Comunicação

Nem de propósito

Na passada quarta-feira, o Jornal da Noite da SIC juntou Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira para comentar o debate do Estado da Nação, que teve lugar nesse dia à tarde na Assembleia da República. Quem tivesse saudades de assistir a uma análise político-económica na linha da «economia do pingo» e em versão Dupond et Dupont - que nos é tão familiar desde o início da crise - terá ficado satisfeito. José Gomes Ferreira afirmou, por exemplo, que «este Governo, e os partidos que o apoiam, são incapazes de reconhecer que quem cria emprego são as empresas» e que estas «têm que ter um bom ambiente e não têm», desde logo porque o «alto nível de fiscalidade» a que estão sujeitas está a «encher os cofres do Estado» e a «tirar rendabilidade a muitas» delas. Nada contra a defesa deste ponto de vista, mesmo que omitindo o desequilíbrio cada vez maior, desde 2004, entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital, que o Alexandre Abreu oportunamente aqui assinalou. O que inquieta é a persistente ausência de contraditório, mesmo quando se trata - como é o caso - de comentadores supostamente alheios ao plano de análise político-partidário. Isto é, uma ausência que acentua os enviesamentos existentes nesse plano, como há poucos dias se demonstrou aqui. É caso para dizer, nem de propósito.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

"na televisão, a direita vence a esquerda" e o PCP é fruto de um apagão...

 
« (...) Um estudo recente, aqui já escalpelizado por Nuno Serra, confirmou que o comentário político televisivo está enviesado para a política de direita no nosso país. Para lá disso, confirma-se o que já tínhamos aqui defendido: comunista praticamente não entra, não comenta. De facto, o PCP é o partido mais discriminado no comentário político televisivo. Eu já ouvi gente do meio dizer que é porque os comunistas são previsíveis, dizem sempre as mesmas coisas anacrónicas e tal. E eu digo que previsível é o preconceito anti-comunista. Os comunistas são a força onde é mais acentuada a discrepância entre o acerto de muitas posições, tantas vezes bem argumentadas, e a forma como essas posições são televisivamente desconsideradas. Para lá das eventuais questões de comunicação, há aqui um evidente preconceito ideológico, de classe. E nem vou falar desta vez das questões europeias, onde acertaram bem mais do que os europeísmos mais ou menos insanos que nos levaram aqui e que são absolutamente dominantes na televisão. Dou um exemplo mais circunscrito, mas igualmente importante para uma sociedade civilizada: a ferrovia. Se há partido que tem cabalmente denunciado os resultados da política de desinvestimento na, e de desmantelamento da, CP é o PCP, como se atesta lendo uma análise sobre este assunto. Por isso, o PCP está agora em boa posição para avaliar o significado de um primeiro gesto governamental que vai ao encontro do que sempre defendeu: a reintegração da EMEF na CP. É claro que no comentário político ninguém falará sobre isto a milhões na televisão. Afinal de contas, comunista não entra mesmo. Creio que nenhum leninista ficará surpreendido. A situação está tão má, dentro e fora da televisão, que esta grelha marxista tem hoje uma capacidade explicativa relativamente superior ao que passa por sabedoria convencional na televisão e até fora dela.»
João Rodrigues, in "Ladrão de Bicicletas"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Sobre o Estado e os placards de bordéis

O facto do Ministério Público continuar a usar um conhecido placard de bordéis de Lisboa para veicular posições suas, coloca o problema da responsabilidade do Estado na frustração do Direito à Informação.

 

O facto do Ministério Público continuar a usar um conhecido placard de bordéis de Lisboa para veicular posições suas e, no caso, contra a factualidade patente e produzida à vista de todos os presentes em sessão pública, coloca, aliás em vários planos, o problema da responsabilidade do Estado na frustração do Direito à Informação;

  • O Estado deve ser interpelado como responsável pela deterioração da dignidade da publicação noticiosa, ao permitir a imunidade material objectiva de pretensos jornais, que são meros pretextos para a publicação de placards pornográficos de bordéis,
  • O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela facilitação desta modalidade de proxenetismo pornográfico, uma vez que, ao invés da promoção penal do MP, estes editores pornógrafos recebem notas para publicação do MP que devia promover contra eles,
  • O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela deterioração da qualidade da informação política e judiciária, uma vez que o seu Serviço de Informações e de Segurança ousa remunerar (como agentes e informadores) pretendidos jornalistas desses universos de pornografia de indiciados lenocidas, usando-os em campanhas suas (que são as de funcionários com o freio nos dentes, insusceptíveis de controlo pelo governo, ou pelo parlamento),
  • O Estado é responsável pela inoperância da ERC e pela passividade da Comissão da Carteira, que asseguram a absoluta imunidade de quaisquer campanhas ad hominem, esmagadoras, irrespondíveis, maciças – envolvendo até as famílias das vítimas, compreendendo crianças – ao mesmo tempo que os tribunais perseguem com crua ferocidade o protesto de cidadãos comuns, ao abrigo da pretensa injúria e da pretensa difamação
  • Para se ter a noção da perversão radical da liberdade de palavra, note-se,
    • os cidadãos comuns são submetidos a perseguição menos que miserável, por pretensa injúria e difamação, a propósito do mais leve protesto, escondendo o Estado os números actuais do miserável assédio a que os cidadãos são por ele submetidos sob tais epigrafes
    • enquanto os funcionários do estado (designadamente das policias, MP, e até da organização judicial) se entregam ao estimulo de campanhas de imprensa ad hominem, em violação aberrantíssima de todos os direitos da personalidade das vítimas, mas no próprio e exclusivo interesse dos funcionários, no quadro de acordos plausivelmente delituais,
    • e o Estado esconde – também miseravelmente – os números do massacre a que os seus agentes do MP e demais estruturas judiciárias se têm entregado; assim,
    • foram proferidas no ano de 2013 (último ano de que há dados publicados, que os demais estão escondidos) 1190 condenações por injúria e difamação, simples ou agravadas (com apenas nove condenações de “crimes de imprensa”)
      Media Laws | Database
    • não há informação do tempo de pendência destes processos e não há dados quanto às absolvições e tempos de pendência, sendo certo que estes processos são mal em si próprios, doentio instrumento de controlo político, atentado contra a normal vida das pessoas que ali vivem sob constrangimento indecoroso, como eu próprio declarei ao parlamento sem desmentido ate hoje (não há aliás desmentido possível)
  • A liberdade de expressão está completamente anulada neste território, ou apenas subsiste graças à blogosfera e ao FB,
  • Transmutou-se numa liberdade de campanha infamatória arbitrariamente determinada por funcionários e seus cúmplices, nos organismos da insolvente imprensa e na indigência dos meios audio-visuais comerciais (ainda que não possam passar os meios públicos por isentos, porque o não são)
  • Sublinho – para se ter bem a noção do nível atingido de degenerescência – que tendo formulado há dias uma reclamação, em tribunal superior,
    • onde sublinhava a inépcia de pretendidas manobras de vigilância fora das fronteiras, feitas por pretensos policias portugueses (que fora das fronteiras não podem fazer vigilâncias) e onde notara que aqueles infelizes não tinham sequer conseguido descrever um percurso completo que houvessem feito, nem fixar o nome de estabelecimentos comerciais que queriam referir (aquilo era “um café” que ali havia, como se não houvesse vários, a caminho do qual seguiram o alvo “por várias ruas”, sendo que em algum lugar terá havido uma inversão de marcha, sem que se possa saber em qual das ruas de entre as diversas)
    • recebi para meu espanto a resposta da policia num jornal (o tribunal superior preferiu discutir outras coisas) e vinham dizer que tinham descrito um percurso, sim, repetindo o relatório com os mesmos problemas (que não conseguiram reproduzir nos depoimentos em audiência);
    • e, portanto, os funcionários seguem a evolução dos seus interesses em processo (com evidente colaboração do tribunal) e respondem ou retaliam pela imprensa onde haverá sempre um avençado que “escreve muito bem” a servir-lhes as versões a um público que felizmente já não há.
  • Depois dos indecorosos casos de José Sócrates, Frederico Carvalhão e Bruno de Carvalho, o Estado não pode deixar de ser interpelado na óptica dos interesses difusos do Direito à informação pelo facto dos cidadãos estarem sob assédio constante de uma lumpen-imprensa, materializada na propaganda de funcionários e bordeis, parecendo restringir-se a seriedade ao quase único jornal relevante em Língua Portuguesa: o El País (também há a edição em Língua Portuguesa do Pravda)
  • A conduta reiterada dos funcionários no abuso e manipulação das liberdades da imprensa, das quais também abusam proxenetas e pornógrafos sob a indesmentível protecção funcional daqueles, assume, objectiva e materialmente, o alcance de uma conspiração contra o núcleo fundamental dos valores e instrumentos da Democracia Parlamentar, conduzida por gente que tem do Estado uma concepção onde se assinalam todas as linhas do esboço de Hauriou: o Estado de Petain, Franco e Salazar.

Aos vossos postos, se não se importam.

Vamos tratar disto.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/sobre-o-estado-e-os-placards-de-bordeis/

Comunista não comenta

Lenine dizia que a política deve dirigir-se a milhões de pessoas. E no tempo de Lenine ainda não havia televisão. Um estudo recente, aqui já escalpelizado por Nuno Serra, confirmou que o comentário político televisivo está enviesado para a política de direita no nosso país. Para lá disso, confirma-se o que já tínhamos aqui defendido: comunista praticamente não entra, não comenta. De facto, o PCP é o partido mais discriminado no comentário político televisivo. Eu já ouvi gente do meio dizer que é porque os comunistas são previsíveis, dizem sempre as mesmas coisas anacrónicas e tal. E eu digo que previsível é o preconceito anti-comunista. Os comunistas são a força onde é mais acentuada a discrepância entre o acerto de muitas posições, tantas vezes bem argumentadas, e a forma como essas posições são televisivamente desconsideradas. Para lá das eventuais questões de comunicação, há aqui um evidente preconceito ideológico, de classe. E nem vou falar desta vez das questões europeias, onde acertaram bem mais do que os europeísmos mais ou menos insanos que nos levaram aqui e que são absolutamente dominantes na televisão. Dou um exemplo mais circunscrito, mas igualmente importante para uma sociedade civilizada: a ferrovia. Se há partido que tem cabalmente denunciado os resultados da política de desinvestimento na, e de desmantelamento da, CP é o PCP, como se atesta lendo uma análise sobre este assunto. Por isso, o PCP está agora em boa posição para avaliar o significado de um primeiro gesto governamental que vai ao encontro do que sempre defendeu: a reintegração da EMEF na CP. É claro que no comentário político ninguém falará sobre isto a milhões na televisão. Afinal de contas, comunista não entra mesmo. Creio que nenhum leninista ficará surpreendido. A situação está tão má, dentro e fora da televisão, que esta grelha marxista tem hoje uma capacidade explicativa relativamente superior ao que passa por sabedoria convencional na televisão e até fora dela.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Televisão sardinhas e tubarões

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Sempre que vejo os noticiários televisivos, lembro-me daquela nauseabunda tasca-carvoaria na esquina da Rua das Flores com a rua de S. Paulo, que servia sardinha assada durante todo ano. O cheiro gordo e requentado das sardinhas misturado ao carrascão empestava quem por lá passasse.
Isto porque nas TVs, do primeiro ao último telejornal, servem-nos escroques durante todo o ano, tubarões-martelo, arrastados por advogados que, a peso de ouro, procuram ilibar os superpredadores do património público, que tresandam a corrupção e deixam um fedor repugnante misturado com Chanel e a arrogância própria a esta espécie, que tem como santuário o PS/PSD/CDS onde também se acoitam muitos cações e algumas piranhas.
Os que passavam pelos arredores da tasca, acabavam por se habituar, assim como, perigosamente, também pode acontecer aos que acabam por aceitar os tubarões que vêem na televisão com se fossem peixelim.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Portugal | Racismo: entre o crime e a liberdade de expressão

Portugal está entre os países mais racistas da Europa
Pedro Carlos Bacelar de Vasconcelos* | Jornal de Notícias | opinião

É surpreendente que um órgão de Comunicação Social, seja ele qual for, se preste a ser veículo de mensagens xenófobas e racistas.

O jornal "Público" fê-lo quando consentiu servir de veículo à expressãoflagrante dos mais primitivos sentimentos de xenofobia e ódio racial confessados pela sua colaboradora prof. Fátima Bonifácio, em artigo de opinião publicado no último fim de semana. Tal como a TVI quando entrevistou Mário Machado. Não é razoável, no primeiro caso, que, tendo admitido publicar tal artigo de opinião, a Direção não o fizesse acompanhar, à margem, de uma explícita declaração de repúdio, incluindo o anúncio de que a colaboração da autora cessava a partir dessa data, por manifesta incompatibilidade com a linha editorial de que o jornal tanto se orgulha e que ainda sustenta o prestígio que alcançou junto dos seus leitores. No segundo caso, menos razoável ainda é invocar um alegado interesse jornalístico.

A própria liberdade de expressão, como todos os direitos, é limitada por outros valores e princípios constitucionais que, em situações muito graves, podem conduzir à sua qualificação como crime, conforme prevê o Código Penal em vigor: - "quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crime de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade; (...) b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, (...) é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos". (Art.ª 240, nº2, alínea b) do Código Penal). E a Lei de Imprensa determina que o "diretor, o diretor-adjunto, o subdiretor ou quem concretamente os substitua, (...) que não se oponha, através da ação adequada, à comissão de crime através da imprensa, podendo fazê-lo, é punido com as penas cominadas nos correspondentes tipos legais, reduzidas de um terço nos seus limites". (Art.º 31, n.º 3).

Diz George Orwell, num ensaio datado de 1945 que infelizmente preserva inteira atualidade, reeditado pela Penguin UK, em 2018 (Notes on Nationalism - Antisemitism in Britain): "O problema é que alguma coisa, alguma vitamina psicológica, falhou na civilização moderna e, em consequência disso, todos nós estamos mais ou menos sujeitos a esta loucura de acreditar que nações ou raças inteiras são misteriosamente bondosas ou misteriosamente más". Esta crença demencial foi exposta tragicamente pelos horrores da guerra e dos campos de concentração e extermínio. A confissão dos preconceitos racistas e xenófobos da prof.a Fátima Bonifácio, oferecida num registo pretensamente ingénuo e paroquial, é hoje indesculpável.

*Deputado e professor de Direito Constitucional

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-racismo-entre-o-crime-e.html

Brasil | O ESPAÇO DE LIBERDADE CONSENTIDO

Assistir ali aos debates sobre Reforma da Previdência nas duas estações de TV brasileira transmitidas em Portugal (Record e Globo) foi um exercício revelador. 

Pode-se dizer que na verdade não houve debate real:   todos os intervenientes neles apresentados eram a favor desta Reforma – não apareceu ninguém que falasse contra. Assim, os ditos "debates" circunscreviam-se sempre a questões acessórias da reforma e nunca sobre o mérito da mesma – era uma ilusão de debate. 

O principio jornalístico elementar de ouvir todos os lados quando se dá uma notícia ou se promove um debate foi totalmente ignorado. Isto confirma mais uma vez a tese de Noam Chomsky sobre "o espaço de liberdade consentido" (em A fabricação do consentimento ) nos media corporativos. A liberdade de imprensa é realmente a liberdade dos donos dos media.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/brasil-o-espaco-de-liberdade-consentido.html

Quase tudo como dantes?

Um recente estudo do MediaLAB (ISCTE), publicado no European Journalism Observatory, dá conta do enviesamento do comentário político face ao espectro partidário português. Tomando como referência os espaços televisivos de diferentes estações, constata-se a prevalência de comentadores de direita, filiados ou não em partidos. De facto, a direita assegura em média cerca de 60% dos intervenientes em programas de comentário e debate político nos principais canais (generalistas ou de informação), somando os intervenientes à esquerda apenas cerca de 30% e os comentadores não alinhados 11%. Como referem os autores do estudo, que analisa 53 espaços semanais fixos de opinião, a maior presença da direita nas televisões portuguesas contrasta tanto «com a composição partidária da Assembleia da República» como com a «delegação portuguesa recém-eleita para o Parlamento Europeu».
De facto, uma distribuição de intervenientes congruente com a representação parlamentar da Assembleia da República, e que mantivesse uma «quota» de 11% para os comentadores não alinhados, obrigaria a que 47% dos intervenientes em programas de comentário e debate político se situassem à esquerda, devendo a representação da direita descer de 60 para 41%, perdendo portanto a posição dominante que atualmente ocupa. Como bem sabemos, o problema não é novo. O défice de pluralismo foi particularmente expressivo no início da crise financeira e essencial para que a mesma fosse convertida, em termos de narrativa político-económica (e dada a ausência de contraditório), em crise das dívidas soberanas, facilitando o abrir de portas à aceitação sem verdadeiro debate, nas televisões, do processo de «ajustamento» e da agenda da austeridade. É certo que desde então - e sobretudo depois de a própria realidade demonstrar a fraude intelectual associada à estratégia da «austeridade expansionista» e do «empobrecimento competitivo» - a direita opinativa (frequentemente apresentada como portadora de um discurso meramente «técnico») deixou de ter chão para poder continuar a insistir no linguajar da culpa e dos sacrifícios redentores. Mas a verdade também é que a sua presença hegemónica no debate televisivo não se alterou substancialmente, apesar do surgimento nas televisões de novos rostos à esquerda e de programas com maior equilíbrio e pluralismo em termos de representação de sensibilidades políticas e partidárias.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Fátima Bonifácio, o “Público” e os valores morais dos brancos

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/07/2019)

Daniel Oliveira

 

Fátima Bonifácio escreveu, no “Público”, um artigo que teve como ponto de partida a ideia de se criarem quotas para minorias étnicas semelhantes às que já existem para as mulheres. As quotas para mulheres conseguiram, apesar de todas as críticas, romper com o bloqueio que existia à sua representação política e visibilidade públicas. O resultado desta medida desmentiu a ideia de que pode existir uma progressão social meritocrática que ignora relações de poder pré-existentes. As quotas, por natureza transitórias, não são uma forma de ignorar o mérito, são uma forma de derrubar as barreiras do preconceito que se sobrepõem ao mérito.

No seu artigo, Fátima Bonifácio não nega nada disto. Pelo contrário, reconhece os bons resultados conseguidos pelas mulheres. Para depois dizer que isso não seria extensível às etnias. Porque não tenho uma opinião fechada sobre as quotas para minorias étnicas – assim como não tinha sobre as quotas para mulheres até recolher bons argumentos em sua defesa –, estava disponível para ler quem explicasse a diferença entre as duas. Por exemplo: umas e outras identidades serem mais ou menos difusas. Ou o peso destas minorias em comparação com metade da população, que é feminina. Havia muito por onde pegar para abrir um debate difícil. Aquilo com que me deparei é de tal forma abjeto que usá-lo como ponto de partida para qualquer debate corresponderia a um desprestígio intelectual para quem o fizesse. Não cumpre os mínimos. Sobre o artigo de Fátima Bonifácio, que poderia ser sobre um tema interessante e complexo, não há outro tema que não seja a própria existência do artigo.

As generalizações racistas com que somos brindados são precedidas por um postulado geral, escrito, sejamos justos, com uma clareza desconcertante: “As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.”

Não vou perder tempo com os exemplos que Fátima Bonifácio utiliza, depois desta exuberante afirmação que atira grupos étnicos inteiros para o mesmo saco cultural, para explicar as diferenças entre negros e ciganos, por um lado, e “nós”, por outro. Têm mesmo de ler o texto. O grau de ignorância atrevida é de tal forma avassalador que seria tão difícil manter um diálogo com a senhora como com qualquer troglodita do PNR. Desde unificar os afrodescendentes com religiões e culturas totalmente diferentes num mesmo caldo cultural a parecer ignorar que os ciganos portugueses são maioritariamente cristãos (dantes maioritariamente católicos, agora seduzidos por igrejas evangélicas), ou nada saber sobre a relação do drama da mutilação genital feminina com o Islão ou sobre tradições ciganas, passando por uma sucessão impressionante erros factuais, imprecisões graves, generalizações absurdas e afirmações levianas, o artigo está ao nível da mais primária das conversas de café. É natural que assim seja, quando a colunista baseia alguns dos seus conhecimentos em relação às minorias étnicas na clássica conversa com a empregada doméstica.

Mas há momentos de deliciosa ironia. Depois de dedicar um parágrafo generalizador e racista aos ciganos, passa para os afrodescendentes e aponta-lhes o seu primeiro defeito coletivo: “Odeiam ciganos”. Aliás, “os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou ‘nacionalidades’ rivais”. Para quem possa estar distraído, Fátima Bonifácio é branca. Parece que acontece, excecionalmente, haver brancos que são “abertamente racistas”. Mas não é como nos africanos. Esses são mesmo todos.

Não fosse publicado num jornal, o texto corresponderia às alarvidades que podemos ler nas caixas de comentários aos artigos. A mesma ignorância atrevida, a mesma generalização racista, a mesma imbecilidade doutorada. Na realidade, se lermos as regras que o “Público” aplica (“são intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença”), percebemos que o jornal é mais criterioso na publicação de comentários aos artigos do que na publicação dos próprios artigos.

Como é natural, tendo em conta a natureza abertamente racista do artigo, houve muitas reações. Como seria de esperar, milhares de vítimas do politicamente correto rapidamente se atiraram para o chão. As regras deste tempo são estas: os alarves são livres de escreverem o que querem, de insultarem quem querem, de espalharem o ódio e o preconceito como querem. E quem se atreva a mostrar a sua indignação é um totalitário. E assim, o agressor vira vítima em poucos minutos.

O texto de Fátima Bonifácio não é semelhante a coisas ditas ou escritas por André Ventura. Nunca aquele oportunista se atreveu a dizer ou escrever metade do que lemos no “Público”. O texto de Fátima Bonifácio traça de forma explícita uma linha cultural divisória entre “nós”, os brancos, e “eles”, os outros. Como ela diz, africanos e ciganos não “fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” e não “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”, não tendo “os mesmos valores morais” dos brancos.

Nada do que escreveu Fátima Bonifácio sobre negros e ciganos se distingue do que escreveria um nazi sobre judeus nos anos 30. Nada. É que eles não começaram por defender o Holocausto. Apenas explicaram que entre “nós” e os judeus havia uma fronteira intransponível de valores morais. Sendo os nossos obviamente superiores. O resto veio por arrasto.

Antes que nasça uma nova associação de lesados do politicamente correto, quero deixar claro que não pretendo que Fátima Bonifácio se cale. Só não quero ajudar a financiar a sua palavra, comprando jornais onde ela escreva. Mas defendo o seu direito a escrever e dizer todo o lixo que tenha na cabeça.

Sei que a banalização do racismo tem o perigo de o tornar aceitável, mas prefiro que se perceba de uma vez por todas que o problema de Trump e Bolsonaro não é serem boçais. Que o problema dos seus eleitores não é passarem muito tempo no Facebook. Que eles representam uma rutura civilizacional em que participam sectores intelectuais com peso político.

Acredito na liberdade de cada um escrever e de ler tudo o que quiser. E acredito na existência de jornais que dependem dos leitores. Não sou assinante do “Observador”. Também não sou do “Diabo”. Porque acho que devem ser os que se reveem naqueles projeto políticos e editoriais a financiá-los. Sou assinante do “Público” porque espero que, num clima de pluralismo, cumpra os valores que constam dos princípios editoriais que publicita desde a sua fundação. Defender a liberdade de todos se expressarem não implica eu ajudar a pagar propaganda xenófoba. Um jornal que eu leia é plural, dentro dos tais valores que Fátima Bonifácio julga serem seus mas não de Nelson Mandela. Quem se coloca de fora desses valores deve ter a liberdade de escrever, insultar e no fim ainda se atirar para o chão porque há quem não goste. E eu tenho a liberdade de não lhes pagar por isso.

Se “The New York Times”, “The Guardian” ou “Le Monde” publicassem um texto deste calibre, a revolta ganharia dimensões que o tremendamente tímido e inconsequente editorial de Manuel Carvalho não chegaria seguramente para serenar. A credibilidade demora muito a construir mas destrói-se num dia. Se não houver consequências disto, por pressão dos leitores, é péssimo sinal para o “Público”. É sinal que está morto. E eu não quero isso.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ser-se sério (em política)

(Joaquim Vassalo Abreu, 05/07/2019)

Vassalo Abreu

Até pode ser que não vivamos no melhor dos mundos, e não vivemos, muito embora eu pense que tudo quanto se ouve e lê não corresponde minimamente ao que se sente.

 

Isto é, o discurso do “caos” nos Serviços Públicos e o da “maior carga fiscal de sempre” tão propalado por toda a Direita e dito publicamente por tudo quanto é comentador arregimentado, não corresponde ao que na realidade se passa e não configura outra coisa que não uma mentira tão repetida que, sendo também repercutida por toda a comunicação social, pretende transformar-se em verdade.

É uma velha táctica de uma Direita que, não tendo qualquer plausível tese a contrapor, fazendo uso da sua também já histórica falta de escrúpulos, quer fazer crer aos incautos que aquilo que lhes dizem ser um bom Governo não passa de uma união familiar de incompetentes que não sabem investir, e só a Direita o sabe, dizem eles, e que, em nome de um défice zero, deixaram os Serviços Públicos destroçados e basta ver as greves…

Mas não vou aqui falar dessas greves cirúrgicas e de classe por ela (Direita) fomentadas, pois até o menos esclarecido politicamente o sabe ler, mas fazer um pequeno exercício acerca do que seria a realidade, a verdadeira realidade, se este Governo não tivesse seguido a política económica e financeira responsáveis que seguiu!

Vamos então supor que, segundo o douto raciocínio da Direita (Manuelas e outros eles…), o défice em vez de ser próximo do zero se situava nos 1,5%, por exemplo. O que teríamos então?

Desde logo uma situação de incumprimento das regras Europeias e as consequentes sanções; a perda de fundos comunitários e seu imediato reflexo na redução, aqui sim, do investimento; a desconfiança dos mercados e, sem contemplações, os juros mais altos; o inevitável selo de incumpridor e a decorrente perda de credibilidade e, mesmo, da capacidade conseguida de influenciar…

O conseguido por este Governo nestes quatro curtos anos é tão notável que até tendemos a esquecer o “mundo” da mentira com que o anterior governou e a tristeza franciscana em que o deixou. E não deixa de ser caricato que, quem nos deixou no pior dos mundos, o anterior Governo, exija que este Governo nos deixe no melhor dos mundos…Não vivemos naturalmente no melhor dos mundos mas vivemos num País incomensuravelmente melhor quatro anos passados…

Quem nos trouxe apenas a austeridade como promessa de uma redenção futura, tal qual uma duradoura penitência como  a via para se alcançar alguma etérea benção, nunca aceitou que este Governo, sem essa austeridade e antes pelo contrário, tenha obtido a recuperação da dignidade pátria e alcandorado o nosso País e o nosso Povo ao estatuto da admiração externa, em apenas quatro anos!

O Défice a tender para o zero; saldos primários positivos; superávites nas contas públicas; juros negativos a curto e médio prazo e já próximos do zero a longo prazo- dez ou mais anos (já equivalentes aos espanhóis e inferiores aos italianos) e outras coisas mais, para lá de tudo o já enunciado, trouxeram como resultado uma poupança gigantesca em juros que, com outra política, nomeadamente a da Direita, só poderia ser compensada, e novamente, por cortes nos salários e pensões ou aumento de impostos como sucedeu naqueles anos tenebrosos do seu governo, o de Passos Coelho…

Mas o que é, então, SER-SE SÉRIO? Em Política é, muito naturalmente, fazer o que se prometeu e não o seu contrário (como fez Passos Coelho); é prometer o exequível; é ser-se sensato e rigoroso e é dizer a verdade! Tão simples quanto isto!

António Costa chamou e anunciou uma equipa de Economistas que redigiriam um manifesto económico de suporte às políticas anunciadas ( relembro que baseadas no aumento do consumo como pedra basilar para o crescimento e consequente recuperação), equipa essa dirigida pelo futuro Ministro das Finanças- Mário Centeno, e tanto ele como essa equipa cumpriram o que prometeram e, ainda por cima e muito bem, com resultados que nem nós esperávamos…Foram Sérios!

Ora o que anuncia, para já, Rui Rio? Uma tremenda redução de impostos (três mil milhões, julgo ter lido…); um equivalente aumento do investimento público e, pasme-se, tudo isto com um excedente orçamental!!! A teorização da “quadratura do círculo” ou a descoberta de que a “terra é mesmo plana”, será?

A insuspeita Constança Cunha e Sá, com muita graça, escreveu no seu Twitter: “É isso que Rio quer, não é? Já eu, só quero ganhar o Euromilhões!”.

Eu direi de outro modo: Isto é NÃO SE SER SÉRIO…

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O mundo em realidade paralela

por José Goulão [*]

A elite governante mundial, em aliança com o aparelho comunicacional global que trata da sua propaganda, querem forçar-nos a viver numa realidade paralela, aquela em que a versão ficcional e oficial dos factos se transforma em verdade única, indiscutível, sendo a discordância anatemizada como fake news.

Para ter a noção da envergadura da burla basta-nos pegar em alguns factos que fazem a actualidade, segundo a agenda ditada pelo aparelho de propaganda, e aprofundá-los um pouco. Não será necessário cavar muito fundo, porque a mistificação fica exposta a partir das primeiras incisões: não pode dizer-se que haja especial cuidado em preparar algumas das farsas.

No topo da actualidade está a guerra contra o Irão: haverá ou não haverá? Quando haverá? Como haverá? O problema resume-se a estas dúvidas.

Presume-se, pois, que existam razões justas, mecanismos legais para que a guerra se faça, talvez resoluções das Nações Unidas ou coisas do género.

Não, resoluções não há; tão pouco o Congresso dos Estados Unidos deu o consentimento constitucional ao presidente para atacar o Irão. E, já agora, alguém sabe dizer o que fez o Irão para que mereça ser alvejado? Parece que uns petroleiros danificados no Golfo de Omã sem que haja provas de quem cometeu o crime; e o derrube de um drone norte-americano que invadiu o espaço aéreo iraniano, facto de que existem sobejas provas embora sejam censuradas pela comunicação global.

Digamos, porém, que estas circunstâncias poderão ser pretextos circunstanciais, os casus belli, a ignição do conflito armado.

Porque a pergunta que conta é esta: por que razão está o Irão a ser vítima de uma guerra através de sanções económicas arbitrárias que pode estender-se à componente militar? Procurem a resposta no mainstream: encontrá-la é tão difícil como acertar no euromilhões. Isto é, parte-se do princípio de que o Irão tem de ser punido porque sim ou por alguma coisa que já se manipulou e dissolveu algures entre notícias empolgadas, comentários e análises de uma guerra, afinal, imprescindível – é isso que interessa.

De vez em quando cita-se o presidente dos Estados Unidos dizendo que, coitado, ele não quer a guerra, Teerão é que a força; por ele, preferia negociar…

Negociar o quê? Ao que parece que o Irão se comprometa a não ter armas nucleares. Mas isso já ficou estabelecido num acordo aprovado em 2015 entre Teerão, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha. Um acordo que está a funcionar, como comprova a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nos relatórios das suas inspecções trimestrais.

Acontece que os Estados Unidos deram o dito por não dito e retiraram-se há tempos do texto que assinaram. O que não inviabiliza o acordo nem significa que o Irão o viola. Então a guerra de que se fala é uma acção unilateral dos Estados Unidos – em que quer arrastar o mundo inteiro – para supostamente negociar o que está negociado. Sendo que, por ironia da história, o único projecto nuclear militar que o Irão alguma vez teve foi criado pelos Estados Unidos quando sustentavam a ditadura criminosa do Xá Reza Pahlevi.

O mainstream, porém, não trata disto: dá muito trabalho às pessoas, ocupa-lhes a cabeça, faz pensar. Coisa que normalmente não é boa para as guerras. 

E as guerras são para fazer.

Onde entra a NATO

E quando se fala em guerra surge a NATO; como se sabe, sempre com a mais louvável e indiscutível postura "defensiva" – não é assim que assegura a comunicação/propaganda?

A NATO é sempre notícia, e mais ainda quando, como agora, se reuniram os ministros dos Estados membros.

Sempre no seu estilo contido, disseram os ministros, em redor do seu secretário-geral renomeado de fresco, que ou a Rússia suspende a produção de um determinado míssil de médio alcance com capacidades nucleares ou a NATO procederá em conformidade.

Ficou dado o recado, bem distribuído pela comunicação social. E basta! O resto é dispensável, toda a gente sabe muito bem quem são os russos.

Vamos então aprofundar um pouco a matéria.

Os russos dizem que o míssil em questão não viola o tratado de mísseis de médio alcance (INF), mas isso nada vale – é dito pelos russos. Poder-se-iam confrontar as duas versões, mas o que a NATO diz está dito, é um dogma.

Além disso, as várias formas de rearmamento visando a Rússia que a NATO tem adoptado, em terra e no mar, viola esse tratado porque transforma objectivos supostamente defensivos em vantagens ofensivas e com capacidades nucleares.

Bom, mas isto é dito igualmente pelos russos e também por pessoas informadas mas cujas opiniões e factos apresentados não cabem na versão oficial.

No entanto, seria importante sublinhar que o recado é enviado pela NATO aos russos precisamente na mesma altura em que a Junta de chefes do Estado-maior das forças armadas norte-americanas – isto é, da NATO – aprovou uma nova doutrina. E esse normativo prevê o recurso a armas nucleares como meios "decisivos" para resolver situações em que não haja "vitórias convincentes" das forças do bem, as que asseguram "o nosso civilizado modo de vida". Isto é, situações como as do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, quiçá do Irão, da Crimeia e o mais que ao bem aprouver. Trata-se, diz a Junta, de garantir a "estabilidade estratégica", ao que parece uma situação que apenas é alcançável com vitórias plenas e domínio absoluto dos Estados Unidos e da NATO, nem que seja, a partir de agora, com bombas nucleares.

O mainstream deveria ter dito alguma coisa sobre isto, pelo menos para os cidadãos ficarem a saber que as bombas nucleares poderão passar a decidir conflitos convencionais. Dizer para quê? Isso só iria agitar consciências tão postas em sossego com a informação fast food que lhes é servida.

O humanitário Guaidó

Estando o Irão no topo da agenda parece ter amainado, por ora, a sanha contra a Venezuela e as escolhas democráticas dos venezuelanos; até a RTP reduziu a intensidade dos esforços para transformar em grandes e legítimos democratas os fascistas enviados por Trump, Bolton & Cia.

Isto não significa que a guerra travada em várias frentes, designadamente as sanções contra o povo e o roubo de bens do Estado não prossigam. O assunto é que transitou das manchetes para páginas interiores e posições intermédias dos alinhamentos.

Por isso o grande público não foi informado do episódio mais actual da "operação liberdade", aquela tentativa de golpe em Fevereiro passado montada em torno do pretexto da entrada de "ajuda humanitária" na Venezuela, com o conquistador Juan Guaidó na frente.

Pois os bens angariadas por organizações tuteladas pela CIA e os milhões alcançados no concerto Live Aid ficaram na Colômbia e, segundo informações que são agora do conhecimento público, filtradas por agentes dos próprios serviços secretos colombianos, foram direitinhos para os bolsos e as contas pessoais das hostes de Guaidó, o presidente interino nomeado por Washington. Até o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, um dos mentores de toda a "operação liberdade", surge agora a pedir um inquérito às circunstâncias, uma vez que, por outro lado, parte da "ajuda" alimentar ficou a apodrecer em armazéns em Cúcuta, comunidade colombiana a que poderia ser útil pois está muito carente de tudo o que não lhe chega de Bogotá.

Portanto, este desfecho da tão empolgante "operação liberdade" que iria "libertar" os venezuelanos do "jugo" do democraticamente eleito Maduro ficou por contar pela comunicação/propaganda. E trata-se, afinal, de um final feliz – e rentável – para aqueles que, embora não "libertassem" a Venezuela se viram livres de hipotéticas dificuldades financeiras pessoais.

Epílogo ecológico

Viria a talhe de foice destas situações recordar palavras recentes do secretário-geral da ONU, Eng. António Guterres, que tiveram apropriadas tonalidades autocríticas embora, mais uma vez, passassem ao lado do essencial – a mentira, o desprezo e o desrespeito em que vive mergulhada a esmagadora maioria dos seres humanos do planeta, perante a complacência das Nações Unidas.

Disse o Eng. Guterres que a geração dos dirigentes actuais não tem estado à altura das necessidades – mas fê-lo no contexto da degradação ambiental e das alterações climáticas.

Ora há muitas situações trágicas a montante e das quais a contaminação ambiental e os problemas climáticos são óbvias consequências. Há a guerra, as desigualdades cada vez mais profundas entre Estados e povos, as armadilhas financeiras, o desprezo ostensivo pelos direitos humanos, as antigas e mais recentes formas de colonialismo militar e económico, a desenfreada corrida às matérias-primas, o destruidor expansionismo agrícola transnacional, a impunidade da exploração de matérias-primas por métodos destruidores da água e dos solos, o comércio injusto dito "livre", o descarado desrespeito do capitalismo transacional por normas que poderiam preservar o ambiente mas, no seu entender, provocam restrições à ganância intrínseca.

O meio ambiente e a ecologia não existem por si, como bolhas que possam ser tratadas isoladamente sem mudar o mundo.

Imagine-se que agora até o mainstream é ecológico, fala contra as alterações climáticas, descobriu que o plástico é nocivo para o ambiente. Falta-lhe apurar e explicar, porém, como é que o desastre ambiental afecta drasticamente a esmagadora maioria dos pobres e poupa os ricos, os que o provocam, construindo-se assim mais um sistema de apartheid.

A comunicação global e o Eng. Guterres estão, afinal, no mesmo comprimento de onda, cumprindo-se a ordem natural das coisas. Uma, porque a sua missão neste mundo é impor a realidade paralela; o outro porque contribui para fabricá-la, embora pudesse não o fazer, ao menos para respeitar os direitos humanos.

26/Junho/2019

[*] Jornalista.

O original encontra-se em https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=424

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/varios/realidade_paralela.html

Visão de classe

“Assim que se chega à região do Douro, ela arrebata. E pensa-se logo em quem se teria lembrado de plantar vinha nestas encostas íngremes, que hoje lhe dão um floreado tão especial.” Luísa Oliveira foi ao Douro e pensou nos termos da classe dominante da região, mas em versão eterno feminino, o que deve fazer toda a diferença, sei lá. A jornalista da Visão não pensou logo em quem construiu os socalcos, plantou as vinhas ou colheu as uvas; em quem fez e faz o Douro, em suma, nas condições em que o fez e faz. Já se escreveu sobre o Douro de forma arrebatadoramente neo-realista. Nestes tempos de celebração sem fim dos ricos e das ricas, de corrosão moral sem fim, escreve-se de forma confrangedoramente neo-ilusionista, esquecendo as perguntas fundamentais, as perguntas sobre as mãos de novo invisíveis. Obviamente, este neo-ilusionismo está em linha ideológica com o porno-riquismo que esta revista celebra semanalmente, de norte a sul deste país fracturado – Bellino e Ralph Lauren investem em empreendimento de luxo para fazer Hamptons no Alentejo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Querem tomar-nos por parvos

Uma proposta género
gato escondido com
o rabo de fora
Pelo meio das duas generosas páginas que o«Público» resolveu oferecer às propostas «ecológicas» do PS para a sua campanha eleitoral, ficámos a saber que o PS desafia todos os partidos a reduzirem para metade o número dos seusoutdoors de campanha. Ora acontece que é nessas mesmas páginas do «Público»que também ficamos a saber que o PS foi o partido que mais gastou nesse material de campanha (190 mil euros). Mas o que nem o PS nem o«Público» nos explicam é que com muita probabilidade a CDU (por limitações financeiras) afixa para aí um décimo do número deoutdoors que PS ou PSD afixam. E que, portanto, as consequências da proposta teriam efeitos muito diferentes pois, para a CDU, significariam uma presença quase irrelevante no que toca a esse meio de propaganda eleitoral. A causa do ambiente é meritória e irrecusável mas assim é melhor irem dar banho ao cão !

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Bofetadas inesperadas e falácias em prol do ensino privado

Esta manhã estava na veterinária para que me vacinasse o gato e, na sala de espera, a televisão estava ligada para a SIC Notícias. O tema tinha a ver com os tempos de espera nas lojas do cidadão e era um fartar vilanagem entre o locutor de serviço e Paulo Baldaia, ambos a aproveitarem todas as oportunidades para cascarem no governo. Até que se ouviu a voz de um espectador do Cadaval que veio dizer o inesperado para os dois: esforçavam-se tanto em maldizer o governo, em acentuar tudo quanto estava mal e, afinal, porque não mostravam o mesmo empenho em valorizar o muito de bom que se está a fazer?

 

Os dois engasgaram. Sentiram-se incomodados mas logo prosseguiram por diante. É que, de facto, as televisões primam por só enfatizarem o que ainda é problema, sem darem a devida importância ao que se está a resolver.

 

Por exemplo, na InvestigaçãoCientífica em que Portugal gastou mais 168 milhões de euros em 2018, segundo os resultados doInquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional,onde se acrescenta ter a despesa total correspondido a 1,37% do PIB. É claro que a comunidade científica precisa de bem mais e só assim cumprirá o desígnio planeado por Mariano Gago para transformar o país num efetivo protagonista na conceção e criação das mais avançadas tecnologias nos anos vindouros. Mas, depois dos cortes decididos por Passos Coelho nos quatro lamentáveis anos de desgovernação, o que o atual executivo faz tem muitíssimo valor.

 

Risível é, por outro lado, um estudo encomendado pela Fundação da Sonae, queconclui sobre a quase exclusiva entrada para os cursos universitários de maior prestígio pelos estudantes oriundos das famílias mais favorecidas. Deveras? Foi preciso fazerem um estudo científico para chegaram a tão óbvia conclusão?

 

E, no entanto, ele deu o pretexto ao diretor do «Público» para vir a terreiro defender o ensino privado. Senão atenhamo-nos ao seu editorial: «Acreditar que o sistema público de ensino seja capaz, por si só, de resolver o problema da igualdade de oportunidades é uma utopia que o tempo e a realidade se encarregaram de provar. Mas se é impossível apagar os efeitos que a pobreza, a desestruturação das famílias ou a iliteracia deixam nos alunos com menores índices de aproveitamento escolar, estes são dois temas que a escola pública e o Estado tinham o dever de debelar.»

 

O argumentário de Manuel Carvalho é mais do que falacioso. Ele não ignora que a divisão da sociedade em classes de rendimentos desiguais cria efeitos correspondentes em todas as vertentes da sociedade, mormente no acesso à educação. Não basta mudar o ensino público, porque é da aproximação da sociedade a um modelo socialista, que decorrerá a alteração do que o estudo em causa vê como negativo.

 

No Chile o governo neopinochetiano quis privatizar todo o ensino para perenizar o sistema elitista de só os filhos dos ricos chegarem às mais prestigiadas universidades, remetendo os dos pobres para graus de educação, que nunca lhes permita ascender socialmente. Era essa a razão porque as direitas tanto se bateram pelos subsídios do Estado aos colégios privados que, conclui-se agora, encerram na sua grande maioria por terem constituído um obsceno sugadouro das receitas do Estado não demonstrando capacidade para alcançarem verbas suficientes para se sustentarem às próprias custas. E com o inconveniente de prepararem os petizes de acordo com os conservadoríssimos preceitos dos seus proprietários, muitos deles ligados aos setores mais reacionários da Igreja Católica.

 

Ao denegrir o ensino público Manuel Carvalho anseia pela oportunidade de trazer de volta a guerra perdida pelas direitas em 2016. Mesmo não tendo ilusões quanto ao facto de só com a improvável derrota das esquerdas nas legislativas ressurgirem as condições para reacender essa chama...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/bofetadas-inesperadas-e-falacias-em.html

Não se pode ser prior desta freguesia

Isto não é informação,é opinião e hostil

Não, não vou enumerar todas as regras deontológicas e livros de estilo que esta pretensda notícia debitada na Antena Um viola e agride. Vou só lembrar que no PCP e na CDU não há maneira de obrigar alguém a ser candidato se não quiser. E que é um despudor estar no fundo a empurrar um partido para explicar em público todas as respeitáveis razões pessoais que estão por detrás de certas alterações nas candidaturas da CDU. Sendo que, além do mais, isto é mesmo uma variante do preso por ter cão e preso por não ter. Ou seja, se há alterações, ai jesus que alguns estão a ser corridos. Se não há, ai jesus que não mexem em nada e já são todos conhecidos. E mais: depois de duas décadas de insolente preconceito e injusta desvalorização, afinal gostam muito da Heloísa Apolónio.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Perigosidades

(Virgínia da Silva Veiga, 25/06/2019)

 

A TVI resolveu trazer a lume alegadas declarações de fonte da Polícia Judiciária através das quais afirma ter tido acesso a peças de um processo em segredo de justiça, incluindo a dados relativos a escutas telefónicas de um autarca constituído arguido. No telejornal das 20 horas do dia 24 de Junho, entrevistado o autor da peça, afirmou este que a estação televisiva tem mais elementos de processos em curso contra autarcas e prometeu trazê-los à ribalta com dados fornecidos, não se sabe se por fontes de processos judiciais.

Ver notícia aqui

De permeio, acusou publicamente um procurador de se ter pautado por decisões de natureza política e de ter sido obstáculo activo à aplicação de medida de coacção que, segundo a tal fonte da polícia judiciária, seria aconselhável ter sido a de prisão preventiva. 

Perante isto, muitas pessoas, nas redes sociais, apressaram-se a julgar os três visados directos – o tal autarca, o tal procurador e a Justiça em Portugal – ignorando por completo o crime que perpassa pela actuação da TVI e, quiçá, sendo verdade, assustadoramente praticado por agente ou agentes da Polícia Judiciária.

Pergunto-me se está tudo doido neste país, se a PGR está conivente com isto, se o governo se admite continuar a fazer de conta que não vê. 

Ao que interessa: o visado directo é Álvaro Amaro. Dele se veio dizer haver provas que sustentam uma condenação por crime de corrupção, alicerçadas documentalmente e em escutas telefónicas. Pois, sendo assim, seja acusado, julgado e condenado e cá estamos para aplaudir o caso. Já se percebeu que quem mais aplaudirá será o sector do PSD que embirra com ele e com Rio, alguns dizem por aí que o caso Amaro terá sido empolado pela TVI precisamente por visar um opositor de Montenegro. Mas isso são as más-línguas. 

No cômputo geral, Portugal não pode deixar de se regozijar com o crescimento de investigações onde sempre se disse que a corrupção é mais activa: as autarquias. 

Os exemplos que nos surgem vêm quase todos eles do truque ancestral de adjudicar obras a empresas lá da terra. Anda-se ali, por contratos que não atinjam os 70 000 euros – creio ser o limite -, escolhem-se empresas e empresários próximos nem que, para isso, familiares do mesmo empresário tenham que abrir várias. 

Tardava que os casos fossem investigados. Esses, dos que envolvem transportes e pequenas obras, às adjudicações a sociedades de advogados, e sempre verificando se não vieram de retorno luvas aos decisores. Muito bem!

O problema, o gravíssimo problema, é que, em muitos casos, os MP pode confundir decisões políticas lícitas, ainda que de efeitos pouco recomendáveis, com corrupção, tudo porque os casos lhe chegam, por não haver nos serviços públicos inspecções administrativas, são muitas vezes tratados a descontexto da intencionalidade e sem as vantagens que eventualmente possam também ter trazido. 

O Direito Administrativo – o que pode levar também a perdas de mandado, aposentações compulsivas e acções de indemnização – está a ser relegado para um estado de polícia criminal.

Nada disto assustava não fora o mesmo MP estar hoje a pretender um Estatuto sem controle de terceiros, permitir-se assistir indiferente a crimes públicos em notícias como a que aqui deu mote, e a dar outros sinais de excesso de pretensão de activismo político e ligação directa à comunicação social.

O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público anuncia para amanhã, dia 26 de Junho, um debate em que a escolha dos oradores devia alertar para a linha de orientação que está a pretender-se seja seguida por estes funcionários do Estado: José Gomes Ferreira, Eduardo Dâmaso, João Miguel Tavares, Joana Marques Vidal, Albano Pinto e o próprio António Ventinhas.

Verdadeiramente preocupante se, voltando ao tema, se associar a fugas de informações em processos que lhes estão entregues como o é ver a Polícia Judiciária ser anunciada num canal televisivo como fonte de acesso a escutas telefónicas sem que ninguém se preocupe com o assunto e sobre ele abra imediata investigação.

Até dói ver a nossa polícia de elite ser assim difamada em praça pública!
A par um magistrado do MP que foi acusado de ter tomado decisões favoráveis a um arguido por este ser do PSD, por ser irmão de quem é.
Tinha João Marques Vidal – o tal procurador, o tal irmão – que nos lembrar Rosário Teixeira e prender para investigar? Não, não tinha. A própria “notícia” diz que o caso estava investigado, não mostra como Amaro podia alterar provas já recolhidas, e, evidentemente, a prova de que não havia perigo de fuga está aí: não fugiu.

Todos nos alegramos com o facto de nenhuma investigação estar a ser impedida por este governo, ao contrário do que se alardeou. 
Nunca houve tantos casos de políticos constituídos arguidos, como se pode ver. A nossa judiciária, agora difamada, investigou livremente. 
Mas há um diabo de duas coincidências que não podem deixar de interrogar os cidadãos: o “timming” para trazer a lume a avalanche de casos, em plena proximidade de eleições, num país onde se pretende convencer os portugueses que Portugal é um país de corruptos e não um país que finalmente combate a corrupção. 

É também por isso que os portugueses devem fazer o que a comunicação social não faz: defender a nossa Constituição, a nossa Democracia, as nossas boas leis penais, denunciar ao Governo, à PGR, também à ERC e à CNE estes atentados ao Estado de Direito, abtendo-se de os cultivar e apoiar sejam lá quem forem os visados de hoje, pelo futuro dos de um amanhã.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Comentadores TV: 12 do PSD, 8 do PS, 6 do CDS, 3 do BE e um do PCP.

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Bruxas e comentadores
·       Margarida Botelho
ODiário de Notícias publicou no sábado passado um revelador artigo sobre a presença de comentadores nos canais de televisão portugueses, com base num estudo realizado pelo ISCTE a partir da análise a 19 programas durante o mês de Março.
Não é que o estudo e o artigo sejam propriamente surpreendentes. Qualquer telespectador minimamente atento conseguiria chegar sozinho às conclusões expostas: "na televisão, a direita vence a esquerda", como titula o jornal, e que o PCP é o partido menos representado.
A vantagem do estudo e do artigo é a sistematização. A SIC e a TVI, por exemplo, que têm espaços fixos de comentário político ao domingo e à segunda-feira, apresentam as duplas Marques Mendes e Manuela Moura Guedes vs Paulo Portas e Miguel Sousa Tavares, respectivamente. É tanta diversidade que confunde, não é?
A CMTV consegue a proeza de ter a única "lider" em exercício como comentadora, Assunção Cristas, e de promover André Ventura num dos seus programas de futebol.
Um terço dos comentadores de todos os canais estão em espaços de opinião dita pessoal, sem debate nem contraditório. Um pouco ao estilo dos monólogos de Marcelo Rebelo de Sousa durante 15 anos em horário nobre, com o resultado que se sabe, ou dos de Marisa Matias na TVI. Só a RTP não segue este modelo de espaços de comentário individuais. E, pasme-se!, só o PCP e o PEV não têm qualquer militante seu num destes espaços.
O estudo do ISCTE tem um critério de classificação esquerda-direita que é, no mínimo, discutível (contabiliza a candidata do Nós Cidadãos às autárquicas em Lisboa, Joana Amaral Dias, como representante da esquerda). Mas fica tudo mais claro quando faz o levantamento de que partidos são os comentadores do mês de Março: 12 do PSD, 8 do PS, 6 do CDS, 3 do BE e um do PCP.Não há qualquer critério que sustente esta divisão - dizemos nós, claro, mas também o DN e o ISCTE. É como dizem os espanhóis sobre as bruxas: não se acredita em discriminação, mas que la hay, la hay...

Ver o original em 'GPS & MEDIA' (clique aqui)

Pilger: é hora de salvar o jornalismo

Há uma guerra global pelo controle de informações. Divulgá-las provoca fissuras no sistema, como já fizeram Assange e Greenwald. O direito a saber é a batalha do século. É por isso que governos declaram cruzada contra dissidentes

John Pilger entrevistado por Dennis J. Bernstein e Randy Credico | Outras Palavras | Tradução: Gabriela Leite e Simone Paz

O cineasta John Pilger, cujo trabalho é afiado e digno de prémios como o Oscar e o Emmy, é reverenciado e celebrado por jornalistas e editores em todo o mundo. Quando ainda estava em seus vinte anos, Pilger se tornou o jornalista mais jovem a receber o principal prémio britânico da categoria, o “Jornalista do Ano”, o qual também foi o primeiro a ganhá-lo duas vezes. Após se mudar para os Estados Unidos, relatou as revoltas do final dos anos 1960 e dos 1970. Pilger estava na sala no momento em que Robert Kennedy, então candidato presidencial, foi assassinado em junho de 1968.

Sua reportagem sobre o sudeste asiático e o documentário que veio depois, Ano Zero: A Morte Silenciosa do Camboja, levantou quase 50 milhões de dólares (193 mil reais) para as pessoas daquele país atingido. De maneira semelhante, seu documentário de 1994 e o relatório de despachos do Timor Leste, para onde viajou secretamente, ajudou a estimular apoio aos timorenses, cujo território estava então ocupado pela Indonésia. Na Grã-Bretanha, sua investigação de quatro anos em nome de um grupo de crianças debilitadas ao nascer pela droga Talidomida, e deixadas de fora do acordo com a farmacêutica, teve, como resultado, um acordo especial. Em 2009, foi agraciado com o prémio de direitos humanos da Austrália, o Sydney Peace Prize. Recebeu títulos de doutorado honorários de universidades no Reino Unido e outros países. Em 2017, aBiblioteca Britânica anunciou um Arquivo John Pilger de todos os seus trabalhos em texto e filme.

Nessa entrevista com Dennis J. Bernstein e Randy Credico, Pilger fala sobre o que está acontecendo com seu amigo e colega Julian Assange, fundador e editor do WikiLeaks, e como sua perseguição pode ser o começo do fim da reportagem investigativa moderna como a conhecemos. Desde sua alardeada encarceramento em prisão de segurança máxima, jornalistas e whistleblowers [indivíduos que denunciam más condutas de governos e instituições] têm sido perseguidos, presos e seus documentos e discos rígidos apreendidos em países como os EUA, França, Grã Bretanha e Austrália.

Bernstein: É bom falar com você de novo, John. Obrigado por conversar connosco. Isso que está acontecendo — não apenas com Julian Assange — mas com o futuro do jornalismo, é perturbador. Agora, temos visto ataques a jornalistas na Austrália, França e aqui nos EUA em São Francisco, onde a polícia algemou um repórter enquanto vasculhava sua casa e apreendia seu HD. Sabemos que Julian Assange está em uma prisão de segurança máxima e Chelsea Manning também está encarcerado. São tempos terríveis para o fluxo livre de informação.

Pilger: Bem, isso agora está acontecendo em todo o mundo, inclusive em toda a parte daquele mundo que se gaba de ser “iluminado”. Estamos presenciando a represália aos whistleblowers e jornalistas que se atrevem a dizer a verdade. Há uma guerra global contra o jornalismo. Mais do que isso, há uma guerra global contra os dissidentes. A velocidade com que esses eventos acontecem está bem acentuada desde 11 de abril, quando Julian Assange foi arrastado pela polícia para fora da embaixada equatoriana em Londres. Desde então, a polícia tem se voltado contra jornalistas nos Estados Unidas, na Austrália e, de maneira mais espetacular, na América Latina. É como se tivesse sido acionado um sinal verde para eles.

Credico: Eu achava que a essa altura Assange já estaria solto. Você também não pensou que chegaria um momento em ele estaria livre da situação terrível que estava quando o vi, há dois anos atrás?

Pilger: Estou relutante em fazer futurologia. Realmente pensei que um acordo político teria sido feito. Olhando para trás, isso era extremamente ingénuo porque o extremo oposto tinha sido planejado para Julian Assange. Há um “precedente Assange” funcionando em todo o mundo. Na Austrália, houve um ataque a uma emissora pública, a Australian Broadcasting Corporation, onde a polícia federal entrou com mandados, um dos quais os dava permissão para deletar, alterar e se apropriar do material de jornalistas. Foi um dos ataques mais estrondosos à liberdade jornalística e inclusive à liberdade de expressão de que tenho lembrança. Vimos até a News Corporation de Rupert Murdoch ser atacada.

A editora de política de um dos jornais de Murdoch, o The Sunday Telegraph, viu sua casa ser saqueada e seus pertences pessoais, íntimos, pilhados. Ela havia feito uma reportagem sobre a extensão da espionagem oficial dos australianos realizada por seu governo. Algo similar aconteceu na França, onde a polícia do [presidente Emmanuel] Macron moveu uma ação contra jornalistas da revista Disclose.

Assange previu isso enquanto estava sofrendo acusações e abusos. Ele dizia que o mundo estava mudando e que as chamadas democracias liberais estavam se tornando autocracias. Uma democracia que põe sua polícia contra jornalistas e confisca suas notas e computadores, simplesmente porque revelaram algo que o governo não queria que o povo soubesse, não é uma democracia.

Credico: Sabe, John, alguns representantes da mídia empresarial aqui nos EUA e, acredito, no Reino Unido, agora que perceberam que o tiro, possivelmente, saiu pela culatra, subitamente saíram em defesa de Assange, particularmente quanto ao uso do Ato de Espionagem e ao recolhimento de informação. Não quero denunciá-los por terem esperado tanto tempo, mas porque eles esperaram tanto e que tipo de ajuda podem oferecer a essa altura? E o que eles deveriam fazer, já que também estão na mira?

Pilger: Vamos ver quem está realmente na mira. O WikiLeaks copublicou os registros das guerras do Afeganistão e do Iraque em 2010, em colaboração com várias organizações de mídia: Der Spiegel na Alemanha, The New York Times nos EUA, The Guardian no Reino Unido e Espresso na Itália. Quem mais publicou o material do Iraque foram Al Jazeera, Le Monde, o Bureau of Investigative Journalism de Londres, o programa Dispatches do Channel 4 em Londres, o projeto britânico Iraq Body Count, o RUF (Islândia), o SVT (Suécia) e por aí vai.

Existe uma lista de jornalistas que relataram esses fatos e trabalharam com Assange. Isso fez seu trabalho ecoar; eram colaboradores no sentido literal. Estou com uma lista agora mesmo: no The New York Times tem Mark Mazzetti, Jane Perlez, Eric Schmitt, Andrew W. Lehren, C. J. Chivers, Carlotta Gall, Jacob Harris, Alan McLean. Do The Guardian são Nick Davies, David Leigh, Declan Walsh, Simon Tisdal… e a lista continua. Todos esses jornalistas estão na mira. Eu não acredito que muitos vão acabar entrando em apuros como Julian Assange porque não representam um perigo ao sistema que reagiu contra Assange e Chelsea Manning; mas eles, prima facie, cometeram os mesmos “crimes”. Em outras palavras, são tão “culpados” quanto Assange de cometer jornalismo.

Isso se aplica a centenas, se não milhares, de jornalistas ao redor do mundo. As divulgações do WikiLeaks, se não copublicadas, foram ignorados por jornais, revistas e programas investigativos de televisão em todas as partes. Isso faz com que todos os jornalistas estejam envolvidos, todos os produtores, todos os apresentadores, todos eles são cúmplices. E, é claro, a perseguição de Assange e a intimidação de alguns outros representa um escárnio à Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que diz que você tem todo o direito de publicar; você tem todo o direito de “publicar e ser amaldiçoado”. É um dos mais nobres e demonstráveis princípios da constituição norte-americana que está sendo jogado no lixo. E a ironia é que os jornalistas que olharam de forma enviesada para Assange, ainda alegando que ele não era jornalista, estão agora correndo para cobrir, não porque ele é um jornalista da mais alta grandeza, mas porque ele é um jornalista com mais consciência do que muitos deles mesmos. Ele — e os outros em sua sombra — estava fazendo um trabalho básico do jornalismo. É por isso que chamo isso de guerra global contra o jornalismo — e o precedente aberto por Julian Assange não se parece em nada com o que vimos antes.

Bernstein: John, quero pegar o ponto de onde você estava, na pergunta de Randy, e esmiuçar e aprofundar o entendimento das pessoas sobre quem exatamente é Julian Assange e, se me permite, o ritmo que ele escolheu para seu trabalho. Como você descreve esse ritmo de Julian Assange e as pessoas que escolheu para trabalhar com ele?

Pilger: Quando conheci Julian Assange, perguntei a ele: “De que se trata, afinal, o WikiLeaks, e o que você está fazendo aqui?”. Ele descreveu muito claramente o princípio da transparência. Na verdade, estava descrevendo o princípio da liberdade de expressão: que temos o direito de saber. Temos o direito de ter conhecimento sobre o que nossos governos estão fazendo em nosso nome. Ele não estava dizendo que há um direito de pôr as pessoas em perigo. Estava dizendo que no jogo normal das democracias liberais temos o direito de saber o que o governo está fazendo por nós, às vezes até conspirando contra nós e em nosso nome. Temos o direito de saber a verdade sobre o que eles dizem em privado, o que tão frequentemente é traduzido em inverdades em público. Essa transparência, ele disse, era um princípio moral. Essa é a “razão” do WikiLeaks. Ele acredita nisso fervorosamente e, claro, isso deveria tocar em todos os jornalistas autênticos, porque é isso que nós todos deveríamos acreditar.

O que o caso Assange nos mostrou é que essa guerra contra o jornalismo, essa guerra contra o dissidente, ainda tem que entrar na corrente sanguínea da política. Nenhum dos candidatos que concorre à presidência dos Estados Unidos chegou a mencionar o assunto. Nenhum dos Democratas proferiu uma palavra. Não esperamos que a gangue de Trump fale sobre princípios como esses, mas há alguns ingénuos que acreditam que talvez alguns dos democratas deva fazer. Nenhum deles fez.

Bernstein: [O que significa quando] Julian Assange e Chealsea Manning, um editor e um dos mais importantes whistleblowers militares de nosso tempo, estão na prisão e encarcerados?

Pilger: Eles querem pôr suas mãos em Julian Assange porque ele protegeu sua fonte e eles querem pôr as mãos em Chelsea Manning porque ela, sendo a fonte, se recusou a mentir sobre Julian Assange. Ela recusou-se a implicá-lo. Recusou-se a dizer que há uma conspiração entre eles. Esses dois exemplificam o que é a mais pura alegação da verdade na era moderna. Fomos desprovidos de duas pessoas como Assange e Chelsea Manning.

Sim, houve excelentes reportagens investigativas e revelações, mas temos que voltar ao nível de Daniel Ellsberg [militar que, em 1971, forneceu ao The New York Times o Pentagon Papers] para apreciar o que Chelsea e Julian, essas duas figuras heróicas, o que elas nos deram, e por que estão sendo perseguidas.

Se permitimos essas perseguições, tudo está perdido… A intimidação e a supressão vão agir em toda nossa vida. Na mídia que outrora abusou de Assange, eu vejo medo. Você lê alguns desses editoriais escritos por aqueles que uma vez atacaram Julian Assange e acusaram-no, tais como o The Guardian, e você os percebe temendo ser os próximos. Você lê colunistas famosos como Katie Benner, no The New York Times, que atacou Assange e agora vê uma ameaça de seus algozes a todos os jornalistas. O mesmo é verdade para David Corn [da Mother Jones], que agora vê a ameaça para todo o jornalismo. E eles têm razão em estarem assustados.

Credico: Qual era o medo que se tinha de Assange? Que ele continuaria a trabalhar em novos métodos de exposição? Por que estão tão assustados com Assange?

Pilger: Bem, acredito que estavam preocupados — estão preocupados — que entre os dois milhões de pessoas nos EUA que têm uma autorização de segurança nacional estejam entre aqueles que Assange chamou de “objetores conscienciosos”. Uma vez pedi a ele para descrever as pessoas que estavam usando o WikiLeaks para liberar informações importantes. Ele os comparou aos objetores conscienciosos nos tempos de guerra, pessoas de princípios e de paz, e eu acho que é uma descrição bem apropriada. As autoridades estão preocupadas com a possibilidade de que haja algumas outras Chelseas por aí. Talvez não tão corajosas ou ousadas como Chelsea, mas que podem começar a soltar informações que enfraqueçam todo o sistema da máquina de guerra.

Credico: Sim, falei com Julian sobre isso mais ou menos um ano atrás, quando estava em Londres, sobre tentar fazer uma comparação com o sul norte-americano na guerra de secessão e jornalistas como Elijah Lovejoy e David Walker, que foram assassinados por expôr a brutalidade e o destino da escravidão. Eu disse: “Sabe, nós precisamos começar a te mostrar desse ponto de vista”, ao que ele respondeu: “há uma grande diferença, Randy”. Ele disse isso: “veja, aqueles homens só tiveram que lidar com um dos lados, e foi isso; as pessoas no sul e algumas de suas colaboradoras em Nova York, que foram parte dos negócios de transporte de algodão. Mas o resto do norte estavam praticamente todo do lado dos abolicionistas. Eu expus crimes de guerra e isso fez com que os conservadores se irritassem. E então expus o mal comportamento e a prevaricação no Partido Democrata. Então, todos eram meu alvo, eu não poupo ninguém, então isso não se aplica a mim”.

E foi isso que aconteceu aqui. Você enxerga isso pelo reduzido número de protestos em seu nome. Eu fui a uma manifestação outro dia, um pequeno protesto por Assange em frente à embaixada britânica, e apenas meia dúzia de pessoas estavam lá, um pouco mais do que na semana anterior. Ele não está gerando esse tipo de interesse até agora. E você via pessoas que passavam por lá e diziam “Assange é um traidor”. Quer dizer, estão tão desinformadas, e agora tenho que usar a citação que você usou, de Vandana Shiva, em seu livro Freedom Next Time, que trata da “insurreição do conhecimento subjugado”. Você pode falar sobre isso?

Pilger: Vandana Shiva é uma grande ambientalista e ativista política indiana, cujos livros sobre a ameaça da monocultura são referência, especialmente a ameaça de empresas multinacionais de agroenergia que se impõe em sociedades vulneráveis e rurais como a Índia. Ela descreve uma “insurreição do conhecimento subjugado”. É um ótimo truísmo. Eu por muito tempo acreditei que a verdade reside em um mundo metaforicamente subterrâneo e sobre isso está todo o ruído: o ruído dos políticos credenciados, o ruído da mídia credenciada, aqueles que parecem estar falando por quem está abaixo deles. De vez em quando, contadores de verdade emergem de baixo. Pegue, por exemplo, o correspondente de guerra australiano, Wilfred Burchett, que foi o primeiro a ir a Hiroshima depois do bombardeio atômico. Seus relatos foram capa de seu jornal The Daily Express, em Londres, nos quais dizia “eu escrevo isso como um alerta ao mundo”. Estava alertando sobre armas nucleares. Tudo foi jogado contra Burchett para acusá-lo e desacreditá-lo. O correspondente do New York Times liderava esse movimento: a mesma pessoa que negou que as pessoas estavam sofrendo efeitos da radioatividade: que pessoas tinham morrido apenas na explosão. Depois, descobriu-se que ele estava mancomunado com autoridades norte-americanas. Wilfred Burchett sofreu acusações ao longo de toda sua carreira. Todos os whistleblowers passam por isso — aqueles que são afrontados pela indecência de algo que descobrem, talvez em uma empresa para a qual trabalham ou dentro de um governo — eles acreditam que o público tem o direito de saber a verdade.

O Guardian, que atacou Julian Assange com tanta crueldade, tendo sido um dos parceiros de mídia do WikiLeaks, nos anos 1980 publicou documentos de um oficial do Ministério das Relações Exteriores que relatava planos dos EUA de instalarem mísseis de cruzeiro de médio alcance ao longo da Europa. O Guardian publicou isso e foi devidamente elogiado em um documento de divulgação e princípio. Mas quando o governo foi à justiça e um juiz exigiu que o jornal entregasse os documentos que revelariam quem era o denunciante — ao invés do editor fazer o que editores devem fazer, defender os princípios e dizer “não, não vou revelar minha fonte” — o jornal traiu sua fonte. Seu nome é Sarah Tisdall e ela acabou presa. Então, whistleblowers tem que ser pessoas extraordinariamente corajosas e heróicas. Quando você olha para tipos como Julian Assange e Chelsea Manning é como se toda a força da segurança de Estado nacional norte-americana, apoiada por seus chamados aliados, tenha sido imposta a eles. Julian representa um exemplo de que eles têm que fazê-lo, porque se não transformá-lo em um exemplo, jornalistas podem ser encorajados a fazer seu trabalho, e esse trabalho significa contar ao público o que ele tem direito de saber.

Credico: Muito bem dito. No prefácio ou introdução de seu livro, Freedom Next Time, você também cita Harold Pinter e seu discurso vencedor do Prémio Nobel, no qual ele fala sobre a vasta tapeçaria de mentiras que alimentamos, e ele segue adiante e diz que os crimes norte-americanos foram superficialmente registados, que dirá documentados, que dirá conhecidos. Julian Assange quebrou essa conduta pra valer, expôs crimes de guerra cometidos pelos EUA e todo tipo de travessuras que o Departamento de Estado tenha perpetrado. Você fala de Harold Pinter, da grande influência que ele foi.

Pilger: Sim, eu recomendo aos seus ouvintes o discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Harold Pinter. Acredito que foi em 2015. Foi um testamento eloquente e magnífico sobre como e porque a verdade precisa ser contada e também por quê não deveríamos mais tolerar a hipocrisia dos políticos de duas caras.

Harold Pinter fez um paralelo entre nossa visão sobre a União Soviética e os crimes de Stalin, comparada com a dos crimes dos Estados Unidos; ele disse que a maior diferença é que nós temos ciência da magnitude dos crimes de Stalin, mas que sabemos muito pouco sobre os crimes de Washington. Ele comentava que o ensurdecedor silêncio que envolve nossos crimes — quando digo “nossos”, me refiro àqueles dos Estados Unidos — significam, como ele disse memoravelmente: “estes crimes nunca ocorreram, não aconteceram nem quando estavam ocorrendo, eles não são de interesse público e não têm a menor importância”.

Nos livramos desse duplo padrão, com certeza. Acabamos de ter uma celebração escorregadia do 6 de junho, o Dia-D. Essa foi uma invasão extraordinária na qual muitos soldados tomaram parte e deram suas vidas, mas isso não fez com que a guerra fosse vencida. A União Soviética na verdade ganhou a guerra, mas os russos não eram nem representados, não eram nem convidados a falar sobre isso. Isso não aconteceu, como Pinter costumava dizer. Isso não importou. Mas Donald Trump estava lá, palestrando ao mundo sobre guerra e paz. É uma sátira horrível. Esse silêncio, essas omissões, correm em todos os nossos jornais, como se fosse mesmo uma aparência de verdade, e não é.

Bernstein: Quero voltar ao ponto de Wilfred Burchett e a enorme responsabilidade que esses grandes jornalistas têm de permitir que coisas terríveis continuem acontecendo sem serem noticiadas, baseados em questões de patriotismo e alegações de segurança nacional. Estou pensando, tiveram que calar Wilfred Burchett porque aquilo poderia ter aberto a porta toda de como são perigosas as armas nucleares e o poder nuclear, detonando o mito da paz atómica.

Pilger: Isso é totalmente verdade, Dennis, e isso também mina os planos morais da “Guerra Boa”, a Segunda Guerra Mundial que acabou com esses dois grandes crimes: o bombardeio atómico de Hiroshima e de Nagasaki em um momento em que o Japão não representava nenhuma ameaça. Historiadores confiáveis agora não nos contam os contos de fadas de que essas bombas atómicas eram necessárias no fim da guerra. Então, isso destruiu em muitos aspectos a grande missão moral da guerra.

Não apenas fez isso, como declarou no bombardeio atómico que uma nova guerra estava começando, uma “Guerra Fria”, apesar da possibilidade de se tornar rapidamente uma “guerra quente” com a União Soviética. E com isso estava dizendo que “nós” — ou seja, os Estados Unidos e aliados como os britânicos — temos armas nucleares e estamos prontos para usá-las. Essa é a chave: estamos preparados para usá-las. E os Estados Unidos foram os únicos que já chegaram a usá-las contra outro país.

Claro que, depois, isto foi testado nos Territórios de Confiança da ONU. Era para ser mantido em confiança pela ONU nas Ilhas Marshall e acabou dando início a várias Hiroshimas ao longo de 12 anos. Naquele tempo, nós não sabíamos nada disso. Mas e quanto sabemos sobre as ogivas nucleares (tipo de míssil) que o Presidente Obama solicitou e que comprometeram cerca de um trilião de dólares? — às quais, certamente, o presidente Trump deu continuidade.

E aqueles tratados que ofereciam uma defesa precária contra um holocausto nuclear, tratados com a União Soviética, como o de armas de médio alcance, que foi rasgado por esta administração? Uma coisa leva à outra. Isto é contar a verdade.

Bernstein: quero voltar e lembrar as pessoas que tipo de estrutura Julian Assange criou com o WikiLeaks para proteger whistleblowers. Esse é um ponto crucial porque temos visto agora outros jornalistas sendo mais cuidadosos e vemos fontes sendo rastreadas, presas, e enfrentando grandes tempos de cadeia. E acredito que foi assim que Julian Assange honrou os whistleblowers, protegê-los é uma parte crucial de quem ele é e o que ele fez.

Pilger: Ele inventou um sistema através do qual é impossível dizer quem foi a fonte e isso permitiu pessoas usarem algo como um buraco de caixa de correio para vazar materiais sem terem sua identidade divulgada. É provavelmente isso que enraiveceu aqueles que estão perseguindo Assange. Significa que pessoas de consciência dentro dos governos, dentro de sistemas, que ficam incomodadas como Chelsea Manning, que ficou profundamente perturbada com o que viu, tenham a oportunidade de contar ao mundo, sem temer que tenham sua identidade exposta. Infelizmente, Chelsea revelou sua identidade a alguém que a traiu. É um meio sem precedentes de descobrir a verdade.

Bernstein: John, conte-nos sobre sua visita recente a Assange no presídio de segurança máxima de Belmarch, na Grã-Bretanha. Como ele está?

Pilger: Eu gostaria de dizer uma coisa sobre Julian, pessoalmente. Eu vi Julian na prisão de Belmarsh e eu tive uma sensação vivida do que ele tem que suportar. Eu vi a resiliência e coragem que conheço há tantos anos, mas agora ele está indisposto. A pressão sobre ele é inimaginável, a maior parte de nós teria se curvado diante disso. Mas há uma questão aqui de justiça por esse homem e o que ele teve que enfrentar; não apenas as mentiras que foram contadas sobre ele na embaixada e as grandes farsas que buscavam assassinar sua reputação. A chamada mídia respeitável, do New York Times ao The Guardian, todos caíram na lama e a jogaram nele; e hoje ele está muito vulnerável e eu vou dizer isso aos ouvintes: ele precisa de nosso apoio e solidariedade. Mais importante, ele merece.

Bernstein: Fale um pouco mais sobre as condições do lugar e por que é tão significativo que o deixem por um ano numa prisão como essa.

Pilger: Bom, eu suponho que por causa da ameaça que ele significa. Mesmo com Julian preso, o WikiLeaks segue. Essa é uma prisão de segurança máxima. Qualquer um preso por infração de fiança, antes de mais nada, não teria sido condenado a 50 semanas, como ele foi. Poderiam receber uma multa ou um mês, no pior dos casos. Mas é claro que isto, agora, significou uma extradição, um caso com todos esses encargos ridículos vindos de uma acusação na Virgínia. Mas Julian, como indivíduo, o que sempre me chocou, é que ele é exatamente o oposto da imagem que seus detratores relatam. Ele tem um intelecto aguçado, então é muito inteligente, evidentemente.

Ele é muito engraçado e divertido. Sempre dou risadas com ele. Nós, inclusive, conseguimos rir da última vez em que o vi na embaixada, quando tinha um monte de câmeras na sala, e trocamos anotações em que tínhamos que cobrir o que aquilo que estávamos escrevendo.

Ele deu um jeito de rir disso. Então ali você tem um tipo de humor seco, quase humor negro, ao mesmo tempo em que ele é uma pessoa muito apaixonada; mas sua resiliência é o que sempre me deslumbrou. Já tentei me imaginar no lugar dele, e não consegui. Quando o vi na cadeia, e tivemos que nos sentar na frente um do outro, eu estava com mais um casal. Um de nós deu a volta ao redor da mesa, só para ficar mais perto dele, quando foi impedido pelos seguranças. Esse tipo de situação é o que uma pessoa que não cometeu nenhum crime — sim, ele cometeu o crime do jornalismo — tem que aturar.

Ouça a entrevista (em inglês), aqui.


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A Constituição hackeada e o jogo para criminalizar o jornalismo investigativo

Tânia Maria de Oliveira * | Carta Maior
Do Pentágono Papers, em 1971, quando Daniel Ellsberg, analista militar a serviço do departamento de defesa norte americano, vazou para a imprensa documentos secretos, que mostravam que a guerra do Vietname não poderia ser vencida pelos Estados Unidos, passando pelos eventos em que dois repórteres do Washington Post comprovaram o envolvimento do presidente Richard Nixon na ação criminosa contra a sede do Comité Nacional do Partido Democrata, no famoso episódio conhecido como Watergate, até aos recentes casos de Julian Assange e Edward Snowden, o chamado jornalismo investigativo, em regra, voltou-se a desvendar ações de governos. No recente caso brasileiro, contudo, aponta para os desvios cometidos dentro do sistema de Justiça pelos membros da mais famosa operação de investigação já ocorrida, a Lava Jato. No processo das divulgações feitas pelo portal The Intercept Brasil, as manifestações do ex-juiz e atual ministro de Estado Sérgio Moro, e dos procuradores da força tarefa da operação Lava Jato, acerca dos conteúdos revelados, são realmente impressionantes, confusas, inacabadas e sobretudo contraditórias, não apenas entre si, mas com as suas posturas sempre adotadas e defendidas publicamente.

De defensores de divulgação ampla de conteúdos de investigação, depoimentos, interceptações telefónicas e afins, passaram a chamar de “ataque criminoso” o conhecimento público de dados de conversa entre um juiz e uma das partes no processo. De árduos militantes, dentro e fora do Congresso Nacional, pelo uso de provas ilícitas quando recolhidas “de boa fé”, insuflando alterações legislativas nesse sentido, migraram para acusadores de ilicitude das provas que mostram um conluio nas investigações e processos da operação Lava Jato. A tese corrente surgida no segundo momento das manifestações de Moro e membros da força tarefa da Lava Jato é de um “ataque hacker”, embora os jornalistas responsáveis pela divulgação não tenham, em qualquer momento, falado de suas fontes. Em entrevista ao jornalista Pedro Bial, no dia 09 de abril de 2018, ao se referir à divulgação dos grampos envolvendo a presidenta da República em 2016, mesmo após o Supremo Tribunal Federal ter reconhecido a ilegalidade, tanto da gravação quanto de sua divulgação, o então juiz Sérgio Moro afirmou: “o problema ali não era a captação ilegal do diálogo e sua divulgação. O problema era o conteúdo do diálogo.” No entanto, no que se refere aos conteúdos divulgados pelo portal The Intercept Brasil ele afirmara, primeiro que não viu “nada demais”, mas que era “bastante grave a invasão e a divulgação”, e depois que se trata de um ataque hacker, e que não pode confirmar a veracidade dos diálogos. Indica não se recordar que o problema não é a divulgação, mas o teor das conversas. Na verdade, ao não confrontar os conteúdos divulgados, nem mesmo apontando qual parte dos diálogos consideram não ser verdadeiros, os membros da operação Lava Jato jogam novamente com a opinião pública, na tentativa de invocar o sentimento social de que “tudo foi feito para combater a corrupção sistémica”, mote para validar os fins que desejavam alcançar, enquanto descumpriam as normas mais elementares de uma relação processual, que são a imparcialidade do juiz e a paridade entre as partes. Tanto Sérgio Moro quanto os procuradores desferem ataques ao jornalista responsável pelo The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, chamando-o de “aliado de hackers”, adentrando na perigosa seara de afetar a liberdade de informação. Ameaças explícitas foram o tom usado pelo ministro e ex-juiz na audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça do Senado nesta quarta-feira (19). Por várias vezes Moro disse que o site e o jornalista praticam “conduta criminosa”. A investida no sentido de se colocarem como vítimas, e inverterem os problemas detectados e apontados, com a revelação de que na operação Lava Jato existia uma relação espúria entre o juiz e os procuradores, e diante da eloquência de que cometeram desvio no exercício da função pública faz parte, digamos, de estratégias de defesa. Por outro lado, qualquer tentativa de criminalizar a atuação do jornalista assume outra conotação. E convém não esquecer que Sérgio Moro não apenas já censurou um blog, como conduziu coercitivamente o jornalista Eduardo Guimarães em 2017, curiosamente sob acusação de “vazamentos”. Aquele foi mais um fato naturalizado dentro na “normalidade lavajatiana”, conforme já escrevi em outro artigo. A questão que me esquivei de abordar no texto anterior, é como esses procedimentos foram sendo assumidos e respaldados socialmente, e pelos órgãos do sistema de justiça e de controle. Qualquer ação, como a abusiva condução coercitiva do jornalista, mesmo sendo espúria e leviana, vinda do juiz “de bem” era tolerada. Para qualquer repercussão negativa bastavam as “respeitosas escusas”, e tudo seguia como antes. Havia, ainda, nas mensagens subliminares, recados a quem se atrevesse a enfrentar publicamente os justiceiros do país. Certo é que nada aconteceu aos membros da Lava Jato, durante os cinco anos de existência, diante de todas as ilegalidades denunciadas. O Conselho Nacional de Justiça, órgão cuja missão precípua é verificar o comportamento isento de magistrados, arquivou radicalmente todos os pedidos de investigação de condutas desviantes do juiz Moro, algo como mais de duas dezenas e apresentado por políticos, pessoas físicas, entidades. Mesmo caminho no CNMP no caso dos procuradores. Os processos no Judiciário tiveram igual destino. A forma como desembargadores do TRF-4 e ministros do STJ rejeitaram os argumentos e as várias demonstrações de parcialidade é quase risível. A imparcialidade era presumida e as provas ignoradas. Ao que tudo indica, há mesmo a ação de um hacker. Ele adulterou o texto da Constituição Federal em vários dispositivos, ao menos na versão que é usada pelo ministro Sérgio Moro e pelos membros da Lava Jato. Não apenas nas garantias processuais penais, como se supunha, mas inclusive o disposto no art. 5º, XIV, que assegura a todos o acesso à informação e o sigilo da fonte, pilares do Estado de Direito e da democracia. *Tânia M. S. Oliveira é Membra da coordenação executiva da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia - ABJD

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de realidade paralela à normalidade » A Terceira Noite

O tema desta crónica não é novo, mas justifica uma atenção constante. O neurocientista António Damásio considerou recentemente que as redes sociais são «uma das mais espetaculares razões de declínio da qualidade de vida», afirmando que o acesso rápido e maciço a informação mal pensada representa hoje «um risco extraordinário». A esta declaração junto uma outra, mais conhecida, expressa por Umberto Eco numa das últimas entrevistas, observando que esses espaços de comunicação «dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes destas plataformas, apenas discutiam nas tabernas, após um copo de vinho, sem prejudicar a colectividade». Para Eco, «o idiota da aldeia» ganhou assim o direito a ter voz pública, dizendo o que lhe ocorre e passando a «detentor da verdade», misturando os códigos acerca do bem e do mal, do verídico e do falso, do racional e do incoerente.

Devem, no entanto, distinguir-se as posições críticas de Damásio e de Eco de outras, como as de Pacheco Pereira e Sousa Tavares, que partem da constatação de um problema real para uma posição arbitrária e inútil de descarte das redes sociais. Bastante mais realista parece-me a posição de Francisco Louçã, ao caraterizar, no «Público», este espaço como «substituto de outros modos de relacionamento social, com efeitos porventura ainda pouco identificados quanto à alteração dos comportamentos». Funcionando como se de uma realidade paralela se tratasse, pois «para uma percentagem crescente da população, a rede social elimina o recurso a outras formas de informação e constitui uma referência permanente de distração e de ocupação». Está aqui o eixo do problema, sem dúvida, mas também a sua possível solução, que passa por um trabalho para que a sociabilidade e a cidadania não se reduzam, para muitas pessoas, quase apenas a esse circuito. Na origem, a Internet e depois as redes sociais surgiram como espaços de informação e de democracia com grandes potencialidades, e ademais muito acessíveis, que colocavam ao dispor do cidadão comum, em qualquer parte do mundo, formas de conhecimento e de comunicação nunca antes experimentadas. Esta foi e permanece uma conquista importante, e é absurdo propor como ideal o seu desaparecimento, como parecem fazer Tavares e Pereira em relação a espaços como o Facebook, o Twitter, o Instagram ou a Whatsapp. Eliminá-los, ou a outros que os possam vir a substituir – o que será inevitável, dentro deste universo no qual cada comunidade e cada aplicação acabam por ser substituídas por outras que oferecem uma nova tecnologia – seria, para além de impossível, uma enorme regressão na comunicação ágil e plural. Que fazer, então? A solução passará por três vias. Em primeiro lugar, por mecanismos jurídicos de responsabilização, não no sentido da censura, mas no de cada utilizador saber que, ali como na vida física, não pode mentir e caluniar sem ser por isso penalizado. Em segundo lugar, promovendo a qualidade e a aferição do conhecimento e da informação nos diversos meios, com um investimento público no desenvolvimento de redes credíveis e de qualidade, capazes de proteger quem as utilizae e a sociedade no seu todo. Rejeitar este esforço, deixando as redes sociais entregues aos criminosos e aos tolos, será sempre a pior solução, uma vez que a mentira, a manipulação e o ódio ficariam sem contraditório, nas mãos daqueles que as sabem utilizar em proveito próprio, influenciando milhões de pessoas. Em terceiro lugar, ampliando os espaços e os instrumentos da cidadania, do lazer e das práticas culturais, assim permitindo aos indivíduos e às comunidades que deixem de tomar as redes sociais como lugar praticamente único de livre contacto social e de fuga à solidão. As redes sociais não são apenas aquele lugar sórdido que alguns projetam. Jamais serão também o espaço utópico de socialização e democracia que outros um dia idealizaram. Serão algo melhor e mais útil quando forem territórios de comunicação normalizados, ao serviço do bem-estar e da relação interpessoal, deixando de ser espaços insalubres de uma realidade paralela. Rui Bebiano Fotografia: Kizuki Tamura
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 15/6/201

Ver o original em "A Terceira Noite"

Lesados da SIC?

A recém contratada apresentadora da SIC Cristina Ferreira, bem como outras figuras da estação televisiva, vai começar a vender aos espectadores da SIC obrigações SIC que prometem uma taxa de juro anual de 4,5%. A frágil situação financeira da Impresa é conhecida e, por isso, é de questionar de que forma vai o grupo investir os 30 milhões de euros que se pretende obter, de forma a garantir esse rendimento. É que quando as taxas de juro prometidas se tornam elevadas, é caso para suspeitar. Aconteceu isso em operações dos CTT (que roeram o capital dos investidores), na Caixa Económica Açoreana (e faliu), no BES (e viu-se no que deu), só para falar naqueles casos de que me lembro. Só esperemos que o Estado não venha, mais tarde, a ser chamado a cobrir os eventuais prejuízos desta operação, em nome da defesa da comunicação social livre.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

SIRESP (finalmente) na esfera pública

Foi aprovado esta quinta-feira em Conselho de Ministros o decreto-lei que «transfere integralmente para a esfera pública» o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).

Estação móvel da rede SIRESPCréditos / MAI

O decreto-lei, aprovado hoje em Conselho de Ministros, «transfere integralmente para a esfera pública» as funções relacionadas com a gestão, operação, manutenção, modernização e ampliação da rede SIRESP, e também a estrutura empresarial.

O fim desta parceria público-privado (PPP) deve ocorrer em 1 de Dezembro de 2019 e o Estado vai pagar sete milhões de euros, que corresponde a 33 500 acções dos operadores privados Altice e Motorola, segundo afirmou, no final da reunião, o secretário de Estado do Tesouro, Álvaro Novo.

O embrião desta parceria público-privada (PPP) surgiu em 2003 com Durão Barroso, tendo sido adjudicada na véspera de Santana Lopes abandonar o cargo de primeiro-ministro. 

Treze anos depois do estabecimento da PPP para uma rede nacional de emergência, usada por bombeiros, INEM, PSP, GNR e outras entidades, esta ainda não actua como uma rede de comunicação única, além de não cobrir a totalidade do território nacional. 

No ano passado, o valor gasto pelos contribuintes com a PPP do SIRESP ascendeu a 40 milhões de euros.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/siresp-finalmente-na-esfera-publica

Portugal | Desequilíbrios mediáticos e equívocas opiniões

Jorge Rocha* | opinião

Não é que não o soubéssemos, mas o estudo divulgado pelo MediaLab do ISCTE veio confirmá-lo na plenitude: nos últimos três anos aumentou o número de comentadores do PSD e do CDS nas diversas televisões, agravando-se o desequilíbrio anterior em seu favor e relativamente aos conotados com as esquerdas. 

Isto significa que os donos das televisões não se conformaram com a formação do governo de maioria parlamentar liderado por António Costa e logo cuidaram de criar um concertado fogo de artilharia opinativa destinado a desqualificá-lo, a fazê-lo cair. Nos canais generalistas em sinal aberto não há um único comentador próximo dos partidos das esquerdas, sendo vários os que têm tribuna e provém das direitas.

Outras confirmações retiradas quantitativamente do estudo é o forte pendor dos homens no exercício do comentário político (84%) e a clara ostracização a que o PCP se vê sujeito. Igualmente sem surpresa é a constatação sobre o canal do «Correio da Manhã», aquele em que é mais desequilibrada - numa base de três para um - a relação entre opinadores de direita e de esquerda.

Não é que as direitas estejam a recolher grandes frutos dessa insistência, mas poderemos questionar sobre se continuaria a deter o apoio de um terço do eleitorado se não se visse tão privilegiada na ocupação dos tempos de emissão televisiva destinados à política, tendo em conta a importância destes meios de comunicação na consolidação das escolhas eleitorais dos seus espectadores.

Às vezes os próprios comentadores das direitas tendem a desajudá-las, quando lhes sobra alguma honestidade intelectual ou visam interesses ideológicos imediatos dentro da sua própria barricada. No primeiro caso Vasco Pulido Valente tratou de desancar em Marcelo e em Agustina neste sábado. A propósito da falta de gravitas do primeiro escreveu que “o mundo não é feito de beijinhos e de selfies”. E quanto à incapacidade da segunda em ver reconhecido internacionalmente o talento revelou-se taxativo quanto à razão mais óbvia: “filha de Entre Douro e Minho (...) nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou”.

No caso de João Miguel Tavares as suas palavras têm de ser lidas à luz da ânsia em ver Rui Rio apeado de líder do PSD para ressuscitar Passos Coelho. Por isso até tem razão quando aborda a esdrúxula proposta de Rui Rio em criar condições para algumas cadeiras da Assembleia da República ficarem vazias: “é uma visão infantil do mundo, que reflete uma profunda ignorância sobre aquilo que a política é e para que serve”.

Não é, porém, pelo facto de dizer aqui e acolá alguma coisa certa, movido pelas suas obscuras razões, que o discursador escolhido por Marcelo para «abrilhantar» este 10 de junho perca a áurea ganha nas redes sociais, onde é tido como um «caluniador profissional».

*jorge rocha | Ventos Semeados

 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/portugal-desequilibrios-mediaticos-e.html

Desequilíbrios mediáticos e equívocas opiniões

Não é que não o soubéssemos, mas o estudo divulgado pelo MediaLab do ISCTE veio confirmá-lo na plenitude: nos últimos três anos aumentou o número de comentadores do PSD e do CDS nas diversas televisões, agravando-se o desequilíbrio anterior em seu favor e relativamente aos conotados com as esquerdas. Isto significa que os donos das televisões não se conformaram com a formação do governo de maioria parlamentar liderado por António Costa e logo cuidaram de criar um concertado fogo de artilharia opinativa destinado a desqualificá-lo, a fazê-lo cair. Nos canais generalistas em sinal aberto não há um único comentador próximo dos partidos das esquerdas, sendo vários os que têm tribuna e provém das direitas.

 

Outras confirmações retiradas quantitativamente do estudo é o forte pendor dos homens no exercício do comentário político (84%) e a clara ostracização a que o PCP se vê sujeito. Igualmente sem surpresa é a constatação sobre o canal do «Correio da Manhã», aquele em que é mais desequilibrada - numa base de três para um - a relação entre opinadores de direita e de esquerda.

 

Não é que as direitas estejam a recolher grandes frutos dessa insistência, mas poderemos questionar sobre se continuaria a deter o apoio de um terço do eleitorado se não se visse tão privilegiada na ocupação dos tempos de emissão televisiva destinados à política, tendo em conta a importância destes meios de comunicação na consolidação das escolhas eleitorais dos seus espectadores.

 

Às vezes os próprios comentadores das direitas tendem a desajudá-las, quando lhes sobra alguma honestidade intelectual ou visam interesses ideológicos imediatos dentro da sua própria barricada. No primeiro caso Vasco Pulido Valente tratou de desancar em Marcelo e em Agustina neste sábado. A propósito da falta degravitas do primeiro escreveu que “o mundo não é feito de beijinhos e de selfies”. E quanto à incapacidade da segunda em ver reconhecido internacionalmente o talento revelou-se taxativo quanto à razão mais óbvia: “filha de Entre Douro e Minho (...) nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou”.

 

No caso de João Miguel Tavares as suas palavras têm de ser lidas à luz da ânsia em ver Rui Rio apeado de líder do PSD para ressuscitar Passos Coelho. Por isso até tem razão quando aborda a esdrúxula proposta de Rui Rio em criar condições para algumas cadeiras da Assembleia da República ficarem vazias: “é uma visão infantil do mundo, que reflete uma profunda ignorância sobre aquilo que a política é e para que serve”.

 

Não é, porém, pelo facto de dizer aqui e acolá alguma coisa certa, movido pelas suas obscuras razões, que o discursador escolhido por Marcelo para «abrilhantar» este 10 de junho perca a áurea ganha nas redes sociais, onde é tido como um «caluniador profissional».

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/desequilibrios-mediaticos-e-equivocas.html

Há negócios que são uma tragicomédia

O Negócios decidiu assinalar ontem os seus 16 anos com um número especial cheio de “ideias dos líderes para o país”. Sendo leitor regular deste jornal, dou um conselho: parem com estes números celebratórios. Um cidadão lê o Negócios para tentar saber o que se passa no capitalismo nacional e não para ler os lugares comuns debitados por representantes do capital monopolista e seus ideólogos. Os artigos até parecem ter sido escritos por uma qualquer agência de comunicação. O efeito é tristemente cómico. Assim, uma pessoa não sabe se ria, se chore, quando, por exemplo, Pedro Soares dos Santos, filho de Alexandre Soares dos Santos e actual Presidente do Grupo Jerónimo Martins defende aí que “é preciso promover uma cultura de meritocracia”. Não sabia que o capitalismo de herdeiros, cada vez mais relevante, segundo Thomas Piketty, promovia tal cultura. Uma pessoa não sabe se ria, se chore, quando Paula Amorim, outro exemplo do capitalismo de herdeiros na versão Amorim Luxury, declara o sistema fiscal “imoral”, apelando “a um compromisso estratégico multipartidário - patriótico -, para os temas macro estratégicos da economia”, incluindo a questão fiscal. Deve ser por patriotismo que a Galp, a exemplo da Jerónimo Martins, usa a Holanda para o chamado planeamento fiscal agressivo, de resto promovido activamente pela integração europeia realmente existente. Deve ser por isso que do PS de Costa Pina ao CDS de Mesquita Nunes, o tal compromisso multipartidário tem sido ensaiado na Galp. Uma pessoa não sabe se ria, se chore, quando o Director do Negócios anuncia uma das propostas que saiu de uma reunião com jovens estudantes escolhidos a dedo de uma qualquer escola de negócios: “Um dos grupos de alunos convida-nos a imaginar bairros inteiros de Lisboa ou do Porto livres de impostos para os empreendedores (...) temos de sonhar e de ser audazes”. É a distopia fiscal de uma sociedade liberal, ou seja, de uma sociedade fragmentada, um somatório de ilhas em concorrência. Maximizando o todos contra todos, o sonho liberal é a guerra social total. Eu bem sei que isto é uma periferia e que não se pode ter o equivalente luso do Financial Times, mas também não é preciso viver ideologicamente tão abaixo das possibilidades e responsabilidades jornalísticas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

É assim deste tempos imemoriais

Muito gostam eles de
meter todos no mesmo saco
«(...)Esperava-se que candidatos com a craveira intelectual de Paulo Rangel, a experiência de Pedro Marques, a aprendizagem de Marisa Matias ou de João Ferreira os levasse a sair da maré politiqueira e se dedicassem, ao menos, a fazer a apologia da ansiedade e asensação de emergência que atravessa o continente (...)»

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Chernobil mediático

Desde que Donald Trumnp foi eleito que a elite jornalística mundial propaga uma teoria da conspiração segundo a qual o Kremlin controla a Casa Branca. Um inquérito destruiu esta elucubração. Será que o círculo da razão se tornou paranóico?

24 de Março de 2019: um dia que deveria entrar na história como o domingo negro dos grandes meios de comunicação social. Em quatro páginas lapidares, o ministro norte-americano da Justiça acaba de resumir as conclusões do procurador especial Robert Mueller. Este investiga há mais de dois anos, com meios consideráveis, o suposto entendimento – coordenação, conluio ou conspiração – entre Donald Trump e o seu homólogo russo Vladimir Putin para falsear as eleições presidenciais americanas de 2016 em benefício do primeiro. Veredicto: «Definitivamente, as investigações não provaram que a equipa de campanha [de Trump] estivesse coordenada ou tivesse conspirado com o governo russo no quadro de actividades destinadas a interferir nas eleições» (ler o artigo de Aaron Maté na edição de Maio).

Robert Mueller, insuspeito de complacência com o multimilionário nova-iorquino, ao ponto de os democratas lhe votarem um verdadeiro culto (um sítio na Internet comercializa mesmo círios com a efígie de «Santo Robert Mueller», a 12,85 euros), acabava de desmentir, com a rapidez de um clique na tecla «enviar», as mais extraordinárias fake news da década, segundo as quais o presidente dos Estados Unidos estaria submetido à chantagem do Kremlin, ou mesmo ter-se-ia tornado a «marioneta de Putin», graças a registos comprometedores das suas extravagâncias sexuais num hotel de luxo em Moscovo, em 2013 – os jornais de prestígio repetiam sem parar, encantados, o termo russo «kompromat». Desde o início de 2017, este pretenso «Russiagate» coloca em ebulição as caldeiras editoriais das publicações mais prestigiadas do planeta [1].

«Não se pode excluir que o presidente dos Estados Unidos seja o agente, consciente ou não, de uma potência estrangeira hostil», explica por exemplo Michael Fuchs no US News and World Report (28 de Dezembro de 2017). Passados seis meses, a New York Magazine (9 de Julho de 2018) descreve a Cimeira Trump-Pequim de Helsínquia como o «reencontro entre um recruta dos serviços secretos russos e o seu chefe».

No canal «de esquerda» MSNBC, a muito popular Rachel Maddow interpreta cada decisão de Trump – o anúncio da retirada das tropas do Afeganistão ou da Síria, as conversações com a Coreia do Norte, etc. – como mais uma prova da sua submissão às ordens do Kremlin. Pouco depois da Cimeira de Helsínquia, ela convida mesmo a que se considere «a possibilidade de alguém ter acedido à presidência dos Estados Unidos para servir os interesses de outro país que não o nosso» (16 de Julho de 2018).

A revista Time, com uma imaginação transbordante, dedica a capa a um jogo de bonecas russas que, através de encaixes sucessivos, conduz do presidente americano ao seu homólogo do Kremlin: «Todos homens do czar: como os oligarcas de Putin se infiltraram na equipa de Trump» (1 de Outubro de 2018). E, no canal ABC (12 de Abril de 2018), o antigo director do Federal Bureau of Investigation (FBI) demitido por Trump, James Comey, avança uma hipótese que faz tremer de alegria a intelligentsia americana: «Não sei se o actual presidente dos Estados Unidos se encontrava em 2013 em Moscovo com prostitutas que urinavam umas sobre as outras; é possível, mas não sei». Numa reviravolta carnavalesca, os representantes de uma instituição policial que assassinou dezenas de militantes anti-racistas nas décadas de 1960 e 1970 pavoneiam-se em canais progressistas para dar lições de comportamento democrático. (…)

LEIA O ARTIGO COMPLETO DA EDIÇÃO DE MAIO


[1] Ler Serge Halimi, «Marionetas russas», e Aaron Maté, «Ingerência russa: da obsessão à paranóia», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, respectivamente, Janeiro de 2017 e Dezembro de 2017.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Os milhares de censores oficiais e as dezenas de milhares oficiosos

(Pacheco Pereira, in Público, 04/05/2019)

O tempo está mau para as liberdades. Não na China onde está péssimo, mas nos EUA, na Europa, em Portugal, onde um crescendo de censura é muito preocupante. Mesmo muito. E a censura sob todas as formas, a começar pela clássica que conhecemos bem em Portugal, está a crescer. E o clamor censório também. À esquerda e à direita.

 

O caso do cartoon de António é exemplar. Criticar a política actual do Estado de Israel não é ser anti-semita. Ser anti-sionista não é ser anti-semita. Criticar o par Trump-Netanyahu – uma das maiores ameaças pela sua política beligerante, anti-Palestina e anti-xiita ao serviço do príncipe assassino da Arábia Saudita, ao próprio Estado de Israel – não é ser anti-semita. Estava lá a estrela de David e a kipah na cabeça de Trump? Estava. Mas se fosse uma representação de um muçulmano não estaria o turbante, ou as barbas longas, ou algures o Crescente ou um minarete?

Pelos vistos, o New York Times, como aliás muitos políticos democratas, comporta-se face ao poderoso lóbi judaico americano como os republicanos diante do lóbi das armas, e tem um medo pânico de ficar em qualquer lista negra. As explicações do jornal são indignas de um órgão de comunicação de tradição liberal, no sentido americano. E é confundir tudo misturar o efectivo anti-semitismo que existe nos EUA e na Europa e que ataca sinagogas e vandaliza cemitérios judaicos como podendo ser fortalecido pela imagem caricatural, que bem podia ter os papéis invertidos, com Trump a fazer de cãozinho, e, neste caso, não podia ser um “salsicha”, e Netanyahu a trazê-lo pela trela. Trump podia ter um símbolo qualquer das igrejas evangélicas que o apoiam com hipocrisia absoluta e Netanyahu de kipah. E tenho que ter cuidado, a mais sinistra interiorização do actual policiamento de linguagem, para não parecer ser anti-semita.

Ainda se fosse apenas o cartoon do cego e do cão “salsicha”, mas não é. Todas as semanas a nova polícia de costumes e o seu cortejo de censores indignam-se enchendo as ondas e o papel de “casos”, seja a dupla patetice do CDS de querer fazer em Arroios passadeiras LGBT e depois, no mesmo CDS, achar-se que isso é o fim do mundo ocidental; seja uma partida de mau gosto de uma espécie de situacionistas fora de época contra os brasileiros na Faculdade de Direito. Duplicidade de critérios: quantos exemplos de machismo, racismo, e outros ismos, proliferam na praxe? Vão às moribundas repúblicas de Coimbra e ver as practical jokes, cem anos de tudo o que é politicamente incorrecto. E para muitos que vivem só nas “redes sociais” – e apetece dizer “é bem feito!” – há cada vez maior censura no Facebook a tudo o que pareça ser de extrema-direita como o Info-Wars. Hoje é à direita, depois será à esquerda. Admirem-se, mas eu acho que o Info-Wars é mil vezes mais inócuo do que o Twitter permitir a Trump aquilo que não permite a um cidadão comum. A ele, que todos os dias insulta pessoas, ameaça-as de prisão ou despedimento, e divulga fake news como quem respira, ninguém censura.

Se se querem cometer abusos que são crimes, aumentem-se as penas e acelerem-se os processos. Obrigue-se a que o anonimato seja a excepção muito fundamentada, e proíba-se que Facebooks e outros não tenham identidade registada e verificada na empresa, mesmo que assinem com pseudónimo. Nada tenho a objectar que indivíduos, empresas, Estados e partidos possam ter que pensar duas vezes antes de escrever certas coisas no domínio da calúnia, do abuso da liberdade de expressão, do incitamento ao ódio e à violência, do recrutamento terrorista, da desinformação profissional de serviços de informação estrangeiros, que já são crimes e deviam ter penas, principalmente pecuniárias e de prisão, maiores do que as que já existem. Mas isso não se aplica a quem divulga teorias conspirativas, a quem tem ideias anti-democráticas, sejam fascistas ou comunistas, ou a quem acha que as mulheres são inferiores aos homens ou os brancos superiores aos negros e vice-versa.

Pode ser muito repelente, mas repetirei pela enésima vez que o direito dos outros à liberdade de se expressarem tem muito mais sentido quando se detesta o que eles fazem com esse direito. Têm essas ideias efeitos e consequências? Têm certamente e devem ser combatidas. Mas a censura é pior. Não é eficaz para impedir os malefícios do racismo ou do machismo, mas mata mais coisas à volta.

Por isso mesmo, não acho normal que, por todo o mundo, haja umas centenas de censores numa sala diante de ecrãs, tão anónimos e tão ignorantes como eram os antigos censores, com instruções vagas e discricionárias dadas pelo Facebook, pelo Google, pelo YouTube, pelas várias “redes sociais”, para adequar as “redes” ao politicamente correcto dos dias de hoje. Sabe-se pouco sobre estes homens e mulheres sem experiência da vida e sem conhecimentos, mão-de-obra quase tão barata como a dos call centers e que apagam sites, apagam imagens, apagam textos, punem com a expulsão das redes pessoas que podem ser as piores do mundo e terem as ideias mais nefastas, mas que têm também direito à livre expressão. Estas censuras e exclusões não têm recurso, embora agora o Facebook prometa que isso possa acontecer.

Mas parece uma cena do 1984 de Orwell e é. Estas empresas fizeram o mal e agora fazem a caramunha. A razão é simples, a liberdade nunca foi o seu objectivo, mas sim enriquecer.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, para que ninguém esqueça...

Se não fosse a CGTP nem me ocorreria que pudesse haver tal dia. No título, figura um apelo ao não esquecimento. Um só, pois o «lápis azul» da censura salazarenta hoje não incomoda. A não memória, aquilo que preocupa, a memória que se perde, é recente. A imagem é deste ano e reporta a omissão como forma subliminar de censurar.
Quanto ao vídeo (também recente), montei-o eu, estava guardado para este dia. Veja-o e responda:
Hoje há liberdade de imprensa?
Também pode assistir à versão longa.. e, então responda:
Há?

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

td teclas da maquinaA CGTP-IN associa-se à celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, uma data que evoca a liberdade de expressão e enaltece a ética profissional, o pluralismo, a independência e diversidade da comunicação social.

Hoje, dia 3 de Maio, saudamos o esforço de muitos jornalistas e de outros profissionais da comunicação social que, fiéis aos princípios éticos e deontológicos, não se deixam enveredar por outros interesses que não sejam os do jornalismo livre, isento, plural e objectivo, contribuindo para a elevação da consciência crítica e política dos cidadãos.

Hoje homenageamos também os profissionais da comunicação social que perderam a vida ou foram vítimas de violência no exercício da sua missão.

Hoje valorizamos a luta dos profissionais da comunicação social que resistem às perseguições, detenções e múltiplos ataques em defesa da Democracia, da Liberdade e da Paz, para que os direitos de informar e de ser informado sejam garantidos a todos e em plenitude, em países onde o direito à informação livre é cada vez mais atacado.

Hoje, o combate à desinformação, às fake news representa um dos grandes desafios para a Democracia.

Na campanha em curso contra a precariedade laboral, a CGTP-IN continuará a denunciar os contratos a prazo ou de prestação de serviços, falsos recibos verdes, a utilização consecutiva de estagiários para ocupação de postos de trabalho permanentes. Prosseguirá a defesa da contratação colectiva de trabalho e a luta pela revogação da legislação laboral, com vista à melhoria das condições de vida e de trabalho para todos.

Unidos pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, como o reafirmámos no 1º de Maio, continuaremos a luta contra o trabalho precário e a exigir que a um posto de trabalho permanente corresponda um vínculo de trabalho efectivo.

A melhoria das condições de vida e de trabalho trará melhores condições às redacções e reforçará a cobertura necessária à coesão social, territorial e nacional que urge refazer.

DIF/CGTP-IN
Lisboa, 03.05.2019

Ver original aqui

O peso da responsabilidade e o anonimato

O título desta crónica parafraseia o de um livro do historiador Tony Judt sobre três intelectuais franceses – Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron – com personalidades singulares e percursos muito diversos, mas que coincidiram no sentido exigente da sua responsabilidade perante o mundo. Encararam-na num duplo sentido. Por um lado, sob a perspetiva de quem o observa de maneira informada, razoavelmente liberta dos filtros impostos pelas ideologias, dos modismos e dos lugares-comuns. Por outro, agindo, escrevendo e falando em função das suas próprias conclusões, obtidas através da reflexão e da crítica, e assumindo-as de uma forma pública, ainda que tal os tenha colocado por vezes contra a maioria dos que pertenciam ao seu campo político.

Na verdade, essa é a missão, e ao mesmo tempo o pesado fardo, de quem pensa a realidade e sobre ela se pronuncia convictamente a partir dos seus próprios pontos de vista e da sua sensibilidade, questionando, se necessário, as formas de pensamento dominantes, ainda que tal lhes cause incómodos ou problemas. Esse é o lugar do pensador livre e crítico que em boa parte tem estimulado, nos últimos dois séculos, o combate às iniquidades e a procura de novas formas de sociedade. Muitos foram os e as que por ele sacrificaram a liberdade, o sossego, o bem-estar ou mesmo a vida. Contrária a essa escolha é a do indiferente, ou a do carreirista, que se cala ou se esconde temendo acima de tudo que a menor palavra o possa lesar. No fundo, a diferença crucial entre a audácia e a cobardia, entre ser-se assertivo ou indiferente.

Atualmente, esta distinção confronta-se com um problema novo. O surgimento da Internet e das redes sociais tem permitido a extensão de um tipo híbrido, que sempre existiu de forma marginal, mas tem agora um habitat favorável. Refiro-me ao que fala sem contrangimentos, mas sob anonimato ou usando falsas identidades, o que lhe permite escrever o que lhe ocorrer sem se responsabilizar pela justeza ou pelo sentido do que diz. Naturalmente, isto inquina qualquer debate, banalizando muitas vezes a mentira, a calúnia, o embuste, a insensibilidade ou a simples tolice, apresentados como «opinião pessoal» ou uma expressão de «liberdade».

Alguns dos que assim procedem invocam mesmo o direito a dizer o que lhes vier à cabeça – incluindo a defesa de valores antidemocráticos ou a negação de crimes contra a humanidade – com o rosto coberto por uma máscara ou a identificação adulterada. A propósito, perdoem a imodéstia, refiro o meu próprio exemplo. Sempre dei o nome e a cara, desde que, muito jovem, em 1970 comecei a escrever em jornais, tendo logo o primeiro artigo cortado pela censura. Mesmo sob o anterior regime, como militante antifascista, o que me levou à prisão, ou depois em condição subalterna – como estudante, operário, militar ou jovem professor – jamais deixei de assumir a responsabilidade pelo que disse ou escrevi, ainda que nem sempre o tivesse feito bem ou de forma justa. Apenas usei um pseudónimo conspirativo antes do 25 de Abril e depois um outro, literário, inteiramente assumido. Como norte, sempre uma noção dever social e um imperativo ético que exclui a hipótese do anonimato.

Em democracia, esconder a cara não pode ser senão uma forma de desresponsabilização e uma marca de vergonhosa cobardia. Não é de uma, ou de outra, por certo, que precisamos para construir uma sociedade melhor governada e mais justa. Retornando ao título de Tony Judt referido no início, a responsabilidade pelas escolhas pessoais carrega um peso consigo, sempre vinculado a quem as assume. Resta saber se quem o faz se expõe à luz da vida coletiva ou prefere viver sob as pedras e na sombra,  como os répteis.

Rui Bebiano

Fotografia de Bragi Thor
Publicado no Diário As Beiras de 4/5/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/05/04/o-peso-da-responsabilidade-e-o-anonimato/

O matutino da Sonae na vanguarda da criação de casos contra os socialistas

Folheando o matutino da Sonae pode-se ir percebendo como ele constitui ferramenta persistente e insidiosa contra tudo quanto o governo socialista possa ir fazendo de bom pela melhoria da vida dos portugueses, insistindo na ideia de tratar-se de uma realidade contra a qual haverá que deitar abaixo a qualquer preço. Nem que para tal recorra a um contrato firmado entre a autarquia lisboeta e os organizadores de um dos maiores eventos anuais organizados entre nós.

 

No seu editorial o diretor do jornal, Manuel Carvalho, insurge-se contra o seu desconhecimento dos termos do contrato com a Web Summit e que tornam Lisboa no entroncamento em que se encontram, durante vários dias, os que contribuem para os maiores avanços tecnológicos das próximas décadas.

 

Se a iniciativa do irlandês Paddy Cosgrave tivesse debandado para outras paragens não faltariam vozes iracundas a acusar o governo de crime de lesa-Pátria. Agora, como sucedeu o contrário, com a obrigatoriedade do respeito de sigilo por algumas cláusulas contratuais, que todos os vereadores lisboetas poderão consultar, a estratégia antigoverno passa a ser outra: a de ocultar dos portugueses o que eles deveriam ter pleno conhecimento sem quaisquer reservas, como se o mundo dos negócios não estivesse recheado de exemplos assim, em que a proteção contra a concorrência, tem de ser salvaguardada.

 

O que importará mais para Manuel Carvalho e para os donos da Sonae, que lhe pagam para cumprir o seu triste papel? Que Portugal continue a ser conhecido pela capacidade de assegurar tal organização, e surja como símbolo maior da economia digital, ou que outra grande metrópole europeia lhe espolie o mérito e o proveito? Sim! O proveito, porque são muitos os milhões de euros que o país atrai nesses dias e, nos que se seguem, como benefício de tal evento!

 

Manuel Carvalho surge como exemplo maior daquele tipo de gente incapaz de fazer, mas pródigo em esforços para impedir que outros o façam.

 

Mas não se fica por aí: nessa mesma página escolhe como «Cartas ao Diretor» as que lhe secundem o objetivo. Duas versam o lamentável episódio dos arruaceiros, que tentaram interromper o discurso de António Costa na Festa do 46º aniversário do PS - quem pode aceitar o comportamento ignóbil dos referidos «ativistas» e cometa o insulto de o querer equiparar ao de Alberto Martins, há 50 anos quando, em pleno fascismo, pediu a palavra ao fascista Américo Thomaz. Acaso estamos em ditadura para que essa provocação seja a única forma desse tal movimento se fazer ouvir? Ou, pelo contrário, e a exemplo do sucedido há quatro anos, quando a campanha eleitoral foi recheada de casos preparados para minimizar a derrota do PAF, estamos perante a mesma lógica em que se minimizem as qualidades efetivas dos socialistas para melhorarem a vida dos portugueses e se dê deles ideia contrária, que possibilite o regresso ao governo de quem tanto os maltratou?

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/o-matutino-da-sonae-na-vanguarda-da.html

O «Público» nos 45 anos do 25 de Abril

E depois queixem-se
de que estão a perder leitores
Como muitas dezenas de milhar de pessoas sabem e viveram, a tradicional manifestação do 25 de Abril na Avenida da Liberdade constituiu uma imensa, poderosa e exaltante expressão da vitalidade dos valores de Abril. Passadas duas horas e meia do seu arranque, às 18 hs. nos Restauradores, ainda faltava passar muita manifestação. Pois bem, no «Público de hoje, nem uma foto com uma legenda, nem uma linha, zero, nada. nicles.
Não esquecemos nem perdoamos.

( o mesmo aconteceu com a inauguração
do memorial na Baixa Chiado e com os
actos em Peniche de inauguração de
primeiros elementos do novo Museu.
E palpita-me que o mesmo vai acontecer
com a grande jornada democrática
de amanhã também Peniche.)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

As redes sociais decidem!

As redes sociais, como tudo, tem aspetos positivos e negativos. Sendo que, os negativos, como em tudo na vida, tem sempre um maior realce, na nossa cultura.

  • Um aspeto positivo: a facilidade em comunicar;
  • Um aspeto negativo: a facilidade em manipular as fontes que veiculam a comunicação.

Ora, as notícias falsas, veiculadas por fontes especializadas, tem assumido ser assunto dominante desde a massificação das redes sociais tal e qual as conhecemos em suporte informático com maior uso na rede de telecomunicações móveis, uma vez que influenciam e, muitas vezes determinam, o rumo de acontecimentos vitais para a organização social, política, económica, religiosa e outras, dos cidadãos, em sociedades mais ou menos civilizadas consoante o interesse geopolítico e geoestratégico territorial ou económico, entre outros fatores relevantes para o que estiver em causa no tempo e, no momento preciso.

As notícias falsas sempre foram uma conduta do poder nos mais diversos cenários: políticos; militares; sociais e outros.

Nesse sentido, os agentes políticos tem de ter consciência de que as diretrizes politicas legais que emanam devem ser catalisadoras de justiça social e nunca o contrário como vem acontecendo e que, as eleições a que se submetem se devem ganhar com esclarecimentos diretos, o que não é fácil nos tempos que correm em que há quem já tenha ganho eleições sem sair de casa, e em que o cidadão também tem a sua cota parte de culpa porque colabora ativamente com esta nova dinâmica por mero comodismo.

As redes sociais são o resultado da organização política e social existente que se tem vindo a ajustar a mudanças constantes em função das necessidades emergentes e da sua satisfação por Governos liderados por agentes políticos moldados por forças externas ao poder político, mas detentoras daquele que é o poder efetivo.

O agente político, passivos como sempre no que toca ao desenvolvimento do conhecimento, condição que lhe passa completamente ao lado, fica à mercê de quem possui e domina esse mesmo conhecimento. As Academias, nichos de tecnocratas.

Circunstância que vicia as regras da disputa do poder uma vez que uns sempre o tiveram e outros se sujeitam a eleições legitimando um engenho de modelo político dominado por tecnocratas e por todos os seus preconceitos, em uma democracia onde o agente político se presume ser um cidadão comum conhecedor das realidades conjunturais dos demais cidadãos comuns em que a articulação entre a necessidade e a solução não tem soluções de “régua e esquadro” por necessidade da convergência de sensibilidade apurada. O que não é, de todo, algo que fascine os tecnocratas.

Os partidos políticos atravessam por diversos motivos a sua maior crise existencial, tal qual o sindicalismo e demais estruturas da organização social popular, de forma que a sua existência começa a ser questionada um pouco por todo o mundo.

Talvez por isso o populismo ganhe adeptos passado que foi o tempo em que os académicos detinham a dianteira. Simplesmente, com o evoluir dos tempos, num tempo em que a vulgaridade também atingiu essa suposta elite social, o populismo sub-reptício alicerçou domínio que havia adormecido e alavancou força de sempre com uma nova forma e, pelos canais de sempre: a comunicação nas suas diversas formas conjugadas. No caso, as redes sociais.

Algo que foi estrategicamente criando para defesa dos seus interesses determinantes.

Assim sendo, as redes sociais não trouxeram nada de novo a não ser a forma, naquilo que sempre foi a contra informação estratégica que os interesses internacionais desde sempre fomentaram.

Um fenómeno rotineiramente ajustado através de uma articulação precisa entre todos os interesses em presença, mas em que, os maiores interesses são sempre os que mais beneficiam. Ou, não fossem esses que dominam as regras. Porque, quem financia toda a engrenagem da História foi sempre quem até hoje despendeu a sua força de trabalho na extração, transformação e consumo das matérias primas e seus derivados. Objetivando o presente: todos nós!


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/as-redes-sociais-decidem/

The Mainstream Media – The good, bad and downright ugly

24th April 2019 / United Kingdom
The Mainstream Media - The good, bad and downright ugly

By TruePublica: While the European media is generally known to be mostly objective in its reporting, the highly partisan nature of British coverage into the events that shape our world view is, without any doubt deepening the political and social divide.

 

Broadsheets and broadcasters are typically consumed by the middle to upper class, whereas the tabloids are generally aimed at the working class. And as 60 per cent of Britons identifies themselves as working class, it is hardly any surprise that the tabloids are popular.

It is also known that a right-wing ideology and bias dominates British news. This was confirmed by a YouGov survey, that to be fair, only stated the obvious – The Mail, Express, Sun, Telegraph and Times were all identified as right-wing, but that is also outnumbered the leftist thinking of the Daily Mirror and The Guardian. The Independent was seen as slightly left of centre.

It is true to say then that the sensationalist ‘tabloids’ hold considerable political clout and sway over public opinion.

In the most recent example of analysis of this right-wing bias dominating our world view, one only has to look at a Reuters Institute for the Study of Journalism analysis, which found that in the run-up to the Brexit vote, 41 per cent of articles about the Referendum was pro-Brexit, while only 27 per cent advocated remaining in the EU.

As expected, the UK’s leading newspapers – The Sun, the Daily Mail, The Daily Telegraph and the Daily Express – published a steady stream of anti-EU reporting – also known as to most of us as propaganda or fake news.

This distortion of the national narrative ought to be taken very seriously as we form our own opinions around what we see, read and experience and the mainstream media are very much a part of that.

One way of looking at this distortion is to analyse the number of complaints received by The Independent Press Standards Organisation or IPSO. It was established in September 2014 following the windup of the Press Complaints Commission, which had been the main industry regulator of the press in the United Kingdom since 1990.

It exists, so they say, to promote and uphold the highest professional standards of journalism in the UK, which given the record and type of complaints, is very hard to believe. It also states it is there to support members of the public in seeking redress where they believe that the Editors’ Code of Practice has been breached.

IPSO is a self-regulator paid for by its member publishers, therefore, it is hard not to see where a conflict of interests can arise.

The “Hacked Off” campaign that emerged as a result of the phone-hacking revelations and the Levison report, which campaigns for a free and accountable press for the public has described IPSO as a “sham” and “the illusion of reform.”

We analysed the last 800 complaints made by all manner of people. From distressed families suffering from the intrusion of the press to complaints of blatant lies, harassment, reporting inaccuracies and the like.

Each complaint is categorised by IPSO as either a ‘Breach, No Breach or Resolved – IPSO Mediation

 

In the period analysed we looked at the last 800 complaints listed:

95 were ruled as breaches of the code of conduct (12 per cent)

272 were ‘resolved’ through IPSP mediation (34 per cent)

433 complaints were dismissed after investigation (54 per cent)

 

For the analysis of breaches, we have grouped those outlets that are of the same entity such as The Times and Sunday Times, and only national newspapers – and excluded the likes of regional or local papers.  Of those complaints that were upheld as ‘breaches’:

 

Daily Mail/Mail online/Mail on Sunday – 27

Express/Sunday Express – 18

The Sun – 18

The Times/Sunday Times  16

Daily Telegraph – 7

The Mirror – 7

Daily Star – 2

It should be noted that the Financial TimesThe Independent and The Guardian newspapers do not subscribe to IPSO.

 

By no means do the numbers above give an indication of the total number of complaints received by IPSO.

For instance, in 2017 a large number of ‘multiple’ complaints, where more than one similar complaint was made about the same article, contributed to a high number of complaints received. The Sun topped the list with 4,847 complaints, followed by the Daily Mail at 4,176, Mail Online at 3,536, the Metro at 1,500 and The Mail on Sunday at 1,452. Here the Daily Mail, Mail Online and Mail on Sunday racked up well over 9,000 complaints between them.

In 2018, the Daily Mail was identified as by far the biggest offender of the year out of the publications monitored by IPSO. The Express, Sun, Telegraph and Times respectively limped on behind. In this year, the Daily Mail was found after a full investigation to have breached the code of practice on no less than 37 occasions – just for accuracy alone.

The Daily Mail is the most popular daily paper in the UK in terms of online readership but its awful record of breaching basic guidelines that it subscribes to is the reason why Wikipedia made the decision to classify it as an unreliable reference source in 2017.

 

In terms of circulation, the national papers continue to see a year-on-year sliding of performance. The 2019 Press Gazette reports (Feb 2019) those numbers as follows:

 

Metro FREE 1,426,050 -3%
The Sun 1,410,896 -9%
Daily Mail 1,246,568 -7%
The Sun on Sunday 1,178,687 -8%
The Mail on Sunday 1,032,870 -7%
London Evening Standard 864,620 -3%
The Sunday Times 712,291 -4%
Daily Mirror 508,705 -13%
Sunday Mirror 431,419 -15%
The Times 417,298 -5%
The Daily Telegraph 360,345 -6%
Daily Star 329,971 -16%
Daily Express 321,146 -12%
Sunday Express 280,684 -9%
The Sunday Telegraph 278,558 -7%
The i 233,868 -9%
Daily Star – Sunday 201,969 -15%
Financial Times 180,053 -5%
The Observer 163,694 -7%
Sunday People 159,836 -18%
The Guardian 141,460 -7%
Sunday Mail 123,755 -12%
Daily Record 119,328 -11%
Sunday Post 107,336 -13%
 

 

The domination by the Mail Online is clear to see.

Website Daily average unique browsers – Jan 2019 Year-on-year % change
Mail Online 13,173,163 -4%
The Sun 5,131,010 -3%
Metro 1,627,955 -36%

 

In 2014, The Daily Mail was officially the UK’s most complained about newspaper, according to an analysis put out by the Press Complaints Commission. In 2019 under the guidance of a different regulator, nothing has changed. At the time, Hacked Off describes the PCC’s failure to publish a full list of complaints as a ‘cover-up’. Its biggest financial supporters were the Daily Mail group, Telegraph Media Group and News UK – did not come well out of the analysis.

In 2013, the Daily Mail managed to clock up 1,214 complaints alone, followed by The Sun with 638, Daily Telegraph with 300, Daily Mirror on 242, Mail on Sunday with 168 and so on. In total, nearly 3,000 complaints were received in just that one year. And that year was after, not before the Levison report and the very public scandals of press intrusion and tactics.

The Daily Mail also seems to garner the most amount of criticism racked up by ‘click-baiting’ consumers over health claims. The NHS publishes guidance on what consumers should know as facts through science, not the sensationalised claims made by the newspapers. The Daily Mail features prominently when it comes to correcting their headlines and claims.

 

Just four months ago The Guardian was found to be the most trusted newspaper in Britain as well as being the most read quality news outlet, according to industry figures produced by the Publishers Audience Measurement Company.

In the end, we would recommend that you read news through a mix of sources but steer clear from the click-baiters and propagators of fake news and propaganda like the Daily Mail, Express and Sun.

 

The Top Ten Independent News Sources In The UK

 

 

 


 

Ver o original em "TruePublica" (clique aqui)

Escutem, Zés Ninguém!

Porque não na Páscoa católica, apostólica e romana, pespegar com a verdade frente aos nossos olhos? Verdade dita por um Francisco que é papa. Dita e sentida por via das corporações e dos profissionais rastejantes que as sustentam com seu labor.
São muitos milhões os que sentem aquele colonialismo ideológico que todos os dias nos invade as casas via um ecrã e uns jornalistas com outros que obedecem às vozes dos donos tal qual cachorros amestrados, dóceis, servis, sem a a merecida consideração e respeito pela profissão que uns quantos ainda exercem com rigor e deviam ser modelos a gerar mais e melhor jornalismo por parte dos que encaram aquela profissão como mercenários, numa busca incessante por quem lhes dê mais e pague melhor. E depois argumentam que também têm família para sustentar... E antes? Quando não a tinham? Porque tão jovens se venderam ao galopante colonialismo ideológico  disseminado, que já nem o diferenciam da pesquisa obrigatória e luta pela verdade de factos e respetiva divulgação pública sem sofismas?

Páscoa feliz, mesmo assim. Até aos imensos servis mendicantes a quem também se destina este pascal apontamento... Afinal é muito provável que tudo não passe de tosca reação a verdades contidas no escrito por Wilhelm Reich em "Escuta, Zé Ninguém!", com  muito provável adenda de Francisco - que muito precisam e merecem. Na esperança de que se libertem do sonolento percurso rastejante e imensamente servil.
Aos que desconhecem o referido autor não será estulto deixar aqui o breve escrito sobre ele que consta na Wikipedia:
"Wilhelm Reich foi um médico, psicanalista e cientista natural. Ex-colaborador de Sigmund Freud, rompeu com este para dar prosseguimento à elaboração de suas próprias ideias no campo da psicanálise"
E sobre o referido livro, retirado de Google Books:
"Nesta obra, Reich mostra o que o homem comum faz a si mesmo - como sofre, como se revolta, como homenageia seus inimigos e mata seus amigos, como sempre que conquista o poder em 'nome do povo' ele o utiliza mal e transforma em algo mais cruel do que a tirania à qual estava subjugado anteriormente, nas mãos da elite."

Haja páscoas!

Mário Motta | Redação PG

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/escutem-zes-ninguem.html

Eu, um desinformado confesso, me confesso

(Joaquim Vassalo Abreu, 15/04/2019)

Eu
Vassalo Abreu

E desinformado confesso enquanto indivíduo que, de há muito tempo a esta parte, tem vindo a desistir de ler jornais (apenas leio as primeiras páginas e pouco mais), de ver televisão (apenas desporto de alto nível e pouco mais) e de querer saber de “fofocas” e de “diz que diz”…

 

Por isso, seguindo o velho princípio do “o jornalista dá a notícia mas quem a interpreta sou eu”, também me tornei avesso a ler interpretações de outrem, especialmente dos pagos, os tais que se deveriam limitar a dar as notícias, mas principalmente dos avençados, os que escrevem por obrigação da remuneração, os que dizem tudo o que lhes vem à cabeça, na convicção de estarem sempre certos, mas nunca pensando ou imaginando que a margem do politicamente correcto é demasiado ténue para impedir o inevitável contraditório!

Não lhes nego nem a habilidade nem o conhecimento e muito menos a sabedoria! Apenas lhes nego a intenção e a liberdade! Sim, a liberdade. Se sendo remunerado se escreve para um jornal não se ousa escrever contra o seu editorial. Não é isto certo? Se alguém escreve num Observador poderá ser livre de escrever o que lhe aprouver? E num Correio da Manhã, poderá?

Nestes e noutros como esses nunca poderá! Mas perguntar-me-ão: e nos outros, nomeadamente no Público e no Expresso, podem? Eu nestes casos respondo facilmente: até podem, desde que respeitem o editorial! Falem de tudo, menos dos princípios editoriais, isto é, do que vem na primeira página…E voltamos, claro, ao mesmo!

Também um desinformado confesso me confesso porque devo ser de entre todos aquelas e aqueles que eu conheço um dos poucos que até hoje se recusou a ler ou ouvir qualquer escuta, fosse ela proibida! Fosse eu, ou quisesse eu ser, um tipo informado e tê-las-ia ouvido! Mas sei o seu essencial? Claro que sei! Mas esse saber mudou a minha opinião? Não?

Mas porquê, perguntarão? Porque não é um facto isolado, nunca será uma avulsa acusação, nunca será até um desvio comportamental, um pecado ou um deslumbramento ocasional que me farão mudar a minha fundamentada opinião ou admiração em relação a alguém que, por todo um passado, eu me habituei a considerar. Por isso nunca caí em cima de quem, de entre esses todos, me defraudou deixando de pensar como eu, e porquê? Porque em devido tempo, nesses tempos agrestes e perigosos, estando eu cómodo, eles deram o corpo às balas e o couro às adversidades! E isso nunca se pode  apagar!

Não é isso que me revolta nem nunca o será. Revolta-me é muitos desses esquecerem-se do que foram, do que pensaram e de como agiram e sejam hoje o oposto do que foram, pensarem agora o contrário do que antes pensavam e actuarem hoje precisamente contra aqueles com quem antes combateram…Disto eu não me esqueço e isto, sim, revolta-me!

Estes são a pior escória e os seres mais desprezíveis que conheço. E não preciso de os ler…Que me ensinam? E por outro lado, precisarei eu de ouvir quem fala ou escreve contra tudo o que eu penso, tendo voz nos Midia, se tudo o que eles dizem (Marques Mendes e quejandos) só me fazem ficar mais mal disposto e nada de útil me aportam?

Prefiro ser desinformado se ser informado isso for! Aos meus quase 66 anos (em Julho os atingirei), tendo vivido o antes 25 de Abril (20 anos), o pós e o depois do pós, tendo nascido na raia da pobreza, tendo mesmo assim estudado, tendo casado, trabalhado, progredido, regredido, novamente progredido, sofrendo percalços e mesmo assim estabilizando, pensando, dando opiniões e escrevendo-as mesmo ( quase 500 textos neste Blog para além de opiniões avulsas no Facebook), não facilmente aceitarei que seja um qualquer mercenário da escrita que molde as minhas opiniões…Prefiro continuar um “ desinformado” confesso e afastado de todos esses quantos que com “fakes”, com mentiras e com desinformação vão moldando as opiniões de muitos… mas a minha, NÃO!

Confesso!


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Hacker Rui Pinto vence prémio europeu para denunciantes

Os outros premiados foram Julian Assange e Yasmine Motarjemi

Rui Pinto é um dos vencedores do GUE/NGL Award, um prémio europeu para 'Jornalistas, Denunciantes e Defensores do Direito à Informação'. Segundo o site dos eurodeputados da Esquerda do Parlamento Europeu, o hacker português partilha o prémio de vencedor com Julian Assange, o fundador do Wikileaks, e Yasmine Motarjemi, ex-vice-presidente da Nestlé, que denunciou os lapsos de segurança alimentar da empresa.
Os vencedores foram anunciados esta terça-feira no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e vão receber cinco mil euros pelo trabalho desenvolvido. 

Dos três vencedores, apenas Yasmine Motarjemi está em liberdade. Rui Pintoencontra-se atualmente detido em Portugal e aguarda julgamento, enquanto que Julian Assange foi detido pelas autoridades britânicas na embaixada do Equador em Londres na passada quinta-feira.


No ano passado, foram distinguidos o jornalista eslovaco de investigação Ján Kuciak, que foi assassinado, e ainda o denunciante da LuxLeaks, Raphaël Halet.

Hoje foi, inclusive, aprovada no Parlamento Europeu a primeira lei europeia para os 'whistleblowers' (em português, denunciantes). O objetivo é criar um enquadramento legal de proteção uniforme em toda a UE, já que, atualmente, isso varia consoante o Estado-membro.

No caso de Rui Pinto, não irá beneficiar diretamente da nova lei, sendo que não agiu no seio de uma organização, como prevê a diretiva, mas pode ser, ainda assim, abrangido pela ação em prol do interesse público, desde logo quando esta legislação é relacionada com outras existentes.

Rui Pinto terá acedido, em setembro de 2015, ao sistema informático da Doyen Sports Investments Limited, com sede em Malta, que celebra contratos com clubes de futebol e Sociedades Anónimas Desportivas (SAD).

É também suspeito de aceder ao email de elementos do conselho de administração e do departamento jurídico do Sporting e, consequentemente, ao sistema informático da SAD 'leonina'.
Rui Pinto está indiciado de seis crimes: dois de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa coletiva e outro de extorsão na forma tentada.

Fábio Nunes, com Lusa | em Notícias ao Minuto

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/hacker-rui-pinto-vence-premio-europeu.html

Informação e desinformação na era digital

A minha comunicação na Conferência Parlamentar

vdfinalissimoBoa tarde a todos. Queria naturalmente começar agradecendo à Comissão de Cultura na figura da sua  Presidente o convite para participar nesta oportuna e importante iniciativa.

 

Manda a verdade das coisas que diga que, ao contrário de oradores antecedentes, quem vos fala agora não tem quaisquer pergaminhos académicos nesta ou em qualquer outra matéria, tratando-se apenas de um cidadão que, com vossa benevolência, apenas se pode apresentar como acompanhando há quatro décadas com interesse e com projeções no papel impresso e num blogue as questões e práticas da comunicação social portuguesa.

 

Assim sendo, com pedido de desculpas por prováveis repetições em relação ao que hoje já outros disseram melhor, aqui ficam quatro modestos apontamentos:

 

Uma reflexão ligeiraO primeiro destina-se a afirmar que os dados resultantes de um meritório trabalho do jornalista Paulo Pena no DN (mais de 20 páginas online dedicadas à desinformação com 2 milhões de seguidores) são profundamente inquietantes e não deixam nenhuma margem para dúvidas quanto à sua potencial e provável influência nas eleições nacionais deste ano.

 

Por outro lado, temo seriamente que até cidadãos muito informados e dotados de um elevado espírito critico face às operações de desinformação sejam atingidos por um sentimento de impotência (a Cambridge Analytica obtevem do Facebook dados de 80 milhões de pessoas e julgo que ninguém foi preso ou condenado). E que esse cidadão se sintam um pouco como se estivessem a lutar contra um dragão tendo apenas como única arma um canivete. Mas, por isso mesmo, sempre longe de quaisquer obcessões securitárias e no intransigente respeito pelas liberdades democráticas, creio que tudo o que puder ser feito para contrariar ou atenuar este perverso fenómeno é bem-vindo, é necessário e é urgente.

 

Creio entretanto que não nos devemos deixar hipnotizar apenas pelo que é novo e, nesse sentido, permito-me observar que nada nos deve distrair dos princípios e regras (isenção das entidades públicas, pluralismo, proibição da publicidade comercial dos partidos e tudo o mais que sabe) que já estão instituídos na legislação sobre campanhas eleitorais. E, nesse domínio, de um ponto de vista pessoal, permito-me formular o voto de que «os critérios editoriais» a que a lei se refere não sirvam de biombo para encobrir práticas discriminatórias ou preconceituosas e também o voto de que, nas próximas eleições legislativas, colhendo a devida e cristalina lição do desfecho das eleições de 4 de Outubro de 2015, os meios de comunicação social tradicionais resistam melhor ao velhíssimo sofisma das «eleições para primeiro-ministro».

 

Só para ilustrar a importância das regras já assentes, permitam-me um pequeno exemplo : há três semanas, consultando a página que o Parlamento Europeu criou especificamente para eleições europeias de Maio próximo (e onde há uma agregação de sondagens) encontrei uma secção intituilada «Os desafios da Europa» com um conteúdo perfeitamente alinhado pela ideologia mainstream do P.E. Era como se a AR criasse uma páginas especifica sobre as próximas legislativas e lá pusesse uma secção denominada «Os desafios de Portugal». Essa secção foi entretanto felizmente retirada mas ficou lá outrs intitulada «O que a Europa faz por mim» com o conteúdo que se pode calcular.

 

Ao mesmo tempo, sublinho com sinceridade a importância do papel que podem desempenhar as acções e iniciativas de «fact cheking» tanto em sites especializados como nos próprios órgãos de informação tradicionais.

 

A par disto, partilho da ideia, certamente não consensual, de que seria vantajoso para o enriquecimento do debate democrático que existissem variados sites de reflexão e crítica sobre os meios de comunicação tradicionais (como, por exemplo o ACRIMED francês) e que nas direcções e chefias desses órgãos se evitassem reacções de perfil corporativo ou pretensões de intocabilidade perante os exercícios de crítica aos media.

 

Mas se falamos de combate à manipulação, à desinformação e às «fake news», a para da contribuição indispensável dos órgãos de serviço público, então entendo salientar que como ponto nodal desse combate tem de estar a justa ideia de que cabe aos profissionais da informação um papel essencial na defesa dos melhores valores da profissão, o que a meu ver é inseparável de mudanças significativas nas suas ásperas e inseguras condições de trabalho e do pleno respeito pelos seus direitos, tudo acompanhado da rejeição de uma visão puramente mercantilista da informação e da notória pulsão para o sensacionalismo e tudo tendo em vista a reabilitação e reafirmação da noção, hoje em dia muito posta na obscuridade, da «responsabilidade social dos jornalistas e dos órgão de informação».

 

Um segundo apontamento destina-se a sublinhar um óbvio que, apesar de o ser, por vezes parece bastante esquecido embora hoje já aqui tenha sido lembrado várias vezes : é que as «fake news» que hoje defrontamos (exceptuando a capacidade de penetração que as novas tecnologias lhe ofereceram) não nasceram com a internet e o facebook.

 

Num exercício de memória histórica obviamente selectiva que viaja ao de leve por acontecimentos do século passado, lembraria que mentiras ou«fake news» houve:

 

–    em Fevereiro de 1898 quando os EUA responsabilizaram a Espanha pela explosão (que depois se veio a considerar ter sido interna e espontânea) do seu cargueiro Maine no Porto de Havana, largamente explorada pela imprensa de Randolph Hearts e criando um fervor patriótico que que levou à guerra hispano-americana;

 

–    em Fevereiro de 1933, quando Hitler e os nazis acusaram G. Dimitrov de estar ligado ao incêndio do Reichstag;

 

- em Agosto de 1964 quando os EUA acusaram a marinha norte-vietnamita de ter disparado sobre o destroyer Maddox e que a National Secuirity Agence veio a declarar depois que não houve qualquer ataque mas que serviu a Johnson para desencadear a intervenção no Vietname do Sul.

 

– Em Fevereiro de 2003 quando Colin Powell exibiu na ONU as supostas provas da existência no Iraque de armas de destruição maciças;

 

E num plano distinto e à nossa pequenina escala escala, falando de notícias falsas, alarmistas e irresponsáveis em Portugal, talvez não seja de esquecer quantos milhões de euros custou ao Estado português uma célebre noticia da TVI sobre o BANIF.

 

É certo que talvez possa haver quem argumente que, no caso destas operações de desinformação que estiveram ligadas a sangrentos conflitos militares e alcançaram uma escala planetária, como há autores e responsáveis bem identificados, isso permite um maior debate escrutínio. Ainda que assim fosse, creio que as suas consequências sobre o curso da história e em termos de danos humanos são muito superiores às operações de desinformação que hoje nascem em alfurjas subterrâneas com rostos falsos.

 

Um terceiro apontamento visa sublinhar que, como todos sabemos, um dos casos mais falados da influência das fake news veiculadas por redes sociais nos processos eleitorais é última eleição presidencial nos EUA.

 

Creio não existirem dúvidas de que as campanhas de desinformação movidas pela candidatura de Trump ou por outros em seu favor atingiram muitas dezenas de milhões de norte- americanos.

 

Mas já sobre os seus reais efeitos sobre os resultados eleitorais parece haver opiniões diferentes.

 

Ponderando a diversidade dessas opiniões, por mim tendo a pensar que, no caso de essas campanhas se terem especialmente concentrado nos chamados Estados «oscilantes», então é bem provável que tenham contribuído para a inesperada vitória de Trump nesses três Estados e, por essa via, assegurado a sua maioria no Colégio Eleitoral.

 

Mas observo ao mesmo tempo que essas campanhas não impediram Hilary Clinton de ter mais 3 milhões de votos do que Trump.

 

Ora acontece que esta diferença é igual ou mesmo superior às registadas em outras eleições presidenciais nos EUA no decurso do Século XXI, sobretudo quando se trata de uma primeira eleição. Na verdade, em 2000 Gore perde mas obtem mais 300 mil votos que Bush, em 2004 Bush ganha a John Kerry com mais 300 mil votos e em 2008 Obama ganha a Mitt Romney com mais 3 milhões de votos.

 

Nestes tempos incertos e inquietantes, em jeito de consolação talvez possamos concluir que, ao menos por enquanto, as fake news não são omnipotentes.

 

E, por fim com diz o nome, um último apontamento para vos dizer que tenho a ideia de que o pós-guerra do século passado foi uma época em que o grau de sindicalização era incomparavelmente maior do que é hoje, em que as correntes, forças ou famílias políticas tinham um grau de coesão e de base social de apoio muito mais nítidas e sólidas, tudo conduzindo, com outros elementos, para laços de solidariedade e sociabilidade social mais fortes.

 

Digo isto mas sei que isso não impediu que logo em 1946 tivesse surgido na Itália o «qualunquismo» (protagonizado pela Frente do Homem Comum) que logo obetve 5,3% dos votos para a Assembleia Constituinte, recebendo 1.200.000 votos. E que, em 1956, na França surgiu o «poujadismo» que obteve 12% dos votos e 2 milhões de votos.

 

Ainda assim, mas sem prejuizo de um intrincado complexo de outras causas e factores ( em que entram problemas económicos e sociais, as migrações e a erosão das soberanias nacionais), não consigo deixar de pensar que a preocupante e inusitada vaga de populismos fascizantes que varre a Europa e não só é inseparável der um processo social e político em que cresceu o individualismo, em que se construiu uma cultura do efémero e em que se esbateram os laços de solidariedade social e de pertença política, o que encaixa também na crise e anestesia da noção de processo histórico e numa avassaladora perda de memória colectiva favorecida pelo sensacionalismo e pela extrema volatilidade de opiniões e humores no corpo social.

 

E, por maiores que sejam as dificuldades, não vejo outro caminho digno se não o de continuar a lutar contra estes factores que vejo como elementos de de degenerescência da vida democrática.

 

Obrigado pela atenção e desculpem qualquer coisinha.

 

15.4.2019

Vitor Dias

Ver original em "Os papéis de Alexandria" (aqui)

Vinte anos

Neste mês de Abril completam-se 20 anos desde que, em Abril de 1999, começou a ser publicada de forma regular uma edição portuguesa deste jornal (existente em França desde 1954). Tinha havido antes uma experiência efémera de publicação do mensário O Mundo diplomático, pela Dom Quixote e com direcção de Snu Abecassis, iniciada em Janeiro de 1976 e que durou cerca de um ano. Mas o período pós-revolucionário ia já bem longe quando em 1999, coincidindo com os vinte e cinco anos do 25 de Abril, a equipa dirigida por António Borges Coelho, com Jorge Araújo e depois Edgar Coreia como editores, deu início a 20 anos de publicação regular de uma edição portuguesa, a partir de 2006 publicada pela cooperativa cultural Outro Modo, com mais componente redactorial portuguesa e já no quadro de um vasto conjunto de edições internacionais pelo mundo fora (em 2018 eram vinte e nove, publicadas em dezoito línguas) (...) Não nos escondemos atrás de uma concepção neoliberal dos media, nem da democracia, para achar que as nossas páginas são meros espaços onde cabe tudo, sejam opiniões infundadas ou comentários ofensivos e discriminatórios (racistas ou sexistas, mas também classistas…), sejam formas de corrosão da racionalidade pela arbitrariedade. Não somos um espaço, muito menos neutro. Somos um projecto, exigente com a verdade e respeitador do jornalismo como garante da democracia. É neste projecto que queremos continuar a contar os com nossos leitores. Sandra Monteiro, A nossa informação, as vossas escolhas, Le Monde diplomatique - edição portuguesa, Abril de 2019. Para lá de excertos do editorial da grande responsável pela longevidade deste projecto cooperativo, deixo-vos também o resumo de um número muito especial: “Neste Abril assinalamos 20 anos de edição portuguesa do Le Monde diplomatique e oferecemos, na compra do jornal, um suplemento com artigos sobre Portugal que foram publicados antes de haver esta edição. Nas décadas de 70, 80 e 90 o jornal tratou, entre outros, os temas da Revolução de Abril, das duas intervenções do FMI, da adesão à CEE e da integração na globalização neoliberal. Um suplemento que começa a revelar um arquivo fundamental para compreender o mundo. Na componente portuguesa, destaque para um outro balanço de 20 anos, os de Portugal na moeda única, entre o sonho e o pesadelo (Vicente Ferreira). Ana Jara analisa transformações em Lisboa, uma cidade cada vez mais retalhada e com novas lógicas para o espaço público. José Aranda da Silva reflecte sobre a importância de uma nova Lei de Bases da Saúde para inverter o rumo da anterior e João Luís Lisboa sobre o que nos dizem dos sentidos do presente as polémicas recentes em torno das comemorações da viagem de Fernão de Magalhães. O escritor José Luís Peixoto traz-nos, num conto, as ‘Vozes submersas’ dos mergulhadores-apanhadores de algas no concelho de Odemira. No internacional, acompanhamos a contestação social na Argélia, as eleições em Espanha e a escalada repressiva em França. Procuramos compreender a geopolítica internacional presente na concorrência entre os Estados Unidos e a China, potência cada vez mais importante e mais apresentada como ameaça, bem como nos movimentos de negociação, separada, entre norte-americanos e russos com os talibãs, sobre o futuro do Afeganistão. A subcontratação da política de asilo e de refugiados na Austrália ou, noutro ‘continente’, a sociologia dos sítios de encontros na Internet ou a relação do digital com o espaço público, são também temas de destaque. E prossegue a série sobre as ‘fake news’.”

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Os Milhões da Alegre Vidinha do ‘Comentariato’…

Em Portugal, o importante não é ser ministro, é tê-lo sido. O dito corre por aí há muito e já ganhou foros de provérbio.

Antes, as coisas passavam-se de certos modos, agora, na era mediática, passam-se nos écrans dos media. É o tempo do “comentariato” pago a peso de ouro, tempo de uma espécie de fidalguia político-mediática. Para, frequentemente, vender gato por lebre.

Os canais de televisão constituíram os seus “partidos” com a cooptação de um “barão” aqui e de outro visconde ali… Um visconde mais à esquerda para compensar os dois barões à direita, compondo assim o ramalhete. Marcelo, (de certo modo o criador desta “fidalguia”…) foi, em tempos, a estrela mais brilhante do universo do “comentariato”, à frente do “partido TVI”.

A sua saída para o palácio de Belém provocou uma recomposição da coisa e um novo (des)equilíbrio nos “partidos” televisivos. Um processo de recomposição que, aliás, continuará enquanto o lugar que era o de Marcelo – uma espécie de Rei-Sol das pantalhas – continuar por ocupar… Apesar dos esforços inglórios (até agora…) dos Portas, Marques Mendes e outros “fidalgos”.

Revista Sábado

Pagos ao preço do ouro, os políticos do “comentariato” ficam assim ligados por sólidos laços àqueles que lhes pagam… Os milhões correm-lhes para os bolsos e eles querem que continuem a correr. Quem lhes paga pode querer não só bons números de audiências mas também ter ao seu lado o peso das influências que tais “fidalgos” tenham acumulado. Criou-se assim um universo de (pelo menos..) equívocos…

Dirigida por Eduardo Dâmaso, a revista “Sábado” fez um assinalável trabalho (finalmente, alguém ousou tocar no assunto!) sobre esta trama que, apesar de se desenvolver (em parte, só em parte…) debaixo da luz dos projectores, é coisa bastante obscura.


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-milhoes-da-alegre-vidinha-do-comentariato/

Agora torna-se definitiva a decisão: o «Expresso» já era...

Oito dias depois de ter despedido Pedro Santos Guerreiro da direção do «Expresso», o clã Balsemão demonstra o verdadeiro fito dessa decisão ao nomear para seu substituto o tenebroso João Vieira Pereira. Ora, apesar, de um e outro, serem ideologicamente de direita, existe uma diferença muito grande na cultura, que possuem e, sobretudo, na forma de fazerem jornalismo. Guerreiro sempre revelou uma bagagem intelectual, que tornava desafiante a leitura dos seus textos, mesmo com ele quase sempre discordando. Ao contrário Pereira tem sido sempre umhooligan das direitas, enviesando o bastante os argumentos para dizer o pior possível do governo socialista e das esquerdas em geral. O seu fanatismo neoliberal aproxima-o da tal alt-right que, espicaçada por Steve Bannon, também pretende avançar pelas nossas fronteiras adentro.
Falido economicamente, o grupo Impresa não desiste de levar até ao derradeiro suspiro a porfiada tentativa de devolver às direitas a condução governativa do país. Daí que, em ano eleitoral, quando o futuro se definirá para os próximos anos, o clã Balsemão não se contente com um jornalista inteligente para lhe cumprir os desígnios. Em vez de um diretor dado a floreados poéticos, exige a raiva aguda de umrottweiller da estirpe do agora indigitado responsável. Mas para não revelar tibiezas na missão de que se vê revestido, acolitam-no com David Dinis para que a horda bárbara do «Observador» encontre expansão mais alargada no semanário, até agora adquirido por alguns resistentes, progressivamente desagradados com os seus conteúdos, mas carecidos de alternativa mais digerível.
Adivinhamos que os próximos meses não serão fáceis para as esquerdas tendo em conta o avassalador domínio que as direitas possuem nas televisões, nos jornais e nas rádios. E os exemplos estão à vista com a repetição insana de argumentos risíveis como o do suposto nepotismo socialista, da degradação dos serviços públicos ou dos muitos incêndios, que Marcelo, com afirmações perversas, mandou começar a atear, como forma de estabelecerem uma densa barreira de fumo capaz de iludir o eleitorado quanto aos benefícios colhidos com a governação destes últimos quatro anos.
Em definitivo, o «Expresso» acaba de perder um dos seus mais antigos leitores...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/03/agora-torna-se-definitiva-decisao-o.html

Facebook amplia proibição de discurso de ódio para enquadrar 'nacionalistas brancos'

Mark Zuckerberg
© AP Photo / Steven Senne

O Facebook está ampliando sua definição de discurso de ódio para enquadrar "nacionalistas brancos" e "separatistas brancos."

Anteriormente, a empresa permitia postagens desses grupos, apesar de proibir há muito tempo a "supremacia branca".


Em uma publicação nesta quarta-feira (27), a rede social disse que anteriormente ligava expressões do nacionalismo branco a conceitos mais amplos de nacionalismo e separatismo — como o orgulho americano ou o separatismo basco, ambos ainda permitidos.

Mas grupos de defesa dos direitos civis e acadêmicos chamaram essa visão de "equivocada" e há muito pressionam a empresa a mudar sua postura. O Facebook diz que concluiu após meses de "conversas" com eles que o nacionalismo e o separatismo branco não podem ser significativamente separados da supremacia branca e dos grupos de ódio organizados.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019032713569415-facebook-discurso-odio-nacionalistas-brancos/

O grande editor do Mundo

(Daniel Oliveira, in Expresso, 23/03/2019)

Daniel Oliveira

Delete… ignore… delete… delete… ignore…” Numa sala escura de Manila, dezenas de moderadores decidem que imagens, vídeos e textos denunciados por violarem as regras do Facebook devem ser apagados. Cada um vê 25 mil por dia, a maioria com origem na Europa e nos EUA. Enforcamentos, decapitações, pedofilia, mensagens de terroristas e ciberbullying, mas também cartoons de sátira política ou trabalhos de fotojornalistas.

Contratados pelo Facebook em regime de outsourcing, sem escrutínio público e mal pagos, sem formação e a léguas das referências culturais e políticas que lhes permitem decifrar as milhares de imagens que lhes passam pelos olhos, estes jovens filipinos decidem em segundos se a fotografia de um repórter de guerra ou um cartoon contra Trump cumprem as regras da aplicação. Sabem que um corpo nu é mais grave do que um apelo ao genocídio. O que significa que a foto icónica da guerra do Vietname é censurada, porque aparecem os genitais de uma menina nua a correr na estrada. Assim como um cartoon em que Erdogan está a sodomizar o símbolo do Twitter, porque a bestialidade não é permitida. Mas passam todos os apelos ao ódio, porque são só opiniões. “The Cleaners”, um extraordinário e opressivo documentário da PBS sobre estes censores industriais, é indispensável para perceber a perigosa fragilidade do monstro que deixámos criar.

A opção por deixar publicar primeiro para editar depois, oposta ao que acontece nos órgãos de comunicação social tradicionais, não se fez em nome da liberdade de expressão. Foi uma escolha empresarial a que a dimensão destas aplicações obrigou. Uma escolha que explica como foi possível o assassino de Christchurch transmitir o seu crime em direto, durante 17 minutos. Quem abriu as comportas não pode salvar as vítimas da inundação. Mesmo que o quisesse fazer, não haveria cleaners que chegassem para a lixeira que diariamente se amontoa nas redes. Em Myanmar, onde o Facebook é a única forma de aceder à internet, tem servido para dizimar a minoria rohingya. Mas a empresa de Mark Zuckerberg faz escolhas. Em países livres, o algoritmo do ódio favorece o discurso polarizado, ajudando Trump, Bolsonaro ou Le Pen a rebentarem com os consensos de que depende a democracia. Mas as balelas otimistas sobre a liberdade de expressão evaporam-se quando a Turquia impõe condições para a empresa aceder aos seus milhões de clientes. Aí, o Facebook e a Google bloqueiam, a pedido, mensagens subversivas. Implacável com a democracia, dócil com a tirania.

Ao contrário do que diz Miguel Sousa Tavares no texto da semana passada, a questão não é como a elite sobreviverá ao povo à solta. Isso é como os populistas querem apresentar as coisas. O debate não é sobre o excesso de poder do povo, que nunca foi tão ilusório. É sobre a substituição de estruturas de intermediação minimamente escrutináveis pela empresa com mais poder que a história já conheceu. É sobre outro Murdoch, mas a multiplicar por milhões. É sobre o dilema da modernidade: como sobreviverá a humanidade ao que supera as suas capacidades de controlo? Sejam monstros financeiros demasiado grandes para cair sejam empresas que controlam os principais instrumentos de comunicação. A questão não é como travar a luta de classes, é como compartimentar, reduzir, mediar e até desglobalizar algumas coisas. Soa perigoso para a democracia? Vejam em “The Cleaners” o que é perigoso para a democracia.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

As três ignorâncias contra a democracia

(Boaventura Sousa Santos, in Outras Palavras, 15/03/2019)

Escrevi há muito que qualquer sistema de conhecimentos é igualmente um sistema de desconhecimentos. Para onde quer que se orientem os objetivos, os instrumentos e as metodologias para conhecer uma dada realidade, nunca se conhece tudo a respeito dela e fica igualmente por conhecer qualquer outra realidade distinta da que tivemos por objetivo conhecer. Por isso, e como bem viu Nicolau de Cusa, quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Mas mesmo o conhecimento que temos da realidade que julgamos conhecer não é o único existente e pode rivalizar com muitos outros, eventualmente mais correntes ou difundidos. Dois exemplos ajudam. Numa escola diversa em termos étnico-culturais, o professor ensina que a terra urbana ou rural é um bem imóvel que pertence ao seu proprietário e que este, em geral, pode dispor dela como quiser.

Uma jovem indígena levanta o braço, perplexa, e exclama: “professor, na minha comunidade a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Para esta jovem, a terra é Mãe Terra, fonte de vida, origem de tudo o que somos. É, por isso, indisponível. Durante um processo eleitoral numa dada circunscrição de uma cidade europeia, onde é majoritária a população roma (vulgo, cigana), as seções de voto identificam individualmente os eleitores recenseados. No dia das eleições, a comunidade roma apresenta-se em bloco nos lugares de votação reivindicando que o seu voto é coletivo porque coletiva foi a deliberação de votar num certo sentido ou candidato. Para os roma não existem vontades políticas individuais autônomas em relação às do clã ou família. Estes dois exemplos mostram que estamos em presença de duas concepções de natureza (e propriedade), num caso, e de duas concepções de democracia, no outro.

O primeiro modo de produção de ignorância (chamemos-lhe Modo 1) reside precisamente em atribuir exclusivamente a um modo de conhecimento o monopólio do conhecimento verdadeiro e rigoroso e desprezar todos os outros como variantes de ignorância, quer se trate de opiniões subjetivas, superstições ou atavismos. Este modo de produção de ignorância continua a ser o mais importante, sobretudo desde que a cultura eurocêntrica (um certo entendimento dela) tomou contato aprofundado com culturas extra-europeias, especialmente a partir da expansão colonial moderna. A partir do século XVII, a ciência moderna consolidou-se como tendo o monopólio do conhecimento rigoroso. Tudo o que está para além ou fora dele é ignorância. Não é este o lugar para voltar a um tema que tanto me tem ocupado. Direi apenas que o Modo 1produz um tipo de ignorância: a ignorância arrogante, a ignorância de quem não sabe que há outros modos de conhecimento com outros critérios de rigor e tem poder para impor a sua ignorância como a única verdade.

O segundo modo de produção de ignorância (Modo 2) consiste na produção coletiva de amnésia, de esquecimento. Este modo de produção tem sido frequentemente ativado nos últimos cinquenta anos, sobretudo em países que passaram por longos períodos de conflito social violento. Esses conflitos tiveram causas profundas: gravíssima desigualdade socioeconômica; apartheid baseado em discriminação étnico-racial, cultural, religiosa; concentração de terra e consequente luta pela reforma agrária; reivindicação do direito à autodeterminação de territórios ancestrais ou com forte identidade social e cultural, etc. Estes conflitos, que muitas vezes se traduziriam em guerras prolongadas, civis ou outras, produziram milhões de vítimas – entre mortos, desaparecidos, exilados e internamente deslocados. Para além das partes em conflito, houve sempre outros atores internacionais presentes e interessados no desenrolar do conflito; a sua intervenção tanto conduziu ao agravamento do conflito como (menos frequentemente) ao seu término. Em alguns poucos casos houve um vencedor e um vencido inequívocos. Foi esse o caso do conflito entre o nazismo e os países democráticos. Na maioria dos casos, porém, tende a ser questionável se houve ou não vencedores e vencidos, sobretudo quando a parte supostamente vencida impôs condições mais ou menos drásticas para aceitar o fim do conflito (veja-se o caso da ditadura brasileira que dominou o país entre 1964 e 1985).

Em ambos os casos, terminado o conflito, inicia-se o pós-conflito, um período que visa reconstruir o país e consolidar a paz. Nesse processo participam com destaque as comissões de verdade, justiça e reconciliação, muitas vezes como componentes de um sistema mais amplo que inclui a justiça transicional e a identificação e apoio às vítimas. São disso exemplo a Coreia do Sul, Argentina, Guatemala, África do Sul, ex-Iugoslávia, Timor-Leste, Peru, Ruanda, Serra Leoa, Colômbia, Chile, Guatemala, Brasil. Na maioria dos processos pós-conflito, forças diferentes militaram por razões diferentes para que a verdade não fosse plenamente conhecida. Quer porque a verdade era demasiado dolorosa, quer porque obrigaria a uma profunda mudança do sistema econômico ou político (desde a redistribuição de terra ao reconhecimento da autonomia territorial e a um novo sistema jurídico-administrativo e político). Por qualquer destas razões, preferiu-se a paz (podre?) à justiça, a amnésia e o esquecimento à memória, à história e à dignidade. Assim se produziu uma ignorância indolente.

Modo 3 de produção de ignorância consiste na produção ativa e consciente de ignorância por via da produção massiva de conhecimentos de cuja falsidade os produtores estão plenamente conscientes.Modo 3 produz conhecimento falso para bloquear a emergência do conhecimento verdadeiro a partir do qual seria possível superar a ignorância. É este o domínio das fake news. Ao contrário dos Modos 1 e 2, a ignorância não é aqui um subproduto da produção. É o produto principal e a sua razão de ser. Os exemplos, infelizmente, não faltam: a negação do aquecimento global; os imigrantes e refugiados como agentes de crime organizado e ameaça à segurança da Europa ou dos EUA; a distribuição de armas à população civil como o melhor meio de combater a criminalidade; as políticas de proteção social das classes mais vulneráveis como forma de comunismo; a conspiração gay para destruir os bons costumes; a Venezuela ou Cuba como ameaças à segurança dos EUA; etc., etc.

Os três modos de produção produzem três tipos diferentes de ignorância, estão articulados e acarretam consequências distintas para a democracias. O Modo 1 produz uma ignorância arrogante, abissal, que é simultaneamente radical e invisível na medida em que o monopólio do conhecimento dominante é generalizadamente aceito. As verdades que não cabem na verdade monopolista não existem e tão-pouco existem as populações que as subscrevem. Abre-se assim um campo imenso para a sociologia das ausências. Foi por isso que o genocídio dos povos indígenas e o epistemicídio dos seus conhecimentos (passe o pleonasmo) andaram de mãos dadas. O Modo 2 produz a ignorância indolente que se satisfaz superficialmente e que, por isso, permanece como ferida que arde sem se ver. É a ignorância-frustração que sucede à verdade-expectativa. Uma ignorância que bloqueia uma possibilidade e uma oportunidade emancipadoras que estiveram próximas, que eram realistas e, que, além disso, eram merecidas, pelo menos na opinião de vastos setores da população. Esta ignorância sugere uma sociologia das emergências, da emergência de uma sociedade que se afirma reconciliada consigo mesma, com base em justiça social, histórica, étnico-cultural, sexual. O Modo 3 cria uma ignorância malévola, corrosiva e, tal como um cancro, dificilmente controlável, na medida em que as redes sociais têm um papel crucial na sua proliferação. Esta ignorância está para além da ausência e da emergência. Esta ignorância é a prefiguração da estase, a imobilidade que estrutura a vertigem do tempo imediato.

Os três modos de produção e as respectivas ignorâncias que produzem não existem na sociedade de modo isolado. Articulam-se e potenciam-se por via das articulações que os tornam mais eficazes. Assim, a ignorância arrogante produzida pelo Modo 1 (monopólio da verdade) facilita paradoxalmente a proliferação da arrogância malévola produzida pelo Modo 3 (falsidade como verdade alternativa).

É que uma sociedade saturada pela fé no monopólio da verdade científica torna-se mais vulnerável a qualquer falsidade que se apresente como verdade alternativa usando os mesmos mecanismos da fé.

Por sua vez, a ignorância indolente produzida pelo Modo 2(amnésia, esquecimento) desarma vastos setores da população para combater a ignorância produzida quer pelo Modo 1, quer pelo Modo 3.

A ignorância arrogante é uma das principais causas da ignorância indolente, ou seja, da facilidade com que se esquece, normaliza e banaliza um passado de morte de inocentes, de sofrimento injusto, de pilhagens convertidas em exercícios de propriedade, de corpos de mulheres e de crianças violentados como objetos de guerra. Quando a ignorância arrogante se complementa com a ignorância malévola, a ignorância indolente torna-se tão invisível que é praticamente impossível de erradicar.

O impacto destes três tipos principais de ignorância nas democracias do nosso tempo é convergente, embora diferenciado. Todas estas ignorâncias contribuem para produzir democracia de baixa intensidade. A ignorância arrogante torna impossível a democracia intercultural e plurinacional, na medida em que outros saberes e modos de vida e de deliberação são impedidos de contribuir para o aprofundamento democrático; e faz com que vastos setores da população não se sintam representados pelos seus representantes e nem sequer participem nos processos eleitorais de raiz liberal. A ignorância indolente retira da deliberação democrática decisões sobre justiça social histórica, sexual, e descolonizadora, sem as quais a prática democrática é vista por vastas camadas da população como um jogo de elites, uma disputa interna entre os vencedores dos conflitos históricos. Mas a ignorância malévola é a mais antidemocrática de todas. Sabemos que as deliberações democráticas são tomadas com base em fatos, percepções e opiniões. Ora a ignorância malévola priva a democracia dos fatos e, ao fazê-lo, converte a boa fé dos que dela são vítimas em figurantes ou jogadores ingênuos num jogo perverso onde sempre perdem e, mais do que isso, se auto-infligem a derrota.


Fonte aqui.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Dormir bem é condição fundamental para potenciar a nossa lucidez

Dormimos cada vez menos, sendo raros os que conseguem dormir oito horas seguidas.
O capitalismo encontrou uma renovada forma de se perenizar ao captar-nos a atenção para as redes sociais, que nos prendem a atenção submetendo-nos a um comportamento passivo perante mensagens manipuladoras. Nem precisam de recorrer àsfake newspara induzirem valores e preconceitos quantas vezes associados a uma cultura retrógrada, que julgávamos superada.
Privando-nos do desejável distanciamento entre a mensagem e a sua absorção crítica, esse novo tipo de conduta desabitua-nos dos hábitos de reflexão, que permitiriam uma vigilância criteriosa sobre as informações, que pressupõe transmitir.
Dormir bem para facilitar a lucidez dos neurónios e recuperar o tempo de qualidade dedicado à meditação constitui uma boa estratégia para frustrar os intentos de um sistema de organização económica e social, que já dura há tempo demais.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/03/dormir-bem-e-condicao-fundamental-para.html

Miguel Sousa Tavares e as redes sociais – a crítica da Estátua de Sal

(Por Estátua de Sal, 16/03/2019)

Miguel Sousa Tavares e as redes sociais – a crítica da Estátua de Sal

 

Na sua coluna de opinião, no Expresso desta semana, 16/03/2019, Miguel Sousa Tavares publica um artigo com o sugestivo título “De como a luta de classes vai matar a democracia”, (https://estatuadesalnova.com/2019/03/16/de-como-a-luta-de-classes-vai-matar-a-democracia/ ), o qual reputo da pior peça que eu tenha lido assinada pelo conhecido colunista.

O tema é as redes sociais que são para o MST uma espécie de diabo furibundo, responsáveis por todos os males do mundo actual. Assim, as redes estão a matar o jornalismo, a colocar no poder os políticos populistas de que o Miguel não gosta (eu também não), Trump, Bolsonaro, Matteo Salvini, originaram o Brexit, e irão liquidar, segundo ele, a democracia – suponho que se estará a referir à democracia parlamentar.

Mas vai mais longe. MST pinta os frequentadores das redes sociais como uma turba de trogloditas a espumar ódio pela boca, violência, boçalidade alarve, exibicionismo impante e voyeurismo vicioso e viciante, uns cobardolas seguidistas que se acoitam no anonimato para expandir as suas opiniões primárias.

  1. Pois bem, caro MST, eu frequento as redes sociais, coisa que tu não fazes, e por isso opinas com base naquilo que tens ouvido dizer, ou então frequentas disfarçado de Pai Natal, para que não te topem, o que ainda é pior.
  2. E nas redes sociais vejo de tudo, o que é uma verdade elementar já que as redes não passam de um espelho, cada vez mais realista, da sociedade em geral. Se existem lá os trogloditas que tu vês, não é o Facebook que os fabrica: eles existem no dia-a-dia das nossas vidas. Poderás dizer que, atrás do teclado do computador, poderão esses tais alarves exprimir opiniões e ataques que de outro modo não fariam e, nesse ponto, talvez tenhas razão. Mas, estará o mal na opinião que se expressa ou na existência do sentimento íntimo que a motiva? Adiante, fica para refletires.
  3. O mais grave da tua argumentação, e de muitos fazedores de opinião que pululam no espaço público, é acharem que as redes sociais são as responsáveis pelo populismo, pelos Trumps e companhia.
  4. Se o capitalismo não estivesse numa fase de refluxo das conquistas sociais da humanidade, se a desigualdade não fosse cada vez mais gritante, se o desemprego não fosse uma realidade para muitos e uma ameaça para muitos mais, se as políticas neoliberais de gestão da economia e de ataque aos Estados Sociais do pós Guerra não fossem cada vez mais acutilantes, achas mesmo que o populismo e a ascensão da direita teria sucesso só porque a direita faz publicarfake-news no Facebook atacando os seus “bem-comportados” adversários políticos? Se a tua resposta for positiva eu direi que é uma idiotice completa.
  5. O que acontece é que, durante décadas, foi possível aos políticos do sistema gerir as opiniões das multidões e condicionar os resultados eleitorais através do controle da comunicação social, a tal que tu dizes ser “de referência” e que está a morrer. E sabes porque está a morrer? Porque, em grande parte, as redes sociais permitindo uma disseminação da informação num nível que não existia em décadas anteriores, vieram pôr a nu o papel de subserviência e venalidade de muitos dos ditos jornais de referência em relação a determinados sectores e/ou partidos políticos. Já há muito que não eram isentos, só que agora, tal falta de isenção tornou-se gritante e os leitores fogem. Em Portugal, o caso do Expresso, onde tu escreves, é paradigmático deste fenómeno.
  6. Ou seja, a comunicação social mainstream, durante décadas teve o monopólio das fake-news (lembras-te das armas químicas do Saddam? Todos os respeitáveis jornalistas as tinham visto!), e agora tem que repartir tal missão com os clientes do Zuckerberg e companhia. É, de facto, um grande aborrecimento. Na verdade, os defensores do capitalismo passam a vida a louvar os mercados, mas na hora da verdade todos querem mesmo é ser monopolistas.
  7. E chegámos à parte final da tua prosa que é a maior parvoíce que alguma vez escreveste. A parte em que dizes que a luta de classes vai liquidar a democracia. Poder-se-ia pensar que estavas a referir-te ao conceito marxista de classe, conceito estribado nos diversos níveis económicos de acesso à propriedade (capitalistas versus proletariado, burguesia versus rentistas, etc), mas não. Tu descobriste uma nova categorização. A luta de classes dos tempos modernos é a luta entre aqueles que exprimem opiniões canhestras e primárias no Facebook, que não estudam os assuntos mas que acham que tem o direito a dissertar, em oposição àqueles eruditos como tu (suponho que te consideres inserido neste grupo) que fazem os trabalhos de casa e emitem opiniões abalizadas.
  8. Pois bem, neste caso das redes sociais, cometeste exatamente o mesmo pecado de que acusas os opinantes do Facebook e afins. É que não fizeste mesmo os trabalhos de casa. Se os tivesses feito, ficarias espantado com a qualidade de muitos textos que são publicados nos murais dos seus autores no Facebook, e que não ficam em nada a dever aos que tu publicas. Eu, no meu blog, publico muitos desses textos e também escrevo para as redes sociais.
  9. Sabes, há muita gente a escrever nas redes e nos blogs porque nem todos somos privilegiados como tu, com os ascendentes de família que tiveste e que te permitiram ter acesso fácil à publicação nos jornais e à opinião nas televisões. Eu,se fosse convidado a escrever no Expresso, por exemplo, achas que ficaria atrapalhado por não saber o que escrever? E como eu, muitos outros.
  10. É por isso que te digo que nada sabes de redes sociais, as quais permitiram a muitos publicar os seus pontos de vista e debatê-los. É lamentável que te tenhas colocado numa posição de “comentador iluminado”, uma espécie de representante da aristocracia dos jornalistas portugueses, em oposição á plebe ignara e ululante que OUSA querer ter opinião. Sinceramente, deve ser mal da época, mas deves ter sido também atacado pelo vírus da supremacia, no teu caso a supremacia das luzes e da erudição. Há outros que cultivam a supremacia da cor da pele, do sexo ou outras características físicas.
  11. Assim, concluis que a democracia está em perigo porque o jornalismo de referência está em perigo e a turba está nas mãos das redes sociais e tu não vês como se pode resolver isso.
  12. Pois eu explico-te. Talvez seja preciso que os iluminados como tu venham para as redes sociais fazer pedagogia e deixarem o pedestal onde se colocam, pondo de lado o distanciamento e sobranceria com que tratam aqueles que os leem, combatendo assim aquilo que dizes ser o “obscurantismo organizado das massas” (sic).
  13. Esse é um tipo de ação para o qual tenho dado o meu contributo, divulgando textos de carácter político e económico, nomeadamente os teus.
  14. Já agora, em jeito de consolação, para que percebas que as massas não são tão estúpidas como apregoas, dir-te-ei que o segundo texto mais lido neste blog, desde a sua fundação, é da tua autoria, “Cavaco Silva: vinte anos perdidos”,
    https://estatuadesalnova.com/2016/03/12/cavaco-silva-vinte-anos-perdidos/ e teve até ao momento, 39256 leituras. É este poder das redes sociais que te escapa e este número de leitores deveria levar-te a refletir sobre aquilo que se está, de facto, a passar neste admirável mundo novo da sociedade da informação e sobre as consequências que daí irão advir no plano da política e da organização das sociedades.
  15. No fundo, ninguém sabe para onde este trajeto e este uso da tecnologia irá conduzir as sociedades humanas. Mas não é pôr – como a avestruz e como tu -, a cabeça na areia que nos irá desvendar o fim do percurso que estamos a trilhar.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A Justiça australiana censura todos os artigos no caso Pell

A Justiça Australiana emitiu uma proibição de publicação do que quer que seja (gag order) sobre o caso de George Pell.

O Cardeal Pell, antigo arcebispo de Sidney e depois prefeito do Secretariado para a Economia da Santa Sé (isto é, Ministro das Finanças do Estado da Cidade do Vaticano e da Igreja Católica), foi julgado em Melbourne, em Dezembro de 2018 e condenado por pedofilia. Ele deveria estar encarcerado.

Uma centena de médias receberam uma carta de Kerri Judd, Chefe de acusação do Estado de Victoria, proibindo-os de difundir a notícia.

A censura dos média é comum na Austrália, nos Estados Unidos, em Israel e mais ainda no Reino Unido. Ela pode ser decidida pelo Judiciário para proteger certas vítimas, mas também pelo Executivo sem ter que dar explicações.

Neste caso, num país onde os católicos são muito minoritários, ignora-se as razões para esta obrigação de silêncio após o julgamento.





Ver original na 'Rede Voltaire'



Desinformação, redes sociais, fake news, manipulação, cibersegurança…

“PS preocupado com campanhas de desinformação nas eleições” titula o ‘Público’, a toda a largura da sua primeira página (suspeitamos que se mais largura houvesse…).

O desenvolvimento, nas páginas interiores (ilustrado com uma foto muito prafrentex do deputado socialista José Magalhães) pratica uma completa amálgama entre coisas tão diversas como cibersegurança e manipulação, redes sociais e desinformação, as inevitáveis fake news e… sabe-se lá que conspirações mais.

Desinformação

Poder-se-ia argumentar que a manipulação (que como o nome indica é “manual” e não “digital”…) é velha como o mundo e que já a Bíblia (que um tristemente famoso juiz tanto precisa de citar…) nos oferece vários casos exemplares. Ou que a prática corrente da “dezinformatsiya” é várias guerras anterior às recentes (e insípidas) “fake news”. Ou que redes sociais e cibersegurança têm tanto que ver entre si como o rabo e as calças. Ou que… mas não vale a pena.

Basta dizer que, depois das últimas presidenciais nos EUA, se gerou à volta de alguns factos e outros argumentos uma confusão monumental que em nada ajuda a esclarecer coisa alguma e, pelo contrário, só ajuda à criação de uma situação caótica geradora de desconfiança no sistema político-eleitoral e na própria democracia.

Foi, aliás, nesse quadro que Trump criou o neologismo “fake news” para se referir a velhas práticas nos media tradicionais e a notícias que o atacavam.

Desinformação

Amalgamar “conteúdos” com “continentes” e acrescentar-lhe ainda mais umas questões de segurança da informação só pode dar maus resultados… Tão maus que, ao serem geradores de desconfiança nos resultados dos sistemas político-eleitorais democráticos, ultrapassam as mais loucas esperanças que poderia acalentar qualquer teoria da conspiração “made in Russia” ou “made in China”.

Ameaças e riscos existem, um desenvolvimento tecnológico adoptado sem preocupações da necessária segurança criou um ambiente de medo (as facilidades no desvio dos emails da Clinton são assustadoras…), a própria NSA se revelou, a dada altura, tão capaz de guardar os seus segredos como um vulgar passador, tudo isto pode e deve ser tratado e debatido mas é conveniente que o seja com… algum conhecimento das matérias em questão, começando pelo esclarecimento dos conceitos.


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/desinformacao-redes-sociais-fake-news-manipulacao-ciberseguranca/

O regulamento terrorista que tramita no Parlamento Europeu

(In Resistir, 27/02/2019)

(Mais um assunto omitido pela nossa comunicação social. O Parlamento Europeu prepara-se para impor e legalizar a censura na comunicação social e na internet, páginas, blogues, Facebook, sem qualquer controlo dos tribunais, desde que as publicações sejam consideradas “terroristas” pelas polícias! Como na definição de “terrorismo” pode caber tudo e mais alguma coisa, tal é a porta aberta para o livre arbítrio e para calar as vozes politicamente incómodas.

Será que a minha página no Facebook e o meu blog já estão a ser alvo, em antecipação, de tal legislação? Será que censuram a Estátua de Sal por a considerarem uma voz “terrorista”? Se é isso, ficam a nu os perigos que ameaçam a liberdade de expressão, na “democrática” União Europeia.

Estátua de Sal, 27/02/2019)


 
Em Setembro de 2018, sob a influência da França e da Alemanha, a Comissão Europeia propôs um regulamento “relativo à prevenção da difusão on line de conteúdos de carácter terrorista. 

Este novo regulamento imporá a todo actor da Web (alojadores de blogues ou de vídeos, sítios da imprensa, pequenos fóruns ou grandes redes sociais:

  • Bloquear na mesma hora qualquer conteúdo assinalado como “terrorista” pela polícia (sem autorização prévia de um juiz) e portanto ficar à sua disposição 24 horas por dia 7 dias por semana.

  • Adiantar-se aos pedidos da polícia detectando por si mesmo os conteúdos ilícitos com a ajuda de ferramentas de filtragem automática.

Se um sítio web não respeitar estas regras ele se arrisca a uma multa de até 4% do seu volume de negócios. 

Delegação da censura aos gigantes da web 

De um ponto de vista técnico, económico e humano, só um punhado de actores – os gigantes da web – poderão respeitar obrigações tão estritas. 

Os outros actores (comerciais ou não) não terão outra opção senão cessarem suas actividades ou submeterem-se às ferramentas de moderação (filtragem automática e listas de bloqueio) desenvolvidas pelo Facebook e Google desde 2015 com o apoio da Comissão Europeia. 

Estas multinacionais tornar-se-ão portanto os juízes do que pode ser dito na Internet. A estrutura rica, variada e descentralizada da web é destinada a desaparecer. 

Censura dos discursos políticos 

No direito da União Europeia, a noção de infracção “terrorista” é voluntariamente ampla, cobrindo os actos de pirataria ou de destruição maciça de bens (ou a simples ameaça de fazê-lo) cometidos para influenciar uma decisão política ou desestabilizar instituições. 

Deixar à polícia e não ao juiz o poder de decidir o que é um conteúdo “terrorista” poderia levar à censura de opositores políticos e de movimentos sociais. 

A obrigação de por em vigor medidas proactivas, com a ameaça de multas pesadas, terá como efeito motivar os actores da web a adoptar uma definição do terrorismo o mais ampla possível a fim de não serem sancionados. 

Uma lei inútil 

Este regulamento “anti-terrorista” não permitirá sequer atingir seu objectivo ostensivo: impedir que o Daesh ou a Al Qaeda difundam sua propaganda junto a pessoas já seduzidas pelos seus discursos. 

Parece absurdo precisar ainda repetir:   na Internet, não importa qual a lei de bloqueio pois ela pode ser contornada pelas pessoas que desejam aceder às informações censuradas. Os únicos efeitos desta lei serão seus danos colaterais: o grande público certamente não terá mais de sofrer os conteúdos terroristas, mas tão pouco terá conhecimento das informações censuradas abusivamente. 

Exijamos a rejeição do texto 

Sob a cobertura do solucionismo tecnológico, este regulamento joga com o medo do terrorismo para melhor enquadrar a expressão na Internet e limitar as oposições. 

Devemos pedir a rejeição deste texto

  • A censura de Estado não deve poder ser determinada senão por um juiz. 
  • Nenhuma censura automatizada deve ser imposta aos actores da web. 
  • A luta contra o terrorismo jamais deverá ser um pretexto para censuras as oposições políticas.

No dia 21 de Março de 2019 será a primeira votação sobre este texto, na comissão de “liberdades civis” do Parlamento Europeu (60 deputados). As eleições europeias vindo logo após, tratar-se-á provavelmente da nossaúltima oportunidade de fazer com que este texto seja rejeitado. 

Apelemos aos deputados europeus 

Pode telefonar aos deputados de segunda a sexta-feira, entre as 9h00 e as 18h00. Se tiver um assistente ao telefone, não hesite em lhe falar, pedindo-lhe para partilhar vossa opinião com o seu deputado. 

Entre os 60 deputados da comissão “liberdades civis”, só oito vêem de países de língua francesa [1] . Todos os outros compreenderão o inglês: mesmo que o vosso nível de inglês não seja muito bom, não se sinta envergonhado de lhes falar. 

Basta uma discussão bastante simples, do tipo: “Hello, my name is […]. I am calling about the Anti-Terrorism Regulation. I think it will destroy freedom of speech. There must be no censorship without the authorization of a judge. Internet censorship must not be outsourced to Internet giants. Reject this text. I will watch your decision”. 

Para ir mais longe 

Convidamos a ler nossa análise pormenorizada do futuro regulamento, mostrando sua génese, suas implicações técnicas e políticas assim como o estado do seu debate no Parlamento Europeu. 

Notas 
[1] E apenas um de língua portuguesa:   a deputada Ana Gomes (PS), tel. +32.228.45.824, anamaria.gomes@europarl.europa.eu, @AnaGomesMEP 

Ver também: 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

UMA GUERRA QUE TERMINAVA, OUTRA QUE SE ADIVINHAVA

UMA GUERRA QUE TERMINAVA
27 de Fevereiro de 1939. Esta página do Diário de Lisboa de há oitenta anos sintetizava a transição de mau para pior que a situação política na Europa prognosticava. A Guerra Civil de Espanha estava virtualmente no fim: Franco aguardava o reconhecimento do regime nacionalista pela França e pelo Reino Unido, que permaneciam os últimos obstáculos da admissão dos rebeldes espanhóis na ordem internacional. Ordem internacional essa que se mostrava ameaçada de uma perspectiva mais global, já que a notícia do lado antecipava o envio de um novo corpo expedicionário britânico para França (à semelhança do que acontecera em 1914), na eventualidade da eclosão de uma nova Grande Guerra na Europa. Ainda não se sabia mas, chegado o momento, que ocorreria dali por seis meses, os britânicos iriam superar as promessas, enviando não os 100 mil homens anunciados pela notícia, mas 152 mil soldados, e isso logo no primeiro mês de guerra (Setembro de 1939), acompanhados de mais de 21 mil viaturas, equipamentos de combate e munições. Na grande ordem das coisas, porém, hoje é patente que o feito ir-se-ia revelar irrelevante em Maio/Junho de 1940.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/02/uma-guerra-que-terminava-outra-que-se.html

Desmanipulando - V

Desmanipulando - V
A mentira leva sempre dianteira relativamente a quem desmente e é mais eficaz a mentira que o desmentido. Não só porque a mentira chega primeiro, como também foi preparada cuidadosamente para entrar na mente.
Gobbels sabia da poda e a sua cartilha não só está disponível como pode ser seguida e melhorada. A tecnologia o permite e permite-o também a segurança e impunidade a quem promove violações grosseiras de critérios e princípios deontológicos a que os jornalistas estão (deviam estar) obrigados.
Vem isto a propósito do protesto enviado pelo PCP à ERC.
Pessoalmente tenho as expectativas baixas quanto ao encaminhamento que levará tal protesto. Tenho a nítida impressão que a entidade reguladora é regulada pelos detentores proprietários dos regulados.
Fica a matéria que a ERC terá de apreciar:

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

No fundo, bem lá no fundo da fossa

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(ver aqui) Só vendo se acredita

Como é possível que um órgão de comunicação estatal se permita transmitir uma entrevista a marginais, como se de contestatários de um governo se tratasse. Como é possível que tenhamos que pagar uma televisão que propaga e alimenta a guerra em vez de contribuir para a paz que todos os povos anseiam. Como é possível a um governo que por dever deve  respeitar a verdade se deixe ir à trela dos pretensos senhores disto tudo.
Uma reportagem de tão baixo nível, tão degradante como esta, levaria a que qualquer administração decente demitisse os responsáveis que a permitiram se é que não encomendaram.

image Este nem teve o cuidado de mudar de boné

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Desmanipulando - IV

A "bolinha", situa a Guardia Nacional Bolivariana (GNB)quietinha, lá onde deve estar. A azul se assinala a fumaça e as chamas da encenação orquestrada. A manipulação é primária, mas a provocação pode ainda servir para dividir a opinião pública, levar parte dela a aceitar a escalada e esta culminar na intervenção armada. 
À nossa imprensa, bastaria mostrar esta imagem e comentá-la, referindo que o recurso à manipulação é prática antiga, como aqui, neste meu espaço, venho denunciando, desde a imagem de Rocky Balboa que era feito passar por um estudante venezuelano vitima de tortura, até à mistificação de imagens trazidas da Síria.
À nossa imprensa, bastaria fazer passar o comunicado da Cruz Vermelha condenando activistas da oposição por, em tal encenação, se terem disfarçado de trabalhadores da Cruz Vermelha – uma violação flagrante dos protocolos humanitários. 
À nossa imprensa, bastaria citar o Relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD), relativo a 2016 , onde a Venezuela se mantinha como um dos países com um alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no ranking de 188 países e onde a Venezuela aparece com uma pontuação de 0,767 acima do Brasil (0,754), Peru (0,740) e Colômbia (0,727). 
À nossa imprensa, bastaria anunciar que até lhe ser montado o cerco, a Venezuela era o quarto país com melhor IDH na América do Sul. 
À nossa imprensa bastaria apenas dar uma só dessas noticias e convidar comentadores não encartados. Não o tendo feito será conivente com mais um crime perpetrado por quem já cometeu tantos...  

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A influência pró-globalização de Pierre Omidyar nos Média

Há cinco anos atrás, chamamos a atenção contra o jogo duplo do bilionário iraniano-franco-americano, Pierre Omidyar, para validar a ideologia da globalização político-económica [1].

Hoje, a Mint Press revela a amplitude das ONGs financiadas pelo fundador da e-Bay. O que vai da revista apoiando Edward Snowden (The Intercept) à nova revista dos neo-conservadores (The Bulwark), passando pela luta contra as Fake News, da International Fact-Checking Network (Rede Internacional de Verificação de Factos- ndT), e contra a Rússia pela News Integrity Initiative.

- Committee to Protect Journalists (Comité para Proteger Jornalistas)
- Democracy Fund (Alliance for Securing Democracy, Center for Public Integrity, Defending Digital Democracy) (Fundo da Democracia (Aliança para Proteger a Democracia, Centro de Integridade Pública, Defesa da Democracia Digital))
- First Look Media (Os Média de Primeira Abordagem)
- Hopelab (Laboratório Esperança)
- Humanity United (Humanidade Unida)
- International Fact-Checking Network (IFCN) (Rede Internacional de Verificação de Factos-
- Luminate
- News Integrity Initiative (Iniciativa para a Integridade das Notícias)
- Omidyar Network (Hromadske, Magambe Network, Rappler)- (Rede Omydar-
- The Intercept
- The Bulwark
- Ulupono Initiative

How One of America’s Premier Data Monarchs is Funding a Global Information War and Shaping the Media Landscape” («Como Um dos Reis Principais de Dados da América está a Financiar uma Guerra de Informação global e Marcando a Paisagem Mediática»- ndT), Alexander Rubinstein & Max Blumenthal, Mint Press, February 18th, 2019


[1] « Le double jeu du milliardaire Pierre Omidyar », « La CIA investit dans le journalisme », Réseau Voltaire, 3 mars 2014 et 22 septembre 2015.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Contas oficiais dos CTT revelam saque e destruição

Contrário à propaganda da administração, os dados oficiais das contas de 2018 dos CTT revelam um futuro sombio para a ex-empresa pública: lucros em queda, condições de trabalho piores e a destruição do serviço público postal.

Protestos de utentes e de trabalhadores um pouco por todo o País têm exigido o retorno dos CTT à esfera públicaCréditos

Depois da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) ter, no passado dia 19 de Fevereiro, acusado a administração dos CTT de divulgarem «informação enganosa» sobre o número de reclamações pelos consumidores, um olhar mais cuidados sobre as contas não deixam a gestão privada em bons lençois.

Nos documentos, a administração dos CTT apresenta resultados líquidos de 19,6 milhões de euros, inferiores aos de de 2017 (27,3 milhões). Um resultado que está muito aquém dos lucros que a empresa tinha sob alçada do Estado, sobretudo tendo em conta que só foi possível graças à alienação de património (cerca de 10 milhões).

A justificação da empresa para tal são os «custos avultados com indemnizações» a trabalhadores, decorrente das «saídas amigáveis» promovidas pela administração ao longo dos anos, que já levaram à saída de centenas de funcionários dos correiros.

Actualmente, cinco anos após ter sido privatizada pelo governo PSD e CDS-PP, o Banco CTT continua a carregar as contas, fazendo crescer o prejuízo após este ter incorporado o lucrativo PayPal, que foram retirados aos serviços financeiros da empresa de correios (representavam 18,1 milhões de euros).

No plano laboral, os CTT gastam cada vez menos com os trabalhadores (tirando as indemnizações das saídas), com as despesas recorrentes com os funcionários a baixarem de 340,1 para 332,9 milhões de euros. Por outro lado, a precariedade tem crescido substancialmente, sendo que, em 2018, a empresa tem menos 238 trabalhadores efectivos e mais 172 trabalhadores com vínculos precários.

Já os rendimentos operacionais estruturantes da empresa continuam a ser o Correio (531,9 milhões, mais 4,4 que em 2017) e o Expresso e Encomendas (151,2 milhões, mais 16,6 que em 2017), que foram apoiadas pelo aumento dos preços para utentes, justificada pela empresa com uma suposta perda de fiabilidade do serviço postal.

Nesse sentido, conforme têm denunciado trabalhadores e comissões de utentes, a gestão privada dos CTT não é positiva. Está a destruir o serviço público postal, ao mesmo tempo que distribuí dividendos avultados aos accionistas e aposta na criação de um mais um banco. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/contas-oficiais-dos-ctt-revelam-saque-e-destruicao

OUTRA VEZ A CENSURA

Estátua de Sal, 24/02/2019

censura3

Mais uma vez este blog foi alvo da censura do Facebook. Tudo o que publiquei aqui recentemente e que tinha sido partilhado na minha página do Facebook foi de lá banido sem qualquer explicação cabal, dizem eles porque “não está de acordo com os padrões da Comunidade”

Mas, afinal o que são tais padrões?

Atacar a direita e os seus epígonos vai contra os padrões da comunidade? Publicar e remeter para autores que escrevem em publicações ditas de referência (Expresso, DN, Público, etc), vai contra os padrões da Comunidade?!

Publicar textos oriundos do próprio Facebook e que lá não foram censurados, se os publicar aqui passam a atentar contra os padrões da Comunidade?! Ó santa hipocrisia.

Na verdade, o que se passa, é que este blog está a ser perseguido e há quem o queira calar por o considerar demasiado incómodo tendo em conta a audiência que já atinge.

É lamentável que, num país democrático, as vozes da esquerda estejam sujeitas a censura, já sem qualquer vergonha.

É a Inquisição dos tempos modernos.

Mas a Estátua não se vai calar e vai continuar a persistir no seu combate e conta com todos vocês, todos os que prezam a verdade, a justiça e a liberdade de expressão.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | O inimigo principal

Álvaro Figueiredo | Manifesto 74| opinião
Quais as razões da descabelada e acintosa ofensiva de deturpações, calúnias, mentiras e meias verdades contra o PCP? Os deputados do PCP trabalham com afinco e responsabilidade. Sobre eles não há casos de moradas falsas, viagens fantasma, subsídios indevidos, marcações de presença por terceiros.
No entanto, as «investigações», para tentarem encontrar uma falta, sucedem-se.
Há alguns anos atrás chegou a noticiar-se uma viagem de avião em que os deputados iam em primeira e contrapunha-se isto às dificuldades do povo e dos outros utentes do avião. Na notícia era sublinhado que também um deputado do PCP, o deputado António Filipe, fazia parte do grupo. Apesar de ser perfeitamente legal e costume na Assembleia da República, azar dos azares, o único deputado que tinha prescindido da viagem em primeira era o deputado António Filipe.

Em relação ao PCP, volta, meia volta, falam do seu património imobiliário para tentarem lançar a suspeita, embora saibam muito bem que muito desse património o PCP recebeu-o por herança de generosos comunistas, e o restante foi comprado com fundos do PCP e a subscrição dos militantes e de amigos, como é o caso do terreno da Festa do Avante!.
Quanto ao financiamento do PCP os caluniadores também sabem que o PCP segue um princípio para os seus eleitos que é o de nenhum deve ser prejudicado ou beneficiado, e como a larga maioria recebe nas instituições mais do que recebia na sua ocupação anterior a diferença reverte para o PCP. Sabem ainda, basta ver no Tribunal Constitucional que o montante destas verbas é muito significativo. Como é o único que segue este princípio, e como as verbas são substanciais, nunca referem este facto. Sobre a Festa do Avante!, a sua contestação começou à bomba logo na primeira edição. Ciclicamente inventam casos. Favores da Câmara de Lisboa, quando se realizava em Lisboa, da Câmara de Loures, quando se realizou em Loures, e agora Câmara do Seixal. O artigo de Miguel Esteves Cardoso sobre a Festa resumiu todas estas ofensivas.: nenhum outro partido seria capaz de fazer uma festa como a do Avante!, designadamente com a sua dimensão de trabalho voluntário, de solidariedade e humanismo. Voltemos então à questão inicial. Quais as razões de intensificação desta ofensiva anti comunista, e agora centrada nas questões de pseudo "corrupção e de tráfico de influências"?
O bloco central das negociatas (PSD, PS, CDS) está atolado em casos que o desacreditam. Negociatas, bancos, autarquias com presidentes condenados ou a contas com a justiça...
Na Assembleia da República tivemos recentemente os casos das viagens, moradas falsas, subsídios indevidos. Todos comprometidos, menos o PCP. Precisavam de encontrar algo que pudesse "entalar" o PCP para poderem dizer que são todos iguais. E mesmo que a questão congeminada fosse de pouca monta, ela seria ampliada pelos seus meios de informação e comentadores de serviço. Depois, mesmo que os casos fossem de "pulgas", seriam óptimos para deixar passar os "elefantes da corrupção". Dava-lhes jeito. Mas nem a inventona de Loures, nem a do Seixal, nem a dos Inválidos do Comércio, nem a da rede vermelha das empresas, designadas por um jornalista ex-UDP como uma "avalanche" de empresas, conseguiram demonstrar a ilegalidade ou a ilegitimidade dos casos propalados. Dificilmente, nos distritos onde o Partido tem mais influência, não haveriam empresários comunistas. Mas, mesmo nos de menor influência, o PCP conta com pequenos e médios empresários, filiados ou simpatizantes, que inclusivamente têm, também, em tal ou tal autarquia, até do PSD, contratos obtidos por adjudicação directa. Não faltava mais nada que autarquias em que a CDU tem maioria não contratasse empresas lideradas por comunistas ou simpatizantes , só por serem comunistas...
Por muito que lhes custe, o PCP é diferente, tem princípios, e não abdica deles. Se os casos são ilegais, como disse uma jornalista cretina, carreirista, em ar inquisitorial e de juíza (ver gravação feita pela Câmara do Seixal), porque razão não é movido aos respectivos presidentes das câmaras um processo, porque razão o Ministério da Administração Interna ou o Ministério Público não intervêm? Será porque estão nas mãos dos comunistas? Certamente que uma operação mãos limpas não só atingiria em cheio os partidos do centrão, mas também várias empresas jornalísticas e jornalistas. Bastava até que o saco azul do BES falasse... Eles sabem que uma mentira várias vezes repetida em grandes meios de informação pode convencer muita gente, designadamente os que já há muito estão tocados pelos preconceitos. Pode confundir e "convencer", mas não deixa de ser mentira. E quem tem a consciência tranquila, está certo da sua razão e da justiça da sua luta, não se intimida com tais falsificações e provocações. Diz o nosso povo que a verdade vem sempre ao de cima, como o azeite. E, mais tarde ou mais cedo, é que acontece, para vergonha dos mercenários da informação, que se prestaram a este sujo trabalho, autênticos «cães de guarda do grande capital». Quanto à particular sanha da TVI, neste momento, ela não está desligada do caso Goucha – entrevista fascista, que o PCP contestou e criticou com veemência e levou o caso à Assembleia da República.
A luta pelas audiências com a SIC e a presença de históricos e fanáticos anti comunistas na Estação desde logo com o casal Moniz, explicam o desvario desta ex-estação da igreja.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-o-inimigo-principal.html

Crimes que não têm reparação

(Francisco Louçã, in Expresso, 23/02/2019)

LOUCA3

A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia?


Se alguma das leitoras ou leitores desta coluna alguma vez abriu um livro de David Lodge, e até adivinho que muitas pessoas o fizeram com gosto, terá encontrado a amarga ironia de um casal de católicos ingleses a quem era proibido o uso de contracetivos nos anos de 1950 e de 1960, pelos dizeres das suas autoridades religiosas, aliás contra o que já era norma para a maioria da população, menos exposta a poderes tão fanatizados. A ginástica do registo das temperaturas para tentar adivinhar o ciclo da mulher e a restrição sexual adivinhatória deram a Lodge algumas das suas melhores páginas, mas certamente também muitas frustrações ao longo da vida do casal. Com bonomia e um humor avassalador, o escritor descreve esse mundo de voyeurismo dos padres sobre a sua vida, com as punições, confissões e castigos contra a prevaricação, e de proibição terminante do maior de todos os males, o princípio da tentação, a contraceção.

Ao concentrar tanta da sua energia no controlo estrito sobre a sexualidade dos seus paroquianos, a Igreja Católica chamou sobre si a atenção que agora revela a dupla hipocrisia do crime e da proteção ao crime contra as crianças (e freiras, acrescenta o papa Francisco) que foram sendo vítimas de abusos sistemáticos ao longo de gerações e porventura em todos os países. É para responder a esse manto de crime e de vergonha que se reúnem por estes dias, em Roma, os presidentes das conferências episcopais, forçados a encarar as vítimas.

AI DE QUEM

Citando palavras da Bíblia, o teólogo Anselmo Borges lembra a condenação por Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. O hediondo destes crimes não é só o acontecimento em si ou a sua repetição, com o cortejo de vítimas que foi deixando pelo caminho. É também o encobrimento que permitiu a sua banalização, ou até o fechamento que manteve o poder de instituições em que a prática do crime era liberalizada. Por isso, é de facto a Igreja Católica que está em julgamento e Francisco assume-o com honestidade.

E é aqui que entra a tristeza escondida no humor de David Lodge. Ele não escreve sobre crimes e abusos. Escreve sobre o mal-estar, sobre a prepotência, sobre a vigilância sexual, um exercício que as regras da Igreja foram indicando aos seus sacerdotes, que as impuseram com devoção aos paroquianos. Ou seja, milhões de pessoas conheceram este tormento da confissão sobre a sua vida sexual e perceberam a obsessão de tantos sacerdotes com esses pecados. Há portanto duas razões poderosas que atualmente multiplicam o escândalo, além do crime contra as crianças e mulheres: a prosápia de pureza que protegia a abominação e a forma como a instituição salvaguardou os seus da acusação de abuso, se é que não criou mesmo uma cultura de culpa para calar as vítimas.

NÃO ESTÁ RELACIONADO?

Com essa cultura, o crime estendeu-se a muitos casos e serão bastantes os padres da Igreja Católica no banco dos réus, até se adivinhando que muitos mais virão a lá chegar. Em Portugal, só duas condenações, incluindo a do ex-vice-reitor do seminário do Fundão, a dez anos de prisão por abuso sexual, em 2013. Mas a pergunta que se impõe é esta: eram só as regras da inquisição no confessionário ou da punição da vida sexual como pecado que levavam a este sentimento de poder por parte de tantos padres?

Anselmo Borges responde que não. Diz ele, numa entrevista desta semana ao “Público”: “Já escrevi, citando um grande sociólogo, Javier Elzo, professor numa universidade jesuíta, que 80% ou mais do clero, padres e bispos em África estão a ter uma vida sexual aberta. Não esqueçamos que Jesus entregou o celibato a uma opção, à liberdade; portanto, a Igreja não pode impor isso como lei. E o abuso das freiras que agora o Papa também denunciou é a prova de que o celibato leva a vidas duplas. (…) Como a recusa da ordenação das mulheres, o celibato não faz sentido. Jesus tinha discípulos e discípulas. A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia? O cardeal D. José Policarpo chegou a dizer isto, simplesmente foi chamado ao Vaticano”. Se assim for, o celibato e a assunção de um poder social que considera as mulheres como subordinadas contribuirá, em muitos casos, para projetar uma vida tormentosa, incapaz de lidar com a pulsão sexual.

Olhando para trás, percebe-se o absurdo destas proibições, como a do celibato, só proclamada mil anos depois de Jesus, no Concílio de Latrão, em 1123, e reafirmada no século XVI no de Trento (mas tinha havido pelo menos um Papa casado entre as duas reuniões). No caso do sacerdócio das mulheres, é “sentença definitiva”, determinava João Paulo II (e Francisco repete-o), é mesmo um dos “delitos mais graves” segundo a lista da Congregação para a Doutrina da Fé.

Bem sei que um ateu que se mete nestes assuntos será maltratado por isto ser exclusivo de quem professa obediência. Mas até onde é que levou a obediência a estas regras?


 O sortilégio da eu-sociedade

O Facebook já inclui 2200 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, 72% da população entre os 30 e 44 anos usa-o todos os dias (a menor percentagem é dos mais de 65 anos, ainda assim 54%). No mundo, o YouTube é usado por um pouco menos, 1900 milhões, o WhatsApp por 1500 milhões. Em Portugal, usam o Facebook mais de 50% dos residentes entre os 15 e os 64 anos. Ou seja, não é para amanhã, o modo de comunicação entre as pessoas já mudou. Mudou para a política, como se descobriu com o sucesso das campanhas de Trump e de Boslonaro, ou como ainda só começa a ser ensaiado em Portugal, mudou com a Cambridge Analytica a capturar e a usar 90 milhões de perfis em promoções eleitorais, mudou com o uso de exércitos de robôs que criam a ilusão de consenso em torno de notícias e de argumentos, policiando a internet com palavras-chave e tiros de canhão, mudou com a sensação de que, no mundo da mentira, todo o sucesso é possível. A isto alguns têm chamado a eu-conomia, atentos às suas potencialidades para a publicidade, mas é mais a eu-sociedade que se está a construir — só que sem o eu.

Segundo as análises da Common Social Media, a maioria dos adolescentes diz ter sido assediada no FB. Mas do que não se dão conta é do que acontece quando não são ameaçados: vivem uma sociabilidade intensa mas sem relação face a face com outros (em 2012 metade dos jovens entre os 13-17 anos dos EUA preferia a interação direta, agora só 32% a desejam). O que significa que perdem a capacidade de aprendizagem emocional em circunstâncias diversas e perante pessoas, mesmo que comuniquem com perfis, que podem ser verdadeiros ou falsos. Esta é uma sociedade virtual no rigoroso sentido da palavra. Mas há ainda outra consequência: é que estes adolescentes, e mesmo os outros adultos ou idosos que mergulham neste meandro, e são muitos, passam a aceder exclusivamente a um mundo de informações sem qualquer intermediação que não seja a da tecnologia de criar emoção e, portanto, de efabular. Se, em Portugal, um youtuber de sucesso já tem mais visualizações do que o telejornal mais visto, aqui está um incentivo poderoso a multiplicar a emotividade de cada prestação: ela deve chocar e impressionar. Para que esse youtuber mantenha a sua carreira de sucesso, tem de ser espampanante e criar hábito de consumo. Um dos efeitos deste sucesso, aliás, é que alguma comunicação social está a imitar o modelo, e já temos até um programa em canal de grande audiência que segue precisamente este padrão, a que alguns antiquados chamariam populista.

Assim, talvez sem darmos conta, se vai formando uma nova sociedade. Dentro de cinco anos, haverá jovens a chegar à universidade que nunca abriram um jornal nem olharam um telejornal. Mas terão muita comunicação, a do boato, a da intriga, a dos ódios e dos amores de fulano de tal (a coisa é ainda mais complicada, dado não ser seguro que, se costumarem ver alguma comunicação social tradicional, não alcancem o mesmo hábito). Para a economia de mercado, é uma oportunidade de ouro e adivinho que a publicidade vá mudar para narrativas tremendas que formem clãs em torno de produtos. Para a política, é a ameaça da feudalização dos sentimentos. Para a vida, que ainda importa mais, esta economia da solidão é uma fantasia viciante e perigosa. Chama-se mundo novo.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

AS ROUPAS NOVAS DO REI E O NOVO MACCARTISMO

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No chamado mundo «Ocidental», os media corporativos estão todos basicamente sob controlo, no mais completo sentido da expressão: financeiro, ideológico, de propaganda... Todos eles se põem em bicos dos pés para reproduzir a visão completamente distorcida do que são, hoje em dia, a Rússia e China, assim como outros países que se têm aliado em vários continentes a estas duas potências.  O mais grotesco nestes media é que eles se assumem como cães de fila dos globalistas ocidentais, acusando quaisquer indivíduos ou organizações de «fazerem o jogo» dos russos. Antes, era a mesma coisa, na era do Maccartismo, quem fosse acusado de ter simpatias pela «Rússia soviética» era logo banido e excluído. Assim, um número enorme de jornalistas, actores, professores, investigadores, ou outros profissionais, tiveram as suas carreiras completamente destruídas, quando não mesmo as suas vidas, pois muitos se suicidaram.  Hoje em dia, está-se a criar um mito de que pessoas dissidentes do globalismo capitalista ocidental, ao terem uma análise que coincide com a posição da Rússia ou da China sobre determinado assunto, estão necessariamente «a soldo» destas potências.  Esta «presunção de culpa» é grave, na medida em que, não apenas atacam de forma vil e falsa muitas pessoas pelas suas opiniões (perfeitamente legítimas), como instituem uma forma de exclusão, de censura, de toda uma parte do espectro político ideológico, que eu situo sobretudo na esquerda não capitulacionista, na esquerda que não foi comprada pelos Soros e Cia. Alguns elementos conservadores, curiosamente, também se têm posicionado de forma muito crítica ao imperialismo americano e à vassalagem dos países da NATO.
Compreendo que o controlo da narrativa se revista de  importância estratégica para os defensores do Império. Sem dúvida, existe uma lógica subjacente a isso: evitar que surja e se afirme uma corrente forte na opinião pública, que não se deixe manipular pela propaganda corporativa.    Tal como a criança, que no conto de Andersen, gritou «o Rei vai nu», aquelas personalidades podem ter um papel catalizador e clarificador das consciências confusas, adormecidas. Daí que os media ao serviço do Império façam «black-out» de tudo o que lhes diga respeito, ou deformem até à caricatura suas posições e pontos de vista. Isto está a tornar-se, nos últimos anos, um processo corriqueiro dentro do «mainstream». Acredito que apesar das suas técnicas sofisticadas de guerra psicológica, eles não possam moldar as consciências totalmente (embora o desejassem): é que a realidade encarrega-se de contradizer, mais e mais, essas construções ideológicas. 
As mulheres e os homens inteligentes vêem as contradições e adoptam uma postura crítica.   

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Três anos sem aprender

«Proverbial
hipocrisia», disse ele


No editorial do «Público» de hoje, Manuel Carvalho, referindo-se à moção de censura do CDS sublinha que«era um dado morto, já se sabia por causa da proverbial hipocrisia da esquerda que diz horrores do Governo mas que lhe dá a mão sempre que o Governo quer aprovar orçamentos ou está em apuros».

Por falta de pachorra não vou repetir aqui os esclarecimentos que, em todas as semanas dos últimos três anos, o PCP tem feito sobre a natureza da actual solução governativa e respectivas vantagens e limites.

Proponho apenas que os leitores imaginem que editorial teria hoje publicado Manuel Carvalho caso PCP, BE e Verdes tivessem ontem votado a favor da moção de censura do CDS.

E talvez assim se descubra melhor onde estaria verdadeiramente a hipocrisia.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Parlamento discute recuperação dos CTT

A privatização dos Correios pelo governo do PSD e do CDS-PP levou à degradação dos serviços e ao fecho de balcões em 33 concelhos até 2018. A necessária recuperação do controlo público vai hoje ao Parlamento.

O contrato de concessão termina em 31 de Dezembro de 2020Créditos / União dos Sindicatos de Évora (CGTP-IN)

São do BE, do PCP e do PEV os projectos de lei que serão discutidos esta tarde na Assembleia da República pela devolução da empresa à esfera pública face ao incumprimento da concessão do serviço postal universal. 

De acordo com o diploma do BE, que procede à nacionalização dos Correios, «a estratégia da administração dos CTT é centrar a actividade nos negócios lucrativos», transformando a rede de distribuição postal «numa rede de agências do Banco CTT». 

Os bloquistas entendem que «decidir a nacionalização» dos Correios até ao final da presente legislatura é «o único caminho de, nas condições actuais, ainda ser possível resgatar para o Estado a propriedade e a gestão do serviço público universal dos correios».

Por sua vez, o PCP considera que «é imperioso e urgente que o Estado adquira a capacidade e a responsabilidade pela gestão da empresa, para garantir a sua viabilidade futura e para que volte a ter condições para prestar um serviço que o País, as populações e os seus trabalhadores exigem».

Por motivo de «salvaguarda do interesse público», o projecto de lei do PCP «estabelece o regime de recuperação do controlo público da empresa CTT», ficando o Governo obrigado a criar as condições necessárias para que a recuperação do controlo público dos CTT seja realizada livre de ónus e encargos, sem prejuízo do direito de regresso quando a ele haja lugar», refere o PCP, sublinhando a necessidade de suspender a negociação de acções dos Correios. 

«É criada uma unidade de missão, a funcionar junto do Governo, com a responsabilidade de identificar os procedimentos legislativos, administrativos ou outros que se revelem necessários ao cumprimento das disposições da presente lei, dotada dos necessários recursos humanos e técnicos», lê-se no documento.

Para o PEV, é tempo de «assumir o enorme erro» que foi privatizar os Correios e «reverter a situação». Os Verdes sublinham que, «mesmo com a evolução a que assistimos nos últimos anos, os CTT não perderam a sua importância, continuando a ser um factor de promoção da coesão territorial e de combate às desigualdades». 

«Tem sido por demais evidente a degradação da qualidade do serviço de correios, em benefício do Banco CTT. Não se estranha, por isso, que durante todo este processo tenhamos assistido a uma incansável luta por parte das populações e dos trabalhadores no sentido de reinvindicar um serviço de correios à medida das necessidades do País», lê-se no documento.

Subcontratação a preços reduzidos

No passado mês de Janeiro, a Anacom indicou que era «expectável» que o número de concelhos sem estações de correio suba para 48 no curto prazo, contra 33 no final de 2018. Sendo de notar que, até 2017, e desde 2013, «existiam apenas dois concelhos sem estações de correios». 

Termina esta quinta-feira a consulta pública sobre a decisão da Anacom, que quer obrigar os CTT a garantir o funcionamento em cada município de pelo menos uma estação ou um posto de correio equivalente. A fasquia do regulador fica-se pela garantia de que a transferência dos serviços para estabelecimentos comerciais, como cafés ou papelarias, atenda aos critérios previstos no contrato de concessão. 

Ouvido ontem na Comissão Parlamentar de Economia, e citado pelo Público, o presidente da Anacom, João Cadete de Matos, afiançou no entanto que tal não será possível, atendendo aos valores «muito baixos» que os CTT se dispõem a pagar pela subconcessão. Segundo Cadete de Matos, a empresa está a entregar o trabalho das estações por «13 vezes menos» do que o custo que tinham com uma estação de correio só com um trabalhador e sem Banco CTT. 

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/parlamento-discute-recuperacao-dos-ctt

Notícias malabaristas e os protagonistas...

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Recebo, volta não volta, notícias do Grupo Marktest. 
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Hoje chegou-me mais uma, nada surpreendente, sobre os protagonistas que preenchem as notícias. Em análise, estão os programas: Jornal da Tarde, TeleJornal e Portugal em Directo (RTP1); 24: Sumário (RTP2); Primeiro Jornal e Jornal da Noite (SIC); Jornal das 8 e Jornal da Uma (TVI).  Não há detalhe, canal a canal, mas suspeito que a ordem do ranking é igual, assim como é comum a omissão.  Afinam todos pelo mesmo diapasão... 
(no mês anterior foi pior)

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Há «camisas verdes» nas redacções

O que determinados órgãos de comunicação social estão a fazer ao PCP é miserável, mas ninguém pode achar que seja propriamente «incompreensível». E isso compreende-se da seguinte forma: todos sabem o que é que o PCP combate. O PCP é um partido histórico, fundador da democracia, com provas dadas, com quase um século de existência. O PCP levou com os estalos dessa Primeira República acossada e turbulenta. Essa República onde a direita liberal (essa dita tradicional, do «centro», institucional, moderada) foi a primeira a ser olímpica e tristemente seduzida, engolida, passivamente possuída – dando todo o consentimento – à aparição e efectivação do fascismo. Essa mesma «direita centrona» e «liberal», «modernaça», «futurista», que existe, mas que está hoje num outro patamar. Perante a passividade quase geral, está a ser não seduzida, mas ela própria a seduzir voluntariamente xenófobos, neo-nazis, fascistas, «populóides», fanáticos do capital, imperialistas.

Toda a gente sabe, pois, qual é a luta do PCP, quem faz a luta do PCP, quais são os rostos do PCP, onde e quando o PCP está para atingir os seus bem definidos e transparentes objectivos! E se o PCP luta com democratas, se luta com anti-fascistas, se os seus rostos não têm cara tapada, e se aponta a objectivos assumidos às claras, quem o ataca coloca-se diametralmente do lado oposto. E essa é a escolha que alguns meios de comunicação e seus jornalistas estão a fazer. Os que atacam o PCP são os que promovem anti-democratas destruindo a democracia, os que omitem e truncam intervenções do PCP mas entrevistam fascistas branqueando o fascismo, os que se movem ou são movidos pelos interesses instalados, os que apontam a finalidades obscuras, com processos obscuros e tudo sob a guarda do “Espírito Santo” (Ou será do Banif?).

Da mesma forma que todos são capazes de conhecer e reconhecer o que o PCP quer e o que o PCP faz, ainda que disso possam discordar, todos são capazes de perceber de igual forma o que é que combate, na realidade, aqueles que dizem que «nunca combatem ninguém», que são sempre «muito neutros», que só querem «informar», mas que cerram dentes e punhos com mentiras, insinuações e falsidades que acabam por ser desmentidas ponto por ponto. Aqueles que acham que o perigoso mundo das “fake news” – fenómeno tão antigo quanto o da própria imprensa - se resume ou se confina à abstracção das redes sociais, estando os meios ditos “tradicionais” (televisão, rádio, jornais) isentos de controlo por parte de quem quer, por sua vez, também “controlar” a opinião pública e subjugar as massas, vive ingenuamente e já é, em si mesmo, vítima da armadilha dos grandes interesses.

Ainda que no seu processo normal a História não se repita, a verdade é que não falta quem a queira repetir. E tudo a coberto dos partidos institucionais, como palco ou como rampa. É vê-los aí nas parangonas: ontem «liberais», «centrões», «moderados» candidatos a Câmaras, hoje fundadores de partidos xenófobos, homofóbicos, racistas, nazis. E se essa direita partidária já não engole porque foi há muito engolida, os que hoje são, apesar de algumas heróicas excepções, seduzidos e engolidos pela nova emergência da extrema-direita já institucionalizada e sob patrocínio «liberal», são precisamente aqueles que um dia juraram «informar» e «esclarecer» com «neutralidade» e de forma «imparcial» a opinião pública. Depois do 25 de Abril de 1974, nunca como agora o fascismo esteve tão perto de controlar a comunicação social portuguesa. Nunca.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/02/ha-camisas-verdes-nas-redaccoes.html

Sindicato reafirma necessidade da renacionalização dos CTT

O SNTCT voltou a defender esta terça-feira a necessidade urgente de reverter a privatização do CTT, acusando a gestão privada de estar «a dar cabo de 500 anos de correios em Portugal», com a complacência do Governo.

Os CTT foram totalmente privatizados em 2014, pelo governo do PSD e do CDS-PPCréditosManuel Almeida / Agência LUSA

«A maioria dos portugueses sabe que a privatização dos CTT foi um erro, sabem que a solução para haver um serviço postal de qualidade e universal é a reversão da privatização dos CTT», afirma o Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT/CGTP-IN).

Em comunicado, a maior estrutura sindical do sector realça que a outrora lucrativa empresa do Estado, que prestava «um serviço público de qualidade» e arrecadava milhões para as contas públicas, está a ser lapidada desde da privatização, em 2015. 

«O Estado deixou de receber 311 milhões de euros, os CTT já só valem 466 milhões de euros e o serviço postal está completamente degradado e cada vez menos universal», reitera o sindicato, acrescentando ainda que a eventual renacionalização só «custaria 10% do que o Estado suporta com o BES/Novo Banco».

O sindicato realça também que «no último ano foram destruídas (encerradas) 84 estações de correios», ficaram «38 municípios sem estações de correios» e que os novos donos dos CTT querem agora alargar «este número para 48», o que vai privar ainda mais as populações do interior, sobretudo as mais idosas.

«Todos, populações, comércio e empresas, têm denunciado a falta de qualidade e o atraso com que o serviço de correios é prestado», lembra o SNTCT, que denuncia que a «a passagem das estações de correio para as Juntas de Freguesia» não é mais que uma transferência de encargos suportada pelas autarquias.

Perante isto, os representantes dos trabalhadores reafirmam a necessidade urgente da renacionalição dos CTT e reiteram que «quem tem o dever e o poder para resolver a situação é o Governo». Porém, «estão a arranjar desculpas, a empatar, a “chutar” para o Regulador, a enganar os portugueses, com medo de afrontar os interesses financeiros», denuncia.

Anacom acusa CTT de divulgarem «informação enganosa»

A Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) acusou ontem os CTT de divulgarem «informação enganosa» quanto à evolução do número de reclamações apresentadas pelos consumidores em 2018.

Em comunicado, o regulador garantiu que «solicitou esclarecimentos aos CTT sobre a informação que suportou o seu comunicado, tendo os elementos recebidos no dia 18 de Fevereiro permitido confirmar que os CTT divulgaram informação enganosa».

Em causa está uma nota de imprensa, divulgada pela empresa, que dava conta de que «as reclamações totais de serviços postais recebidas pelos CTT caíram 7% em 2018, face a 2017», quando a Anacom, no mesmo dia, tinha revelado que «as reclamações sobre o sector postal aumentaram 43,3% em 2018, passando de 16 mil em 2017 para 22,9 mil em 2018».

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/sindicato-reafirma-necessidade-da-renacionalizacao-dos-ctt

Armando Vara e as algemas

(Por Carlos Esperança, 05/02/2019)

algemas

Estou tão habituado, desde sempre, a ser minoritário nas posições que tomo e princípios que defendo, que me surpreendo quando encontro unanimidade nas opiniões que emito.

A prisão de Armando Vara, condenado a cinco anos de prisão efetiva, não me admirou, tal como não me admiraria se fosse o dobro ou metade. Penso que os juízes, salvo raras exceções, são competentes e aplicam penas adequadas. Tenho, aliás, boa impressão dos magistrados portugueses, que nunca confundi com os sindicalistas que os representam, de quem tenho opinião inversa.

Armando Vara é, felizmente, para poder condenar as algemas com que as televisões se deleitaram, uma pessoa que me é completamente indiferente, e as algemas um ato que pode ser legal, mas, na minha opinião e sensibilidade, manifestamente indigno.

Desconheço a legislação e quero escrever este texto sem ser influenciado pela lei. O que me repugna é a humilhação gratuita de um ser humano. Os crimes económicos não são menos reprováveis do que os crimes de violência física ou mesmo de homicídio, mas a perigosidade dos autores, para os guardas e transeuntes, em termos de integridade física, é substancialmente diferente da dos assassinos.

Recordo-me dos castigos medievais e sei que o nosso Código Penal não admite a tortura e outras formas de violência física sobre os presos. Sei também que as polícias devem usar a força adequada às necessidades e, jamais, agredir um indivíduo depois de preso.

Armando Vara pode ser o mais execrável dos criminosos, mas não teria medo de passar por ele, durante a noite, numa rua escura. Ricardo Salgado é provavelmente, se vierem a provar-se os crimes de que é suspeito, o maior dos criminosos, e não gostarei de o saber algemado a caminho da prisão, com fotos nos jornais e filmagens para as televisões.

Um preso não pode ser espoliado de todos os direitos humanos nem ser amarrado a um pelourinho. Repugna-me mais a exibição gratuita de uma humilhação do que a incúria que tem poupado à prisão os autores de delitos fiscais e económicos.

Se há alguma lei que exija algemas aos presos, nas suas deslocações, sem uma entidade que previamente verifique a perigosidade e perigo de fuga do delinquente, é uma lei que envergonha um país civilizado. A pena é a restrição da liberdade, não é a humilhação pública. Se há lei que o permite discricionariamente ou por sistema, deve ser revogada.

Penso que a alegria dos que se regozijam com a humilhação alheia, que não se confunde com a pena para punir o crime, por mais hediondo que seja, é porque certamente já foi vítima de humilhações.

As fotografias na imprensa são a obscenidade feita informação. Qualquer dia os presos são apresentados ao juiz acorrentados, algemados e amordaçados.

Voltamos à Idade Média.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sobre como (realmente) vai o Mundo, ler tudo no "LADO OCULTO" - 22

CONHEÇA O GOLPISTA DA VENEZUELA

O Lado Ocultodá hoje a conhecer em pormenor quem é o golpista Juan Guaidóque se autoproclamou presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e Chefe de Estado sem ter sido eleito para nenhum dos cargos. É uma resenha de 15 anos de conspiração sustentados pelo governo dos Estados Unidos, desde a formação em terrorismo e "revoluções coloridas" na Sérvia aos "estágios" nas arruaças sangrentas designadas "guarimbas", à manipulação de lugares em órgãos institucionais até chegar à "presidência", depois de receber um presidente do vice-presidente dos Estados Unidos. 
Conheça assim o indivíduo que recebeu do governo português o reconhecimento da "legitimidade" da usurpação.
Estão disponíveis mais textos sobre a situação na Venezuela, desde a história do telefonema do vice-presidente Pencedando ordem para Guaidó avançar, a carreira sangrenta e criminosa de Elliot Abrams, o enviado de Trump para o golpe e a evocação do humanista e cientista europeu Alexander von Humboldt, um homem que há mais de 100 anos conhecia melhor a América Latina que os sociopatas que estão a conseguir governá-la.
Falamos também de guerra, mesmo de guerra nuclear, que poderá ser o caminho por onde vão os Estados Unidos ao abandonarem o Tratado INF, sobre proibição de mísseis de médio alcance.
Guerra também para continuar no Médio Oriente, onde a recente criação da Missão da NATO no Iraquepode conter a unificação de um conflito neste país e na Síria, ameaçando o Irão.
Guerra ainda quando os Estados Unidos dão fuga a terroristas do Daeshque estavam em poder dos Talibã, no Afeganistão; ou quando Emmanuel Macron decide enviar tropas e armas para a Síriapara compensar os meios militares que os Estados anunciaram retirar, sem o concretizar.
Não perca também os antecedentes e a realidade do rebentamento da barragem de Brumadinho, no Brasil, um país, de facto, atolado na lama do seu aparelho de gestão.

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Lapidar

jornalismo01

«O jornalismo editorialista, governado pelos editocratas (um neologismo surgido em França há alguns anos e que serviu de título a um livro colectivo), anula a função crítica do jornalismo e funciona segundo a lógica do entretenimento: promove a encenação de polémicas e debates que funcionam em circuito fechado, segundo uma tendência endogâmica, tautológica e mimética que atinge os cumes da exasperação quando há um acontecimento ou um assunto actual que polariza as atenções. Nesses momentos, impera um espírito de rebanho e o espaço mediático é varrido por uma onda avassaladora que cresce e desaparece. O jornalismo torna-se então uma caricatura, uma engrenagem autotélica que funciona para se alimentar a si própria, como o homeostato de Ashby. Alguém chamou a isto “comunicação autística”. Cria-se assim a ilusão — uma das maiores ilusões do nosso tempo — de que este jornalismo cria um espaço público alargado, próprio de uma sociedade transparente, quando na verdade a reduz na sua amplitude e no seu alcance.

[…]

A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos. O triunfo de um pragmatismo estrito — e afinal sem grandes resultados — em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.»

Rezar pelo jornalismo

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

Recordações da Casa Amarela

Por causa da especificidade da sua função, é comum confundir os jornalistas com os meios de transmissão impessoais que utilizam, e esquecer que cada intrépido repórter coexiste no mesmo corpo com um ser humano, muitos deles com sentimentos. É portanto de louvar o profissionalismo exibido nesta semana por toda a equipa de informação da SIC, que, mesmo ocupadíssimos com a sua mudança de instalações, conseguiram manter-nos permanentemente informados sobre a grande notícia da semana: a sua mudança de instalações. Enquanto o resto da imprensa se distraía com Venezuelas, debates parlamentares e outros flocos de espuma, a SIC soube focar-se no essencial - um grupo de pessoas ia sair de um edifício e entrar num edifício diferente, a sensivelmente nove quilómetros de distância.
Violinos. Imagens de arquivo. "A SIC mudou... saiu da zona de conforto... e arriscou." Rodrigo Guedes de Carvalho, não deixando que o tumulto deteriorasse o seu sentido de rigor, apresentou os factos cronológicos, geográficos, arquitectónicos e cromáticos em apreço: "Durante 26 anos, a SIC morou aqui, na Estrada da Outurela, número 119. O edifício conhecido pelas paredes... de tijolos. Uma casa... amarela."
O Jornal da Noite apresentou uma montagem subordinada ao tema "dias de agitação". Drones mostravam panorâmicas de um palácio de cristal nas terras exóticas de Paço de Arcos. Um operador de câmara interrompeu o que parecia ser uma acção de formação sobre o funcionamento de edifícios. Perante uma plateia atenta e curiosa, um perito em portas apontou para uma porta e explicou que se tratava de uma porta. Depois veio o esclarecimento adicional, através da qual o esclarecimento anterior foi semanticamente enriquecido: "É apenas uma das portas. Há outras."
O sentido de turbulência histórica foi transmitido através de imagens de pessoas a transportar caixotes de um lado para o outro, como decerto acontecia na Fortaleza de Sagres antes de partirem as primeiras naus. Mas questões logísticas importantíssimas eram resolvidas recorrendo a princípios científicos de vanguarda. "Venho eu... o computador... os dossiês... o bloco e as canetas...?" "E a cadeira." "A cadeira também?" Raramente o grande público tem acesso aos bastidores da História com "H" grande, mas aqui estava ela a acontecer à nossa frente: na imagem seguinte, uma cadeira foi de facto empurrada ao longo de um corredor. Nada é deixado ao acaso em operações desta natureza.
Numa visita guiada às novas instalações, Clara de Sousa serviu de cicerone a Cristina Ferreira, que se auto-impôs a nobre tarefa de enumerar os aspectos da realidade sobre os quais as pessoas comuns não têm noção: o mundo das régies ("A régie é um mundo que as pessoas não têm noção do que é"), a seriedade do jornalismo ("Eu acho que as pessoas às vezes não têm noção de que o jornalismo é muito sério"), etc.
No dia seguinte, Bento Rodrigues conseguiu a proeza fisiológica de aplicar maiúsculas à palavra "FUTURO" apenas com o seu timbre de voz. Nos tons ofegantes de quem testemunha o módulo lunar a aproximar-se do mar da Tranquilidade, falou de uma "redacção nova, mais tecnológica, e ainda com mais talento". Seguiu-se um directo a partir da tecnológica e talentosa redacção. "Como se vive aí o ambiente, Joana?" O ambiente vivia-se com uma produtora a agachar-se diante de uma máquina de café e a explicar à Joana que tinha desenvolvido um sistema revolucionário de armazenamento de víveres. "Trouxe três caixas. Uma para o café, uma para o chá e outra para o açúcar."
"Tu estás muito emocionada, não estás?"
"Sim, porque isto é... isto é o futuro."
Eram 13.21. O olho da História fitava-nos.
João Moleira foi incumbido de resgatar às paredes abandonadas de Carnaxide um documento simbólico. "Esta... é a primeira licença de emissão da SIC... E Bento... vou levá-la até ti, porque é aí que ela faz falta agora."
"Que bela ideia, João. Porque a vida é feita de símbolos... como esse que tu nos vais trazer. Além do mais, esse papel que autorizou a SIC a ir para o ar remete-nos para o espírito fundador... uma televisão que revolucionou a própria televisão... um sopro de democracia no país..."
Tolhido pela emoção, mas com o documento mais importante desde a Magna Carta devidamente aconchegado na axila, João Moleira encaminhou-se para a saída. "Costuma dizer-se que o último a sair apaga a luz. Aqui as luzes já foram apagadas, resta-me sair uma última vez por esta porta", anunciou solenemente, deixando atrás de si vários funcionários atarefados e uma recepcionista rodeada de luzes acesas. No novo estúdio, Bento Rodrigues continuava a executar empolgantes acrobacias silábicas com o vocábulo "futuro": "O fU-tU-Ro é agora... em Paço de Arcos."
O futuro assemelhou-se muito ao passado recente, permitindo que instrumentos tecnológicos de última geração fossem aplicados à missão tradicional do jornalismo televisivo: acompanhar em directo o percurso de veículos automóveis, enquanto alguém relata com precisão científica aquilo que estamos a ver.
13.37: "O João está já na recta final... a nova morada da primeira televisão privada em Portugal... Está a chegar a Paço d"Arcos, como podem testemunhar nestas imagens... fazendo a rotunda que permitirá depois entrar nas novas instalações da SIC.... Uma vida nova... num dos mais fortes grupos de comunicação do país... que tem sobretudo a independência e a isenção, além da criatividade, como marcas principais.... o carro já está a chegar..."
Chegado ao destino, o portador do documento foi recebido à entrada pelo pivô: dois homens abraçados nos degraus de um novo mundo, com o sentido do dever cumprido, como Lewis e Clark, como Ivens e Capelo. A licença de emissão foi colocada num tripé. "É um papel... mas é muito mais do que um papel." Cabeças acenaram vigorosamente. O país, exaustivamente informado, podia respirar fundo e descansar.
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Marques Mendes?

Notícia importantíssima que me teria escapado se não estivesse a ler o Expresso de hoje. Ai se o Alexandre O’Neill ainda por cá andasse…
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Notícias feitas à pressa?

Recorrendo a dados do Eurostat, o JN destacou na capa da edição do passado domingo que «os contratos precários aumentaram 1,8 pontos percentuais entre 2008 e 2017» em Portugal, sendo que à escala europeia «só a Croácia apresenta um valor superior», com «um aumento de 3,6 pontos percentuais», no mesmo período. Reproduzida por outros jornais (por exemplo aqui, aqui, aqui ou aqui) e nos noticiários do dia, a peça do JN tem contudo dois problemas. Por um lado, porque mesmo fazendo referência a esse facto, não retira as devidas ilações da quebra de série estatística verificada em 2011, que inviabiliza a interpretação dos dados feita pelo periódico. Por outro lado, porque não sendo essa quebra de série nada irrelevante (os valores para Portugal mais que triplicam de um ano para o outro), é dispensada na notícia a referência à redução do peso relativo do trabalho precário - e não o seu aumento - entre 2011 e 2017. Ou seja, uma diminuição em cerca de -0,7 pp nos anos que compõem a série estatística mais recente.
De facto, a aproximação dos critérios utilizados pelo INE aos critérios utilizados a nível europeu, a partir de 2011, mostra que este indicador da precariedade laboral estava subavaliado até essa data, em termos comparativos (passando Portugal a posicionar-se acima da UE, ao contrário do que sucedia até 2010). Mas mostra também que, desde então, essa forma de precariedade tem vindo a diminuir (e a aproximar-se da média europeia, que se mantém em torno dos 2,3% entre 2011 e 2017), passando de 3,6 para 2,9%. O que permite uma leitura bem distinta (e distante) dos títulos que povoaram os jornais no início da semana, a apresentar Portugal como um «dos países europeus onde o trabalho precário mais subiu», ou como um país onde os «contratos precários aumentam 1,8 pontos percentuais entre 2008 e 2017».

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

João Miguel Tavares

Quando num semanário como o Expresso, que se diz de referência, se lê isto, julgo que estamos conversados quanto ao que nos espera em tempos «popularuchos» que se avizinham.
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Marques Mendes (MM) e os seus paradoxos

(Carlos Esperança, 25/01/2019)

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O ex-líder partidário que faz do tráfico de informações privilegiadas um modo de vida, que compromete o Conselho de Estado, para onde foi nomeado pelo PR, pelas opiniões que emite, que faz da sua tribuna televisiva um instrumento de combate ao Governo, na defesa das teses da direita, esqueceu-se de que já tutelou a RTP onde foi constante a sua interferência no alinhamento dos noticiários e influência nos conteúdos. Talvez, por isso, tema nos outros aquilo de que foi capaz no consulado cavaquista.

Marques Mendes, ex-líder do PSD, foi corajoso quando retirou a confiança partidária a Isaltino Morais e Valentim Loureiro, timorato na Câmara de Lisboa e cobarde perante Alberto João Jardim, cujos desmandos não teve coragem de afrontar, mas, antes de se dedicar aos negócios e à intriga aparentava grande honestidade e uma coluna vertebral direita, independentemente das opções partidárias.

Hoje, ignora-se se MM é a vuvuzela de Belém, intriguista por conta própria ou acumula.

Na penúltima homilia televisiva, o bruxo de Fafe, cujas diatribes têm eco na imprensa escrita, rádio e redes sociais, ou não refletisse ele os interesses de quem lhe paga, levou a baixeza ética de comentador ao nível do arruaceiro partidário, e disse:

1 – “Armando Vara é apenas uma ponta do icebergue de uma rede muito poderosa que durante 20 anos, ou mais, existiu em Portugal” .

2 – “Armando Vara, para ajudar a destruir a CGD e o BCP, não teve apenas o aval de Sócrates. Teve também a aprovação do Banco de Portugal”.

a – Ninguém ignora a lepra da corrupção e a necessidade de ser investigada e punida e, no que diz respeito a Armando Vara já está preso, contrariamente a governantes do PSD e CDS que não passaram os últimos 20 anos fora do poder. Nem agora, na oposição.

b – A denúncia da corrupção é um dever, e que bom seria que a corrupção fosse apenas de militantes do PS e o denunciante, em vez da intriga, apresentasse factos e não tivesse cadastro!

Ignora que foi o atual Governo que pediu a auditoria à CGD, que o governador do BP, reconduzido por Passos Coelho, sem consulta ao PS, como era tradição, recusou pedir? Ignora que foram os seus correligionários os arguidos do BPN? Em questão de Bancos MM mostrou o que sabia quando disse em 12 de julho de 2014 (SIC-N): «O banco [BES] é sólido, não há perigo nenhum para as pessoas», acompanhando o seu medíocre mentor, ao tempo PR.

Deve ter frequentado aulas de ética com um ex-vice-presidente do PSD, o Sr. Joaquim Coimbra, que o empregou em uma ou várias das suas numerosas empresas e adquirido os princípios éticos com que foi gerido por um seu colega de governo o BPN. O próprio BCP foi criado a convite do PM Cavaco Silva por um proeminente membro do Opus Dei, Jardim Gonçalves, e a sua gestão continuou com outro membro do PSD e do Opus Dei, Teixeira Pinto. Quanto à CGD, repito, foi este governo que pediu a auditoria e que procura apurar responsabilidades e entregar eventuais delinquentes à Justiça.

E quanto à sua honorabilidade, de quem se esqueceu dos submarinos, dos sobreiros, do condomínio do BPN na praia da Coelha, das privatizações da ANA, CTT, EDP, Galp, PT e outras, das mais valias de ações das SLN, não cotadas em Bolsa, e tantas outras tropelias, vale a pena recordar o seu próprio caso:

«O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões.» (aqui).

É difícil ser paquete de Belém sem comprometer o inquilino, mas não é saudável para o País a guerrilha feita através de fauna necrófaga, com propaganda sob o pseudónimo de ‘opinião’. Marques Mendes, vuvuzela da direita, é um dos muitos avençados pagos para a intriga e ataques à esquerda, este em equilíbrio difícil entre divergências que corroem os partidos de direita e os recados de Belém.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os CTT, as privatizações e a destruição de um país

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/01/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

No ano passado, já eram 33 os municípios que não tinham uma única estação de correios. Este ano, segundo a administração dos CTT, passarão a ser 48. Concelhos do interior envelhecidos onde os cidadãos mais dependem deste serviço. São mais de 15% dos municípios onde residem mais de 400 mil portugueses. Estas estações foram substituídas por postos de correio que funcionam em estabelecimentos comerciais, como mercearias ou postos de turismo. Apesar da administração que tem sido responsável pela descredibilização de uma das empresas que melhor funcionava em Portugal pôr as mãos no fogo pela qualidade dos seus “parceiros”, a Anacom diz que da substituição de estações por estes postos resultou, “particularmente ao logo dos últimos meses, uma situação de degradação na forma como o serviço postal está disponível para os utilizadores”.

No país que vive noutro país a privatização dos CTT não foi um problema. Mas o país que não acorda para o interior quando ele, deserto, sem massa crítica e abandonado, é consumido pelas chamas, esta privatização foi mais um crime contra a soberania no território, que depende da existência física de serviços públicos e do Estado.

A grande promessa da segunda vaga de privatizações (depois das que eram mais ou menos óbvias) foi a de que elas corresponderiam a ganhos de concorrência, redução de custos para os cidadãos e fortalecimento da economia portuguesa. Tudo foi esmagadoramente desmentido. Tirando uma malta que embolsou algum com estes negócios e a entrada de capital que rapidamente se esfumou, tudo o resto foram perdas. Genericamente, os serviços são mais caros; várias destas empresas funcionam, na prática, em regime de monopólio privado; e a economia portuguesa foi estripada de quase todas as suas empresas de referência. Resta-nos a patega fé no milagre das startups.

A Cimpor e PT são uma sombra do passado. A EDP foi nacionalizada através da sua entrega a outro Estado. A REN e ANA são, como não podiam deixar de ser, monopólios privados. E os CTT degradam-se a olhos vistos.

A Cimpor e PT, que foram potentes empresas nacionais, com contribuições fundamentais para a economia do país e para a sua internacionalização, são uma sombra do passado. No caso da Cimpor, podemos mesmo falar de um crime contra a economia nacional. A EDP foi nacionalizada através da sua entrega a outro Estado. A REN e ANA são, como não podiam deixar de ser, monopólios que usam o poder desse seu estatuto e que limitam dramaticamente as grandes escolhas que podíamos fazer. E os CTT degradam-se a olhos vistos, apostando tudo na construção de mais um pequeno banco – que deveria ter sido feito em conjunto com a CGD quando as duas empresas eram do Estado e isso poderia corresponder a um ganho para os cidadãos.

Hoje, qualquer pessoa que defenda estas privatizações tem de se refugiar em dogmas ideológicos. Independentemente da posição política que cada um tenha, a privatização ou nacionalização de empresas depende da realidade económica de cada país e de cada momento, da escala em que essas empresas operam e das condições políticas e regulatórias a que estão sujeitas. Claro que há quem ache que o interesse económico nacional é uma fantasia e que a destruição do tecido empresarial de um país deve ser encarada como um fenómeno natural e até regenerador. Que entre mortos e feridos, o importante é que nada trave a purificadora livre-concorrência. Nas economias fortes não se costuma dar ouvidos às fantasias destes liberais dogmáticos. É uma das razões para serem fortes: tratam, com pragmatismo, dos seus interesses.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os CTT, as privatizações e a destruição de um país

«No ano passado, já eram 33 os municípios que não tinham uma única estação de correios. Este ano, segundo a administração dos CTT, passarão a ser 48. Concelhos do interior envelhecidos onde os cidadãos mais dependem deste serviço. São mais de 15% dos municípios onde residem mais de 400 mil portugueses. Estas estações foram substituídas por postos de correio que funcionam em estabelecimentos comerciais, como mercearias ou postos de turismo. Apesar da administração que tem sido responsável pela descredibilização de uma das empresas que melhor funcionava em Portugal pôr as mãos no fogo pela qualidade dos seus “parceiros”, a Anacom diz que da substituição de estações por estes postos resultou, “particularmente ao logo dos últimos meses, uma situação de degradação na forma como o serviço postal está disponível para os utilizadores”.
No país que vive noutro país a privatização dos CTT não foi um problema. Mas o país que não acorda para o interior quando ele, deserto, sem massa crítica e abandonado, é consumido pelas chamas, esta privatização foi mais um crime contra a soberania no território, que depende da existência física de serviços públicos e do Estado.
A grande promessa da segunda vaga de privatizações (depois das que eram mais ou menos óbvias) foi a de que elas corresponderiam a ganhos de concorrência, redução de custos para os cidadãos e fortalecimento da economia portuguesa. Tudo foi esmagadoramente desmentido. Tirando uma malta que embolsou algum com estes negócios e a entrada de capital que rapidamente se esfumou, tudo o resto foram perdas. Genericamente, os serviços são mais caros; várias destas empresas funcionam, na prática, em regime de monopólio privado; e a economia portuguesa foi estripada de quase todas as suas empresas de referência. Resta-nos a patega fé no milagre das startups.
A Cimpor e PT, que foram potentes empresas nacionais, com contribuições fundamentais para a economia do país e para a sua internacionalização, são uma sombra do passado. No caso da Cimpor, podemos mesmo falar de um crime contra a economia nacional. A EDP foi nacionalizada através da sua entrega a outro Estado. A REN e ANA são, como não podiam deixar de ser, monopólios que usam o poder desse seu estatuto e que limitam dramaticamente as grandes escolhas que podíamos fazer. E os CTT degradam-se a olhos vistos, apostando tudo na construção de mais um pequeno banco – que deveria ter sido feito em conjunto com a CGD quando as duas empresas eram do Estado e isso poderia corresponder a um ganho para os cidadãos.
Hoje, qualquer pessoa que defenda estas privatizações tem de se refugiar em dogmas ideológicos. Independentemente da posição política que cada um tenha, a privatização ou nacionalização de empresas depende da realidade económica de cada país e de cada momento, da escala em que essas empresas operam e das condições políticas e regulatórias a que estão sujeitas. Claro que há quem ache que o interesse económico nacional é uma fantasia e que a destruição do tecido empresarial de um país deve ser encarada como um fenómeno natural e até regenerador. Que entre mortos e feridos, o importante é que nada trave a purificadora livre-concorrência. Nas economias fortes não se costuma dar ouvidos às fantasias destes liberais dogmáticos. É uma das razões para serem fortes: tratam, com pragmatismo, dos seus interesses.»
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Leia original aqui

AINDA SE LEMBRA COMO ERA IMPORTANTE A GRÉCIA DE HÁ QUATRO ANOS?

25 de Janeiro de 2015. Realizam-se eleições legislativas na Grécia em que, pela primeira vez, o Syriza, além de as ter vencido, quase alcançou a maioria absoluta da representação parlamentar (149 em 300 lugares), vindo posteriormente a formar governo em coligação com uma formação política nacionalista de direita. Mas a data precisa das eleições é apenas pretexto para evocar e relembrar o que aconteceu nas semanas que se seguiram entre certos círculos político-informativos portugueses, que desencadearam uma ferocíssima barragem opinativa sobre o que acabara de acontecer no outro canto da Europa. A razão de tal afã é hoje perfeitamente evidente: combater o efeito de contágio, nem que para isso, e por algum tempo e de uma forma que a distância temporal tornou ridícula, quisessem tornar a Grécia um dos países europeus mais importantes do panorama noticioso nacional. Hoje, que já se conhecem os desenvolvimentos da história (além do Syriza ter tornado a vencer outras eleições em Setembro seguinte, foi encerrado o procedimento por défice excessivo, a economia do país está a gerar excedentes primários - e tudo isso sob a égide do Syriza!), é de toda a justiça evocar quem então se prestou a emitir tais opiniões... para sobretudo compreender a quantos deles lhes assaltou, a respeito do tema, aquele sentimento - sempre nobre - da contrição. É que entre as figuras abaixo está Paulo Almeida Sande, que Pedro Santana Lopes escolheu para cabeça de lista do seu partido às próximas europeias. É para nós não nos esquecermos, apesar de só se terem passado quatro anos...
Como nota de rodapé e ainda a respeito da Grécia de há quatro anos, gostaria de relembrar que, se a cobertura do enviado especial da RTP a essas eleições (José Rodrigues dos Santos) se tornou famosa e caricata pelo seu facciosismo, e por isso escolhi uma das suas intervenções para encabeçar este poste, a da SIC (de que não se fala), não lhe fica atrás em incompetência. Logo no primeiro minuto da reportagem abaixo o enviado especial Pedro Cruz consegue enganar-se consecutivamente dizendo que em Portugal há 260 deputados (não: são 230) e que na Grécia são 500 deputados (não: são 300). A partir daí, Pedro Cruz entusiasma-se com uma diatribe baseada no facto do «parlamento grego ter perto do dobro do número de deputados em Portugal» (0:50s). Por acaso, é mentira. Olhem se isto fosse discutido como o são os erros de arbitragem ou como se no Bloco de Esquerda se tivesse verdadeiro interesse em denunciar as incompetências dos repórteres de televisão...

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/ainda-se-lembra-como-era-importante.html

Que riscos para a privacidade pode provocar integração de Facebook, WhatsApp e Instagram?

Logotipos do WhatsApp e Facebook
© AP Photo / Patrick Sison

Os políticos e especialistas estão muito preocupados com o projeto do presidente executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, de interligar os mensageiros Messenger, WhatsApp e Instagram até o fim de 2019 ou início de 2020.

O Facebook não deve ser autorizado de realizar o plano de integrar suas plataformas com o WhatsApp e o Instagram, já que o gigante das redes sociais violou inúmeras vezes as suas obrigações sobre a privacidade no passado e não se poder confiar no futuro, avisou o senador norte-americano Jeff Merkley durante a coletiva de imprensa.

"Agora que o Facebook planeja integrar seus serviços de mensagens, nós precisamos de mais do que meras garantias da companhia de que essa mudança não prejudicará a privacidade de dados e segurança dos usuários. Não podemos permitir que a integração da plataforma se transforme em desintegração da privacidade."", declarou Merkley na sexta-feira (25).


O senador assinalou que a Comissão Federal do Comércio dos EUA (FTC, da sigla em inglês) confirmou em março de 2018 que a política de privacidade de Facebook estava sendo investigada e que a companhia eventualmente infringiu uma decisão relativa a um acordo com a FTC.

Marc Rotenberg, o presidente executivo do Centro de Informação sobre a Privacidade Eletrônica, disse que a integração teria um "efeito terrível para os usuários" e solicitou à FTC agir para proteger a privacidade e preservar a concorrência", segundo o jornal New York Times.

A preocupação está crescendo não só nos EUA, mas também no Reino Unido, que incentivou a investigação sobre a quantidade de dados compartilhados entre o WhatsApp e o Facebook.

Segundo o jornal, Zuckerberg quer a integração para criar um trio de serviços mais eficaz, fazendo "o envio de mensagens mais rápido, simples, seguro e privado".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019012613186364-facebook-whatsapp-instagram-privacidade-integracao/

Venezuela | Que golpe! Que palhaçada! Que desespero!

Venezuela pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada. Sempre Venezuela. Os média do imenso cartel da comunicação social segue o que sabemos e António Aleixo nos deixou em verso, com sabedoria: ”Para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.
É constante a omissão evidente de que os EUA estão a submeter à manipulação os povos da América Latina, instalando democracias de fachada com uns quantos seus servidores escolhidos, de modo a que a soberania ianque prevaleça naquela parte do globo. Como era antes e assim foi durante muitas dezenas de anos. Os sul-americanos não podem ser senhores dos seus destinos. Foi e é a palavra de ordem das administrações dos EUA.
Os EUA, o ocidente e os mais ricos do mundo querem o petróleo da Venezuela – o terceiro país do mundo possuidor de petróleo explorado e a explorar. Como menciona a Deutsche Welle: “De acordo com cifras de 2015 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo bruto do mundo, com mais de 300 milhões de barris. Isso coloca o país à frente de Arábia Saudita (266 milhões de barris), Irã (158 milhões de barris) e Iraque (142 milhões de barris).”
A contra-revolução ao regime de Chávez teve sempre por inimigo o grande capital mundial, principalmente personificado e centrado nas administrações dos EUA e da UE. Esta última menos afoita e a dar menos nas vistas. Cinismo europeu q.b. A CIA norte-americana há anos que recruta na Venezuela e noutros países limítrofes agentes sul-americanos que forma e os lança no terreno do país bolivariano, como noutros da América Latina, Os seus agentes ianques não chegavam em quantidade e operacionalidade para os EUA reaverem a posse dos bens dos países latino-americanos, principalmente o petróleo que era explorado e roubado por companhias privadas adstritas à potência do norte, os EUA. Todos os países da região sul do continente americano têm sofrido os ataques sistemáticos e pungentes das técnicas da CIA para a nova fase de submissão aos EUA e ao grande capital explorador da humanidade e fomentador das guerras e instabilidades por todo o mundo. O fito é sempre o mesmo: roubar. Colocar nos poderes de cada país políticos e outros servidores domados de acordo com os interesses que permitam apossarem-se da soberania de praticamente toda a América Latina. Aliás, como  consta no manual da CIA para todos os países que possuam no menu mais valias nas riquezas de subsolos, geoestratégicas, etc.
Por esta hora há Venezuela a alimentar os cardápios das redações. Assim como nos dias que se seguem. Bastantes. Jornalistas domados e carentes dos seus ordenados ao final do mês, assim como jornalistas cujos ideais se coadunam com as políticas e métodos dos EUA intoxicam a opinião pública – como tem vindo a acontecer de acordo com os manuais da CIA de há anos a esta parte. Evidentemente que não é toda a classe daqueles profissionais, mas são bastantes por esse mundo.
Que o regime da Venezuela, a situação política, social e na generalidade, está virada do avesso. Sim, existem erros e desvios na revolução bolivariana por via das pressões externas. Sim, o povo venezuelano está a sofrer carências imensuráveis. Não restam dúvidas. Mas o que está a acontecer deve-se aos planos e cumprimento da contra-revolução da autoria da CIA e administrações norte-americanas. Não só na Venezuela mas em todo o continente sul-americano. Golpes sobre golpes é o que tem acontecido. Já faltam muito poucos países daquele continente a abdicarem da sua soberania e a renderem-se à submissão aos EUA e a todos os muito mais ricos que preponderam no diretório global – aqueles que são habitualmente definidos por “Os 1%”.
Desta feita o Curto do Expresso deu azo a uma apreciação e retórica prolongada mais que evidente. Claro que o Expresso também se alimenta dos acontecimentos na Venezuela, a seu modo. A modo dos ditames da imprensa do mundo dos tais 1%... e dos ‘dótores’ ao seu serviço. Nada de especial, é de ler.
Como nos deixou o mesmo António Aleixo: “Uma mosca sem valor poisa, com a mesma alegria, na careca de um doutor como em qualquer porcaria”.
"A Venezuela tem dois presidentes". Que golpe. Que palhaçada, no pior sentido. Que desespero!  Devagar, devagarinho, é que o macaco...
Bom dia, se conseguir e o deixarem usufruir dele. Parece difícil, mas… (MM | PG)
Bom dia este é o seu Expresso Curto
Venezuela na miséria tem dois presidentes
Miguel Cadete | Expresso
Ontem à tarde, no centro de Caracas, quando se celebrava mais um aniversário da queda do regime militar de 1958, o Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, declarou perante uma multidão de manifestantes: “Hoje, 23 de janeiro de 2019, juro assumir formalmente a responsabilidade do governo nacional enquanto Presidente da Venezuela”. (Quem é este engenheiro de 35 anos?) A revolução chavista, que há 20 anos domina o poder, nunca tinha conhecido tal afronta. Nicolás Maduro, o Presidente da Venezuela tinha tomado posse para um mandato de mais seis anos há duas semanas, após um sufrágio que levantou dúvidas junto da comunidade internacional, reagiria de imediato, assumindo que a declaração de Guaidó (veja aqui as imagens do pronunciamento) se tratava de uma manobra conspirativa dos Estados Unidos da América para o demover. Como demonstração de força, assinou, na varanda do palácio presidencial, a ordem para que todos os diplomatas dos EUA abandonassem o país no prazo de 72 horas. (O Expresso seguiu em direto os acontecimentos, acompanhe aqui o desenrolar da situação) Desde ontem, a Venezuela tem dois presidentes. O insurgente Guaidó foi prontamente apoiado por Donald Trump. Em Washington um responsável da administração Trump, avisou que os EUA iriam impor sanções económicas à Venezuela caso Maduro, o presidente contestado, usasse a força contra os seus opositores não deixando de fora a possibilidade de uma intervenção militar. O “New York Times acrescenta ainda que Mike Pompeo, o Secretário de Estados, assumiu que “os EUA trabalhariam de perto com o legitimamente eleito Presidente da Assembleia Nacional de modo a facilitar a transição da Venezuela para a democracia e o estado de direito” Seguiu-se o apoio do Canadá e de quase todos os países da América Latina, com vários Chefes de Estado a anunciar o seu apoio via Twitter: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Panamá, Paraguai, Perú, Equador e a Guatemala reconheceram Guaidó enquanto Presidente. De fora ficaram o México e a Bolívia, estando também ao lado de Maduro Cuba, Nicarágua e a Rússia. No mesmo sentido foram as reações de Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu (também no Twitter), e Federica Mogherini, chefe da diplomacia da União Europeia que disse “apoiar plenamente “a Assembleia Nacional da Venezuela. No mesmo sentido, Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, assumiu, em declarações à Lusa, que “o tempo de Maduro acabou”. Na Venezuela residem cerca de 400 mil portugueses mas estima-se que os luso-descendentes possam triplicar esse número. Muitos regressaram nos últimos meses, mais de cinco mil à ilha da Madeira, quando deixou de haver comida, medicamentos e a inflação chegou aos 1 000 000 por cento em 2018, um valor similar ao da Alemanha em 1923. Segundo o FMI, o PIB terá caído, nos últimos doze meses, 18 por cento, sendo este o terceiro ano consecutivo em que a descida do Produto Interno Bruto é de dois dígitos. O número de venezuelanos de saída, nos últimos anos, chega aos três milhões (dados do Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas) e as mortes devidas à crise estão na ordem das dezenas de milhar (dados do Observatório Venezuelano de Violência). Ontem, nas ruas de Caracas e das principais cidades venezuelanas, confrontos entre manifestantes e com as forças da ordem terão provocado sete mortos. Como conta Daniel Lozano, o correspondente do Expresso na Venezuela, o país está exausto mas os próximos dias não serão certamente de paz. Juan Guaidó promete “eleições livres”.
OUTRAS NOTÍCIAS Sporting na final da Taça da Liga. O Sporting precisou de ir até às grandes penalidades para vencer a meia final da Taça da Liga contra o Sporting de Braga. Renan, o seu guarda-redes, defendeu três penáltis. Vai encontrar, sábado, na final, o FC Porto. Na Tribuna está tudo sobre um jogo em que o árbitro e o VARvoltaram a ser muito criticados pelo presidente e treinador da equipa derrotada. Sete créditos da CGD dados como totalmente perdidos. O relatório preliminar da auditoria da EY aponta imparidades de 100% do valor em dívida em relação a sete devedores, segundo o Expresso Diário: Investifino, Júpiter SGPS, Always Special, Soil SGPS, Fundação Horácio Roque, FDO e Fercal. O “Público” nota, na edição de hoje, que Santos Ferreira, um dos presidentes do banco público mais visados no relatório, foi chefe de grande parte dos mais altos quadros que atualmente se encontram no Banco de Portugal, BCP, Novo Banco e na própria CGD. Já Teresa Leal Coelho, a deputada que preside à Comissão de Finanças, assegura que esta versão preliminar do relatório que foi conhecida é “diferente” da final. Durante 20 horas não existiram rondas em Tancos. O responsável pela segurança dos paióis, coronel João Paulo Almeida, admitiu ontem na Comissão Parlamentar que não existiu vigilância durante aquele período de tempo. O deputado Jorge Machado questionou-se: “como é possível que as punições tenham ficado pelo sargento e pela praça”. Marcelo quer manter condecorações de Ronaldo. O PR está a averiguar a possibilidade de CR7 não ser obrigado a devolver as altas condecorações com que foi agraciado pelo Estado português depois de ter sido condenado em Espanha por fraude fiscal. Cristiano Ronaldo foi condecorado em 2014 por Cavaco Silva com a Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. E em 2016 por Marcelo Rebelo de Sousa com a Grã Cruz da Ordem de Mérito. De acordo com a lei, o cidadão perde automaticamente os títulos após condenado a mais de três anos. Vistos Gold na mira da Comissão Europeia. A comissária europeia com a pasta da Justiça, Consumidores e Igualdade de Género considera injusto que a cidadania seja atribuída mais facilmente a quem tem dinheiro do que a alguém que está integrado num determinado país. No caso português e dos Vistos Gold de residência, defende que deve haver transparência e ligações genuínas da pessoa em causa ao país. Věra Jourová exige mais transparência. Macron em presidência aberta. O Presidente de França reuniu-se com 600 autarcas do sul do país e discursou, sem notas, durante horas a fio abordando temas como a saúde pública e a habitação. As sondagens refletem uma subida da popularidade de Macron enquanto os distúrbios dos coletes amarelos vão diminuindo. Anti-globalização em Davos. Numa intervenção por vídeo, o Secretário de Estados dos EUA associou a administração Trump ao Brexit e ao governo de Itália, segundo um certo “padrão de disrupção”. Giuseppe Conte, primeiro-ministro de Itália, gostou e repetiu. Angela Merkel defendeu as democracias liberais o multilateralismo. Realizador de filme dos Queen acusado de abuso sexual de menores. Um dos filmes que revitalizou o musical enquanto género dilecto de Hollywood tem o seu realizador sob suspeita. Bryan Singer, o realizador de "Bohemian Rhapsody", é acusado de abuso sexual por quatro homens. As situações na base destas alegações surgem descritas na “The Atlantic”, resultado de uma investigação levada a cabo ao longo de doze meses pela revista norte-americana. FRASES “Tivemos de encontrar uma nova identidade para os Xutos”. Entrevista do grupo português que celebra 40 anos, ao “DN” “O PT foi o único partido a sair desta eleição de pé. Machucado, mas de pé”. Fernando Haddad, ex-candidato a Presidente do Brasil pelo PT, em entrevista ao jornal “i” “O que me preocupa é ouvir um presidente criticar um árbitro e vê-lo pedir dispensa”. Frederico Varandas, presidente do Sporting, após os jogos das meias-finais da Taça da Liga “A inovação é a única arma para criar mais empregos”. Carlos Moedas, comissário europeu, em entrevista ao “Jornal de Negócios” O QUE ANDO A LER A gastronomia, está bom de ver, é um ato de cultura. Para Nuno Diniz, cozinheiro, gastrónomo, professor, antigo parceiro de António Sérgio nas ondas da rádio e agitador, é ainda amais do que isso. É economia e, sobretudo, política. Radical. O livro que acaba de publicar, “Entre Ventos e Fumos”(Bertrand Editora), codifica os fumeiros e enchidos de Portugal como nunca havia sido feito. Nos tempos mais recentes, só Edgardo Pacheco com “Os 100 Melhores Azeites de Portugal” havia tentado algo semelhante capaz de ombrear com a obra magna de Maria de Lourdes Modesto, “Cozinha Tradicional Portuguesa”, onde se encontra codificado o receituário português. Mas o livro de Nuno Diniz que agora chega aos escapares é radical porque, além de publicar informação preciosa sobre os mais recônditos enchidos do país, dá início a uma batalha contra o segredo provinciano costume nestas ocasiões: em cada entrada são revelados sempre que possível os contactos dos produtores - pequenos e nada industrializados - de chouriços, farinheiras, morcelas, alheiras, maranhos, cacholeiras, paios, buchose outros que tais, pouco ou nada conhecidos. Mas é essencialmente radical por ser um grito contra a industrialização e, muito claramente, contra o capitalismo, mas também em firme oposição ao vegetarianismo e a todas as práticas que desvirtuam um mundo que se ainda não desapareceu está à beira disso mesmo. Qual Giacometti dos fumeiros de Portugal, Nuno Diniz pugna pela utopia de um mundo que só existe devido ao isolamento e, nalguns casos, a condições de vida muito difíceis senão mesmo miseráveis; mas onde resiste uma ancestralidade fundada no mais profundo dos humanismos. Logo a abrir, uma escorreita e detalhada descrição do que é uma matança do porco dá o tiro de partida. No caso, a facada. Obrigatório para quem quiser entender o que é algo tão primitivo ou sofisticado como a alimentação. Tenha boas refeições. Siga toda a informação atualizada em permanência no Expresso online, na BLITZTribuna e Vida Extra.

A nomeação

(José Gabriel, 23/01/2019)

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(Portugal, e Camões mereciam melhor sorte, não sendo entregues a um charlatão, a um caluniador direitola sem qualquer currículo digno de louvor. Mas, para Marcelo, este é o tipo de escriba que o país precisa e deve ser destacado.

Mais uma vergonhosa mancha no percurso do “selfie made man”. Já não chegava o beija-mão ao Bolsonaro, agora acrescenta uma vénia a este sacripanta. A Estátua aposta que, não tarda muito,  Marcelo ainda vai tirar uma selfie com o André Ventura, senão mesmo com o Mário Machado.

Comentário da Estátua, 24/01/2019)


Então Marcelo Rebelo de Sousa nomeou João Miguel Tavares para presidir às comemorações do 10 de Junho (Ver notícia aqui).

Acidentalmente, ao tentar confirmar esta notícia – na qual não queria acreditar – topei com o sorridente agraciado ao lado de Rui Ramos, historiador (à sua muito particular maneira). Pensei que, com o popular Emplastro ao lado estaria completa uma boa equipa. Depois, com algum embaraço, admito, achei que estava a ser injusto para este último o qual, para lá das suas obsessivas aparições televisivas, nunca fez mal a ninguém. Marcelo, com esta nomeação, leva a cabo o seu propósito de não deixar vazios espaços que o populismo possa preencher. Ele, – e os seus amigos -, tratam disso. Preenchem que se fartam.

O Dia de Camões tem sido presidido por ilustres figuras. Nem sempre consensuais, mas todas com inquestionáveis habilitações – designadamente académicas. Todos nos lembramos de Jorge de Sena, João Caraça, Sobrinho Simões, Onésimo Almeida e outros.

Finalmente – e, quiçá, pela primeira vez – as comemorações serão presididas por alguém que poderá não fazer ideia de quem são e o que fazem ou fizeram estes seus antecessores.

É o triunfo do comentadorismo rasca, do lixo televisivo e jornalístico! Parece que a intenção de Marcelo é trazer para a ordem do dia os problemas da comunicação social. A escolha de João Miguel Tavares evidencia o que o presidente dela espera.

Aguardamos agora, com natural ansiedade, dados sobre quem se encarregará da animação cultural. Quim Barreiros, Tony Carreira ou o Avô Cantigas? E, espero, nas artes plásticas não serão esquecidos os trabalhos em cerâmica produzidos nas Caldas da Rainha. É preciso manter o nível!

Adenda (com o perdão do nosso Luís Vaz…):

Busque Marcelo novas artes, novo engenho,
para lixar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

10 de Junho? Vai ser assim

Marcelo a exceder todas as nossas possíveis expectativas. E fica aqui um recorte da página da Presidência para não se pensar que é Imprensa Falsa ou notícia do Inimigo Público.
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Leia original aqui

Exigida reabertura dos CTT de Xabregas

A 24 de Dezembro, na véspera de Natal, a Estação dos Correios de Xabregas foi encerrada e a freguesia do Beato perdeu aquele serviço público. Na Assembleia Municipal de Lisboa exige-se a sua reposição.

Os CTT, uma empresa pública rentável para as contas do Estado, foram privatizados em 2013 e 2014 pelo governo do PSD e CDS-PP.Créditos

A Assembleia Municipal (AM) de Lisboa aprovou esta semana, em sessão plenária, uma proposta exigindo a reposição da estação dos correios de Xabregas e manifestando o seu apoio à população e aos comerciantes do Beato em todas as acções que acharem por bem desenvolver no sentido da recuperação da Estação dos Correios de Xabregas, no seu actual local.

A Estação de Correios de Xabregas, a única existente na Freguesia do Beato, foi encerrada pela Administração dos CTT, sem qualquer aviso prévio, a 24 de Dezembro de 2018, aproveitando a quadra natalícia.

O encerramento contribui para a degradação dos serviços de interesse público nesta freguesia de Lisboa, prejudicando uma população maioritariamente idosa e o pequeno comércio local.

A notícia, em 2017, da possibilidade de desaparecimento da Estação de Correios de Xabregas levara moradores e comerciantes da Freguesia do Beato a recolher e entregar um abaixo-assinado com mais de 800 assinaturas contra o encerramento da estação e exigindo a melhoria do serviço prestado à população. A data escolhida, a ausência de aviso prévio e a falta de resposta àquele abaixo-assinado configuram o desinteresse da Administração dos CTT pelo interesse público.

Controlo público sobre os CTT com oposição ideológica da direita

A proposta, que esteve em discussão em sessão plenária da AM, partiu dos eleitos do PCP e foi aprovada por esmagadora maioria, contando apenas com a oposição do PSD. Outros pontos da proposta foram aprovados por unanimidade, nomeadamente a solicitação à Câmara Municipal de Lisboa de uma posição pública e firme em defesa da reposição da Estação dos Correios de Xabregas, e a exigência de de uma também firme intervenção da ANACOM relativamente a mais este atropelo por parte da Administração dos CTT.

Já a exigência de que o Governo trave a contínua destruição dos CTT, dando início a um processo de recuperação de controlo público desta empresa, foi aprovada por maioria mas com os votos contra do CDS, MPT e PPM, e a abstenção do PSD, revelando que a direita continua, por motivos ideológicos, cega à quebra de serviço verificada com a privatização do serviço público de correios e à necessidade de recuperação do controlo público sobre os CTT.

Entre 2009 e 2016, e com o processo de privatização da empresa, encerraram de 564 estações e postos dos CTT, números que continuaram a aumentar ao longo de 2017/2018, privando as populações de um serviço de proximidade.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/exigida-reabertura-dos-ctt-de-xabregas

Uma investigação mal feita sobre o PCP não é anticomunismo, é mau jornalismo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/01/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

Uma autarquia dirigida pelo PCP pode contratar os serviços do genro do secretário-geral do partido? Qual é a fronteira entre o nepotismo e o direito de familiares de políticos manterem relações com instituições públicas? O genro de um primeiro-ministro não se pode relacionar com o Estado? E o do Presidente da República? Tendo em conta que a CDU não dirige assim tantas câmaras e que Jorge Bernardino não parece, pelo seu currículo, ser um fornecedor incontornável, talvez o bom senso mandasse que não se candidatasse a trabalhar com uma autarquia dirigida pelo partido que o sogro lidera. E se ele próprio for militante do PCP, a cautela deveria ser ainda maior. Se não for pela defesa da imagem do Estado, que seja para não prejudicar o seu partido.

Ainda assim, é bom ser rigoroso. Antes de tudo, a comparação que o PS local fez com uma velha acusação ao seu mandato em Loures é, para dizer o mínimo, forçada. Uma autarquia ter negócios com um familiar de um dirigente do partido que tem a presidência da câmara, quando esse dirigente nem sequer tem qualquer função nessa entidade pública, não é a mesma coisa que um presidente da câmara contratar a mulher, a filha, dois cunhados e a nora. Haja um bocadinho de decoro.

Também seria importante a TVI ter algumas informações importantes que, na realidade, fragilizam a relevância da história. Que Jorge Bernardino foi escolhido depois de uma consulta prévia a mais duas empresas, como a lei exige, tendo sido ele quem apresentou os preços mais baixos. Que aquilo que na peça é resumido a mudar umas lâmpadas, uns casquilhos e uns cartazes corresponde a garantir a manutenção permanente de 438 abrigos de paragem, incluindo a substituição de publicidade institucional. Não é pago à peça. Que recebe pelos 438 abrigos menos do que outra empresa recebia por 271 (quando Jorge Bernardino apenas garantia a manutenção de 153). Que o aumento do valor pago a Jorge Bernardino, apresentado como suspeito, resulta desta passagem de 153 para 438 abrigos. E, acima de tudo, que não estamos a falar de um salário ou de uma avença para um biscateiro mas da contratação de um serviço externo, o que inclui todas as despesas associadas e não apenas a mão de obra. A comparação com o salário do presidente da câmara é idiota. A ninguém passaria pela cabeça comparar o salário do primeiro-ministro com o que o Estado paga a um fornecedor pelos seus serviços.

Descontado o que a peça da TVI não nos quis contar, que esvaziaria parte do assunto, e parecendo que todos os procedimentos legais foram cumpridos, restava o incómodo ético de um familiar do líder de um partido manter relações comerciais com uma câmara dirigida por esse partido. Cada um decidirá até onde leva os seus pruridos, mas seguramente isto não permite o escândalo que se instalou. Pelo menos não me lembro de igual reação perante as relações que o genro do ex-Presidente Cavaco Silva foi mantendo com o Estado, seguramente bem mais relevantes (nos valores e no impacto) do que a manutenção de uns abrigos.

A melhor forma de combater a mentira (ou a meia-verdade) é a verdade. Foi o que fez o comunicado da Câmara Municipal de Loures. A pior forma é apelar a uma excecionalidade vitimizadora para cerrar fileiras, sem gastar uma linha a esclarecer os factos. Foi o que fez o PCP. Esteve bem Bernardino Soares, esteve mal o PCP, esteve péssima a TVI

Sendo altamente improvável que o presidente da câmara não tenha dado todos estes esclarecimentos ao jornalista (eles estão no site da autarquia), fica a dúvida: porque ficámos sem saber estes “pormenores” sobre a relação contratual entre o genro de Jerónimo de Sousa e a Câmara Municipal de Loures? Porque se eles tivessem sido apresentados a coisa não se ia vender tão bem. E este é um dos problemas do jornalismo mercantilizado: quanto melhor for o produto menor o seu valor comercial.

Dito tudo isto, a reação do PCP não podia ter sido pior. Em vez de remeter para os esclarecimentos da Câmara de Loures, que me parecem rigorosos, preferiu antecipar-se e vir com a velha acusação de “anticomunismo”, num comunicado carregado de adjetivos, onde até o combate ao fascismo vem à baila, banalizando-o da pior forma. Infelizmente, esta reação não é nova. Já aconteceu em circunstâncias em que o PCP não tinha razão. Ela não resulta apenas do sentimento momentâneo de injustiça (que outros partidos já sofreram), mas da ideia instalada na Soeiro Pereira Gomes de que pôr em causa a seriedade de um comunista é um crime de lesa-majestade.

O PCP está tão sujeito ao escrutínio democrático como qualquer outro partido. Não goza de maior presunção de inocência que todos os outros, nem tem de ser visto como se fosse tributário de algum tipo de superioridade moral. Os dirigentes do PCP são tão honestos e tão desonestos como os de qualquer outro partido. Quem conhece as autarquias dirigidas pelo PCP sabe que lá pode encontrar tantos casos de favorecimentos e irregularidades como em qualquer outro lado. Assim sendo, o PCP não tem de reagir a notícias que considera injustas como se elas tivessem uma natureza diferente de qualquer outra investigação pouco rigorosa. Não há qualquer razão para imensas notícias mal feitas sobre o PS, o PSD, o CDS ou o BE serem apenas mau jornalismo e uma notícia injusta sobre o PCP ser anticomunista feito “a par da conhecida promoção da extrema-direita e da reabilitação de Salazar e do regime fascista”. E a vitimização é absurda. Na realidade, pela discrição pública que mantêm e o mito de que são mais sérios do que os outros, os autarcas e dirigentes do PCP até são menos escrutinados do que os dos outros partidos.

A melhor forma de combater a mentira (ou a meia-verdade) é a verdade. Foi o que fez o comunicado da Câmara Municipal de Loures. A pior é apelar a uma excecionalidade vitimizadora para cerrar fileiras, sem gastar uma linha a esclarecer os factos relevantes. Foi o que fez o PCP. É uma falta de respeito pelos seus eleitores. Como se a expressão “anticomunismo” chegasse para que não haja mais perguntas. Esteve bem Bernardino Soares, esteve mal o PCP, esteve péssima a TVI.


NOTA: Sim, tenciono escrever sobre o que aconteceu no Bairro da Jamaica e na Avenida da Liberdade. Não, não o tenciono fazer sem perceber o que realmente aconteceu num e noutro lado. E comunicados da PSP não me chegam – não acredito no jornalismo oficioso. Um vídeo viral também não. Não, não parto do princípio de que a população do bairro teve razão. Não, também não parto do princípio de que a polícia agiu bem. E não, não acho que este debate, para ser mais do que uma crónica sobre um episódio, possa passar ao lado do que é o Bairro da Jamaica e porque é que ele existe num país do primeiro mundo. Nunca me colocarei no lugar do burguês assustado com a invasão dos bárbaros. Que ignora a revolta para exigir o sossego que quem vive no Jamaica nunca teve. Mesmo que eu seja um burguês e até me assuste às vezes. Porque ver os invisíveis que se amontoam em lugares por onde nem sequer alguma vez passámos é o dever de quem quer ser justo. Para os ver não precisamos de dividir o mundo entre bons e maus. Basta desejar mais do que a popularidade fácil. Por isso, cheira-me que esse texto vai esperar pelo fim de semana.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Presidente da RTP só confirma integração de 130 trabalhadores

O presidente da RTP afirmou esta quarta-feira aos deputados da Assembleia da República que só 130 trabalhadores, entre quase 400, serão integrados pelo programa de regularização de vínculos precários.

Trabalhadores da RTP em dia de greve exigem integração nos quadros da empresa. 5 de Novembro de 2018CréditosNUNO FOX / LUSA

As declarações de Gonçalo Reis surgiram esta manhã, no âmbito da Comissão de Trabalho e Segurança Social, a pedido do BE, a propósito da situação dos trabalhadores com vínculos precários na RTP.

O presidente da estação pública garantiu aos deputados que os cerca de 130 trabalhadores, cujos processos foram homologados no âmbito do​​​​ Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP), «estão a ser integrados» até ao final deste mês.

Gonçalo Reis rejubilou-se ainda ao afirmar que «a RTP está na linha da frente das empresas públicas em termos de integração». Todavia, as declarações do presidente da RTP mereceram fortes critícas por parte da deputada Diana Ferreira (PCP).

«É evidente que os trabalhadores que tiveram parecer negativo, em bloco, (...) correspondem a necessidades permanentes. O que é um facto é que a RTP não funcionava sem estes trabalhadores, não há emissão na rádio nem na televisão. Os postos de trabalho estão lá e têm de ser ocupados com um vínculo efectivo», reiterou a Diana Ferreira.

Segundo a deputada, o «PCP não se contenta com a abordagem às percentagens de que a RTP não está fora de médias europeias», tendo reiterado que a RTP não pode, nem deve «ter um único trabalhador com vínculo precário», até porque «a valorização do serviço público passa também pela valorização dos trabalhadores e profissionais que ocupam diariamente estas funções».

Nos últimos meses, os trabalhadores com vínculos precários da RTP em Lisboa e no Porto realizaram várias acções de protesto contra o facto de apenas 130 trabalhadores terem tido luz verde, num universo de quase 400 inscritos no âmbito do PREVPAP.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/presidente-da-rtp-so-confirma-integracao-de-130-trabalhadores

Desacatos, imigração e direita

Atenção, cidadãos. Os órgãos de comunicação social portuguesa parecem querer arranjar rapidamente um caso semelhante aos vividos em países europeus onde a extrema-direita surge impante. E nem é preciso ver isso num programa televisivo de informação - como foi o caso do programa SOS TVI - em que o pivotapresenta um  líder convidado como Mário Machado dizendo algo como: "Dizem que a extrema-direita é xenófoba, racista e violenta. O que tem a responder a essas pessoas?"O convidado rebate a ideia, mas finaliza dizendo - sem que o pivotconteste - que, quando esteve na cadeia, quem lá estava em maioria era a raça negra e que isso se deve talvez porque "essa raça tem um problema com o crime".  Nem é preciso ir tão longe. Face aos "desacatos" - palavra muito repetida pelos jornalistas que estão a cobrir o que se passou nos últimos dias no bairro Jamaica, no centro da cidade de Lisboa, e esta noite em Odivelas - a Sic passou uma peça com excertos de uma entrevista ao presidente da Cáritas em que ele frisava que era preciso afastar este ambiente de criação de uma insegurança que levava a um esforço securitário porque, ao longo da História, se provou que não respondeu aos problemas. A nota de rodapé frisava: "Presidente da Cáritas diz que casos acabam por criar relutância à imigração". 

Ao arrepio desses cuidados e aproveitando os "desacatos", a sic Notícias decidiu escolher para tema de debate da manhã: 
"Estamos ou não num momento particular de tensão entre as populações mais desfavoracidas e as forças de segurança? Olhamos também para a investigação SIC, revelada ontem, sobre a falta de meios na PSP e na GNR. Parece-lhe que fica em causa a capacidade de resposta das forças de segurança? Que medidas são necessárias para fazer face às necessidades tanto da PSP como da GNR?"
A primeira senhora que falou no fórum acabou por dizer: "Eu não era racista, mas agora sou. (...) Queremos uma polícia com a devida segurança".  A pivot rematou no final: "Esta senhora quer se sentir segura e reclama mais meios para a polícia". Um condutor de meios de Loures disse: "O racismo não passa de um mito que estes senhores utilizam para se desculpar, é hábito neles usarem - julgam que são donos e senhores destes bairros e não respeitam ninguém, nem nada nem ninguém e quando as forças da ordem são chamadas por norma a intervir nestes bairros, facilmente acusam as autoridades de xonofobia, racismo, perseguição. Infelizmente, não passam de uns cobardes, escondem-se atrás de umas associações, pagas e ajudadas pelos contribuintes." A pivot: "É a opinião do António... a falar aqui dos problemas de racismo que existem no país". A palavra passa para a Fátima em Genebra, que é porteira. A sua opinião é contra os políticos que "desrespeitam a polícia que combate os bandidos". Outro cidadão disse: "Esses senhores da raça negra é que são racistas. Cometem o crime e depois culpam a polícia de certas situações". A pivot: "Vivemos de facto tempos específicos. Estamos num momento particular da discussão... Mas os números dizem que Portugal é um país seguro. Como se justifica? (...) O racismo é o principal problema da polícia?" Mas o porta-voz da PSP, convidado e presente em estúdio, não se demarcou suficientemente. Frisou que na maioria das vezes, a PSP "é confrontada com situações que nada têm a ver com racismo". Palavras que, mesmo sem o desejar e porque não contestou as intervenções do fórum, acabaram por encaixar com o racismo demonstrado pelos cidadãos: "A PSP não é uma instituição racista (..) mas muitas vezes somos conotados com racismo quando intervimos (...)é uma capa, uma desculpa, para desvalorizar aquilo que é uma actuação da polícia". 
 
E a pivotmais nada disse. Pôs ponto final ao programa.  Há uma frase irónica que diz: "Errar é humano, repetir o erro é jornalismo". Mas esta ideia diz pouco sobre os mecanismos comportamentais dos jornalistas que os levam a insistir no erro. Por que razão, os jornalistas insistem em criar um ambiente de tensão entre "as populações mais desfavorecidas e as forças de segurança"? Primeiro, poder-se-ia frisar as palavras usadas e o posto de visão em que o jornalista se coloca. O termo "classes mais desfavorecidas" pressupõe que o jornalista se coloca acima delas, e é verdade: Quem está à frente das câmaras, geralmente já não sabe o que é ser desfavorecido. E já nem se está a falar da palavra favorecidaque merecia todo um comentário.
Segundo, parece correr o pensamento de que, mais tarde ou mais cedo, a extrema-direita será dominante na Europa e que, por isso, o mesmo acontecerá em Portugal. E isso é notícia ou vai ser. E tudo o que possa cheirar a isso entronca no que vai ser notícia e torna-se notícia já hoje. Um movimento como os coletes amarelos foi promovido pelas televisões, com uma certa ajuda da PSP, apesar de ter sido um fracasso.
Terceiro, existe o fenómeno de mimetismo:se todos fazem, eu vou fazer o mesmo, porque se não o fizer, o espectador muda para o concorrente.
Quarto, sabe-se lá se os jornalistas não pensem mesmo que algo como a extrema-direita - anti-política, autoritária e anti-comunista - seja necessária em Portugal. Tudo isto faz esperar o pior. Resta saber qual vai ser a força política que, aos olhos das televisões, assumirá essa forma.
  

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O TESTE DOS OITOCENTOS FUNCIONÁRIOS QUE NÃO RECEBEM SALÁRIO

A notícia é de hoje já tem algumas horas, a sua origem é indisputável, a agência Lusa, e o tópico são as iniciativas desencadeadas por alguns congressistas norte-americanos para desbloquear o impasse que por lá se verifica desde há um mês. Ah, e a notícia contém uma gralha óbvia bem logo no início do texto, quando refere a existência de 800 funcionários públicos que não estão a receber salários... Num país com mais de trezentos milhões de habitantes tal pormenor dificilmente seria relevante. O número correcto, porém, aliás repetido exaustivamente ao longo deste último mês, são oitocentos milos funcionários que não têm recebido os seus ordenados. Pois bem, tente-se descobrir, pela amostra abaixo, quantas publicações não se deram ao incómodo de rever minimamente a notícia que haviam recebido da Lusa e o publicaram, com gralha e tudo...
Atendendo à hora a que este poste está a ser redigido (11H00 da manhã), deito-me a imaginar quantos se disporiam a tolerar um bolo de arroz amaçarocado ou uma bola de Berlim de creme azedo a acompanhar o café que a esta hora tanta falta faz. Mesmo que aquele bolo não se revista da importância de ser o momento gastronómico do dia, convinha que, ao menos, estivesse em condições. Não será caso para reclamar com o dono da pastelaria, para que ele reclamasse com o fornecedor, senão éramos nós que mudávamos de pastelaria? Mas, então, porque é que parece rebuscado fazer-se com a informação aquilo que não o parece quando feito a propósito de bolos de pastelaria?...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/o-teste-dos-oitocentos-funcionarios-que.html

A Plataforma NÓNIO e o "nó górdio"

Segundo reza a wikipédia o nó górdio é uma lenda. É comumente usada como metáfora e eu recorro a ela para afirmar que a NÓNIO é o nó górdio da liberdade de imprensa. Ou dito de outra forma, aliás já por mim escrita, cinco grupos, Global Media, Público, Media Capital, Renascença, Impresa e Cofina, podem passar a fornecer-lhe conteúdos personalizados. Talvez não ao seu gosto, mas certamente ao gosto daquilo que deverá passar a gostar.
 
De facto, TVI e SIC (que integram a Plataforma NÓNIO) deixam a léguas de distância quase todos os outros canais. Juntos somam mais de 16 milhões de visitas às sua páginas da net... e é sabido que a net é uma extensão dos canais de televisão...

Em meu juízo, ninguém desata isto! E a próxima Assembleia da República terá, em Outubro, a composição que a NÓNIO quiser...
Fonte: Grupo MARKTEST

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

AQUILO QUE LHES INTERESSA «CHECKAR»

Começo por avisar que esta notícia abaixo, com a pretensa checkagem dos resultados da execução orçamental portuguesa é uma montagem: escusam de a ir procurar ao Observador porque a notícia não está lá. Mas atenção: a primeira parte da notícia, os resultados da execução orçamental, são mesmos verdadeiros, o que eu forjei foi esta pretensa iniciativa daquele mesmo jornal em checkar o apuramento de contas feito pelo Eurostat. A habilidade da utilização destas rúbricas de fact check para fins políticos consiste precisamente no critério com que se elegem os factos a serem checkados. E este caso não presta para o Observador: não só a confirmação (muito provável) da sua veracidade representaria um bónus ao governo, como o carácter neutro do seu autor (o Eurostat) nem sequer lhes permitiria inseminar a dúvida quanto à objectividade de quem fez as contas. A ironia da situação é que o trimestre em questão parece ter sido atípico - já o diziam as conclusões apresentadas a semana passada pelo Conselho das Finanças Públicas. E nesse âmbito e por causa disso, faria todo o sentido checkarem-se os factos do que terá acontecido/estará a acontecer. Mas como qualquer conclusão a que se chegasse nunca afectaria negativamente a imagem governamental, não será coisacom que o Observador perca tempo. Sim, porque se a preocupação aparente do jornal é com os factos, o que ele quer concluir com os factos tem sido sempre de natureza política, não tem nada a ver com o que lhe está associado, neste caso, finanças públicas.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/aquilo-que-lhes-interessa-checkar.html

Eles pulam e avançam

(Pode-se ler numa página do 'Observador', órgão de comunicação criado pela direita económico-política, para promover o neoliberalismo e... O salazarismo!!)
Estes discursos estão a ir mais longe, e mais depressa, do que talvez suspeitássemos..
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Leia original aqui

Censura | Facebook removeu mais de 500 perfis ligados à Rússia

Sputnik qualifica como censura a remoção de suas contas no Facebook
As ações do Facebook, que removeu mais de 500 perfis ligados à Rússia, incluindo sete contas da agência Sputnik, têm motivos políticos e, de fato, correspondem à censura, informou a assessoria de imprensa da agência.
A assessoria de empresa informou que foram também bloqueadas sete páginas das redações da Sputnik nos países vizinhos da Rússia e considera tais ações “claramente políticas” e "de censura".
"As redações da Sputnik se dedicam às notícias, e fazem isso bem. E se o bloqueio é a única reação do Facebook ao trabalho de qualidade da mídia, não temos perguntas – tudo é evidente. Mas há a esperança de que o bom senso vença, leia a Sputnik", comentou a assessoria de imprensa.
Na quinta-feira (17), Nathaniel Gleicher, diretor do departamento de política de segurança cibernética do Facebook, informou que a empresa “removeu 364 páginas do Facebook envolvidas na coordenação do comportamento inautêntico como parte de uma rede que se originou na Rússia e opera nos países Bálticos, Ásia Central, Cáucaso, Europa Central e do Leste”.
Além disso, a empresa removeu 107 páginas no Facebook e 41 contas no Instagram, porque “os indivíduos por trás dessas contas se passaram primeiramente por ucranianos e operaram uma série de contas falsas para divulgação notícias de tópicos diversos, tais como previsão do tempo, protestos, OTAN e condições sanitárias nas escolas”. Segundo a declaração da empresa essas contas também estão ligadas à Rússia.
A conta da Sputnik Brasil no Facebook não funciona desde 14 de dezembro.
Sputnik

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/censura-facebook-removeu-mais-de-500.html

O que fazem juntos os principais grupos de media de Portugal?

«NONIO é uma plataforma tecnológica única criada pelos maiores grupos de comunicação do país, para lhe oferecer conteúdos personalizados com mais segurança e qualidade. Para continuar a aceder aos mais 70 principais sites portugueses que fazem parte desta plataforma basta fazer o seu registo. Fique por dentro. Pode registar-se lá ou em qualquer um dos mais de 70 sites da plataforma.
Para fazer o seu registo vamos pedir-lhe o seu nome, e-mail, data de nascimento e género.
Esta informação vai-nos permitir oferecer-lhe conteúdos personalizados para si.»

Segundo a noticia, cinco grupos, Global Media, Público, Media Capital, Renascença, Impresa e Cofina, podem passar a fornecer-lhe conteúdos personalizados.
Talvez não ao seu gosto, mas certamente ao gosto daquilo que deverá passar a gostar. 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A verdade sobre a campanha da TVI

O AbrilAbrilpartiu da reportagem que a TVIproduziu e das informações entretanto divulgadas pela autarquia, recolheu esclarecimentos junto do seu presidente e da entidade prestadora do serviço, e juntou tudo.

Foto de arquivo.CréditosAntónio Cotrim / Agência LUSA

A propósito da peça da TVI, envolvendo o secretário geral do PCP e a Câmara Municipal de Loures (CML), o AbrilAbrilpartiu do que a TVIproduziu e das informações entretanto divulgadas pela autarquia de Loures, recolheu elementos de esclarecimento junto do presidente da Câmara e da entidade prestadora do serviço, e juntou tudo.

São factos reais:

1. A CML tem contratado empresas por ajuste directo e consulta prévia nos últimos anos para assegurar manutenção e reparação de abrigos de paragem, bem como colocação de publicidade institucional, entre outras tarefas;

2. Uma dessas entidades empresariais é a de Jorge Bernardino, empresário em nome individual;

3. Jorge Bernardino é casado com a filha de Jerónimo de Sousa.

A partir destes factos, a TVI desenvolveu um conjunto de especulações e insinuações que procurámos esclarecer. Em nenhum momento a TVI pôde afirmar a existência de qualquer ilegalidade ou irregularidade por manifestamente não ter encontrado nenhum facto, como o AbrilAbril também não conseguiu, que permitisse sugerir que isso teria acontecido.

O uso de ajuste directo em vez de concurso público

Ao contrário do que se pretende fazer crer (e será até convicção da maioria das pessoas), o ajuste directo é, não só um procedimento legalmente consagrado, como o mais utilizado quer pelas autarquias locais quer por outras instituições públicas. Não é um recurso excepcional apenas para matérias urgentes. É o procedimento previsto no Código dos Contratos Públicos para a contratação de serviços até 75 mil euros e de empreitadas de obra até 150 mil euros nos seguintes termos:

«A escolha dos procedimentos de ajuste directo, de consulta prévia, de concurso público ou de concurso limitado por prévia qualificação deve ser feita tendo por base o valor do contrato a celebrar.»

Sem ajustes directos nenhuma instituição pública poderia funcionar, porque os processos de concursos públicos demoram, em regra, entre quatro a seis meses até um ano e meio, e por isso são exigíveis apenas para montantes contratuais mais elevados. A título de exemplo, e de acordo com a informação de um responsável da autarquia, de Janeiro a Setembro de 2018, a CML, na sua área de aquisição de bens e serviços (excluindo obras) realizou 183 contratos por ajuste directo e 1508 compras por ajuste directo em regime simplificado (abaixo de 5 mil euros).

O ajuste directo não é uma forma nem excepcional nem menos transparente de contratar. Tem exigências legais e de transparência e limites de contratação por contrato e por entidade. É apenas mais simples do que um concurso público.

As empresas e entidades a contratar são, em todas as autarquias, propostas pelos serviços municipais e sendo os procedimentos aprovados pela administração da Câmara. Não há em Loures, neste caso ou noutros, pressão da administração para esta ou aquela contratação. A sugestão de que poderia haver conivência dos serviços com qualquer procedimento menos claro «sugerido» pela administração é desmentida pelo facto, que é do conhecimento público, de que a divisão e o departamento da Câmara responsáveis por esta área têm os mesmos dirigentes que a CDU encontrou quando tomou posse em 2013, tendo sido, portanto nomeados inicialmente pelo executivo anterior.

Os contratos com Jorge Bernardino

A contratação desta prestação de serviços corresponde obviamente a uma necessidade do Município, por não dispor de meios próprios para efectuar este trabalho.

Os cinco primeiros contratos, para tratamento de 153 abrigos, foram feitos por ajuste directo, sendo que em três deles foram consultadas outras duas empresas, apesar de isso não ser obrigatório. Nos dois últimos destes cinco foi proposta pelos serviços consulta à mesma empresa, por necessidade de continuidade imediata do trabalho e no respeito pelos critérios e limites legais.

A par destes existiram contratos com outras empresas para os restantes abrigos da CML, como a própria Câmara já divulgou.

O último contrato foi adjudicado pelo procedimento de consulta prévia a três empresas, que só existe na lei desde 1 de Janeiro de 2018, razão porque antes não foi utilizado. Neste processo, adjudicado pelo preço mais baixo, e com a duração de quatro meses, não há registo de qualquer contestação das outras empresas consultadas.

A evolução do valor dos contratos

Os cinco contratos de ajuste directo anteriores (desde 2015) tiveram preços que oscilaram entre cerca de 14 mil e cerca de 21 mil euros, sendo contratos com diferentes durações (entre 120 e 180 dias). Todos versavam sobre um universo de 153 abrigos, com as tarefas que abaixo se referem.

Conforme explica a nota divulgada pela CML, a passagem para 64 mil euros no último contrato deve-se ao facto de este ter vindo substituir dois contratos anteriores: um, já referido, com Jorge Bernardino, para 153 abrigos, no valor de 21 510 euros; e outro, com uma outra empresa, a Cabena, para 271 abrigos, no valor de 74 892,50 euros.

No total custavam cerca de 96 mil euros para cinco meses, enquanto o contrato que os substituiu custou 64 mil euros para quatro meses (cerca de 30 mil euros para manutenção correctiva, que acabaram por não ser utilizados como adiante se refere, e o restante – 34 mil euros - para o resto das tarefas correntes a desempenhar).

Com esta agregação, a CML obteve uma poupança de cerca de 15%; aliás a comparação dos dois contratos anteriores evidencia que o preço cobrado pela outra empresa era, sensivelmente, o dobro por cada abrigo, ou seja, muito menos vantajoso para a CML.

A peça da TVIomite deliberadamente que o aumento do valor do contrato está diretamente ligado ao número de abrigos abrangidos – antes 153 e depois 438, dispersos por todo o concelho de Loures.

A questão do tipo de entidade empresarial

A peça procura cimentar a ideia de que se tratou de uma «contratação individual» e não de uma entidade empresarial, procurando com a fulanização aproximar-se da ideia do favorecimento pessoal. Há várias formas empresariais previstas na legislação, sendo duas delas a de empresário em nome individual e a de empresa unipessoal. Sendo diferentes, sobre elas não há qualquer diferença de tratamento pelas regras da contratação pública. O factor determinante é a actividade económica, não a forma jurídica.

A ideia da contratação individual é desmentida pelo facto de o empresário em nome individual Jorge Bernardino ter contratado dois trabalhadores para participar no desempenho das tarefas previstas no contrato.

Jorge Bernardino ganhou 11 mil euros por mês?

O que se pode concluir é que não. A parte efectivamente paga do valor do contrato (excluindo a manutenção correctiva que correspondia a cerca de 30 mil euros, a qual só seria paga se fossem realizadas reparações estruturais dos abrigos no decurso do contrato, que não existiram), dividida pelos quatro meses da sua duração, corresponde efectivamente a um valor de cerca de 8500 euros por mês.

Este valor tem de suportar todos os custos com materiais (designadamente o material eléctrico de substituição, água e materiais de limpeza, entre outros), ferramentas, viaturas e respectivo combustível, seguros, impostos e contribuições para a Segurança Social, vencimentos dos trabalhadores e, naturalmente, também a remuneração do próprio.

A TVIprocura dar a entender que este valor mensal é excessivo quando o valor de um dos contratos anteriores, com a empresa Cabena, correspondia a um valor mensal de cerca de 15 mil euros para 271 abrigos (menos 167 abrigos e mais 6 500 euro por mês).

O trabalho efectivamente realizado – só foram mudadas lâmpadas e casquilhos?

O conjunto de tarefas a realizar no âmbito destes contratos foi efectivamente realizado e confirmado pelos serviços do município. Sem essa confirmação, que responsabiliza os técnicos que a fazem, não é possível fazer qualquer pagamento, neste ou noutro contrato de prestação de serviços. Esse é o elemento essencial e não qualquer relatório do prestador, que não é exigível à face da lei.

A referência a lâmpadas e casquilhos mudados num mês como a justificação para o recebimento de 11 mil euros, que afinal são 8 500 euros como já se referiu, omite que o trabalho implica realizar a manutenção preventiva, reparação regular, limpeza periódica, inspecção técnica – incluindo da instalação eléctrica –, manutenção correctiva e substituição de publicidade institucional de todos os 438 abrigos de paragem, dispersos por 170 quilómetros quadrados.

Nos quatro meses do contrato foram colocados centenas de cartazes «mupi», de várias campanhas de publicidade institucional, em todo o concelho.

A situação laboral anterior de Jorge Bernardino

Foi também referida uma suposta situação de desemprego de Jorge Bernardino e a sua inexperiência na área em causa para insinuar que só teria sido contratado por razões de proximidade familiar. O próprio esclareceu que tem 15 anos de experiência na área da electricidade e electromecânica.

Não estava também desempregado à altura, mas sim empregado num supermercado e, no passado mais próximo, trabalhou na área de construção e manutenção de jardins e arranjos de exteriores, e num talho.

A forma como a TVI procedeu

A TVIcontactou pela primeira vez a CML cerca de 15 dias antes da primeira emissão da peça e terá ainda convidado o presidente da CML para ir ao Jornal das 8 na passada sexta-feira… às 19h30!

Primeiro foi questionado o valor do contrato em relação a contratos anteriores com a mesma empresa. Depois disso foi sugerida a ilegitimidade de uma suposta remuneração ou salário a uma pessoa individualmente considerada, procurando confundir essa situação com a de um empresário em nome individual. Esclarecida essa questão, passou-se para a indagação sobre o cumprimento do contrato.

Para a autarquia, ficou evidente neste processo que o trabalho jornalístico tinha desde sempre uma conclusão já definida, o que se comprovou pelo sucessivo acrescentar de novas linhas de questionamento à medida que a Câmara Municipal de Loures esclarecia os anteriores. O que sempre se manteve foi a intenção de especular sobre a ligação familiar com o secretário-geral do PCP.

No decurso deste processo, o jornalista da TVI, na entrevista com o presidente da CML, colocou a questão da relação familiar do empresário com Jerónimo de Sousa, sobre a qual nunca tinha pedido qualquer esclarecimento e que revelou ser o verdadeiro tema da peça. Confrontou depois Jerónimo de Sousa com o mesmo método, o que repetiu, já no dia seguinte à primeira emissão da peça.

Tudo o que foi dito por ambos foi cortado e truncado, tendo sido omitidos dados essenciais dos esclarecimentos efetuados pela CML. Em nenhum momento se refere o número e a dispersão de abrigos – 438 espalhados por cerca de 170 quilómetros quadrados –; omite-se que a diferença de preço entre o penúltimo e o último contrato se deve ao triplicar do número de abrigos e que este foi atribuído pelo preço mais baixo; reduz-se o trabalho feito à substituição de lâmpadas e casquilhos quando o âmbito é vasto e complexo.

Os contratos profusamente exibidos pela TVI, dando a entender que estariam a ser escondidos pela CML, foram efectivamente disponibilizados pela Câmara, bem como as informações internas dos serviços comprovando a realização dos trabalhos do prestador, essas nunca referidas.

A peça em causa foi emitida na abertura do Jornal das 8, precisamente num dia em que não faltaram notícias (das verdadeiras): da convulsão interna no PSD aos desenvolvimentos em torno do Brexit, assim como a apresentação pública de João Ferreira como cabeça-de-lista da CDU ao Parlamento Europeu.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/verdade-sobre-campanha-da-tvi

Jornalismo a meia-haste

tv e telespectador
 
«Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. (…) 
Para cúmulo, esta semana a mesma TV reincide e, a propósito da defesa da qualificação como vitimas de violência doméstica de duas crianças, devassa-lhes a vida, volta a agredi-las de forma inadmissível. Revela os seus nomes e recorda-lhes as agressões que sofreram e que foram praticadas entre os seus progenitores, repete inclusivamente os insultos proferidos pelo pai contra a mãe, mas, como se isto não bastasse, permite ao agressor utilizar um dos menores, manipulando-o uma vez mais, para assumir a sua defesa em direto, no debate que se seguia na TV. E ninguém diz nada. E ninguém diz "Chega".»
 
Graça Franco
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Leia original aqui

Municípios algarvios lutam contra encerramento de estações dos CTT

Os municípios de Aljezur, Lagoa, Lagos e Vila do Bispo avançaram com uma providência cautelar contra o fecho de estações. O PCP questionou o Governo sobre Aljezur e a «degradação do serviço postal».

CréditosAntónio Cotrim / Agência Lusa

A Associação de Municípios Terras do Infante (Aljezur, Lagos e Vila do Bispo) avançou com uma providência cautelar para travar o encerramento das estações de Correios de Aljezur, Praia da Luz e Sagres. A decisão foi tomada pelo Conselho Directivo da associação após a reunião mantida com a Administração dos CTT no passado dia 14.

O Município de Lagoa, que não integra esta associação, também se fez representar na reunião e irá proceder como os demais, tendo em conta que os CTT pretendem fechar a estação de Carvoeiro, revela o diário Região Sul.

A delegação de autarcas que se dirigiu a Lisboa concluiu que o processo em curso «tem como finalidade primeira o encerramento» das estações referidas «ou a sua transformação em postos».

São concessionados a privados, «o que levará consequentemente à destruição, degradação e desqualificação de um Serviço Público que penalizará as populações, as pequenas e médias empresas, os turistas e comunidade estrangeira residente», denuncia a Terras do Infante.

CDU apresenta moção em Aljezur

No Munícipio de Aljezur, o vereador eleito pela CDU apresentou esta semana uma moção contra o encerramento da estação de Correios no concelho, que será debatida na próxima terça-feira.

Numa nota à imprensa, a Comissão Concelhia de Aljezur do PCP sublinha «a grande importância que a estação dos CTT», única existente no concelho, tem «para a população local que serve, nomeadamente a mais idosa, o comércio, os serviços e o turismo»

A decisão de encerrar a estação «não serve os interesses das populações» do concelho, porque vai aprofundar «a degradação dos serviços públicos num território interior», sendo que «a estação mais próxima passa a ser a de Lagos, que fica a mais de 30 quilómetros de distância», denunciam os comunistas.

PCP questiona Governo

A situação foi também denunciada, esta sexta-feira, na Assembleia da República, onde o deputado do PCP Paulo Sá, eleito pelo Algarve, questionou o ministro do Planeamento e das Infraestruturas. Sublinhando que «a privatização dos CTT, concretizada pelo anterior governo do PSD/CDS, está a conduzir, em todo o País, ao encerramento de estações de correios e à degradação do serviço postal», o texto refere o caso de Aljezur e as consequências negativas decorrentes de uma eventual concretização do encerramento da estação local dos CTT.

Os comunistas, que questionam o Executivo sobre o caso de Aljezur e as diligências que tomará para garantir que o concelho algarvio continuará a ter a sua estação de Correios, afirmam não ser «admissível que o Governo assista impávido e sereno à destruição do serviço postal, ao abandono das populações, à destruição de instrumentos de coesão territorial e social como é o serviço de correios, tudo em nome do lucro da empresa privada que tomou conta dos CTT».

Neste sentido, defendem que o Governo deve travar «o encerramento de estações de Correios e a degradação do serviço prestado às populações». Deve, de igual modo, garantir «o investimento no serviço público postal correspondente à sua importância como alavanca de desenvolvimento», iniciando «o processo de recuperação do controlo público dos CTT».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/municipios-algarvios-lutam-contra-encerramento-de-estacoes-dos-ctt

Portugal | As televisões e os jornais andam num afã a contratarem mais opinadores de direita

Jorge Rocha | opinião
Se Ricardo Costa, Sérgio Figueiredo ou Manuel de Carvalho, respetivamente responsáveis pela falta de qualidade da SIC, da TVI ou do Público, andam a despedir comentadores e a contratar outros, não têm apenas a rentabilidade como objetivo: os seus patrões - donos dos meios de (des)informação em causa - já compreenderam que o desgaste do governo e dos demais partidos da maioria parlamentar não será conseguido apenas com o concurso da Cofina ou do Observador. Apesar da má imprensa e do concurso de muitas greves motivadas por mesquinhos interesses corporativistas, António Costa e os partidos, com que pretenderá prosseguir coligado depois de outubro, vão, de acordo com as sondagens, mantendo uma média de 20 pontos acima da soma dos que se lhes opõem à direita.
Razão para quererem tornar constante um discurso direitista fiando-se nos pressupostos de Goebbels a propósito dos «méritos» das mentiras mil vezes repetidas. Como a que Marques Mendes emitiu sobre a redução da despesa no Serviço Nacional de Saúde, destinada a ser retomada pela Cavaca da Ordem dos grevistas cirúrgicos e seus concertados altifalantes, mas que é rigorosamente falsa, como o demonstrou o comunicado dos Ministérios das Finanças e da Saúde, que enalteceu o ter-se ultrapassado pela primeira vez os 10 mil milhões deeuros no setor em 2018, ou seja mais de mil milhões acima do que se gastava em 2015. No entanto as televisões e os jornais darão sempre maior relevo às mentiras do anão da SIC do que ao esclarecimento fundamentado do governo.
Ao contratarem gente da estirpe de António Barreto ou Paula Teixeira Pinto para se juntarem ao casal Moniz e a outros figurões e figuronas dignos de autêntica galeria de horrores, o que os manipuladores da realidade pretendem é multiplicar essa disseminação de mentiras de forma a ocultarem o mais possível os números indesmentíveis do Instituto Nacional de Estatística e outras instituições mais ou menos independentes. Mas convirá, igualmente, estar atento ao que delas provirá, porque até mesmo o Banco Mundial veio agora desculpar-se por ter falsificado os indicadores chilenos, agravando-os quando estava Michelle Michelet na presidência e empolando-os quando era o seu rival de direita, Piñera.
Às vezes lamento a excessiva passividade com que as esquerdas reagem a tudo isto não arregaçando as mangas para contrariar ativamente o presente estado das coisas na comunicação social. O escândalo já é tão evidente, que deixá-lo tal qual está é um convite para ver piorado o que já é suficientemente mau...
Nota PG: Também nas rádios se constata o pendor favorecido de presenças e “peças” da direita portuguesa, dos conservadores e dos mais radicais, em detrimento de presenças de esquerda.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-as-televisoes-e-os-jornais.html

As televisões e os jornais andam num afã a contratarem mais opinadores de direita

Se Ricardo Costa, Sérgio Figueiredo ou Manuel de Carvalho, respetivamente responsáveis pela falta de qualidade da SIC, da TVI ou do Público, andam a despedir comentadores e a contratar outros, não têm apenas a rentabilidade como objetivo: os seus patrões - donos dos meios de (des)informação em causa - já compreenderam que o desgaste do governo e dos demais partidos da maioria parlamentar não será conseguido apenas com o concurso da Cofina ou do Observador. Apesar da má imprensa e do concurso de muitas greves motivadas por mesquinhos interesses corporativistas, António Costa e os partidos, com que pretenderá prosseguir coligado depois de outubro, vão, de acordo com as sondagens, mantendo uma média de 20 pontos acima da soma dos que se lhes opõem à direita.
Razão para quererem tornar constante um discurso direitista fiando-se nos pressupostos de Goebbels a propósito dos «méritos» das mentiras mil vezes repetidas. Como a que Marques Mendes emitiu sobre a redução da despesa no Serviço Nacional de Saúde, destinada a ser retomada pela Cavaca da Ordem dos grevistas cirúrgicos e seus concertados altifalantes, mas que é rigorosamente falsa, como o demonstrou o comunicado dos Ministérios das Finanças e da Saúde, que enalteceu o ter-se ultrapassado pela primeira vez os 10 mil milhões deeuros no setor em 2018, ou seja mais de mil milhões acima do que se gastava em 2015. No entanto as televisões e os jornais darão sempre maior relevo às mentiras do anão da SIC do que ao esclarecimento fundamentado do governo.
Ao contratarem gente da estirpe de António Barreto ou Paula Teixeira Pinto para se juntarem ao casal Moniz e a outros figurões e figuronas dignos de autêntica galeria de horrores, o que os manipuladores da realidade pretendem é multiplicar essa disseminação de mentiras de forma a ocultarem o mais possível os números indesmentíveis do Instituto Nacional de Estatística e outras instituições mais ou menos independentes. Mas convirá, igualmente, estar atento ao que delas provirá, porque até mesmo o Banco Mundial veio agora desculpar-se por ter falsificado os indicadores chilenos, agravando-os quando estava Michelle Michelet na presidência e empolando-os quando era o seu rival de direita, Piñera.
Às vezes lamento a excessiva passividade com que as esquerdas reagem a tudo isto não arregaçando as mangas para contrariar ativamente o presente estado das coisas na comunicação social. O escândalo já é tão evidente, que deixá-lo tal qual está é um convite para ver piorado o que já é suficientemente mau...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/as-televisoes-e-os-jornais-andam-num.html

Câmara de Loures acusa a TVI: «despudorada manipulação»

Truncagem de declarações, omissão de factos, manipulação. A TVI emitiu uma peça em que levanta suspeitas sobre o município de Loures. A resposta da autarquia desmonta os argumentos do canal.

Créditos / Câmara Municipal de Loures

A Câmara Municipal de Loures respondeu hoje às acusações da TVI com um comunicado em que refuta ponto por ponto as acusações daquela estação televisiva, transmitidas quinta-feira à noite.

A peça apresenta os resultados de uma investigação levada a cabo pela equipa do programa de Ana Leal. São levantadas suspeitas sobre a eventual contratação privilegiada de Jorge Bernardino, genro de Jerónimo de Sousa, pela autarquia comunista dirigida por Bernardino Soares.

Os esclarecimentos produzidos pela Câmara Municipal de Loures conduzem-nos a uma realidade diferente. O contrato, depois de uma «consulta prévia a três empresas», foi adjudicado «à empresa com a proposta de preço mais baixa».

O objecto do contrato é definido em detalhe na resposta da Câmara Municipal de Loures (CML): o mesmo «visou assegurar a manutenção preventiva, reparação regular, limpeza, inspecção técnica, incluindo da instalação eléctrica, manutenção correctiva e substituição de publicidade institucional, num total de 438 abrigos de paragem, propriedade do Município e não concessionados».

Trata-se, segundo o município, «de um conjunto de funções de grande amplitude e extensão em nada comparáveis à referência acintosa da peça à mera mudança de lâmpadas e casquilhos», aproveitando para chamar a atenção para a «omissão cirúrgica», na peça, do número de abrigos, «fundamental para a caracterização da dimensão do serviço a prestar».

A CML acusa a TVI de esconder, na sua reportagem, que o novo procedimento contratual, estabelecido em Agosto de 2018, pretende substituir «dois contratos anteriores, ambos por ajuste directo». Um deles com «a empresa visada na reportagem, para 153 abrigos, no valor de 21 510€; e outro, com uma outra empresa, para 271 abrigos, no valor de 74 892,5€». Com esta agregação o município terá obtido «uma poupança de cerca de 15 por cento».

Quanto ao aumento do valor contratual, também aí a peça da TVI escamoteia que o aumento de valor se deve «ao número de abrigos abrangidos, antes 153 e depois 438, dispersos por todo o concelho de Loures».

PCP acusa comando editorial da TVI de «gratuita provocação»

«O Partido Comunista Português (PCP) acusa a TVI de ter promovido uma "gratuita provocação" ao partido e ao seu secretário-geral, Jerónimo de Sousa, através de uma reportagem emitida na noite desta quinta-feira, na abertura do Jornal das 8», pode ler-se em notícia da TSF.

A reacção do PCP refere-se, segundo a mesma fonte, a uma peça em que aquele canal televisivo denuncia a existência de vários contratos celebrados entre «a Câmara Municipal de Loures, uma autarquia com liderança comunista», e uma «empresa unipessoal que pertence ao genro do secretário-geral do PCP».

No comunicado citado pela TSF, o PCP defende que a estação de televisão transforma, «sem escrúpulos», «um contrato publicamente escrutinável a uma empresa unipessoal» na «escolha de uma pessoa». «O trabalho desta empresa», segundo a TSF, «consiste na manutenção de equipamentos municipais como paragens de autocarros e troca de cartazes publicitários».

Os comunistas consideram que «a peça da TVI e os interesses que a comandam revelam até que ponto pode chegar a mercenarização do papel jornalístico e o atrevimento inqualificável de uma estação televisiva».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/camara-de-loures-acusa-tvi-despudorada-manipulacao