendas construídas à volta dos autores que aborda,sugeridas em parte por uma observação dos seus escritos que não teve em conta as escolhas objetivas da sua vida pessoal. Um pouco como na sentença que sugere «olha para o que eu digo, mas não para o que faço». Já conhecia alguns dos episódios evocados no livro, mas nunca estes me haviam sido revelados de forma tão clara e encadeada em modelos de comportamento, abalando, admito, o modo como passei a olhar Rousseau, Shelley, Karl Marx, Ibsen, Tolstoi, Hemingway, Brecht, Bertrand Russell, Sartre, Lilian Hellman, Norman Mailer e alguns outros. E nem o facto de conhecer as tendências politicamente conservadoras do autor, e os preconceitos de abordagem que em alguns dos casos elas determinaram, reduziu o efeito de choque perante tantos sinais objetivos de traição, inveja, perfídia,vaidade, escroqueria, deslealdade ou desonestidade, tanto intelectual quanto pessoal.

Não que fosse novidade – para mim, bem como para a generalidade das pessoas não totalmente crédulas ou ingénuas – a distância que tantas vezes vai entre a imagem pública que muitos notáveis procuram projetar de si e a realidade das escolhas e dos gestos que foram praticando em vida. Todos conhecemos pessoas, vivas ou mortas, com uma obra pública notável, amplamente reconhecida, e com uma vida triste ou mesmo lamentável.Podem mesmo incluir-se na longa lista grandes nomes dos combates pela liberdadee pela democracia que pouco ficaram a dever à honestidade pessoal e se comportaram muitas vezes como tiranos junto da família chegada, amantes, colegas, alunos, admiradores,correligionários, ou, pior ainda, pessoas dependentes. Cheios de amor pela distante humanidade, é certo, mas indiferentes aos mais próximos.

Na realidade, a adequação da vida pessoal aos grandes princípios proclamados de forma pública exige esforço de coerência e vontade, comportando ainda um elevado número de riscos. Fazê-los corresponder às relações quotidianas com os outros, transformar a ética individual que se exalta num código de conduta, não é tarefa fácil, requerendo um constante esforço. E muitos dos que o procuraram fazer pagaram caro por isso, dado ser frequentemente mais fácil exibir ou esconder diferentes rostos que expor de forma pública um único, reconhecível em todos os momentos e aplicável a todas as relações humanas. Albert Camus, um dos que sempre procurou fazê-lo, considerou a moral individual – não a coletiva, que julgava um fator de opressão – como «uma teoria da ação», como uma forma de compromisso, capaz de definir alguns deveres de conduta a todo aquele que pretender viver coerentemente e em paz com a sua consciência.

Um comentário final. Com esta crónica não pretendo contribuir para arruinar a reputação dos autores cuja vida pessoal e social foi revolvida no livro citado por Paul Johnson. Pessoalmente, continuo a admirar a obra imortal de quase todos eles, em particular as de Rousseau, Marx e Sartre, mas depois desta experiência de leitura admito que deixei de os encarar da mesma forma. Porque falíveis, talvez na minha consciência se tenham até tornado mais humanos. Em contrapartida, perderam o estatuto de semideuses. Um ou outro deixou de me interessar.

Fotografia: Outside, por Iwan Puken.
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 29/12/2018

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2018/12/29/a-distancia-entre-as-palavras-e-as-acoes/

A teoria de tudo, a história de um gênio

Tem havido muita conversa sobre a vida de Stephen Hawking, sua doença, seu grande senso de humor e sua importante contribuição para o campo da física. A teoria de tudo é um filme de 2014 dirigido por James Marsh que conta o lado mais cotidiano e humano do famoso físico inglês. É inspirado na biografia Verso l’infinito ( Viagem ao infinito: minha vida com Stephen ), escrita por Jane Hawking, primeira esposa de Hawking, sobre os anos que passaram juntos.

O filme A teoria de tudo encontrou grande consenso entre os críticos e recebeu várias indicações ao Oscar. O ator que desempenhou o papel de Stephen Hawking, Eddie Redmayne, ganhou o Oscar de Melhor Ator. Não foi fácil levar esse filme para a tela grande, precisou da aprovação de Jane e Stephen , já que é uma história pessoal e delicada. Foi uma aposta arriscada.

Stephen Hawking apreciou tanto o filme que se ofereceu para emprestar sua voz sintetizada às partes finais, elogiou a interpretação de Redmayne e não se empolgou. A teoria de tudo , em vez de se transformar em drama, nos excita, nos move e nos envolve completamente. Isso nos aproxima do outro lado da vida de um gênio , um lado mais amargo, de uma pessoa que comete erros como qualquer outra pessoa e que tem um excepcional senso de humor, apesar de ter perdido a capacidade de se mover.

Às vezes idealizamos pessoas ilustres e famosas em todo o mundo, pensamos que sua vida é muito diferente da nossa, não sofrem, são perfeitas, o dinheiro resolve seu problema … A teoria de tudo nos mostra a pessoa por trás do gênio, no bem e no mal, na espontaneidade de sua vida cotidiana. É também a história de uma mulher, Jane, uma grande lutadora, que nos lembra da importância do amor e do apoio a uma pessoa apesar das dificuldades.

Após a morte do físico, muito tem sido dito sobre sua vida e seu trabalho como cientista e não há dúvida de que ele foi um dos grandes gênios do século 21 e que ele será lembrado para sempre. A teoria de tudo é uma homenagem à vida, ao cotidiano, à esposa de Hawking, aos seus filhos e um grande presente para todos os espectadores.

Superação pessoal: A teoria de tudo

O filme começa com uma festa universitária durante a qual um jovem Stephen sabe o que mais tarde se tornará sua esposa, Jane. Os dois parecem muito diferentes: ele estuda ciências, ela escreve cartas, ele é ateu, ela é crente. Muito em breve, no entanto, eles se apaixonam. Stephen começa a notar os primeiros sintomas de uma doença estranha, que então será diagnosticada como doença do neurônio motor (ligada à ELA, ou seja, esclerose lateral amiotrófica).

Stephen tem apenas 21 anos quando recebe o diagnóstico, ele está prestes a discutir a tese de doutorado e um futuro brilhante espera por ele. Os médicos, no entanto, dizem que ele tem com menos de dois anos de vida. Por esta razão, Stephen decide se afastar de Jane e esconder a verdade, mesmo que não por muito tempo.

Quando Jane descobre sobre a doença, ela decide ficar com ele, mesmo que o tempo pareça estar contra eles. Hoje sabemos que Stephen Hawking não só superou esses dois anos de vida, mas se tornou um exemplo de superação pessoal e nenhuma cadeira de rodas parou sua curiosidade e seu desejo de conhecimento.

O filme transmite o sofrimento do jovem Hawking, seu medo e a rejeição inicial do terrível diagnóstico, sua luta interior, raiva e finalmente a aceitação … Passamos por todas essas fases graças à magnífica interpretação de Eddie Redmayne e Felicity Jones no papel de sua esposa Jane. Contra todas as probabilidades, Jane e Stephen criam uma família e têm três filhos. Stephen dedica sua vida à ciência e Jane, sem qualquer ajuda, cuida de todo o resto.

É incrível ver o sacrifício de Jane e sua devoção ao marido, especialmente quando ele recusa toda a ajuda e não percebe que ela se sente frustrada, porque ela tem que lidar com três filhos pequenos e um marido que dificilmente pode ajudá-la. Jane desiste de tudo por Stephen, por sua família, e se torna um grande apoio para o gênio da física.

O legal desse filme é que ele não homenageia apenas a figura de Hawking como físico, mas retrata seu lado mais humano e, acima de tudo, é um tributo a Jane, uma mulher que foi capaz de tudo por amor, um guerreira cuja batalha inspirou o filme que todos podemos ver hoje. A superação pessoal é um tema fundamental neste filme, não só no que diz respeito a Stephen, mas também com Jane.

Aulas de vida na teoria de tudo
A teoria de tudo é também um espelho que reflete a realidade de um mundo em que certas pessoas são recompensadas por seu trabalho e outras deixadas de lado pela mesma razão. Em várias ocasiões, falamos sobre os problemas econômicos que Jane e Stephen enfrentam, algo que nunca teríamos imaginado de um físico tão famoso.

Na verdade, o filme é um retorno às raízes, quando o gênio ainda não era uma celebridade e nos lembra que, ao contrário dos astros da música ou do esporte, muitos geniosnão são recompensados por seus esforços, eles não são reconhecidos antes. de uma certa idade e ter dedicado sua vida à pesquisa não é garantia de sucesso.

Somos convidados a refletir sobre o que realmente importa na vida, lembrar os valores a não perder, entender como é importante ter um propósito, não desistir apesar da adversidade, ter uma família e amigos para abraçar, o dom da vida … Por que nós não sabemos quando tudo isso terminará.

“A vida seria trágica se não fosse divertida.” – Stephen Hawking

Stephen e Jane acreditam que o tempo é contra eles, que a vida do físico pode chegar ao fim a qualquer momento e por isso eles escolhem queimar os estapas, formar uma família o mais rápido possível e aproveitar cada momento juntos, conscientes de que a estrada nem sempre será fácil. Os dois acabam se separando, mas não vemos sua separação como um acontecimento trágico; antes, é um gesto de amor pelo outro.

Jane sacrificou tudo por seu marido e Stephen foi o único a tomar outro rumo e mesmo que a ideia pareça improvável, egoísta e irracional, não é. Jane teve uma segunda chance, um renascimento, sem deixar de amar Stephen, mas começando um novo caminho.

A interpretação de Eddie Redmayne merece elogios porque ser Hawking e moldar seus gestos poderia ter sido artificial e forçado, mas isso não aconteceu. Redmayne é um Hawking em movimento, natural, sem artifícios e totalmente credível.

A teoria de tudo é uma bela maneira de lembrar Stephen Hawking, mas também para nos lembrarmos de que ninguém escapa à morte, que todos nós podemos redimir o lado humano que parece que perdemos, que nunca devemos perder o sorriso e o senso de humor. A vida também é feita de adversidade, de obstáculos, somos nós que escolhemos como vivê-la, como delinear o caminho a ser percorrido para que valha a pena.

Via la mente e meravigliosa

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/a-teoria-de-tudo-a-historia-de-um-genio/

Senhora do Pescoço Longo, Parmigianino

“Senhora do Pescoço Longo”, Parmigianino. Parmigiano foi um proeminente pintor italiano do maneirismo.

É um quadro fundador do maneirismo (Sec. XVI)

Do italiano “maniera” que equivalia no tempo a estilo. Posteriormente à morte de Rafael, passou a encarar-se como degenerescência do Renascimento. Premeditada transgressão das regras codificadas durante o Renascimento clássico.

Na PINTURA, a figura humana aparece distorcida, alongada e de atitudes afectadas ou de formas profundamente musculosas, por vezes inseridas em complexas alegorias.

Na ESCULTURA, a figura humana aparece em espiral (serpentinata), as formas esguias, o gosto complexo das referências mitológicas são referenciais a que pode juntar-se atitudes violentas ou em equilíbrio, quer na estatuária, quer no baixo-relevo.

Na ARQUITECTURA, registam-se requintadas soluções ambíguas, extrema complexidade dos ritmos decorativos, ambivalência espacial e gosto pelo efeito bizarro.

Informação adicional

Artista: Parmigianino
Local: Galeria dos Ofícios
Material: Óleo sobre tela
Criação: 1534–1535
Períodos: Maneirismo


Auto-retrato em espelho convexo.

Nota de edição

Parmigianino1503-1540

Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido por Parmigianino (que significa “pequeno parmesão”) ou ainda Parmigiano, foi um proeminente pintor italiano do maneirismo, tendo pintado também em Florença, Roma e Bolonha, para além da sua cidade natal, Parma.

A importância de sua obra supera amplamente as poucas obras que hoje existem. Entre estas contam-se A Conversão de São Paulo, de 1527, A Virgem da Rosa (1529), A Virgem com Longo Pescoço (c. de 1535 – imagem), o Auto-retrato diante do espelho côncavo, a Escrava Turca e a Antea.

A sua obra e personalidade afirmam-se em contacto com o primeiro maneirismo toscano, e através das obras dos grandes mestres Rafael e Michelangelo, conseguindo traduzir de forma original os modelos do Renascimento com uma orientação já plenamente maneiristas.

Para Parmigiano, a função da arte era transmitir sensações estranhas e excitantes, para o que teria de criar um necessário artificialismo.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/senhora-do-pescoco-longo-parmigianino/

Marx e a dimensão antropogenética da obra de arte*

Tanto nos “Manuscritos Económico-Filosóficos” como na “Introdução à Crítica da Economia Política” Marx aborda tanto aspectos da historicidade da Arte – que transcende o seu momento histórico - como o papel das Artes e da experiência artística enquanto factores de construção dos próprios sentidos humanos, eles também construção histórica.

É conhecida a dificuldade que Marx coloca no final da «Introdução à Crítica da Economia Política» (de 1857): essa dificuldade confunde-se com a da especificidade da história tal como o método da economia política a enfrenta.

Mas a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. A dificuldade reside no facto de nos proporcionarem ainda um prazer estético e terem ainda para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis.

A resposta de Marx a esta dificuldade pode ser considerada algo equívoca e levar consigo alguns juízos que revelam aspectos da ideologia de quem os emite, no caso, podemos ver, na atribuição desse estatuto, traços de uma posição estética tradicionalista própria da idade clássica. Mas só um fraco leitor ficaria por este equívoco. A resposta efectivamente dada à dificuldade é um dos momentos em que o pensamento de Marx aflora uma concepção da arte como construção antropológica aberta.

Um homem não pode voltar a ser criança sob pena de cair na puerilidade. Mas não é verdade que acha prazer na inocência da criança e, tendo alcançado um nível superior, não deve ele próprio imitar aquela verdade? Em todas as épocas não se julga ver repetido o seu próprio carácter na verdade natural do temperamento infantil? Porquê então a infância histórica da humanidade naquilo precisamente em que atingiu o seu mais belo florescimento, porquê esse estado de desenvolvimento para sempre perdido, não há-de exercer um eterno encanto?

Há crianças mal-educadas e crianças que se dão ares de pessoas crescidas. A maior parte dos povos da antiguidade pertenciam a esta categoria. Os gregos eram crianças normais. O encanto que a sua arte exerce sobre nós não está em contradição com o carácter primitivo da sociedade em que ela se desenvolveu. Pelo contrário, é uma consequência desse carácter primitivo e está indissoluvelmente ligado ao facto de as condições sociais e suficientemente maduras em que esta arte nasceu – nem poderia ter nascido em condições diferentes – nunca mais poderem repetir-se.

Esta resposta à perplexidade provocada pela perenidade dos efeitos estéticos face à dimensão histórica da arte não é satisfatória tal qual, mas coloca-nos numa situação em que se faz a experiência de um anacronismo: as obras de um passado relativamente distante são experienciadas num dado presente como sendo a infância histórica da humanidade que permanece à nossa disposição como uma infância perdida mas revisitável. Esta resposta apresenta-se-nos como uma resposta alegórica, ou seja, uma resposta que narrativiza uma metáfora. Essa metáfora apresenta-nos a relação entre os sujeitos modernos e o seu passado artístico como uma relação entre as diversas idades do homem e, logo, como uma metáfora antropológica que nos transporta para o terreno de uma antropologia cultural ou mesmo para uma visão da antropogénese.

Assim, essa narrativa de uma metáfora torna-se uma concepção que se abre à complexidade da história. Na história, as obras modificam e acumulam os sentidos que nelas são lidos pelas diferentes gerações humanas. O valor de normas e de modelos inacessíveis são uma construção constante e descontínua dessas gerações que, ao lerem historicamente, de acordo com o seu presente, sentem a diferença entre esses dois presentes; aquele em que leem, e aquele em que foram escritas essas obras e fazem essa diferença recuar para uma espécie de origem perdida, esse passado histórico.

Assim, a tragédia e a epopeia gregas, a Divina Comédia de Dante Alighieri e o teatro de Shakespeare, aparecem para sucessivos presentes futuros, como obras que formam a nossa infância histórica como humanos, o que significa também que são obras em que a formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até hoje.

Leia original aqui

(DL) Dulce Maria Cardoso e a necessidade de nos dessalazarisarmos

No Jornal de Letras desta quinzena o tema de capa foi a publicação de «Eliete», o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso, podendo nele ler-se uma entrevista por ela concedida a Luís Ricardo Duarte e uma encomiástica crítica de Miguel Real. Logo de início este escreve que,“do ponto de vista da ficção em Portugal, não conhecemos outro romance que tenha explorado e analisado tão perfeitamente a situação atual da família, isto é, com uma tão grande soma de pormenores do quotidiano, aparentemente irrelevantes, que, porém, acumulados e estruturalmente nem organizados, constituem o estilo realista da escritora.”
O enredo gira em torno da protagonista, cujo nome decorre de ter podido ser o outro escolhido pelos pais da autora para lhe darem identidade, e que vê a vida virada do avesso, quando a avó se vê acometida da doença de Alzheimer. Ora fora essa senhora muito religiosa, quem induzira na neta os seus padrões morais muito rígidos. Que ela se sente agora tentada a pôr em causa, insatisfeita na relação conjugal com Jorge, e com as filhas próximas da emancipação definitiva. De súbito as suas diferenças comportamentais em relação à melhor amiga de infância, Milena, deixam de fazer sentido, dispondo-se a olhar interessadamente para outros amores e expetativas de futuro.
Num romance em que as realidades tecnológicas, mormente as possibilidades abertas pelas novas redes sociais, multiplicam as oportunidades de se descobrir o que antes era insuspeitável, a própria Eliete vai surpreender-se quando Oliveira Salazar vai revelar-se-lhe numa faceta inesperada, que não só a do ditador, que, décadas a fio, impossibilitara o desejo natural à felicidade dos que oprimira.
Na referida entrevista a escritora faz incómodomea culpa:“como é um romance sobre a identidade , também a minha, com muito desgosto tive de reconhecer que sou herdeira de Salazar. Ou seja, carrego uma série de pensamentos salazaristas, porque, ao longo de quase cinquenta anos, ele deixou a resignação, o conformismo, a pouca capacidade cívica, o medo. Teve certamente um papel no nosso modo de vida e é estranho que não seja reconhecido.”
O romance tem, logo à partida, essa virtude: a de nos ajudar a identificar o que o salazarismo inculcou em nós, por muito que o execrássemos, e dele nos quiséssemos livrar. A necessidade de expulsarmos de nós a marca dessa ditadura continua a ser um trabalho de todos os dias.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/dl-dulce-maria-cardoso-e-necessidade-de.html

FREUD E EINSTEIN – PORQUÊ A GUERRA? – REFLEXÕES SOBRE O DESTINO DO MUNDO por Clara Castilho

Foi em 1932 que  a Sociedade das Nações incumbiu Albert Einstein de eleger um interlocutor com o qual se manifestasse por via epistolar sobre a questão de ser ou não possível antever a evolução do homem relativamente à superação da sua agressividade destrutiva.  Foi sugerido o nome de Sigmund Freud. Em Junho de 1932, o secretário do Instituto escreveu a Freud, convidando-o a participar, ao que ele prontamente acedeu. A carta de Einstein chegou-lhe no início de Agosto, e sua resposta estava concluída um mês depois. A correspondência foi publicada em Paris, pelo Instituto, em Março de 1933, em alemão, francês e inglês, simultaneamente. No entanto, sua circulação foi proibida na Alemanha.

Einstein e Freud apenas tiveram um encontro no início de 1927, na casa do filho mais novo de Freud, em Berlim. Em carta a Ferenczi, dando conta do ocorrido, Freud escreveu: ‘Ele entende tanto de psicologia quanto eu entendo de física, de modo que tivemos uma conversa muito agradável.’

Einstein tinha 47 anos, Freud 70, com cancro da boca e surdo de um ouvido. Eles discutiram seu trabalho em seus respectivos campos. Einstein não estava entusiasmado com a psicanálise.Freud, por sua vez, pensou que Einstein era um homem bom, mas totalmente ignorante sobre a psicanálise. Ele escreveu a um amigo: “Einstein entende tanto sobre a psicologia como eu sobre física, por isso, tivemos uma conversa muito agradável.”

Já anteriormente Freud escrevera sobre o tema da guerra cujos textos vêm incluídos no livro : “Considerações actuais sobre a Guerra e Morte”  e “Caducidade”, ambos de 1915). Tinham sido escritos logo após o início da primeira guerra mundial.

Einstein para Freud:….”como é possível que as massa se deixem inflamar pelos meios referidos, até ao holocausto de si próprias? Impõe-se uma única resposta: é porque o homem tem dentro de si o prazer de odiar e de destruir. Em situações normais a sua paixão está latente, e somente emerge em circunstâncias excecionais; mas é muito fácil atiçá-la e elevá-la à altura de uma psicose coletiva. Aqui reside, talvez, o núcleo do complexo de fatores que procuramos destrinçar, um enigma que somente pode ser resolvido por quem é perito no conhecimento dos instintos humanos.

Chegamos aqui à última pergunta. Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica dos homens de modo a tornarem-se capazes de resistir às psicoses do ódio e da destruição.”

Responde Freud: …”Durante quanto tempo deveremos esperar até que os outros se tornem também pacifistas? É difícil dizê-lo, mas talvez não seja uma esperança utópica a de que estes dois factores – a atitude cultural e a angústia justificada face às consequências da guerra futura – ponham fim aos conflitos bélicos num prazo previsível. É-nos impossível adivinhar por que caminhos ou desvios se conseguirá tal fim. Por agora, só podemos dizer: Tudo o que fomente a evolução cultural actua contra a guerra.

Saúdo-o cordialmente, e peço desculpa se a minha exposição o desiludiu”.

Passaram-se 86 anos e estaremos talvez pior. A esperança de Freud não se concretizou. Mas não há dúvida de que a evolução cultural actua contra a guerra.

 

Ver original em 'A Noite dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/15/freud-e-einstein-porque-a-guerra-reflexoes-sobre-o-destino-do-mundo-por-clara-castilho/

Bernardo Bertolucci morre em Roma aos 77 anos

Bernardo Bertolucci morreu em sua casa em Roma após uma longa doença, disse seu empresário. Ele estava doente há anos e confinado a uma cadeira de rodas desde o início dos anos 2000 devido a uma operação na coluna.

Estrelado por Marlon Brando, “O Último Tango em Paris” foi censurado em vários países, inclusive a Itália, onde só foi liberado para exibição no início de 1987.

O filme rendeu uma indicação ao Oscar a Bertolucci e poliu suas credenciais internacionais, mas o filme seguinte, “1900”, um épico histórico de cinco horas estrelado por Robert De Niro, Gerard Depardieu, Donald Sutherland e Burt Lancaster, marcou o início de um longo período de fracassos comerciais.

Em 1987 ele se recuperou com “O Último Imperador”, lindamente filmado com seu diretor de fotografia de longa data Vittorio Storaro, que levou os nove Oscar aos quais foi indicado e reafirmou a posição de Bertolucci como um cineasta com um olhar diferenciado.

Nascido em Parma, no centro da Itália, Bertolucci era filho do poeta e crítico de cinema Attilio Bertolucci.

Ele começou a escrever poesias na infância e publicou seu trabalho em revistas antes da adolescência, conquistando um prêmio nacional de poesia quando estudava em Roma.

Aos 15 anos ele conseguiu uma câmera emprestada para fazer seus primeiros filmes, curtas mudos de 16 milímetros, e em 1961 abandonou a faculdade para se tornar diretor assistente do jovem Pier Paolo Pasolini na filmagem de “Accattone – Desajuste Social”.

Os primeiro trabalhos de Bertolucci estavam longe do sensacional, mas são notáveis por seus retratos apaixonados dos males sociais, refletindo suas opiniões contundentes de esquerda.

“O Último Tango” causou polêmica por causa do sexo explícito —em particular uma cena de estupro anal— e foi repudiado pelos tribunais italianos por ser “obsceno, indecente e incitar os instintos mais baixos da libido”.

A cena de estupro, lembrada principalmente pelo uso de manteiga por Brando como lubrificante, também traumatizou a atriz principal do filme, Maria Schneider, à época uma desconhecida de apenas 19 anos.

“Me senti humilhada e, para ser honesta, me senti um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem pediu desculpas. Felizmente, houve apenas uma tomada”, disse ela ao jornal britânico Daily Mail antes de sua morte em 2011.

A controvérsia ressurgiu em 2016, quando foi divulgado um vídeo de Bertolucci contando em uma aula de mestrado em Paris: “Eu fui, de certo modo, horrível com Maria porque não contei a ela o que estava acontecendo”.

Respondendo a uma onda de indignação, o diretor disse que Schneider sabia tudo sobre a cena com antecedência, exceto o uso de manteiga, que era uma ideia que ele havia discutido com Marlon antes de filmar.

O período subsequente a “Último Tango” foi de fracassos para o diretor, que se voltou ao Oriente em busca do tema de “O Último Imperador”, que trata da vida de Pu Yi, o derradeiro regente imperial da China.

Bertolucci continuou fazendo filmes até 2012, mas nunca com tanto sucesso crítico e comercial. Ele foi homenageado com prêmios pelo conjunto de sua obra nos festivais de cinema de Cannes e Veneza.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Reuters) / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/bernardo-bertolucci-morre-em-roma-aos-77-anos/

APRESENTAÇÃO DOS CADERNOS SELVAGENS DE DEZEMBRO

                    CS DEZ2017 banner.jpg Os Cadernos Selvagens[1] é uma publicação da Fábrica de Alternativas com textos de análise, de crítica, reportagens, entrevistas, reflexões e poemas, escritos pelos nossos associados. Os temas são variados e sempre interessantes. 

Às 20 horas teremos, como sempre, um jantar vegetariano seguido de convívio. 

Reservas para o jantar para o email: 

Contamos contigo, contamos com todos

(*) ASSOCIAÇÃO FÁBRICA DE ALTERNATIVAS

      Morada: Rua Margarida Palla 19A – Algés

      Email: fabrica.de.alternativas@gmail.com

References

  1. ^ Cadernos Selvagens (www.fabricadealternativas.pt)

Leia original aqui

O hábito de ler é o que nos torna mais humanos, diz a ciência

A gente já sabia, mas os estudiosos confirmaram: ser um leitor de ficção te faz ter mais empatia pelo próximo.

por Giovana Feix, via M de Mulher

Você pode estar precisando de uma desculpinha para ler mais (ou para estimular alguém a fazer o mesmo) ou de um empurrãozinho para decidir qual será sua próxima leitura. Ou pode estar, simplesmente, querendo entender um pouco melhor como funciona essa coisa bem louca chamada “humanidade”.

Para qualquer um destes três casos, nós temos boas notícias: para a ciência, tem ficado cada vez mais claro o quanto aqueles que leem literatura de ficção desenvolvem o dom da empatia muito mais do que os outros.

E por “ficção” entende-se que vai além da científica – estamos falando de romances, mesmo, histórias inventadas, daquelas que nos transportam diretamente para a cabeça de um ser que, na verdade, não existe.

Em meados do século passado, surgiu a Teoria da Mente, descrita pela revista Science como “a capacidade humana de compreender que as outras pessoas têm crenças e desejos e que eles podem ser diferentes de suas próprias crenças e desejos”.

Um estudo publicado em 2013 na mesma revista descobriu, justamente, que os leitores de romances costumam se sair melhor, quando testados a respeito da Teoria da Mente. Ou seja: eles compreendem melhor o fato de que os seres humanos têm opiniões diferentes.

Em julho deste ano, outra pesquisa sobre empatia e a leitura examinou como essa relação é poderosa. Entre os participantes, alguns foram convidados a ler o conto Saffron Dreams, da autora paquistanesa Shaila Abdullah, enquanto outros só foram informados sobre como a história se desenrolava.

Depois, todos eles foram expostos a fotografias de olhares – de várias pessoas diferentes – e estimulados a supor o que cada um dos fotografados estava pensando e sentindo.

Os que leram o conto viam com empatia semelhante os rostos de pessoas árabes e de pessoas brancas, mais do que os outros que não leram. Resumindo: além de ler ficção, precisamos investir nas narrativas, mesmo.

Entre um livro de ficção e uma biografia, portanto, você já pode ter certeza do que escolher, para a próxima leitura. Aproveite!

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-habito-de-ler-e-o-que-nos-torna-mais-humanos-diz-a-ciencia/

Poesia no Feminino - Maria Teresa Horta

JOELHO
 
Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

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Ver original em 'Ventania' na seguinte ligação:

https://ventania.blogs.sapo.pt/poesia-no-feminino-maria-teresa-horta-1290787

PENSAMENTO E FILOSOFIA

Deixei passar o Dia Mundial da Filosofia e, ao ler agora o texto de Helena Damião, neste blogue, de 16 de Novembro, alusivo à efeméride, parece-me oportuno deixar aqui algumas reflexões em torno deste tema.
O pensamento, todos sabemos, é um produto imaterial do cérebro e o cérebro é matéria, é oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e umas pitadas de outros elementos químicos Não tem dimensão física. Não tem volume nem massa, nem peso, nem cor, não é quente nem frio e não ocupa espaço. Para ele não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras materiais. É ubiquista, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz. Não surgiu da noite para o dia, por obra e graça divina. É o culminar de uma evolução da matéria surgida com o começo do Universo, há cerca de 13 800 milhões de anos. O cérebro, cuja estrutura vai sendo a pouco e pouco desvendada, adquiriu, na espécie humana, complexidade que lhe permite pensar, criar conhecimento. Feito dos mesmos átomos do universo que conhecemos, o cérebro humano, aceite como fruto dessa evolução, além de coordenar toda a actividade vegetativa do corpo em que está inserido, é matéria que atingiu o superior patamar do pensamento, criando e combinando ideias a partir das percepções que os sentidos lhe fornecem do mundo físico que o rodeia. Através dele, o homem adquiriu capacidade de intervir no seu próprio curso e no da Natureza que o criou e lhe permite viver, seguindo por caminhos ditados pela sua imensa capacidade de decisão Na sua possibilidade de obter conhecimento, de deduzir, inferir e de o transmitir, o cérebro humano, surgido à superfície da Terra, é a expressão mais complexa de uma dinâmica própria da evolução da matéria, na qual foi consumida a totalidade do tempo do Universo, os ditos cerca de 13 800 milhões de anos Pelos testemunhos que deixaram, sabemos, sem sombra de dúvida, que os nossos antepassados pré-históricos exerceram actividade psíquica, ou seja, que pensaram. Se tivermos em atenção a evolução do ser humano, desde o mais antigo primata, até ao “Homo sapiens” actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, as perguntas que se ocorre fazer são:
- Em que patamar evolutivo da hominização surge o pensamento mais elaborado do que o dos animais vulgarmente tidos por irracionais? 
- Foi no do “Neanderthal”, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no do “Cro-Magnon”, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
Cingindo-nos ao “Homo sapiens”, a Pré-história ensina que, ao longo da sua evolução física e psíquica, este nosso antepassado observou, experimentou e estabeleceu relações de causa-efeito, transmitindo aos descendentes o saber que foi acumulando, servindo-se para tal da linguagem de que dispunha, de início o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. Fez tudo isto e muito mais antes dos sumérios terem iniciado a arte de escrever, há cerca de 5000 anos. E foi só, a partir do momento em que passou a viver em grupos progressivamente mais alargados, que se deparou com questões associadas aos valores morais, estéticos, políticos e religiosos. Foi nesta caminhada que surgiram os primitivos filósofos, designação genérica pela qual são habitualmente referidos matemáticos, geógrafos, historiadores, astrónomos e outros pensadores desse tempo Foi o confronto entre a realidade que se lhes deparou e as ideias que, a partir dessa realidade, foram formulando, que conduziu o pensamento no caminho de uma ciência embrionária que, nessa fase, se confunde com a filosofia, no sentido de interesse ou preocupação pelo saber. É nesta fase que a filosofia ganha o estatuto de “mãe de todas as ciências". Foi a admiração e, por vezes, a perplexidade decorrentes de tudo o que os sentidos traziam ao seu conhecimento, que desencadearam neles esta atitude mental que está na base do maravilhoso edifício do conhecimento científico e tecnológico que temos ao nosso alcance. Alistoriadores, classificados por alguns como “orientalistas”, defendem que a filosofia grega teria sido herança e posterior desenvolvimento de uma sabedoria vinda de povos orientais. Tem havido controvérsias sobre a origem desta forma de organização do pensamento, se na Grécia, se em civilizações orientais mais antigas, na Pérsia, na Índia, na China... Actualmente parece haver unanimidade em considerar a Grécia como o berço da filosofia, o que parece ser confirmado por estudos recentes, com ênfase nos arqueológicos. Terá sido, então, que foi entre os gregos que começou a audácia e a grande aventura do pensamento. Terá sido no decurso do século VII a. C., com o desenvolvimento e progresso nos trabalhos diários, que alguns gregos começaram a esboçar explicações racionais que foram conduzindo à progressiva rejeição das explicações míticas da realidade. É hoje consensual que a filosofia, como superior elaboração do pensamento, nasceu da recusa ao carácter sobrenatural dos mitos, que então dominavam as crenças, não só da sociedade grega, mas de toda a Ásia Menor. A passagem de uma mentalidade fundamentada em crenças de carácter religioso, a uma outra, assente no raciocínio, marca, pois, o início da filosofia. A filosofia surge, assim, como uma espécie de rompimento com a visão mítica do mundo grego. Enquanto que os mitos não dispunham de qualquer suporte racional, a filosofia inaugurava o discurso abstrato e universal, amparado na reflexão e argumentação, formulando concepções do mundo isentas de contradições e imperfeições no que respeita o raciocínio lógico. Ao contrário da religião, baseada na fé, que não contesta, respeita e, praticamente, não se afasta da tradição e dos textos sagrados, a filosofia serve-se exclusivamente da razão para aceitar ou rejeitar as teses que se lhe deparam.
A. Galopim de Carvalho

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/pensamento-e-filosofia.html

Quatro prémios internacionais para o cinema português

Os filmes Terra Franca, de Leonor Teles, e Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora, foram distinguidos em festivais no Brasil, na Argentina e em França.

O filme Terra Franca, primeira longa-metragem de Leonor Teles, foi premiado em mais dois festivais internacionais, na Argentina e em França, em cerimónias que aconteceram na sexta e no sábado.

Em comunicado, a produtora Uma Pedra no Sapato refere que o filme recebeu, no sábado, o Prémio de Melhor Primeira Obra da Competição Internacional na 33.ª edição do Festival Internacional de Cine de Mar del Plata (Argentina). Um dia antes, foi distinguido com o Prix de La Ville d'Amiens, no 38.º Festival International du Film d'Amiens, em França.

O filme já recebeu vários prémios, como o SCAM International Award no Festival Cinema du Réel, a Menção Especial no FIDADOC – Agadir International Documentary Festival e a Menção Especial no Les Rencontres Cinematographiques de Cerbère-Portbou.

Terra Franca, que retrata a vida de um pescador que vive numa comunidade piscatória à beira do Tejo, chega às salas de cinema portuguesas no dia 10 de Janeiro.

Leonor Teles conquistou o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, em 2016, pela curta-metragem Balada de Um Batráquio.

Dupla distinção também para João Salaviza

A longa-metragem Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora, foi premiada nos festivais de cinema de Mar del Plata, na Argentina, e Rio de Janeiro, no Brasil.

Segundo um comunicado da produtora Karõ Filmes, o filme foi distinguido, na noite de sábado, com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, depois de, dias antes, ter sido duplamente premiado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (Melhor Realização e Melhor Fotografia).

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, que teve estreia na última edição do Festival de Cannes, já foi exibido em mais de trinta festivais internacionais e recebeu nove prémios.


Venceu, em Agosto, o prémio de melhor obra de ficção do Festival de Cinema de Lima, no Peru, e, em Maio, o prémio especial do júri da secção «Un Certain Regard» no Festival de Cannes, além de uma distinção por melhor fotografia.

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos foi rodado durante nove meses, em 16mm, sem equipa, na aldeia Pedra Branca, no estado de Tocantins, no Brasil. O filme – que vai poder ser visto nos cinemas em França e no Brasil - só chegará às salas portuguesas em Março.

O realizador português João Salaviza recebeu distinções por anteriores curtas: Arena (2009) foi distinguida com a Palma de Ouro, em Cannes, e Rafa (2012) com o Urso de Ouro, em Berlim.

Com Agência Lusa

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Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Camané e Mário Laginha juntos em novo projecto ao vivo

 

O fadista Camané e o pianista e compositor Mário Laginha juntaram-se num novo projecto, «Aqui está-se sossegado», que será apresentado ao vivo no próximo ano.

«Aqui está-se sossegado» será apresentado em várias localidades, sendo certo que, a 26 de Janeiro, passa pela Casa da Música, no Porto, e, a 9 de Fevereiro, por Águeda, disse à Lusa o agente de Camané.

O fadista e o pianista «já deram vários concertos juntos», e do «excelente entendimento sentido nessas colaborações esporádicas» resulta «o inevitável aprofundamento desta simbiose».

Este novo projeto é «de raiz para dar mais brilho a uma voz e a um piano que se descobriram cúmplices desde a primeira vez que encheram um palco».

O alinhamento dos concertos incluirá «cerca de duas dezenas de temas, saídos do cânone fadista tradicional, do repertório de Camané, e incluirá também inéditos compostos por Mário Laginha que, recorde-se, musicou já um poema de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) para Camané, "Ai Margarida"».

O álbum mais recente de Camané, Camané canta Marceneiro, foi editado em Outubro do ano passado. No disco, que conta com a participação de Carlos do Carmo, o fadista recriou temas do repertório de Alfredo Marceneiro (1891-1982), como «Ironia» ou «A Casa da Mariquinhas».

Em Julho venceu, com aquele que é o seu oitavo álbum de estúdio, o Prémio Manuel Simões para Melhor Disco de Fado, no ano da criação do galardão. Já foi distinguido com três prémios Amália e venceu por duas vezes a Grande Noite do Fado de Lisboa, em juniores e seniores.

Camané fez parte do projecto Humanos, de homenagem a António Variações, com Manuela Azevedo, David Fonseca, Helder Gonçalves e Nuno Rafael, lançado em 2004.

Mário Laginha tem uma carreira de mais de duas décadas no jazz, em nome próprio e em partilha com outros artistas, como Maria João, Carlos Bica e Miguel Amaral.

Em finais de Setembro do ano passado, o pianista editou o álbum Setembro, com o saxofonista inglês Julian Arguelles e o baterista norueguês Helge Andreas Norbakken.

Tópico

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Vêm aí os Dias do Desassossego

Duas semanas a festejar Saramago e Pessoa. Quinze dias dedicados aos livros e à leitura. Assim vai ser até dia 30 de Novembro, na Casa Fernando Pessoa e na Fundação José Saramago, que voltam a programar em conjunto os Dias do Desassossego com leituras encenadas, música, entrevistas, passeios literários e arte urbana.

Os encontros agendados acontecem entre o dia de nascimento de José Saramago e o dia da morte de Fernando Pessoa. Mas a edição deste ano é alargada a outros locais da cidade de Lisboa, como o Teatro São Carlos ou o Teatro São Luiz, e, pela primeira vez, também ao teatro do Campo Alegre, no Porto.

Os Dias do Desassossego, que celebram ainda os 20 anos da atribuição do Nobel ao escritor português e os 130 anos do nascimento de Pessoa, arrancam esta sexta-feira com a apresentação do Livro de Anabela Mota Ribeiro. “Por Saramago”, com fotografias de Estelle Valente, é apresentado pela escritora Ana Margarida de Carvalho e comentado por Pilar del Rio, na sede da Fundação José Saramago, em Lisboa, às 21 horas.

Segundo a autora, o livro, nas livrarias desde o início do mês, inclui entrevistas a José Saramago e a Pilar del Río – entrevistas que dizem respeito aos três últimos livros: “As Pequenas Memórias”, “A Viagem do Elefante” e “Caim” – bem como textos sobre a casa de Lanzarote e uma viagem ao México com Saramago.

Ilustrado com cerca de 65 fotografias originais, que percorrem alguns dos caminhos do escritor, tanto em Lanzarote como em Lisboa, a obra inclui ainda um posfácio de Fernando Gómez Aguilera, director da Fundação César Manrique e curador da Fundação José Saramago.

Decidi fazer este livro porque há a admiração imensa e um acreditar modesto mas firme de que o conjunto dos textos possibilita uma compreensão do escritor em casa. Casa-infância, casa-escrita, casa-Pilar, casa-Lanzarote, casa-mundo. O admirável trabalho fotográfico da Estelle Valente e o profundo trabalho exegético de Fernando Gómez Aguilera sobre a obra de Saramago e destes textos engrandecem imensamente o alcance deste livro. Por Saramago é uma forma de prestar tributo e agradecer o legado de Saramago».

escreve Anabela Mota Ribeiro

Os Dias do Desassossego terminam com um espectáculo criado especialmente para a ocasião: Miguel Loureiro reúne em palco Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, onde os cinco percorrem a heteronímia e os escritos esotéricos. Este trabalho intimista, que repete a 1 de Dezembro, pelas 18:30, na Casa Fernando Pessoa, desenha um percurso antológico que marca os 130 anos do nascimento do autor.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/vem-ai-os-dias-do-desassossego/

O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua’ – Ken Loach

O filme Eu, Daniel Blake, é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.

Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o El País em seu escritório no Soho londrino.

Como chegamos à situação que seu filme descreve?
É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.

Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.

A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.

As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.

Todo o cinema é político?
O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.

Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.

Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.

O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.

Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.

Como gostaria de ser lembrado?
Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.

Fonte:  El País – Brasil  Via revistaprosaversoearte

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-estado-cria-a-ilusao-de-que-se-voce-e-pobre-a-culpa-e-sua-ken-loach/

SOBRE A PARAPSICOLOGIA APOIADA PELA FUNDAÇÃO BIAL

A jornalista do Observador Vera Novais pediu-me uma opinião sobre os dois últimos livros de Luís Portela, médico e empresário ligado à Fundação Bial que apoia projectos de parapsicologia, alguns deles bastante estranhos como telepatia em animais. Está aquio seu artigo e em baixo, o meu depoimento, do qual foi destacado o excerto mais significativo para o assunto:
 
Ser Espiritual
Os dois livros mais recentes do Dr. Luís Portela, "Ser espiritual" e "Da ciência ao amor", não são de ciência nem de divulgação de ciência. Serão de especulação, de auto-ajuda, não sei. Tive dificuldade em lê-los, por nem sequer entender alguns dos termos utilizados. Não percebo muito do que dizem. O autor fala, por exemplo, de "energia universal" mas a "energia" de que fala não tem nada a ver com a energia da física, uma grandeza física bem definida . Não se percebe o que é essa "energia", pelo que a afirmação de que "somos partículas de energia universal" apesar de usar as palavras "partículas", "energia" e "universal," todas elas palavras da ciência, nada tem de científico. Nem há, em princípio, problema nenhum nisso, uma vez que o ser humano tem dimensões para além das da ciência. A questão surge apenas se algum leitor pensar que as afirmações desse tipo do livro têm alguma base científica: não têm. O título "Da ciência ao amor" engana, pois a ciência não tem maneira de descrever nem explicar o amor assim como não tem maneira de descrever a espiritualidade. Ciência, amor e espiritualidade podem coexistir sem que a primeira tenha de dominar as outras: isso seria cientismo. Disse isto mesmo disse no debate sobre os livros em que estive presente em Lisboa.
Fenómenos ditos parapsicológicos como, por exemplo, a telepatia ou comunicação com mortos referidos nos livros não tem a mínima base científica. Muitos trabalhos citados não têm suficiente credibilidade. Sei que a Fundação Bial tem apoiado um tipo de investigações muito estranho, que por vezes se aproxima da pseudociência, mas, como é evidente, é da sua responsabilidade gerir os dinheiros de que dispõe. Organiza colóquios no Porto, alguns dos quais já assisti, nos quais houve algumas apresentações interessantes: vi uma sobre o efeito placebo.
Não partilhando o seu interesse pela parapsicologia, tenho estima pessoal pelo Dr. Luís Portela, um gestor que mostrou as suas capacidades ao dirigir a Bial, uma empresa farmacêutica que fabrica medicamentos com base na ciência. É, além do mais, um verdadeiro "gentleman", que me tem dispensado atenções. Ele soube separar as águas, permitindo inteligentemente que a Fundação Bial se aproximasse de assuntos não científicos que são a sua paixão, mas mantendo a empresa Bial no campo estrito da ciência. O Dr. Luís Portela acredita genuinamente que a aplicação do método científico irá um dia explicar fenómenos parapsicológicos nos quais ele acredita. Eu concordo que tudo pode ser investigado, mas estou em crer que o método da ciência é limitado e não consegue abarcar todas as dimensões humanas. E na dita parapsicologia há muita fraude, para já não falar na psicologia, disciplina académica e profissional onde também há. A psicologia é uma ciência, mas há muita confusão à volta. Devemos, como disse o cientista e divulgador de ciência Carl Sagan, examinar tudo com o cérebro aberto, mas não suficientemente aberto para que nos caiam os miolos... Esse exercício permanente do espírito crítico não é fácil, mas é a única maneira de evitarmos os erros que são próprios da condição humana.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/sobre-parapsicologia-apoiada-pela.html

Veblen em português

Thorstein Veblen (1857-1929) é justamente considerado o fundador da pensamento institucionalista na Economia. A Teoria da Classe do Lazer – Um Estudo Económico das Instituições (1899) foi o seu primeiro livro (...) Contra a imagem difundida segundo a qual Veblen foi sobretudo um crítico social mordaz das classes abastadas, um sociólogo satírico dos costumes americanos da viragem do século, importa afirmar que este seu livro corresponde, antes de mais, a um enorme esforço intelectual centrado na explicação da origem e evolução das instituições do capitalismo.  Excertos da (in)formativa introdução – “Veblen e a Economia Política Institucionalista” (pp. 9-47) – que Jorge Bateira escreveu para a edição portuguesa acabada de sair. Se fosse tradutor, teria preferido classe ociosa como tradução para leisure class. Seja como for, trata-se de um importante acontecimento editorial no campo da economia política crítica. É que já se sabe: não há nada mais prático do que uma boa teoria.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Ministra não responde às exigências de «1% para a Cultura» e combate à precariedade

O orçamento para a Cultura continua longe do 1%, mas a ministra vai contando partes das verbas de outros ministérios para dizer que, afinal, há muito dinheiro para o sector.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, fala durante a sua audição sobre o Orçamento do Estado para 2019, na Assembleia da República, em Lisboa. 6 de Novembro de 2018CréditosMiguel A. Lopes / Agência LUSA

A ministra Graça Fonseca disse hoje, na audição sobre o Orçamento do Estado para 2019 no Parlamento, que as verbas que o Governo destina à Cultura são mais do que parecem. Mas a ilusão não passa disso quando se olha para a situação concreta.

A tese já vinha sendo ensaiada pelo Governo, pelo menos, desde o ano passado: há muito dinheiro para a Cultura disperso pelos orçamentos de outros ministérios, como da Educação, do Ensino Superior ou da Economia. Foi isso que a nova ministra repetiu hoje, dando como exemplo uma linha de 10 milhões de euros para o Cinema que está a cargo do Turismo de Portugal, cuja tutela é o Ministério da Economia.

No entanto, o Executivo só recorre a esta contabilidade criativa no que diz respeito à Cultura, particularmente após os protestos que marcaram a divulgação dos resultados do Apoio às Artes deste ano e que obrigaram a um reforço orçamental. Na área da Saúde, ninguém conta com as verbas transferidas do Estado para o sub-sistema dos trabalhadores do sector público, a ADSE.

A criatividade volta a revelar-se na forma como a ministra apresentou, por exemplo, a dotação para a Direcção-Geral das Artes. Graça Fonseca afirmou que as verbas ultrapassaram o valor de 2009, cruzando o limiar dos 23 milhões de euros. Mas se é factual que o número é mais do que os 22 milhões de euros orçamentados nesse ano (a que se seguiram violentos cortes nos anos seguintes), também é verdade que se o valor tivesse sido sempre actualizado de acordo com a inflação, estaria agora em cerca de 25 milhões de euros.

Combater a precariedade fora das prioridades

Graça Fonseca foi evasiva quando questionada pela deputada Diana Ferreira (PCP) sobre a situação dos trabalhadores com vínculos precários da RTP e da Agência Lusa, que ou viram os seus pedidos de regularização negados ou que, apesar dos pareceres positivos, continuam em situação de precariedade.

Repetindo os números já conhecidos de pareceres positivos nas duas empresas públicas que tutela no âmbito do Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP), não explicou porque esses trabalhadores ainda não foram integrados. Sobre o número de trabalhadores em situação precária que têm visto o seu pedido recusado, disse não querer pronunciar-se, já que o processo ainda está a decorrer.

No entanto, ainda no último debate quinzenal o primeiro-ministro revelou estranheza pela discrepância que existe entre os requerimentos que deram entrada ao abrigo do PREVPAP e aqueles que já tiveram pareceres positivos.

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Tributo a Manuel Freire

A CGTP-IN apoia a realização do Concerto / Tributo a Manuel Freire, no próximo dia 18 de Novembro, pelas 17h00, no Forúm Lisboa. Neste evento organizado pela Associação José Afonso participam diversos músicos da nossa Praça: o trio João Paulo Esteves da Silva; Diogo Alexis e Samuel Dias, bem como os convidados TOCÁ Rufar; Uma Vontade de Música; Segue-me à Capela; B Fachada e Benjamim. 

manuel freire tributoDept. Cultura e Tempos Livres
CGTP-IN

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Faleceu Maria Guinot

A CGTP-IN lamenta o falecimento de Maria Guinot.

MariaGuinot Coliseu 1986 CGTPINEnquanto artista e cidadã, interveio de forma empenhada na vida cívica e política. Em Homenagem às Mães da Praça de Maio, canção integrada no álbum 100 Anos do 1.º de Maio, editado pela CGTP-IN em 1986, evoca o sofrimento, a coragem e a determinação das mães argentinas perante o desaparecimento dos seus filhos às mãos da ditadura militar que subjugou o país entre 1976 e 1983.

A igualdade entre mulheres e homens, a defesa da despenalização do aborto e das políticas culturais públicas foram outras das causas que a mobilizaram e a que deu voz.

Notabilizou-se como cantora, mas também como compositora e pianista, tendo vencido a edição de 1984 do Festival da Canção.

À família e amigos, transmitimos as mais sentidas condolências.

Dept. Cultura e Tempos Livres
CGTP-IN

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MARIA JOSÉ MOURA

 
 
Maria José Mouramorreu. Muitos são os que neste momento triste enaltecem o seu percurso profissional, nomeadamente o Presidente da República. De facto, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota divulgada na página da Presidência na Internet, lamentou  a morte de Maria José Mourae «elogiou o papel da investigadora e bibliotecária na definição da política da leitura pública em Portugal».Por sua vez, a DGLAB sublinha que Maria José Moura, responsável pela criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas em 1986, era considerada, por muitos, a "mãe" da Rede de Bibliotecas Municipais. As diversas homenagens que lhe foram feitas, em Portugal e no estrangeiro, reconheceram a mulher que serviu a causa das bibliotecas durante toda a vida. A DGLAB, organismo que sucedeu ao IPLB e DGLB, lamenta profundamente esta perda.  Leia mais.
Destaquemos palavras de Maria José Moura que se podem ler, por exemplo, aqui: «(...)Em entrevista à Lusa, em 2016, 30 anos depois da criação das bases de uma rede nacional de bibliotecas públicas municipais, a bibliotecária recordou esse processo, a pedido da então secretária de Estado da Cultura, Teresa Gouveia, que contou consigo, como representante da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, assim como com Teresa Calçada, atual responsável do Plano Nacional de Leitura, Pedro Vieira de Almeida e Joaquim Macedo Portilheiro, do antigo Instituto Português do Livro. A rede conta hoje com mais de 200 equipamentos, em todo o país.
"O facto de não haver bibliotecas públicas em Portugal, dez anos depois do 25 de Abril, era um escândalo", disse então Maria José Moura à Lusa. "Todos os países civilizados, melhor ou pior, têm bibliotecas (...). A rede de bibliotecas itinerantes - foi uma sorte que este país teve - era o que havia. Fora isso, só havia meia dúzia de bibliotecas das câmaras, com as estantes fechadas. Tudo poeirento, triste, sem luz. Era uma coisa sem vida", recordou. (...) salientou o lado formativo das bibliotecas, espaços que podem ser sucedâneos das escolas: "As pessoas têm possibilidade de encontrar resposta para uma quantidade enorme de coisas que antes não precisavam". Para Maria José Moura, a biblioteca ideal é aquela em que "as pessoas conseguem encontrar respostas para as suas necessidades, sejam elas de ordem pessoal" ou profissional. "As bibliotecas têm de se adaptar àquilo que lhe é pedido e não ver nisso uma desconsideração. Não se sentir diminuída. Pelo contrário", afirmou (...)». 
Recorde-se também distinções: foi condecorada pelo Estado português com a Ordem do Mérito e, em 1998, recebeu o Prémio Internacional do Livro, em Amesterdão, por proposta da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecária. 
Uma vida cheia, a de Maria José Moura, que nos deixa ensinamentos com futuro. Obrigada. 

Ver original em 'Em cada Rosto Igualdade' na seguinte ligação:

http://emcadarostoigualdade.blogspot.com/2018/11/maria-jose-moura.html

Pequeno aumento em impostos sobre fortunas permite triplicar apoio às artes

O reforço dos impostos sobre os mega-lucros e sobre os grandes proprietários em 2019 permitiria triplicar o valor para o apoio às artes previsto no Orçamento do Estado.

Milhares de trabalhadores das Artes e da Cultura manifestaram-se no país por uma nova política para a cultura. Em Lisboa foram mais de um milhar que se concentraram no Rossio, em frente ao Teatro Nacional D. Maria II (6 de Abril de 2018).CréditosJoão Barreiros / CENA-STE

Os novos escalões na derrama estadual, para empresas com lucros entre os 20 e os 35 milhões de euros, e no Adicional ao IMI, para proprietários com mais de um milhão e meio em imóveis, deveria render, pelo menos, 34 milhões de euros em 2019. É para esse valor que apontam os números que acompanham as propostas de alteração apresentadas na passada sexta-feira pelo PCP ao Orçamento do Estado para 2019 (OE2019).

Os comunistas afirmam que se trata de aumentar a tributação a apenas 400 grandes proprietários, com mais de mil milhões de euros em património imobiliário, e a cerca de 120 empresas com lucros tributáveis acima dos 20 milhões de euros.


O BE também já apresentou propostas idênticas, diferindo apenas no caso do Adicional ao IMI. Em vez de uma taxa de 1,5% para o património acima de 1,5 milhões de euros, pretendem a aplicação de uma taxa de 2% para o património acima de 2 milhões. Apesar de a taxa ser superior, a receita associada deve ser muito parecida, já que o universo sobre o qual incide será também mais pequeno.

O valor corresponde a mais do triplo da dotação orçamental para a Direcção-Geral das Artes, correspondente ao valor afecto ao apoio público às artes – pouco mais de 19,5 milhões de euros, um valor que fica ainda abaixo, em termos reais, do registado antes dos cortes impostos pelos dois governos anteriores (PS e PSD/CDS-PP) – que deveria estar actualmente em 25 milhões de euros.

Recorde-se que no OE2018 foram criados um novo escalão na derrama estadual, para lucros acima de 35 milhões de euros, e o Adicional ao IMI, para quem detém património imobiliário de elevado valor.

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Maria Guinot «não cantava só por cantar»

Cantora, compositora e pianista, cantou as lutas das mulheres e morreu este sábado, aos 73 anos.

Maria Adelaide Fernandes Guinot Moreno nasceu em Lisboa a 20 de Junho de 1945. Começou a estudar piano com apenas quatro anos e aos 20 entra no coro da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1981, ficou em terceiro lugar no Festival RTP da Canção, com o tema UmAdeus, Um Recomeço.Poucos anos depois, em 1984, «foi protagonista de um Festival em que ganhou duas vezes: Com a canção Silêncio e tanta gentee com o seu gesto solidário para com os músicos em greve, acompanhando-se só ao piano». O reconhecimento de Júlio Isidro foi publicado esta tarde na sua página no Facebook.

Em jeito de homenagem, o profissional adianta que Maria Guinot «não cantava só por cantar e não vivia só por viver», tal como «não desperdiçava as palavras em ideias vazias ou versos de rima inútil».

Mas são palavras que faltam agora para descrever a mulher de causas, que escapou das malhas da fama. «Que dizer de alguém que escreve e canta uma Homenagem às mães da Praça de Maio, as mulheres que saíram à rua para exigirem saber dos filhos desaparecidos nos anos de terror da Argentina», indaga Júlio Isidro.

«Como aplaudir a canção Esta palavra mulher quando assumiu a crítica a bancos que excluíam mulheres, a também sua luta pela dignificação da cultura?», acrescenta.

Também o Movimento Democrático de Mulheres (MDM) lamenta a perda desta «Mulher de Abril», que cantou e partilhou as lutas pela liberdade, pela paz e pelo direito de ser mulher.

Numa nota publicada este domingo, o MDM recorda a «mulher erudita e de grande sensibilidade», que escreveu poemas e cantou, só ou acompanhada, ao piano, «as muitas facetas das vidas das mulheres e das meninas de Portugal e até do seu bairro».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

A juventude de alguns centenários e outras propostas

Efemérides actuais (1917, Papiniano Carlos, Óscar Lopes, M. A. Pina), literatura premiada e não só, cinema raiva, conferências e debates, música com crianças para todos: são as sugestões de Novembro.

Fotograma do filme «Raiva», de Serge Tréfaut (2018), inspirado no romance «Seara de Vento», de Manuel da Fonseca (1958)CréditosFonte: Refnaria Filmes

No próximo dia 7 de Novembro, comemorar-se-ão os 101 anos da Revolução Socialista na Rússia, marco da história moderna, início dos «dez dias que abalaram o mundo», para utilizar a conhecida expressão-título do norte-americano John Reed. Por isso, várias realizações celebram a data: pelas 13 h de sábado, 10 de Novembro, no Centro de Trabalho do PCP Alberto Araújo, em Almada, haverá um almoço comemorativo da Revolução; e, em Faro, está previsto um jantar, pelas 19 h, no Centro de Trabalho local.

Pois bem, mais ou menos um ano depois da Revolução de 1917, mais precisamente a 9 de Novembro de 1918, nascia, na então Lourenço Marques, actual Maputo, o poeta, contista, romancista, autor de crónicas e de livros para crianças, Papiniano Carlos (que nunca esqueceu a sua terra natal, que a ela voltou e sobre ela escreveu também). Por esse motivo, têm sido publicados artigos sobre o escritor e diversos serão, proximamente, os momentos de homenagem à pessoa do intelectual comunista e à obra que deixou.

Com a colaboração do PCP e das Edições Avante!, a exposição «Papiniano Carlos – Escritor Insubmisso» (painéis, documentos, bibliografia) estará patente, de 5 a 24 Novembro, na Biblioteca Municipal da Maia (concelho onde o poeta viveu grande parte da sua vida), prevendo-se uma sessão evocativa, na segunda-feira, 5 de Novembro, pelas 19h.

Também a UPP (Universidade Popular do Porto – Rua da Boavista, 736, estação de metro Carolina Michaëlis) tem programada para 24 de Novembro (hora a confirmar) uma sessão-debate sobre a vida e a obra do autor de “Canção”, esse poema de ecos lorquianos, evocativo do assassinato de Catarina Eufémia, que Fernando Lopes-Graça (https://www.youtube.com/watch?v=pDfwdMzyrY4) haveria de musicar:

Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoila cresce na campina!

Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam corvos o horizonte!

Na fome negra das searas rubras
ai da papoila, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.

Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.

Espírito humanista, bom e generoso – admirador do médico, investigador e artista antifascista Abel Salazar, cujo perfil evocaria numa bela crónica – Papiniano Carlos militou no PCP desde 1949, foi preso várias vezes pela PIDE e destacou-se na resistência ao fascismo e na luta pela liberdade e pela democracia, pelo socialismo e pela paz – causa que o levou a participar, como delegado do Movimento pela Paz, em conferências internacionais realizadas em Sófia, Estocolmo, Budapeste, Bruxelas e Moscovo. Foi, além disso, dinamizador de iniciativas culturais diversas, centradas no Porto, tendo colaborado na imprensa e com o movimento associativo, sobretudo numa época em que os seus caminhos se cruzaram com figuras de relevo da resistência democrática e antifascista, como Virgínia Moura, Lobão Vital, Ruy Luís Gomes, José Morgado, Óscar Lopes, Armando Castro e outros.

Da sua acção destaca-se, no entanto, a co-direcção dos «fascículos de poesia» Notícias do Bloqueio juntamente com Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, Daniel Filipe, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Publicados entre 1957 e 1962, Notícias do Bloqueio é hoje considerado, pela crítica, expressão de uma segunda geração neo-realista, assombrada pela ameaça nuclear e pelas tensões da chamada Guerra Fria, mas também activamente empenhada na oposição à ditadura fascista e na luta pela democracia e pelas liberdades.

É neste contexto que deve ser lida a poesia de resistência de Papiniano. Se puder, adquira em alfarrabistas ou na OLX a bela edição de A Ave sobre a Cidade (Paisagem, 1973), uma súmula antológica; ou então Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (Inova, 1973), antologia em que o editor José da Cruz Santos – com paratexto de apresentação, na badana, provavelmente de Óscar Lopes – reuniu poemas dos três principais poetas de Notícias do Bloqueio: Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos.

É possível também que ainda encontre, em alguma livraria com fundos editoriais (contam-se pelos dedos) ou em alfarrabistas, o belo livro de contos de cenários durienses e portuenses Terra com Sede, inicialmente editado em 1946 com capa de Júlio Pomar e reeditado pela Campo das Letras; o romance O Rio na Treva (1975), saído com chancela da Inova; ou ainda uma espécie de pequena reportagem sobre a prisão da PIDE, na Rua do Heroísmo, no Porto, nos anos 30, A Memória com Passaporte (Campo das Letras, 1998), um elemento mais para a memória da repressão fascista. Caso queira ler um livro de poemas e contos, As Florestas e os Ventos (1952), que Papiniano editou a expensas suas e foi imediatamente apreendido pela PIDE e proibido, encomende à Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto a edição fac-similada que o investigador Bruno Monteiro fez publicar, com um texto seu de apresentação, graças à AJHLP.

A lírica de Papiniano vai para lá das temáticas ligadas à resistência, à paz, aos combates pela justiça social. A dimensão erótica, a mulher e a infância, o quotidiano e o trabalhador, a homenagem a companheiros de luta e a artistas, a abertura ao mundo (Brasil, Cuba, África, EUA, Coreia…) são outros veios a seguir nesta poética, que ganha, por vezes, um tónus épico e cuja energia retórica se apoia nas figuras da repetição fónica e sintáctica, mas também em imagens e elementos simbólicos distintivos (ave, galo, seara, vento, sangue…).

Mais do que a obra lírica e narrativa «para adultos», ser-lhe-á mais fácil certamente descobrir edições dos livros infantis de Papiniano Carlos que – juntamente com Redol, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Sidónio Muralha, Lília da Fonseca, Matilde Rosa Araújo, Maria Rosa Colaço e, noutro plano, Alice Gomes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Cecília Correia – contribuiu para a renovação temática, ideológica e formal/expressiva da nossa escrita para a infância. Este movimento ocorreu sobretudo a partir das décadas de 50-60 do século XX, em parte por influência ainda de um neo-realismo que, nessa época, cada vez mais se abria e esteticamente se polifacetava.

O livro de maior sucesso escrito por Papiniano é, sem dúvida, A Menina Gotinha de Água (1963), numerosas vezes republicado e com boas edições actualmente disponíveis na Porto Editora e na Assírio & Alvim. Com este poema narrativo, em que personifica uma gotinha e recria poeticamente o ciclo da água, Papiniano iniciava um ciclo de obras revelador da sua atracção pelos temas naturais e científicos [como acontecia em A Vida Mágica da Sementinha (1956) de Alves Redol] e pela exaltação do engenho humano e da sua pulsão de progresso. Exemplos encontramo-los em Luisinho e as Andorinhas e O Cavalo das Sete Cores e O Navio, ambos de 1977 (reedições posteriores nas extintas Campo das Letras e Arca das Letras (https://aviagemdosargonautas.net/2016/12/04/sinais-de-fogo-quatro-cravos...); O Grande Lagarto da Pedra Azul (Caminho, 1986), que é uma incursão, de temática ambientalista, pelo fantástico e pela ficção científica; A Viagem de Alexandra (1989, reedição pela Arca das Letras); Era Uma Vez… (Campo das Letras, 2001); e Uma Estrela Viaja na Cidade: poema dramático (1958, reedição da Trinta por Uma Linha em 2010). Este último constitui um pequeno libelo poético-dramático antibelicista que bem poderia ser utilizado nas nossas escolas, caso nelas houvesse uma estruturada, sistemática e intencional educação interdisciplinar para a paz.

Deixo-lhe, pois, um convite: redescobrir a obra e o perfil cívico de Papiniano Carlos, por ocasião dos cem anos do seu nascimento.

Setúbal, Lisboa, Seixal: solidariedade com a Palestina passa pela cultura

Esteja atento ao sítio na Internet do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), para saber pormenores, porque vale a pena uma deslocação a Setúbal, a Lisboa, ao Seixal. Cito a informação disponível: «O MPPM, em colaboração com a Associação José Afonso, a Câmara Municipal do Seixal e o CPPC, e com o apoio da Casa da Cultura de Setúbal, do Grupo Sportivo Adicense e da Casa do Alentejo, promove as Jornadas Solidariedade com a Palestina 2018.»

Em Setúbal haverá uma Tarde Cultural no domingo, 11 de Novembro, pelas 17h, na Casa da Cultura (Rua Detrás da Guarda, 26 a 34, Setúbal). Programa: exibição do documentário Como foi colonizada a Palestina; e A situação na Palestina, apresentada e debatida por Ana Brito (AJA) e Carlos Almeida (MPPM); poesia palestina dita pela poeta santomense Olinda Beja, acompanhada em viola por Luís d’Almeida. A entrada é livre.

Um Jantar Palestino terá lugar na sexta-feira, 23 de Novembro, 20 h, no Grupo Sportivo Adicense (Rua de São Pedro, 20 (Alfama), Lisboa). A organização é do MPPM com o apoio do Grupo Sportivo Adicense e confecção do Chef Ashraf Hajleh. Em suma, «uma jornada de partilha cultural, de convívio e de solidariedade com o povo palestino.”

Quanto ao Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, terá lugar na quinta-feira, 29 de Novembro, pelas 18h, na Casa do Alentejo, em Lisboa. Prevista está uma sessão pública comemorativa desse Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino «instituído pelas Nações Unidas em 1977 para evocar a data em que, em 1947, a Assembleia Geral da ONU adoptou a resolução 181 (II) que preconizava a partilha da Palestina em dois Estados – um judaico e um árabe – com um estatuto especial para Jerusalém, mas que jamais foi cumprida no que respeita à criação do Estado Palestino». A entrada é livre.

O seminário «Palestina: História, Identidade e Resistência de um País Ocupado» realizar-se-á, por seu lado, na sexta-feira, 30 de Novembro, nos Serviços Centrais da Câmara Municipal do Seixal, entre as 9h30 e o final da tarde.

O Bando dos Gambozinos e o aniversário de Manuel António Pina

Novembro é o mês em que Manuel António Pina (1943-2012) (poeta, ficcionista, escritor de crónicas, dramaturgo, autor de magníficos livros-infantis-para-todos) faria anos. Também em 2017, fez 30 que foi gravado o disco O Beco dos Gambozinos, com poemas de Pina e música de Suzana Ralha (a mentora do projecto) e não só. A interpretação, claro, é do Bando dos Gambozinos (https://www.apagina.pt/?aba=7&cat=148&doc=11030&mid=2), notável projecto educativo e artístico que honra a cidade do Porto, pois trata-se de uma escola bem peculiar e de um grupo musical (https://www.youtube.com/watch?v=Q8VqhvQ6UKY) em cujas gravações é possível escutar canções com poemas de Pina, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo, Regina Guimarães, Álvaro Magalhães, Jorge Sousa Braga, João Pedro Mésseder, José Vaz e outros). O Bando (https://www.youtube.com/watch?v=bIdgLU1oJmI ), composto por crianças e jovens, também tem desenvolvido, ao longo dos anos, colaborações com José Mário Branco, Sérgio Godinho, Jorge Constante Pereira, Amélia Muge, Teresa Muge, Fernando Lapa e outros. Assim, festeja-se o mês com a apresentação do espectáculo O Beco… «que, apesar de ter corrido o país, há muito tempo não sobe ao palco» – como se pode ler na informação disponível. A apresentação será no dia 3 de Novembro, sábado, no Teatro Helena Sá e Costa, no Porto, com duas sessões, às 17h e às 21.30h.

Ah, e se quiser saber tudo sobre a escrita para a infância e a juventude de Manuel António Pina, leia o estudo, fundamental, Presença e Significado de Manuel António Pina na Literatura Portuguesa para a Infância e a Juventude (Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013) (http://bibliografia.bnportugal.pt/bnp/bnp.exe/registo?1850061), da autoria de Sara Reis da Silva, especialista incontestável na obra de Pina, professora e investigadora da Universidade do Minho.

Famalicão: a América do Norte pela voz de um investigador

O investigador e professor universitário João Medina irá encerrar, no próximo dia 9 de Novembro, o Ciclo de Conferências de 2018 do Museu Bernardino Machado, em Famalicão. Nesta conferência evocativa das suas relações com a América do Norte e a cultura americana, João Medina evoca três períodos distintos da sua vida, os quais correspondem, naturalmente também, a períodos históricos diferenciados, com os eventos político-culturais que os marcaram, e que a ele igualmente marcaram.

Tintoretto em Santo Tirso: arte, investigação, música antiga

O Museu Municipal Abade Pedrosa, em Santo Tirso, realiza, a 17 de Novembro, o que antecipamos ser um interessantíssimo colóquio em torno do pintor maneirista Tintoretto (1518-1594) e do quadro que lhe é atribuído, “A adoração dos Reis Magos”

(http://www.santo-tirso.tv/artigo/1/4555/tela-que-devera-ser-de-tintorett...)

O programa, muito aliciante, inclui uma parte que terá lugar no Mosteiro de Singeverga e, no final, a projecção de um filme sobre Jacopo e Domenico Tintoretto, participando, entre outros, os investigadores e estudiosos Carlos Pinho e Ana Maria Príncipe, Vítor Serrão, José Alberto Gomes Machado, Bernardino Ferreira da Costa e o músico e musicólogo Manuel Morais. Com uma comissão científica de base, a jornada termina, à noite, com um concerto pelos Segréis de Lisboa, que interpretarão música da época de Tintoretto.

Um debate sobre literatura para crianças e jovens

A 10 de Novembro, numa iniciativa da Ordem dos Médicos à qual a Poética Edições, de Braga, foi chamada a levar os seus autores, terá lugar um debate em torno da literatura para a infância e a juventude. A conversa será moderada pela jornalista Rita Costa (programa Pais e Filhos, TSF). O evento tem início com um jantar e prolonga-se pelo serão. Do programa consta, ainda, um momento musical. É na Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos (Rua Delfim Maia, 405, Porto).

Cinema: a Raiva, tão necessária, de Sérgio Tréfaut

Por estes dias, o acontecimento cinematográfico nacional é a exibição do novo filme de ficção Raiva, de Sérgio Tréfaut, baseado no extraordinário romance de Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958). Depois de ter encerrado em Maio o IndieLisboa e de ter sido exibido noutros festivais, Raiva surge agora nos cinemas, em Lisboa, Porto, Coimbra e Évora. Poder e pobreza, revolta e luta parecem ser alguns dos temas fulcrais de um filme que se inspira num dos grandes livros de ficção do neo-realismo português, focado no Alentejo dos latifúndios, em pleno fascismo. Um livro em que se sente o sopro do vento – do princípio ao fim ele sopra, o vento real; mas sopram também os ventos da indignação e da conquista gradual da consciência de classe, da urgência de mudar o mundo.

António Pescada, Ana Margarida de Carvalho, Óscar Lopes (um escrito inédito) e Francesca Sanna

Já lembrei Papiniano e Manuel António Pina e sugeri ou indiciei a necessidade de regressar às escritas de ambos, tão diferentes uma da outra.

Grandes Prémios: de Tradução e de Conto

Pois bem, não esqueçamos que António Pescada, um tradutor de grande nível, acaba de vencer o Grande Prémio de Tradução, por trabalhos recentes para a Relógio d’Água e a Sextante, atribuído pela Associação Portuguesa de Tradutores. Pesquise a extensa lista de excelentes traduções de Pescada e faça a sua selecção. Eu sugiro, uma vez mais, a sua versão de A Mãe, de Gorki, das Edições Avante!, e as suas traduções de Dostoievski.

ENTRA FOTO DE ANA MARGARIDA DE CARVALHO

Também Ana Margarida de Carvalho acaba de ganhar o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores com apoio da Câmara Municipal de Famalicão, pelo livro Pequenos Delírios Domésticos (Relógio d'Água). O júri decidiu por unanimidade e, segundo o seu comunicado, «trata-se de um conjunto de contos que surpreende o leitor pela invulgar actualidade temática e sociológica (dos incêndios que devastaram o país, em 2017, aos dramas íntimos de portugueses convertidos ao estado islâmico, de refugiados sírios num lar de velhos ou de uma mulher tunisina que dá à luz num barco apinhado de gente durante a travessia do Mediterrâneo, entre outros)». Na acta, o júri salienta ainda, nestas histórias, «um notável trabalho de precisão e depuramento da palavra» e «um olhar atento aos dramas humanos, independentemente do lugar mais ou menos doméstico que lhes serve de palco». A não perder, pois, este livro de contos de Ana Margarida de Carvalho.

Óscar Lopes: um inédito em tempo de centenário

Ainda uma chamada de atenção para o encerramento das comemorações do centenário do nascimento de Óscar Lopes (1917-2013), que dirigiu os destinos da Faculdade de Letras do Porto, entre 1974 e 1976.

ENTRA IMAGEM DE ÓSCAR LOPES NA AULA

Além de ter sido a Figura Eminente da Universidade do Porto em 2018, com um rico programa de comemorações que englobou exposição, conferências e colóquios, é o fecho desse mesmo programa, a 22 de Novembro, que deve agora merecer a nossa melhor atenção. Pelas 18h, na Reitoria da Universidade do Porto, terá lugar uma conferência a duas vozes sobre «Óscar Lopes: Música e Literatura». A protagonizá-la estarão o musicólogo Mário Vieira de Carvalho e o maestro José Luís Borges Coelho, Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto e fundador do Coral de Letras da Universidade do Porto, que actuará no final da sessão. Se estiver pelo Porto, ou perto, não falte.

Quase a terminar, um acontecimento literário: a recentíssima saída de um escrito inédito de Óscar Lopes, publicado em livro pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto que, desse modo, encerra também o seu programa de comemorações do centenário em torno de um dos seus mais relevantes e prestigiados sócios: o autor da Gramática Simbólica do Português.

Com um bom prefácio de Lídia Jorge e um bom texto posfacial de José Manuel Mendes, o livro intitula-se Um Bater-nos o Coração do Mundo no Coração: Carta-Ensaio de Amor e é ilustrado por três belíssimas pinturas de um artista plástico notável, António Fernando, que muito valorizam a publicação. Compreende, ainda, a reprodução fac-similada do dáctilo-escrito.

Como escreve Lídia Jorge, «consta que esta carta terá sido escrita durante a Primavera de 1955, estando Óscar Lopes prisioneiro nos calabouços da PIDE, no Porto». O que direi é: quem poderá deixar de ler esta epístola magnífica e interpelante sobre o amor, a mulher, a paixão, com tanto de poético como de ensaístico, com tanto de densamente filosófico como de luminoso? Repito-me: a publicação desta obra, breve mas preciosa, constitui um acontecimento.

Para todos

Para jovens e crianças – diria antes: para todos – faça o favor de não perder o magnífico álbum narrativo ilustrado, A Viagem (Fábula, 2018), da italiana Francesca Sanna, em tradução de Susana Cardoso Ferreira. Trata-se de uma recriação tocante, visualmente muito bela, da tragédia dos migrantes e refugiados do Mediterrâneo e da entrada na Europa dos que conseguem sobreviver. Obrigatório ler, ver, desfrutar, pensar.

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João Paulo Cuenca: «Que se passou no Brasil? Que se vai passar no Brasil?»

O autor de Descobri que estava morto, seu mais recente romance, está bem vivo e estará às 18h na Livraria Barata, em Lisboa, para falar sobre a sua obra e um Brasil que deixa os europeus «abismados».

João Paulo CuencaCréditos / Wikimedia Commons

No decurso da digressão europeia para apresentar em Itália, França e Alemanha as traduções do seu mais recente romance Descobri que estava morto, e, antes de regressar ao Brasil, o escritor estará hoje na Livraria Barata, em Lisboa, para falar sobre a sua obra e sobre o Brasil de Bolsonaro.

«Em seu giro pela Europa», escreve a RFI-Brasil (Radio France Internacionale-Brasil), João Paulo Cuenca «tem-se deparado com uma plateia interessada em discutir não apenas sua obra, mas a realidade política brasileira», e em que o tópico «principal é Jair Bolsonaro».

Em entrevista à emissora francesa o autor reconhece a complexidade da popularidade do novo presidente do Brasil mas, refere a RFI-Brasil, «argumenta que a ascensão do candidato é resultado também de uma falta de posicionamento mais efetivo da mídia e de vigilância de diversas instituições com seu discurso».

Falhanço dos mídia e do Estado na raíz do êxito de Bolsonaro

Mais do que um «fenómeno do antipetismo», João Paulo Cuenca responsabiliza a imprensa, os tribunais e o Congresso brasileiro pela «naturalização» sem consequências «do discurso de extrema-direita e fascista», que o futuro ocupante do Palácio do Planalto produz «há 20 anos», sem merecer da imprensa brasileira mais do que a púdica classificação de «polémico».

«As instituições», afirma o autor, referindo-se aos tribunais e ao Congresso, «viram o Bolsonaro cometer crimes durante anos e nada fizeram», denuncia, explicando que «o processo de amnistia depois da ditadura fez com que o Brasil sofresse um apagamento histórico».

«Imagine se na Argentina um deputado no Congresso faz uma apologia a um ditador?», interroga-se João Paulo Cuenca, referindo-se à declaração de voto de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados por ocasião da votação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em que homenageou a figura do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador durante a ditadura militar. «Ele iria apanhar na rua, ser preso. Não existe isso. No Uruguai, um militar que expressa uma opinião política vai preso», conclui.

O autor, com a liberdade que lhe confere o facto de ser «um crítico do PT desde a primeira eleição do Lula», considera que aquele partido «virou uma espécie de ameaça vermelha, comunista, o que é ridículo», afirma, sobre o «antipetismo» da sociedade brasileira actual. «O PT não ameaçou as instituições democráticas», nem é «uma força disruptiva» como Bolsonaro, defende.

O escritor

O escritor carioca João Paulo Cuenca (Rio de Janeiro, 1978), também conhecido pelo nome literário de J. P. Cuenca, é um dos mais reconhecidos autores da nova geração brasileira. No Hay Festival de 2007 foi considerado um dos 39 autores mais destacados da América Latina e a revista Granta elegeu-o, em 2012 como um dos 20 melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos.

É autor de quatro romances: Corpo presente (2003), O dia Mastroianni (2007) O único final feliz para uma história de amor é um acidente (2010) e Descobri que estava morto (2015), os três últimos publicados em Portugal pela Editorial Caminho.

Escreveu crónicas semanais para os principais jornais brasileiros, como o Jornal do Brasil, O Globo, a Folha de São Paulo ou o Intercept Brasil. Publicou uma antologia de crónicas: A Última Madrugada (2012).

Os direitos dos seus livros foram adquiridos para 11 países, tendo sido traduzido e publicado em oito idiomas.

Descobri que estava morto narra uma história passada no Rio de Janeiro «e a acção transcorre entre 2011 e os dias de hoje, descortinando uma cidade em profunda transformação», noticiou na altura a PublishNews, que sublinhou a curiosidade de o livro ter saído «junto com o filme A morte de J. P. Cuenca, roteirizado, dirigido e estrelado pelo autor».

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Cultura em Luta marca protesto para 19 de Novembro em Lisboa

A Plataforma Cultura em Luta exige 1% do Orçamento do Estado para a Cultura e, entre críticas ao actual Governo, decidiu marcar uma concentração de protesto, em Lisboa, para o dia 19 Novembro.

(da esquerda para a direita) Pedro Penilo, Alexandra Lourenço, Joana Manuel, Miguel Rocha e Carla Bolito, durante a conferência de imprensaCréditosRodrigo Antunes / Agência Lusa

O anúncio foi feito ontem, em Lisboa, na sede do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), uma das estruturas que fazem parte da plataforma, no dia em que a proposta do Orçamento do Estado para 2019 foi aprovada, na generalidade, no Parlamento.

A actriz Joana Manuel, dirigente do sindicato, afirmou que tem sido «decepcionante» a actuação do Governo, que «tinha todas as condições parlamentares» para atingir a meta de uma dotação orçamental de 1% para Cultura.

A responsável sindical recordou que a Cultura «foi uma bandeira para a eleição» do actual Governo do PS. «Todos nós nos lembramos dos encontros "a cultura está com António Costa"», disse, referindo-se às reuniões que antecederam as eleições legislativas de 2015.

A plataforma vai reunir-se, em data a agendar, com a comissão parlamentar de Cultura, Juventude e Desporto, de onde espera resultados para melhorar a dotação orçamental para o sector, disse Joana Manuel.

A proposta do Governo eleva os valores globais para a Cultura em cerca de 12,9%, dos 216,7 milhões de euros, de 2018, para os 244,8 milhões de euros, em 2019, o que situa a despesa da Cultura em valores próximos dos 0,3% do valor total dos ministérios, em termos orçamentais.

A Direcção-Geral das Artes (DGArtes) e a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) são os organismos com o maior aumento de verbas para despesa, inscrita no orçamento.

A DGArtes deverá ter, em 2019, 28,8 milhões de euros disponíveis para despesa, ou seja, mais 6,6 milhões do que o calculado para 2018, enquanto a DGPC deverá dispor de mais 9,3 milhões de euros, passando de 40,8 milhões, em 2018, para 50,1 milhões de euros, em 2018.

Numa reacção aos valores do Orçamento do Estado, quando a proposta foi apresentada pelo Governo, no passado dia 15, o CENA-STE disse à Lusa que os valores estavam aquém do desejável, embora reconhecesse como positiva «a trajectória do aumento dos orçamentos».

André Albuquerque, da direcção do CENA-STE, disse que o aumento deste ano, no entanto, «já devia ter acontecido no primeiro orçamento deste Governo».

Além do CENA-STE, a Plataforma reúne o Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia, o Manifesto Em Defesa da Cultura, a Associação de Arquivistas, Bibliotecários e Documentalistas e a Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais.

Com Agência Lusa

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José Cardoso Pires morreu há 20 anos

Morreu em 26 de Outubro de 1998. Vinte anos passam bem mais depressa do que se pensa quando se é jovem, pesam muito quando a vida vai avançando. O Zé continua a fazer-me falta como amigo e dou por mim a imaginar o que escreveria sobre o Portugal de hoje, se ainda fosse vivo. Não estaria certamente muito entusiasmado.
Retomo um belo texto que uma das suas filhas, Ana Cardoso Pires, leu em 10.03.2008 na Biblioteca Nacional, na cerimómia de entrega de parte do espólio do pai àquela instituição.
«Há pouco, sentada no escritório do Zé, em casa da minha mãe, no meio de caixotes e pastas que ele não conheceu, recordava outros escritórios do Zé. Aqueles que ele enchia de fumo; de papéis pelo chão; de chá com limão, de água ou leite gelados; de prolongados silêncios; de ataques de mau génio. Mas sobretudo de memórias.
No escritório do Zé, raramente entravam amigos e copos de uísque. Era um espaço concentracionário, incaracterístico, independente, onde mantinha engaiolados os demónios da escrita, que se empenhava em domar ou provocar, conforme as marés.
O escritório do Zé ainda hoje existe – e ele nem o conheceu na sua localização actual e na versão estaleiro de obras. No entanto, estou certa de que o reconheceria sem hesitações: uma grande janela, por onde entram vozes anónimas em diálogos longínquos, e as estantes transbordando de livros e papéis de muitas memórias.
O escritório do Zé mudou várias vezes de espaço físico. Sempre com o mesmo desprendimento pela qualidade do mobiliário, sucessivamente recauchutado por ele próprio para se adaptar a necessidades de momento. Pormenores. Permanecia o importante: os livros e os papéis de apoio da memória.
Por isso, o que hoje nos traz aqui, a cerimónia a que assistimos, foi o lançamento da primeira pedra do novo escritório do Zé. Agora com estantes novas e aberto a quem o queira conhecer. Através dos livros e papéis da sua memória.
E como nos dias de festa, cantam as nossas almas: p’ró menino José, uma salva de palmas.» 
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Leia original aqui

[1881.] ANTÓNIO BORGES COELHO [VI] || O TRABALHO DO HISTORIADOR

* ANTÓNIO BORGES COELHO || CICLO DE PALESTRAS *
Entre os dias 22 e 26 de Outubro de 2018, a Editorial Caminho promove um ciclo de palestras de homenagem a António Borges Coelho, sob o título "O Trabalho do Historiador", em sessões que decorrem às 18 horas na Livraria Buchholz (Rua Duque de Palmela, nº 4 em Lisboa):
 
22/10 (segunda-feira): Cláudio Torres, Campo Arqueológico de Mértola.
23/10 (terça-feira): Silvestre Lacerda, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
24/10 (quarta-feira): Vítor Serrão, ARTIS-Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa.
25/10 (quinta-feira): Manuel Loff, Faculdade de Letras do Porto.
26/10 (sexta-feira): Hermenegildo Fernandes, Centro de História da Universidade de Lisboa.

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2018/10/1881-antonio-borges-coelho-vi-o.html

«Mulheres do Sul» dizem «basta» às ditaduras

Dezanove canções de cinco activistas sul-americanas preenchem o espectáculo Mulheres do Sul que Adriana Queiroz concebeu e levará ao palco do Teatro Ibérico, em Lisboa, com Lara Li e Luanda Cozetti.

Em 1964, um golpe militar fez o Brasil mergulhar na ditaduraCréditos / Memórias da Ditadura

Temas interpretados por Elis Regina, Maria Bethânia, Chavela Vargas, Violeta Parra e Mercedes Sosa preenchem o espectáculo que estará em cena no Ibérico, no dia 27 de Novembro, com o qual Adriana Queiroz pretende «chamar a atenção de todos para o que se passa na América do Sul».

«Porque há que dizer basta e que gritar basta ao aumento das ditaduras na América do Sul», frisou à agência Lusaa antiga bailarina do Ballet Gulbenkian que, depois de ter posto fim à carreira na dança, já gravou dois discos.

«Ay Carmela», «Los hermanos», «Gente humilde», «Cruz de olvido», «Maria Tepotzeca, «Debaixo d´água, «O bêbado e a equilibrista», «Asa branca», «Alfonsina y el mar», «Canción com todos» e «Gracias a la vida» são alguns dos 19 temas que preenchem o espectáculo no qual a América do Sul estará presente em cenário.

A artista «tinha [este espectáculo] na cabeça há três anos» e, após «alguns percalços», a sua montagem ocorre num momento «certo» face ao que se passa no Brasil, sublinhou Adriana Queiroz.

«Mulheres do sul surgiu-me numa época em que me perguntava e me dizia que eu era uma mulher do sul, na altura em que começou a haver uma certa diferenciação entre o Norte e o Sul da Europa, na União Europeia», indicou.


Apesar de ter percorrido a música de outros continentes, Adriana Queiroz ficou-se pela América do Sul, não apenas «por opção de coração», mas também porque foi neste continente que as mulheres mostraram uma forte capacidade para lutar, ultrapassando tudo e levando a sua voz, acrescentou.

«Como não sou cantora de intervenção, nem quis cantar, fui escolher [canções]. Para diminuir o repertório vastíssimo, primeiro escolhi cinco grandes activistas: a Elis Regina, a Maria Bethânia, a Chavela Vargas, a Violeta Parra e a Mercedes Sosa», revelou à agência Lusa.

«Depois, para estreitar ainda mais o repertório, escolhi várias canções que não eram de intervenção e que mudaram a mentalidade dos povos», indicou. «Canções que passaram a censura e se tornaram uma bandeira de luta e de resistência e que mudaram mentalidades», disse.

No espectáculo, as três intérpretes não irão «imitar» as cantoras que vão interpretar, mas antes «tentar passar ao máximo a mensagem poética dos temas que cantavam».

Adriana Queiroz diz mesmo que a civilização «não pode voltar atrás», pelo que é preciso «unir vozes para que não se retroceda em conquistas alcançadas».

Agência Lusa

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Artistas, juízes e praxes

1. Nos últimos anos abriram-se novas galerias de exposição em Lisboa, que pressuporiam um mercado pujante para a arte dos nossos dias. Erro de cálculo! A grande burguesia, aquela que, quase sempre por empáfia, ia construindo privativas pinacotecas, descobriu-se em perigo com as investigações sobre enriquecimentos ilícitos, mas precavendo-se sobretudo dos riscos crescentes de ver-se denunciada como titular de contas em paraísos fiscais.
Deixou de serfashion a excessiva ostentação do capital acumulado com a especulação financeira ou imobiliária. Até a autoestrada dos vistos gold, criada por Paulo Portas como alternativa para garantir bons negócios, anda a ganhar má fama ou não tivesse sido denunciada pelas ONG Transparency International e Global Witness como via ideal para a corrupção. As compras minguaram, ficando em maus lençóis muitos dos que tinham apostado na arte como modo de vida.
A expetativa de solução com a nova ministra da Cultura é condicionada pelos exíguos meios do Estado para substituir-se aos pretéritos colecionadores. Mas convenhamos que, à exceção de Vhils, não se têm conhecido projetos artísticos estimulantes, capazes de nos convencerem dos efetivos méritos de quem os assina. E di-lo quem acompanha com alguma atenção o que consegue transitar dos ateliês para espaços de exposição.
2. Reparo pertinente dePedro Bacelar de Vasconcelos num artigo de opinião do «Jornal de Notícias» num dos dias da semana transata:“enquanto nos Estados Unidos deparamos com uma despudorada maquinação visando o controlo dos tribunais pelo poder político, no Brasil, inversamente, são os tribunais que intencionalmente interferem na expressão livre da vontade democrática e que promovem, objetivamente, o sucesso do candidato da extrema-direita.”
3. Há uma semana, ao passar de carro pelo topo do Parque Eduardo VII, deparei com o espetáculo degradante de uns quantos rapazes e raparigas, trajados de preto, a humilharem colegas a pretexto da sua «integração« no ambiente académico.
A exemplo do que se passa com as touradas e outras manifestações bárbaras de um certo modo de se ser português - cujo fim anunciado parece sempre iminente, mas vão sobrevivendo por ser inesgotável a estupidez dos seus promotores! - as praxes reduzem-nos a esperança em ver a juventude recuperar o inconformismo de gerações anteriores, quando a vontade de mudar o mundo pressupunha o asco perante a opressão e a solidariedade com todos os oprimidos. Se tantas revoluções, que trouxeram avanços civilizacionais a milhões de seres humanos, tiveram nas juventudes o seu motor, elas tardam em retomar o testemunho dos que nunca desistem de exigir um mundo novo a sério...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/10/artistas-juizes-e-praxes.html

Com arte e cultura também se combate a barbárie

Neste momento em que a perigosa situação mundial nos convoca, uma vez mais, para o combate firme ao fascismo e às suas diversas, enviesadas e novas expressões, as palavras de Eduardo Galeano presidem ao roteiro do mês.

Funeral dos sem-terra vítimas do Massacre de Eldorado dos  Carajás, no Brasil. O candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, durante a recente campanha, defendeu publicamente os assassinos, classificando as vítimas como «gente canalha e vagabunda» (ver Leonardo Sakamoto, «O que foi o massacre dos Carajás, defendido por Bolsonaro»).CréditosFonte: diariodocentrodomundo

Também eu, caro leitor, cara leitora, sinto às vezes essa coisa feia a que chamam inveja. Mas não tenho receio de o afirmar aqui, pois invejo, neste caso, um escritor muito admirado: o uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), que publicou, n’O Livro dos Abraços, este trecho que quereria ter sido eu a escrever. Um texto («Os zés-ninguém») de que devo citar uma parte, neste momento em que a perigosa situação mundial nos convoca, uma vez mais, para o combate firme ao fascismo e às suas diversas, enviesadas e novas expressões. Até porque o fascismo, tal como no tempo de Hitler e Mussolini, continua a saber jogar, e bem, o jogo formal das «democracias». E quanto mais essas auto-proclamadas democracias se apresentam diminuídas e mutiladas (como na Polónia, na Hungria, em Israel, no Brasil…), melhor a serpente se desenvolve. É lembrando o Brasil e Bolsonaro, é lembrando Erdoğan, Netanyahu, Orbán, Le Pen, Salvini, é lembrando a votação nas extremas-direitas sueca, holandesa, flamenga, austríaca, alemã, é lembrando Trump e tutti quanti, sem esquecer o governo fascista que hoje controla a Ucrânia com a bênção da União Europeia, é lembrando tudo isso, ou melhor, é lembrando as principais vítimas do fascismo, que devo citar este trecho de Galeano, o tal que eu gostaria de ter escrito:

Os zés-ninguém: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os zés-ninguém: os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.

Encontra, cara leitora e caro leitor, o texto integral na p. 71 de O Livro dos Abraços, que a Antígona editou em Março de 2018, com ilustrações do próprio Galeano e em tradução de qualidade de Helena Pitta. Uma leitura que vivamente se recomenda.

Grande música: Lisboa, Queluz, Porto

Lutar contra a ditadura terrorista do capital, que o fascismo é, significa lutar pela liberdade e pela democracia, mas também pela paz e pelo direito à criação e à fruição cultural e artística. Começando pela música, diria eu. Porque, sem música, a vida seria um erro. Assim o escreveu Nietzsche.

Ora, o arranque da nova época musical na Gulbenkian, em Lisboa, promete. Senão, repare: a 16 de Outubro, será possível escutar Liszt, Beethoven, Janáček, Débussy, Komitas, Ravel, no piano do talentoso e versátil Kirill Gerstein; a 19 de Outubro, a Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do violinista Pinchas Zukerman e com a colaboração de Amanda Forsyth (violoncelo), interpretará Mozart, Max Bruch e Brahms. A 26 e 27 de Outubro, Jaime Martin (maestro) e o grande violinista Sergej Krylov interpretarão a 5.ª Sinfonia de Beethoven e também, entre outras obras, Paganini, de cuja obra Krylov é reputadíssimo executante.

Atenção ainda à cativante programação das Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie, que se prolonga até 4 de Novembro, e cujos concertos incluem repertórios ajustados ao contexto histórico do Palácio, num percurso pelas sonoridades do período setecentista.

Mas, se se deslocar para o Porto, verá que a programação de arranque da Casa da Música não é menos sedutora. Atente no relevo de que os nomes de Mozart, Bruckner e Mahler desfrutam na programação e registe que, a 21 de Outubro, lá estará o grande Alfred Brendel. Cito a informação disponível: «Dez anos depois de encerrar uma brilhante carreira de concertista que se estendeu por seis décadas, Alfred Brendel regressa ao palco onde inaugurou a primeira temporada de piano da Casa da Música, em 2005. Recorrendo a exemplos tocados em palco e às suas interpretações registadas em disco, o lendário pianista austríaco revela alguns dos segredos que o tornaram uma referência mundial.» Imperdível, para qualquer músico ou melómano.

Mas saiba também que ainda está a decorrer, prolongando-se até 28 de Outubro, o «Outono em Jazz» da Casa da Música. Para os amantes do jazz, afigura-se muito aliciante esta programação. Entretanto, vá-se preparando para o magnífico ciclo «À volta do barroco», que se anuncia para o mês de Novembro, na Casa da Música.

Artes várias, na CMAS, em Matosinhos, em Gondomar, em Serralves

A Casa-Museu Abel Salazar é tutelada pela Universidade do Porto, sendo gerida com o apoio da Associação Divulgadora da Casa-Museu Abel Salazar, instituição de Utilidade Pública desde 1996. Situa-se em São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos, caracterizando-se a sua programação cultural por uma atenção particular às artes plásticas e à sua relação com a ciência, prestando desse modo tributo ao grande intelectual, médico, investigador e artista perseguido pelo fascismo que foi Abel Salazar (1889-1946), muito admirado pelos escritores e artistas do neo-realismo português e apreciado por Álvaro Cunhal.

Recomenda-se não só uma visita a esta bela casa-museu – onde é possível ver pintura de Abel Salazar e muito mais –, mas também alguma atenção à programação, ainda que a página na Internet careça de alguma actualização. Permite, no entanto, fazer uma visita virtual à casa.

De 13 de Outubro a 14 de Dezembro, por exemplo, poderá ver «Complementaridades», exposição que configura «uma mostra simbiótica do entrecruzamento artístico na perspectiva conjunta de Susana Ribeiro, Paes Cardoso e José Ramada». A primeira enquanto autora de uma instalação, e Cardoso e Ramada enquanto fotógrafos. «Layers/on-site installation» é, por sua vez, o título da exposição concebida e produzida por Tom Stanley, artista plástico norte-americano e Professor Emérito da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Winthrop, na Carolina do Sul, que estará patente na Casa-Museu, até 27 de Outubro.

Outra instituição importante, a norte, é a Fundação Júlio Resende – Lugar do Desenho, em Valbom – Gondomar. Fica na margem norte do Douro bem pertinho de Campanhã, no Porto. Vale a pena admirar ou rever aí obras deste grande pintor portuense que foi Resende (1917-2011) e seguir a programação do Lugar do Desenho: exposições e outros eventos, sempre de interesse, num belo espaço que dispõe também de serviço educativo.

Não se esqueça, por outro lado, que no Museu de Serralves, do Porto, está a exposição de fotografias de Robert Mapplethorpe.

Clássicos do cinema, no Porto

Passando para o cinema, merece, por exemplo, atenção o 9.º Ciclo de Cinema, «Polígonos irregulares», na Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos, sempre às 21.15h, com uma breve apresentação precedendo cada filme. Ainda é possível ver: Sentimento, de Visconti (18 de Outubro), Sorrisos de Uma Noite de Verão, de Bergman (25 de Outubro), Charulata, de Satyagit Ray (8 de Novembro), Do Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola (15 de Novembro), e Disponível para Amar, de Wong-Kar Way (22 de Novembro). O ciclo decorre no Centro de Cultura e Congressos, na Rua Delfim Maia, 405, no Porto.

Brecht em Almada e outros espectáculos: Lisboa, Porto, Évora

Confira também à programação teatral e não só dos teatros nacionais, sempre rica, nestes inícios de temporada, como acontece no Teatro Nacional São João, do Porto, e no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Mas eu daria um salto a Almada, para ver A Boa Alma de Sé-Chuão, de Brecht, encenada por Peter Kleinert, na sala principal do Teatro Municipal Joaquim Benite, de 19 de Outubro a 11 de Novembro. Não resisto a citar o início da apresentação: «Será que alguma vez se poderá satisfazer a ambição de ‘viver de forma decente’ ou ser uma ‘boa pessoa’? Será que é possível ser-se digno e ter sentido de moral, numa sociedade dominada pelo egoísmo, a corrupção, a exploração e a ganância? E será que querer ser-se bom constitui um objectivo legítimo, num mundo no qual os direitos não são igualitários? E enquanto uns gozam as suas posses, direitos e privilégios – tendo acesso à educação, à prosperidade e ao emprego –, outros vivem na exclusão, opressão, discriminação e escravatura?» Percebe a razão por que tem de ir ver?

Não se esqueça de consultar também a programação do CENDREV, em Évora, onde a 4 de Outubro estreou e se mantém até 28 de OutubroFantasmas?, a partir de texto original de Eduardo de Filippo, em tradução de José Colaço Barreiros, com encenação e adaptação dramatúrgica de Pedro Estorninho. Mas experimente consultar outras propostas teatrais, nestes sempre activos palcos do sul, concretamente no Teatro Garcia de Resende, em Évora.

Sugestões político-culturais em Loures e no Porto

Antes, falei da luta pela paz e contra o fascismo, e referi de passagem o Brasil. Pois bem, Victor Alegria, editor e antifascista brasileiro de origem portuguesa, estará presente no ciclo «O Mundo que Vivi». A sessão realiza-se no dia 16 de Outubro, às 18 h, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, que dá continuidade, deste modo, a um ciclo de tertúlias bem sucedido e já com alguma tradição.

Se tiver possibilidade, não perca, em Loures, o Encontro pela Paz que se vai realizar, a 20 de Outubro, no Pavilhão Paz e Amizade, em Loures, sob o lema «Pela Paz, todos não somos demais» – iniciativa do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) a que aderiram diversas organizações. É objectivo deste Encontro «debater e encontrar as respostas mais adequadas para enfrentar as sérias ameaças à Paz que, no momento presente, pairam sobre a Humanidade, e unir um conjunto cada vez mais alargado de vontades empenhadas numa clara e inequívoca posição pública contra a guerra e numa sincera determinação em defender os valores da Paz».

O Encontro tem início às 10.30 h e encerra às 17 h, e as intervenções e debates estão organizados em três sessões plenárias focando os temas: 1 - Paz e Desarmamento; 2 - Cultura e Educação para a Paz; 3 - Solidariedade e Cooperação.

Outra iniciativa, desta feita no Porto: Francisco Melo, das Edições Avante!, estará presente na FNAC da Rua de Santa Catarina, no dia 18, às 18 h, para um debate em torno do Manifesto do Partido Comunista (1848), de Marx e Engels, no quadro das comemorações do 2.º centenário do nascimento de Karl Marx e por ocasião dos 170 anos do Manifesto.

E, por último, livros: ficção, poesia, histórias para os mais novos

Tendo sugerido, no início, O Livro dos Abraços, de Galeano, mantenho-me no campo da ficção, para propor, desta feita, a leitura da mais recente criação de Germano Almeida (n. 1945), o notável escritor cabo-verdiano galardoado este ano, e bem, com o Prémio Camões. O Fiel Defunto (Caminho, 2018) é um romance de vocação crítica, escrito com arte e sentido de humor (hilariante tem sido um dos adjectivos mais usados pelos recenseadores), sobre o qual afirmou o compatriota do escritor, Manuel Brito-Semedo, ser «a ‘efabulação da realidade’ sanvicentina e de Cabo Verde, do ponto de vista social, cultural e político», acrescentando que Germano Almeida, neste seu 18.º livro, troça de uma pequena burguesia tradicional e de alguns políticos oportunistas.

Sugiro-lhe que conheça também o último livro que, com a colaboração de Maria Kodama, Jorge Luis Borges publicou. Intitula-se Atlas (Quetzal, 2018), é ilustrado com fotografias e a cuidada tradução é de Fernando Pinto do Amaral. Trata-se, neste caso, da reedição de um belo pequeno livro de histórias muito breves, impressões, apontamentos, poemas, em torno de lugares míticos como a Irlanda, Istambul, Veneza, Atenas, Genebra, Reiquejavique, Madrid e muitos outros, mas sobretudo em torno das transfigurações e sonhos borgesianos e de alguns dos seus temas e motivos recorrentes (o labirinto, o tigre, etc.).

Acaba também de ser publicada a recolha Eu, Antonin Artaud (Sistema Solar, 2018), conjunto de textos fundamentais deste «suicidado da sociedade» que tendo estado, por pouco tempo, ligado à aventura surrealista, foi o autor de O Teatro e o seu Duplo. A tradução, sempre exímia, e a organização da edição da presente obra de Artaud (1896-1948) são da responsabilidade de Aníbal Fernandes.

Na poesia, merece destaque a recente publicação de uma antologia de Ron Padgett (n. 1942), poeta ligado à New York School, mas cujos laços anteriores com a beat generation de Kerouac, Ginsberg, Corso ou Burroughs não podem ser ignorados, conquanto o caminho de Padgett como poeta seja bem singular. Comprovam-no os marcantes poemas incluídos em Paterson, o belíssimo filme de 2016 de Jim Jarmusch, amigo do poeta. A antologia tem por título Poemas Escolhidos (Assírio & Alvim, 2018) e a introdução, selecção e tradução são da responsabilidade de Rosalina Marshall.

Outra antologia que reclama demorada atenção é a da magnífica poesia do argentino Roberto Juarroz (1925-1995), seleccionada e traduzida, com competência e visível paixão, por Rui Caeiro, Duarte Pereira e Diogo Vaz Pinto. O título, que corresponde a um verso de Juarroz, é todo um programa, bem difícil, para não dizer impossível, de resumir ou parafrasear: A Árvore Derrubada pelos Frutos (Língua Morta, 2018). «Trazer o horizonte ao nosso lado, / içá-lo na rua como uma bandeira, / incendiar com o seu corpo nu / o ar, o coração e as esquinas / e fechar as janelas para que não desapareça.» – assim principia um dos poemas (p. 59) deste grande inventor-de-linguagem que foi Juarroz.

Termino com dois livros para crianças que são, no fundo, para todos, pois não haverá leitor adulto e amante de literatura que a eles fique indiferente.

Em primeiro lugar, O Secador de Livros (Caminho, 2018): um conto em formato de álbum, de Carla Maia de Almeida, escritora de créditos firmados na área. As ilustrações são de Sebastião Peixoto.

À primeira vista, dir-se-ia ser uma narrativa sobre o amor aos livros e uma homenagem à literatura. E não deixa de o ser, é certo, mas é sobretudo a história bem concebida, e com graça, de um núcleo familiar, a família Bronca (um apelido a suscitar inferências), que engloba vários membros incluindo um gato. Um núcleo, pois, de gente e bicho que, ao dar efectivo e obsessivo uso aos volumes da sua biblioteca, acaba por ter de inventar uma máquina lavadora de livros e, depois, um «secador de livros», para que os títulos se não baralhem (o que acontecia quando saíam do aparelho «lavador de livros»). Não desejo continuar a resumir, mas sim dizer que a escrita de Carla Maia de Almeida é segura, fluente, divertida, fazendo bom uso da onomatopeia, da interjeição, do neologismo e de um registo coloquializante, susceptíveis quer de prender a atenção do leitor/ouvinte quer de o fazer sorrir ou mesmo rir. A prova de que é possível, com talento e humor, estimular o gosto e a curiosidade pelos livros sem rodriguinhos piedosos nem maçadores lirismos. As ilustrações de qualidade de Sebastião Peixoto e as palavras de Carla Maia de Almeida souberam completar-se mutuamente, configurando, desse modo, uma espécie de álbum narrativo, cuja história os desenhos das guardas ajudam a enquadrar e a compreender. Convidam, além disso, a uma exploração prévia, que pode ser enriquecedora, destes elementos peritextuais preliminares. Nem sempre de apreciação consensual, os olhos em forma de continhas pretas – marca de estilo e elemento que assegura unidade – são, no caso em apreço, intencionais e semanticamente relevantes, constituindo-se como traço identitário da família: gente, recorde-se, sempre de olhos bem abertos para os livros.

Segunda e última obra: O Solar de Berbiande (Xerefé, 2018), que representa – e não é pequeno acontecimento – o regresso de Pitum Keil do Amaral (n. 1935) à edição para jovens pela mão de uma ilustradora bem conhecida, Ana Biscaia.

O arquitecto, ilustrador, escritor e homem de teatro e de TV conhecido como Pitum, filho da grande Maria Keil e autor de um delicioso O Zbiriguidófilo e Outras Histórias (ASA, 1991) – livro para crianças e jovens de humor contagiante e infelizmente esgotado – envereda aqui pelo fantástico puro. Em O Solar de Berbiande, propõe uma história de fantasmas bem narrada e bem escrita, inspirada em aspectos da gramática do conto tradicional, mas na verdade um exemplo de narrativa fantástica que sabe agarrar o leitor e provocar-lhe a necessária tensão emotiva. Não podia Pitum Keil do Amaral ter encontrado melhor ilustradora para esta obra; recorrendo ao lápis de grafite e à aguarela, Ana Biscaia mostra sempre um traço seduzido pelo estranho e pela sua inquietante beleza. Um pequeno livro, preciosa e cuidada edição, que decerto não ficará esquecido nas estantes.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Ucrânia e Turquia pressionam DocLisboa por causa da programação

A direção do festival de cinema DocLisboa divulgou ter sofrido pressões por parte das embaixadas da Ucrânia e da Turquia por causa da programação deste ano, que começa no dia 18.

A 16.º edição do DocLisboa decorre de 18 a 28 de Outubro com o foco «Navegar o Eufrates – Viajar no Tempo do Mundo»Créditos

Segundo Cíntia Gil, uma das diretoras do DocLisboa, o festival foi pressionado pela embaixada da Ucrânia em Portugal a retirar da programação o filme Their own Republic, de Aliona Polunina, selecionado para a competição internacional, alegando que «dá voz a uma organização terrorista».

Na carta, divulgada pela embaixada na rede social Twitter, a embaixadora Inna Ohnivets lamenta que o DocLisboa tenha decidido exibir um filme que «é uma demonstração de apoio ao terrorismo», porque se debruça sobre o batalhão Vostok, «uma formação armada ilegal das Forças Armadas da Federação Russa».

«Considero que o filme de Aliona Polunina é uma prova de apoio desta à política agressiva do Kremlin a respeito da Ucrânia», lê-se na carta, enviada à direção da associação Apordoc, que organiza o DocLisboa, e à administração da Culturgest, uma das salas que o acolhe.

A Ucrânia foi palco de um golpe de Estado no início de 2014, que colocou no poder forças fascistas e nacionalistas, que desencadearam acções violentas de repressão sobre as populações de origem russa no Leste do país. A Península da Crimeia, depois da realização de um referendo, decidiu separar-se da Ucrânia e aderir à Federação Russa em Março de 2014.

Cíntia Gil revelou ainda que o DocLisboa se reuniu com uma representante da embaixada da Turquia, a pedido desta, porque nas sinopses de dois filmes (Yol: The Full Version e Armenia, Cradle of Humanity) surgem as expressões «aniquilação do povo curdo» e, referindo-se à Arménia, «local de um dos genocídios mais violentos do século passado».

«O DocLisboa não é um festival neutro, temos uma posição política e não aceitamos interferências. É a primeira vez que me lembro de este tipo de situações acontecer. Fazemos um aviso e não uma denúncia, e convidamos os responsáveis a participarem nos debates, no final de cada filme», disse Cíntia Gil à Agência Lusa. Segundo a responsável, a representante turca não pediu para retirar os filmes, mas sim aquelas sinopses que surgem na programação.

A 16.ª edição do DocLisboa, festival de cinema dedicado ao documentário, decorrerá de 18 a 28 de Outubro, em várias salas da cidade de Lisboa.

Com Agência Lusa

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Informação aos media: Jacques Brel morreu há 40 anos.

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A data da morte de Jacques Brel foi praticamente ignorada pela Comunicação Social portuguesa (assinalável exceção da pequena evocação do 'Diário de Notícias').
Graphic 10 10 201818 10 25 copy "Tira a Mãozinha Daí" que a coltura instróiÉ pena porque o 40º aniversário da sua partida seria um momento útil para evocar um legado cultural de primeira grandeza. Desprezaram a possibilidade de um instante de pedagogia cultural mas compreende-se porque hoje a comunicação social lusa milita ativamente na promoção de enormes vultos como o Toy, o Marco Paulo, a Àgata ou o Tony Carreira. Acima do "Ne Me Quitte Pas" de Brel está, como muito bem sabe a"nossa" Comunicação Social o "Tira a Mãozinha Daí" de Maria Lisboa.
Pior que o nacional-cançonetismo da FNAT salazarista a "cultura" hegemónica está reduzida à mais ínfima categoria onde, obviamente, Jacques Brel, José Afonso, Georges Brassens ou Paco Ibañez não têm lugar. Esperemos que hoje (10 de outubro) se lembrem da morte de Edith Piaf há 55 anos.

brelCinco meses depois da Revolução dos Cravos Brel aportou nos AçoresO autor da 'Valsa a Mil Tempos' faleceu às 4 horas e 10 minutos da madrugada do dia 9 de Outubro de 1978 em Bobigny, quatro anos depois de ter aportado aos Açores onde o Dr. Decq Mota lhe prestou cuidados clínicos. O blogue "O Canto do Brel" assinala essa passagem por terras portuguesas.

O cantor, que considerava a política um ato de amor, dizia que um homem de esquerda é um homem que tem amor pelos outros e um homem de direita é um homem que tem amor por si próprio. As suas canções ajudaram homens e mulheres de todo o Mundo a olhar de outro modo e com sentido crítico as mais variadas dimensões do quotidiano, a acreditarem no Homem e a construirem esperança. Canções de revolta e de lucidez com um imenso amor.

 

 

 

 

Conhece Jacques Brel? Ou como os media apagam a memória.

Andámos à procura de Jacques Brel pelas ruas de Ponta Delgada. Ninguém sabia dele. Mas a bordo dum iate ancorado na marina falamos com alguém que possuía valiosas informações sobre a passagem do artista belga pelos Açores.