América Latina

Mobilizações contra privatização de Saúde e Educação prosseguem nas Honduras

Médicos e docentes em greve, juntamente com estudantes, manifestaram-se esta terça-feira para exigir a revogação dos decretos que levam à privatização dos serviços de Saúdes e Educação.

Protesto contra a privatização dos sectores da Saúde e da Educação nas HondurasCréditos

Os protestos, anunciados pela Plataforma pela Defesa da Saúde e Educação, começaram na véspera, na Praça Cuba, em Tegucigalpa, em solidariedade com os funcionários do Instituto Nacional de Formação Profissional, que correm o risco de ser despedidos, no âmbito do processo de privatização da instituição.

De acordo com o Confidencial HN, esta terça-feira os médicos suspenderam as consultas externas nos hospitais públicos e realizaram plenários; por seu lado, os sindicatos de professores agendaram paralisações, piquetes e mobilizações.

A Plataforma fez um apelo à unidade dos trabalhadores destes sectores, na medida em que, se a Lei de Reestruturação e Fortalecimento da Saúde e da Educação, tal como proposta pelo governo hondurenho, foi retirada do Congresso Nacional, continua a existir uma legislação que, em seu entender, visa limitar o direito da população aos serviços públicos essenciais e despedir «de forma massiva» os funcionários públicos na Educação e na Saúde.

De acordo com a HispanTV, na capital do país, Tegucigalpa, a manifestação reuniu mais de 2000 pessoas, entre médicos, professores e estudantes. Outras acções de protesto e manifestações realizaram-se, ao longo do dia, em vários departamentos do país centro-americano.

Privatizar e atacar conquistas

As acções de protesto têm lugar desde o final de Abril, contra uma legislação que, segundo os sindicatos, permitirá ao governo proceder à realização de «despedimentos massivos de funcionários», acabar com «as conquistas que os trabalhadores alcançaram em décadas de luta» e implicará a privatização dos sectores da Educação e da Saúde no país centro-americano.

Nas primeiras mobilizações, em que os manifestantes exigiram também a demissão do presidente Juan Orlando Hernádez, registaram-se episódios de grande violência policial, tendo sido registados disparos. Com base em depoimentos recolhidos nas redes sociais, a RT afirmou que «se viram imagens perturbadoras nas Honduras, onde alegados civis armados agem em conluio com a Polícia hondurenha e atacam manifestantes».

A necessária recuperação do debate estrutural na América Latina

Por trás da visão de exploração e exportação de petróleo cru está novamente aquele ideário liberal e de posição subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Dois temas ocuparam lugar de destaque na agenda das discussões socioeconômicas neste início do século XXI: o redesenho do mapa geopolítico e a polarização crescente da riqueza e do poder mundial; e a pauperização de grandes massas populacionais, sobretudo na periferia do sistema capitalista. Estes não são problemas novos, pois vêm sendo discutidos há muito tempo, no campo teórico e político. Cabe lembrar que tais problemas se intensificaram no período denominado de globalização.

Essa “fase” não pode ser tratada como algo necessariamente novo, é uma espécie de exacerbação do liberalismo clássico, econômico e político, em particular da sua crença num capitalismo sem fronteiras e gerido por Estados nacionais que fossem reduzidos às suas funções mais elementares. Outro elemento central nesse ideário é a certeza de que a desregulação dos mercados e a liberalização das economias nacionais promoveria no médio prazo a convergência da riqueza das nações e a redução das desigualdades entre as classes sociais.

Na América Latina, essas ideias acabaram dominando o pensamento político e acadêmico, durante as décadas de 1980 e 1990, e se transformaram no fundamento teórico e ideológico de um novo projeto econômico de desenvolvimento, “associado e dependente” das grandes potências, em particular, do poder e da economia norte-americana. Por isto, também na América Latina, durante este período, foram descartadas, como anacrônicas, todas as teses e preocupações, contidas na agenda do debate latino-americano sobre o desenvolvimento, como as restrições externas ao crescimento e as origens das desigualdades sociais; mas também, a necessidade do intervencionismo estatal, e de um projeto de construção de um sistema econômico, nacional e autônomo.

“Há uma espécie de retomada do pensamento liberal nas agendas de parte dos governos latino-americanos”

 

O insucesso econômico das políticas liberais naquela década contribuiu decisivamente para a “virada à esquerda” dos governos sul-americanos, durante a primeira década do século XXI. Em poucos anos, quase todos os países da região elegeram governos de orientação nacionalista, desenvolvimentista ou socialista, que mudaram o rumo político-ideológico do continente. Como já lembrado em outro artigo,[1] todos se opuseram às ideias e políticas neoliberais da década de 1990 e todos apoiaram ativamente o projeto de integração da América do Sul, opondo-se ao intervencionismo norte-americano no continente. Esse giro político à esquerda coincidiu com o ciclo de expansão da economia mundial, que favoreceu o crescimento generalizado das economias regionais até a crise financeira de 2008.

Os sucessos econômicos ao lado da maior autonomia política e social materializada no fortalecimento do bloco regional latino-americano, de certa forma, foram se colocando, ao longo do tempo, de forma conflituosa aos interesses das grandes potências, principalmente a norte-americana. Essa maior “autonomia” também significou um maior controle de ativos estratégicos latino-americanos pelos seus respectivos Estados nacionais, como foi o caso do setor de energia, o que novamente entrou em rota de colisão com os interesses dos Estados Unidos. A importância da descoberta do pré-sal no Brasil e do gás não convencional na Argentina, por exemplo, tem um papel central para a geopolítica energética dos Estados Unidos no longo prazo. debate estrutural na América Latina

Não deve-se negligenciar nesse debate o impacto da crise internacional do início da década atual, nem dos eventuais equívocos dos governos à esquerda latino-americanos, mas essa tensão e divergência “estratégica” entre os países da América Latina e os Estados Unidos impulsionam uma reorganização política, nesta segunda década do século XXI, que tem como mantra as ideias liberais.

Assim como nos anos 1990, um fantasma que ronda hoje parte dos governos latino-americanos é a incapacidade de se entregar resultados diferentes dos observados naquele período. As experiências recentes mostram novamente as dificuldades para se beneficiar por completo do modelo liberal globalizante das grandes nações, isto é, para apresentar êxitos econômicos, como na questão da dívida pública, e sociais, como na redução da pobreza. A agenda do governo Macri na Argentina, por exemplo, recupera na íntegra as premissas liberais adotadas nos últimos vinte anos do século XX. Como mostra o jornalista argentino, Fernando Rosso, “logo depois de triunfar nas eleições em outubro de 2017, Macri lançou uma agenda econômico sustentada pelo tripé de ‘reformas permanentes’ (reforma da previdência, flexibilização trabalhista e ajuste fiscal)”.[2] E as consequências de tais políticas já são visíveis como mostra o mesmo jornalista:

Algumas variáveis sintetizam o (des)equilíbrio econômico do governo de Macri em seus três anos de gestão: o PIB acumulou uma queda de 1,3%, a inflação foi da ordem de 163%, o dólar subiu 290% em relação à cotação oficial de dezembro de 2015 e 160% em relação ao dólar paralelo naquele momento. A dívida cresceu US$ 80 bilhões com credores privados e mais de US$ 100 bilhões se forem incluídos os primeiros desembolsos do acordo com o FMI. (…) As consequências desses números sobre a vida cotidiana das maiorias populares são profundamente desoladoras. O desemprego atingiu 9% durante o terceiro trimestre de 2018 e não atingiu os dois dígitos porque, para já, o grosso do ajustamento foi feito por via da liquidação do poder de compra do salário. As convulsões econômicas e os profundos retrocessos sociais são o saldo que o governo da nova direita argentina deixou até agora. E o pior parece ainda estar para vir.”

 

Esse é apenas um exemplo de como, nos últimos dois anos, essas ideias voltam a vigorar com força na agenda e no pensamento econômico de parte da América Latina, em especial no Brasil.

Não deixa de ser curioso que, se na década de 1920 e 1930 a concentração da América Latina na produção de produtos primários, no caso brasileiro o café, é o que impulsiona o debate estruturalista inaugurado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), nos final dos anos 2010, as ideias dos formuladores econômicos latino-americanos retomam aquela visão de mundo pré-Cepal, mas dessa vez não é café, mas sim o petróleo, a bola da vez. O atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, sintetiza de certa forma cristalina essa visão ao comentar o foco da empresa neste momento:

parecemos envergonhadas em explorar commodities. Vamos explorar e produzir valor para o Brasil”.

 

Não pretende-se aqui discutir o caráter geoestratégico de um recurso como o petróleo, mas sim que por trás desta visão de exploração e exportação de petróleo cru está novamente aquele ideário liberal e de posição subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho.

É indiscutível que, neste momento e a despeito dos resultados anteriores, há uma espécie de retomada do pensamento liberal nas agendas de parte dos governos latino-americanos. E junto há uma tentativa não apenas de estreitar, mas de sepultar qualquer pensamento crítico a esse ideário. Dessa forma, torna-se indispensável novamente a recuperação de um debate que muitos consideram superados sobre o desenvolvimento desigual e pauperizante do capitalismo.

A dúvida é se haverá capacidade de reorganização do debate estrutural sobre os rumos da América Latina, incluindo aí o seu papel da geopolítica e geoeconomia, ou se ficaremos reféns apenas de responder aos desafios da “nova-velha” agenda liberal.

 

[1] FIORI, J. L. O Brasil e seu entorno estratégico na primeira década do século XXI. In: SADER, E. (Org.). 10 Anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. São Paulo: Boitempo, 2013.

[1] ROSSO, F. La enigmática supervivencia política de Mauricio Macri. Nueva Sociedad, n. 279: 4-12, enero-febrero, 2019. 


por José Luis Fiori e Rodrigo Leão | Texto original em português do Brasil

  • José Luis Fiori é professor titular em Economia Política Internacional da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep); e
  • Rodrigo Leão é mestre em desenvolvimento econômico (IE/Unicamp), um dos diretores do Ineep e pesquisador visitante do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA.

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-necessaria-recuperacao-do-debate-estrutural-na-america-latina/

Venezuela é laboratório dos EUA antes de 'ataques' contra Cuba e Nicarágua, diz oficial russo

Manifestação dos partidários do autoproclamado presidente interino da Venezuela e líder da oposição, Juan Guaidó, em Caracas
© Sputnik / Leo Alvarez

Os EUA estão prontos a usar todos os meios para remover os governos socialistas indesejados da Venezuela, Nicarágua e Cuba do poder, a fim de alcançar o controle total sobre a América Latina, alertou o chefe russo do Departamento Central de Inteligência (GRU), Igor Kostyukov.

A política externa de Washington será a principal ameaça de segurança para a América Latina nos próximos anos, disse Igor Kostyukov na Conferência Anual de Moscou sobre Segurança Internacional.

Washington atua "em desrespeito ao direito internacional" e sem considerar as possíveis consequências para seus aliados "a fim de alcançar o controle total sobre a região", declarou.


Presidente venezuelano Nicolás Maduro (foto de arquivo)
© REUTERS / Miraflores Palace/Handout via Reuters

O Departamento de Estado dos EUA gasta oficialmente pelo menos US$ 1,5 bilhão a cada ano para aumentar sua influência na América Latina, revelou Kostyukov. Levar em conta "programas especiais e não orçamentários" tornaria a quantia muito maior, acrescentou.

"As tecnologias da ‘revolução colorida’ que estão sendo desenvolvidas na Venezuela, poderão ser implementadas em breve na Nicarágua e em Cuba", avaliou.

Na Nicarágua, a "oposição patrocinada pelos EUA está interrompendo o diálogo nacional ao apresentar termos que são obviamente inaceitáveis para as autoridades", disse Kostyukov.

O país continua em um impasse quando os protestos contra a Reforma da Previdência, um ano atrás, se tornaram violentos e levaram a centenas de mortos. As conversações entre o governo de Daniel Ortega e a oposição só foram retomadas em fevereiro, depois que as autoridades libertaram muitos dos detidos durante os distúrbios.

Quanto a Cuba, o governo Trump tentará contar com medidas econômicas para atingir seus objetivos, afirmou o chefe do GRU.

"Em março, a Lei Helms-Burton foi reintroduzida pelos EUA. Ela permite que os americanos peçam indenização por bens perdidos na república [cubana], o que poderia afetar cerca de 200 empresas cubanas. Uma redução significativa na oferta de petróleo venezuelano como resultado das sanções dos EUA foi também um golpe para Cuba", destacou.

Apesar de todas as ambições de Washington, a "blitzkrieg" (guerra relâmpago) na Venezuela falhou, disse Kostyukov.

"Os EUA calcularam mal o nível de robustez do governo democraticamente eleito, seu apoio pela população e a disposição das agências de segurança venezuelanas para defender a ordem constitucional. Esperanças de confrontos sangrentos entre o povo e o exército não renderam tampouco", completou.

Washington apoiou totalmente o líder da oposição Juan Guaidó, que se declarou presidente interino da Venezuela em janeiro, e colocou o país sob duras sanções econômicas. Os movimentos, porém, não têm sido suficientes derrubar Nicolás Maduro como chefe do estado venezuelano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042613764644-eua-revolucoes-cuba-nicaragua/

EUA enfrentarão país 'duro de matar' na América Latina, diz americanista

A operação dos EUA na América Latina poderia ter uma "chance histórica" de aumentar a aprovação do presidente norte-americano Donald Trump na véspera das eleições, escreveu The Wall Street Journal.

Recentemente, o colunista do The Wall Street Journal, Walter Russell Mead, escreveu que a derrota do presidente da Venezuela Nicolás Maduro teria sido um grande sucesso para os EUA, mas o apoio da Rússia à Venezuela atrapalhou o plano estadunidense.


O cientista político americanista da Academia de Ciência da Rússia, Konstantin Blokhin, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, disse acreditar que a derrota de Maduro poderia ter sido apresentada pela administração Trump como sua maior conquista da política externa, recordando que houve "vitórias hipotéticas" dos EUA sobre Daesh (grupo terrorista proibido na Rússia e em uma série de países) ou a última cúpula com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

"Golpe na Venezuela seria recebido pelos Estados Unidos como um 'princípio dominó', vindo a ser esperada uma sequência com Cuba, Nicarágua etc. Mas dificilmente isso aconteceria, porque, mesmo não falando sobre Venezuela, os cubanos, por exemplo, pode-se dizer que, a um nível genético, já se acostumaram com uma vida de sanções e de pressão inacreditável dos EUA. Cuba é [um país] 'duro de matar' para EUA."

O americanista reforça que as nações da "América latina, veem que a Rússia e a China se mostram interessadas no continente e concluem que não estão 'abandonadas' à mercê dos EUA e que elas não são mais 'quintal' dos Estados Unidos".


O que, para o cientista político, significa apoio moral da Rússia. Blokhin sublinhou que a "política de ultimatos" norte-americana vai somente afastar América Latrina dos EUA.

Na quarta-feira (17), o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, anunciou que, a partir do dia 2 de maio, vai ser anulada uma antiga proibição a ações civis de cidadãos norte-americanos contra empresas estrangeiras que usam propriedades confiscadas pelo governo cubano desde a revolução de 1959 de Fidel castro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019042513755519-eua-enfrenta-pais-duro-matar-amrica-latina/

EUA ameaçam 'cenário sírio' em Cuba e Venezuela, escreve jornal americano

Presidente dos EUA, Donald Trump em frente à logo da OTAN.
© Sputnik / Alexey Vitvitskiy

A derrubada do presidente venezuelano Nicolás Maduro teria sido um grande sucesso para a administração Trump na véspera da nova eleição presidencial dos EUA, mas o apoio da Rússia atrapalhou os planos do líder americano, escreveu o jornal Wall Street Journal.

Segundo o colunista Walter Russell Mead, Trump acredita que todos os governos que não lhe agradam estão apoiando a Venezuela, foi por isso que seu novo passo para "derrubar" Maduro foi exercendo pressão sobre Cuba.

O jornal Wall Street Journal destaca que anteriormente o ex-presidente Barack Obama havia tentado melhorar as relações entre Cuba e os EUA na esperança que Havana se afastasse de Caracas.

No entanto, os planos não foram concretizados, pois "a Venezuela substituiu Cuba pela Rússia como fonte de subsídios".

O jornalista explica que a destruição da economia venezuelana poderia ser seguida de um desmoronamento do regime cubano — e esse duplo sucesso seria a "chance histórica" para Trump, principalmente no período que antecede as eleições.


Para Russell Mead, a Rússia não permitirá que os EUA pressionem tanto a Venezuela quanto Cuba e, ao mesmo tempo, o "cenário sírio" pode se repetir, e Moscou novamente "humilhará" Washington.

O desejo do presidente dos EUA de derrubar Maduro na Venezuela demonstra a importância crítica dessa questão para Trump. Ao mesmo tempo, seu impulso pode ser um enorme fracasso, já que a Venezuela e Cuba provavelmente serão apoiadas pela Rússia e China. Além disso, o Canadá e os parceiros europeus dos EUA já condenaram as sanções extraterritoriais americanas contra o Irã, e agora é improvável que fiquem de fora, diz o jornalista.

Apesar dos esforços de Trump em derrubar Maduro, tal cenário pode ser um fracasso, uma vez que a Venezuela e Cuba provavelmente serão apoiadas por Rússia e China, escreve o colunista.

Na quarta-feira (24), o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que os EUA não estenderão a exceção à Lei Helms-Burton, que a partir de 2 de maio permitirá que cidadãos norte-americanos intentem ações judiciais relativamente às propriedades nacionalizadas ou confiscadas em Cuba no início dos anos 1960.


Os protestos em massa começaram na Venezuela em 21 de janeiro após a reeleição do presidente venezuelano Maduro, seguidos pela autoproclamação de Juan Guaidó como líder interino do país dois dias após a posse.

Os EUA e vários outros países reconheceram o líder da oposição como legítimo, enquanto Maduro chamou Guaidó de fantoche de Washington. Rússia, China e vários outros países apoiaram Maduro como o presidente legítimo da Venezuela, e Moscou classificou o "estatuto presidencial" de Guaidó de "inexistente".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042513753317-eua-ameacam-cenario-sirio-em-cuba-venezuela-escreve-jornal-americano/

EUA ressuscitam Doutrina Monroe na América Latina, alerta Defesa da Rússia

Washington está restaurando sua Doutrina Monroe na América Latina para limitar a soberania dos países da região, afirmou nesta quarta-feira (24) o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu.

"Os Estados Unidos estão ressuscitando a Doutrina Monroe, que busca limitar a soberania dos países latino-americanos e pressionar aqueles que seguem políticas que não foram acordadas com Washington", disse o ministro russo na Conferência de Segurança Internacional de Moscou.

Shoigu observou que um exemplo típico de tal política de Washington é a situação na Venezuela, onde o governo legítimo está exposto a uma influência externa "sem precedentes".

Os Estados Unidos têm visto tradicionalmente a América do Sul como uma área de seus interesses exclusivos baseada na doutrina do ex-presidente James Monroe ("América para os Americanos") de 1823, que implica a não interferência de países de outras regiões nos assuntos dos governos americanos.


No início do século XX, essa ideologia foi complementada pela tese de que a resolução de conflitos no continente latino-americano deveria ser realizada pelos EUA, inclusive através do uso da força militar. Durante a Guerra Fria, essa ideologia foi usada para combater a influência soviética e a disseminação do socialismo em Cuba e em outros países da região.

O ministro da Defesa russo destacou que Moscou está disposta a reforçar a cooperação militar com os países latino-americanos, destacando como "amigos e aliados tradicionais" da Rússia na América Latina países como Cuba, Nicarágua, Venezuela, Brasil, Bolívia, México, Uruguai, Paraguai e Chile.

"Apreciamos o nível de confiança alcançado e trabalharemos para aumentá-lo", comunicou Shoigu, adicionando que Moscou está disposta a "aumentar a cooperação militar e técnico-militar com os países que veem a Rússia como parceira".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042413747541-eua-ressuscitam-doutrina-monroe-america-latina-defesa-da-russia/

Notas internacionais: suicídio de García (Perú) diz muito sobre a América Latina

Morte de ex-presidente peruano, investidas norte-americanas contra Cuba e congelamento de preços de Macri

O suicídio de García diz muito sobre a América Latina. O suicídio de Alan García (1985-1990 e 2006-2011), ex-presidente peruano, levou ao inevitável debate mundial sobre o que está acontecendo na América Latina em termos de judicialização e criminalização da política. Segundo a imprensa peruana, ainda havia poucas evidências concretas dos crimes de corrupção de que García era acusado. O único pagamento por ele recebido da Odebrecht de que se tinha prova material eram 100 mil dólares por uma palestra realizada pela Fiesp em São Paulo no ano de 2012. Não coincidentemente, líderes latino-americanos do período progressista vivido nas duas primeiras décadas do século XXI na região, como Lula, C. Kirchner e Correa estão sendo processados ou já presos, como no caso de Lula, sem que haja material probatório consistente de crimes de corrupção.

Garcia morto, Kuczynski na UTI. Ao total 4 ex-presidentes peruanos (Garcia, Toledo, Kuczynski e Humala) e uma líder da oposição (Keiko Fujimori) estão envolvidos com denúncias de corrupção e ontem, após o suicídio de Alan Garcia, um deles, Pedro Paulo Kuczynski foi hospitalizado em uma UTIcom crise de hipertensão. Ele está preso preventivamente também acusado de corrupção com a Odebrecht.


Trump avança contra Cuba. O governo Trump anunciou ontem (17/04) novas medidas contra Cuba. Trata-se da ativação do “Título 3”, um dispositivo da lei Helms-Burton que permite a contestação judicial por parte de indivíduos ou empresas sobre propriedades em solo cubano ainda do período pré-revolucionário. São propriedades em sua maioria que foram nacionalizadas pela Revolução Cubana e perderam seu status anterior. A decisão de ativar um dispositivo da lei que estava inativo há duas décadas pode fazer com que várias empresas americanas, europeias e canadenses, em especial, travem ações judiciais de bilhões de dólares e comprometer a capacidade cubana de atrair investimento econômico em um período muito delicado de fragilidade de sua economia. A medida foi tomada no escopo da elevação da pressão sobre Cuba por seu apoio a Maduro na Venezuela. O embargo comercial dos EUA sobre Cuba já dura 6 décadas.

UE vai à OMC contra EUA no caso cubano. A União Europeia se pronunciou sobre a decisão dos EUA de ativar o “título 3”da lei Helms-Burton contra Cuba e disse “condena veementemente” a medida e que isso “criará ainda mais confusão para os investimentos estrangeiros, que estão ajudando a criar empregos e prosperidade em Cuba”, segundo Alberto Navarro, enviado da UE a Havana, citado em matéria da DW. A UE pode levar o caso para a OMC.

EUA querem derrubar Venezuela e Cuba a uma só vez. A manobra norte-americana dos últimos dias com a abertura de uma franca artilharia sobre Cuba revela um plano em que a “derrubada da Venezuela” está associada a mais uma tentativa de derrubada do governo cubano.

48 bilhões podem entrar na Venezuela se Maduro cair. Ainda sobre EUA e Venezuela, uma reportagem do The Interceptrevela que está circulando um documento do BID (Banco Interamericano de Investimento) que prevê a injeção de até 48 bilhões de dólares na economia da Venezuela caso Maduro seja derrubado. O título do documento é “Venezuela: desafios e oportunidades”. A oferta de financiamento bilionário seria uma isca para governos e corporações internacionais apoiarem Washington na derrubada de Maduro, além dar confiança à comunidade empresarial venezuelana para apoiar a oposição interna ao atual governo, na opinião dos jornalistas que assinam o artigo, Rafael Moro e Ryan Grim, que tiveram acesso aos documentos.

Rússia Gate. É aguardada para esta manhã de quinta (18/04), nos EUA, a apresentação do relatório do promotor especial Robert Mueller sobre a suposta “Interferência russa nas eleições de 2016”no país. Segundo a CNN, são 400 páginas de relato após quase dois anos de investigação e entrevistas a mais de 500 testemunhas. Segundo Trump, via Twitter, o relatório foi preparado por 18 democratas raivosos e o documento deveria ser focado em quem espionou sua campanha em 2016 e não sobre o que ele chama de “embuste russo”.

Macri congela preços. O governo Macri, da Argentina, anunciou ontem (17/04) um congelamento de preços no país. Um relatório divulgado no dia 16 indicou aumento da inflação para 4,7% e aumento da pobreza que já está na faixa dos 32%. Serão 60 os produtos que constam da cesta básica e que terão por seis meses seus preços congelados. Outras medidas como descontos para compras de outros itens, como eletrodomésticos ou medicamentos, foram tomadas direcionadas para pensionistas e aposentados. Ainda, segundo Macri, tarifas como eletricidade, gás e transporte não terão aumento até o final do ano. O presidente argentino vive o drama de ver o país se deteriorando economicamente em pleno ano eleitoral. Até mesmo contas de telefones celulares sofrerão congelamento. Ele retomou várias medidas que já existiam no governo de C. Kirchner, subsidio do Estado ao preço do gás ou o programa Preços Cuidados, dedicado a vários itens da cesta básica.

Um ano dos protestos na Nicarágua. Há exatamente um ano, 18 de julho de 2018, começava uma onda de protestos contra o presidente Daniel Ortega na Nicarágua. Os protestos duraram meses, geraram mortos e encarcerados e uma profunda instabilidade política no país. Várias mesas de negociação já foram abertas e fechadas sem que a oposição conseguisse conquistar seu maior pleito: antecipação das eleições presidenciais. A crise revelou a força da igreja católica no país, mas também da militância sandinista e a influência do empresariado norte-americano sobre o empresariado local. O estopim dos protestos na época foi uma proposta de reforma da previdência.

Eleições para o parlamento europeu. O maior parlamento do mundo, o da União Europeia, terá eleições daqui um mês. A eleição será em 26 de maio. Segundo pesquisa divulgada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, ainda há um milhão de cidadãos europeus indecisos sobre o pleito. Segundo um dos coordenadores da pesquisa, Mark Leonard, há uma tentativa por parte da extrema-direita de fazer da eleição um grande referendo sobre o tema da imigração, mas isso não se verifica nos números quando se questionam as pessoas da maioria dos países sobre suas principais preocupações. Outro “mito”, segundo ele, da eleição é confrontar os defensores do bloco e os eurocéticos, visto que a maioria das pessoas ainda aposta na existência de uma união dos países europeus.

Indonésia reelege presidente. Terminaram ontem (17/04) as eleições presidenciais na Indonésia. Mais de 190 milhões de pessoas estavam aptas a votar, configurando a 3ª maior democracia do mundo. O atual presidente Joko Widodo foi o vencedor com 54% dos votos.
Trump quer dar palavra final sobre guerras. Trump vetou no último dia 16 uma resolução do Congresso norte-americano que determinava o fim da participação dos EUA na guerra do Iêmen. A guerra liderada pela Arábia Saudita já dura 4 anos, já matou milhares de pessoas e deixou o país na maior crise humanitária do mundo. A guerra é palco da disputa entre Arábia Saudita e Irã, que apoia os rebeldes houthis. O veto de Trump e a resolução do parlamento norte-americano na verdade é um duelo sobre quem tem a palavra final no caso de participações em guerras, o presidente ou o parlamento?

Kim e Putin together. Kim e Putin devem se encontrar ainda neste mês de abril. Enquanto isso, a Coreia do Norte pediu aos EUA que Mike Pompeo deixe de ser o principal negociador sobre desnuclearização com o país.

Greve de caminhoneiros em Portugal. Uma greve de caminhoneiros que começou na segunda (16/04) em Portugal levou o país a uma crise energética. Postos de combustíveis estão sem combustível e até o aeroporto de Lisboa ontem (17/04) ficou sem combustível.
Maior aeroporto do mundo. Um mega-aeroporto está em vias de ser inaugurado em Beijing, na China. Leva o nome de Daxing e será o maior terminal aeroportuário do mundo em uma só edificação. Espera-se que 100 milhões de passageiros/ano circulem pelo aeroporto.

Rússia pode se desconectar do mundo, se assim quiser. A Duma, parlamento russo, aprovou ontem (16/04) um projeto de lei que permite ao país salvaguarda total de sua internet. Durante crises ou ataques cibernéticos será possível se desconectar totalmente da rede mundial de computadores.

Rebelião contra a extinção da Terra. Um movimento nascido no Reino Unido, chamado “Extinction Rebellion”, que pretende denunciar a destruição ambiental do planeta, promete uma rebelião internacional com protestos em 80 cidades de 30 países até 22 de abril. Eles estão mobilizados nas ruas de Londres desde a segunda (16/04) e vários já foram presos ao se acorrentarem a carros ou ocuparem escritórios de empresas como a petroleira Shell.

Bolsonaro influente, mas em quê? Bolsonaro apareceu na lista dos 100 mais influentes do mundo da Time como “personagem complexo”, “homofóbico”, “ultraconservador” e que promete “guerra cultural”. 

Ana Prestes, Brasil | Análise em Opera Mundi
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/notas-internacionais-suicidio-de-garcia.html

Washington monta guerra colonial na América Latina

por José Goulão

Elliot Abrams. Os acontecimentos sucedem-se em cascata nos últimos dias tendo como alvos a Venezuela e, por arrastamento, a Nicarágua e Cuba – a "troika da tirania", citando o triunvirato fascista que comanda Trump: Michael Pompeo, John Bolton e Michael Pence. Os movimentos militares não estão apenas em cima das mesas de conspiração, conforme reconhece a própria CNN, as sanções económicas e políticas multiplicam-se, as ondas de choque extravasam em muito a região latino-americana e desconcertam até alguns dos mais fiéis súbditos de Washington, como a União Europeia.

A CNN, citando fontes próprias do interior do establishment norte-americano, revelou a existência de actividades militares orientadas para a América Central e do Sul resultantes da coordenação do Estado-Maior conjunto do Pentágono com o Comando Sul (SouthCom), aprofundando a interacção com países vizinhos – sobretudo Colômbia e Brasil. De acordo com as mesmas fontes, trata-se de dissuadir a alegada penetração da Rússia e da China na região, que recentemente o secretário de Estado, Michael Pompeo, qualificou como "uma provocação" além de, imagine-se, uma "ingerência nos assuntos internos" da Venezuela.

Tais razões serão válidas apenas para consumo propagandístico e agitação de fantasmas; porque, em termos práticos, o que continua a ganhar forma, depois do espaço dado à vocação "humanitária", são os preparativos de uma agressão militar norte-americana contra a Venezuela, que Washington continua a preferir por procuração, isto é, através de exércitos e mercenários alheios. As movimentações militares, especialmente navais, serviriam de enquadramento das operações ofensivas e teriam igualmente cariz intimidatório.

Os sinais de reactivação da "opção militar coincidem com os fracassos sucessivos de outras formas de desestabilização da Venezuela testadas desde que o vice-presidente dos Estados Unidos, Michael Pence, telefonou a Juan Guaidó para este se auto-designar "presidente interino" da Venezuela, em 23 de Janeiro.

Um mês depois registou-se o falhanço estrondoso da intervenção contra Caracas a partir da Colômbia, sob capa de "ajuda humanitária", que acabou por se virar contra os promotores e deixar Guaidó em maus lençóis perante os patrocinadores de Washington.

Mais recentemente, em 6 de Abril, esteve programado o início de um "levantamento de massas" através da Venezuela, que deveria ir ganhando projecção e manter-se até à queda do governo eleito de Nicolás Maduro. Foi montada uma rede de células que deveria agitar manifestações em todo o país, mas tudo indica que a operação morreu no ovo: a resposta "das massas" está longe de ter o vigor ambicionado.

A conspiração de Washington

A perspectiva de novo fracasso parece ter esgotado a já pouca paciência de Washington. Em 10 de Abril, as estruturas conspirativas norte-americanas montaram uma "mesa-redonda" na capital federal, sob a capa do Centro de Estudo Estratégicos e Internacionais (CEEI), com um ponto único na ordem de trabalhos: "Avaliar a utilização da força militar na Venezuela".

A reunião deveria ter sido "privada", o que de facto aconteceu, mas o jornalista de investigação Max Blumenthal logrou acesso à lista de participantes – honrando a liberdade de imprensa e provando que a luta dos jornalistas dedicados à investigação e à busca da verdade foi ferida mas não liquidada com a prisão de Julian Assange.

A "lista de participantes" expõe uma autêntica associação de malfeitores, um conluio de índole mafiosa, gente para quem "a mudança de regime na Venezuela só é possível castigando a população", o que "não tem qualquer importância" – segundo palavras anteriormente proferidas por um dos presentes, o embaixador William Brownfield.

Desconhece-se o teor das intervenções na reunião sobre a intervenção militar na Venezuela. Mas averiguando o que pensam os conspiradores, pelo menos os principais, ficaremos com uma noção do que foi dito e preparado.

O já citado William Brownfield foi embaixador dos Estados Unidos na Venezuela a seguir ao golpe de 2002 contra Hugo Chávez e não descansou um momento no ataque à democracia venezuelana, sucessivamente como membro das administrações de George W. Bush, Obama e agora Trump. "Mais do que um narco-Estado, a Venezuela é um Estado mafioso", considera Brownfield. Por isso, "a melhor solução é acelerar o colapso, nem que produza um período de maior sofrimento durante meses, talvez anos".

Não será descabido supor, perante este tipo de afirmações, que o "combate ao narcotráfico" venha a ser um dos argumentos a brandir para justificar uma agressão militar contra a Venezuela. Já não seria a primeira vez, conhecendo o tipo de alegações que conduziram à invasão do Panamá e até do Afeganistão, país onde, desde a instalação da NATO, o comércio de estupefacientes floresce como nunca. O que acontece também com um dos grandes aliados norte-americanos na América Latina, a Colômbia, um narco-Estado que não necessita de ser invadido porque Washington já está presente e tirando proveito.

Uma reunião que não foi académica

Olhando a lista de participantes na reunião promovida em 10 de Abril deduz-se que a intenção de "avaliar a utilização da força militar na Venezuela" fica muito aquém do que efectivamente se passou. Tratou-se muito provavelmente de uma reunião operacional, pois figuras como o almirante Kurt Tidd, o embaixador Brownfield ou o terrorista Roger Noriega não são pessoas de perder tempo e gastar experiência com debates académicos. E a presença de membros em funções no Departamento de Estado de Pompeo, como Stephen Dreikorn e Keith Mines, de um alto quadro do Conselho Nacional de Inteligência, como David Tapia, de três representantes da USAID, uma agência da CIA para mudanças de regimes, além de vários "assessores" da equipa usurpadora de Juan Guaidó indiciam um estado mais avançado de preparação do que uma simples troca de opiniões. Sem esquecer o significado da presença de delegações oficiais representativas da Colômbia e do Brasil.

O almirante Kurt Tidd foi, até há quatro meses, o comandante do Comando Sul das Forças Navais norte-americanas (SouthCom), com tarefas de controlo sobre a América Latina.

A sua presença numa reunião deste tipo tem enorme importância, não há outra interpretação possível; porque trata-se de alguém com anos de práticas desestabilizadoras e intimidatórias contra a Venezuela, incluindo planos golpistas organizados como o que esteve previsto para 2016 e foi frustrado pela Revolução Bolivariana.

"Há que continuar a manipular o cenário em que a Venezuela 'está à beira do colapso e da implosão', reforçando "a matriz mediática que liga a crise eléctrica à responsabilidade exclusiva de Maduro", incitou o almirante em ocasiões anteriores que não estão, porém, desactualizadas. A multiplicação de actos terroristas para provocar apagões que afectam a Venezuela é actual e provavelmente continua a ser testada não apenas para minar a situação interna mas também para ser uma arma em situação de agressão militar.

O terrorista Noriega

A presença de uma figura como Roger Noriega na reunião de 10 de Abril, ainda que na discreta posição de representante do American Enterprise Institute, é todo um programa de conspiração operacional.

Noriega é um intervencionista veterano dos tempos do escândalo Irão-Contras, um braço executivo de Elliot Abrams no apoio a grupos de mercenários e esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos para lançar o terror contra as revoluções na Nicarágua e em El Salvador nas duas últimas décadas do século passado.

Sendo Elliot Abrams, actualmente, o enviado especial norte-americano para a entronização de Guaidó e o derrube de Maduro, a presença de Roger Noriega numa reunião sobre o uso da força militar na Venezuela significa que a sua realização tem de ser levada muito a sério.

Os planos contra Caracas desenvolvidos sob a alçada do almirante Kurt Tidd prevêem desde sempre o recurso a mercenários e esquadrões da morte que, para o efeito, continuam a ser preparados nas bases norte-americanas de Tona e Tolemaida, na Colômbia.

Perante os acontecimentos em cascata que se têm sucedido nos últimos dias torna-se evidente que Roger Noriega reaparece agora como uma peça-chave dos planos de Pompeo, Bolton e Adams para a América Latina - e que vão além da Venezuela.

O recentíssimo reforço das sanções contra a Nicarágua e, sobretudo, contra Cuba representam o agravamento de uma filosofia colonial intervencionista no "quintal das traseiras" e que tem vindo a ser considerada como a restauração plena da velha Doutrina Monroe. À luz da qual, obviamente, quaisquer apoios a países da região por parte de potências como a China e a Rússia são "provocações", como já declarou Michael Pompeo, o secretário de Estado e ex-director da CIA.

Além de antigo e actual colaborador próximo de Elliott Abrams na definição da estratégia terrorista contra a Venezuela, existem outras poderosas razões para considerar relevante o papel de Noriega em tudo o que está a passar-se na América Latina. Ele foi exactamente um dos autores da lei anti-cubana Helms-Burton, em 1996, agora restaurada em todo o seu articulado para agravar as sanções contra Havana.

Existe uma unidade estratégica na política de Pompeo, Bolton e Adams para a América Latina. E Roger Noriega é um dos elementos fulcrais da equipa que a desenvolve e aplica. Por isso, a sua presença na reunião de 10 de Abril, juntamente com o almirante Kurt Tidd e o embaixador William Brownfield, confirma o carácter operacional desta.

Roger Noriega, o terrorista que em tempos lamentou o facto de "os Estados Unidos se terem enganado ao não dar a devida importância a Hugo Chávez", defende que a mudança de regime é a única opção a tomar em relação à Venezuela. "Quando existe um regime cruel, não há outra solução", afirma.

A restauração plena da chamada Lei Helms-Burton é mais um reforço do bloqueio contra Cuba mas afecta também numerosas empresas e importantes negócios de outras regiões e entidades, incluindo a União Europeia.

Ora a União Europeia tem-se identificado com a estratégia latino-americana do triunvirato fascista que envolve Trump. O alargamento dessa estratégia a vários países, designadamente Cuba, afecta ainda mais directamente vastos e importantes interesses da União Europeia. Interesses que realmente contam para Bruxelas, como os dos negócios privados e das propriedades e lucros das empresas.

A imprensa espanhola revelou que a alta representante para a política externa da União Europeia, Federica Mogherini, escreveu uma carta para a Casa Branca garantindo que Bruxelas fará queixa dos Estados Unidos à Organização Mundial de Comércio se a aplicação da lei de Noriega contra Cuba for até às últimas consequências. O cenário resultante desta demanda europeia, se for concretizada, poderá criar atritos muito sérios entre a União e Washington.

Resta agora saber se este rasgo de "atrevimento" de Mogherini segue os seus trâmites ou não passará de um papel perante o qual Trump irá rir-se às gargalhadas.

Os acontecimentos dos últimos dias em relação a América Latina, incluindo a reunião de guerra efectuada em 10 de Abril, colocam, afinal, um dilema à União Europeia: reage à doutrina colonial de Washington ou continua, como até aqui, a sustentar uma figura golpista e cada vez mais desacreditada como Guaidó?

Tendo em consideração os antecedentes próximos ou afastados e o que está em jogo – não apenas regionalmente – é difícil acreditar que Bruxelas chegue a desafiar Washington. Nada faz prever que tenha chegado o dia das surpresas.

19/Abril/2019

Ver também:

 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/eua/guerra_colonial_19abr19.html

Moscou: declaração de Bolton sobre Doutrina Monroe é um insulto a toda América Latina

Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov
© Sputnik / Grigory Sysoev

A declaração do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, de que Washington não tem medo de usar as palavras "Doutrina Monroe" em relação à Venezuela é um insulto a toda América Latina, disse o chanceler russo Sergei Lavrov.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, lembrou que, após a criação da ONU em 1945, a lei internacional é regulada por essa organização, a mais legítima e universal.

"A teoria e prática dos 'quintais' é, de uma maneira geral, ultrajante. Suponho que os países da América Latina reagirão a essa declaração de John Bolton. Ele mencionou a Doutrina Monroe em relação à Venezuela, mas insultou toda a América Latina", declarou Lavrov após as negociações com o chanceler do Qatar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani.

Recentemente, Bolton declarou que os EUA buscam criar uma coalizão para mudar o governo atual na Venezuela, acrescentando que "nessa administração não temos medo de usar as palavras Doutrina Monroe".


Em 23 de fevereiro, a oposição venezuelana tentou fazer entrar na Venezuela, a partir do Brasil e da Colômbia, a chamada ajuda humanitária que inclui medicamentos e alimentos provenientes dos EUA e de outros países.

As autoridades venezuelanas rejeitaram as entregas de ajuda patrocinada pelos EUA e afirmaram que as declarações sobre a crise humanitária se destinam a justificar uma invasão da Venezuela.

A tensão política na Venezuela aumentou desde que, em janeiro de 2019, o líder da oposição Juan Guaidó se declarou presidente interino do país.

Os EUA e vários países da Europa e América Latina, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente interino do país. A Rússia e muitos outros países manifestaram seu apoio a Maduro como presidente legítimo do país e exigiram que os outros países respeitem o princípio de não interferência nos assuntos internos do país latino-americano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina/

ODiario.info » Milhões validam a democracia de Cuba com o seu voto no referendo constitucional

No mesmo fim-de-semana em que os EUA e os seus aliados regionais procuravam uma escalada no golpe contra a Venezuela, os eleitores cubanos participavam em massa no referendo sobre a nova Constituição do país. Uma participação de mais de 80% dos inscritos dá expressão às profundas raízes populares da Revolução Cubana.

Milhões de cubanos votaram ontem para se pronunciarem sobre a nova Constituição da República, chamada às urnas que confirmou o seu apoio ao sistema democrático da ilha. Em ambiente de festa, num dia quente e sem chuva, os eleitores mobilizaram-se nas 15 províncias do país para responder à pergunta “Ratifica a nova Constituição da República?”.
Segundo a última nota emitida este domingo pela (CEN) Comissão Nacional de Eleições, até às 17:00, hora local, tinham exercido o seu direito de voto sete milhões 524 mil 318 cidadãos com mais de 16 anos, 81,53 por cento dos inscritos.
A CEN tem prevista para esta tarde uma conferência de imprensa para informar os resultados preliminares de um referendo qualificado de histórico, pela oportunidade de ratificar uma Carta Magna construído colectivamente, que encarna a irrevogabilidade do projecto socialista e amplia as garantias e os direitos dos cubanos.
Após o encerramento de mais de 24 mil secções de voto às 18:00, os membros das mesas procederam à abertura das urnas para a contagem dos votos, um processo que na ilha caribenha é público.
Nas secções de voto desta capital e do país, a Prensa Latina e outros meios de comunicação constataram uma forte maioria de votos reflectindo o apoio à nova Constituição, mas terá que se esperar até amanhã para saber os detalhes da contagem.
Depois de exercer seu direito de voto, o presidente Miguel Díaz-Canel assegurou que a lei das leis é um texto para o presente e o futuro da nação.
«Trata-se de um documento moderno e avançado, que nos permite desbloquear processos e avançar de uma forma mais determinada. Agora vem um amplo exercício legislativo, já o estamos a organizar e procuramos que no menor tempo possível possamos aprovar e implementar as leis que apoiem a Constituição», sublinhou.
A jornada eleitoral permitiu também que Cuba reiterasse seu apoio à Venezuela e ao presidente Nicolás Maduro, num momento em que os Estados Unidos intensificam a sua cruzada pela mudança de regime e ameaçam com a intervenção militar.
O próprio Diaz-Canel condenou a ingerência nos assuntos internos do país sul-americano e a cumplicidade com Washington de alguns governantes latino-americanos.
Por seu lado, o primeiro vice-presidente, Salvador Valdés, exigiu o respeito pelo direito dos venezuelanos a resolver de forma soberana as suas situações e pediu apego ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas, cujos propósitos e princípios apostam pela paz, a igualdade de todos os Estados, a solução pacífica de controvérsias e a não-utilização ou ameaça do uso da força.
Depois de aprovada na Assembleia Nacional do Poder Popular em Dezembro e após a ratificação de hoje em referendo - como tudo parece indicar – a nova Constituição de Cuba entrará em vigor, uma vez proclamada, a partir de sua publicação no Diário Oficial da República, o que foi estabelecido nas Disposições finais do texto supremo.

Fonte: http://www.prensa-latina.cu/index.php?o=rn&id=255848&SEO=millones-validan-democracia-de-cuba-con-su-voto-en-referendo-fotos-y-video

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Anatomia da intervenção imperialista

Prabhat Patnaik [*]
O que está a acontecer na Venezuela de hoje proporciona uma lição objectiva sobre a natureza da intervenção imperialista em países do terceiro mundo na era do neoliberalismo. O imperialismo ultimamente interveio de acordo com linhas semelhantes em outros países latino-americanos, nomeadamente no Brasil, mas a Venezuela, precisamente por causa da forte resistência que apresentou, mostra as técnicas do imperialismo num contraste mais agudo. Não há muito, a viragem à esquerda na América Latina – não apenas em Cuba, Bolívia e Venezuela mas também no Brasil, Argentina, Equador e vários outros países onde regimes de centro-esquerda chegaram ao poder e perseguiram políticas redistributivas em favor dos trabalhadores pobres – foram uma fonte de inspiração para forças progressistas de todo o mundo. Hoje, muitos destes regimes foram derrubados, não porque seus programas e políticas tivessem perdido apoio popular, mas através de maquinações vis nas quais os EUA desempenharam um papel importante. Foram golpes de estado de uma nova espécie, diferentes dos anteriores efectuados pelos EUA nos anos 50, 60 e 70; eles são específicos da era do neoliberalismo.


Houve dois importantes factores que contribuíram para estes derrubes. Um é o colapso dos termos de troca dascommodities primárias na esteira da crise capitalista mundial. Países latino-americanos, incluindo o Brasil, têm sido fortes exportadores de matérias-primas e o movimento desfavorável dos termos de troca deixou-os com receitas cambiais reduzidas para a compra das suas importações essenciais. No caso da Venezuela, os preços reduzidos do petróleo desempenharam este papel; além disso os preços reduzidos do óleo também reduziram as receitas do governo. A tentativa do governo de preservar os benefícios redistributivos desfrutados pelos pobres diante do declínio das receitas cambiais, ao invés de adoptar as medidas de "austeridade" que as agências imperialistas advogam, provocou um surto de inflação. Isto indubitavelmente significou adversidade para os pobres. Mas estas adversidades, deve-se notar, não foram por causa das políticas; elas foram causadas pela deterioração dos termos de troca. De facto os pobres teriam sofrido muito mais no caso de uma política de "austeridade" face a estas dificuldades do que sofreram pela não-imposição de uma tal política de "austeridade". As dificuldades económicas da Venezuela foram infinitamente pioradas por causa das sanções impostas pelos EUA, as quais impedem mesmo que mercadorias essenciais como remédios para salvar vidas sejam importadas livremente. E ultimamente os EUA mais uma vez escalaram sua guerra económica contra a Venezuela através do congelamento dos activos possuídos pelo Estado venezuelano, a companhia petrolífera nos EUA, e através do anúncio de que todas as receitas das exportações de petróleo venezuelano para os EUA não serão entregues ao regime democraticamente eleito e constitucionalmente legítimo do presidente Nicolas Maduro mas sim ao regime de Juan Guaidó, o qual, com apoio dos EUA, simplesmente proclamou-se como o presidente. Isto equivale literalmente a roubar o dinheiro da Venezuela para encenar um golpe na própria Venezuela, um fenómeno que recorda a era colonial quando os povos eram pilhados para financiar conquistas coloniais. Tais roubos e sanções, não é preciso dizer, agravam a miséria do povo da Venezuela e a culpa desta mesma miséria é então atribuída ao governo Maduro a fim de voltar o povo contra ele. O segundo elemento que tem contribuído para o recente jogo do derrube é o facto de que os EUA estão agora a se desvincular gradualmente do envolvimento directo no Médio Oriente, sem de qualquer forma abandonar seus desígnios imperiais ali. E isto permite-lhe agora centrar-se mais sobre a América Latina. As recentes tentativas de golpes dos EUA, das quais a Venezuela é um exemplo clássico, diferem dos golpes que patrocinaram nas décadas de 50, 60 e 70 em pelo menos seis modos óbvios e em conjunto constituem um novo padrão. O primeiro é que apesar de os golpes anteriores, seja no Irão ou Guatemala ou Chile, terem sido contra governos eleitos democraticamente, e terem desavergonhadamente instalado em sua substituição regimes autoritários apoiados pelos EUA, são executados em nome da democracia. No Brasil, Bolsonaro aparece como um presidente democraticamente eleito; mas não só houve um golpe "parlamentar" contra Dilma Rousseff como o líder político reconhecido como o mais popular no país, o ex-presidente Lula do Partido dos Trabalhadores, foi impedido de competir nas eleições presidenciais. Da mesma forma na Venezuela, Juan Guaidó, o pretendente apoiado pelos EUA, acontece ser o presidente da assembleia nacional e não apenas algum homem forte militar. Por outras palavras, as forças políticas que representam a velha ordem exploradora de supremacia branca estão a ser directamente mobilizadas  em massapelos EUAnesta luta contra os regimes progressistas na América Latina. Associado a isto está o fenómeno de protestos de rua em grande escala e manifestações organizadas pelas forças apoiadas pelos EUA, as quais afirmam estarem a defender a democracia muito embora sejam arregimentadas contra governos democraticamente eleitos. Os golpes contra-revolucionários, em suma, adquiriram um carácter de massa ao invés de serem meros putsches militares, como era o caso anteriormente. Em segundo lugar, estes levantamentos contra-revolucionários em massa decorrem de dificuldades económicas enfrentadas pelo povo, muito embora os governos progressistas não sejam responsáveis por estas dificuldades e apesar de a maior parte das mesmas serem criadas através de actividades deliberadas do próprio imperialismo dos EUA. Os golpes da era anterior não tinham um carácter de massa, nem seguiam a irrupção de quaisquer dificuldades económicas, nem mesmo incomodavam-se a justificar-se invocando estas dificuldades. É verdade que o governo do Dr. Cheddi Jagan, na Guiana, foi derrubado através do desencadeamento de uma greve de camionistas que foi financiada pelo imperialismo. Mas o que então era utilizado ocasionalmente, agora é a nova norma. Em terceiro lugar, as culpas pelas dificuldades económicas, embora em grande medida criadas pelo próprio imperialismo, a acrescentar-se ao funcionamento da economia capitalista mundial, são atribuídas não só a governos progressistas, mas mais explicitamente às suas políticas de esquerda. Dificuldades económicas são atribuídas à nacionalização de recursos minerais, à intervenção do Estado na economia, a posições políticas anti-capitalistas e assim por diante. A propaganda para o golpe, em suma, incorpora um ataque ideológico a qualquer interferência no funcionamento da ordem neoliberal. Este ataque ideológico é necessariamente difuso. Ele invoca conceitos como "corrupção" e "incompetência": mas estes são supostamente considerados como sinónimos da interferência do Estado na ordem neoliberal. Em quarto lugar, da mesma maneira, o golpe explicitamente argumenta em favor de uma agenda que envolve a restauração da ordem neoliberal pró corporações. Um plano para a "Transição democrática" avançado na Venezuela, por exemplo, esboça que o golpe incluirá:   (i) A reactivação do aparelho produtivo (pelo acesso a fundos do FMI);   (ii) A remoção de todos os controles, regulamentos e "obstáculos burocráticos e medidas punitivas";   (iii) o investimento internacional dentro de um quadro regulamentar que crie confiança e protecção efectiva da propriedade privada;   (iv) Abertura ao investimento privado em empresas públicas;   (v) Aprovação de uma nova Lei dos Hidrocarbonetos que permitira ao capital privado manter maiorias accionistas em projectos petrolíferos;   (vi) O sector privado será responsável pela operação de empresas concessionárias de serviços públicos;   (vii) Eficiência a fim de reduzir a dimensão do Estado. Isto é uma agenda desavergonhadamente neoliberal; mas ela constitui o programa do golpe. Uma tal mensagem clara de que o governo democraticamente eleito deveria ser derrubado a fim de pressionar por uma agenda corporativa nunca fora tão explícito anteriormente. Em quinto lugar, os golpes actuais são efectuados com base no apoio de todas as potências imperialistas, muito embora eles possam ser efectuados pelos EUA. Portanto a União Europeia foi solicitada por Trump a que reconhecesse o pretenso governo de Juan Guaidó como governo legítimo da Venezuela – e ela o fez. É um sinal dos tempos, tanto pelo facto de que os próprios EUA não têm a mesma força que tinham antes como pelo facto de que vivemos num mundo onde rivalidades inter-imperialistas são postas em surdina, que a cooperação dos outros é requerida pelos EUA mesmo quando empreende uma acção imperialista. E finalmente o caso da Venezuela mostra o importante papel que os media estão agora desempenhar para amolecer os povos e levá-los a aceitar que uma acção imperialista contra um governo do terceiro mundo constitui uma defesa da democracia. Jornais como The New York Times têm estado a impulsionar esta linha. Em suma, temos agora uma nova ordem mundial, em que igualar interesses corporativos com democracia está a tornar-se um princípio aceite. O povo venezuelano até agora tem permanecido firme contra o golpe patrocinado pelos EUA; mas por causa disto os EUA estão agora a ameaçá-lo com intervenção armada. Se a intervenção armada acontecer, então será a primeira acção assim em anos recentes contra um país soberano, não com o argumento, não importa quão frágil, de que apresenta uma ameaça à segurança dos EUA ou de que de alguma forma prejudicou interesses dos EUA, mas simplesmente com o argumento de que ousou afastar-se de um regime de neoliberalismo. 

24/Fevereiro/2019

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia  O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2019/0224_pd/anatomy-imperialist-intervention . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

A LUTA GANHA-SE NAS RUAS

 

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Dos “coletes amarelos” que ainda não sei bem o que é, às lutas que diariamente e de múltiplas formas se travam em todos os setores nacionais; lembrando ainda o que nos querem fazer esquecer a América do Sul, verdadeiro vulcão social, onde os povos vão tomando cada vez mais consciência do seu papel na história.
A media nacional e internacional não nos fala da Argentina e das enormes movimentações de massas contestando o Macri de extrema-direita que os empobrece.
Nem da miséria na Colômbia cujos militares se recusam a entrar em confronto aberto com a Venezuela com receio da contestação interna, contestação que acelerou com o rompimento das relações diplomáticas e o encerramento da fronteira anunciada por Nicolás Maduro. Uma fronteira marítima e outra terrestre de mais de 2.200 quilómetros.
«Na Venezuela vivem cerca de cinco milhões de colombianos e vastos setores da população fronteiriça abastece-se de produtos (alimentos, gasolina entre outros) no país vizinho [Venezuela] numa fronteira que até esta sexta-feira, era muito ativa e de trânsito livre pelas duas pontes, vias fluviais e os chamados “caminhos verdes”.
E a miséria nas Honduras, Guatemala e outros mais países, descolada da sua realidade como tragédia quotidiana, para se apresentar como conflito na entrada ou não nos EUA destes retirantes que fogem da fome.
AS REDES SOCIAIS QUE NOS ENGANAM MINUTO A MINUTO, MOSTRAM TAMBÉM E EM DIRETO AS SUAS PRÓPRIAS MANHAS. SOCIAL E POLITICAMENTE, NADA É LINEAR.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Os Estados Unidos preparam uma guerra entre Latino-americanos

Thierry Meyssan*
Pouco a pouco os partidários da doutrina Cebrowski avançam os seus piões. Se tiverem que cessar de fabricar guerras no Médio-Oriente Alargado, irão fazê-lo na Bacia das Caraíbas. Antes de mais, o Pentágono planifica o assassínio de um chefe de Estado eleito, a ruína do seu país e sabota a unidade da América Latina.
John Bolton, o novo ConselheiroNacional de Segurança dos Estados Unidos, relançou o projecto de destruição das estruturas estatais da Bacia das Caraíbas.
Recorde-se que, na onda dos atentados do 11-de-Setembro, o Secretário da Defesa da época, Donald Rumsfeld tinha criado um Gabinete de Transformação de Força (Office of Force Transformation) e designado o Almirante Arthur Cebrowski para o dirigir. A sua missão era a de preparar o Exército norte-americano para a sua nova missão da era da globalização financeira. Tratava-se de mudar a cultura militar a fim de destruir as estruturas estatais das regiões não-conectadas à economia globalizada. O primeiro componente deste plano consistiu em desarticular o «Médio-Oriente Alargado». A segunda etapa deveria ser fazer o mesmo na «Bacia das Caraíbas».O plano previa destruir uma vintena de Estados costeiros e insulares, à excepção da Colômbia, do México e o mesmo quanto a territórios britânicos, norte-americanos, franceses e neerlandeses.
Logo após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Donald Trump opôs-se ao plano Cebrowski. No entanto dois anos mais tarde, apenas conseguiu interditar ao Pentágono e à OTAN de entregar um Estado aos grupos terroristas que eles empregam (o «Califado»), mas não em desistir de manipular o terrorismo. Em relação ao Médio-Oriente Alargado, conseguiu fazer diminuir a tensão, mas as guerras continuam com menor intensidade. Em relação à Bacia das Caraíbas, ele travou o Pentágono, interditando-o de desencadear operações militares directas.
Em Maio último, Stella Calloni revelava uma nota do Almirante Kurt Tidd, Comandante-em-chefe do SouthCom, expondo os meios postos em marcha contra a Venezuela [1]. Uma segunda incursão é conduzida em simultâneo na Nicarágua e uma terceira, desde há um século e meio, contra Cuba.
Em diversas análises precedentes havíamos concluído que a desestabilização da Venezuela, iniciada pelo movimento das guarimbas, prosseguida pela tentativa de golpe de Estado, de 12 de Fevereiro de 2015 (operação Jericó) [2], depois pelos ataques contra a moeda nacional e a organização da emigração, desaguaria em operações militares [3] conduzidas a partir do Brasil, da Colômbia e da Guiana. Manobras multinacionais de transporte de tropas foram organizadas pelos Estados Unidos e seus aliados, em Agosto de 2017 [4]. A subida ao Poder em Brasília, a 1 de Janeiro de 2019, do Presidente pró-israelita Jair Bolsonaro tornará isso possível.
De facto, o próximo Vice-presidente brasileiro será o General Hamilton Mourão, cujo pai desempenhou um papel notável no golpe militar pró-EUA de 1964. Ele próprio se salientou por suas declarações contra os Presidentes Lula e Rousseff. Em 2017, ele declarara —em nome do Grande Oriente do Brasil— que chegara o momento de um novo golpe militar. No fim, acabou eleito com o Presidente Bolsonaro. Numa entrevista à revista Piauí, anunciou um próximo derrube do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a instalação de uma força de «paz» brasileira (sic). Perante a gravidade destas afirmações, que constituem uma violação da Carta das Nações Unidas, o Presidente eleito, Bolsonaro, assegurou que ninguém queria fazer guerra a ninguém e que o seu Vice-presidente falava demais.
Seja como for, o Presidente Maduro, numa conferência de imprensa, em 12 Dezembro de 2018, revelou que o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, assegurava a coordenação entre a equipa do Presidente colombiano, Iván Duque, e a do Vice-presidente brasileiro. Um grupo de 734 mercenários está actualmente a ser treinado em Tona, na Colômbia, para realizar um ataque de falsa bandeira contra a Colômbia e justificar assim uma guerra da Colômbia contra a Venezuela. Ele seria comandado pelo antigo Coronel Oswaldo Valentín García Palomo, hoje em dia em fuga após a tentativa de assassinato com drone do Presidente Maduro, no aniversário da Guarda Nacional, a 4 de Agosto último. Estes mercenários são apoiados por Forças Especiais estacionadas nas bases militares dos EUA em Tolemaida (Colômbia) e Eglin (Florida). O plano norte-americano prevê a captura, desde o início do conflito, de três bases militares venezuelanas, Libertador de Palo Negro, Puerto Cabello e Barcelona.
O Conselho de Segurança Nacional dos EUA tenta convencer vários Estados a não reconhecer o segundo mandato de Nicolás Maduro (reeleito em Maio último, mas que deverá iniciar o mandato com o Ano Novo). Foi por isso que os Estados do Grupo Lima contestaram o escrutínio presidencial antes mesmo da sua realização, e interditaram, ilegalmente, a sua organização nos consulados da Venezuela. Da mesma forma, a crise migratória acaba por não passar de mais uma manipulação: são hoje inúmeros os Venezuelanos que fugiram da crise monetária, acreditando encontrar facilmente trabalho num outro Estado latino-americano, a tentar voltar para casa. Mas, o Grupo Lima impede-os, proibindo os aviões venezuelanos que tentam ir repatriá-los de sobrevoar o seu espaço aéreo e aos autocarros (ônibus-br) vindos para os buscar de cruzar as fronteiras.
Tudo se passa, pois, como se estivéssemos assistindo a um remake (repetição-ndT) dos acontecimentos que ensanguentam o Médio-Oriente Alargado desde os atentados do 11 de Setembro de 2001. O essencial não reside nas acções militares, mas na representação de desordem conferida pelos acontecimentos. Trata-se, primeiro, de fazer levar gato por lebre [5].Em cinco anos, a Venezuela e a Nicarágua que tinham uma imagem positiva no exterior são hoje consideradas, erradamente, como «Estados falidos». Se ainda não se reescreveu a história dos Sandinistas e da sua luta face à ditadura dos Somoza, dá-se como adquirido que Hugo Chávez Frías era um «ditador comunista» (sic), quando o seu país deu um incrível salto em frente, político e económico, sob a sua presidência. Em breve, irá ser possível destruir estes Estados sem que ninguém se incomode em reclamar.
O tempo esgota-se cada vez mais rapidamente. Assim, quando em 1823 o Presidente James Monroe decidiu fechar as Américas ao controlo europeu, ele não sabia que a sua doutrina evoluiria, 50 anos mais tarde, para uma afirmação do imperialismo dos EUA. Tal como hoje, quando o Presidente Donald Trump afirmava no dia da sua investidura que o tempo de mudanças de regime acabara, ele não pensava que seria traído pelos seus. Ora, a 1 de Novembro de 2018, o seu Conselheiro de Segurança, John Bolton, declarava em Miami que Cuba, a Nicarágua e a Venezuela formam a «troika da tirania». Depois o seu Secretário da Defesa, o General James Mattis, afirmava, a 1 de Dezembro, diante do Reagan National Defense Forum que o eleito Presidente Maduro é um «déspota irresponsável», que «deve partir» [6].
Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
Na imagem: Falando perante a comunidade anti-castrista, no Miami Dade College, John Bolton denunciou «Esta troika da tirania, que se estende de Havana a Caracas passando por Manágua, [a qual] é a causa de imenso sofrimento humano, o impulso para uma enorme instabilidade regional, e a génese de um sórdido berço do comunismo no hemisfério ocidental».

Notas
[1] « Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke” », Admiral Kurt W. Tidd, Voltaire Network, 23 février 2018. “O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, Stella Calloni, Tradução Alva, Rede Voltaire, 13 de Maio de 2018.
[2] “Obama falha o seu golpe de Estado na Venezuela”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Fevereiro de 2015.
[3] “General Jacinto Perez Arcay considera «inexorável» a invasão da Venezuela”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Junho de 2016.
[4] “Grandes manobras ao redor da Venezuela”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017.
[5] “Venezuela, a intervenção ilegal”, Julio Yao Villalaz, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2018.
[6] “Mattis condemns Venezuela’s Maduro as a ’despot’ who has to go” («Mattis condena Maduro da Venezuela como um “déspota” que tem que partir»), Reuters, Phil Stewart, December 1, 2018.
** Artigo datado de 18 dezembro de 2018

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/os-estados-unidos-preparam-uma-guerra.html

Ajuda humanitária para Haiti

Há uma semana que o heróico povo haitiano luta contra o governo imposto pelos Estados-Unidos. image

Segundo a Reuters, o Departamento de Estado norte-americano está ao corrente de que a polícia do Haiti deteve “um grupo que incluem cidadãos dos EUA” com “historial militar.” Os sete detidos deslocavam-se em Porto Príncipe no passado dia 17 em dois veículos sem matrícula e transportavam armas brancas e de fogo, munições, equipamentos de comunicação por satélite, drones e outros acessórios.
AJUDA HUMANITÁRIA DOS EUA PARA UM DOS MAIS POBRES E SACRIFICADOS PAÍSES DO MUNDO

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

“Para combater o caos criado pelo imperialismo, liderança honesta e instituições fortes devem ser acompanhadas por uma mobilização popular intensa e bem organizada”

Uma importante entrevista em que é feito o ponto da situação da ofensiva imperialista em diversas zonas do mundo – com particular destaque para a América Latina -, da resistência dos povos, da generalizada ausência de influentes forças políticas revolucionárias que assumam a vanguarda da luta de massas anti-imperialista e anticapitalista.


 

Mohsen Abdelmoumen: Como explica o recuo da esquerda e a ascensão da extrema-direita na América Latina, como vimos no Brasil com a eleição do fascista e torcionário Jair Bolsonaro e com Mauricio Macri na Argentina?

Prof. Atilio Borón: Há muitas razões, que só posso resumir aqui. Primeiro, foi impressionante a intensidade da contraofensiva dos EUA para derrotar os governos progressistas. Macri foi um presente inesperado, mais devido aos erros do kirchnerismo do que a qualquer outra coisa. Mas a vitória foi muito importante para os Estados Unidos. Bolsonaro é o produto da desmobilização do PT levada a cabo por Lula desde o início, da completa corrupção do sistema judicial que colocou Lula na prisão e permitiu que Bolsonaro não estivesse presente nos debates presidenciais, o apoio constante dos media hegemónicos e, claro, os graves erros dos governos Lula/Dilma, que acreditavam que a política social e o retirar de milhões de pessoas da pobreza extrema seriam suficientes para mudar a consciência popular e transformá-los em defensores de políticas progressistas. Como na Argentina, era uma política de redistribuição de renda sem educação de massas ou socialização. Além disso, o problema da violência dos gangues nas favelas era crucial no Brasil, e não foi bem combatido pelos governos do PT, dando a impressão de que a única política que eles tinham para lidar com este problema sério era um programa de educação cívica de longo prazo que, naturalmente, não conseguiu impedir o avanço vertiginoso do crime em bairros da lata e favelas. Propaganda subtil e metadados, mais a Cambridge Analytica e a habilidade de Steve Bannon fizeram o resto. O Brasil provou, como antes os EUA, que “notícias falsas” são geralmente consideradas informações confiáveis. Assim, as mentiras e a difamação da campanha de Bolsonaro foram extremamente eficazes.

No seu muito relevante livro ” Twenty-First Century Socialism : Is There Life After Neo-Liberalism?”, demonstra que a América Latina não tem qualquer perspectiva com o capitalismo, e desmente as teses neoliberais que afirmam que o capitalismo é o remédio para todos os males. Não pensa que o sistema capitalista simplesmente fracassou, seja no centro capitalista como se vê com o movimento dos Coletes Amarelos em França, mas também na periferia? Não acha que o sistema capitalista não oferece perspectiva em nenhum lugar?

O capitalismo foi um enorme fracasso. Muitas conquistas tecnológicas e subidas muito modestas no padrão de vida das maiorias sociais combinaram-se com uma concentração irresistível da riqueza e dos rendimentos, tanto no centro como na periferia. O livro de Thomas Piketty e milhares de artigos e livros provaram isso, e a tendência não pode ser revertida. Hoje, o 1% mais rico da população mundial apropriou-se de mais riqueza do que os 99% restantes. Esta situação não tem precedentes na história do mundo! E é política, social e economicamente insustentável. Além disso, recentes desenvolvimentos capitalistas prejudicaram a Mãe Natureza como nunca antes. Assim, a “segunda contradição” do capitalismo, como postulado por Jim O’Connor, tornou-se fatal nos dias de hoje. Basta analisar com suficiente atenção as catástrofes ambientais da mudança climática para entender a magnitude desse problema e a total incapacidade das sociedades capitalistas para lidarem com ele.

Na sua opinião, não traz consigo o capitalismo a sua própria ruína?

Sim, foi a principal tese de Marx nos seus escritos, mas também foi estabelecida, embora metafisicamente, pelas penetrantes reflexões de Hegel sobre a dialética dos mercados e da sociedade civil no capitalismo. Mas, como Lénine ensinou, o sistema capitalista não entrará em colapso a menos que as forças sociais e políticas o derrubem. Bernstein estava errado a este respeito e Marx e quase todos os seus seguidores estavam certos em apontar a necessidade de uma força revolucionária, seja um partido, um movimento ou qualquer outra organização popular. Por si mesmo, o capitalismo perdurará apesar das suas contradições e, nesse processo, a barbárie tornar-se-á o seu sinal distintivo.

Na sua opinião, o movimento dos Coletes Amarelos que surgiu na França e que está a espalhar-se na Europa não será um movimento revolucionário e fundamentalmente anticapitalista?

É uma revolta popular, anti-neoliberal, mas não inteiramente anticapitalista. Além disso, é uma colecção extremamente heterogénea de actores sociais e não tenho a certeza de que no final todos estariam prontos a atacar a cidadela ou o poder capitalista. Não ficaria surpreso se uma parte significativa deles concluísse o seu activismo juntando-se às forças da direita. O “poujadismo” foi uma experiência muito importante na França do pós segunda guerra mundial.

Não acha que há necessidade de refundar a esquerda na América Latina e no mundo? A classe trabalhadora não terá a necessidade imperiosa de uma estrutura revolucionária que corresponda às exigências do momento?

Sim, é absolutamente necessário. Mas somos confrontados com um problema crítico: a divisão das condições objectivas da revolução, já suficientemente maduras, e o atraso na constituição de uma consciência revolucionária, o atraso no amadurecimento das condições subjetivas. Apesar do passado, a perspectiva revolucionária é completamente invisível para as massas, na América Latina e no resto do mundo. A formidável eficácia dos aparelhos ideológicos do Estado capitalista apagou completamente a revolução da paisagem. Portanto, a enorme importância da batalha ideológica é de convencer as massas de que a revolução não é apenas possível, mas necessária. Em segundo lugar, uma vez que a primeira tenha sido alcançada, deveríamos encontrar a forma política apropriada para canalizar o renovado impulso revolucionário das massas. Os partidos leninistas ou gramscianos tradicionais são a resposta certa para um novo proletariado mundial, imenso e muito heterogéneo, fragmentado em milhares de pequenos pedaços, como um espelho quebrado? Eu duvido disso. O dito de Mariátegui de que “a revolução não pode ser nem uma “cópia verdadeira” (calco,”traço”), nem uma réplica mas uma criação heroica das massas” é mais válida do que nunca.

O ex-assessor de Trump, Steve Bannon, está em vias de federar toda a extrema-direita na Europa. Sabendo que na América Latina, os EUA apoiaram fascistas como Bolsonaro e Macri, não pensa que existe um plano liderado pelo governo dos EUA para unir toda a extrema-direita no mundo?

Sim, de facto. E isso foi explicitamente declarado por Bannon e muitas outras pessoas. É uma aspiração de longa data do governo dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e a rápida mudança no clima político (numa direcção reacionária, começando na Europa por causa dos refugiados e a crescente presença de população muçulmana) forneceu a Trump uma oportunidade de ouro. No entanto, o resultado está longe de ser o que eles esperam e numerosos factores intervêm na evolução da situação política. Os resultados podem ser muito decepcionantes para o governo dos EUA.

Segundo a sua opinião, em alguns países susceptíveis de sofrer intervenções imperialistas visando as riquezas do seu subsolo e por interesse geopolítico, como por exemplo a Argélia, não haverá necessidade de ter dirigentes legítimos e honestos e instituições fortes para evitar o caos? Ibn Khaldun profetizou que os tiranos atrairão os invasores; os verdadeiros aliados do imperialismo não serão os dirigentes corruptos e ilegítimos?

Para combater o caos criado pelo imperialismo, uma liderança honesta e instituições fortes devem ser acompanhadas por uma mobilização popular intensa e bem organizada. Há muitas histórias na América Latina em que governos honestos foram expulsos por golpes de estado promovidos pelo governo dos EUA e seus aliados oligárquicos no terreno. Tomemos o caso de Salvador Allende no Chile em 1973 ou de Arturo U. Illía na Argentina em 1966, dois exemplos eloquentes do que digo. Em contrapartida, a sabotagem, a corrupção e o despotismo foram as marcas de todos os regimes estabelecidos após a intervenção imperialista na América Latina ou no Caribe. Casos como Alfred Stroessner no Paraguai, François Duvalier no Haiti, Rafael L. Trujillo na República Dominicana e Anastasio Somoza na Nicarágua, para não mencionar ditaduras mais recentes na Argentina, Brasil e Chile, mostram conclusivamente que os Estados Unidos e os interesses burgueses locais não acreditam em procedimentos democráticos. A retórica da direita é absolutamente falaciosa. Se, para fazer prevalecer os seus interesses, eles necessitam de matar, encarcerar ou torturar, eles farão tudo isso. Tomemos o caso de Sukarno na Indonésia e o assassínio em massa de meio milhão de pessoas para limpar o país de “comunistas”; ou os milhares de “desaparecidos” na Argentina, ou magnicídios perpetrados contra personalidades destacadas da esquerda na América Latina como João Goulart, Pablo Neruda, Orlando Letelier (em Dupont Circle, Washington DC !!!), Omar Torrijos do Panamá e Jaime Roldós do Equador, entre as personalidades mais conhecidas. O imperialismo e os governos honestos não vão bem juntos. A luta pela autodeterminação nacional, para uma democracia dinâmica e uma governança honesta está condenada ao fracasso sem uma forte resistência contra o imperialismo, verdadeiro factótum dos regimes mais atrozes que já conheci na nossa região.

Sobreviverão as conquistas da revolução sandinista na Nicarágua aos contínuos ataques do imperialismo dos EUA?

Penso que sim, mas à custa de um endurecimento do regime político. Uma cidadela sitiada nunca oferece um terreno fértil para a tolerância, o pluralismo, liberdades desenfreadas. Mas os planos do império são exactamente de fazer os sandinistas regredir numa involução não democrática levando a uma “crise humanitária” que poderia servir de prelúdio a uma “solução Líbia”, invasão, caos social e econômico, desordem e linchamento de Ortega e dos seus próximos.

Não há risco de intervenção americana na Venezuela?

Existem planos. O Comando Sul disse-o há alguns anos. O problema com que estão confrontados é que as forças militares bolivarianas são fortes, bem equipadas e prontas para lutar. O Exército brasileiro hesita em participar numa invasão e os seus homólogos colombianos temem que a distração das suas forças na Venezuela crie as condições para um crescimento rápido da guerrilha no seu país. Então, eu não excluiria a possibilidade de uma intervenção militar cirúrgica dos Estados Unidos na Venezuela, mas até ao momento tudo não passou de conversas e nenhuma ação. Além disso, de forma não militar, é persistente a intervenção norte-americana na Venezuela desde a ascensão de Chávez em 1999. Sanções económicas, sabotagem, tentativas de golpe, pressão diplomática, bloqueio comercial etc. têm sido comuns e persistentes ao longo de toda a experiência bolivariana.

Como analisa a transição política em Cuba? Como explica o contínuo encarniçamento do governo dos EUA contra Cuba desde que o embargo foi introduzido em 1962?

É uma longa história. Já em 1783, John Adams solicitou a incorporação de Cuba sob a jurisdição dos Estados Unidos. Cuba tem um enorme valor geopolítico enquanto principal porta de entrada para o Caribe, considerado pelos militares e estrategas dos EUA como uma espécie de “mare nostrum”, e eles não aceitam o facto de Cuba agir como como nação soberana, com autodeterminação e não queira receber humildemente as ordens da Casa Branca. O bloqueio fracassou porque o regime revolucionário não caiu, mas os sofrimentos infligidos ao povo cubano são enormes e criminosos, tal como os obstáculos que o bloqueio causou ao desenvolvimento económico de Cuba. No entanto, a Revolução continua capaz de oferecer melhores políticas sociais em matéria de saúde, educação e segurança social do que a maioria dos países do mundo e, para Washington, é um “mau exemplo” intolerável que deve ser erradicado a todo o custo. Até agora, não foram capazes de o fazer e não penso o farão num futuro próximo.

Vê-se, por exemplo, o martírio do povo palestino pela entidade criminosa de Israel, ou o massacre do povo do Iémen pela Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos. Não será necessário ter uma frente mundial anti-imperialista seja na América, África, Europa ou Ásia, onde os povos compartilham a mesma luta: resistir ao imperialismo que devasta os países e o capitalismo que explora e sangra os povos?

Absolutamente. Chávez queria criar essa frente anti-imperialista, mas a sua solicitação não foi bem acolhida porque muitos interpretaram mal a sua proposta como sendo um renascimento ou a Terceira Internacional sob Stalin. Foi estúpido, mas infelizmente numerosas organizações populares seguiram essa linha. Samir Amin, François Houtart e eu próprio propusemos a criação de uma tal frente internacional no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e fomos derrotados, em grande parte devido à oposição de ONG’s poderosas que rejeitaram essa ideia. Não apenas isso: essas ONG’s foram também instrumentais na disseminação de um forte sentimento “antipolítico” que desprezava os partidos políticos, os dirigentes políticos e as agendas políticas. A tal ponto que foi muito difícil convidar Lula e Chávez para as reuniões sucessivas do Fórum. Hoje, isso mudou, embora eu não tenha certezas quanto à profundidade e coerência desse desenvolvimento promissor.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/pour-contrer-le-chaos-cree-par-l-imperialisme-un-leadership-honnete-et-des-institutions-fortes-doivent-s-accompagner-d-une.html[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

Leia original aqui

México e Uruguai vão realizar conferência para discutir situação da Venezuela

Militantes da oposição durante manifestação contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em Caracas, Venezuela
© REUTERS / Carlos Garcia Rawlins

Os governos do México e do Uruguai estão convocando uma conferência internacional para discutir a situação da Venezuela para o dia 7 de fevereiro em Montevidéu.

A informação foi dada pela chancelaria uruguaia que comunicou que mais de 10 países devem participar.


Os dois governos, "em virtude da posição neutra que ambos adotaram frente a Venezuela, decidiram organizar uma conferência internacional com representantes dos principais países e organizações internacionais que compartilharam esta posição diante desta situação", diz o texto.

No comunicado, os governos do Uruguai e do México alertam que o objetivo da conferência "é lançar as bases para estabelecer um novo mecanismo de diálogo que, com a inclusão de todos os Forças venezuelanas, ajudam a restaurar a estabilidade e a paz naquele país ", respondendo ao apelo do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.

México e Uruguai não reconheceram o líder da oposição e líder do parlamento, Juan Guaidó, que se proclamou presidente da Venezuela no dia 23 de janeiro, e decidiu continuar reconhecendo Nicolás Maduro como presidente do país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019013013217794-mexico-uruguai-realizar-conferencia-discutir-situacao-venezuela/

O eurocentrismo de Duarte Pacheco

ng2819496Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.


Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

 

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

 

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

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Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/01/o-eurocentrismo-de-duarte-pacheco.html

Evo Morales sobre ameaças dos EUA à Venezuela: querem devastá-la como fizeram com Iraque

Presidente da Bolívia, Evo Morales (foto do arquivo)
© REUTERS / Mike Segar

O presidente boliviano, Evo Morales, escreveu que as ameaças dos EUA à Venezuela minam a convivência pacífica dos países latino-americanos.

De acordo com Evo Morales, os Estados Unidos pretendem empobrecer e devastar a Venezuela assim com fizeram com o Iraque e a Líbia.

As ameaças dos EUA contra a Venezuela são ameaças à convivência pacífica na América Latina. Querem provocar o enfraquecimento entre irmãos com guerra e violência. O império [norte-americano] quer que Venezuela fique devastada e empobrecida como ficaram o Iraque e a Líbia

Em outro tweet, o presidente da Bolívia reforçou seu apoio a Maduro e seu desejo de que a América Latina não seja tomada por intervenções.

​América Latina é uma região de paz, defendemos novamente a construção de uma identidade sul-americana em matéria de defesa e rechaçamos qualquer tentativa de intervenção. Devemos promover a resolução pacífica de conflitos e uma cultura de paz no continente e no mundo

Desde 21 de janeiro, Venezuela está alagada em protestos antigovernamentais. O líder da oposição, Juan Guaidó, em 23 de janeiro se declarou presidente interino do país.

Os EUA e outros países, inclusive o Brasil, declararam reconhecer Guaidó como presidente interino. A Rússia apoia Nicolás Maduro como legítimo presidente da Venezuela.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019013013215766-evo-morales-ameacas-eua-venezuela-devastar/

Evo Morales vence primárias para tentar 4º mandato na Bolívia

Evo Morales, presidente da Bolívia, em Moscou
© Sputnik / Sergey Guneev

Sob críticas da oposição, o atual presidente da Bolívia, Evo Morales, venceu as eleições primárias dentro de seu partido conquistando a maioria dos votos internos e a indicação pelo partido para a candidaturas nas próximas eleições presidenciais na Bolívia.

Caso vença as eleições, Morales chegará ao 4º mandato consecutivo como presidente da Bolívia. A vitória nas eleições primárias, porém, foi oficializada pelo Tribunal Superior Eleitoral do país.

"Os candidatos Evo Morales e [seu vice-presidente] Álvaro García receberam 89,7% dos votos de seu partido, já contabilizados 77% das atas da votação", disse a presidente do Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia, María Eugenia Choque, ao apresentar durante uma coletiva de imprensa os resultados oficiais preliminares das eleições internas no partido.

Ao lado de Morales, outros oito candidatos opositores também foram confirmados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do país. As eleições de outubro deste ano colocam em disputa o mandato presidencial de 2020 a 2025.

Dentre os mais votados, estão também o candidato de direita, Oscar Ortiz, teve 71% dos votos dentro da frente 21F, enquanto o neoliberal Carlos Mesa garantiu 81% dentro do Comunidade Cidadã. Já o indígena Félix Patzi, teve 67% dos votos do Movimento Terceiro Sistema.


Os outros candidatos qualificados foram Ruth Nina, do Partido Ação Nacional Bolívia, Jaime Paz Zamora, do Partido Democrata Cristão, Víctor Hugo Cárdenas, do Unidade Cívica e Solidariedade, Virgino Lema, do Movimento Nacionalista Revolucionário e Israel Rodríguez, do Frente para a Vitória.

A validação da candidatura de Morales já era dada como certa pois participou do pleito interno de seu partido, o MAS, como chapa única. O que se repetiu nas candidaturas opositoras. Os opositores alegam que a candidatura de Evo é ilegal, porém ela foi aceita pelo TSE em cumprimento a uma sentença do Tribunal Constitucional do país. A votação nas primárias do MAS foi 10 vezes maior que a dos oito outros partidos combinados, chegando a 350 mil votos com 80% da apuração concluída.

A sentença tirou o efeito de um referendo realizado em 21 de fevereiro de 2016 que teve como resultado o rechaço à possibilidade de uma nova reeleição de Morales. O referendo é citada por uma das chapas opositoras, a da frente "Bolívia disse Não", sob a sigla 21F. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019012713195893-bolivia-evo-morales-presidencia/

Dos EUA | "Quintal das traseiras" a ferro e fogo

Michael Pompeu já deu instruções aos seus vassalos sobre como quer a guerra contra a Venezuela
José Goulão
A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em marcha. Independentementedos contornos militares que vier a assumir, o pretexto político já foi definido – a suposta "ilegitimidade" do novo mandato de Nicolás Maduro –, os encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações belicistas também, enquanto as pressões diplomáticas se intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de feição para os promotores da agressão: a juntar à disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular do território venezuelano.
A velha doutrina de Washington sobre o domínio "do quintal das traseiras" – as Américas Central e do Sul – reactivada a partir de 2008 com uma série de golpes políticos e diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores representam agora postos avançados contra os que falta abater: a "troika da tirania", definição estabelecida em Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a Bolívia, que aguarda novo assalto. A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias, absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo objectivo a Venezuela. A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma política de soberania nacional. Conspiração em Brasília e Bogotá  Viajando pelo "quintal" para abençoar a posse de Jair Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em activas reuniões de bastidores. Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que será a "luta contra os regimes autoritários de Venezuela e Cuba". Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente e general Hamilton Mourão terá exagerado até no entusiasmo, pelo menos em termos de "timing", oferecendo-se para enviar "uma força de paz" com destino a Caracas. A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o "isolamento diplomático" da Venezuela. Kerch reproduzido na Guiana Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma provocação no terreno, aliás a fazer lembrar metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch. Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da Exxon Mobil, o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono, que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido convidados. Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em 4 de Janeiro, como "uma provocação da Venezuela que põe em causa a segurança colectiva", no artigo 9º da declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima, a etapa seguinte do périplo de Pompeo. Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por Washington, assumiram esta posição partindo do princípio de que os intrometidos navios estariam em actividade em águas territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a Venezuela. Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um território florestal não habitado de 160 mil quilómetros quadrados e que resultou do facto de os colonizadores britânicos e espanhóis não terem estabelecido esse sector de fronteira entre as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano. O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015 – houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra, em 1966 – até que surgiram indícios fortes da existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais correspondentes a essa zona por definir. Porém, em 9 de Janeiro, o presidente da Venezuela provou, durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional, que os navios da Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Maduro apresentou várias provas: a posição exacta em que se encontravam os navios, reveladas por um dos capitães durante conversações com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora derrubado na véspera através de um estranho episódio: o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo numa moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá. O presidente Nicolás Maduro exigiu então, na sequência da apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do Canadá. Doutrina agressiva Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a "ilegitimidade" do novo mandato de Maduro, porque resultante de eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54% de abstenções, alegadamente devido a um boicote por sectores da oposição fascista dirigida de Washington. Ora as abstenções de 54% são comuns nas eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de transporte e outras situações anómalas. E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas eleições que entronizaram Sebastián Piñera, discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na eleição de Juan Hernandez nas Honduras, de tal modo que os Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la. E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que, segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada? A "ilegitimidade" de Maduro, estabelecida apesar da coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o combustível das acções de guerra contra a Venezuela. 
Eis que se fala da Rússia Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao colectivizarem os objectivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem caminhos próprios de desenvolvimento. Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que desencorajem a formação de governos independentes e com pouca vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa actividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a reactivação da Quarta Esquadra norte-americana, os exercícios militares gigantescos e provocatórios são sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha. Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à ocupação militar das Malvinas argentinas a criação, a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas. Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro, não seja desenquadrada desse objectivo de Londres – e que o Canadá tenha ajudado. No contexto geral, porém, também é certo que os países que apostam na soberania política e económica, como a Venezuela, têm diversificado as suas relações com nações e regiões de outros continentes. Pelo que os interesses dos Estados Unidos e aliados no "quintal das traseiras" de Washington não são os únicos no terreno. Outros foram sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões. As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado, do mesmo modo que as da Venezuela com a China. Não sendo de ignorar também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na Nicarágua. Além disso, como é de conhecimento geral, a relação de forças mundial está em mudança significativa – a própria supremacia militar é hoje muito mais repartida. Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da Venezuela, a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de Estado coordenada pela administração de George W. Bush. Uma base na qual Moscovo encara a possibilidade de estacionar bombardeiros estratégicos, o que traz à memória as angústias vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada "crise dos mísseis" em Cuba, em 1962. Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colónias contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola de inocentes. 
16/Janeiro/2019
O original encontra-se em www.oladooculto.com/noticias.php?id=202 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/dos-eua-quintal-das-traseiras-ferro-e.html

Especialista pondera de quem Venezuela pode ou não se defender em caso de conflito direto

Soldado venezuelano
© AFP 2018 / Federico Parra

Perante a situação venezuelana e repercussão, especialista acredita que o país possui potencial bélico para reagir a qualquer ameaça de países inimigos da região.

Apesar de os venezuelanos possuírem capacidade de lutar com os países da região, Caracas não seria capaz de vencer um conflito contra os EUA, declarou o especialista militar Konstantin Sivkov.

"O Exército da Venezuela atualmente é capaz de repelir efetivamente as forças armadas de países vizinhos, como, por exemplo, da Colômbia, que disputa território com Caracas", observou o especialista.

Além disso, a "Venezuela possui modernas armas russas, como aviões e blindados, incluindo os tanques modernizados T-72 e os blindados BTR-80A, enquanto que o Exército colombiano é equipado com antigas armas americanas, das quais algumas delas são da época da Segunda Guerra Mundial", afirmou Sivkov.


"Contudo, em caso de uma intervenção de vários países e de uma única vez, como Colômbia e Brasil com a participação dos EUA, que utilizariam os exércitos latino-americanos como ‘bucha de canhão', limitando-se a ataques aéreos, a Venezuela não poderia vencer um enfrentamento direto", completou.

Para o especialista, em caso do confronto direto, a única opção de Caracas seria iniciar uma guerra de guerrilhas que poderia durar décadas, assim como no Afeganistão e Iraque, entretanto, os EUA deixaram o Irã por não saberem enfrentar uma guerra de guerrilhas.

Em 23 de janeiro, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se declarou presidente interino da Venezuela em meio a protestos da oposição contra o governo de Nicolás Maduro.

Como resultado da ação, os EUA e uma série de outros países, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela. O atual líder venezuelano, Nicolás Maduro, afirma se manter como chefe de Estado constitucional e chamou Guaidó de "marionete dos EUA".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019012513183577-venezuela-defender-conflito-direto/

Fascismo em marcha na América Latina e na UE

(Por Peter Koenig, in Global Research, 12/11/2018)

bresil-bolsonaro

A América Latina está a reconverter-se no “quintal” de Washington e, como atividade paralela, está a voltar à esfera fascista, semelhante, mas pior, do que nos anos 60, 70 e 80 quando ficou sob a influência da Operação ou Plano Condor, liderada pela CIA. Muitos chamam à atual tendência de direita de Operação Condor II, que está provavelmente tão próxima da verdade quanto possível. É tudo fabricado por Washington/CIA, apenas com maior rigor e sofisticação do que o Plano Condor de há 40 e 50 anos atrás. Por muito que custe dizer, depois de todos os louros e glória remetidos à América Latina – com Hugo Chávez, Fidel Castro, Rafael Correa, Evo Morales, Lula, os Kirchner, José Mujica, Michelle Bachelet – mais de 80% da população da América Latina havia vivido durante cerca de 15 a 20 anos sob governos democraticamente eleitos, verdadeiramente progressistas, na sua maioria com inclinação de esquerda. Em pouco tempo, em menos de 3 anos, a “mesa virou”.


A América Latina foi durante cerca de 20 anos a única parte do mundo ocidental, que esteve totalmente afastada das garras do império. Sucumbiu novamente às forças do mal, às forças do dinheiro, às forças da corrupção total e da ganância. Os povos da América Latina traíram os seus próprios princípios. Fizeram-no novamente. Os seres humanos permanecem reduzidos, como em tempos ancestrais, aos poderes infalíveis da reprodução e do ego cum ganância. Parece que no final, o ego e a ganância vencem sempre as forças da luz, do bem, da paz e da harmonia. É por isso que até o Banco Mundial chama a corrupção como o maior obstáculo ao desenvolvimento. Referem-se ao desenvolvimento económico; Quero dizer desenvolvimento consciencioso. Desta vez, o truque usado são campanhas eleitorais falsas e fraudulentas; eleições compradas; Washington instigou golpes parlamentares – que no Brasil, levou o presidente não eleito Temer ao poder, um prelúdio para o pior, que ainda estava para vir, o fascista, misógino, racista e autoproclamado militar, Jair Bolsonaro.

A eleição presidencial de 2015 na Argentina trouxe uma vitória inteligentemente fabricada em Washington para Mauricio Macri, um amigo e ex-sócio de Donald Trump, por assim dizer. A eleição foi manipulada pelo agora bem conhecido método maquiavélico da Cambridge Analytica, de enganar os eleitores através de mensagens individualizadas espalhadas pelas redes sociais, para os fazer acreditar em todo tipo de mentiras sobre os candidatos. Os eleitores foram assim, apanhados de surpresa, quando o adversário de Macri, o esquerdista Daniel Scioli da Frente para a Vitória, que era líder nas sondagens, foi derrotado.

Atualmente, Macri, tem adotado uma agenda económica fascista, endividou o país com os pacotes de austeridade do FMI, aumentou o desemprego e a pobreza que se situavam nos 12% antes da sua eleição em 2015, para próximo dos 40% em 2018. Macri está a levar a Argentina em direção a um cenário déjà-vu dos anos 80 e especialmente 1990, quando sob pressão dos EUA, FMI e Banco Mundial, o país teve de adotar o dólar dos EUA como moeda local, ou, para ser exato, a Argentina podia manter o peso mas tinha de se comprometer com a paridade de um-para-um com o dólar americano. A explicação oficial para esta situação em termos económicos (impor o uso da moeda de um país para a economia de outro país não é apenas insano, é absolutamente criminoso) era poder parar a altíssima taxa de inflação – o que temporariamente aconteceu, mas em detrimento da classe trabalhadora, para quem produtos básicos e bens comuns se tornaram inacessíveis.

O desastre foi pré-programado. E o colapso da economia argentina aconteceu em 2000 e 2001. Finalmente, em Janeiro de 2002, o presidente Eduardo Duhalde acabou com a notória paridade peso-dólar. O peso foi primeiro desvalorizado em 40% – depois flutuou para uma desvalorização de 70% e gradualmente fixou-se em outras moedas internacionais, como o euro, o iene japonês e o yuan chinês. Por fim, a nova moeda flutuante permitiu que a economia argentina ganhasse um novo impulso e se recuperasse rapidamente. Talvez muito rapidamente, para o bem da Argentina.

A economia cresceu substancialmente sob os governos de esquerda dos Kirchner. Governos plenamente eleitos democraticamente. A economia não apenas cresceu rapidamente, como também cresceu de forma “distributiva”, o que significou a redução da pobreza avaliada em quase dois terços da população em 2001, para cerca de 12%, apenas um mês antes de Macri ser catapultado para o cargo por Washington e pela Cambridge Analytica, em Dezembro de 2015. A Argentina voltava a ser rica; agora poderia ser novamente ordenhada e extorquida pelo setor bancário e pelo corporativismo internacional, protegidos por três bases militares dos Estados Unidos recém-criadas nas províncias de Neuquen, Misiones e Tierra del Fuego. As bases  estarão inicialmente sob o Comando Sul dos EUA, mas provavelmente em pouco tempo serão convertidas em bases da OTAN. A OTAN já está na Colômbia e poderá em breve expandir-se para o Brasil de Bolsonaro.

Embora ninguém compreenda realmente o que a Organização do Tratado do Atlântico Norte tem a fazer na América do Sul – a resposta não é importante. O império adequa-se ao que se ajusta ao propósito. Não há regras, ética, nem leis – tudo vale perante o neoliberalismo. A OTAN deverá tornar-se numa força de ataque militar sob o controle de Washington e dirigida por aqueles poucos “iluminados”, que mexem os cordelinhos por trás das cortinas, desde o obscuro “Estado Profundo”.

Macri marcou o início do novo fascismo da América Latina. A América do Sul lutou por 15 a 20 anos para se tornar independente dos senhores neoliberais do norte. Foi agora reabsorvida na elite do norte, no “quintal” do império – sim, infelizmente foi nisso que a América Latina se tornou em grande parte, num mero “quintal” de Washington.

A ditadura de direita da Argentina imposta por Washington, foi precedida pelo golpe parlamentar do Paraguai em 2012, que em abril de 2013, levou ao poder Horacio Cartes, do partido de extrema-direita Colorado. O Partido Colorado foi também o partido de Alfredo Stroessner, o brutal ditador militar fascista que governou o Paraguai de 1954 a 1989.

No Chile, em 11 de Setembro de 1973, um socialista democraticamente eleito, Salvador Allende, foi derrubado sob o comando da CIA e um brutal ditador militar, Augusto Pinochet, foi instalado no poder por quase 30 anos. Depois de uma breve aparição de governos de centro e com inclinação de esquerda, o Chile, em Dezembro de 2017, voltou à política neoliberal de direita com Sebastian Piñera, ex-sócio de Pinochet. Rodeado com os seus amigos neoliberais e cúmplices próximos da Argentina, Colômbia, Brasil, Peru e até no Equador, com certeza Sebastian Piñera irá adoptar as regras económicas neofascistas de extrema direita, e assim, cairá nas boas graças dos bancos de Washington e seus instrumentos, o FMI e o Banco Mundial.

O fascismo está em marcha. Isto apesar do facto de que 99,99% da população, não apenas na América Latina, como em todo o mundo, não querem nada com o fascismo – então, onde está a fraude? Por que ninguém está a investigar os golpes e fraudes no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia? – para depois se apresentar os resultados para toda a gente ver?

Entretanto, aprendemos sobre a Cambridge/Oxford Analytica (CA & OA). Como operam e enganam o eleitorado. Eles mesmos finalmente admitiram o uso de métodos dentro dos quais operam e influenciam os eleitores com recurso a mentiras – com dados roubados ou comprados das redes sociais, principalmente do Facebook; milhões e milhões de dados pessoais para chegar electronicamente a grupos específicos de pessoas – bombardeando-as com mentiras para promover ou denegrir um ou outro candidato.

E foi precisamente isso que aconteceu no Brasil. Uma semana antes do segundo turno das eleições, ocorrido no último domingo, 28 de Outubro, Fernando Haddad (PT) lançou uma investigação criminal precisamente por esse motivo contra a campanha de Bolsonaro. Claro, nada aconteceu. Todos os juízes, tribunais e advogados estão sob o controle do não-eleito governo corrupto de direita Temer – que chegou ao poder através de um golpe parlamentar implacável orquestrado no estrangeiro, impugnando sob pretensões totalmente falsas a presidente eleita democraticamente Dilma Rousseff.

E agora – não há ninguém a investigar o que aconteceu no Brasil? Como se trouxe um “menino” militar como Jair Bolsonaro até ao poder? A esquerda está morta? Estarrecida até ao esquecimento? – Por quê? Com todas as lições para serem aprendidas ao redor do mundo, e para não ir mais longe, na vizinha Argentina – como pode a esquerda brasileira ser tão cega e ingénua, ao ponto de não perceber que seguindo o sistema  legal criminoso do seu país, é seguir o caminho para a sua própria morte, cavando a sua própria cova?

Desde o primeiro dia, os EUA contam firmemente com Bolsonaro para cercar a Venezuela, juntamente com a Colômbia. O presidente Trump já expressou as suas expectativas de trabalhar “estreitamente” com o novo governo de Bolsonaro em “questões de comércio, militar – e outras coisas”. Bolsonaro já se reuniu com Mike Pompeo, o secretário de Relações Exteriores dos EUA, e este último disse-lhe que a situação na Venezuela é uma “prioridade” para o Brasil. Ai está; Washington dita aos líderes estrangeiros as suas prioridades. Bolsonaro vai obedecer, com certeza.

Acorde – ESQUERDA! – não apenas na América Latina, mas em todo o mundo.

Hoje, são os principais meios de comunicação social que aprenderam os truques e as trapaças e aperfeiçoaram a Cambridge e Oxford Analyticas; e fazem-no sem parar. Possuem todo o dinheiro falso e fiduciário do mundo para poder pagar essas campanhas falsas e enganosas – Eles são propriedade da elite militar e financeira corporativa, CIA, MI6/5, Mossad – são propriedade e administrados pelo neoliberalismo ocidental todo abrangente cum fascismo. Os grupos de elite ricos têm livre acesso à oferta monetária falsa e fiduciária – o seu governo é fornecido tanto nos EUA quanto na Europa; a dívida não é problema para eles, desde que “se comportem”.

Sim. A ênfase está no saber comportar-se. As tendências ditatoriais são também omnipresentes na UE e, em especial, na não eleita Comissão Europeia (CE) , que é quem dita as regras em todas as questões importantes. O governo eurocético  5 Estrelas da Itália apresentou o seu orçamento para 2019 em Bruxelas. Não só foi o governo italiano repreendido por estender as suas contas com um défice superior à margem de 3% da dívida imposta pela UE, como também teve que apresentar um novo orçamento num prazo de 3 semanas. É assim que um governo da UE que não se comporta bem é tratado. Que alcance tem o controlo autoritário da UE em relação a um governo soberano. E “soberania” é – a UE ostenta – a chave para uma União Europeia coerente.

Por outro lado, a França tem infringido durante anos a famosa regra dos 3%. Aconteceu novamente com o orçamento de 2019. No entanto, o governo francês apenas recebeu uma nota esboçada, dizendo: por favor, reconsiderem o défice orçamental para o próximo ano. Não houve nenhuma reprimenda. Não se repreende uma Criança dos Rothschild. Dois pesos duas medidas, corrupção, nepotismo, estão entre os atributos do fascismo. Está a crescer rapidamente em todo o Ocidente. Está a assumir vida própria. E os militares estão preparados. Em toda parte. Se ao menos eles, os militares, acordassem e ficassem do lado do povo em vez do da elite dominante que os trata como seus peões. Contudo, eles fazem parte do povo; pertencem à mais comum das pessoas. No final, eles receberão o mesmo tratamento que as pessoas – serão torturados e mortos quando não forem mais necessários, ou quando não se comportem da maneira que os neofascistas pretendem.

Então, Caros Homens e Mulheres do Exército – por que não prevenir tais riscos e ficar ao lado das pessoas desde o começo? – Todo o sistema, criminoso e falso, entraria em colapso se não tivesse a proteção da polícia e dos militares. Vocês, queridos Homens e Mulheres, formam a Polícia e os Militares, vocês têm o poder e a obrigação moral de apoiar o povo, e não defender governantes cruéis, elitistas e criminosos – à la Macri, Bolsonaro, Piñera, Duque, Macron, May. e Merkel. E há muitos mais da mesma estirpe.

Um dos primeiros sinais do que viria a acontecer em toda a América Latina para depois se espalhar pelo mundo ocidental, foi a “falsa eleição” de Macri, em 2015, na Argentina. Alguns de nós viram isso chegando e escrevemos sobre o assunto. Nós fomos ignorados, até ridicularizados. Foi-nos dito que não entendemos o processo democrático. Sim certo. Entretanto, a tendência para a direita, para um estado permanente de emergência, uma Lei Marcial de facto, tornou-se irreversível. A França incorporou o estado permanente de emergência na sua Constituição. Militares e Polícias armados são presença constante em toda Paris e nas principais cidades de França.

Existem poucas, muito poucas exceções restantes na América Latina, e na verdade, em todo o mundo ocidental.

E vamos fazer o que pudermos para salvá-los do bulldozer do fascismo.


(O autor, Peter Koenig é economista e foi funcionário do Banco Mundial. Trabalhou em todo o mundo, no campo do meio ambiente e recursos hídricos. Escreve regularmente para Global Research, ICH, Voice of Russia, Ria Novosti e outras páginas internet. É autor de Implosion – An Economic Thriller about War, Environmental Destruction and Corporate Greed – romance-reportagem baseado em 30 anos de experiências do Banco Mundial em todo o mundo.)


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcha atrás – O Mercosul não existe

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de retirar o brasão do Mercosul dos passaportes nacionais – movimento contrário ao que se vem praticando há anos na Europa, onde o símbolo da UE vem gravado nos passaportes de cada país membro, contribuindo assim para gerar um sentimento de comunidade – expressa bem o forte sentimento nacionalista de que está imbuída a nova direcção política do país.

Um gesto simbólico que não deixará de ser interpretado pelos outros membros do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – como um sinal mais do desinteresse do Brasil em aprofundar a cooperação e a integração regionais.

É o culminar de um estado de espírito muito presente em certos círculos de Brasília, que tendem a ver no Mercosul mais um entrave do que um estímulo ao desenvolvimento do país.

É pena que assim seja, mas a verdade é que a integração regional está praticamente parada e é possível apontar muitos exemplos da falta de políticas conjuntas nas mais variadas áreas.

Dos dois casos que vivenciámos pessoalmente ilustram bem essa situação. Na primeira tentativa que fizemos de entrar no Uruguai por estrada, a partir do Brasil, fomos barrados porque Montevidéu não aceita os carros em circulação no Brasil, exigindo um registo especial.

Mais recentemente, tendo esquecido o meu velho relógio no controle de segurança do aeroporto da capital uruguaia, pedi a um amigo que conheci pelo Facebook – o português Carlos Fernandes, há anos radicado no Uruguai – que fosse lá, levantasse o relógio e o enviasse pelo correio. Até aí, tudo bem. O pior foi o resto. Quando o relógio chegou a Brasília, a Alfândega brasileira taxou-o duas vezes – uma em nome da Federação e a outra em nome do Estado de entrada (São Paulo)!!! Conclusão – valia mais ter esquecido o velho relógio e comprado um novo…

Por estes dois episódios banais vê-se bem em que nível estão a liberdade de circulação de pessoas e bens, que deveriam ser o básico de qualquer projecto de união.

Por vezes criticamos muito – e com razão – a UE pelas suas insuficiências, em particular no que respeita às políticas sociais e o claro distanciamento arrogante das suas elites burocráticas sediadas em Bruxelas.

Mas, meu Deus!: ser confrontados de novo com as barreiras nacionais do tipo daquelas que vivenciámos ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, NÃO, MIL VEZES NÃO!

O eventual regresso aos nacionalismos europeus não nos traria nada de bom – como se pode ver já pelos exemplos da Europa de Leste e agora também da Itália. Mais atenção aos interesses nacionais, mais consideração pelos parlamentos nacionais, mais políticas sociais, sim; mas regresso ao passado das barreiras alfandegárias, decididamente não. Bendita União Europeia, pelo que já se conseguiu de cooperação alargada em tantos domínios!

Decididamente, precisamos de mais Europa, não menos!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/marcha-atras-o-mercosul-nao-existe/

O Mercosul não existe… E é pena!

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de retirar o brasão do Mercosul dos passaportes nacionais – movimento contrário ao que se vem praticando há anos na Europa, onde o símbolo da UE vem gravado nos passaportes de cada país membro, contribuindo assim para gerar um sentimento de comunidade – expressa bem o forte sentimento nacionalista de que está imbuída a nova direcção política do país.

Um gesto simbólico que não deixará de ser interpretado pelos outros membros do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – como um sinal mais do desinteresse do Brasil em aprofundar a cooperação e a integração regionais.

É o culminar de um estado de espírito muito presente em certos círculos de Brasília, que tendem a ver no Mercosul mais um entrave do que um estímulo ao desenvolvimento do país.

É pena que assim seja, mas a verdade é que a integração regional está praticamente parada e é possível apontar muitos exemplos da falta de políticas conjuntas nas mais variadas áreas.

Dois casos que vivenciámos pessoalmente ilustram bem essa situação. Na primeira tentativa que fizemos de entrar no Uruguai por estrada, a partir do Brasil, fomos barrados porque Montevidéu não aceita os carros em circulação no Brasil, exigindo um registo especial.

Mais recentemente, tendo esquecido o meu velho relógio no controle de segurança do aeroporto da capital uruguaia, pedi a um amigo que conheci pelo Facebook – o português Carlos Fernandes, há anos radicado no Uruguai – que fosse lá, levantasse o relógio e o enviasse pelo correio. Até aí, tudo bem. O pior foi o resto. Quando o relógio chegou a Brasília, a Alfândega brasileira taxou-o duas vezes – uma em nome da Federação e a outra em nome do Estado de entrada (São Paulo)!!! Conclusão – valia mais ter esquecido o velho relógio e comprado um novo…

Por estes dois episódios banais vê-se bem em que nível estão a liberdade de circulação de pessoas e bens, que deveriam ser o básico de qualquer projecto de união.

Por vezes criticamos muito – e com razão – a UE pelas suas insuficiências, em particular no que respeita às políticas sociais e o claro distanciamento arrogante das suas elites burocráticas sediadas em Bruxelas.

Mas, meu Deus!: ser confrontados de novo com as barreiras nacionais do tipo daquelas que vivenciámos ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, NÃO, MIL VEZES NÃO!

O eventual regresso aos nacionalismos europeus não nos traria nada de bom – como se pode ver já pelos exemplos da Europa de Leste e agora também da Itália. Mais atenção aos interesses nacionais, mais consideração pelos parlamentos nacionais, mais políticas sociais, sim; mas regresso ao passado das barreiras alfandegárias, decididamente não. Bendita União Europeia, pelo que já se conseguiu de cooperação alargada em tantos domínios!

Decididamente, precisamos de mais Europa, não menos! E, já agora, de mais Mercosul, não menos!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-mercosul-nao-existe-e-e-pena/

«Quintal das traseiras» a ferro e fogo

Os EUA parecem ter pressa em juntar à guerra económica e à conspiração interna uma agressão militar formal contra a Venezuela. Podem continuar a ressuscitar a velha “doutrina Monroe”, mas talvez se enganem se julgarem que o seu “quintal das traseiras” ainda é o mesmo de há cem anos.

A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em marcha. Independentemente dos contornos militares que vier a assumir, o pretexto político já foi definido – a suposta «ilegitimidade» do novo mandato de Nicolás Maduro[1] –, os encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações belicistas também[2], enquanto as pressões diplomáticas se intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de feição para os promotores da agressão: a juntar à disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular do território venezuelano.

A velha doutrina de Washington sobre o domínio «do quintal das traseiras» – as Américas Central e do Sul – reactivada a partir de 2008 com uma série de golpes políticos e diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores representam agora postos avançados contra os que falta abater: a «troika da tirania», definição estabelecida em Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a Bolívia, que aguarda novo assalto.

A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias, absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo objectivo a Venezuela.

A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma política de soberania nacional.

Conspiração em Brasília e Bogotá

Viajando pelo «quintal» para abençoar a posse de Jair Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em activas reuniões de bastidores.

Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que será a «luta contra os regimes autoritários de Venezuela e Cuba». Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente e general Hamilton Mourão (1) terá exagerado até no entusiasmo, pelo menos em termos de timing, oferecendo-se para enviar «uma força de paz» com destino a Caracas.

A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o «isolamento diplomático» da Venezuela.

Kerch reproduzido na Guiana

Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma provocação no terreno, aliás a fazer lembrar metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch.

Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da Exxon Mobil[3], o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono, que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido convidados.

Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em 4 de Janeiro, como «uma provocação da Venezuela que põe em causa a segurança colectiva», no artigo 9º da declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima, a etapa seguinte do périplo de Pompeo.

Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por Washington, assumiram esta posição partindo do princípio de que os intrometidos navios estariam em actividade em águas territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a Venezuela.

Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um território florestal não habitado de 160 mil quilómetros quadrados (2) e que resultou do facto de os colonizadores britânicos e espanhóis não terem estabelecido esse sector de fronteira entre as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano.

O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015 – houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra, em 1966 – até que surgiram indícios fortes da existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais correspondentes a essa zona por definir.

Porém, em 9 de Janeiro, a Vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez (3) provou, durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional,[4] que os navios da Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Delcy Rodríguez apresentou várias provas: a posição exacta em que se encontravam os navios, reveladas por um dos capitães durante conversações com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora derrubado na véspera através de um estranho episódio: o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo[5] numa moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá[6].

O Governo venezuelano exigiu então[7], na sequência da apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do Canadá.

Doutrina hipócrita

Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a «ilegitimidade» do novo mandato de Maduro, porque resultante de eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54% de abstenções, alegadamente devido a um boicote por sectores da oposição fascista dirigida de Washington.

Ora as abstenções de 54% são comuns nas eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de transporte e outras situações anómalas.

E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas eleições que entronizaram Sebastián Piñera, discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na eleição de Juan Hernández nas Honduras, de tal modo que os Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la.

E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que, segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada?

A «ilegitimidade» de Maduro, estabelecida apesar da coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o combustível das acções de guerra contra a Venezuela.

Eis que se fala da Rússia

Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao colectivizarem os objectivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem caminhos próprios de desenvolvimento.

Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que desencorajem a formação de governos independentes e com pouca vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa actividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a reactivação da Quarta Esquadra norte-americana, os exercícios militares gigantescos e provocatórios são sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha.

Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à ocupação militar das Malvinas argentinas a criação, a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas. Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro, não seja desenquadrada desse objectivo de Londres – e que o Canadá tenha ajudado.

No contexto geral, porém, também é certo que os países que apostam na soberania política e económica, como a Venezuela, têm diversificado as suas relações com nações e regiões de outros continentes. Pelo que os interesses dos Estados Unidos e aliados no «quintal das traseiras» de Washington não são os únicos no terreno. Outros foram sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões.

As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado[8], do mesmo modo que as da Venezuela com a China[9]. Não sendo de ignorar também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na Nicarágua.

Além disso, como é de conhecimento geral, a relação de forças mundial está em mudança significativa – a própria supremacia militar é hoje muito mais repartida.

Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da Venezuela (4), a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de Estado coordenada pela administração de George W. Bush.

Uma base na qual Moscovo encara a possibilidade de estacionar bombardeiros estratégicos[10], o que traz à memória as angústias vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada «crise dos mísseis» em Cuba, em 1962.

Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colónias contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola de inocentes (5).

Notas
(1) O general Hamilton Mourão[11] (1953), conhecido maçon, representa uma poderosa corrente reaccionária entre os militares brasileiros. É filho do general de divisão com o mesmo nome que participou no golpe pró-americano de 1964, ajudando a instaurar a famigerada ditadura militar brasileira[12]. Tem-se distinguido pelas suas opiniões ultra-reaccionárias. Em Setembro de 2017, durante uma palestra[13] numa loja maçónica da capital do Brasil, ameaçou uma nova intervenção dos militares na política brasileira. Foi passado à reserva[14] mas manteve-se como porta-voz da corrente reaccionária militar e é o homem-forte dos militares por trás do ex-capitão Bolsonaro.

(2) Trata-se do território conhecido como Guayana Esequiba[15], ou El Esequibo, reclamado pela Venezuela[16] (privilegiando meios pacíficos e de diálogo[17] entre as partes) como parte integrante do seu território desde o Acordo de Genebra[18], em 17 de Fevereiro de 1966 (o texto integral do acordo pode ser lido aqui[19]), decisão que a Guiana disputa[20]. A recomendação do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para levar o assunto ao Tribunal Internacional de Justiça, «esquecendo» o Acordo de Genebra, foram firmemente rejeitadas pela Venezuela[21].

(3) Delcy Rodríguez[22] (1969), que tem desempenhado altos cargos na República Bolivariana de Venezuela desde o Presidente Hugo Chávez, é filha de Jorge Antonio Rodríguez[23] (1942-1976), revolucionário barbaramente torturado e assassinado pela polícia secreta venezuelana em 1976[24], durante a presidência de Carlos Andrés Pérez.

(4) A Constituição venezuelana proíbe o estabelecimento de bases militares estrangeiras no seu território, mas a Rússia e a Venezuela parecem ter encontrado uma solução satisfatória para a presença, nesta ilha das Caraíbas, de bombardeiros de longo alcance capazes de atingir solo norte-americano. Segundo a RT News, citando uma fonte não-oficial, «os bombardeiros russos poderiam ser deslocados para a ilha de uma forma rotativa em vez de estarem permanentemente estacionados[25]» na mesma.

(5) Segundo a Telesur, o governo russo avisou os Estados Unidos[26] contra os resultados «catastróficos» de um empreendimento militar contra a Venezuela. «Avisamos as “cabeças quentes” de Washington contra tais tentações, declarou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo em conferência de imprensa do passado dia 9 de Janeiro.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/quintal-das-traseiras-ferro-e-fogo[27]

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References

  1. ^ a suposta «ilegitimidade» do novo mandato de Nicolás Maduro (misionverdad.com)
  2. ^ provocações belicistas também (www.abrilabril.pt)
  3. ^ ao serviço da Exxon Mobil (misionverdad.com)
  4. ^ durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional, (albaciudad.org)
  5. ^ o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo (fox17.com)
  6. ^ e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá (newsroom.gy)
  7. ^ O Governo venezuelano exigiu então (www.abrilabril.pt)
  8. ^ As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado (www.radiomundial.com.ve)
  9. ^ as da Venezuela com a China (www.radiomundial.com.ve)
  10. ^ bombardeiros estratégicos (www.rt.com)
  11. ^ general Hamilton Mourão (pt.wikipedia.org)
  12. ^ É filho do general de divisão com o mesmo nome que participou no golpe pró-americano de 1964, ajudando a instaurar a famigerada ditadura militar brasileira (www.mintpressnews.com)
  13. ^ Em Setembro de 2017, durante uma palestra (www.alainet.org)
  14. ^ Foi passado à reserva (www.cartacapital.com.br)
  15. ^ Guayana Esequiba (es.wikipedia.org)
  16. ^ El Esequibo, reclamado pela Venezuela (www.telesurtv.net)
  17. ^ meios pacíficos e de diálogo (mundo.sputniknews.com)
  18. ^ Acordo de Genebra (es.wikipedia.org)
  19. ^ aqui (www.consulvenevigo.es)
  20. ^ que a Guiana disputa (www.contrapunto.com)
  21. ^ foram firmemente rejeitadas pela Venezuela (mundo.sputniknews.com)
  22. ^ Delcy Rodríguez (es.wikipedia.org)
  23. ^ Jorge Antonio Rodríguez (es.wikipedia.org)
  24. ^ barbaramente torturado e assassinado pela polícia secreta venezuelana em 1976 (www.radiomundial.com.ve)
  25. ^ os bombardeiros russos poderiam ser deslocados para a ilha de uma forma rotativa em vez de estarem permanentemente estacionados (www.rt.com)
  26. ^ o governo russo avisou os Estados Unidos (www.telesurenglish.net)
  27. ^ https://www.abrilabril.pt/internacional/quintal-das-traseiras-ferro-e-fogo (www.abrilabril.pt)
  28. ^ endereço (www.odiario.info)
  29. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Pobreza extrema aumenta na América Latina

Cerca de 62 milhões de latino-americanos (10,2% da população) viviam em pobreza extrema em 2017, revelou esta terça-feira a Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, em Santiago do Chile.

De acordo com o Panorama Social da América Latina 2018, há 184 milhões de pessoas em situação de pobreza, 62 milhões das quais em pobreza extremaCréditos / viajejet.com

De acordo com o «Panorama Social da América Latina 2018», tornado público na capital chilena por Alicia Bárcena, directora-geral da Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL, um organismo das Nações Unidas), a percentagem de população em situação de pobreza extrema na região é a mais elevada desde 2008.

Já o indicador relativo à taxa geral de pobreza manteve-se estável no ano referido, no conjunto dos 18 países que são estudados no relatório, por comparação com 2016, depois dos aumentos registados em 2015 e 2016.

Em conferência de imprensa, Alicia Bárcena disse que, em 2017, 184 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza (30,2% da população da região), acrescentando que a expectativa da CEPAL é de que, em 2018, esse número seja reduzido em dois milhões. No entanto, o organismo regional da ONU estima que, nesse ano, o número de indivíduos a viver em pobreza extrema aumentou um milhão, passando para 63 milhões.

Analisando e comentando estes dados, Bárcena destacou «os avanços importantes alcançados na região entre a década passada e meados da actual», mas alertou para «os retrocessos registados a partir de 2015, sobretudo no que respeita à pobreza extrema».

40% dos trabalhadores auferem salários abaixo do salário mínimo

O documento revela que cerca 40% da população empregada da América Latina aufere salários inferiores ao salário mínimo estabelecido no seu país e que essa proporção é muito mais elevada entre as mulheres (48,7%) e os jovens dos 15 aos 24 anos (55,9%).

Outro dado referido pelo «Panorama Social» é que a incidência da pobreza é 20% superior nas áreas rurais, por comparação com as cidades, sendo que as crianças e os jovens, as mulheres e as populações indígenas são os mais atingidos.

Ao analisar os países que mais conseguiram reduzir a pobreza no período 2012-2017, o relatório conclui que no Chile, em El Salvador e na República Dominicana o aumento do rendimento do trabalho nos lares foi o que mais contribuiu para essa diminuição. Já na Costa Rica, no Panamá e no Uruguai os factores decisivos para a redução da pobreza foi o aumento da protecção social prestada às famílias com menores recursos.

Tendo em conta a situação analisada e os desafios que ela coloca, Alicia Bárcena defendeu que «os governos devem promover políticas públicas complementares de protecção social e de inclusão no mercado de trabalho», bem como de melhor redistribuição em termos de rendimentos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-extrema-aumenta-na-america-latina

Boaventura: Adeus ao futuro?

Revolta dos escravos no Haiti. Revolução cubana. Levante zapatista. Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regridiremos agora aos Bolsonaros?
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo. Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.
No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal como Lênin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA. Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”. A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes lideres: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil) mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.
Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos. Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo. O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o caráter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.
Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, reinaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo. Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.
 
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A inauguração do passado

Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo.

Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de Janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo.

Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas.

Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.

No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético.

Tal como Lenine quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário se alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida.

O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino-americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel.

Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA.

Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a se realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”.

A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes líderes: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar.

Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil), mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo.

No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.

Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos.

Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo.

O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um activista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”.

Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o carácter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para a sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.

Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação.

Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, re-inaugurações de um passado que se julgava superado.

O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à Revolução Francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade.

Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo.

Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita.

Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas.

Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.


Por Boaventura Sousa Santos, Sociólogo, Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Sul21 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-inauguracao-do-passado/

Repudiamos a ofensiva do Grupo de Lima contra a Venezuela; apoiamos a luta do povo venezuelano pela soberania e a paz

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) repudia veementemente a contínua ofensiva dos países do Grupo de Lima, alinhados à agenda do imperialismo estadunidense, contra a República Bolivariana da Venezuela. Em nota de 4 de janeiro, os membros do grupo, à exceção do México, declararam não reconhecer o governo do presidente Nicolás Maduro, legitimamente reeleito pelo povo venezuelano nas eleições de 2018.

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As forças democráticas e da paz e de todo o mundo têm condenado o cerco midiático, político e econômico orquestrado pela oligarquia nacional e regional e pelos Estados Unidos contra o governo da Venezuela. Tal conluio visa fazer descarrilar a revolução bolivariana, desestabilizar o país e enfraquecer a soberania venezuelana precipitando uma “mudança de regime”, ou seja, um repugnante golpe de estado.

Entre os países signatários da ultrajante declaração, onde ainda ousam demandar que o presidente Maduro ignore o voto que o povo venezuelano lhe concedeu para assumir novo mandato nesta quinta-feira (10), estão aqueles governados por forças antidemocráticas e antipopulares sem legitimidade para se arrogar o papel de defensores da democracia venezuelana.

Ademais de o pretexto ser reconhecimento da ingerência direta nos assuntos do país irmão, governos como o do Brasil, antes sob o mando do golpista Michel Temer e agora sob o do autoritário e ofensivo Jair Bolsonaro, alimentam a crise na Venezuela e buscam inflar a polarização, agravando a situação que tem como vítima direta o povo venezuelano.

Também são impactados os esforços de cooperação e os princípios de amizade e respeito mútuo com que até recentemente governos progressistas buscavam consolidar uma integração regional solidária e soberana, independente do jugo dos Estados Unidos.

Exigimos o fim das medidas ofensivas como as sanções e demais medidas de desestabilização que causam sofrimento ao aguerrido povo venezuelano e dificultam os esforços do governo e das forças democráticas no país para resolver a crise.

Reafirmamos nosso repúdio à posição do governo Bolsonaro e aliados no Grupo de Lima, em posição agressiva diametralmente oposta aos princípios reforçados na Proclamação da América Latina e Caribe como Zona de Paz pela Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) na cúpula de 2014. O compromisso com tal proclamação requer o respeito à soberania das nações para a consolidação de relações de cooperação e amizade na região.

Tirem as mãos da Venezuela!
Viva a luta do povo venezuelano em defesa da sua soberania!
Pela paz e a solidariedade entre os povos da América Latina e Caribe!

Direção Nacional – CEBRAPAZ
09 de janeiro de 2019

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

Declaração do Grupo de Lima

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Os governos de Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia, ante o início, em 10 de janeiro de 2019, do mandato presidencial ilegítimo do regime de Nicolás Maduro (2019-2025) na Venezuela, expressam o seguinte:

1. Reiteram que o processo eleitoral realizado na Venezuela em 20 de maio de 2018 carece de legitimidade por não haver contado com a participação de todos os atores políticos venezuelanos, nem com a presença de observadores internacionais independentes, nem com garantias e padrões necessários a um processo livre, justo e transparente. Consequentemente, não reconhecem a legitimidade do novo mandato presidencial do regime de Nicolás Maduro, que terá início em 10 de janeiro de 2019.

2. Ratificam seu total respaldo e reconhecimento à Assembleia Nacional, legitimamente eleita em 6 de dezembro de 2015, como o órgão constitucional democraticamente eleito na Venezuela.

3. Instam Nicolás Maduro a não assumir a presidência em 10 de janeiro de 2019, a respeitar as competências da Assembleia Nacional e transferir-lhe, temporariamente, o exercício do Poder Executivo até que novas eleições presidenciais democráticas sejam realizadas.

4. Enfatizam a importância do respeito à integridade, à autonomia e à independência do Tribunal Superior de Justiça legitimamente constituído, de acordo com a Constituição venezuelana, para a plena vigência do estado de direito naquele país.

5. Reafirmam sua firme e inequívoca condenação à ruptura da ordem constitucional e do estado de direito na Venezuela, observando que somente por meio da rápida e plena restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos, será possível dedicar-se às causas da crise política, econômica, social e humanitária que atravessa esse país.

6. Expressam sua convicção de que a solução da crise política na Venezuela cabe aos venezuelanos e, portanto, reiteram sua determinação permanente em apoiar as iniciativas políticas e diplomáticas que levem à restauração da ordem constitucional, da democracia e do estado de direito naquele país, por meio da condução de um novo processo eleitoral com garantias democráticas.

7. Manifestam sua determinação em continuar promovendo iniciativas em foros multilaterais, em particular na Organização dos Estados Americanos e no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a fim de contribuir para o restabelecimento da ordem democrática e do respeito aos direitos humanos na Venezuela.

8. Instam todos os países membros da OEA a reafirmar seu apoio à Carta da OEA e à Carta Democrática Interamericana, a fim de contribuir para o restabelecimento da ordem democrática na Venezuela.

9. Condenam qualquer provocação ou desdobramento militar que ameace a paz e a segurança na região. Conclamam o regime de Nicolás Maduro e as Forças Armadas venezuelanas a desistirem de ações que violem os direitos soberanos de seus vizinhos. Nesse sentido, expressam sua profunda preocupação com a interceptação, em 22 de dezembro de 2018, de um navio de pesquisa sísmica por parte da Marinha venezuelana dentro da zona econômica exclusiva da República Cooperativa da Guiana.

10. Reiteram sua profunda preocupação com a grave crise política e humanitária na Venezuela, que resultou no êxodo em massa de migrantes e requerentes de asilo oriundos daquele país, como resultado de atos e políticas antidemocráticas, opressoras e ditatoriais praticados pelo regime de Nicolás Maduro, que só pode ser resolvida por meio do pleno restabelecimento da ordem democrática e do respeito aos direitos humanos. Também renovam seu compromisso, na medida de suas possibilidades, de continuar prestando assistência aos migrantes procedentes da Venezuela, bem como de promover e desenvolver iniciativas de coordenação regional em resposta a essa crise. Nesse sentido, saúdam a inclusão da crise de migrantes e refugiados da Venezuela, pela primeira vez, no Apelo Humanitário Global da ONU para 2019, bem como a nomeação do representante conjunto da OIM e do ACNUR.

11. Expressam sua preocupação com o impacto sobre a economia e a segurança dos países da região causado pela crise política na Venezuela.

12. Instam o regime venezuelano a permitir a imediata entrada de assistência humanitária dirigida ao povo da Venezuela, a fim de evitar o agravamento da crise humanitária e de saúde pública naquele país e seus efeitos transnacionais.

13. Acordam as seguintes medidas:

A. Reavaliar o status ou o nível de suas relações diplomáticas com a Venezuela, com base na restauração da democracia e da ordem constitucional naquele país, e a necessidade de proteger seus nacionais e seus interesses.

B. Nos termos permitidos por suas leis internas, impedir a entrada de altos funcionários do regime venezuelano no território dos países do Grupo Lima; elaborar listas de pessoas físicas e jurídicas com as quais entidades financeiras e bancárias de seus países não devem operar ou devem realizar especial verificação de antecedentes, impedir seu acesso ao sistema financeiro e, se necessário, congelar seus fundos e outros ativos ou recursos econômicos.

C. Avaliar, com critérios restritivos, a concessão de empréstimos ao regime de Nicolás Maduro nos organismos financeiros internacionais e regionais de que fazem parte.

D. Suspender a cooperação militar com o regime de Nicolás Maduro, incluindo a transferência de armas à luz dos artigos 6 e 7 do Tratado sobre o Comércio de Armas, bem como avaliar as autorizações de sobrevoo das aeronaves militares venezuelanas em casos de assistência humanitária.

E. Intensificar os contatos com países não membros do Grupo de Lima, a fim de mantê-los informados sobre as ações do Grupo, sobre a gravidade da situação na Venezuela e sobre a necessidade de trabalhar em conjunto para o restabelecimento da democracia naquele país.

F. Com relação ao pedido feito por Argentina, Canadá, Colômbia, Chile, Paraguai e Peru ao Tribunal Penal Internacional para que se investigue o cometimento de possíveis crimes contra a humanidade na Venezuela, instar outros países a apoiar a solicitação e, ao Escritório do Procurador do Tribunal Penal Internacional, a executar com celeridade os procedimentos correspondentes.

G. Instar outros membros da comunidade internacional a adotar medidas semelhantes às acordadas pelo Grupo de Lima contra o regime de Nicolás Maduro para a restauração da democracia.

Ver original na 'Rede Voltaire'



México não assina declaração do Grupo de Lima pedindo renúncia de Maduro

O Governo do México decidiu não apoiar a declaração Grupo Lima sobre a Venezuela em respeito à "autodeterminação dos povos". A posição foi apresentada pelo subsecretário Maximiliano Reyes Zúñiga, encarregado da América Latina e o Caribe da chancelaria mexicana.

"O Governo do México, seguindo fielmente os seus princípios constitucionais de política externa, irá se abster de emitir qualquer decisão sobre a legitimidade do governo venezuelano. A autodeterminação e a não-intervenção são princípios constitucionais que o México deve seguir", disse Zúñiga na reunião do Grupo Lima de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores do México.

Zúñiga participou da reunião de chanceleres do grupo, realizada na capital peruana, ao invés do ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

Ele acrescentou que "a promoção do diálogo entre as partes para encontrar uma solução pacífica para a situação na Venezuela continuará a ser uma prioridade da política externa do México, portanto, desta vez o México não irá acompanhar o texto agora está sendo discutido".


No entanto, Zúñiga disse aos chanceleres que o México "reitera a sua preocupação com a dinâmica que alterou a paz e a prosperidade do povo venezuelano e a situação relativa ao respeito pelos direitos humanos que existe".

Na declaração desta sexta-feira (4) do Grupo Lima, os 13 países signatários indicam que não reconhecem a legitimidade do novo mandato presidencial de Nicolás Maduro na Venezuela.

Os governos do Peru, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Chile, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Santa Lúcia pediram a Maduro não assumir a presidência da Venezuela em 10 de janeiro e transferir o Poder Executivo à Assembleia Nacional (parlamento unicameral com uma maioria de oposição) até que novas eleições democráticas sejam realizadas.

O México foi o único país membro do Grupo Lima que não assinou a declaração.

O Grupo de Lima também expressou sua "profunda preocupação com o êxodo em massa de migrantes e requerentes de asilo resultante da grave crise política e humanitária naquele país".


Da mesma forma, os países signatários anunciaram que vão reavaliar suas relações diplomáticas com a Venezuela, "em função da restauração da democracia e da ordem constitucional naquele país".

Eles também concordaram em impedir a entrada em seus territórios aos altos funcionários do governo venezuelano e estabelecer sanções financeiras a indivíduos e empresas ligadas ao Executivo desse país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019010513048566-mexico-grupo-de-lima-declaracao-nao-assina-venezuela/

A «Casa de Papel» * em versão latino-americana

Alfredo Serrano MancillaA impressão massiva de dinheiro pelos bancos centrais dos EUA, UE, Japão e Grã-Bretanha funciona como mais um mecanismo de dominação económica sobre países que não têm esse privilégio, amarrando-os a um endividamento sem fim à vista.

Na última década, Estados Unidos, União Europeia, Inglaterra e Japão imprimiram o equivalente a dez milhares de milhões de dólares. Os seus respectivos bancos centrais puseram a maquineta de imprimir notas a toda a velocidade. A Reserva Federal dos Estados Unidos duplicou o seu volume entre 2008 e 2014 e depois continuou a imprimir, embora a um ritmo algo inferior. O Banco Central Europeu duplicou o seu entre 2015 e 2017. O Banco do Japão começou a incrementar o ritmo de impressão a partir de 2013 e hoje em dia o seu volume impresso tem quase o mesmo tamanho que a sua economia. No caso do Banco de Inglaterra, o seu volume multiplicou por 15 em termos de Produto Interno Bruto.

E com tanto dinheiro pelo mundo, com este excesso de liquidez global, faz sentido fazer-se esta dupla pregunta a partir de uma perspectiva latino-americana: 1) ¿serviu isto para melhorar a economia? 2) ¿quem foram os afortunados que ficaram com boa parte dessa quantidade ingente de notas impressas? Neste caso, na realidade, ao contrário do que ocorre na famosa serie “La Casa de Papel”, os ganhadores não são os cidadãos da rua. Nem tão pouco há tiros nem reféns. Mas há sim um outro método, não baseado num roubo como tal, mas sim numa vigarice milimetricamente planificada.

A sequência é a seguinte. Primeiro, o já referido: imprimem-se notas em barda que, de imediato, são emprestadas na sua maioria à grande banca a uma taxa de juro ridícula, em muitas ocasiões próxima de 0%, ou inclusivamente com taxa de juro real negativa. A justificação foi que havia que “salvar” a banca, considerada “demasiado grande para cair”. De modo que lhes foi oferecido dinheiro. Literalmente a custo zero.

Segundo, a banca demasiado grande para cair, já salva, e com o saco cheio, tinha o grande objectivo de emprestar esse dinheiro sobrante a economias periféricas, como as latino-americanas, desejosas de nutrir-se de novo capital. Este empréstimo em segunda instância não seria já a taxa zero ou a um juro muito baixo, mas era feito a uma taxa de juro mais elevada, garantindo-se assim um negócio redondo.

Há um terceiro passo: identificar aonde foi parar este dinheiro que recentemente aterrou em algumas economias latino-americanas. Chegados a este ponto, o importante antes de tudo é reter um dado claro: este “novo dinheiro” não se orientou para actividades económicas produtivas nem para a economia real. De cada 10 dólares novos, 9 terminaram em actividades financeiras, especulativas e ociosas. Então, ¿qual foi o destino do dinheiro conseguido através destes novos empréstimos? Em muitos países, como são os casos de Colômbia e México, foi empregue em pagar dívidas anteriores. Na Argentina a situação foi outra devido a que Macri recebeu um país desendividado. De modo que os dólares novos se colocaram em modo de livre oferta à disposição de quem pudesse compra-los. E assim foi: os dólares acabaram na sua grande maioria nas mãos de uns poucos fundos de investimento e da mesma banca que havia previamente emprestado os dólares; houve também dólares para bancos locais e para outros actores económicos de alto escalão (especialmente, o que na Argentina se chama o “campo”); e o resto, uma percentagem ridícula, para uma maioria que não tinha pesos suficientes para os comprar ao novo tipo de cambio depois das desvalorizações.

E é assim que chegamos ao quarto capítulo desta serie. Agora é a altura em que o mundo financeiro esfrega as mãos. ¿Porquê? Porque ainda restam muitos mais dólares para emprestar. Dez milhares de milhões de dólares são muitos dólares e não foram todos gastos na primeira fase. Com tudo o que resta por colocar, agora é o turno do FMI, que chega com os bolsos cheios de dinheiro impresso pelas maquinetas dos seus bancos centrais com uma única missão: emprestar de novo para que o país cancele a sua dívida, quer dizer, devolva o que pediu anteriormente emprestado. E assim a dívida externa vai-se constituindo em divida eterna.

Dado o domínio actual do capitalismo neoliberal, impede-se que o dinheiro novo, o que se consegue por empréstimo, seja usado para a economia real. Isto provoca que as economias latino-americanas, que se inserem no mundo pelos canais regulares, acabem sumamente endividadas, com uma economia real cada vez mais raquítica e ineficiente. O grande boom global de impressão monetária é um factor condicionante do crescente endividamento externo latino-americano, que determina para o futuro um modelo de desenvolvimento dependente, financeirizado e improdutivo e, em consequência, con uma procura interna cada vez mais débil.

«La Casa de Papel» em versão latino-americana tem um final diametralmente oposto ao que ocorre na serie. Na ficção, o dinheiro fica com um grupo de gente anónima, mas na realidade o caudal impresso vai parar à conta de resultados de uns quantos bancos à custa das economias da região. Veremos o que sucede na próxima temporada.

*«La Casa de Papel» é uma série espanhola de televisão, cujo enredo se centra num grupo de ladrões que se encerram na Casa Nacional da Moeda de Espanha. Presume-se que no decurso dos episódios imprimem papel moeda.

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2018/12/12/economia-la-casa-de-papel-en-version-latinoamericana/

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Na Bolívia, improvável êxito

Evo Morales confraterniza com líderes indígenas. Superar a dicotomia entre trabalhador X indígena foi uma das marcas da criação política do presidente

Abalada na América do Sul, a onda de esquerda permanece viva no mais frágil dos países que dela participaram. Não é por acaso

Por Santiago Mayor | Tradução: Danilo Costa N. A. Leite

Em janeiro de 2006, pela primeira vez na história da Bolívia, um presidente indígena assumia o governo. Evo Morales Ayma, dirigente sindical cocalero (movimento de proteção à folha de coca como símbolo da cultura boliviana), tinha triunfado alguns meses antes com mais de 50% dos votos em uma eleição sem precedentes.

Sua vitória inscreveu-se na onda progressista e de esquerda que chegou aos governos da América Latina durante os primeiros anos do século XXI. Naquele momento já ocupavam a presidência Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina e Tabaré Vásquez no Uruguai. Alguns meses depois se somaria Daniel Ortega na Nicarágua e no ano de 2007 Rafael Correa no Equador.

Apesar disso, comparada a seus pares, com exceção do caso uruguaio provavelmente, a Bolívia conseguiu se consolidar como um modelo social, político e econômico estável que não sofreu com as crises econômicas e políticas da Venezuela ou Nicarágua, nem perdeu seu governo por meio de golpes de Estado e ‘impeachments’ – como ocorreu no Brasil, Honduras e Paraguai – ou de eleições, como na Argentina. Qual é o motivo de tal excepcionalidade?

Estatísticas contundentes

Segundo dados do Banco Mundial, em 2006 o Produto Interno Bruto (PIB) boliviano era de 11.452 milhões de dólares. Em 2017 o número havia aumentado mais de três vezes chegando a 37.509 milhões. No mesmo período, a renda per capita anual passou de 1.120 para 3.130 dólares e a expectativa de vida subiu de 64 para 71 anos. O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) do país, por sua vez, afirma que a pobreza baixou de 59,9%, quando Evo Morales assumiu, para 36,4% no ano passado.

Por outro lado, como nota o pesquisador e mestre em Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade, Sergio Martín-Carrillo, a Bolívia “foi o país sul-americano que experimentou o maior crescimento econômico, mantendo inclusive um ritmo acima do patamar de 4%, apesar do contexto de debilidade que a região vive desde 2015”. Isso foi acompanhado por uma queda constante da inflação, que passou de 12% em 2007, a menos de 2% em 2018 até o momento.

Tais resultados se sustentaram com uma política que contradiz os postulados neoliberais que hoje inspiram os governos dos países vizinhos como Argentina, Chile, Paraguai ou o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro.

As razões

O sociólogo e escritor boliviano Antonio Abal enumerou em conversa com a reportagem “os eixos do crescimento contínuo da economia da Bolívia”.

Na sua visão, trata-se de uma política baseada em “nacionalizações de setores estratégicos, como as comunicações, os hidrocarbonetos e a mineração”; o redirecionamento dos recursos estatais, “sobretudo, para a infraestrutura produtiva”; o “fortalecimento do mercado interno”; uma política monetária de “valorização da moeda nacional”, ou seja, uma “desdolarização da economia”; e finalmente um investimento forte nos processos industriais como os do “lítio, de laticínios, têxteis, etc e fomento à pequena e média empresa, com facilidades em termos de acesso ao crédito”.

O vice-presidente do país, Álvaro García Linera, exprimiu opinião no mesmo sentido em entrevista ao jornal argentino Página 12, onde explicou o que, para ele, são os quatro fatores principais desse êxito econômico.

Em primeiro lugar, que o Estado controle como proprietário os principais setores geradores de excedente econômico: hidrocarbonetos, eletricidade e telecomunicações. Por outro lado, que leve a cabo uma redistribuição da riqueza, “mas de uma maneira sustentável”, de forma que “os processos de reconhecimento e ascensão social dos setores subalternos populares e indígenas tenham sustentabilidade ao longo do tempo”.

Em terceiro lugar, assim como Abal, sustenta que se deve “fortalecer o mercado interno” e, por último, a “articulação entre o capital bancário e o produtivo, o que implica que 60% da poupança dos bancos se dirija ao setor produtivo, gerando mão-de-obra”.

Políticas públicas de redistribuição

A isso se soma uma série de programas sociais que acompanharam a melhora econômica e que foram dispositivos que garantiram a redistribuição da riqueza. Nesse sentido, Martin-Carrillo listou três dos programas que considera mais importantes: o Bolsa Juancito Pinto (Bono Juancito Pinto), o Renta Dignidade e o Bolsa Juana Azurduy (Bono Juana Azurduy).

O primeiro deles foi lançado durante o primeiro ano de governo e visa que meninos e meninas cumpram sua trajetória na escola. Ele prevê um aporte de 200 bolivianos (29 dólares) a estudantes de escolas públicas em troca de um mínimo de 80% de frequência às aulas. Durante 2018, houve 2.221.000 de estudantes beneficiados graças a essa iniciativa. O resultado foi que entre 2006 e 2017 o abandono escolar no ensino fundamental caiu de 6,5% para 1,8% e no ensino médio de 8,5% para 4%.

Por sua vez, o Renda Dignidade (Renta Dignidad), vigente desde 2007, mira a população idosa –  com 60 anos ou mais – e prevê 250 bolivianos (36 dólares) para pessoas com aposentadoria por tempo de serviço e 300 bolivianos (43 dólares) para pessoas sem aposentadoria por tempo de serviço. 

Finalmente, o Bolsa Juana Azurduy, que está dirigido tanto a gestantes, para as quais estipula a condição de que realizem quatro exames pré-natais, parto em instituição de saúde e acompanhamento pós-parto, bem como a crianças, condicionado a 12 exames completos de saúde a cada dois meses.

Houve também uma política agressiva de incremento do Salário Mínimo Nacional, que em 2005 equivalia a 440  bolivianos (ou 57 dólares naquele momento) e chegando hoje a 2.060 (298 dólares). Ainda assim, este ano, devido ao crescimento econômico, segundo o informe da Agência Boliviana de Informação, o Executivo se dispôs a pagar o bônus duplo a todos os trabalhadores públicos e privados.

Um processo com debates e tensões

Para além de sua situação atual, os governos do Movimento ao Socialismo (Movimiento al Socialismo – MAS) não estão livres de percalços, alguns dos quais muito sérios. O ponto mais tenso talvez ocorreu no ano de 2008, quando a chamada “Meia Lua”, que incluía quatro departamentos orientais do país, tentou se emancipar do resto do território, por meio da ação de setores da direita boliviana que contavam com o apoio escamoteado dos EUA. 

Não obstante, com o respaldo da União das Nações Sul-americanas (Unasur), tal crise pôde ser superada e poucos meses depois avançava o processo de proclamação da nova Constituição no começo de 2009. Essa Carta Magna declarou o caráter “Plurinacional” do Estado, reconhecendo na lei máxima do país os povos originários historicamente negados. Evo Morales passou a encarnar assim, não somente simbólica como também institucionalmente, a ascensão definitiva dos setores marginalizados durantes séculos da política nacional.

Ainda que para Abal não se possa “falar de etapas, senão de uma aplicação persistente de um modelo econômico”, a partir daqui já se pode analisar o aprofundamento de alguns aspectos. Trata-se de um ponto de inflexão, a partir do qual se começa a falar em “socialismo comunitário”, o que o sociólogo define como “uma abordagem teórica da aplicação do marxismo e de suas categorias para compreender as lógicas dos ‘ayllus’ (comunidades)”, que como muitos autores indicaram, mantiveram estruturas de “comunismo primitivo” ou comunitárias, contrárias à propriedade privada e à acumulação individual.

Por outro lado, García Linera sustenta que, uma vez superada a ofensiva da direita, abriu-se um novo momento na revolução boliviana que ele chamou de “tensões criativas”. Ou seja, debates interiores ao processo que o fazem avançar.

A respeito disso, Abal garante que nos movimentos sociais duas tendências político-ideológicas convivem: “uma sindical, centrada nas reivindicações setoriais, e outra revolucionária, como parte do processo de mudança e parte do governo”. É na disputa entre essas duas visões que se dão as tensões criativas que, de seu ponto de vista, são “a dialética do movimento da consciência de classe”.

A lógica “centrada no operário”, segundo o sociólogo, não consegue compreender completamente “a outra lógica organizativa e ideológica dos povos originários”. E ele a atribui a uma contradição estimulada durante décadas de opor “índios e operários” e que “foi patrocinada em uma etapa do nacionalismo revolucionário (1952-1985)”. 

Finalmente, o analista aponta que “o vínculo potente se encontra entre o governo e os movimentos sociais”, onde “o grande articulador do bloco é, sem dúvida, Evo Morales, e não somente como instrumento político”. Como outra face dessa moeda, Estado e movimentos sociais “ainda estão distantes”, porque o último (sic) “mantem uma matriz colonial não superada”.

Uma revolução com futuro

Ainda que os processos políticos nacionais dificilmente possam sobreviver por muito tempo isoladamente contando somente com forças internas, o país conta ainda com aliados no continente. Para além de eventuais conflitos, há Venezuela, Nicarágua e também Cuba, país com os quais integra a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). Cabe recordar que, com a colaboração de Havana, em 2008 todo território boliviano foi declarado “livre do analfabetismo”.

Por outro lado, apesar do tropeço sofrido no referendo em começos de 2016, que impediu Morales de voltar a se apresentar nas eleições presidenciais de 2019, isso foi ao final autorizado pelo Tribunal Supremo. Com sua candidatura e uma direita por enquanto dividida, a continuidade do processo parece estar assegurada. 

Por último, porém não menos importante, García Linera realizou um prognóstico no recente Fórum Mundial de Pensamento Crítico, ocorrido em Buenos Aires, segundo o qual os governos conservadores da região durarão pouco tempo e logo virá um novo auge progressista e de esquerda.

“Estamos enfrentando uma onda conservadora neoliberal que tem dois limites intrínsecos: é fossilizada e é em si mesma contraditória”, apontou. E detalhou que nesses países estão se “repetindo as receitas que fracassaram vinte anos atrás”, o que demonstra como “não tem inventividade, nem tem criatividade e nem tem esperança”.

“O neoliberalismo atual mobiliza somente ódios e ressentimentos”, por sua vez. O que redunda em dizer que “está baseado na negatividade e não em proposições. Não na esperança em médio prazo, senão na recusa emotiva de curto prazo. E isso tem patas curtas”, completou o vice-presidente boliviano. 

Por isso, com otimismo, sentenciou: “Em vez de viver uma longa noite neoliberal, viveremos uma curta noite de verão neoliberal. E neste momento cabe a nós reconhecer o que fizemos bem, reconhecer o que fizemos mal e nos prepararmos”. “A esquerda tem que voltar a se preparar para tomar o poder nos próximos anos no continente”, concluiu.

Publicaido originalmente em RT

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/na-bolivia-improvavel-exito/

 

Filho de Bolsonaro coordena em Washington ataques contra Cuba e Venezuela

Sergio Alejandro GómezA eleição do candidato neofascista no Brasil irá repercutir-se num acréscimo da agressividade imperialista contra os regimes progressistas na América Latina e contra a Cuba revolucionária. Os EUA esperam de Bolsonaro que seja um digno sucessor dos bárbaros ditadores que mantiveram o domínio sobre o seu «pátio das traseiras».

 


 

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, encomendou a seu filho a tarefa de subordinar a política exterior da nação sul-americana aos interesses dos Estados Unidos, em especial nos temas relacionados com Cuba e Venezuela.

Eduardo Bolsonaro, senador pelo estado rico de São Paulo, viajou no início desta semana a Washington como enviado do seu pai junto do Departamento de Estado, do Departamento do Tesouro e do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, informou o diário O Globo.

Durante os seus encontros com funcionários de segunda e terceira linha em Washington, Bolsonaro Jr. mostrou-se especialmente interessado em assinar um acordo com os Estados Unidos para aumentar a perseguição financeira contra Havana e Caracas.

Segundo O Globo, o senador disse que há instrumentos de investigação dentro da chamada Convenção de Palermo contra o crime organizado que o Brasil poderia usar contra ambos países.

A judicialização da política foi a principal estratégia da direita brasileira para retirar do caminho os seus rivais , como foi o caso do líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que era favorito em todas as sondagens para as passadas eleições presidenciais, mas não pôde apresentar-se devido ao cerco com que o sistema judicial o envolveu.

Segundo se depreende das declarações de Bolsonaro, o plano do novo governo, uma vez que assuma o mandato em Brasília no próximo 1º de Janeiro, será a “internacionalização” das técnicas que permitiram destituir a mandataria eleita, Dilma Rousseff, e depois retirar Lula de jogo mediante artimanhas legais.

O Brasil está a estudar alianças com o governo estado-unidense com esse propósito, disse Bolsonaro Jr.

Adiantou inclusivamente que as accões contra Cuba e Venezuela serão coordenadas pelo Ministério da Justiça, a cargo de Sérgio Moro, o polémico Juiz que converteu as investigações de corrupção do caso Lava Jato em uma caça às bruxas contra os dirigentes do PT.

“Existem diversos instrumentos que o Brasil durante anos, de maneira intencional, não tomou a sério. São instrumentos que estão disponíveis. O Juiz Sergio Moro sabe mais do que ninguém sobre lavagem de capitais, combate ao crime organizado, Convenção de Palermo. E junto com a equipa do embaixador Ernesto Araújo, tem muito a fazer nessa área”, disse o senador no Twitter.

Bolsonaro filho sugeriu também que as investigações da Operação Lava Jato, que até agora eram encabeçadas por Moro, poderiam ser usadas para apontar possíveis activos venezuelanos e cubanos no Brasil.

O enviado do presidente eleito de Brasil foi recebido em Washington pelo secretário-geral da OEA, Luis Almagro.

Almagro é o ponta de lança de Washington contra os governos progressistas na América Latina e desde que assumiu a chefia da OEA recrudesceram os ataques contra los governos que não correspondem aos interesses norte-americanos.

Bolsonaro Jr. também se reuniu com a subsecretaria adjunta do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Kim Breier, e funcionários do Conselho de Defesa Nacional.

“Falamos principalmente do primeiro passo que o Brasil está dando de seguir junto aos Estados Unidos em temas internacionais“, disse o senador a repórteres enquanto saía do American Enterprise Institute.

A viagem aos Estados Unidos ocorre em vésperas da chegada ao Rio de Janeiro do polémico conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton, que se reunirá com Jair Bolsonaro na próxima sexta-feira.

“Feliz por receber a visita do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, o senhor John Bolton, na próxima semana; seguro de que teremos uma conversação produtiva e positiva em favor das nossas nações”, escreveu no Twitter o líder ultradireitista.

O actual assessor de Segurança Nacional de Trump foi subsecretario de Estado e depois Embaixador na ONU do governo de George W. Bush. Em ambos os cargos destacou-se pelas suas posturas ultraconservadoras e agressividade contra países soberanos.

Esteve também entre os que asseguraram a existência de armas de destruição massiva no Iraque, o que levou Washington em 2003 a uma guerra que custou milhares de milhões de dólares e deixou um número de mortos que alguns calculam superior ao milhão, sobretudo população local.

Os laços deste personagem com a ultradireita de origem cubana da Florida são conhecidos, tal como o seu historial de provocações e agressões contra a Maior das Antilhas.

A mais conhecida das suas loucuras contra Cuba foi um discurso no ano de 2002 em que declarou Havana como parte do “Eixo del mal”, o grupo de países que podia ser “bombardeado em qualquer momento” pelo governo de Bush.

Tanto o presidente eleito de Brasil como o seu filho compartilham com Bolton algumas das suas ideias mais extremistas.

Bolsonaro pai defendeu a ditadura militar brasileira durante a campanha e o seu filho ameaçou com ilegalizar alguns partidos políticos no Brasil.

Embora o novo governo brasileiro de ultradireita não tenha tomado posse, as ameaças e provocações do presidente eleito provocaram já a saída dos médicos cubanos do programa Más Médicos, o que deixará de imediato cerca de 30 milhões de pessoas sem cobertura de saúde.

De acordo com O Globo, Bolsonaro Jr. recebeu uma felicitação das autoridades estado-unidenses por demolir o programa em que participaram mais de 20 mil médicos da Maior das Antilhas e graças ao qual foram levadas a cabo mais de 100 milhões de consultas médicas.

Fonte:http://www.cubadebate.cu/especiales/2018/11/27/hijo-de-bolsonaro-coordina-en-washington-ataques-contra-cuba-y-venezuela/#.W_6K7GieTIV

Leia original aqui

Fórum reunirá líderes da esquerda ibero-americana em Buenos Aires

Líderes da esquerda ibero-americana participam a partir de hoje (19), em Buenos Aires, no Fórum Mundial do Pensamento Crítico, um contraponto à cúpula do G20 que decorrerá também na capital argentina nos dias 30 de novembro e 01 de dezembro. O evento contará com mais de 200 convidados, entre ex-Presidentes, intelectuais e líderes de movimentos sociais que debaterão o futuro da democracia, ameaçada pela desigualdade social e pelo reforço da extrema-direita.

Organizado pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), o evento decorrerá entre os dias 19 e 23, mas os dois primeiros concentrarão intervenções de líderes como os ex-Presidentes Dilma Roussef (Brasil), José Mujica (Uruguai), e Cristina Kirchner (Argentina). Os candidatos derrotados nas recentes eleições na Colômbia (Gustavo Petro) e Brasil (Fernando Haddad, Manuela D’ávila e Guilherme Boulos) também deverão participar. Ainda sob o impacto da eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil, os líderes ibero-americanos participarão em painéis como “América Latina: medo, esperança, utopia” ou “Brasil, a esperança vencerá o medo”.

Nomes importantes da esquerda, como o líder espanhol do Podemos, Pablo Iglesias, ou o ex-Presidente da Colômbia, Ernesto Samper, juntamente com acadêmicos de dezenas de países também darão a sua contribuição aos problemas globais e contemporâneos.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos participará nos debates “A igualdade explicada pelo 1% mais rico da humanidade”, “Um diálogo de saberes entre África, Ásia e América Latina” e “Pensar os desafios globais a partir da América Latina”. De Portugal também estará presente o ex-reitor da Universidade de Lisboa e candidato presidencial, António Sampaio da Nóvoa, que participa no debate sobre o desafio para as universidades públicas em “Conhecimento, Verdade e Justiça Social: qual será o futuro para a Universidade?”.

Autocrítica

O líder social argentino e consultor do Conselho Pontifício de Justiça e Paz, Juan Grabois, conhecido como “amigo do papa”, também estará presente ao Fórum. ”Acredito que um fórum do pensamento crítico tem de ser crítico e autocrítico. Não gosto dos fóruns de lamentos coletivos, de catarse. Neste momento, o campo popular progressista latino-americano necessita pensar, criticamente, a sua própria prática e não o exercício ritual da crítica à prática do rival”, disse Grabois à Lusa, agência pública de notícias de Portugal.

Para o sociólogo e cientista político chileno, Patricio Navia, Bolsonaro é “o inimigo favorito para os líderes de esquerda da América Latina” e a sua vitória pode ajudar a unificar a esquerda contra o mal maior. “A esquerda está triste porque perdeu no Brasil, mas está feliz porque Bolsonaro é o estereótipo da direita autoritária, desrespeitosa, homofóbica, violenta e racista. Com um inimigo assim, a esquerda espera ter vantagens eleitorais”, explica à Lusa Patricio Navia, da Universidade de Diego Portales e da New York University.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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https://www.jornaltornado.pt/forum-reunira-lideres-da-esquerda-ibero-americana-em-buenos-aires/

El Salvador e o aborto

El Salvador não é um país, é uma reserva do catolicismo jurássico que contamina todas as instituições, subverte os direitos da mulher e indigna os humanistas.

Em El Salvador o aborto espontâneo pode conduzir a severas penas de prisão e não há perigo de vida da mãe, malformação do feto ou violação da mulher que faça tremer a mão de um juiz ou inquiete a consciência dos legisladores. Desde 1998 a lei não permite exceções que evitem a violência da pena.

Se o aborto fosse masculino talvez fosse um sacramento; assim, é mais um anátema para a difícil condição da mulher, frequentemente pobre, rural e pouco instruída.

Em 11 de outubro de 2017 a justiça confirmou a sentença de 30 anos para Evelyn Cruz, de 19 anos, num caso manipulado por organismos que procuravam legalizar o aborto no país.

Uma jovem, Imelda Cortez, cujos testes provaram ter um défice cognitivo e emocional, está em risco de enfrentar 20 anos de prisão depois de tentar abortar um bebé concebido na sequência de várias violações, desde os 12 anos, por parte do seu padrasto. A vítima desconhecia que estava grávida e, depois de ter passado uma semana no hospital e dar à luz a criança que, aliás, sobreviveu, seguiu para a prisão.

A saúde reprodutiva da mulher é indiferente ao clero reacionário de El Salvador, o clero cuja influência nos órgãos do poder e nos resultados eleitorais é decisiva. Uma tentativa de aborto, no caso de a mulher chegar a um hospital para salvar a vida, é habitualmente denunciada e entregue à justiça pelos próprios médicos.

El Salvador é um dos cinco países com proibição total do aborto, com Nicarágua, Chile, Honduras e República Dominicana a acompanharem a violência e o anacronismo legal. A lei antiaborto é das mais violentas do mundo, levando a que as mulheres que sofrem abortos espontâneos se possam tornar suspeitas de terem induzido um aborto, e poderem ser presas por assassinato.

Em El salvador parece ter sobrevivido a misoginia e a Inquisição como pesada herança da evangelização espanhola. Por lá ficou a língua, a violência e a fé, sendo a primeira o único património a merecer respeito.

 

 

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No «processo Berta Cárceres» haverá «culpados, mas não justiça»

Os presumíveis autores materiais do assassinato da líder indígena hondurenha estão no banco dos réus, 2 anos e meio após o crime. Para a família de Berta, os verdadeiros responsáveis ficarão impunes.

Berta CáceresCréditos / goldmanprize.org

Co-fundadora do Conselho Cívico das Organizações Populares e Indígenas das Honduras (Copinh), Berta Cárceres opôs-se, com firmeza e ao longo de vários anos, ao projecto hidroeléctrico Agua Zarca, da empresa Desa, pelas graves consequências que traria para o seu povo.

Figura pública premiada pela sua tenacidade na defesa do meio ambiente, tanto ela como a sua família foram alvo de inúmeras ameaças, a tal ponto que os seus quatro filhos tiveram de sair do país. Acabaria por ser assassinada na madrugada de 2 para 3 de Março de 2016, em sua casa, em La Esperanza, no departamento ocidental de Intibucá.

Desde o passado dia 20 de Outubro, estão no banco dos réus os oito presumíveis autores materiais do seu assassinato, incluindo um alto cargo da Desa, a empresa por trás do projecto Agua Zarca, ao qual Berta Cáceres se opunha.

À BBC World, os familiares da dirigente indígena disseram estar convencidos de que o julgamento será célere e de que haverá condenações, mas alertando que tal «não é garantia de justiça».

«Vai haver condenações, sem dúvida, porque isso interessa ao Estado», disse à BBC Berta Zúñiga, uma das filhas da ambientalista hondurenha assassinada em 2016. Acrescentou, no entanto, que «serão penas leves, o resultado de um processo superficial que não vai lançar luz sobre o que verdadeiramente se passou».

Preocupação com um «processo-farsa»

Para Zúñiga, o risco não é apenas de que as eventuais penas possam ser facilmente revertidas noutras instâncias, mas o de que a actuação judicial possa comprometer a futura acusação dos verdadeiros autores intelectuais do assassinato.

A decisão recente de retirar do processo os representantes legais das vítimas – os familiares de Cáceres e do defensor do meio ambiente mexicano Gustavo Castro, ferido a tiro no mesmo atentado – fez aumentar ainda mais as suspeitas de que «as autoridades não querem investigar o caso a fundo», até às últimas consequências.


Este é um dos últimos exemplos de muitos choques entre as vítimas e as diversas instâncias do sistema judicial das Honduras, um país onde a elevada criminalidade goza também de elevados níveis de impunidade.

A situação foi denunciada por organizações de defesa dos direitos humanos e vários outros organismos, que, ao longo do tempo, se juntaram ao apelo da família de Berta e do Copinh em defesa da verdade e da justiça, e à denúncia de que a investigação tem sido obscurecida por uma densa teia de interesses políticos e económicos, com a conivência do Ministério Público (MP).

Os representantes das vítimas chegaram a acusar o MP de «falta de diligência» e de procurar criar obstáculos à justiça, na medida em que, entre outras coisas, se recusou a partilhar informação – mesmo contra ordens expressas de um tribunal.

Os choques da justiça com o Copinh também foram evidentes – porque a organização que Berta Cáceres liderou incomoda e, tal como outros movimentos populares hondurenhos, continua a ser alvo de perseguição e criminalização.

A dirigente do povo Lenca integra-se numa extensa lista de líderes indígenas, camponeses, defensores dos direitos humanos e ambientais assassinados no país centro-americano. Por ocasião do primeiro aniversário do assassinato de Cáceres, o Copinh lembrava, em comunicado, que «já houve muitos e muitas outras Bertas».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Eleição de Bolsonaro sinaliza racha na integração da América Latina

Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente do Brasil neste domingo (28). O representante da extrema-direita já havia anunciado em seu plano de governo que não tem interesse em manter e fortalecer os mecanismos de integração regional da América Latina. Ontem, apenas os presidentes da Argentina, Chile, Paraguai e Peru o cumprimentaram pela eleição, o que mostra enfraquecimento no processo que foi construído ao longo das últimas duas décadas na região.

Com a Argentina sob a maior crise econômica dos últimos quinze anos, Maurício Macri felicitou Bolsonaro “pelo triunfo no Brasil” e disse que espera uma boa relação entre os dois países para o “bem estar de argentinos e brasileiros”.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro atacou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, país com o qual o Brasil cultivou boas relações nos últimos anos principalmente pela questão estratégica econômica, uma vez que se trata da segunda maior reserva de petróleo do mundo.

O Peru também passa atualmente por uma crise política grave após o presidente eleito, Pedro Pablo Kuczynski, renunciar ao cargo. O atual chefe de Estado, Martín Vizcarra, cumprimentou Bolsonaro.

Desejo os maiores êxitos em sua gestão. Expresso minha disposição de trabalhar juntos para aprofundar nossa fraterna relação bilateral”.  
Martín Vizcarra

Já no Paraguai, que sofreu um golpe de Estado anos antes do Brasil, em 2012, quando o presidente Fernando Lugo foi deposto, Mário Abdo Benítez também demonstrou interesse em trabalhar com Bolsonaro pela integração das nações. Os dois países compartilham a usina hidrelétrica de Itaipu Binacional, a maior do mundo em geração de energia. Para o povo paraguaio, é fundamental que capitão da reserva esteja disposto a manter uma negociação amigável com relação à questão energética.

Queremos trabalhar juntos por democracias mais sólidas na região, com instituições fortalecidas e sempre buscando a prosperidade de nossos povos”.
Benitez em sua conta no Twitter

Do Chile, Sebastián Piñera também usou o Twitter para enviar felicitações a Bolsonaro.

Felicito ao povo brasileiro por uma limpa e democrática eleição. Felicito a Jair Bolsonaro por seu grande triunfo eleitoral. O convido a visitar o Chile e estou seguro de que trabalharemos com vontade, força e visão de futuro em favor do bem-estar de nossos povos”. 
Sebastián Piñera

A direita chilena se mostrou muito empolgada com a eleição de Bolsonaro nos últimos meses. O guru econômico do capitão da reserva, Paulo Guedes, é um dos Chicago Boys, economista formado na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, com base nos princípios neoliberais.

Os Chicago Boys foram os responsáveis pela implementação do neoliberalismo no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973 – 1990), agenda que até hoje prejudica a população chilena, principalmente os mais pobres.

No Brasil, Guedes tem a intenção de priorizar o mercado em detrimento das áreas sociais e deve aplicar uma política tão dura quanto foram os anos de chumbo chilenos. O país até hoje não conquistou educação pública gratuita integral, o sistema de transporte, a água e a previdência social são privatizados. Há pouco mais de dois anos o sistema previdenciário privado fez explodir uma crise econômica ao não ter orçamento para pagar as pensões a todos os contribuintes.

Por Mariana Serafini  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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A ordem é exterminar a esquerda com vocação de poder, denuncia Correa

Lula está preso, Cristina Kirchner sofre perseguição judicial e espetacularização da imprensa argentina e Rafael Correa – que partiu para a Bélgica após deixar a presidência do Equador – tem uma ordem de extradição batendo à porta. Para o ex-presidente equatoriano, está claro que o projeto é “exterminar a esquerda” na América Latina. O método desta vez é a lawfare, ou seja, a guerra jurídica contra os líderes progressistas.


Após deixar a presidência do Equador, Rafael Correa voltou a viver na Bélgica com a esposa Anne Malherbe, onde por muitos anos foi professor universitário. De seu apartamento de 4 cômodos na pequena cidade de Lovaina la Nueva, o ex-presidente trabalha em seu novo livro sobre a situação política latino-americana e observa com uma lupa o avanço da guerra jurídica sobre o continente.

O método “Lava Jato” de acusações com provas inconsistentes, “delações premiadas” e espetacularização dos processos jurídicos feita pela mídia hegemônica não acontece só no Brasil. Na Argentina e no Equador a fórmula é a mesma, e a tendência é que se estenda para outros países onde o campo progressista tem ampla aceitação popular.

Rafael Correa tem uma ordem de prisão contra ele no Equador e não pretende voltar ao país até que a situação se resolva. É acusado pelo sequestro de um parlamentar equatoriano na Colômbia em 2012, que ficou detido por algumas horas no país vizinho. A responsabilidade cai sobre o ex-presidente porque ao exercer o mais alto cargo da República, ele é o comandante máximo das Forças Armadas. Uma ação inconsistente, mas que serve de munição para a imprensa hegemônica atacar o legado de dez anos de governo que reduziu a desigualdade e promoveu a inclusão social no país através do projeto chamado Revolução Cidadã.


Rafael Correa em seu apartamento na Bélgica, com seu gato Dobi, que o acompanha nas noites de pesquisa para o novo livro


Para Correa está claro que se trata de um plano executado pelas oligarquias locais, mas orquestrado pelo interesse norte-americano para manter o controle da região. “Pode estar seguro de que a CIA atua com as embaixadas. A decisão é exterminar a esquerda. Não vão permitir que se repita outra época de ouro na América Latina: 90 milhões de pessoas saíram da pobreza. Agora já regressaram novamente 20 milhões. Estão dispostos a tudo. A ordem é exterminar a esquerda com vocação de poder. Não a esquerda tonta, do ‘tudo ou nada’. Mas a esquerda de Lula, Cristina, Chávez, Correa, que planejamos o sistema. Vão tratar de exterminar fisicamente também. Não se enganem, não é exagero”.

O Brasil no xadrez continental

Correa se diz um “otimista por natureza” e espera que Jair Bolsonaro (PSL) não vença as eleições no Brasil, o país com a maior economia e maior espaço territorial do continente. Acredita que os 20 milhões de brasileiros que não votaram possam mudar o resultado do quadro político no próximo dia 28.

Entretanto, se o candidato do PSL chegar ao Planalto, o ex-presidente equatoriano diz que pode haver uma reação continental em busca do “humanismo” e, desta forma, uma nova onda progressista, como aconteceu na década passada.

“Se Bolsonaro ganhar, como quando George W. Bush venceu nos Estados Unidos, pode despertar os governos progressistas da América Latina. Será tão elementar seu governo que pode provocar uma reação favorável para retomar a via do humanismo”. 
Rafael Correa

Ainda assim, um governo de Bolsonaro seria mais desastroso para o Brasil que Donald Trump tem sido para os Estados Unidos. Na visão de Correa, o extremista brasileiro pode ser comparado a Rogerio Duterte, líder conservador e autoritário das Filipinas que impulsiona a ferro e fogo uma “guerra às drogas” no país. “Nem Trump fala a favor da ditadura, da tortura, da desaparição de 39 mil pessoas”, denuncia.

Erros da esquerda e o crescimento das igrejas neopentecostais

O ex-presidente equatoriano não vê com bons olhos o foco da esquerda em pautas transversais como a legalização do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não por moralismo, mas por acreditar que, infelizmente, o “continente mais desigual do planeta” ainda precisa se concentrar em questões que ele considera mais urgentes, como a pobreza, a fome e a segurança pública. Para ele, quando a esquerda se concentra em agendas que não estão ligadas diretamente à vida da população comum, acaba perdendo espaço e este foi ocupado pelas igrejas neopentecostais.

Para mim, a questão social no continente mais desigual do planeta é a primeira questão moral. Antes de começarmos a discutir estas coisas que estão na fronteira do debate (aborto, por exemplo), discutamos coisas evidentes como a desigualdade de direitos. Além disso, é evidente a insatisfação das pessoas com temas que a esquerda nunca fala por purismo, como a segurança pública. Por que a esquerda não enfrentou mais claramente este problema? É uma falta de habilidade política. No Equador enfrentamos e temos o sistema de segurança integrado mais avançado da América Latina”.
Rafael Correa

Quando a população não encontrou nas propostas da esquerda uma resposta para suas angústias sociais, buscou em outra fonte e quem ocupou este espaço foram as igrejas evangélicas, acredita Correa.

“Quando as pessoas se assustam com certas posturas buscam outra coisa e quando veem que não há perspectivas de mudança, se deixam convencer de que as coisas são assim e encontram refúgio nas igrejas”. 
Rafael Correa

Apesar do cenário nebuloso, Correa é um otimista e acredita ser possível mudar a situação do continente em curto prazo. “Sem demora, começaremos a recuperar o muito que retrocedemos”.

Por Mariana Serafini  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (com informações do Página/12) / Tornado

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Os ovos da serpente também estão incubados no Uruguai

A direita uruguaia continua apostando em uma estratégia para impor no imaginário coletivo a sensação de mal-estar e insegurança, para poder justificar depois qualquer tipo de intervenção externa: diplomática, política, militar ou de inteligência, devido à dificuldade em derrubar o bloco centro-esquerdista da Frente Ampla do governo.

A ideia agora é reinventar o fantasma do terrorismo, com uma teoria conspirativa de que o promotor argentino Alberto Nisman teria sido assassinado por uma célula iraniana do Hezbollah, com contatos na Venezuela e bases na Tríplice Fronteira (Brasil Argentina e Paraguai) e no Uruguai (em Montevideo), segundo (supostamente) os serviços de inteligência estadunidenses. Será um esquete do humorista argentino Peter Capusotto ou a trama de uma dessas horríveis séries da Netflix, que tenta ser complexa e termina sendo apenas um pastelão mal contado? Não, quem promove essa narrativa é a deputada uruguaia opositora Graciela Bianchi.

Destas declarações, surge a pergunta: por que os serviços de inteligência dos Estados Unidos dariam informação a uma deputada da oposição de um país onde não aconteceu a morte? Desde quando ela tem essa informação? Por que a apresentou aos meios de comunicação e não à Justiça? Sem dúvida, ela tinha um objetivo: gerar medo na população.

Mas, quem é Graciela Bianchi? Deputada do parlamento eleita com um discurso de “defensora da República”, se trata de uma ex-frenteamplista, conhecida por seu tom prepotente e ressentido, que terminou ingressando no Partido Nacional há pouco tempo. Seu papel, tanto no Parlamento quanto nas redes sociais, tem sido vergonhoso, como mostram suas declarações públicas.

Já foi flagrada dormindo durante uma sessão parlamentar e publicando enraivecidos manifestos nas redes sociais, com uma redação surpreendente para quem já foi uma diretora de escola secundária pública.

Mas isso não é somente um delírio e não visa o mero espetáculo político. É uma estratégia para gerar um contínuo mal-estar na população. Cultivar a sensação de insegurança para logo justificar qualquer tipo de intervenção estrangeira. Desta forma, o Estado de exceção volta a ser regra. Bianchi derrapou de forma atroz e até a cúpula do seu partido não lhe deu crédito, mas conseguiu gerar na população o efeito desejado.

O dano já está feito, e já se observa como surgem conspirações terroristas no seio da sociedade uruguaia. Bianchi não está sozinha, a direita tem um leque de opções para derrotar a Frente Ampla na eleição de 2019:

  • Verónica Alonso (Partido Nacional), líder da bancada contra a “ideologia de gênero” e a favor de um só tipo de família convencional, junto com pastores evangélicos e fanáticos religiosos associados a movimentos regionais que se posicionam sobre o tema.
  • Carlos Lafigliola (Partido Nacional), ultraconservador em termos de direitos civis, que quer acabar com a Lei do Aborto impulsada pelo governo de Mujica, entre outras.
  • Jorge Larrañaga (Partido Nacional), líder da campanha “viver sem medo”, a favor do uso dos militares na segurança pública – embora ele mesmo afirme não viver com medo no Uruguai.
  • Luis Alberto Aparicio Alejandro “Cuquito” Lacalle Pou (Partido Nacional), que aproveita o fato de liderar as pesquisas internas do seu partido, mostra uma imagem de moderado, mas é conservador no âmbito social e liberal no econômico. Não votou a favor dos projetos de lei importantes para os trabalhadores, tampouco apoiou os das minorias que sempre são discriminadas.
  • Edgardo Novick (Partido da Gente), um empresário que paga salários miseráveis em suas lojas comerciais. É um antimujiquista e sua campanha é sustentada por sua fortuna, já que carece de ideias.
  • Ernesto Talvi (Partido Colorado), associado internacional à Rede Atlas. Um visionário que, no final do Século XX, fez previsões positivas sobre o futuro econômico do Uruguai, e três anos depois o país padeceu a pior crise de sua história. A Rede Atlas acaba de desembarcar no Uruguai através do movimento Ação Republicana, encabeçado pela guatemalteca Gloria Álvarez.

Como brinde, está o caso do presidente do Centro Militar, coronel Silva Valiente, que fez fortes declarações contra a comunidade LGBT, ao melhor estilo Jair Bolsonaro, e também afirmou que o Uruguai não teve uma ditadura militar, reivindicando uma homenagem ao ex-presidente de fato, o general Gregorio “Goyo” Álvarez. Ademais, disse que o candidato ultradireitista à Presidência do Brasil merece o seu respeito: “temos que ser tolerantes com Bolsonaro”.

Embriagados de conjuntura

Assim está o panorama. É assustador imaginar os efeitos que podem ter no país os exemplos dos Bolsonaro, dos Trump, que parecem seres vindos de outra realidade, de uma ficção. Ficamos em choque diante do obsceno de algumas declarações, mas não percebemos as pequenas mostras cotidianas que nos deixam sem reação: o taxista que pede pena de morte, o colega de trabalho que quer o fim dos sindicatos, o chefe que assedia uma colega, o vizinho que defende a morte dos indigentes.

Todas estas pistas nos conduzem à bestialidade, mas nós caminhamos com a cabeça abaixada, relativizando um sentido comum fascista, até começar a escutar o golpe das angústias no peito. Como diz o pensador português Boaventura de Sousa Santos, vivemos em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas, e este é um fenômeno que vem crescendo.

O Uruguai não será uma exceção dentro da região. A estratégia é continental, vem sendo gerada há décadas, e orquestrada no norte. O Uruguai não é uma potência mundial, mas o interesse que desperta nos planos imperialistas demonstra que cada território deve ser disputado, e que o inimigo é implacável.

Vemos disputas partidárias que começam a perder a forma tradicional. As batalhas eleitorais passam a enfrentar dois tipos de projetos: o ajuste, a repressão e o fascismo por um lado, e por outro a democracia – com todos os seus defeitos, mas democracia enfim. Ou como definiu o cientista político estadunidense Robert Dahl, uma “poliarquia”, já que não existem as democracias perfeitas.

O mundo de alguns poucos, onde a desigualdade e a miséria serão cada vez maiores, contra um mundo onde caibam as grandes maiorias. E ali se visualizará claramente quem luta com e para o povo.

Os partidos políticos poderão deixar de existir, os Estados-nação também. As formas e as disputas conjunturais podem mudar. Mas enquanto não arrancarmos da raiz este sistema, a disputa será sempre entre os de baixo contra os de cima. “Se as barbas de seu vizinho você vê arder, organize-se e ao fascismo ajude a varrer”, respondem os universitários uruguaios.

Por Nicolás Centurión, Estudante de Psicologia da Universidade da República do Uruguai. Analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE) |  Texto em português do Brasil  |  Tradução: Victor Farinelli

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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El Salvador celebra os 14 anos da implementação da Missão Milagre

Medardo González, secretário-geral da FMLN, destacou a Missão Milagre como exemplo de integração latino-americana, lembrando que «devolveu a vista e a esperança a milhares de salvadorenhos».

Tendo começado na Venezuela, a Missão Milagre chega hoje a dezenas de países na América Latina, Caraíbas, África e ÁsiaCréditos / misionmilagro.gob.ve

Num acto que ontem decorreu em Planes de Renderos, o dirigente da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) sublinhou a importância e o impacto social de um programa oftalmológico criado há 14 anos e logo em 2004 implementado em El Salvador.

Na ocasião, González salientou também a solidariedade dos líderes revolucionários Fidel Castro e Hugo Chávez, que fizeram questão de promover a saúde oftalmológica entre as camadas populacionais mais pobres e marginalizadas do país centro-americano.

«O nosso agradecimento a todos os trabalhadores da saúde que apoiaram este grande programa, exemplo da solidariedade de países irmãos como Venezuela e Cuba», afirmou Medardo González no acto celebrado em Planes de Renderos, onde lembrou os avanços alcançados durante os governos da Frente no que respeita à diminuição da pobreza, à alfabetização e à reforma da saúde pública em El Salvador.

Fez ainda questão de valorizar o trabalho dos mais de 235 voluntários da rede que percorre os territórios do país e presta atendimento a pessoas com problemas oftalmológicos nos diversos centros da Missão Milagre, como o hospital Santa Gertrudis.

Neste centro hospitalar, localizado no departamento de San Vicente, será aberta em breve uma segunda instalação cirúrgica, de modo a aumentar para 7500 as operações anuais de cataratas e pterígio, além do serviço de retina, informa a Prensa Latina.

Em Maio último, o trabalho da equipa cubana no Hospital Santa Gertrudris passou a ser complementado com a chegada de uma brigada itinerante oftalmológica da Venezuela, que realiza consultas e operações cirúrgicas nos hospitais San Rafael e Santa Ana.

A chegada desta brigada foi acordada no âmbito de um protocolo firmado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros salvadorenho e a Embaixada venezuelana no país.

Defender os mais pobres, aprofundar a unidade da América Latina

A Misión Milagro nasceu a 8 de Julho de 2004, por iniciativa dos governos de Cuba e da Venezuela, tendo como propósito ajudar pessoas com baixos rendimentos a resolver diversas patologias oculares. Faz parte do plano de integração da América Latina e dos programas que visam alcançar a unidade entre os povos da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), refere a VTV.

O grande investimento de Cuba na área da Saúde e o alto nível de desenvolvimento que patenteia neste sector permitiram que, em conjunto com a Venezuela, milhares de latino-americanos tenham sido operados em países como El Salvador, Guatemala, Equador, Colômbia, Costa Rica, Venezuela, Bolívia, Argentina e República Dominicana.

Para além disso, o programa também tem sido aplicado a países fora deste âmbito geográfico, nomeadamente em África e na Ásia.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Trabalho especial: Venezuelanos imigrantes, capítulo América Latina. Mitos e realidades (Parte II)

Ana Cristina BrachoPublicamos a segunda parte do trabalho editado por Misión Verdad sobre a questão da emigração na Venezuela. No conjunto, uma importante fonte de informação sobre a instrumentalização deste fenómeno, em particular no caso de países receptores que integram a plataforma de intervenção internacional contra a Venezuela comandada pelos EUA.

Nota da redacção [de Misión Verdad): apresentamos a segunda parte do trabalho especial de Ana Cristina Bracho sobre o fenómeno migratório venezuelano, um texto onde aborda os mitos construídos à volta desta situação, o seu uso político, as suas comparações com outros cenários similares do passado recente e, sobretudo, a análise a como se têm comportado os países receptores, na sua totalidade adstritos às plataformas de intervenção internacional contra a Venezuela. Tal como na primeira parte, a continuação deste trabalho especial comenta com rigor e exactidão a que corresponde a migração venezuelana, bem como a sua instrumentalização para fazer avançar agendas bélicas contra territórios adversos aos Estados Unidos. A migração vem-se constituindo como um aspecto central na ordenação do cenário de conflitualidade contra a Venezuela. São estas as referências e as coordenadas desse novamente perigoso momento em que nos encontramos.


 

Na primeira parte deste estudo caracterizamos algumas noções que consideramos básicas. Tais como que a Venezuela é um país onde existe uma população imigrante considerável e as diferenças relativas ao que o Direito confere às pessoas que se encontram em território estrangeiro.

Também referimos alguns dados para contextualizar nos quais incluímos as alterações das políticas regionais que derivam da destruição dos fóruns multilaterais latino-americanos ou da exclusão da Venezuela deles, bem como a dimensão económica que a situação tem.

Prometemos que complementaríamos o referido texto com uma segunda parte onde veríamos a situação em alguns países para onde se têm dirigido venezuelanos e venezuelanas, o que cumpriremos em seguida.

Brasil

A República Federativa do Brasil, com 202 milhões de habitantes, é o sexto país mais povoado do mundo, embora o seu grande território tenha um baixo índice de densidade populacional. Segundo informado por El País, de Espanha, em 2015, “o Brasil é um país extremamente fechado para os imigrantes… os estrangeiros representam apenas 0,3% da população, um número historicamente insignificante. A média mundial está em 3%”.

Uma das causas pela qual esse país não se torna atractivo é a dificuldade que os estrangeiros têm em conseguir trabalho e a visão dos nacionais sobre a imigração; assim, segundo a mesma fonte, “73,7% dos brasileiros estão a favor da vinda de estrangeiros com alta qualificação profissional, enquanto 74,3% não querem que cheguem imigrantes sem documentação”.

A Venezuela tem uma ampla fronteira terrestre que não tem significativas separações naturais com o Brasil, segundo o disposto no Tratado de limites e navegação fluvial de 5 de Maio de 1859, ratificado pelo Protocolo de 1929. No presente é possível atravessá-la através do acesso viário que une as populações d nossa Santa Elena de Uairén com a brasileira Pacaraima (Roraima, Brasil).

Tal como no caso da fronteira com a Colômbia, Santa Elena de Uairén e as zonas aldeãs são um dos pontos nos quais se pratica o contrabando de extracção de gasolina, agravado pela realidade mineira e seus próprios contrabandos que marcam a vida no estado Bolívar. De igual modo, existem na zona fronteiriça comunidades originárias que preexistem à demarcação e se deslocam continuamente entre os dois territórios. É este o status dos Geral (ñengatú), dos cinco subgrupos que conformam o povo pemón, os xiarian, aritamis, yanami, arawakos, yekuana, curripaco, baniva e baré.

Em termos políticos, o Brasil é um dos países latino-americanos que sofreu uma violenta viragem à direita quando, mediante o uso do lawfare, se depôs uma presidente constitucional e se instalou uma ditadura que responde aos interesses de Washington. Uma vez ocorrido isto, as relações entre os dois Estados mudaram radicalmente, sendo o governo de Michel Temer um dos integrantes do Grupo de Lima e um dos promotores da saída da Venezuela do Mercosur.

Neste quadro desapareceram da realidade os acordos Chávez-Lula que contemplavam ideias de desenvolvimento conjunto da região fronteiriça, com investimentos binacionais para a exploração petroleira, a energia eléctrica e promovendo a relação fraterna entre o estado venezuelano de Bolívar e o brasileiro de Roraima.

Segundo informação do jornal El Mundo, datada de 25 de Agosto de 2018, “entre 2017 e o que vai de 2018 chegaram ao Brasil algo mais de 127 mil migrantes, mas 69 mil já se foram em busca de outros destinos”, referindo o sítio que o papel do Brasil na crise é secundário porque referem que não é um “destino prioritário” para os venezuelanos.

A presença de venezuelanos no Brasil, especificamente no estado de Roraima, tem sido objecto de uma grande campanha mediática. Na qual organismos como o ACNUR destacam a instalação de campos de refugiados e surgiram personagens que capitalizam o espaço de solidariedade que não foi manifestado pelos brasileiros. É este o caso do “padre Jesús”, cuja acção servindo comida aos venezuelanos tem sido referida pela imprensa.

Os migrantes económicos encontram-se focalizados em Roraima, o que gerou um conflito jurídico de cada vez que “as autoridades locais criticam que Governo destine mais esforços a receber os venezuelanos do que a cuidar da gente de Roraima, e atribuem aos imigrantes o aumento da criminalidade, uma retórica que alimenta a tensão nas ruas”. O que se traduziu numa solicitação judicial para fechar a fronteira que não vingou e à qual a administração brasileira respondeu assegurando que as Forças Armadas estão à disposição do governo local para garantir a paz nas ruas.

A associação finalmente realizada entre os venezuelanos e a delinquência, ou que a sua presença dificulta que o estado de Roraima atenda devidamente a população brasileira, serviu de caldo de cultura para que se verificassem actos violentos de rejeição aos venezuelanos, despojando-os dos seus haveres quando foram expulsos e queimando os seus bens, em 18 de Agosto de 2018.

Um acto muito similar tinha-se produzido no mês de Março de 2018, quando “pelo menos 300 pessoas entraram na escola onde estavam a viver os 50 venezuelanos para destruir alguns pertences, deitando fogo a outros e os expulsaram, deixando atrás os seus haveres e alimentos entre os que se encontravam vários pacotes de farinha que foram rasgados e espalhados pelo local”.

Referindo um dos brasileiros entrevistados depois do sucedido que “não aguentamos mais a sua presença (dos venezuelanos), queremos que as autoridades façam algo, há muitos roubos na nossa cidade”.
No quadro desta tensão, o mandatário brasileiro de facto, Michel Temer, prestou declarações à imprensa em 26 de Agosto de 2018, referindo que se opõe à possibilidade de que as fronteiras sejam fechadas aos venezuelanos, e recordou que o Brasil é apenas um país de passagem da população emigrante.

Tal como referiu Europa Press: “Temer explicou que 60% dos 127 mil venezuelanos que cruzaram a fronteira já saíram de território brasileiro em direcção a outros países, e destacou as acções realizadas pelo governo federal para enviar para outros estados os milhares de venezuelanos que se encontram em Roraima”, referindo finalmente que fizeram chegar a Roraima bens para assegurar a alimentação e os serviços de que necessitam os venezuelanos que se encontram na referida zona.

Chile

De acordo com os resultados do Censo Nacional de 2017, Chile tem uma população de pouco mais de 17 milhões de habitantes. Ao contrário do Brasil, as relações da Revolução Bolivariana com o Chile não superaram, mesmo nos seus melhores momentos, o limiar da cortesia. Desde os conflitos do ano 2002, existe uma população de venezuelanos politicamente identificados como contrários ao governo no Chile, sem que tenhamos uma estimativa da sua dimensão naquela época.

Um dado que resulta de interesse é que a Venezuela figurou, depois de México e Cuba, entre os destinos predilectos dos chilenos que saíram do seu país no quadro da ditadura militar, chegando a estabelecer na Venezuela uma colonia de 80 mil pessoas, a que há que agregar os profissionais que tinham chegado antes com a esperança de trabalhar para as petroleiras.

Segundo uma nota de Janeiro deste ano, reside no Chile um total de 30 mil venezuelanos. A Policia de Investigações reportou que em 2017 ingressaram 164 mil 866 cidadãos desse país, um aumento de 90% relativamente a 2016. Segundo o Departamento de Estrangeiros e Migração (DEM) do Ministério do Interior, entre 2005 e 2017 foram outorgados um total de 20 mil 362 permanências definitivas e 111 mil 339 visas temporários a estrangeiros provenientes da Venezuela. O que não elucida com segurança sobre a dimensão real da comunidade já que, segundo a mesma fonte, mais de 56 mil venezuelanos saíram do Chile ou regressaram à Venezuela.
Ao visitar portais dedicados a promover o Chile como destino, alguns deles administrados por venezuelanos, observa-se que mostram o país como uma economia estável, com um sistema de transporte aceitável e um sector terciário amplamente desenvolvido.

Outros sítios web asseguram que Santiago é a cidade “mais habitável da América Latina depois da capital da Argentina, Buenos Aires. Por seu lado, a revista International Living integrou o Chile no Índice de Qualidade de Vida do ano 2011, colocando o país no lugar 60 entre 192 países e na terceira posição entre países da América do Sul”.

Com estas afirmações e uma presença tão importante na publicidade que recebe, via televisão “pay-per-view” na Venezuela, parece que o Chile é um país que se apresenta como um dos destinos que a população que emigra selecciona.

Visto do Chile, mantém-se a informação de que o país austral se converteu num lugar atraente para a imigração de pessoas provenientes da Argentina, Equador, Colômbia, Bolívia, Uruguai e Venezuela, referindo-se além disso que num recente relatório denominado “Conjuntura Económica en América Latina y el Caribe”, da Comissão Económica para a América Latina (CEPAL) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinalam que o Chile emergiu como o país em que mais cresceu proporcionalmente a imigração na América Latina.
Neste contexto, desde Agosto de 2017, surgiu no Chile a iniciativa de criar um registo nacional de estrangeiros, fixar um catálogo de motivos que impeçam o seu ingresso e um estrito controlo de licenças de trabalho, com o fim de evitar o afluxo de pessoas. Sendo que nesta data, o departamento de Estrangeiros estimava que nos primeiros seis meses daquele ano tinham ingressado no país mais de 44 mil haitianos.

Do mesmo modo, verificou-se um forte incremento de imigração dominicana, colombiana e venezuelana, somando-se à histórica vinda de pessoas de Bolívia e Peru. Isto indicava que no momento Chile contava oficialmente com meio milhão de residentes estrangeiros, cerca de 3% da sua população.

Como medida desta natureza, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, anunciou em 9 de Abril a criação de um Visa de Responsabilidade Democrática para os venezuelanos que desejem permanecer neste país. Esta medida foi criticada por alguns sectores chilenos que consideraram tratar-se de uma medida discriminatória que evidenciava a pouca solidariedade do governo em relação aos que se deslocavam para o Chile em busca de uma oportunidade.

A este respeito, ao lado desse país próspero que é promovido, existe uma realidade com a qual se deparam os imigrantes que entram num país onde a educação está privatizada, existem diferentes escalões salariais para homens e mulheres, e que não se caracteriza pela abertura para com os estrangeiros.
Um grupo deles nunca consegue ingressar no Chile; assim. Por serem considerados pelas referidas autoridades como migrantes económicos e não como refugiados ou asilados foram devolvidas 8.425 pessoas que tentaram ingressar no Chile nos primeiros dez meses de 2017. A maior parte dos rejeitados eram colombianos, e o segundo grupo mais numeroso era de venezuelanos, que atingiu um total de 1.838 cidadãos que não puderam ingressar no Chile.

Relativamente às condições daqueles que ingressaram, nem sempre foram as que esperavam. Isto ficou reflectido num estudo realizado em 2017 pela Fundación Nuevas Contingencias Sociales (Chile), que determinou que 41% dos migrantes inquiridos declarou ter sofrido discriminação “sem motivo aparente”, com destaque para comentários acerca de que “vêm a tirar-nos o trabalho”, e serem apontados como delinquentes ou pela cor da sua pele.

Por seu lado, os chilenos inquiridos revelaram que 47% pensa que a população imigrante traz “doenças novas ou algumas já erradicadas”, enquanto 35% opina que a população “vem tirar o emprego aos chilenos” e outros 35% aponta que os imigrantes “são sujos e não cuidam do meio ambiente”.

Neste mesmo espírito, cujas características correspondem ao que temos referido como “aporofobia”, devemos incorporar a mais recente postura assumida pelo presidente chileno, que twiteou em 23 de Agosto de 2018, que “em matéria de Migração a nossa política é clara: receber aqueles que respeitam as nossas leis e vêm iniciar uma melhor vida contribuindo honestamente. E não deixar entrar ou expulsar aqueles que entram ilegalmente e têm antecedentes criminais ou cometem delito no nosso país”.

Equador

Com 16 milhões de habitantes em apenas uma área de 283 561 km², trata-se do quarto país mais pequeno do subcontinente. A sua economia dolarizada bem como as fluidas relações diplomáticas que até há muito pouco manteve com a Venezuela, fixaram o Equador no imaginário dos emigrantes. De igual forma, o seu governo vinha executando programas de captação de profissionais, principalmente professores, para fortalecer as suas universidades, e era um dos destinos que exigiam menos requisitos para ingressar, permanecer e trabalhar.

Do mesmo modo, no quadro da cooperação que caracterizou as relações que a Revolução Cidadã manteve com a Revolução Bolivariana, no Equador estava vigente um sistema especial para os bolivarianos, denominado Estatuto permanente Equador Venezuela (12 XI) que outorgava um visa de um ano, renovável uma vez, contabilizados desde a sua emissão se o outorgou uma Coordinación Zonal ou se foi outorgado num consulado equatoriano a partir do ingresso do estrangeiro no Equador. Este regime, menos gravoso e destinado a aumentar as relações entre os países, foi acordado pelos então chanceleres Ricardo Patiño e Nicolás Maduro Moros, em 2010.

Segundo o disposto na página web do Ministério do Interior equatoriano, aos sul-americanos não é requerido terem passaporte para entrar no Equador mas apenas apresentar a sua cédula ou documento nacional de identidade. Este regime foi objecto de controvérsias, todas as vezes em que nos últimos meses o governo equatoriano quis agravar as condições de ingresso dos venezuelanos no seu território, ordenando num primeiro momento a apresentação do passaporte, o que foi revogado por um tribunal de Quito por o considerar uma violação dos direitos humanos.

Esta decisão, tornada pública em 25 de agosto de 2018, vai coincidir com a declaração presidencial de que a sua decisão de abandonar a Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA) foi motivada pela existência de fluxos migratórios originados na Venezuela, e significa que não se voltará a aplicar o regime de cooperação entre os dois Estados e que aos venezuelanos se exigirá, em lugar do passaporte, a apresentação.

Enquanto estas controvérsias jurídicas ocorriam, as câmaras de televisão centraram-se nas fronteiras com Equador, onde foi reportado que havia venezuelanos encalhados esperando que uma decisão diferente, que lhes seria favorável, fosse adoptada. Ao mesmo tempo que na Venezuela se tornou viral um vídeo que documentava um abuso policial cometido contra um venezuelano no Equador.

Peru

A República de Peru é o terceiro maior país da América do Sul. Segundo o último censo, datado de 2016, o país tem 31,77 milhões de habitantes. Com uma história política marcada pela instabilidade e a violência, é um dos países com maior número de emigrantes da região, que foi estimado num estudo do INEI, referido por El Comercio, segundo o qual entre 1990 e 2012 mais de 2 milhões e 500 mil peruanos emigraram do país.

Nesse período, 31,4% dos emigrantes peruanos viveram nos Estados Unidos, 15,4% em Espanha, 14,3% na Argentina, 10,2% em Itália, 9,5% no Chile, 4,1% no Japão e 3,7% na Venezuela; 11,5% em outros países.

Segundo títulos do mesmo portal, mais de 100 mil pessoas pediram refúgio no Peru, e praticamente todas elas provêem da Venezuela. Devendo destacar-se que no conteúdo da nota se precisa que nem todas essas solicitações são de refúgio em sentido jurídico, mas que muitas correspondem a migrantes económicos. A situação em que se encontram os venezuelanos no Peru tem sido avaliada - inclusivamente pela Defensoría del Pueblo num comunicado emitido a 25 de Agosto de 2018 - como contraria aos direitos humanos, na medida em que os nossos compatriotas são discriminados e vítimas de actos xenofóbicos.
Ao analisar as causas pelas quais a emigração venezuelana se dirigiu para o Peru, parece importante recordar que, em Setembro de 2017, Lima ofereceu aos profissionais venezuelanos outorgar-lhes uma licença temporária de permanência (PTP); agora serão também reconhecidos os seus títulos universitários sem necessidade de trâmites legais, o que constitui um evidente estímulo para a população universitária que espera obter maiores rendimentos económicos.

Ao mesmo tempo que caía o governo de Pedro Pablo Kuczynski Godard, o tratamento mediático que tem vindo a ser dado à Venezuela no Peru é sumamente contrastante pois, na medida em que se insiste numa “crise humanitária” e política provocada pelo governo de Caracas, se associa abertamente a comunidade venezuelana que chega ao país com a delinquência. Sem dúvida que o ponto de ebulição disto se deu em Agosto do presente ano, quando foram detidos em Lima membros do grupo musical “El Tren de Aragua”.

Para estabelecer essa associação, a imprensa não poupa em historias fantasiosas tais como afirmar que “Nicolás Maduro estaria a incentivar a criminalidade venezuelana no Peru”, segundo a elucubração de Sabrina Martín em 31 de Julho de 2018 para o meio Panam Post, ou as declarações de Mauro Medina, ministro do Interior peruano que em 8 de Agosto afirmou que, através da solidariedade, “se infiltram por aí algumas pessoas que estão vinculadas a delitos”. Podendo ver-se como a imprensa recolhia já desde o início do ano opiniões que sustentam que “a crise do Peru piorou por causa dos venezuelanos”.

Neste contexto, o governo de Martín Vizcarra deu a conhecer em 25 de Agosto de 2018 que exigiria passaporte aos venezolanos que chegam à sua fronteira, só exceptuando desse requisito casos que considere de carácter humanitário como crianças que estejam acompanhadas por seus pais, mulheres grávidas ou idosos. Justificando a medida com que está a receber uma massiva imigração que chega diariamente da Venezuela, com uma média de 3 mil chegadas diárias pelo posto fronteiriço de Tumbes, na fronteira com Equador.

Estes movimentos que agora fecham as portas contrastam com os actos de promoção do Peru, em especial como destino para crianças não acompanhadas como se deu durante o ano de 2017, de que recordaremos a denúncia realizada no sábado 16 de Dezembro por funcionários do Servicio Autónomo de Identificación, Migración y Extranjería (SAIME) e o Fiscal 1° do estado Vargas, de terem conseguido deter uma operação que pretendia extrair 130 crianças venezuelanas desde Maquieta com destino ao Aeroporto Internacional Jorge Chávez de Lima.

O corredor humanitário

Enquanto Equador e Peru adoptam medidas que restringem a entrada e permanência de venezuelanos no seu território, puseram em marcha um “corredor humanitário” para acelerar a deslocação de venezuelanos que se dirigiam para o Peru.
Esta acção foi empreendida uma vez que foram publicadas as iniciativas tendentes a limitar a presença venezuelana no Equador e antes de serem endurecidos, horas depois, os requisitos no Peru, o que expõe os venezuelanos em trânsito a uma situação de uma gravidade sem precedentes, pois encontram-se de forma ilegal esperando chegar a outro Estado, no qual muitos não poderão tão-pouco ingressar.

¿Para que serve isto?

Uma leitura apressada desta situação poderia fazer-nos concluir que a população que ingressa é demasiado numerosa, o que não corresponde com os imigrantes a que estes países aspiravam quando tomaram medidas para facilitar o ingresso aos venezuelanos. Para isso serve-nos a leitura de Adela Cortina.

Poderíamos também observar que houve mudanças políticas nos países que modificaram a sua atitude, ainda que o Brasil nunca se tenha caracterizado por nos dar calorosas boas-vindas.

Contudo, considero que isto obviaria coisas especialmente relevantes, algumas das quais foram postas a claro por Serge Halimi, Dominique Vidal e Henri Male no ensaio “A opinião trabalha-se. Os media e as guerras “justas” de Kosovo, Afeganistão e Iraque”. Ali, quando analisam como se justificou a guerra de Kosovo, os autores afirmam que um dos recursos para demonstrar a necessidade de uma guerra foi a existência de deslocados desesperados.

Assim assinalam que para convencer o mundo da necessidade da guerra primeiro “mostraram uma mulher, um homem, um menino branco. Mostraram uma pequena menina de cinco anos que sofria. Na realidade, não era a cor da pele nem as lágrimas o que importava, mas sim captar o desespero. Necessitavam de projectar gente deportada sofrendo diante de nós, porque nós somos muito bondosos”.

Reacções da Venezuela

A sorte de uma pessoa ao estabelecer-se num país estrangeiro dependerá de muitos factores. Por isso é particularmente perigoso fazer generalizações nesta matéria. Certamente, em todos estes países existem venezuelanos - geralmente com recursos económicos, domínio de línguas estrangeiras e alta graduação profissional - que terão uma vida próspera, alheia a estes males que enfrentam aqueles que de forma extremadamente precária chegam a países com a esperança que a televisão lhes oferece ou o exemplo remoto de um conhecido a quem as coisas correram muito bem.

Existirão outros que, inclusivamente se este não é o seu caso e se deparam com trabalhos precários, sem cobertura hospitalar e algum grau de irregularidade, se sentirão mais tranquilos ou felizes do que estando na Venezuela, pois para eles o país tornou-se numa espécie de inferno. Relativamente a eles, as obrigações nacionais esgotam-se no estabelecido no quadro da protecção consular, onde vemos por exemplo que Caracas anunciou que está a remeter os passaportes que estavam em atraso.

Quanto ao resto, constituído principalmente por migrantes económicos e vítimas desta guerra económica que destruiu a capacidade aquisitiva do salario, arrastando com ela a auto-estima de muitos, o Governo Bolivariano elaborou o Plano de Regresso à Pátria para chamar a que regressem aqueles que saíram.

De igual forma, observa-se como o Executivo venezuelano está disposto a proteger as nossas populações emigrantes quando, pelo menos no caso dos que o solicitaram em Trinidad y Tobago e agora desde o Peru, tomou as medidas necessárias para que retornem a Venezuela.

Fonte:http://misionverdad.com/opinion/venezolanos-inmigrantes-capitulo-latinoamerica-mitos-propaganda-y-realidad-y-ii

 

 

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Secretário-Geral da OEA não descarta uma intervenção militar na Venezuela

Luis Almagro, secretario general de la OEA
© REUTERS / Ueslei Marcelino

O Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, disse que uma intervenção militar na Venezuela não deve ser descartada como uma alternativa para superar a situação política e econômica do país.

"Quanto à intervenção militar para derrubar Nicolás Maduro, não devemos descartar nenhuma opção", disse Almagro ao correspondente do diário colombiano El Tiempo.

Almagro destacou que o "regime" de Maduro "está perpetrando crimes contra a humanidade (e) violações dos direitos humanos" na Venezuela, além de gerar "o sofrimento do povo no êxodo induzido que está impulsionando".

No entanto, ele disse que antes de pensar em intervenção militar, "as ações diplomáticas devem estar em primeiro lugar".

Almagro liderou nesta sexta-feira em Cúcuta, na Colômbia, uma comissão da OEA encarregada de elaborar um relatório que incluirá uma definição de mecanismos de cooperação que poderiam ser destinados à Colômbia como país receptor dos imigrantes venezuelanos.

A Colômbia é o primeiro lugar visitado pela equipe técnica da OEA que também viajará para as fronteiras de outros países anfitriões de imigrantes venezuelanos, como Peru, Equador e Brasil.

Almagro chegou à Colômbia na quarta-feira, onde também se reuniu com o presidente colombiano Ivan Duque. Na sexta-feira, o Secretário-Geral viajou para a área de fronteira, juntamente com o ministro do Exterior da Colômbia, Carlos Holmes Trujillo, e o Diretor para as Américas da ONG Human Rights Watch (HRW), José Manuel Vivanco, bem como representantes de agências estatais colombianas.

"Chegamos em Cúcuta para rever a situação humanitária, porque esta região é um reflexo de mentiras do regime", disse Almagro.

Durante a visita da comissão a Cúcuta, o governador do departamento de Norte de Santander (nordeste), William Villamizar, revelou que ao longo dos 2.200 quilômetros de fronteira entre os dois países passaram cerca de 20 milhões de venezuelanos nos últimos cinco anos. Destes, três milhões permaneceram no país.

O número contrasta com o anunciado há algumas semanas pela estatal Colômbia Migração, que afirma que cerca de 1,3 milhão de venezuelanos permanecem no país, entre legais e ilegais.

Ver o original me 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2018091412212720-oea-almagro-intervencao-militar-venezuela/

Salvador Allende: uma recordação e um ensinamento

Atilio BoronPassa quase meio século sobre a eleição de Salvador Allende para a Presidência do Chile. A tragédia em que terminou o governo da Unidade Popular não deve fazer esquecer que esse momento abriu caminho ao “ciclo de esquerda” que, anos mais tarde, marcou a América Latina e o Caribe. Tal como não deve fazer esquecer que os moldes da bárbara conspiração imperialista postos em prática no Chile permanecem vigentes, como o comprovam as actuais situações na Venezuela e Nicarágua e os golpes já levados a cabo em outros países.

Días atrás, a 4 de Setembro para ser mais preciso, cumpriram-se 48 anos sobre o triunfo de Salvador Allende nas eleições presidenciais do Chile de 1970. Com a passagem dos anos comprova-se, dolorosamente, que a sua figura não colheu a valorização que merece mesmo dentro de alguns sectores da esquerda, dentro e fora do Chile. Em vez de honrar a figura do presidente-mártir e a sua obra muitos associaram-se irreflectidamente às críticas que o consenso neoliberal dominante formulou à sua gestão, sem oferecer uma análise alternativa que tivesse em conta as dificilíssimas, extremadamente adversas condições que rodearam o seu acesso a La Moneda e todo o seu labor de governo. O advento da “democracia de baixa intensidade” no Chile pós-Pinochet - produto de uma sobrevalorizada transição cujas limitações económicas, sociais e políticas são hoje evidentes - corrigiu só em parte a subestimação que a figura de Allende e o governo da Unidade Popular tinha sofrido. Não obstante, depois de quase trinta anos de uma decepcionante transição que acentuou as desigualdades da sociedade chilena e a sua dependência externa as coisas começam a mudar e, afortunadamente, registam-se numerosas tentativas de revalorizar o seu fértil legado.

Trata-se de um acto de estrita justiça porque, como o temos manifestado em mais de uma ocasião, Allende foi o precursor do “ciclo de esquerda” que abalou a América Latina (e o sistema interamericano) até aos seus alicerces a partir de finais do século passado. As experiências vividas na Venezuela com Hugo Chávez, no Equador com Rafael Correa, na Bolívia com Evo Morales em que se recuperaram os recursos naturais têm no governo de Allende um luminoso precedente na nacionalização da grande mineração do cobre em mãos de oligopólios norte-americanos, na nacionalização da banca, a expropriação dos principais conglomerados industriais e a reforma agraria. Tendo em conta as condições dessa época, começos dos anos setenta, o que o governo da UP fez foi uma proeza num país rodeado de ditaduras de direita e atacado com sanha pelos EUA.

De estrita justiça, dizíamos, porque Allende foi um homem extraordinário da Nossa América. Um socialista sem renúncias, um anti-imperialista sem concessões, um latino americanista exemplar. Quando Cuba padecia de um isolamento quase completo e o Che iniciava a sua última campanha na Bolívia Allende assumiu nada menos que a presidência da Organização Latino-americana de Solidariedade (OLAS) para apoiar a Ilha rebelde e o Comandante Heróico. Era então Senador pelo seu partido, e foram já então muitas as vozes que se levantaram para o censurar pelo seu incondicional apoio à ilha caribenha e à insurgência que brotava não só em Bolívia pela mão do Che como também em quase toda a América Latina. Eu vivia nesses anos no Chile e fui testemunha da campanha de difamações, agressões, insultos e escárnio que foi descarregado contra ele. O diário El Mercurio, uma das expressões mais indignas do jornalismo latino-americano – na realidade, não é jornalismo mas propaganda e nada mais – atacava-o diariamente nas suas páginas políticas e nas suas opiniões editoriais, invariavelmente acompanhadas por uma caricatura que reproduzia o líder socialista como o rei (K) do baralho de cartas, na metade superior empunhando uma metralhadora e segurando a sineta do Senado na metade inferior. A mensagem era claríssima: Allende não era senão um guerrilheiro castrista que tinha envergado a pele de cordeiro de um democrata e que enganava chilenas e chilenos a partir da sua posição no Senado.
Este era também o diagnóstico da CIA, que cedo detectou o perigo que representava a sua figura para os interesses dos EUA. Já na campanha presidencial de 1964 a agencia tinha mobilizado grandes recursos para impedir o possível triunfo da coligação de esquerda que o propunha para o cargo. Documentos recentemente desclassificados demonstram que destinou para tais fins 2.6 milhões de dólares para financiar a campanha de Eduardo Frei, paladino da Democracia Cristã e da malfadada “Revolución en Libertad” que se propunha como alternativa à Revolução Cubana. E outros 3 milhões para financiar uma campanha de terror, em que a figura do dirigente socialista era apresentada como a de um monstro que enviaria crianças chilenas estudar em Cuba ou na URSS e acusações do mesmo estilo. No total, uns 45 milhões de dólares se os computamos ao seu valor actual [1]

Do anteriormente dito decorrem com meridiana clareza as razões pelas quais Washington se opôs desde a própria noite de 4 de Setembro de 1970 à possibilidade de que Allende assumisse a presidência da república. Tinha triunfado na eleição popular mas, ao não alcançar a maioria absoluta necessitava de ser ratificado como presidente pelo voto do Pleno do Congresso. A sua vitória era um resultado inaceitável em plena contra-ofensiva imperial, e o dinheiro investido para frustrar a chegada de Allende a La Moneda foi muito mais que o canalizado para a anterior eleição, embora ainda não exista um consenso acerca do montante exacto. Os EUA encaminhavam-se para uma derrota inapelável no Vietnam e tinham saturado o continente com ditaduras militares. Allende era um grito de guerra contra o império e para Washington isto era totalmente inadmissível. Havia que acabar com ele de qualquer maneira.

Segundo a documentação da CIA, em 15 de Setembro de 1970, poucos dias depois das eleições, o Presidente Richard Nixon convocou Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional; Richard Helms, Director da CIA e William Colby, seu Director Adjunto, e o Procurador-Geral John Mitchell para uma reunião na Sala Oval da Casa Branca a fim de elaborar la política a seguir em relação às más novas procedentes do Chile. Colby escreveu nas suas notas que “Nixon estava furioso” porque estava convencido que uma presidência de Allende potenciaria a disseminação da revolução comunista preconizada por Fidel Castro não só no Chile como no resto da América Latina. [2] Propôs nessa reunião impedir que Allende fosse ratificado pelo Congresso e desse início à sua presidência. Por seu lado, a mensagem recebida por Helms expressava com claridade a visceral mistura de ódio e raiva que o triunfo de Allende provocava num personagem do calibre de Nixon. Segundo Helms, as suas instruções foram as seguintes: “há uma possibilidade em 10, talvez, mas salvem o Chile”; “vale a pena a despesa”; “não envolver a embaixada”; “não se preocupar com os riscos implicados na operação”; “destinar 10 milhões de dólares para começar, e mais se for necessário fazer um trabalho a tempo inteiro”; “Mandemos os melhores homens que tenhamos.”; “No imediato, façam com que a economia grite. Nem uma porca nem um parafuso para o Chile;” “Quero um plano de acção em 48 horas.” [3]

E foi isso o que ocorreu, desde o assassínio do general constitucionalista René Schneider até ao recrutamento de grupos paramilitares cujas acções terroristas eram atribuídas a fantasmagóricas brigadas de esquerda, as mesmas que a imprensa canalha da época, com El Mercurio à cabeça, propagava com fervor para alimentar a crença de que o triunfo da Unidade Popular era sinónimo de caos, destruição e morte no Chile. Mas a intervenção dos EUA contemplava também pressões diplomáticas, o desabastecimiento programado de artigos de primeira necessidade para fomentar o mau-humor da população, a organização de sectores médios para lutar contra o governo (caso do grémio de camionistas, entre os mais importantes) e a canalização de enormes recursos para financiar os revoltosos e atrair a oficialidade militar à causa do golpe.

Se observamos o panorama actual da América Latina e do Caribe veremos que pouco ou nada mudou. Por isso é necessário voltar a estudar minuciosamente o ocorrido no Chile de Allende. A actuação do imperialismo nos países de Nuestra América, e especialmente na vanguarda formada pelos países da ALBA-TCP, não difere hoje das mesmas orientações que a CIA e as outras agências do governo estado-unidense aplicaram com brutal selvajaria no Chile de Allende. Seria ingénuo pensar que hoje, na Sala Oval da Casa Branca, Donald Trump convoque os seus assessores para elaborar estratégias políticas diferentes das utilizadas para derrubar e causar a morte de Allende. O manual de operações da CIA e outras agências de inteligência do governo dos EUA para fazer frente às resistências que se levantam contra o imperialismo e para derrubar governos dignos, que não se ajoelham ante as ordens da Casa Branca, não mudou muito nos últimos cinquenta anos. Isto é verdade como o estamos vendo nos casos de Venezuela e Nicarágua. Informações inquestionáveis demonstram a estreita vinculação entre as lideranças da oposição nesses dois países e os mais sórdidos representantes da direita neofascista nos EUA.

O que diz respeito à oposição venezuelana é já largamente conhecido. Mas dados muito recentes demonstram também a íntima vinculação existente entre os radicalizados opositores de Daniel Ortega e os organismos de inteligência e fontes financeiras da direita em Washington. [4] Que aqueles que se opõem ao sandinismo não tenham incómodo algum em fotografar-se com personagens tão inapresentáveis do el ponto de vista da democracia como Ted Cruz, Marco Rubio e Ileana Ros-Lehtinen, personagens da mafia anticastrista de Miami, lança uma mancha insanável sobre os supostos democratas nicaraguenses. Se realmente quisessem a democracia no seu país, como propalam aos gritos, jamais deveriam ter acorrido ao convite daqueles terroristas amparados pelo Congresso e por sucessivos governos dos EUA.

Como dizia o canto de Violeta Parra, “o leão é sanguinário em todas as gerações.” O império não muda. No seu inexorável processo de decadência e decomposição tornar-se-á cada vez mais violento e criminoso. Hoje, a quase meio século da grande jornada que o Chile iniciou pela mão de Salvador Allende, não esqueçamos as lições que nos deixa a sua passagem pelo governo e não baixemos a guarda - ¡nem por um segundo! - ante tão perverso e incorrigível inimigo, quaisquer que sejam os seus gestos, retóricas ou personagens que o representem. E tenhamos em conta que aqueles que acorrem à Roma americana para procurar apoio diplomático, cobertura mediática, dinheiro e armas para derrubar os seus governos jamais poderão dar nascimento a algo de bom nos seus países.

Notas:
1- Ver, para maior detalhe, os seguintes documentos (a) «Chile 1964: CIA Covert Support in Frei Election Detailed». The National Security Archive, https://nsarchive2.gwu.edu/news/20040925/index.htm; (b) «Foreign Relations of the United States, 1964-1968, Document 269». U.S. Department of State: Office of the Historian. United States Department of State; (c) «Foreign Relations of the United States, 1964-1968, Document 254». Office of the Historian, Bureau of Public Affairs, United States Department of State, 5 de Maio de 1964.
2- Ver (https://www.cia.gov/library/center-for-the-study-of-intelligence/csi-publications/csi-studies/studies/vol47no3/article03.html)
3- Uma informação muito detalhada sobre estes projectos do governo norte-americano para desestabilizar e derrubar governos adversários, não só o caso do Chile, encontra-se em US Congress, Senate, Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, Interim Report of the Select Committee to Study Government Operations with Respect to Intelligence Activities, 94th Congress, 2nd Session, (Washington, DC: US Government Printing Office, 20 November 1975). As referências à orientação definida por Nixon encontram-se na página 227 deste volume.
4- Ver a ampla e demolidora informação que este link proporciona: http://kontrainfo.com/demuestran-que-la-cia-esta-detras-del-intento-de-golpe-en-nicaragua-usando-a-grupos-de-ultraizquierda/

Texto completo em: https://www.lahaine.org/salvador-allende-un-recordatorio-y

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Argentina: crise, falsa saída e contágio

Fuga de capitais é grave e reflete desajustes da economia global. Mas governo Macri submete-se aos “remédios” do FMI e ataca direitos sociais, para “proteger” investidores externos

Por Mark Weisbrot, em entrevista a Greg Wilpert, no Democracy Now | Tradução: Inês Castilho

Nos últimos dias, a crise econômica na Argentina está se tornando cada vez mais séria. Semana passada, o presidente Maurício Macri anunciou um novo aumento nas taxas de juros do país, elevando-as a 60% — as mais altas do mundo. A medida visa deter a fuga de capitais e o declínio da moeda argentina. O peso já caiu mais de 50% desde o começo do ano, e despencou mais uma vez no início da semana. Macri planeja também aumentar os impostos sobre exportação e introduzir medidas de austeridade ainda mais duras do que as já introduzidas este ano. O ministro das Finanças do país, Nicolas Dujovne, descreveu assim seu plano:

“Vamos economizar mais 6 bilhões de dólares, que não teremos de financiar no mercado, e em 2020 vamos ter um superávit primário de 1% do PIB, o que economizará outros 5,2 bilhões de dólares.”

A Argentina anunciou também que irá pedir ao FMI o desembolso imediato de uma linha de crédito de 50 bilhões de dólares, que foi aprovada em maio passado  um dos maiores empréstimos desse tipo na história do FMI. Enquanto isso, a população tem ido às ruas para protestar contra a dura austeridade e crescente inflação do país. Por exemplo, manifestantes tiveram um confronto com a polícia semana passada, num protesto contra demissões no setor público.

Vamos começar pelos mais recentes anúncios de Macri sobre política econômica: aumento da taxa de juros e dos impostos de exportação, e introdução de medidas de austeridade ainda mais duras. Qual a justificativa dessas políticas, para o governo?

A justificativa é restaurar a confiança dos mercados. E isso é especificado no acordo com o FMI que eles assinaram em junho. A ideia é que essas medidas garantirão aos mercados que o governo não vai continuar a não fazer nada que abale a confiança, particularmente dos investidores estrangeiros, já que a dívida externa tornou-se enorme desde que Macri assumiu o cargo.

Quais são os efeitos mais prováveis dessas políticas, no curto e longo prazo, deixando de lado se vão realmente aumentar a confiança na economia?

O efeito da austeridade, no curto prazo, é encolher ainda mais a economia. E isso é típico  na verdade, uma solução típica do FMI para uma conta corrente deficitária. Déficit em conta corrente é basicamente o déficit comercial somado a outros empréstimos anuais que o país está utilizando, tomados no resto do mundo. Eles hoje têm um alto déficit em conta corrente. Se você encolhe a economia com a austeridade, irá reduzir as importações. E essa é uma maneira de reduzir o comércio e o déficit em conta corrente. Não é um bom caminho, em geral, e significa que o povo irá sofrer mais. O desemprego já subiu cerca de 2 pontos percentuais desde que Macri assumiu o governo. De modo que as medidas serão muito desconfortável para a população. É uma das razões por que você vê as pessoas se manifestando nas ruas.

Na verdade, além de tentar reduzir as importações, parece que eles estariam também reduzindo as exportações com esse imposto. Você não diria isso?

Não, acho que os impostos sobre exportação estão corretos. Essa é uma boa fonte de renda para o governo, e penso que Macri não deveria é ter reduzido esses tributos, ao assumir o governo. Mas o problema é mesmo que o governo emprestou tanto dinheiro. De 63 bilhões de dólares, a dívida do governo central foi para mais de 140 bilhões. Não havia razões para isso. Também queimaram rapidamente as reservas do banco central.

Isso é parte do que está gerando a crise. E era desnecessário, porque eles poderiam, ao contrário, ter tomado empréstimos domésticos. Vale lembrar que a ex-presidente Cristina Kirchner deixou uma dívida externa muito, muito pequena em relação à economia do país. Isso é importante porque esse governo — e parte da mídia e das pessoas que o apoiam — estão tentando culpar o governo anterior pela crise atual. De fato, os Kirchners [Cristina e Nestor, presidente que a antecedeu] deixaram alguns desequilíbrios. Claro, Macri teve que liquidar a dívida dos fundos abutres, remover alguns dos controles de capital e permitir que a taxa de câmbio flutuasse. Foram medidas positivas. Mas as causas da crise estão nos empréstimos externos e no desperdício de bilhões de dólares tentando defender a moeda, enquanto ela estava caindo. Todo esse dinheiro foi desperdiçado e somado à dívida externa.

Vamos aprofundar isso um pouco mais. Como o peso perdeu tanto valor? Você mencionou, é claro, os empréstimos – mas como Macri de repente acaba nessa crise financeira que ele de fato não encontrou ao assumir o governo?

Ele tornou as coisas muito piores, penso, principalmente pelo endividamento externo. E também, é claro, a austeridade dói. Mas acho que o pior é que ele agora está aprisionado numa armadilha. Com o acordo do FMI amarrou-se à “austeridade”. Agora, os investidores sabem que a economia não vai melhorar tão cedo. Então, ele está tentando construir confiança no mercado, mas, como vimos na zona do euro, isso geralmente tem o efeito contrário.

Então agora podemos esperar anda mais “austeridade”, e uma queda ainda maior na economia argentina, ao menos no médio prazo?

É o que parece, com certeza. E penso que serão forçados a manter o erro, já que o FMI vai monitorá-los a cada trimestre, para desembolsar as parcelas do empréstimo. Isso não significa que a economia não poderá recuperar-se, a uma certa altura. Mas no curto prazo as coisas parecem bem ruins.

Essa situação tem algumas semelhanças com o que aconteceu nos anos 1990. Eles tiveram quatro anos de depressão, e ficaram inadimplentes com suas dívidas. Agora, não há depressão. A economia está desacelerando, provavelmente terão uma recessão. Mas a semelhança é que estão presos a esse programa, e tentando construir confiança nos mercados, mas tudo o que fazem na verdade só piora a situação.

E há uma outra semelhança, que a maioria das pessoas notou, e penso que é muito importante. Macri apresenta uma série de desculpas para o que aconteceu, dizendo que a culpa não é sua. Numa destas alegações, ele tem razão. É o recente aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve [banco central dos EUA]. Isso é semelhante ao que aconteceu entre 1994 e 1997, quando o Fed elevou as taxas de juros e espalhou crises pelo mundo. Começaram no México, espalharam-se pela Argentina e se converteram na crise financeira da Ásia, que começou em 97. Desdobraram-se em crises na Rússia e no Brasil. Isso é realmente um grande fator, e mostra o quão poderoso é o Federal Reserve e sua influência nos países em desenvolvimento. Algo que ele não leva em conta, é claro, quando decide sua política monetária.

Recordo também de como a Turquia, por exemplo, está agora enfrentando uma crise, em parte, causada pelo aumento da taxa de juros do Fed.

Sim. São exemplos de como países que os investidores consideram vulneráveis – se são ou não é outra história – sofrerão um impacto, e terão crises financeiras. E às vezes simplesmente porque os “mercados” decidem que devem fugir.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/argentina-crise-falsa-saida-e-contagio/

 

Moncada denuncia ameaças dos EUA a Maduro caso se desloque às Nações Unidas

O diplomata venezuelano acusou ainda Carlos Trujillo, embaixador dos EUA na Organização de Estados Americanos, de ter pedido a países do Grupo de Lima que ataquem militarmente a Venezuela.

A maioria dos venezuelanos rejeita o intervencionismo norte-americano no paísCréditos / Alba Ciudad

Samuel Moncada, representante da Venezuela junto das Nações Unidas (ONU), recorreu esta segunda-feira à conta oficial de Twitter do Ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país (@CancilleriaVE) para denunciar as ameaças de Carlos Trujillo à «integridade física» do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro.

«É incrível que, depois de um atentado frustrado, o representante dos Estados Unidos na Organização de Estados Americanos (OEA), Carlos Trujillo, declare que o presidente Nicolás Maduro "está a arriscar-se ao vir a Nova Iorque", para assistir à 73.ª Assembleia Geral da ONU», lê-se na conta do Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros.

«O Senhor Trujillo quebrou todos os parâmetros», disse Moncada numa entrevista à TeleSur, em que qualificou as declarações do diplomata norte-americano como «inauditas e repudiáveis», «criminosas e violadoras do direito internacional».

Lembrando que «o grupo terrorista que levou a cabo o atentado frustrado no passado dia 4 de Agosto está protegido em território norte-americano», Samuel Moncada sublinhou que a administração dos EUA está obrigada, na sua qualidade de Estado-anfitrião, a garantir aos chefes de Estado e de governo o acesso em segurança às instalações das Nações Unidas.

«Quando um chefe de Estado vai às Nações Unidas, não vai aos EUA, mas a um território da ONU, e os EUA estão obrigados a garantir a sua segurança e da sua comitiva», frisou.

Instigar a guerra contra a Venezuela

Na entrevista à TeleSur, o diplomata venzuelano acusou ainda os EUA de promoverem uma guerra «entre latino-americanos». «Os Estados Unidos instigam a guerra, financiam a guerra, equipam a guerra, beneficiam com a guerra e vão querer aparecer como os salvadores humanitários», alertou Moncada.

De acordo com o diplomata, isto ficou evidente esta segunda-feira, numa sessão da OEA, no decorrer da qual Carlos Trujillo, embaixador norte-americano junto do organismo regional, instou «os governos da Colômbia, do Chile, do Brasil e do Peru – que agridem fortemente a Revolução Bolivariana – a atacar a Venezuela», informa a AVN.

«Os Estados Unidos querem a guerra, mas entre latino-americanos, que nós, latino-americanos, nos matemos uns aos outros», denunciou, acrescentando que foi por isso que Trujillo pediu abertamente aos países referidos que «tomem a decisão difícil de atacar abertamente a Venezuela».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Boaventura: Excessos do Judiciário podem destruir sistema democrático

“Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do sistema democrático”, avalia o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, apontando os riscos para o país de um cenário no qual não se distinguem os poderes da República.

Paradoxalmente, aquele que seria o mais autônomo entre eles é quem mais depende do poder político. “Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia”, aponta. “Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade.”

Na entrevista exclusiva concedida à RBA, em meio ao 24º Seminário Internacional de Ciências Criminais, Boaventura traça um panorama das transformações pelas quais passaram a América Latina e o Brasil desde o início dos anos 2000, com a emergência de movimentos e governos progressistas que tiveram de enfrentar a resistência da direita e a interferência de atores externos. “A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos agentes internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o ‘perigo petista’.

Confira abaixo os principais trechos da primeira parte da entrevista.

Entrevista

A América Latina no início dos anos 2000 e o Fórum Social Mundial

Era um momento de muita esperança neste continente, o governo Chávez tinha de alguma maneira inaugurado em 1998 uma certa renovação, havia um grande fermento que vinha e que resultava diretamente, no caso da Argentina e do Brasil, dos próprios processos de democratização que tinham ocorrido nos vinte anos anteriores. Começam os movimentos, nos anos 1980, quando surge o MST e, portanto, esses movimentos, muito fortes, vão dar uma ideia de que este continente era um continente de esperança, depois de tanto martírio, de tanta guerra e tantas ditaduras, morte e violência.

E realmente essa esperança estava de alguma maneira bem fundamentada, porque havia uma riqueza dos movimentos sociais, basta ver que era o único continente onde começava a se falar de alguma maneira do socialismo do século XXI, não se falava disso em nenhuma outra parte do mundo fora da América Latina. O Fórum Social Mundial surge justamente nesse contexto e nesse caldo que aponta para fortalecimento da luta da esquerda. Muitos dos governos progressistas que vieram a surgir na América Latina devem alguma coisa à mobilização do Fórum Social Mundial. Lembro de Fernando Lugo, antes de ser presidente, que veio do Paraguai de ônibus porque não tinham dinheiro para pagar a passagem.

Portanto, houve realmente uma mobilização muito grande. Em 2003 temos o Lula no governo, um momento de muita esperança em geral, mas não apenas ao nível dos partidos e dos governos, mas dos movimentos sociais que continuaram muito fortes, com alianças intercontinentais, inclusive a que nós temos hoje, por exemplo, com a Via Campesina ou a Marcha Mundial das Mulheres, que nasceram e se fortaleceram acima de tudo no Fórum Social Mundial. Também foi um momento enorme para interconhecimento, para o movimento indígena, por exemplo, que praticamente nem se conheciam uns aos outros na América Latina e dentro do próprio Brasil.

Os governos progressistas e o recuo

O que aconteceu, entretanto, é que os governos progressistas chegaram e uma corrente de esquerda de muitos intelectuais aqui da América Latina, com os quais devo dizer que não estou totalmente de acordo, fazem uma distinção entre progressivismo e esquerda, isto é, os governos eram progressistas, mas não eram de esquerda. Penso que essa distinção não faz muito sentido, eram de esquerda e se equivocaram, e obviamente cometeram erros. Eram progressistas, mas não reacionários, que é o que se opõe, e eram de esquerda e não de direita. Por que essa distinção começa a ser feita? Porque realmente é o sinal do desespero e de frustração, porque foi um continente que criou grande expectavas e numa década as expectativas transformaram-se em frustrações.

Como é que se transformam tão rapidamente? Por erros obviamente internos dos próprios governos progressistas e por uma influência externa que é o imperialismo norte-americano, muito claramente, sobretudo a partir de 2009. Havia uma situação muito específica naquela altura e tempo, de crescimento do mercado internacional das matérias primas provocado pelo impulso e desenvolvimento da China, com uma rentabilidade enorme para os países que as produziam. O Brasil era um deles, outros países da América Latina também, como a Argentina. Houve aqui um ambiente extraordinário que permitiu uma dinâmica social orientada por estes governos, que vinham de movimentos sociais e tinham uma política muito semelhante à da social-democracia europeia – era assim que o Lula designava seu governo, como social-democracia à latino-americana, lamentando aliás que os europeus a estivessem abandonando.

Tudo isso era possível para aquela conjuntura, mas sem se tocar na matriz econômica, na estrutura de classe e no modelo de desenvolvimento. Sem tocar no modelo financeiro e midiático. Isso fez com que a certa altura os próprios movimentos sociais começassem a sentir uma grande frustração. Em outros países, como no caso da Bolívia, houve uma divisão total entre os movimentos, como no caso equatoriano.

Influência dos Estados Unidos

Mas há também uma intervenção externa que começa a ter lugar sobretudo a partir de 2009, com o golpe das Honduras, e não foi antes porque o Estados Unidos estavam completamente envolvidos desde 2003 na guerra do Iraque e, portanto, haviam se esquecido praticamente da sua política na América Latina por estarem ligados ao Oriente Médio. A essa altura, em 2009, começam a olhar outra vez para o continente e a ver que o que estava surgindo aqui uma dinâmica autonomista que se opunha em causa ao princípio fundamental de toda a diplomacia e domínio norte-americanos, que se resumem a uma expressão: acesso aos recursos naturais.

Estavam a surgir aqui muitas coisas e um dos casos mais graves era obviamente o Brasil, na medida em que o país hegemonizava aqui na América Latina, não só pela sua dimensão, mas também pelo fato de ser um membro importante dos Brics. Portanto, estava a ser uma alternativa que entrava em linha de confrontação com o dólar, unindo Rússia, China, Brasil, Índia e África do Sul.

Como não havia nesse momento, digamos, a ameaça comunista – era difícil de se inventar agora, como se inventaram antes as ditaduras por haver a Revolução Cubana – passam a se fazer golpes institucionais usando o Judiciário. Já se fazia, há décadas, grandes investimentos no Ministério Público, por parte da CIA e das organizações. Estudei isso por conta do caso colombiano no qual, para se fazer a tal luta contra a corrupção, contra a guerrilha, se fez um Judiciário musculoso, muito agressivo, inquisitorial e nada respeitoso em relação aos processos em nome da luta contra as drogas e contra o terror.

Esse modelo começou a dar esses frutos em 2009/2012, pulou para o Paraguai e depois chegamos em 2016. O que se passou no Brasil desde então não se pode explicar sem exatamente analisar essa necessidade de se liquidar, neutralizar qualquer política de autonomia no continente, garantindo o acesso (dos EUA) aos recursos naturais. Obviamente, o imperialismo norte-americano é uma coisa muito diferente do imperialismo de antes, não é apenas a CIA ou os militares como a gente pensa, mas uma série de organizações, muitas vezes privadas, financiadas pelos irmãos Koch. Estes são realmente os grandes potencializadores das políticas conservadoras nos Estados Unidos, de extrema direita mesmo, mais conservadora, que tem outras ramificações. A Atlas (Foundation), que é um reduto importante, onde está o Instituto Milllenium, Instituto Mises e muitos outros institutos que estão em funcionamento no Brasil e que fizeram com que hoje os valores de direita fossem quase “chiques”.

Os custos políticos para a direita

Portanto, houve eventos internos e uma interferência externa que levaram à situação em que o Brasil se encontra hoje, uma situação muito complexa, precisamente por ser no país que sediou o Fórum Social Mundial. Ainda hoje muita gente me pergunta, no mundo, enquanto estou fazendo minhas palestras, como foi possível neste país tantos retrocessos em tão pouco tempo, e de uma maneira tão violenta e com tão pouca resistência. E realmente assim foi. Penso que os movimentos sociais já estavam de alguma maneira desmobilizados, por diferentes razões, como os que pensavam que já não era necessária mobilização social porque o governo era amigo, e outros que tinham sido hostilizados pelo governo e que portanto não estavam em pé de guerra para defender as suas reivindicações.

Estão acordando agora. Os retrocessos que se cometeram nos últimos dois anos foram de tal ordem que transformaram esse político genial que é Lula da Silva em um mártir, e os lados, digamos, mais frágeis e críticos dos seus governos não podem se discutir hoje. O que é também problemático, penso que devemos fazer uma discussão desses erros, até porque o tipo de governo que ele fez não se pode reproduzir no futuro.

A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos atores internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o “perigo petista”.

Os poderes que se confundem

Nós temos vários candidatos de esquerda e vários candidatos de direta neste momento, mas a simetria termina aqui. Sempre digo que a direta está fragmentada até o segundo turno, dando uma aparência de fragmentação exatamente para garantir que haja apenas candidatos de seu campo no segundo turno. No segundo turno, ela será brutal em liquidar aquilo que não quiser, e vai fazer com todos os instrumentos e toda força que tem.

Quando se adota o instrumento da delação premiada como um pressuposto de verdade quase absoluta, esse risco é real …

Pode o jogo sair das mãos (da direita), porque há muito atores no jogo brasileiro, o populismo está aí, o Bolsonaro é o exemplo, mas ele responde não só a uma política de grande descrédito da democracia levada a cabo muitas vezes pelas próprias instituições democráticas. Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do próprio sistema democrático. E é esse o risco que corremos nesse momento, porque qualquer político que tenha o seu nome associado em uma delação, que tenha sido feita sem nenhuma prova, tem o seu currículo obviamente manchado e a sua carreira comprometida.

Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia. Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade.

Os mercados querem um candidato de direita, não tem que ser o Bolsonaro, provavelmente pode ser ele na medida em que apoie a liberalização, privatização de tudo, como quer o Instituto Millenium e o Mises, a ala mais conversadora da direita. Um Alckmin provavelmente acabará por fazer mais ou menos a mesma coisa.

Isso é feito pelo interesse internacional, obviamente que não foi algo impensado, foi tudo calculadíssimo para que isso se desse e provavelmente pode até ter êxito. Só que nunca tem êxito completo porque a sociedade felizmente tem outras dinâmicas, a sociedade começa a mover-se, as pessoas começam a fazer comparações sobre como era nos “terríveis tempos do Lula”. Como é que se vive hoje? Começam a fazer comparações, “ah, mas esse senhor não foi que o nos pintaram” e, portanto, as pessoas começam a acordar, e isso começa a notar-se já, na opinião pública.

Quem defende a democracia é a esquerda

Tenho defendido que nesse momento em que vivemos é a esquerda que tem que defender a democracia, e não a direita. E não é só aqui, penso isso na Europa. Porque a direita se vendeu de tal maneira aos interesses do neoliberalismo que não tem capacidade, mesmo que queira, para poder impor alguma regra ao capitalismo. Se não houver regras ao capitalismo é o capitalismo que impõe regras, situação em que nos encontramos neste momento.

A esquerda, até porque perdeu realmente a vertente revolucionária, perdeu a vertente comunista, digamos assim, de uma alternativa total, hoje garante a democracia em todo o mundo. É dela que eu espero isso, acho que a direta está totalmente deslegitimada. A direta brasileira é golpista, quer dizer, não consigo identificar no Brasil ninguém genuinamente de direita, com uma política de direita que tenha sido contra o golpe, que tenha visto as limitações da Lava Jato e esses perigos. Isto é, colocados a democracia e o interesse republicano acima do interesse partidário. Não, porque é uma sociedade de extração colonial, que realmente continua com muitos vieses colonialistas, oligárquicos, em que sempre privatizaram o Estado, onde o Executivo, o Legislativo e o Judiciário praticamente não se distinguem uns dos outros.

Com o Judiciário mais autônomo do mundo, nenhum outro que eu conheço entre os grandes países do mundo tem o controle do próprio orçamento como tem o vosso Judiciário e, no entanto, acaba sendo o mais dependente do poder político. Isto é muito estranho, o candidato que vier a ganhar tem que tirar as lições do passado. Se for um candidato de esquerda tem que ter muito realismo, porque houve muita destruição nesse processo e é preciso nesse momento neutralizar algumas destas contrarreformas que foram feitas, por exemplo, o Teto de Gastos, obviamente um suicídio social, um absurdo.

Só isso vai levar muito tempo. Um governo de esquerda vai tentar em um primeiro momento minimizar os danos já causados, não vai ter nenhuma possibilidade de poder avançar com as políticas que nós podíamos ter avançado no início da primeira década do milênio, a reforma política, reforma da mídia e a reforma tributária, que era fundamental. Vai, acima de tudo, reduzir os riscos e começar a partir daí a criar condições para uma outra hegemonia, que a meu entender pode e tem que passar pela unidade da esquerda, e eventualmente, quem sabe, o surgimento de mais algum partido de esquerda. O Brasil, sendo um país com muitos movimentos sociais, não tem nenhum partido de movimentos como existe em outros países, por exemplo, na Espanha, com o Podemos. Aqui, os partidos sempre ficaram relativamente tentando ser os proprietários dos movimentos, mas os movimentos não pertencem a ninguém e, portanto, eles próprios podem sair organizados.

Esquerda confrontacional

Se for um governo de esquerda, eu mesmo apoiarei enquanto for reconhecidamente de esquerda, e não vou entrar nestas distinções se “é de esquerda” ou “é progressista” porque isso não faz muito sentido. Acho que vai ser uma política de realismo numa primeira fase, para começar a ver se há forças para atravessar esse cenário internacional de crises, no qual o mercado financeiro tem um controle como nunca havia tido antes.

Portanto, se não se tirar dos ricos, não haverá nada para dar aos pobres. E isso pode ser o fim de qualquer expectativa nova em um governo de esquerda. Será necessário tirar dos ricos, a única maneira ou, digamos, mais simples que se pode fazer, é a via tributária. Uma política tributária nova que finalmente permita que se faça aquilo que a democracia pensava, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Estamos em uma situação absolutamente inversa.

Mas o realismo não é cedência, o realismo vai ser confrontacional, porque foram muito agressivos e realmente, não vão abrir mão daquilo que já quiseram fazer. Até agora não conseguiram abrir mão da Previdência, que é a mãe de todas as reformas, mas conseguiram no caso do pré-sal, que já está profundamente minado. Aquilo que se puder fazer será de enfrentamento, não tenho dúvidas.

Nós criamos um momento de tão baixa intensidade de democracia que, aqui no Brasil, qualquer medida, por pequena que seja no sentido contrário, será confrontacional, não vai ser uma política de alianças. E, portanto, se um governo de esquerda pensar em alianças nesse momento, vai ser traído em um segundo momento. E não é preciso esperar por um Temer, vai ser uma coisa muito mais grotesca e mais rápida. Vão ter que aprender que não há e não vai haver uma conciliação de classes nos próximos tempos porque a direita mostrou que efetivamente isso não é um arranjo de conjuntura, ela quer continuar a ter o poder todo nas mãos, o poder político, econômico e social.

Por Glauco Faria | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (RBA) / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

A Operação Condor e o momento político brasileiro

Revisito as fotografias sobre a Operação Condor de João Pina, que estiveram expostas no Torreão Ocidental do Terreiro do Paço, entretanto publicadas em livro pela Tinta-da-china, e o imprescindível livro de Eric Nepomuceno chamado «A Memória de todos nós» [ pdf A memória de todos nós Editora Record (2015) (744 KB) ]. Ambos dedicaram-se à abordagem da terrível tragédia que se abateu sobre os povos latino-americanos durante os anos de chumbo em que as ditaduras militares decidiram combater o comunismo à custa de uma sucessão ininterrupta de torturas e assassinatos. A coordenação de toda essa conspiração partiu da Escola das Américas, que a CIA organizou no Panamá, mas há que não esquecer os especialistas militares franceses e israelitas que, igualmente, andaram a ensinar como subjugar «subversivos».
Quando corporizo as imagens desse tempo de terror encontro duas possíveis nas vivências passadas: a ordem para a adoção de ritmo rápido e sem olhares curiosos para lá dos muros da Escola de Mecânicos da Armada, quando se queria alcançar o centro de Buenos Aires a partir do cais onde atracavam os navios de cruzeiros. Os cartazes eram elucidativos: uma atitude mais suspeita poderia ser punida com um tiro sem aviso prévio. E, no entanto Raul Alfonsin já estava a concluir o mandato enquanto primeiro presidente pos-ditadura, avizinhando-se a campanha eleitoral, que levaria Carlos Menem a suceder-lhe.
A recordação dessa experiência inclui o estremecimento interior por saber que dentro desses muros, tinham sido mortos tantos dos que as mães da Praça de março ainda procuravam resgatar do esquecimento exigindo punição exemplar para quem os assassinara.
Compensa, de alguma forma, saber que esse sinistro espaço militar foi, entretanto, convertido em Museu de Evocação das vítimas da ditadura, tendo sido inaugurado por quem nele nascera enquanto filho de uma das logo assassinadas após o parto.
A outra imagem é também do período de transição da ditadura para uma forma condicionada de Democracia. Aconteceu-me em Valparaíso, quando Pinochet já se vira derrotado no referendo, que julgara incapaz de o remover do poder e quando o presidente entretanto eleito, Patricio Aylwin, ainda não fora empossado. O meu cirandar pela zona ribeirinha da cidade - não me arrisquei aosbarrios altos - foi acompanhado por sucessivas patrulhas militares que, a cada esquina, vigiavam os movimentos de todos quantos por ali circulavam. Embora a ditadura tivesse sido derrotada, a pressão dos seus agentes continuava a ser ostensiva.
Desde então, nalguns dos países abarcados pela Operação Condor, a justiça veio a repercutir-se nos assassinos e torturadores, mesmo que tarde e a más horas. No entanto, seja na Argentina ou no Chile, o nome dos chefes militares desses anos negros, está agora manchado, poucos havendo que insistam em os considerar heróis.
Não aconteceu o mesmo com o Brasil. Pelo contrário: a associação do capital, do sistema de Justiça e da imprensa (Rede Globo, revista Veja, Folha de S. Paulo, etc.) nunca permitiu que o reequacionamento dos crimes da ditadura entre 1964 e 1985 fosse feito. Pelo contrário é comum viajar-se pelo país e encontrar quartéis militares com o nome dos sucessivos ditadores, que se sucederam no poder nesse período. Assim se explica o golpe de Estado concretizado contra Dilma, a conspiração para inculpar e manter Lula na prisão, impedindo-o de recuperar a Presidência, e a promoção do tenebroso Bolsonaro enquanto herdeiro desse passado até agora livre da merecida condenação.
O que aí acontecerá nos próximos meses é imprevisível porque, entre um recauchutado regime militar e o regresso à ordem constitucional com um presidente livremente eleito - Lula -, não será fácil prever qual a que se revelará vitoriosa. De qualquer forma confirma-se a velha lição de Edmund Burke sobre a possibilidade de repetir os erros do passado, quando se esquecem as lições da História. Os políticos brasileiros que, nos últimos trinta anos, pactuaram com um manto de silêncio sobre o sucedido nas duas décadas anteriores, foram cúmplices ativos do atual desastre, e porventura da tragédia, que se seguirá.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/08/a-operacao-condor-e-o-momento-politico.html

A grande traição no Equador

Lenin Moreno, ao centro, em cerimônia militar: o presidente da restauração conservadora

Ex-chanceler explica: o presidente, Lenin Moreno, foi eleito para continuar a revolução popular de Rafael Correa. Mas ao invés disso a está desmantelando

Guillaume Long, entrevistado por PabloVivanco, na Jacobin| Tradução: Inês Castilho

Em pouco mais de um ano, a paisagem política no Equador mudou dramaticamente. Por mais de uma década, a Revolução Cidadã iniciada com Rafael Correa deu grandes passos na redução da pobreza e desigualdade, inclusive tirando da rua e colocando na escola centenas de milhares de crianças, ao mesmo tempo em que aumentava significativamente a classe média equatoriana. O país também alcançou estabilidade política e social, depois dos anos de agitação que se seguiram à crise bancária de 1998.

Contudo, a Revolução Cidadã não se deu sem detratores e contradições, incluindo discussões e protestos sobre direitos reprodutivos, indústria extrativa e, mais recentemente, escândalos de corrupção envolvendo figuras-chave do governo. Apesar disso, nas eleições de 2017 o Equador parecia ter resistido à tendência de vitória da direita em toda a América Latina. O candidato da Aliança PAIS de Correa, Lenin Moreno, foi eleito numa plataforma de continuidade – mas começam a surgir sinais de uma divergência iminente. Moreno e Correa são agora inimigos ferozes, com o governo de Moreno procurando prender seu ex-aliado como fez com o último vice-presidente de Correa, Jorge Glas. A Aliança PAIS  separou-se e os aliados de Correa ainda não foram autorizados a registrar um novo partido.

O governo de Moreno aliou-se também com forças políticas da direita para aprovar medidas significativas de “austeridade” e liberalização, enquanto muda a política externa do país para uma disposição amistosa com os EUA. A mudança espetacular – que Correa considerou “traição” ou “golpe” – deixou muita gente perplexa.

Guillaume Long (na foto abaixo) foi o último ministro das Relações Exteriores de Correa. Foi também o líder de assuntos internacionais da Aliança PAIS, e encabeçou os esforços para criar um amplo espaço aos partidos de esquerda latino-americanos convocando a Cúpula de Progressistas da América Latina (ELAP). Falou longamente à Jacobin sobre o que acontece no Equador e o estado da esquerda na região.

As reformas politico-econômicas que, surpreendentemente, foram iniciadas por Lenin Moreno, assim como o rompimento ocorrido na dirigente Aliança PAIS, são exemplos das mudanças tectônicas que estão acontecendo na política do país. O que explica o abandono da lealdade e da plataforma eleitoral de Lenin e seus partidários, muitos dos quais haviam apoiado Correa e a Revolução Cidadã?

Há vários fatores internos, o primeiro, é claro, sendo a escolha do sucessor de Correa, pelo próprio Correa, um erro significativo. Entendo que nasceu de boas intenções, quando Correa decidiu não concorrer novamente.

Esse deveria ser um movimento muito democrático. Era provável que Correa vencesse, por outro lado Lenin lutou para vencer, mas venceu com os votos de Correa. Se fizermos uma análise rigorosa do voto a Moreno em 2017, veremos que foi basicamente dos bastiões de apoio popular ao Correísmo.

Mas a ideia era ter alguém que fosse mais de centro, porque tivemos muitas políticas polarizadoras, particularmente em 2015, com um inesperado imposto sobre terras e heranças, que não existia antes. A direita mobilizou-se intensamente e pensamos que alguém como Lenin Moreno, um caráter benevolente que prezava o diálogo, institucionalizaria as coisas. Talvez Correa pudesse até mesmo voltar, quatro anos depois, com uma agenda mais radical, e continuar a transformação.

Mas penso também que foram cometidos vários erros pelos governos de Correa, em particular nos últimos anos. Isso deu mais poder a Lenin, porque havia uma noção de que Correa criava muito conflito. Os erros foram mais estéticos que estruturais, e fizeram de Lenin não apenas um herdeiro de Correa, mas uma alternativa viável para setores que não demonstravam simpatia por Correa.

Quando Moreno afastou-se de Correa, nos primeiros meses, ele capitalizou esse gesto com pessoas que estavam fartas do estilo polarizador de Correa governar. Particularmente nas classes médias, havia um sentimento de que era tempo para um tipo de governo muito mais ecumênico, que pudesse ouvir, que fosse menos conflitivo. Claro, isso foi usado como plataforma para a recuperação do poder e para colocar um fim em todos os tipos de política, inclusive políticas redistributivas de que as elites discordavam.

Claro que houve também fatores exógenos. Os dois últimos anos de governo de Correa foram muito difíceis. Em 2014, a quebra das commodities afetou a economia muito seriamente. Isso significa que, ao invés de terminar seu mandato em alta, Correa terminou na baixa. Agora, paradoxalmente, eu diria que seu melhor governo foi entre 2014 e 2017, quando ele surfou na queda das commodities de forma muito inteligente. O Equador é o único país do seu tipo que não enfrentou uma grande crise por causa da queda das commodities.

Houve também um terremoto, o que contribuiu com o crescimento negativo, fatores de todo tipo. O Equador acertou em muitas coisas: manejou para sair da recessão por meio de investimentos antiausteridade, derrotando o neoliberalismo, demonstrando que a austeridade não funciona nos bons tempos, e funciona ainda menos quando os tempos são difíceis.

Mas as pessoas sentiram que houve uma desaceleração na economia, as coisas ficaram mais duras, ficaram difíceis. Isso permitiu que Lenin viesse com uma agenda de mudanças, mas mudanças que viraram as costas para as reformas, para a transformação, a redistribuição, e retornaram a um estilo conservador de governar, que implica muito menos polarização com as elites.

Nesse processo, Lenin ganhou o apoio da mídia. De repente havia essa enorme hegemonia reconstruída em torno de sua figura, o que lhe permitiu consolidar-se politicamente.

Então, por que as pessoas do projeto político de Correa acompanham Lenin? O governo de Correa sempre foi muito heterogêneo, diria que do Partido Comunista até o centro-direita, era amplo. Havia setores empresariais, mas também movimentos sociais, sindicatos, o Partido Comunista, o Partido Socialista e a Aliança PAIS, que é como um partido de massas, e dentro do PAIS há muitas facções.

Isso significava que a esquerda estava representada em sua totalidade. Correa era radical em certos aspectos, mas em outros era menos radical, incluindo aí seu catolicismo profundamente arraigado, que era problemático para certos setores de seu governo. Alguns desses setores viu Moreno como alguém mais secular.

Naquele momento havia a possibilidade de que Moreno se abriria para algumas dessas frentes, certas reformas de gênero, direitos sexuais e reprodutivos. Agora sabemos que isso não aconteceu. Poderíamos examinar algumas dessas acusações contra Correa, porque eu diria que, com a grande exceção do aborto, nas outras frentes o Equador deu importantes saltos nas questões de gênero e LGBT.

Mas havia uma percepção, em certos setores da esquerda, de que Moreno seria mais progressista nesses temas. Que talvez perdêssemos algum radicalismo no fronte econômico, mas ganhássemos em políticas identitárias.

Não aconteceu, mas esta é a razão pela qual eles o apoiaram.

Parece paradoxal que, por um lado, a situação atual resulte da fraqueza de Correa e de seu governo; mas por outro, ele poderia provavelmente vencer a eleição. Diante disso, como descreveria o estado da esquerda e da Revolução Cidadã no Equador, hoje?

Gostaria que a política fosse menos contraditória, porque as duas coisas são verdadeiras. Penso que Correa teria vencido, mas penso também que foi muito fácil montar uma plataforma anti-Correa. Havia dois amplos setores da sociedade – um que teria votado em Correa e outro que não teria votado em Correa. Penso que Moreno conseguiu eleger-se com uma metade, mas governa com a outra.

Eu diria que a esquerda é quase inexistente hoje, no governo. Aqueles setores que uniram-se ao governo de Moreno pouco a pouco se deram conta de que ele tinha uma agenda liberal, fundamentalmente. Estamos agora vendo todas essas leis entrar em vigor, basicamente trazendo um novo tipo de ajuste estrutural que se afasta do modelo de desenvolvimento que Correa e seu governo implementaram.

Agora todos os ministérios-chave estão nas mãos, não somente da direita, mas da linha dura, incluindo os conselheiros-chave do opositor de Moreno nas eleições de 2017. O novo ministro das finanças foi conselheiro financeiro na campanha eleitoral do opositor de Moreno.

Então, a esquerda ocupa postos marginais no governo do Equador. Tivemos outra demissão semana passada. Ele tinha as mãos amarradas. Houve algumas dúvidas se Moreno ainda podia ser considerado de esquerda, logo nos primeiros meses, inclusive internacionalmente. Mas penso que agora há consenso em todo lugar, inclusive fora do Equador, de que Moreno não constituiu um governo de esquerda e que, de todos as formas possíveis, economicamente, geopoliticamente, em termos de política exterior, é um giro conservador.

Onde está a esquerda? Na oposição. Alguns poucos pequenos partidos estão acompanhando Moreno, mas todos os outros estão hoje na oposição.

O que é incrível é a própria Aliança PAIS. Ela foi fundada por Correa, depois expropriada por Moreno, quando foram expulsas todas as pessoas-chave, os fundadores. Agora, é uma casca vazia. O PAIS foi durante anos o maior partido no Equador e no entanto desmoronou, porque está dividido, tanto em sua expressão parlamentar quanto entre os que permanecem leais a Correa e os que se vendem a Moreno, mas também em sua expressão de base. Nas comunidades de base, onde há menos interesses, menos salários envolvidos, menos poder e menos dinheiro para ser distribuido ao redor, obviamente, uma grande maioria dos apoiadores do PAIS permaneceu leal a Correa.

Isso significa que eles agora estão sem partido, porque o governo de Moreno e as instituições controladas por ele impediram Correa de criar um novo partido.

Moreno conseguiu controlar o PAIS, mas o partido agora é insignificante. Perdeu a maioria no Congresso, não por meio de votos, mas por causa de todos aqueles parlamentares que deixaram o partido. E assim Moreno perdeu a maioria e, perdendo a maioria, teve também que abraçar a direita, porque a única maneira de governar é com essa aliança, que o está pressionando a fazer ajustes estruturais neoliberais.

Assim, a esquerda está na oposição, obviamente dividida numa miríade de diferentes expressões, mas cada vez mais unida contra a virada neoliberal.

Há correistas inveterados, há correistas críticos. Algumas pessoas que eram muito favoráveis a suas políticas socioeconômicas e sua política externa, que fez nascer o Estado-nação soberano, foram críticos de outras coisas, por exemplo, a questão do aborto. Há diferentes tipos de correísmo, e há também a esquerda não correísta. Esta é mais marginal e menor, mas existe e agora estamos vendo pessoas fazendo oposição de esquerda a Correa, incluindo pessoas agressivamente anti-Correa que agora são agressivamente anti-Moreno. Então, a esquerda está se reconfigurando.

Você mencionou uma esquerda anti-Correa que está se voltando contra Moreno. A quem está se referindo?

A esquerda anti-Correa sempre foi pequena e de elite. O único setor não-elitista foi o movimento indígena CONAIE, em declínio acelerado, que, infelizmente, cogovernado  por Lucio Gutierrez , vem decaindo. Ainda há alguns remanescentes indígenas, mas nunca foram importantes em termos eleitorais.

Depois há outro tipo de esquerda hard que se denomina maoista, embora eu pense que não tem nada de maoista nela. Está ligada aos sindicatos e ao relacionamento clientelista com o estado. Eram chamados Movimento Popular Democrático e agora são Unidade Popular. Sempre fizeram oposição a Correa, porque ele obviamente limpou os sindicatos e suas relações com o estado.

Não são contra Moreno porque ele lhes deu um grande espaço nos estados, de modo a não ter problemas.

Outros setores da esquerda, particularmente a esquerda liberal, certas elites, estão começando a tornar-se mais críticas. Pode-se,  por exemplo, ver acadêmicos e economistas de esquerda, que pensavam que Correa não era suficientemente radical, que sempre faziam críticas à esquerda a Correa, sendo agora ainda mais críticos de Moreno.

Voce vê a “traição” de Lenin como alguma coisa que foi se desenvolvendo, produto de um processo de divergência, ou pensa que houve algo mais nefasto envolvido?

Ninguém esperava que Moreno fosse idêntico a Correa, nem esperaríamos que obedecesse a Correa ou fosse seu fantoche. Qualquer pessoa eleita legitimamente deveria ter seu próprio programa de governo e isso era o que todos esperávamos. O que desejávamos, em vários sentidos.

Mas uma coisa é dizer “vou ser meu próprio homem, não uma marionete”, e outra bem diferente é implementar políticas que são exatamente contrárias às que ofereceu às pessoas em sua campanha política. Moreno está implementando o programa e promessas de seu opositor na campanha. Ele até disse diante das câmeras, em tom de brincadeira, que “estava meio que odiando” as pessoas que votaram nele.

Verdadeiros líderes democráticos devem estar conscientes de que são representantes da nação, da totalidade do eleitorado, e não somente daqueles eleitores que votaram nele, mas isso é muito diferente de dizer “estou começado a preferir as pessoas que votaram contra mim”.

Isso é contrário à ideia que há por trás da democracia representativa, de que você tem um programa, faz promessas e então, se é eleito, implementa esse programa. Se não o faz, o que está na verdade dizendo é que está mentindo, que mentiu durante a campanha, que seu programa foi uma mentira, suas promessas foram uma mentira.

Não se pode dizer, como Moreno, “sou a favor da Revolução Cidadã, o que fizemos é realmente importante em termos de nossa soberania, em termos de justiça e redistribuição social” e depois se aproximar dos Estados Unidos, querer expulsar Julian Assange da embaixada, aderir à Aliança do Pacífico, colocar um fim ao processo de paz entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o governo colombiano no Equador e implementar um agressivo programa de ajuste estrutural neoliberal.

Não se trata apenas de rivalidade pessoal entre dois líderes. Isso é algo maior, que tem consequências geopolíticas. É algo que foi encorajado e celebrado pelas elites do Equador, pelas elites da América Latina e pelas elites dos EUA. Penso que os Estados Unidos estão felizes, pode-se ver isso pela satisfação do embaixador dos EUA em todas as fotos, em cada evento ministerial que é organizado no Equador. Ele aparece com um largo sorriso. Está muito claro, penso, o que está acontecendo geopoliticamente.

Até que ponto foi premeditado ou foi se desdobrando é algo a ser analisado além da retórica política. Os historiadores deverão examinar com rigor se havia um plano desde o início, com envolvimento internacional, inclusive, ou se os Estados Unidos surfaram na onda e deram mais incentivos.

Mas estou absolutamente certo de que esse não é um evento inocente – é parte de um projeto mais amplo, que busca não só colocar um fim nos governos esquerdistas da América Latina, como também enlamear seu legado. Nesse sentido, o governo Moreno insere-se no TINA (There Is No Alternative) – “não há alternativa”– o tipo de fatalismo neoliberal de que medidas anti-austeridade, ou governos de esquerda não podem ter sucesso na América Latina. Isso é o que está em jogo, de fato.

A lama que foi atirada em Correa está tentando mudar o julgamento da história, mas penso que não vão conseguir. Há muitos de nós resistindo, as pessoas têm memória.

Regionalmente, as coisas também mudaram muito nos últimos anos. Não apenas em termos de resultados eleitorais, mas também questões persistentes em torno das contradições que surgiram com a entrada da esquerda no poder. Ao lado do seu papel como ministro do exterior, você liderou várias iniciativas políticas para o PAIS. Que lições a esquerda do continente pode tirar dessas experiências de governo?

Devíamos aprender com nossos erros, evidentemente. O projeto de Correa era criar um estado-nação moderno, num contexto muito pré-moderno. O Equador é, sob vários pontos de vista, um dos estados mais pré-modernos da América do Sul. Correa criou um estado-nação mais estável e moderno, com redistribuição de renda. O Equador tem muito a ensinar à América Latina e à esquerda, foi bem sucedido, economicamente viável – que é a crítica sempre feita à esquerda.

O modelo econômico era interessante em termos de redistribuição, de redução de desigualdade, numa parte do mundo que é a mais desigual. Foi um sucesso também em termos de seus projetos internacionais: soberania, integração e inserção estratégica num mundo multipolar. Esses são os sucessos, mas há coisas em que foi menos bem sucedido.

Penso que hoje é difícil ter um projeto de esquerda  sem uma postura mais radical sobre feminismo, particularmente no contexto latino-americano. Também porque o norte global tenta erigir um pedestal dizendo que o sul global ainda é pré-moderno numa série de aspectos.

Sabemos, é claro, que essas questões tendem a avançar com a modernidade, a urbanização e a alfabetização, não se pode separá-las. E tivemos sucesso em alguns aspectos, como por exemplo a representação das mulheres na política. Tivemos um parlamento com muito mais mulheres como representantes legislativas do que a maioria das democracias europeias. Mas penso que a revolução deveria ser não somente social e econômica, deveria também ser feminista, e isso é algo que precisamos fazer.

A simplificação da questão ambiental também é uma ferramenta do imperialismo. Muitos dos problemas ambientais de países latino-americanos, tais como os enfrentados pelo Equador, devem-se em primeiro lugar à ausência da modernidade. Assim, se na Amazônia não há cidades organizadas, com um bom sistema de esgoto, e todo o lixo vai parar nos rios  o que é típico de estados fracos, uma consequência do neoliberalismo , isso acaba prejudicando mais o meio ambiente do que políticas desenvolvimentistas, frequentemente condenadas.

Há um mito de que fomos vítimas, mas é também verdade que poderíamos ter feito mais para assegurar que nosso desenvolvimento fosse amigável ao meio ambiente. Também poderíamos ter feito mais para mobilizar politicamente a questão ambiental, e criar os tipos certos de aliança política para criar consenso hegemônico sobre os direitos da natureza, que nós consagramos em nossa constituição.

Então, em gênero, direitos reprodutivos, direitos LGBT e meio ambiente, que são as grandes questões do século 21, deveríamos ter feito mais.

No governo Correa havia em geral muita consideração com os bens comuns globais, bens públicos, todas essas coisas com que era necessário lidar em nível internacional, e não apenas superficialmente, com um discurso estilo ONG “a natureza é bela”, sem pensar em termos estruturais e sistêmicos.

Há dois tipos de redistribuição. A primeira é o tipo de redistribuição nacional, em que se redistribui recursos para o povo mais pobre, e que é o grande problema da América Latina, por causa de nossas desigualdades. Mas há o outro tipo de redistribuição, entre países ricos e pobres, e que não se pode fazer por decreto ou política pública. Tem de ser feita pela mudança da matriz improdutiva e seu papel na divisão internacional do trabalho. Essa é a única maneira, porque não há um governo global para promover essa redistribuição.

É onde Correa era forte, onde o Equador era forte. Dez anos não são suficientes para mudar a matriz produtiva, mas a visão esteva sempre voltada para a educação, a educação superior, ciência e tecnologia, energia, desenvolvimento de novos setores. Não apenas usar o dinheiro que recebíamos do petróleo ou outras fontes para redistribuir, mas para investir uma quantia significativa na transformação da economia para a redistribuição global.

Isso é algo que, penso, o Equador pode trazer para a esquerda latino-americana, porque fala-se muito sobre redistribuição doméstica mas muito pouco sobre redistribuição internacional.

Precisamos unir a esquerda e superar nossas diferenças. É sempre mais fácil superar as diferenças estando na oposição do que fazê-lo sendo governo, porque quando você está governando, faz coisas que dividem as pessoas. Mas quando está na oposição, é muito mais fácil encontrar o que Laclau costumava denominar significantes vazios, que fazem uma plataforma ampla e antioligárquica. E peso que, da próxima vez que estivermos no governo, devemos nos esforçar para ter menos divisões do que tivemos neste momento, e tentar manter essa plataforma.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/a-grande-traicao-no-equador/

 

Colômbia ataca a Venezuela e anuncia saída da Unasul

Iván Duque informou que o seu país está de saída da Unasul. Para a jornalista Stella Calloni, a ofensiva contra a integração regional era «previsível» e responde a uma agenda traçada por Washington.

Sede da Unasul, em Quito (Equador)Créditos / corape.org.ec

O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou esta segunda-feira a saída oficial do seu país da União das Nações Sul-americanas (Unasul), tendo afirmado que o ministro colombiano dos Negócios Estrangeiros, Carlos Holmes, enviou uma carta oficial ao organismo regional em que denuncia o seu tratado constitutivo e na qual comunica que a saída da Colômbia se efectivará no espaço de seis meses.

Ao explicar a decisão de retirar a Colômbia da Unasul, o presidente colombiano, acusou o organismo de ter sido criado para «fraturar o sistema interamericano» e de «servir como trunfo para os propósitos de uma ditadura», aludindo à República Bolivariana da Venezuela, segundo refere a RT.

Em linha com Miami, Washington e Bruxelas, Duque, candidato da extrema-direita que recentemente sucedeu a Santos como presidente da Colômbia, acusou ainda a Unasul de ter estado calada face à «forma brutal como o governo de Nicolás Maduro trata os cidadãos», não garantindo «as liberdades» dos venezuelanos.

Recorde-se que Maduro alertou em diversas ocasiões para a cooperação de Bogotá com Washington na ofensiva contra a Venezuela. Recentemente, acusou o governo colombiano de estar envolvido no atentado contra a sua pessoa, perpetrado em Caracas a 4 de Agosto último.

Há algumas semanas, Carlos Holmes tinha dito que estava num «processo de consultas» com países como a Argentina, o Peru e o Chile, que supostamente teriam intenções de «seguir o mesmo rumo», de acordo com a RT.

Esses três países integram o grupo de seis – os outros são o Brasil, o Paraguai e a Colômbia – que, em Abril deste ano, anunciaram a suspensão temporária nos trabalhos da Unasul, alegando problemas estruturais e internos no organismo, mas a manobra foi entendida como uma ofensiva lançada pela direita contra o bloco e a integração regional.

A Unasul foi criada em 2008 como um espaço de concertação com o propósito de construir uma unidade e uma cidadania sul-americanas, bem como o de reforçar a presença do bloco regional no cenário internacional.

Entrevistada pela TeleSur, a jornalista argentina Stella Calloni sublinhou a importância da Unasul como espaço de integração e resistência na região, mas considerou previsível a ofensiva em curso, considerando que responde a uma agenda traçada por Washington.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Nicaraguenses regressam à «normalidade», mas continuam a exigir justiça

Avança a reconstrução de infra-estruturas destruídas nos três meses de agitação golpista, que provocou 198 mortos no país centro-americano. As vítimas do terrorismo exigem «reparação e justiça».

A maioria dos nicaraguenses defende a pazCréditos / Twitter

Milhares de pessoas voltaram a manifestar-se, este sábado, na capital do país, Manágua, para exigir justiça e reparação para as vítimas da violência que marcou a intentona golpista, provocada pela extrema-direita, com apoio financeiro norte-americano.

Entre a Praça das Vitórias e a Avenida de Bolívar a Chávez, os manifestantes exigiram também «castigo» para os autores dos crimes que conduziram à morte de 198 pessoas, entre 18 de Abril e 25 de Julho, de acordo com números oficiais referidos pela Prensa Latina.

«Famílias, estudantes, docentes, trabalhadores e povo em geral exigiram respeito pelos direitos humanos, justiça e reparação para os assassinados, sequestrados, torturados, violados, feridos, e os que perderam os seus seres queridos, casas e meios de subsistência durante os últimos meses», precisa a mesma fonte, que refere que as acções deste género – para reclamar paz, justiça e reparação para as vítimas – se têm intensificado nas últimas semanas.

A jornada de mobilização, também marcada pela reivindicação da paz e pelo apoio à Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), serviu ainda para assinalar o 38.º aniversário da Cruzada Nacional de Alfabetização «Heróis e Mártires pela Libertação da Nicarágua», que permitiu reduzir a taxa de analfabetismo herdada da ditadura de Somoza, superior a 50%, para perto de 10%.

«O país regressa à normalidade»

«A Nicarágua regressa à paz e à normalidade, depois de ter estado praticamente três meses submetida às acções de vandalismo perpetradas por grupos violentos», disse esta segunda-feira Bettina Rodríguez, embaixadora do país centro-americano na República Dominicana.

Em declarações à Prensa Latina, a diplomata sublinhou que o governo nicaraguense está a levar a cabo uma série de medidas e trabalhos que não visam conduzir o país «ao seu estado inicial (isso é difícil, depois de tudo o que se passou)», mas que têm por objectivo fazer com que «as populações possam realizar a sua vida quotidiana».

Neste sentido – explicou –, «estão a ser realizados encontros com as populações para aferir as suas necessidades em cada localidade e, dentro do possível, encontrar soluções para os problemas».

Ao nível da reconstrução do país, Rodríguez referiu os esforços efectuados na rede viária, muito danificada pela violência dos últimos meses, destacou a recuperação das infra-estruturas no sector do turismo – cerca de 70% já estão em condições de prestar atendimento aos visitantes – e classificou como «muito importante» o início das aulas nos níveis primário e secundário em todo o país.

Tentativa de golpe e mais de três meses de violência

O país centro-americano foi palco de acções de terrorismo e de grande violência nas ruas durante mais de três meses, promovidos por grupos da oposição de direita, segundo denunciou o governo de Daniel Ortega.

Os protestos, que visavam alegadamente a reforma da Segurança Social, prosseguiram e intensificaram-se mesmo depois da sua revogação, levando o governo sandinista a denunciar os propósitos políticos subjacentes ao «caos nas ruas».

No entender dos sandinistas e de vários analistas internacionais, tratou-se apenas de um pretexto para pôr em marcha um plano orientado a partir dos EUA com o propósito de desestabilizar o país e provocar a queda do governo.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Direita abre espaço para presença militar dos EUA na América Latina

Recentemente o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que 2018 é o “ano das Américas” e deixou claro seu interesse em ampliar a influência norte-americana nos países latinos. Só este ano já passaram pelo continente sul-americano o vice-presidente Mike Pence, os secretários de Estado, e de Defesa, Rex Tillerson e James Mattis, respectivamente, e o representante do Departamento de Estado, Thomas Shannon.

Esta presença norte-americana – não à toa – se dá através dos governos de direita que assumiram o poder nos últimos anos dispostos a fazer do continente, novamente, um aliado subserviente dos EUA. A mudança do cenário na América Latina, após uma década de hegemonia do ciclo progressista, começou com o golpe de Estado no Paraguai em 2012, seguida da eleição de Maurício Macri na Argentina em 2015, o golpe no Brasil no ano seguinte e a traição de Lenín Moreno à Revolução Cidadã no Equador, mais recentemente.

Brasil, Argentina e Equador são os três países que mais abriram espaço para a presença militar dos EUA no continente nos últimos tempos. Estes acordos se dão através de negociações comerciais, investimentos externos e cooperação entre as Forças Armadas locais e o Departamento de Segurança norte-americano.

Se o governo de Correa se destacou pela altivez ao enfrentar a política ingerencista norte-americana, Lenín faz agora exatamente o contrário. Nos anos de Revolução Cidadã a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) deixou o Equador após 5 décadas de atividade; foi fechada a base militar norte-americana do território equatoriano, assim como a Unidade de Investigações Especiais dos EUA. Fora isso, o pequeno país andino enfrentou o gigante do Norte ao dar asilo político ao jornalista Julian Assange em sua embaixada em Londres, na Inglaterra.

Lenín Moreno foi eleito para ser a continuação do projeto de Rafael Correa, mas não demorou em trair os princípios da Revolução Cidadã e mudar a agenda política do país à direita. Com esta guinada, abriu o Equador para parcerias militares e deixou de lado a soberania na política externa ao ameaçar dar fim ao asilo de Assange.

Além disso, firmou um Acordo em Cooperação de Segurança com os EUA, aceitou doação de equipamento policial, começou um projeto de cooperação de segurança, anunciou o retorno do país às manobras militares dirigidas pelo Departamento de Segurança norte-americano no continente e a criação de um escritório de cooperação com a Secretaria Nacional de Inteligência.
Uma mudança parecida acontece na Argentina. Se os governos de Néstor (2003 – 2007) e Cristina Kirchner (2007- 2015) foram marcados pela resistência à presença norte-americana no país, Macri não demorou em entregar novamente o território de bandeja a Trump.

Em apenas dois anos, o presidente argentino reativou bases de presença militar norte-americana na Patagônia e negociou outros pontos estratégicos como a região da fronteira com o Brasil, na província de Missiones. Fora isso, firmou acordos entre a Comissão Nacional de Atividades Espaciais argentina e a Nasa, para esta atuar no Ushuaia; e criou um Centro de Fusão de Inteligência a fim de fornecer informações a diferentes agências de segurança norte-americanas.

Sob o pretexto de combater o narcotráfico e o terrorismo, aceitou assistência dos EUA para patrulhar as fronteiras do país que agora voltam a ser militarizadas, medida que fere a Constituição argentina.

Além destas mudanças da política externa no Equador e na Argentina, o governo de Michel Temer também ampliou os diálogos bilaterais com o Departamento de Segurança norte-americano em diversas áreas. Une-se a isto, o fato de que a Colômbia nunca deixou de ser um aliado estratégico para os interesses dos EUA e com a vitória de Iván Duque estará ainda mais exposta à ingerência. Assim, parece que, de fato, este é o “ano das Américas”. O que Washington passa por cima da soberania recuperada durante o auge do ciclo progressista para invadir a América Latina e se instalar em regiões estratégicas como a Amazônia e a Patagônia e controlar nossas fronteiras.

Por Mariana Serafini | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Com informações do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

A Venezuela que não será vista nas televisões

Simon de BeerUm belga faz uma viagem turística à Venezuela. Mas o estado de espírito de férias não o torna indiferente a uma realidade bem diferente da que os grandes media querem fazer passar. Abre os olhos e ouvidos para conhecer as pessoas num país que está a mudar, atravessando grandes dificuldades económicas e a constante ingerência e ameaça do imperialismo e dos seus cúmplices. Uma Venezuela tão livre que, num sector inteiramente privado como o do turismo, os guias turísticos têm carta-branca para mentir sobre o seu próprio país.


 

Primeira observação: as conquistas da revolução bolivariana são impressionantes
Falamos muito pouco e é uma pena. Na menor aldeia remota há uma escola pública totalmente gratuita (equipamentos e refeições incluídas para crianças). O analfabetismo foi erradicado e a Venezuela é actualmente o quinto país do mundo com a maior taxa de académicos. Em todos os lugares as pessoas usam orgulhosamente o fichário colorido da Venezuela, recebido na escola ou na universidade.
Um sistema de saúde - totalmente gratuito - cobre todo o país. Em uma pequena ilha de 2000 habitantes onde passamos alguns dias, há um mini-hospital, com dentista, ginecologista e até um pequeno laboratório. “Todo cuidado é gratuito “, lê-se em seis idiomas na entrada. Tendo ambos contraído um vírus perigoso, fomos recebidos a um domingo, sem marcação e sem esperar, e sem pagar um centavo apesar de sermos estrangeiros. “Na Venezuela a saúde é um direito garantido constitucionalmente “, explicou orgulhosamente a enfermeira que cuidou de nós.
Caracas, a capital, tem um metro moderno e… gratuito (uma boa lição para aqueles que afirmam que tornar mais barato o transporte público em Bruxelas é impossível). Centenas de milhares de unidades de habitação social foram lá construídas. Favelas inteiras foram literalmente transformadas em moradias. Pudemos visitar um bairro totalmente novo, inaugurado no ano passado. Em todo o país, estamos a falar de 2 milhões de novos lares desde 2012.
A nível democrático, também foram feitos grandes progressos. As pessoas reapropriam-se literalmente da política. Comités de vizinhança foram criados em todos os lugares para lidar com questões locais. As pessoas estão sempre satisfeitas em discutir política. “Antes de Chávez, vivíamos numa democracia de fachada “, explicou um taxista. Antes de acrescentar: “Mas também tem que conversar com outras pessoas, para formar a sua própria opinião.”
Os nativos deixaram de ser considerados cidadãos de segunda classe.” Chávez trouxe-nos o direito ao trabalho e o direito à educação “, disse um membro de uma comunidade indígena na região de Canaima. ” Antes, simplesmente não tínhamos qualquer direito.”

As pessoas estão a passar por uma crise muito difícil
Graças à política social do governo, às lojas sociais, às cantinas, à medicina gratuita, etc., as pessoas não vivem na miséria e não morrem de fome, como regularmente lemos nos nossos meios de comunicação (esse é o caso em outros países da América Latina). No entanto, não podemos negar que os tempos são difíceis. O poder de compra é consideravelmente limitado. Os preços estão a subir constantemente e a moeda está a perder valor apesar dos aumentos salariais regulares. Que é uma dor de cabeça real de base quotidiana.
A origem desse problema vem dos grandes grupos privados, que ainda controlam a maior parte da economia, e que durante quatro anos travaram uma guerra económica muito dura contra a Venezuela. Um pouco como foi o caso em 1973 contra o Chile de Allende.
Isso também se deve ao facto de a economia da Venezuela continuar muito dependente do petróleo e estar a lutar para desenvolver um sector produtivo nacional e independente. Este é obviamente um dos grandes desafios do governo.
Como resultado, mesmo que o actual presidente Maduro continue a ser muito popular - como as últimas eleições mostram - uma parte do povo é seduzida pelo discurso da oposição de direita, que está a surfar um certo nível de descontentamento e espera voltar ao poder.

E a então a oposição?
Muitas vezes ouvimos nos nossos media que a Venezuela é uma ditadura, onde a oposição é amordaçada. Algumas horas no local provam directamente o contrário. 90% dos canais de TV estão nas mãos da oposição. Todos os dias há críticas ao governo. As pessoas expressam-se livremente (gostam de discutir, quaisquer que sejam as suas opiniões). Os circuitos turísticos são amplamente dominados pela oposição. E não hesitam em dizer-vos todo o mal que pensam de Chávez e Maduro, com uma má-fé por vezes desconcertante.
Alguns pequenos trechos seleccionados das nossas conversas:
” Antes vivíamos num bairro apenas com pessoas decentes, bem-educadas. Mas o governo construiu habitações sociais e agora há pessoas pobres no bairro. Nós deixámos de estar seguros. Se o governo pedir, eles atacar-nos-ão à pedrada. Veja como penduram as suas roupas nas janelas! Não são civilizados. ”
“Antes vivíamos num país com valores. Houve meritocracia. Hoje todos podem ir para a universidade e ter um emprego. O resultado é o nivelamento por baixo. ”
” Antes de Chávez, vivíamos bem. Encontrávamos tudo o que queríamos nas lojas. Podia escolher-se entre 10 marcas para cada produto. O país não conhecia a crise.”
NB: antes de Chávez, havia uma taxa de pobreza de 80% … Essa taxa caiu para 26% em 2014 (antes da crise actual).
Em suma, o que está a acontecer na Venezuela não é sobre “democracia”, como lemos nos nossos media. A grande maioria das pessoas nunca desfrutou de tanta liberdade como hoje (política, educacional, social e económica, cultural e outras).
O que está a acontecer na Venezuela é um conflito entre duas categorias sociais opostas: as pessoas de um lado, os privilegiados ricos do outro lado.
As pessoas que tentam levantar a cabeça depois de décadas de miséria, procurando o seu próprio caminho para o progresso social. Os ricos, apoiados por multinacionais estrangeiras e pelos Estados Unidos, que se recusam a ver fugir os seus velhos privilégios. Eles não suportam ver a riqueza colossal da Venezuela entrar em programas sociais em vez de no seu bolso. E estão prontos para fazer seja o que for para derrubar o governo.
Pela minha parte, sem idealização, a Venezuela continua sendo uma inspiração para aqueles que repetem incansavelmente que não podemos investir em habitação social, desenvolver o transporte público ou baixar os custos de educação e formação e da medicina. Embora nem tudo seja perfeito, a Venezuela mostra-nos à sua maneira que outras escolhas são possíveis. E por isso mesmo, merece a pena fazer um desvio e passar por esse país.

Fonte: https://www.investigaction.net/fr/venezuela-ce-quon-ne-verra-pas-a-la-television/

Leia original aqui

 

Por que os EUA querem controlar a todo custo a base de Alcântara

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, escolheu o Brasil como o destino inicial de seu primeiro giro pela América do Sul. Entre os temas de sua agenda se encontra a participação de seu país na base aeroespacial de Alcântara, de grande valor estratégico. Conheça as intenções ocultas do Pentágono por trás desta suposta cooperação.

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A base de Alcântara, onde opera a Agência Espacial Brasileira, é a única infraestrutura de lançamento de foguetes sob controle de um país soberano da América do Sul. A outra é a de Kourou, na Guiana Francesa, de vital importância para a Agência Espacial Europeia.

Ambas se situam nas proximidades da linha do Equador, o que permite aumentar a efetividade dos lançamentos e economizar combustível. Casualmente ou não, a presença de Mattis no Brasil ocorre horas antes do anúncio do presidente Donald Trump sobre a criação da Força Espacial, um novo ramo da Defesa dos Estados Unidos que começará a operar em 2020, supostamente para proteger-se de ameaças da Rússia e da China.

“Escolhemos o Brasil, não porque devido a um feliz acidente geográfico se encontra na linha do Equador mas porque queremos trabalhar com os brasileiros, nosso vizinho hemisférico com o qual compartilhamos valores políticos, além de sua impressionante orientação tecnológica”, disse, de acordo com a agência AP, o titular do Pentágono em entrevista coletiva depois de sua reunião com seu par brasileiro.

Não é a primeira vez que Washington finca suas garras sobre este ponto do estado do Maranhão, dois graus ao sul do paralelo 0º, como recordou em diálogo com Sputnik José Reinaldo Carvalho, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e editor do portal Resistencia.cc.

“Durante o período do governo antinacional do ex- presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), a base de Alcântara ficou à disposição dos EUA, situação que foi revertida depois nos períodos de governos progresistas no país, primeiro sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois con Dilma Rousseff (2011-2016)”, disse.

À luz deste precedente, não surpreende que o Pentágono insista com estes planos de caráter “neocolonial e neoimperial”, disse José Reinaldo Carvalho. Ante as aspirações dos EUA de “dominar” a América Latina e o mundo nos campos comercial e militar, “os patriotas brasileiros têm que rechaçar ” o controle estadunidense da base de Alcántara “em nome dos interesses nacionais”, enfatizou.

Em Alcântara se joga muito mais que uma base aeroespacial, como deixa claro em um artigo publicado no sítio Brasil de Fato o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães Neto, ex-ministro de Assuntos Estratégicos do Brasil (2009-2010) e antigo alto representante do Mercosul (2011-2012).

“O objetivo principal norte-americano é ter uma base militar no território brasileiro na qual exerçam sua soberania, fora do alcance das leis e da vigilância das autoridades brasileiras, inclusive militares, e onde possam desenvolver todo tipo de atividade militar”, afirma Samuel Piunheiro Guimarães Neto, também secretário geral das Relações Exteriores de 2003 a 2009.

O diplomata sublinha que sob o controle do Pentágono existem cerca de “700 bases militares terrestres”, em muitas das quais há “armas nucleares e sistemas de espionagem”. Além disso, o deslocamento de navios e submarinos pelo planeta aumenta a quantidade de locais a serviço de Washington.

Do ponto de vista dos lançamentos espaciais, os EUA têm “bases de lançamento de foguetes em seu território nacional”, com equipamentos “sofisticados”. Por isso, segundo Samuel Pinheiro Guimarães, não necessita das instalações “em Alcântara para o lançamento de seus foguetes”.

“A localização de Alcântara, no Nordeste brasileiro, em frente à África Ocidental, é ideal para os Estados Unidos desde o ângulo de suas operações político-militares na América do Sul e na África, assim como de sua estratégia mundial de confrontação com a Rússia e a China”, aponta o diplomata.

Um dos objetivos de um controle estadunidense de Alcântara seria também “impedir que o Brasil tenha uma base competitiva de lançamento de foguetes” e operar à margem do escrutínio das autoridades locais. Para o diplomata, a utilização de Alcântara por parte dos EUA “configura o caso mais flagrante de cessão de soberania da história do Brasil”.

Se isto ocorrer, o governo de Michel Temer segue em sua linha de “atender todas as reivindicações históricas” dos EUA ao Brasil não só em política externa, mas também na aplicação de medidas neoliberais no interior do país e a privatização de recursos estratégicos para o país, como a estatal energética Petrobrás.

“Se os Estados Unidos conseguirem instalar-se em Alcântara, dali não sairão, pois poderão ‘controlar’ o Brasil, ‘alinhando’ de fato e definitivamente sua política externa e fechando qualquer possibilidade de exercício de uma política externa independente”, conclui Samuel Pinheiro Guimarães Neto.

Segundo o portal AmerSur, dentro da política de desenvolvimento aeroespacial do Brasil, o governo de Lula (2003-2011) freou os acordos de cooperação em Alcântara com os EUA e assinou acordos em 2003 com a Ucrânia que incluíam transferência de tecnologia. Contudo, Kiev os rescindiu quando se consolidou ali em 2014 “um governo pró-EUA”.

Outro assunto é a proximidade relativa do Maranhão com a Venezuela. Uma presença militar sob o controle do Pentágono poderia ser, segundo José Reinaldo Carvalho, um elemento a mais para “impedir que as forças democráticas e populares possam exercer seu poder em diferentes países latinoamericanos”. Caracas “ousou contrariar os interesses estadunidenses” e foi ameaçada com “intervenções” militares.

Mas, como apontou José Reinaldo Carvalho, a “cobiça” dos EUA para com o Brasil não se esgota em Alcântara. O dirigente do Cebrapaz mencionou a questão da Amazônia, cenário em 2017 de operações militares conjuntas entre Brasil, Peru, Colômbia e EUA. Foram as primeiras deste tipo na história, na região amazônica, “rica em recursos, biodiversidade e água”, cujo controle é “parte da ofensiva” de Washington.

“Penso que as forças armadas brasileiras, o exército brasileiro e os patriotas brasileiros não deveriam permitir que nosso país fique tão vulnerável a esta ofensiva estadunidense”, concluiu José Reinaldo Carvalho.

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

Nicarágua: face à “contra colorida” e seus disfarces, o nosso lugar é o anti-imperialismo consequente

A situação na Nicarágua exige uma firme solidariedade anti-imperialista. Solidariedade antes de mais com o povo que resiste à tentativa de golpe desencadeada pela reacção interna e pelo imperialismo. Já aqui publicámos textos que manifestam essa solidariedade, mas que exprimem também reservas à acção do governo de Ortega. Os seus autores são lutadores de sólidos princípios, que não podem por essa posição ser misturados com o outro lado da barricada.

A Red Roja ratifica o seu firme apoio ao governo nicaraguense face à violência criminosa desta nova “contra” que, com inigualável desvergonha, nos é apresentada como “progressista” por parte dos media.

Fazemo-lo, além disso, num contexto em que determinada esquerda ocidental, uma vez mais, decidiu alinhar com os cantos de sereia da manobra imperial. Como exemplo, chegam agora da Nicarágua vozes de indignação ante o posicionamento assumido no conhecido programa Fort Apache contra o governo e a favor dos “rebeldes”.

A gravidade deste posicionamento é ainda maior se consideramos que a estratégia destes “golpes brandos” promovidos pelos EUA, seus aliados oligárquicos locais, os meios de comunicação e inclusivamente pela equipa das “ONG” se repete já em numerosos países (Líbia, Síria, Ucrânia, Venezuela e agora Nicarágua). Em todos os casos, estes sectores da esquerda de que falamos tomaram posições que poderíamos qualificar de absurdas, se não fossem algo pior: traição e pura claudicação.

Contudo, o mais perigoso é que, como a Red Roja vem afirmando desde que estabeleceu o seu critério anti-imperialista (1), estes claudicantes partem de “grãos de verdade”… para acabar defendendo a pior das mentiras, a atitude mais reaccionária possível no plano da confrontação mundial em curso. A nossa organização não se cansará de repetir que o imperialismo dos países centrais é o principal limite para a liberdade dos povos e inclusivamente para um desenvolvimento mais profundo dos seus processos sociais, pelo que nenhuma crítica ou “exigência” pode entrar em contradição com a nossa tarefa principal. No que nos toca, a nossa responsabilidade é debilitar a retaguarda imperialista, aqui, no coração da besta.

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O presidente Ortega ganhou as eleições acedendo a um terceiro mandato em 2016, com 72,4 por cento dos votos e uma altíssima participação de 66%. O seu governo pertence à Aliança Bolivariana das Américas e tem apoiado Cuba e Venezuela.

Um dado de crucial relevância geoestratégica é que Ortega estabeleceu acordos com a China para um importantíssimo projecto de canal interoceânico, tal como com a Rússia en matéria de segurança; razões pelas quais os Estados Unidos necessitam de derrubar o seu governo e instalar um mais dócil em seu lugar.

A patronal nicaraguense convocou os protestos depois de Ortega ter aumentado 3,5% as contribuições patronais para os fundos de pensões. As contribuições dos trabalhadores apenas foram aumentadas 0,75%! Além disso, o governo lançava esta proposta para desobedecer às recomendações do FMI, que exigia elevar drasticamente a idade da reforma. O governo sandinista sentia-se com força para rejeitar as reivindicações de austeridade do lobby empresarial e do FMI; podiam aprender com isso alguns governos tão gabados pela progressía espanhola, como os da Grécia e Portugal, máxime quando ninguém ignora que a Nicarágua não só não está na primeira divisão dos países desenvolvidos como tem sido histórica e secularmente vítima deles.

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O imperialismo é inteligente e procura aplacar a rebeldia ante os seus desmandos. Desde há anos, o governo dos EUA compreendeu que os partidos da oposição nicaraguense estavam desacreditados e que faria melhor financiando sectores da “sociedade civil” e as ONG. As doações a este tipo de oposição superam desde 2014 os 5 milhões de dólares.

Entretanto, uma análise minimamente seria dos actores que secundam e hegemonizam politicamente os protestos na Nicarágua deixa as coisas bem claras a quem tenha a honestidade de as aceitar. Desde Piero Cohen, o homem mais rico da Nicarágua, que incitou os estudantes, até à Igreja Católica. Passando pela família Chamorro (de apelido tristemente célebre no país e representante da oligarquia terratenente tradicional) e pelos filhos da burguesia do chamado Movimento de Renovação do Sandinismo, cada vez mais próximo do Partido Republicano ianque.

Ou a líder feminista Azalea Solís, directamente financiada pelo governo dos EUA. Ou o líder camponês Medardo Mairena, também dependente do financiamento do Pentágono. Ou Félix Maradiaga, integrante do Fórum Económico Mundial e beneficiário da chamada Bolsa Gus Hart, instrumento norte-americano para financiar lacaios do calibre de Yoani Sánchez ou Henrique Capriles.
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Os jornalistas de investigação norte-americanos Kevin Zeese e Nils McCune documentaram ampla e rigorosamente, na web Popular Resistance, qual foi o guião da violência na Nicarágua. Foi, na realidade inspirado pelas guarimbas venezuelanas de 2014 e 2017 contra o presidente Nicolás Maduro e contra a Revolução Bolivariana.

Os meios de comunicação ocidentais esforçam-se por apresentar a situação como “repressão desproporcionada” contra uma oposição “pacífica” e “democrática”. Outro insulto mais à sua profissão. Apesar de tanto vídeo vitimista publicado na Internet, a realidade é que foram organizados ataques armados contra edifícios governamentais, 60 dos quais foram queimados. Também foram atacadas escolas, hospitais e inclusivamente ambulâncias. Morreram 15 estudantes e 16 polícias. 200 sandinistas foram sequestrados e muitos deles foram atroz e publicamente torturados. ¡Os meios de comunicação não pararam de desinformar, vendendo tudo isto como repressão governamental! ¡Quando os sandinistas, os polícias ou os transeuntes são assassinados, fala-se falsamente de repressão estatal!

O roubo de automóveis, os incêndios e os assassínios para criar caos e pânico têm sido uma constante desde há meses. A Falsimedia não explicará a realidade da oposição: mercenários pagos, com um largo historial delinquente. Equipados com cocktails molotov. Com lançadores de granadas de morteiro, pistolas e espingardas. Narcotraficantes, em muitos casos.

Entretanto, quando veteranos da guerrilha sandinista lideram a autodefesa dos bairros e se criam barricadas contra os ataques da oposição, ¡os media ocidentais etiquetam-nos falsamente como forças paramilitares! Além disso, fala-se-nos como se todos os estudantes nicaraguenses estivessem contra o governo, quando a Unión Nacional de Estudiantes Nicaragüenses defendeu Ortega, o que a converteu em um dos mais ensanguentados alvos da violência opositora.

¿Acaso vamos esperar um par de décadas para que os media imperiais nos dêem autorização para denunciar a montagem imperialista? Seria un exercício inútil muito típico nas nossas “democracias retardadas”.

*

Nesta situação a Red Roja, ao lado dos governos de Venezuela e Bolívia, do Fórum de São Paulo reunidos nestes dias em Havana, e de forças anti-imperialistas de todo o mundo, manifesta a sua repulsa face a este “golpe brando” e o seu apoio ao governo nicaraguense. Todos estes actores merecem-nos muito mais respeito que determinadas “ONG, ecologistas e feministas”.

Acusar-nos-ão de seguidismo aqueles que praticam o seguidismo do império criminoso e das piores falacias de uma suposta “sociedade civil” com notas de dólar nos bolsos. Não importa. Sabemos que o nosso papel não é fazer “exigências” ao país agredido ou olhá-lo à lupa para destacar os seus defeitos. Evidentemente que saberemos salvaguardar as nossas necessárias críticas às linhas que os processos revolucionários e progressistas sigam da sua utilização criminosa por parte do ogre imperial; esse em que estamos imersos e com o qual nos negamos a ter a mínima cumplicidade. É que, no plano estrito da solidariedade anti-imperialista, o nosso papel (a nossa responsabilidade) é debilitar a ofensiva em curso e denunciar os objectivos evidentes que se escondem por detrás de tanta “revolução colorida”.

Os mesmos que, com a oposição venezuelana, ou com os assassínios de sindicalistas na Colômbia, ou com a perseguição judicial contra Rafael Correa no Equador, ou com as acusações de corrupção que na Argentina e Brasil atingem já inclusivamente a esquerda moderada. Porque os acontecimentos na Nicarágua devem se inseridos de contexto de uma vaga reaccionária que percorre a América Latina e que é promovida pelo imperialismo e seus meios de comunicação.

Fique pois para outros a simpatia de uns media que, desde logo, na luta entre povos e impérios não estão de modo nenhum “no meio”. Fique para outros uma falsa neutralidade que apenas beneficia o bando mais poderoso: esse que financia e promove a partir de Washington ou Berlim uma sedição feita à sua medida. Nem por acção nem por omissão: nós não seremos cúmplices.

Notas:
1- http://www.redroja.net/index.php/comunicados/758-desinoculandonos-la-paralisis-antiimperialista

Leia original aqui

 

Luto sem fim: Brasil tem mais de 80 mil pessoas desaparecidas

Apesar do drama de milhares de famílias, não existe ainda um banco de dados nacional unificado. "Na prática quem investiga são as próprias mães", diz membro do Condepe
São Paulo – O Brasil encerrou o ano passado tendo 82.684 boletins de ocorrência registrando o desaparecimento de pessoas, segundo revelou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018, divulgado nesta quinta-feira (9). O estado de São Paulo lidera com folga a dramática estatística, com 25.200 pessoas desaparecidas, seguido por Minas Gerais, com 8.878, e Santa Catarina, com 7.752 desaparecimentos.
O estudo anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública jogou luz no Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, criado em 17 de dezembro de 2009, conforme a Lei 12.127, e lançado em 26 de fevereiro de 2010 junto com o site www.desaparecidos.gov.br. Desde o início deste ano, o site foi tirado do ar pelo governo federal. Apesar de nunca ter funcionado como deveria, o canal tinha cerca de 370 crianças e adolescentes desaparecidos cadastrados e, de alguma forma, era um espaço oficial que alimentava a esperança de reencontro dos familiares.
“Ele (o site) vem inativo desde quando surgiu, em 2010. Nunca funcionou adequadamente, sempre dependeu das famílias fazerem o cadastramento. As mães que tinham que mandar fotos, cópia do boletim de ocorrência e as informações sobre o desaparecimento”, explica Ariel de Castro Alves, advogado e coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe). “O governo federal sempre justificou, tanto nas gestões anteriores como na atual, que os estados não encaminhavam os boletins de ocorrência.”
A falta de integração entre os estados e o governo federal sempre foi a principal razão pelo mau funcionamento de um cadastro nacional que poderia cumprir uma importante função. Na prática, os estados nunca colaboraram com o envio das informações para alimentar e atualizar o sistema. Segundo Castro Alves, a maioria dos estados, como São Paulo, por exemplo, sequer tem cadastros estaduais de crianças e adolescentes desaparecidos. Para ele, os cadastros estaduais e o nacional deveriam ter atualização diária a partir dos boletins de ocorrência (BOs) de crianças e adolescentes desaparecidos registrados nas delegacias de polícia de todo país.
Apesar da pouca eficiência, o coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Condepe avalia que o fim do site é um descaso com os familiares. “O cadastro funcionava precariamente, mas gerava uma expectativa porque era oficial e podia ser acessado de qualquer parte do país. É um desrespeito. As famílias não foram comunicadas de que o cadastro sairia do ar e elas tinham expectativa. Então é mais uma frustração, mais um abandono dessas famílias, um total desrespeito.”
Falta de prioridade
Com a aprovação do Sistema Único de Segurança Público (Susp), Ariel Alves tem esperança que a situação melhore porque, a partir de agora, os estados terão a obrigação de encaminhar os boletins de ocorrência e as informações criminais. “Isto pode, a médio e longo prazo, colaborar para resolver essa falta do banco de dados unificado. O estado de São Paulo nunca teve essa prioridade e também nunca atuou em nada, de modo integrado, com o governo federal, principalmente em temas de direitos humanos. Nem nos governos anteriores, nem no atual.”
Atualmente, São Paulo tem uma única delegacia de pessoas desaparecidas, vinculada à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Localizada na capital, tem a missão de atender o estado todo.
Desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a necessidade de haver órgãos especializados na polícia e no Judiciário para atender crianças e adolescentes. Em alguns estados existem delegacias especializadas, mas não em São Paulo. E mesmo nos estados onde tais delegacias foram criadas, elas costumam estar localizadas apenas na capital. “Mas em São Paulo nem na capital tem”, critica Alves.
Para piorar a situação, os casos de desaparecimento não costumam ser investigados, seja de crianças ou de adulto, afirma o advogado. “A polícia diz que, em si, o desaparecimento não é um crime, é um fenômeno social a criança não estar sob os cuidados da família. Agora, por trás do desaparecimento pode haver rapto, sequestro, cárcere privado, assassinato, então por isto é necessário que em todos os casos sejam instaurados inquéritos. Na prática, quem hoje investiga são as próprias mães.”
O coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Condepe enfatiza ser comum a polícia sugerir aos pais esperar por 24 ou 48 horas antes de registrar o desaparecimento, uma prática que, afirma, é ilegal. “Os primeiros momentos são os mais importantes para buscar, esclarecer, investigar e localizar. E a lei também prevê que após fazer o boletim de ocorrência, além de iniciar as buscas, a polícia tem que informar as rodoviárias, os aeroportos, a polícia rodoviária, e isso também não acontece.”
A situação de ter um filho desaparecido, diz Ariel Alves, é um luto permanente, com enorme desgaste emocional e psicológico. “Muitas mães desenvolvem doenças, um câncer, um problema cardíaco. Elas não contam com nenhum tipo de apoio, é um descaso.”
Luciano Velleda, da RBA | em Rede Brasil Atual

Obrador: México crescerá e virará uma potência econômica

O presidente eleito e ainda não empossado do México, López Obrador, disse que o México crescerá e virará uma potência econômica. Assim, “ninguém ameaçara o México com muros e militarização da fronteira”.

“O México vai se tornar uma potência e vai mudar a correlação de forças. Ninguém vai ficar ameaçando fechar as fronteiras, ou militarizá-las”, Obrador, que assume a presidência no dia 1º de dezembro.

Isso será possível porque o país crescerá e criará empregos”.
López Obrador

Recentemente, Trump disse no Twitter que uma das razões por que os Estados Unidos precisam de uma fronteira mais segura é o número recorde de homicídios no México em 2017.

Trump chegou à Casa Branca com a promessa de deportar milhões de indocumentados e levantar um novo muro fronteiriço com o México para evitar a chegada de migrantes sem documentação regular.

As declarações ajudaram a gerar a pior crise diplomática em décadas entre os Estados Unidos e seu vizinho do sul.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (AFP) / Tornado

 

Ver artigo original em "O TORNADO"

Milhares manifestaram-se em Caracas em apoio a Maduro

Um mar de gente solidaridou-se, esta segunda-feira, com o presidente Nicolás Maduro, que foi alvo de um atentado no passado dia 4. As autoridades venezuelanas dirigem fortes acusações à Colômbia.

Um mar de gente mobilizou-se esta segunda-feira em Caracas para expressar apoio a Nicolás Maduro, depois de este ter sido alvo de um atentado no sábado passadoCréditos / Alba Ciudad

Milhares de pessoas responderam afirmativamente à convocatória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), marchando pelas ruas de Caracas, «em defesa do presidente Nicolás Maduro», até chegar ao Palácio de Miraflores (sede da Presidência).

No sábado passado, durante a sessão comemorativa dos 81 anos da fundação da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), dois drones de modelo DJI M600, carregados com explosivos C4, apareceram muito perto do estrado onde o chefe de Estado venezuelano discursava.

De acordo com uma nota do Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros, os elementos da segurança presidencial conseguiram bloquear o sinal de um dos aparelhos, «fazendo com que explodisse longe do alvo programado», e conseguiram desviar o outro, fazendo com que perdesse o controlo e explodisse ao embater num edifício localizado nas imediações do evento.

Presentes na manifestação solidária, tanto Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, como Jorge Arreaza, ministro dos Negócios Estrangeiros, ligaram o atentado ao imperialismo norte-americano.

«Derrotámos os golpes, as sabotagens, as guarimbas. Derrotámos o terrorismo nas ruas com democracia e eleições; derrotámos a oligarquia uma e outra vez, e continuaremos a derrotá-la enquanto o povo cerrar fileiras com a Revolução Bolivariana e o presidente Nicolás Maduro», declarou o chefe da diplomacia venezuelana, citado pela HispanTV.

Identificados os autores materiais do atentado

Numa conferência de imprensa dada em Caracas esta segunda-feira, o procurador-geral da República, Tarek William Saab, afirmou que as investigações preliminares conduzidas pelo Ministério Público, em colaboração com outros órgãos, permitiram identificar «os autores materiais e colaboradores imediatos» da tentativa de assassinato do presidente da Venezuela, que provocou sete feridos.

As investigações permitiram determinar o local onde os indivíduos estavam alojados antes de perpetrar o atentado e «as primeiras ligações internacionais dos envolvidos», disse Saab, acrescentando que, nos momentos a seguir à tentativa de assassinato de Maduro, foi possível identificar o local a partir do qual eram dirigidos os drones com explosivos, «tendo sido presas em flagrante delito duas pessoas» que comandavam um dos aparelhos, informa a AVN.

Tarek Saab sublinhou que o atentado contra a Nicolás Maduro, longe de constituir um caso isolado, faz parte das acções violentas levadas a cabo pela direita e os seus aliados internacionais desde que Hugo Chávez chegou à presidência do país, em 1999.

Extrema-direita apoiada pela Colômbia e Miami

Na nota dirigida à imprensa pelo Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros, sublinha-se a participação nos factos de «grupos da extrema-direita», com o apoio económico e político «de poderesos factores que operam a partir da Colômbia e com ramificações em Miami» (EUA).

O Ministério lembra que a Colômbia é uma base de operações de «máfias do narcotráfico» e «do contrabando» que agridem a Venezuela, e que o país andino «aloja grupos de foragidos à Justiça venezuelana, que são protegidos, financiados e legitimados pelo governo do senhor Santos».

O executivo de Caracas lembra ainda as declarações recentes de Santos – que hoje é substituído no cargo por Iván Duque – de acordo com as quais dizia «ver próxima a queda de Maduro»: «Estamos nas horas finais de Maduro», acusa a nota.

Ontem, o presidente Nicolás Maduro disse que o envolvimento da Colômbia no atentado é clara, que «existem provas suficientes» disso e que os terroristas que participaram na tentativa de assassinato contra si treinaram no departamento colombiano de Norte de Santander, com pessoal colombiano.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Perdendo a oportunidade de construir alternativas à esquerda

A unidade da esquerda por Lula presidente deveria ter acontecido antes do dia 7 de abril de 2018, como uma saída lógica para a esquerda neste momento obscuro em que vivemos (Governo Temer).

Mas, o que aconteceu foi que, mesmo antes da prisão de Lula, os partidos de esquerda, que sempre o apoiaram, lançaram candidaturas próprias, dividindo o campo: PDT lançou Ciro Gomes, PCdoB, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos se filiou ao PSOL para se lançar candidato a presidente.

Se houvesse unidade, e não essa fragmentação de candidatos, talvez o ex presidente Lula nem tivesse preso, pois os partidos e pessoas citados teriam potencial de chamar a militância às ruas, algo que o PT não conseguiu fazer.

Depois do dia 7 de abril de 2018 a situação mudou e a unidade da esquerda por Lula presidente deixou de fazer sentido.

A candidatura do Ciro Gomes avançou no caminho de se consolidar como uma alternativa para a esquerda.

A candidatura da Manuela D’Ávila avançou no sentido de se consolidar como uma aliada de peso.

Percebendo o potencial de Ciro Gomes, entretanto, o PT, além de buscar neutralizar o PSB, ofereceu um mirabolante Plano C para o PCdoB, mantendo-o sob sua tutela.

Defender a unidade em torno de Lula, que é maior que o PT, não se traduz em engolir uma pseudo unidade em torno de Fernando Haddad. Embora tenha sido um excelente prefeito Haddad só cresce nas pesquisas quando aparece como o candidato ungido pelo ex-presidente Lula. É justo isso com o povo brasileiro?

Ao se aliar ao PT a candidata Manuela está jogando fora todo o acumulo que conquistou até aqui: uma candidatura simpática, jovial, propositiva, combativa, inovadora e, ao mesmo tempo, respeitosa à história e zelosa com a causa social.

O PCdoB está entregando tudo isso de bandeja ao PT. Está deixando de apoiar, e de sinalizar para outros potenciais apoiadores, uma candidatura que hoje, entre as candidaturas viáveis no campo da esquerda, é a melhor posicionada nas pesquisas.

A prisão de Luís Inácio Lula da Silva é injusta. Ele está preso unicamente porque a direita, os banqueiros, os donos das investidoras que ganharam um grande espaço no governo de Michel Temer, sabem que, se solto, ele vai direto para a presidência da República. Esta é a vontade do povo. Queremos Lula livre. Queremos Lula presente de corpo e alma na política brasileira. Mas, uma coisa é a liberdade de Lula, outra coisa são as eleições. São coisas separadas que só se encontram na perspectiva de algum candidato progressista se eleger, fazendo justiça, anular o processo que resultou neste absurdo encarceramento.

Se aventurar em uma candidatura apadrinhada, com um candidato que o partido dos Trabalhadores quer enfiar goela abaixo do povo é colocar o Brasil em risco.

Sinto que estamos perdendo a oportunidade de construir de fato alternativas à esquerda e de deixar de ser reféns de uma concepção hegemonista de partido único.

Texto original em português do Brasil

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O Novo Presidente da Colômbia: Dois Desafios

Iván Duque toma posse como Presidente da Colômbia e como Vice-Presidente Marta Lucía Ramírez, esta terça-feira, 7 de Agosto. De entre os vários desafios que enfrentará nos próximos quatro anos, dois poderão ser absolutamente definidores do seu desempenho no cargo: a sua relação com o ex-Presidente Álvaro Uribe e os processos de paz com as FARC-EP e com o ELN.

Um dos principais reptos para Duque é a sua ligação ao ex-Presidente e agora Senador Álvaro Uribe. Os juízos até agora sobre o novo inquilino da Casa de Nariño têm como foco a sua relação com Uribe. Este é a figura tutelar do Centro Democrático (direita), ao ponto dos que gravitam à sua volta serem apelidados de Uribistas. Foi ele o maior responsável pela ascensão política e vitória de Iván Duque. Antes de ter sido apontado como candidato pelo próprio Uribe, Duque era virtualmente desconhecido da maioria da população colombiana.

Para afirmar-se como um Presidente de pleno direito, mostrando que é ele que efectivamente governa e que não é uma marioneta, Duque terá que sair da sombra de Uribe. Será Duque capaz de parricídio político? A sua juventude e principalmente a falta de experiência executiva quase que o empurram para os braços do seu mentor, pelo menos no início do seu mandato. Esperemos que com o desempenhar do cargo vá ganhando prática e confiança para ir libertando-se da figura paternal. Se não conseguir, ficará para a História como um mero títere, como, aliás, temem e o acusam os seus opositores. Mas se levarmos em conta a sua biografia, Duque sempre seguiu uma figura paternal, inicialmente o próprio o pai, depois Juan Manuel Santos e agora Uribe. Ora, esta característica não augura nada de bom.

A constituição do novo Governo e da equipa de assessores presidenciais, por outro lado, pode enviar sinais que o novel Presidente pretende ter alguma margem de manobra. A maioria do elenco governativo por si nomeado é composto por elementos com um perfil mais tecnocrata do que político. Estiveram ligados ao mundo empresarial, sendo orientados para a obtenção de resultados. Mas também são jovens e sem experiência executiva. Os restantes são Uribistas próximos do seu mentor político. Teremos, pelo menos, um Uribismo mais suave. Só o tempo poderá dizer qual a cercania ou o afastamento à linha ideológica original. De notar, ainda, que o futuro gabinete ministerial é exactamente equitativo em termos de género, uma promessa cumprida por Duque.

Uma situação que pode ter impacto no relacionamento entre Iván Duque e Álvaro Uribe é este último estar envolvido numa complexa pugna judicial. Ora, o que lança uma dúvida enorme sobre o papel que poderá realmente desempenhar o ex-Presidente. Irá ser um embaraço ou um apoio? Neste momento, é incerto o futuro de Uribe. Para já, Duque conseguiu manter um equilíbrio difícil entre o seu futuro papel e o apoio ao seu mentor político. Se Uribe acabar por demitir-se do Senado — como chegou a requerer, tendo posteriormente solicitado que esse pedido fosse suspenso — ou for mesmo preso, o novo Presidente pode ser fortemente pressionado pelos Uribistas dentro do seu próprio Governo para ajudar o ex-Presidente. Ou então pode optar por cortar em definitivo com Uribe, seguindo a via de Santos, o que parece-nos mais improvável. Muito do futuro da relação de ambos poderá estar interligado pelo desfecho, ainda imprevisível, deste caso judicial.

Um dos pontos mais controversos sobre o programa do Uribista é a sua posição acerca do Acordo de Paz (AP) com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP). O que tem declarado é que deseja corrigi-lo, mas não rasgá-lo. As principais modificações que pretende efectuar terão principalmente impacto na cúpula dirigente. Deseja considerar o narcotráfico como um crime, deixando de ser considerada uma actividade conexa ao funcionamento da guerrilha. Logo, eliminando a amnistia para este tipo de acção. Defende que os ex-guerrilheiros devam cumprir penas efectivas de prisão se cometeram crimes de lesa humanidade, tornando incompatível sentarem-se no Congresso. Para os ex-guerrilheiros de base prometeu apoiar os programas que visam reintegrá-los social e economicamente. É também contra a reforma do campo tal como está acordada. É possível que o maior impacto seja na implementação global do AP. Isto poderá traduzir-se pela demora na aprovação de leis no Congresso, protelando medidas de execução do que foi acordado em Havana, não financiando adequadamente os mecanismos previstos, entre outros. As consequências de tudo isto serão o provável aumento das dissidências delinquentes. Estas últimas poderão ver-se reforçadas pelo incumprimento do acordado, como temiam, alimentadas pelos ex-combatentes descontentes com o rumo do processo de paz, e legitimadas politicamente como opositoras a um Estado que não honra o firmado. O sinal que enviará ao Clã do Golfo (autodenominado Autodefensas Gaitanistas de Colombia, AGC) e ao Exército de Libertação Nacional (ELN) será que a melhor opção que têm é manterem-se armados.

Quanto à negociação com o ELN, a guerrilha restante activa no país, o novo Presidente quer manter as conversações, mas sob certas condições. Duque coloca como termos para o diálogo o acantonamento dos guerrilheiros e o cessar-fogo unilateral. Por seu lado, o ELN tem afirmado a sua vontade em continuar a negociar com o novo Governo. Relembramos que os Elenos recentemente respeitaram vários períodos de cessar-fogo, no dobrar do ano (bilateral e vigiado pelas Nações Unidas) e três outros unilaterais pelos momentos eleitorais.

Perante o empenho diminuto que o novo Presidente poderá mostrar na implementação do AP, caberá à comunidade internacional continuar a apoiar e incentivar os esforços de paz do Governo colombiano, quer com as FARC-EP, quer com o ELN. Aqui, as Nações Unidas terão um papel importante a desempenhar. A primeira missão, MNUC, que procedeu à vigilância do cessar-fogo bilateral definitivo e ao desarmamento e desmobilização da guerrilha fariana foi um êxito. A missão que seguiu-se-lhe, a MVNUC, continua o seu trabalho de acompanhamento da reintegração social dos ex-combatentes e a verificar se estes têm as indispensáveis medidas de segurança.

Iván Duque tem, em princípio, maioria no Congresso, embora a união entre dois partidos mais ao centro (o Partido da U e a Mudança Radical) possam fazer perigar essa situação em algumas votações. Mas na Primeira Comissão do Senado, onde os temas relacionados com a reforma constitucional e a paz são discutidos, não tem a indispensável maioria absoluta garantida. Assim, para fazer alterações significativas ao AP, por exemplo, terá que negociar com os congressistas.

A sociedade civil, a oposição no Congresso, a comunidade internacional e a própria FARC — o partido político legal que resultou da dissolução das FARC-EP — irão opor-se a mudanças significativas, que possam ferir de morte o acordado. O Centro Democrático terá uma palavra a dizer pois poderá ser do seu interesse ou não extremar posições, mas, com toda a certeza não quererá contribuir para o regresso do conflito armado com ex-guerrilheiros marxistas.

Além destes, o novo Presidente ainda terá que enfrentar outros desafios tão ou ainda mais espinhosos. Entre eles, destacam-se a desigualdade social, a corrupção e a inadequação dos serviços sociais, que são os que mais preocupam os colombianos. Os que aqui abordámos serão, com um grande grau de certeza, aqueles pelos quais Iván Duque será recordado. Caberá a ele trabalhar para que a memória que deixe seja a melhor, tendo sobretudo em vista o bem-estar dos seus concidadãos.

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Nicolás Maduro escapa ileso a um atentado

Fracassou uma tentativa de atentado contra o presidente venezuelano, com explosivos transportados por drones. Houve sete militares feridos mas Maduro escapou ileso e já discursou ao país.

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O Ministro da Comunicação e Informação da República Boliviariana da Venezuela, durante a intervenção televisiva em que confirmou ter-se verificado uma tentativa de assassinato do Presidente da República, Nicolás Maduro. Caracas, Venezuela, 4 de Agosto de 2018.CréditosAVN

Explosões verificadas este sábado, 4 de Agosto, durante um desfile celebrando o 81.º aniversário da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), presidido pelo presidente Nicolás Maduro, foram um atentado contra o presidente venezuelano – confirmou o Ministro da Comunicação e Informação, Jorge Rodríguez, em conferência de imprensa no Palácio de Miraflores (sede do executivo).

Nicolás Maduro discursava perante o desfile militar, que se desenrolava na Av. Bolívar, em Caracas, quando foi interrompido por explosões próximas da tribuna presidencial, às 17h41 locais (22h41 em Lisboa).

Averiguações posteriores revelaram que as explosões causaram sete feridos entre as forças da GNB e tiveram origem em «vários aparelhos do tipo drone que continham uma carga explosiva». Jorge Rodríguez sublinhou que Nicolás Maduro saiu ileso e «encontra-se, neste momento, realizando o seu trabalho habitual e em reunião permanente com o alto comando político», afirmou o ministro, citado pela Agência Venezuelana de Notícias (AVN).

Um vídeo da RT News, que cobria o evento, mostra Nicolás Maduro, que pretendia continuar a sua intervenção, a ser prontamente evacuado pela sua segurança.

«Estes eventos (…) evidenciam o desespero e o ódio» de alguns sectores da extrema-direita venezuelana, os quais, após terem sido «derrotados no terreno político» e «no da guerra económica», «recorrem a práticas brutais e criminosas», afirmou Rodríguez. «Fracassaram mais uma vez», enfatizou, lembrando que o ambiente pacífico que o país vive actualmente «existe porque o presidente Maduro se manteve firme na busca da paz», no respeito pela Constituição e pela República.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Nicarágua | A menina do bote

Atilio A. Boron[*]
A dolorosaconjuntura actual da Nicarágua tem precipitado uma verdadeira enxurrada de críticas. A direita imperial e seus epígonos na América Latina e no Caribe redobraram sua ofensiva com o único e exclusivo objectivo de criar um clima de opinião que permita derrubar, sem protestos internacionais, o governo de Daniel Ortega, eleito há menos de dois anos (em Novembro de 2016) com 72% dos votos. Isto era previsível; o que não o era foi que em tal arremetida participassem, com notável entusiasmo, alguns políticos e intelectuais progressistas e de esquerda que uniram suas vozes às dos insolentes do império. Um notável revolucionário chileno, Manuel Cabieses Donoso, que me honra com sua amizade, escreveu em sua crítica incendiária ao governo sandinista que "a reacção internacional, o 'sicário' geral da OEA, os media de desinformação, o empresariado e a Igreja Católica se apropriaram da crise social e política despoletada pelos erros do governo. Os reaccionários navegam na onda do protesto popular". A descrição de Cabieses Donoso é correcta; no entanto, dela se tiram conclusões equivocadas. É correcta porque o governo de Daniel Ortega cometeu o gravíssimo erro de selar acordos "tácticos" com inimigos históricos da FSLN e, mais recentemente, tratar de impor uma reforma do sistema de pensões sem qualquer consulta às bases sandinistas, ou actuar com despreocupação incompreensível ante a crise ecológica na Reserva Biológica Indio-Maíz [1] . É correcta também quando diz que a direita local e seus amos estrangeiros se apropriaram da crise social e política, um dado de transcendental importância que não pode ser relativizado ou subestimado. Mas sua conclusão é radicalmente incorrecta, tal como as de Boaventura de Sousa Santos, do saudoso e enorme poeta Ernesto Cardenal e de Carlos Mejía Godoy, em coro com toda uma pletora de lutadores sociais que em suas numerosas denúncias e escritos exigem – alguns abertamente, outros de modo mais subtil – a destituição do presidente nicaraguense, sem sequer esboçar uma reflexão ou arriscar uma conjectura acerca do que viria a seguir. Sendo conhecidos os banhos de sangue que assolaram Honduras após da destituição de "Mel" Zelaya; os que ocorreram no Paraguai logo após do derrubamento "a jacto" de Fernando Lugo em 2012, e antes, o que sucedeu no Chile em 1973 e na Guatemala em 1954; ou o que fizeram os golpistas venezuelanos depois do golpe de 11 de Abril no interregno de Carmona "O Breve" Estanga, ou o que se está a passar agora mesmo no Brasil e as centenas de milhares de assassinatos que a direita cometeu durante as décadas de "governo conjunto" FMI-PRI/PAN no México, ou o genocídio dos pobres praticado por Macri na Argentina; pode alguém em seu juízo perfeito supor que a destituição do governo de Daniel Ortega irá instaurar na Nicarágua uma democracia escandinava? Uma debilidade comum a todos os críticos é que em nenhum momento fazem alusão ao quadro geopolítico em que a crise se desenvolve. Como esquecer que o México e a América Central são regiões de importância estratégica capital para a doutrina de segurança nacional dos EUA? Toda a história do século XX está marcada por esta obsessiva preocupação de Washington com a submissão do rebelde povo nicaraguense. A qualquer preço. Quando para isto foi necessário instaurar a ditadura sangrenta de Anastasio Somoza, a Casa Branca, sem a mais mínima vacilação, tratou de fazê-lo. Criticado por alguns deputados do Partido Democrata no Congresso dos EUA pelo respaldo que concedia ao ditador, o presidente Franklin D. Roosevelt limitou-se a responder que "sim, ele é um filho da puta, mas é o NOSSO filho da puta". E nada mudou desde então. Quando, em 19 de Julho de 1979, a Frente Sandinista derrotou o regime somozista, o presidente Ronald Reagan não titubeou nem um minuto em organizar uma operação mafiosa de tráfico ilegal de drogas e armas de forma a poder financiar, para além do que já autorizava o Congresso dos Estados Unidos, os "contras" nicaraguenses. Tudo isto ficou conhecido pelo nome de "Operação Irão-Contras" [NR] . Podemos ser hoje tão ingénuos a ponto de ignorar estes antecedentes ou de pensar que estas políticas intervencionistas e criminosas são coisas do passado? Ademais, trata-se de um país que recentemente planeou a construção dum canal interoceânico, financiado por enigmáticos capitais chineses, que competiria com o Canal do Panamá, controlado de facto, senão de direito, pelos Estados Unidos. Isto não se trata de evidência anedótica, e sim do pano de fundo indispensável à calibração precisa do quadro geopolítico em que se desenvolvem os trágicos acontecimentos na Nicarágua. Tudo o que se expôs aqui não significa minimizar os graves erros do governo de Daniel Ortega e o enorme preço pago por um pragmatismo que, apesar de estabilizar a situação económica do país e melhorar as condições de vida da população, hipotecou a tradição revolucionária do sandinismo. Porém, um acordo com inimigos é sempre volátil e transitório; ante a menor mostra de debilidade do governo, e ante um erro grosseiro baseado no desprezo pela opinião da base sandinista, aqueles se lançaram com todo seu arsenal à rua, para derrubar Ortega. Transferiram para a Nicarágua boa parte dos mercenários que protagonizavam as "guarimbas" venezuelanas e estão a aplicar agora no país a mesma receita de violência e morte que se ensina nos manuais da CIA. Conclusão: a queda do sandinismo debilitaria o entorno geopolítico da já brutalmente agredida Venezuela, e aumentaria as probabilidades da generalização da violência em toda a região. Quando estava no Foro de São Paulo, que teve lugar em Havana, pude deleitar-me com a contemplação do mar do Caribe. E lá pude divisar, ao longe, um frágil barquinho. Conduzia-o um barqueiro robusto numa extremidade do barco, e na outra havia uma jovenzinha. O barqueiro parecia confuso, e esforçava-se para manter o rumo do barco em meio a ondas ameaçadoras. Acabei por pensar que essa imagem representava com eloquência o processo revolucionário, e não somente na Nicarágua, mas também na Bolívia, na Venezuela, onde quer que seja. A revolução é como aquela jovenzinha. E o barqueiro é o governo revolucionário. Este pode errar, porque não existe obra humana a salvo de erros, e cometer erros que o deixem à mercê das ondas e coloquem em perigo a vida da menina. Ainda por cima, não muito distante se via a sombra abominável de um navio de guerra dos Estados Unidos, carregado de armas letais, esquadrões da morte e soldados mercenários. Como salvar a jovenzinha? Deve-se lançar o barqueiro ao mar e deixar que o barco naufrague, e com ele a menina? Entregá-la à turba de criminosos que se acotovelam, sedentos de sangue, prontos a saquear o país, roubar seus recursos e violar e em seguida matar a jovenzinha? Não vejo como esta poderia ser a solução. Seria mais produtivo se alguns dos outros barcos que se encontram no mar se aproximassem do que está em perigo e obrigassem o infeliz barqueiro a corrigir seu rumo. Fazer afundar o barco que leva a criança da revolução ou entrega-la ao navio estadunidense dificilmente podem ser consideradas soluções revolucionárias.
18/Julho/2018
[1] O incêndio, ocorrido em Abril de 2018, consumiu cerca de 5.000 hectares de uma das maiores e mais bem preservadas reservas ecológicas do país. [NR] A Operação Irão-Contras foi uma enorme conspiração organizada pelo imperialismo para a venda de narcóticos em grande escala a fim de financiar a compra de armas para os contra-revolucionários na Nicarágua. Acerca da Nicarágua ver também:
Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista , de Miguel Urbano Rodrigues, Nov/2016 O original encontra-se em www.pagina12.com.ar/129111-la-nina-en-el-bote . Tradução de LL. [*] Sociólogo, argentino. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver o original em 'Página Global':   http://paginaglobal.blogspot.com/2018/08/nicaragua-menina-do-bote.html

OS DITADORES

Fidel Castro e Hugo Chávez, em 2004, estabeleceram um horroroso objetivo, que consistiu em realizar por médicos cubanos e em 10 anos, nos países latino-americanos e caribenhos, seis milhões de operações oftalmológicas. Esta imposição abjeta, está a ser comemorada na Bolívia que contabiliza 700 mil operações realizadas, acontecimento que Evo Morales festeja no dia 13 de agosto, data em que Fidel faria 92 anos.
É precisamente o que acontece, nesta república da UE, onde por meios rasteiros, os processos se arrastam por anos para quem não tem meios para recorrer ao privado.
Isto é muito pior  que assassinar palestino pelos nazissionistas de Israel.
NÃO É!?

Leia original em

A Nicarágua dói

Os acontecimentos na Nicarágua têm suscitado posições contraditórias entre personalidades firmemente solidárias com o sandinismo. Ainda que a informação que chega seja, como seria de esperar, controversa, os protestos populares, ao contrário do que se tem passado na Venezuela, incluem reivindicações justas. A repressão desencadeada pelo governo tem assumido uma violência desproporcionada. O facto de Washington ter gente sua no terreno - ao lado da reacção nicaraguense, com destaque para a Igreja católica - e estar à espreita da oportunidade para instalar um governo mais servil não pode justificar esta actuação. A violência contra o povo facilita objectivamente a acção do imperialismo.

Escrever sobre a Nicarágua é tão doloroso e triste com indispensável. As recordações da revolução sandinista estão ainda muito presentes na geração que conheceu essa gesta. O silêncio seria uma afronta aos que participaram nessa memorável insurreição contra Somoza.

Os factos dos últimos meses oferecem poucas dúvidas. Uma sucessão de protestos sociais foi brutalmente reprimida. Há 350 mortos, só de um lado, devido à acção de forças militares ou paramilitares. Em todos os casos foram disparados tiros contra os manifestantes desarmados, que responderam ou escaparam conforme puderam à caçada.

As informações de numerosas fontes coincidem nessa descrição. Registou-se uma escalada crescente de disparos impunes, que que começara com alguns mortos e subiu para 60 em fins de Abril. Essa tragédia não foi interrompida pelo começo das conversações. Pelo contrário, o diálogo foi coroado com mais 225 crimes.

Não há qualquer justificação para esta selvajaria. As entidades oficiais (e as vozes de apoio que recebem) não mostram qualquer prova da «acção terrorista» que que apontam às vítimas. Também não há baixas significativas no campo governamental e não existem quaisquer registos do uso de armas de fogo pelos opositores.

Estes acontecimentos não foram só denunciados pelos que estão próximos dos que tombaram. Uma infinidade de testemunhos e uma larga variedade de jornalistas corroboraram esses acontecimentos. Mas o mais importante são as autorizadas vozes de ex-comandantes e dirigentes do sandinismo, que verificaram o que aconteceu no próprio lugar dos factos. As suas denúncias têm uma altíssima credibilidade e coincidem com a visão de velhos participantes estrangeiros da revolução. Estas opiniões importam pelo seu grande conhecimento dos atores em luta.

A sangueira descarregada pelo governo de Ortega assemelha-se à reacção de qualquer presidente de direita, Foi a típica violência do Estado contra os descontentes. Perante esse comportamento atroz, um movimento saído de reivindicações básicas assumiu o carácter democrático de resistência à repressão. A questão original contra a reforma da segurança social perdeu importância, perante o cenário dantesco de centenas de mortos provocados pelo tiroteio dos gendarmes.

Levantar a voz perante este crime, exigir o fim imediato da repressão e o julgamento dos culpados é a questão primeira perante o sucedido.

INVOLUÇÃO SEM RETORNO

Os protestos contra o aumento das quotizações para a segurança social encontraram um enorme eco junto da população. Essa adesão indicou o mal-estar existente em amplos sectores da população. Há cansaço com as políticas oficiais divorciadas do passado revolucionário do governo.

O orteguismo não preservou a mais leve parecença com a sua origem sandinista. Estabeleceu alianças estratégicas com o empresariado, adoptou as medidas exigidas pelo FMI e garantiu as ligações com a Igreja, depois de proibir o aborto. Consolidou a privilegiada burocracia dos negócios que se enamorou da apropriação dos bens públicos.

Sob a sua condução, Daniel Ortega rege um sistema clientelar assente em maquinarias eleitorais. A persistência da velha simbologia sandinista oculta esta mudança substancial, que reproduz a involução sofrida por outros processos progressistas.

Muito antes de se converter numa simples rede de mafiosos, O PRI mexicano tinha enterrado o seu legado de transformações agrárias e tradições nacionalistas. O mesmo aconteceu com o MNR da Bolívia, que actuou durante vários anos como um partido reaccionário contraposto à sua origem. Os exemplos de regressão política – que Ortega recria – estendem-se a outros partidos latino-americanos, que se despiram completamente das suas antigas ambições socialistas e anti-imperialistas.

Mas a repressão incorpora uma viragem mais irreversível. Converte uma formação aburguesada numa organização antagónica com a esquerda. Quando os aparelhos policiais assassinam impunemente, rompe-se o último ponto de contacto com um horizonte progressista. Esta regressão sem retorno deu-se nos últimos meses na Nicarágua.

As diferenças substanciais com a Venezuela não radicam apenas na permanência de um processo bolivariano, que se confronta com a direita e defende a soberania num quadro de inédita adversidade. Na interminável sucessão de guarimbas, o chavismo batalhou contra tentativas golpistas, incursões paramilitares e provocações por parte de grupos adestrados pela CIA. Cometeram muitas injustiças e fustigaram vários lutadores populares, mas a sua luta central foi contra a desestabilização promovida e financiada pelo imperialismo.

O que ocorreu na Nicarágua foi muito diferente. Os protestos não foram teledirigidos a partir de Washington. Surgiram de baixo, contra reformas aconselhadas pelo FMI e, posteriormente, articularam-se de forma espontânea na defesa de direitos vulnerados. Também as principais figuras dos conservadores - que concertaram incontáveis pactos com o governo – propiciaram a revolta. As manifestações reuniram um heterogéneo conglomerado de descontentes que actuam sob a orientação da Igreja e dos estudantes. As diferentes vertentes eclesiásticas não seguem um libreto rígido e uniforme, e os estudantes estão agrupados em várias correntes internas com líderes de direita e de esquerda.

Este movimento com baixo nível de politização inicial começou a adoptar posturas mais claras perante o acosso repressivo. O seu posicionamento consolidou-se perante o fracasso das mesas de diálogo que o governo disse aceitar, mas na prática boicotou.

UM OLHAR INTEGRAL

De todas as opiniões difundidas nas últimas semanas, a posição adoptada por um reconhecido dirigente revolucionário chileno reúne méritos ausentes noutras posturas.

Esta posição ressalta a legitimidade dos protestos, denuncia a traição de Ortega e questiona o silêncio cúmplice de muitas correntes progressistas perante a repressão. Mas alerta também contra a utilização pela direita dos protestos e sublinha que os Estados Unidos aproveitarão o conflito para socavar o governo. Além disso, constata que persiste o apoio de uma parte da população à política oficial e apela a que se encontre uma solução pacífica, para que a burguesia local e o seu mandante imperial não venham a ser os beneficiários da eventual hecatombe das forças no poder.

Esta visão sintetiza muito bem o repúdio moral das mortandades com o reconhecimento da complexa situação criada no país. Ainda que Ortega pactue sem qualquer escrúpulo com todos os expoentes da reacção, os Estados Unidos procuram o seu afastamento. Não toleram a autonomia que a Nicarágua preservou na sua política externa. O país não só faz parte da ALBA como mantém laços estreitos com o governo venezuelano. Pretende, além disso, construir um canal interoceânico com financiamento chinês na região mais quente do «pátio traseiro» da primeira potência.

Como ficou demonstrado durante o golpe contra Zelaya nas Honduras (e mais recentemente na Guatemala), os Estados Unidos tratam os pequenos países centro-americanos como colónias de segunda ordem. Não aceitam a menor indisciplina dessas nações. Por isso já puseram em marcha todos os mecanismos para cooptar os dirigentes dos protestos, a fim de os alinhar com a futura colocação de um títere do império no lugar de Ortega. Os encontros de vários líderes estudantis em Washington com congressistas da ultradireita anticastrista (e as reuniões do mesmo tipo em S. Salvador) constituem os episódios mais visíveis da nova operativa ensaiada por Trump.

Desconhecer os preparativos dessa agressão seria de uma inadmissível ingenuidade. O próprio Ortega que atropela brutalmente o povo é visto pelo Departamento de Estado como um adversário a sepultar. Este tipo de contradições tem sido muito frequente na história e devem ser seriamente avaliadas na esquerda, no momento de tomar uma posição. É vital não nos somarmos às campanhas da OEA e à gritaria de Vargas Llosa que entretece o Comando Sul.

PERIGOS E DEFINIÇÕES

Constatar que o sandinismo conserva a adesão de uma considerável parte da população é compatível com os resultados das últimas eleições. Mas Cabieses não parte apenas deste dado para apelar a uma solução pacífica. As negociações permitiriam evitar a transformação da revolta actual num confronto maior, com terrível sequela de vítimas e nefastas consequências no plano geopolítico e nacional.

O que aconteceu em dois países do Médio Oriente oferece antecedentes para temer essas consequências. Tanto na Líbia como na Síria predominavam governos de índole progressista que se alteraram até ao ponto de recorrer à repressão contra os seus defensores e o povo. Kadhafi prendeu palestinos e Assad descarregou sobre o povo fuzilamentos indiscriminados. Ambos os casos terminaram em tragédias maiores. O estado líbio praticamente desapareceu, dando lugar a ambiciosas disputas entre clãs rivais. A Síria teve um desenlace mais dramático.

Assistiu primeiro ao assumir do protesto pelos jihadistas e depois sofreu o pior desastre humanitário das últimas décadas.

As realidades históricas e o cenário político do Médio Oriente e da América Central são muito diferentes. Mas o imperialismo actua com os mesmos propósitos de dominação em ambas as regiões. Destrói sociedades e arrasa países sem contemplações. Se na Venezuela tivessem ganho a partida, o país seria um cemitério semelhante ao Iraque, com o petróleo nas mãos das grandes companhias estado-unidenses.

Por tudo isto convém não esquecer, em momento algum, quem é o inimigo principal. Uma solução pacífica na Nicarágua é o melhor caminho para evitar o perigoso aproveitamento do conflito. O mecanismo dessa saída esteve muito presente no pedido de diálogo para negociar eventuais eleições antecipadas.
Esta reclamação é diferente da identificação do governo com uma ditadura e exigir a sua queda. Aparentemente, nas últimas semanas a tensão cedeu, não que as negociações tenham avançado mas pela consolidação da repressão. Ortega conseguiu respirar graças ao chicote. Mas a sua conduta criou um abismo inultrapassável com a juventude rebelde. O seu divórcio com a esquerda é definitivo. A tradição revolucionária sandinista voltará a ressurgir, mas no caminho contrário ao do orteguismo

(*) Claudio Katz é economista, investigador, Professor na Universidade de Buenos Aires e membro do EDI (Economistas de Izquierda).

Tradução: João Paulo Gascão

Leia original aqui

Colômbia está sob ameaça de guerra e Duque nem assumiu ainda

A poucos dias da posse do ultraconservador Iván Duque como presidente da Colômbia se respira uma atmosfera de ansiedade e instabilidade social, após o assassinato de 330 líderes sociais, a ameaça permanente a jornalistas e o temor de que o novo mandatário se aventure em duas guerras: uma interna e outra contra o seu vizinho, a Venezuela.

Enquanto isso, a intimação da Corte Suprema de Justiça para que o ex-presidente Álvaro Uribe declare em um processo por possível delito de suborno e fraude processual – mas não nos casos de genocídio e narcotráfico, assim como no caso de sua decisão posterior de renunciar à sua cadeira no Senado por “se sentir moralmente impedido” para exercer sua defesa ao mesmo tempo em que desempenha suas tarefas legislativas, a qual foi adiada para o dia 3 de agosto – se soma ao tsunami político que o país vive.

O ex-candidato presidencial de centro-esquerda, Gustavo Petro, assegurou que Uribe renunciou ao cargo como método para evadir a investigação, agregando a isso uma afirmação sobre o testemunho do filho do mordomo da fazenda Guacharacas, Juan Monsalve, que o acusa de assassinato e manipulação de testemunhos.

Vários analistas também consideram o anúncio da renúncia como uma mera estratégia de Uribe para evitar a investigação da Corte Suprema de Justiça, e tentar defender sua impunidade, diante da cadeia delitiva na que seria envolvido pela investigação do caso dos falsos testemunhos.

A estratégia referida tem a ver com a competência da Corte para investigar só os que tem foro especial, por pertencer ao Congresso, o que afastaria seu caso dessa jurisdição, ao não possuir mais o foro, sendo derivado a um tribunal menor. Não obstante, a Corte pode decidir manter a competência neste caso.

A direita colombiana está preocupada, porque Uribe teria a tarefa de liderar a bancada do partido do novo presidente, e servir como fator de coesão da nova coalizão governista, para enfrentar as anunciadas reformas tributária e judicial.

O assassinato de dirigentes sociais e as ameaças aos jornalistas, “são provas claras de que as forças obscuras do país querem destroçar a pouca paz alcançada com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, agora um partido político legalizado), e voltar a soar as cornetas da guerra. O governo já não pode atribuir as novas mortes à guerrilha, pois as Farc se desmobilizaram e estão em um processo de justiça especial, que será duro e espinhoso”, comenta o analista político Fabio Martínez, em entrevista para o diário El Tiempo.

Então, quem está por trás do assassinato dos líderes sociais? Quem está ameaçando os jornalistas? Este cenário é a sala de espera na qual o novo presidente aguarda para receber o poder das mãos do ominoso Juan Manuel Santos, responsável pelo fato de a pacificação não ter se consolidado e pela total impunidade nos casos de matança de líderes sociais.

As declarações do próximo ministro de Defesa, Guillermo Botero, no sentido de reprimir as manifestações sociais, são um indício evidente de que o novo governo será contra a mobilização legítima e pacífica da sociedade, quando os otimistas esperavam a possibilidade de um pacto social entre o governo, os empresários, os militares e as comunidades, com o objetivo de prevenir a matança sistemática que ameaça o país.

O escritor e analista político Gustavo Álvarez Gardeazábal, ao criticar as declarações que o presidente Duque deu em Washington – quando afirmou que lideraria um bloque latino-americano contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro, numa nota que com título de pergunta: “Vamos à guerra?”, advertiu que, assim, a Colômbia passa a ter um presidente que não está de acordo com o pensamento da nação, e que não pode começar a fazer declarações que contrariem o princípio do respeito soberano.

Ademais, disse que se a guerra com o país vizinho chegasse a acontecer, a Colômbia perderia, “pois a Venezuela está melhor armada que nós”.

A jornalista María Jimena Duzán, em sua última coluna antes de ser ameaçada de morte, recordava as declarações do general da reserva Leonardo Barrero (“preparem-se, porque voltaremos à guerra”) e se perguntava qual será o alvo principal desta nova guerra anunciada: os líderes sociais que estão caindo como moscas, os oito milhões de cidadãos que votaram por Petro, os dez milhões de pessoas que votaram por Duque e que ainda acreditam no “pássaro da paz voando pelos ares”, como dizia a sua campanha?

Os colombianos esperam que a guerra entre os próprios colombianos não retorne ao cotidiano do país, ou que se inicie uma nova contra um país irmão. Mas o clima de angústia já se vive, e Iván Duque ainda não assumiu, enquanto aquele que se apresenta como seu protetor, Álvaro Uribe, tenta se safar de um juízo no Tribunal Supremo.

Por Camilo Rengifo Marín, Economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)  |  Texto em português do Brasil

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EUA estão tentando dar um golpe na Nicarágua, denuncia Evo Morales

O presidente da Bolívia, Evo Morales, saiu em defesa do governo da Nicarágua nesta quarta-feira (25) e esta onda de desestabilização que assola o país desde abril trata-se de uma tentativa dos Estados Unidos de tentar um novo golpe de Estado no continente, desta vez contra Daniel Ortega.

Ao tentar interromper o processo constitucional da Nicarágua e forçar eleições antecipadas, os EUA “mostram sua obsessão pela ingerência em assuntos internos dos países soberanos”, esclareceu o presidente.

Em sua conta no Twitter, Evo Morales acusou os EUA de ter uma postura de “patrão do mundo” e que a ingerência do país americano na Nicarágua é um “anúncio de golpe contra o diálogo e a paz”.

A onda de desestabilização começou em abril quando uma manifestação impulsionada por estudantes da Universidade Politécnica pedia a revogação da reforma trabalhista apresentada por Daniel Ortega. O presidente atendeu o pedido popular com rapidez e não avançou com a reforma, porém, as manifestações continuaram, desta vez com uma nova pauta: a renúncia do chefe de Estado.

Imediatamente começaram as ações violentas que resultaram em mortes de manifestantes a favor e contra o governo, destruição de prédios públicos incluindo bibliotecas e aparelhos de saúde, além de agressão gratuita contra militantes sandinistas.

O interesse norte-americano em mudar, de forma precipitada, o atual governo da Nicarágua está diretamente ligado às negociações do país com a China para a construção de um novo canal que será muito maior em capacidade que o Canal do Panamá, caminho dominado pelos EUA para receber importações e exportar sua produção.

Ingerência norte-americana

Nesta quarta-feira (25) o Congresso dos Estados Unidos aprovou por unanimidade a resolução bipartidária (votada por 241 parlamentares republicanos e 194 democratas) que condena e responsabiliza o governo de Daniel Ortega pela violência nas manifestações.

O documento legislativo propõe, além disso, eleições presidenciais antecipadas no país centro-americano.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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Ex-chanceler denuncia perseguição política contra líderes latinos

O ex-chanceler do Equador, Ricardo Patiño, denunciou nesta segunda-feira (16), durante o Foro de São Paulo em Havana, a perseguição política e judicial contra os líderes latino-americanos de esquerda que vem acontecendo nos últimos tempos. Após a denúncia, o dirigente político pediu a solidariedade e a mobilização da esquerda do continente em torno desta questão.

Após a participação no evento, o ex-chanceler conversou com o periódico cubano Prensa Latina e advertiu que a atual perseguição afeta especialmente líderes de muito destaque no cenário político da região, como como é o caso dos ex-presidentes do Brasil, Lula e Dilma, da Argentina, Cristina Kirchner, e do Equador, Rafael Correa.

Para Patiño, é fundamental que dessa 24ª edição do Foro de São Paulo saiam resoluções sólidas em apoio a estes dirigentes.

O ex-chanceler alertou também para os próximos líderes que estão na mira da “cruzada da direita e das forças imperialistas”. Segundo ele, a esquerda precisa estar atenta aos ataques contra o presidente da Bolívia, Evo Morales e do chefe de Estado da Nicarágua, Daniel Ortega.

Vivemos um cenário especial, mas apesar disso, nem tudo são más notícias, tivemos o triunfo eleitoral de Andrés Manuel López Obrador no México e os bons resultados de Gustavo Petro nas eleições presidenciais na Colômbia”.
Ricardo Patiño

Para Patiño, o retorno do Foro de São Paulo à capital cubana, após as edições de 1993 e 2001, brinda a oportunidade de discutir sobre as experiências positivas e os fracassos da esquerda nos últimos anos, em meio às investidas do imperialismo de impor novamente o neoliberalismo no continente, como aconteceu nos anos 90.

“Este encontro é particularmente importante para articularmos estratégias das organizações políticas e dos movimentos sociais para reagir à ofensiva imperialista na América Latina e para fixarmos ações específicas na área midiática”, defendeu o ex-ministro.

Patiño acredita que enfrentar as campanhas de manipulação dos grandes grupos de comunicação hegemônica do continente é essencial, tendo em vista que em nível local eles são os porta-vozes da direita dos grandes meios norte-americanos.

É urgente articularmos nossas capacidades de comunicação para fortalecer o trabalho nas redes sociais, a 24 edição do Foro de São Paulo deve incluir estes temas em seu programa de trabalho”.
Ricardo Patiño
Texto em português do Brasil

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«Aproveitar o Fórum para reforçar a unidade e retomar a iniciativa política»

As palavras são de José Ramón Balaguer, responsável das Relações Internacionais do PCC, no decorrer da primeira sessão do XXIV Fórum de São Paulo, que começou domigo e termina terça-feira em Havana.

Mais de 400 delegados participam no XXIV Fórum de São Paulo, em Havana, que decorre entre 15 e 17 de JulhoCréditos / Cancillería de Cuba

Os mais de 400 delegados participantes no Fórum centram hoje as suas atenções e debates na questão da necessidade da integração latino-americana e caribenha. De acordo com a Prensa Latina, este dia ficará ainda marcado pela realização de encontros de jovens, mulheres e deputados em que serão partilhadas as experiências dos partidos e movimentos de esquerda que se fazem representar na capital cubana.

Na jornada inaugural, este domingo, ficou patente a defesa da solidariedade para com governos da região que são alvo de ataques por parte da direita e do imperialismo, como a Venezuela, Nicarágua, Cuba e Bolívia, e com Lula da Silva, no Brasil.

Resistir e arremeter

Fundado no início dos anos 90 pelo líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, e pelo dirigente político e depois presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o Fórum de São Paulo decorre hoje num contexto de forte investida contra as forças progressistas no hemisfério. Ambas as ideias foram vincadas pela secretária executiva do organismo, Mónica Valente, no seu discurso de abertura.

«A ideia visionária destes dois líderes de constituir uma plataforma política anti-imperialista e anti-neoliberal, sob o lema da unidade e do consenso, parecia uma utopia que jamais alcançaríamos», disse Valente. «Mas, ao longo dos anos, a ideia de uma América Latina e Caraíbas soberana, integrada, com desenvolvimento económico e social para todos tornou-se possível, verdadeira, concreta», acrescentou.

No entanto, alertou para a «forte contra-ofensiva do imperialismo e do neoliberalismo» que hoje se vive, para «os ataques […] mais brutais que podíamos imaginar quando estávamos a construir esta nova América Latina e Caraíbas», indica o Cuba Debate.

Valente, que enalteceu a importância da resistência política, pediu que se faça uma «análise profunda da actual situção».

Grande apoio a Lula

Esta primeira sessão contou com a participação de várias personalidades latino-americanas, como Dilma Rousseff, presidente destituída do cargo, no âmbito do golpe em curso no Brasil, e o lutador independentista porto-riquenho Oscar López Rivera. Entre os delegados presentes, havia representantes convidados de partidos e movimentos de esquerda da Ásia, da Europa e da África.

Na sua intervenção, a ex-presidente brasileira afirmou que «o seu crime e o de Lula foi defender os humildes e a soberania sobre os recursos naturais». «Nós nunca aceitámos a entrega às transnacionais do petróleo e dos recursos do país, por isso nos perseguiram e ocorreu o golpe», declarou, citada pela Prensa Latina.

Em nome dos pequenos estados das Caraíbas, falou o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, que chamou a atenção para os ataques do imperialismo e da direita, e também não esqueceu a situação de Lula: «Um dia é a Venezuela, outro o Brasil e depois a Nicarágua. Lembremo-nos sempre do golpe de Estado contra o governo de Manuel Zelaya nas Honduras em Junho de 2009. Agora Luiz Inácio Lula da Silva está preso, mas o povo apoia-o porque continua a vê-lo como seu líder», referiu.

Sublinhou que o imperialismo fez mossa e «nos dividiu muito», mas mostrou-se confiante em que a juventude leve por diante «a luta anticolonialista, anti-imperialista, anti-neoliberal». «Para eles, devemos construir uma unidade mais ampla», frisou.

«Construir a unidade foi e é fundamental»

Falando no Palácio das Convenções, onde decorre o Fórum, o dirigente do Partido Comunista de Cuba (PCC) José Ramón Balaguer pediu aos partidos e movimentos progressistas da região que trabalhem juntos face às investidas neoliberalismo e lembrou os apelos de Fidel Castro em prol da unidade.

«As suas reflexões a favor da mais ampla unidade anti-imperialista e em prol da integração latino-americana e caribenha, as suas críticas ao neoliberalismo e os seus apelos de firmeza e optimismo face à desintegração da URSS ainda ecoam neste recinto», disse Balaguer, que dedicou a Fidel e a Lula, «artífices da criação do Fórum», esta nova edição.

Balaguer disse que o PCC tudo fará para contribuir para que este encontro termine com acordos práticos e com uma maior consciência da necessidade de avançar na unidade: «Para os revolucionários cubanos, essa unidade continental é essencial», disse, acrescentando que «construir a unidade foi e é fundamental para neutralizar qualquer ofensiva adversária», indica o Cuba Debate.

Ramón Balaguer salientou que «a direita dedica grandes recursos financeiros para desqualificar as experiências de governos progressistas e denegrir as políticas sociais», e, por isso, pediu que não se caia no jogo de quem vê mais falhas que conquistas no momento de analisar as experiências dos últimos anos.

E insistiu: «Entre nós há mais coincidências que divergências […]. As possibilidades de vitória multiplicam-se se houver unidade.»

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Brasil, uma classe dominante truculenta, reacionária e entreguista. Quem quiser se iludir, que pague o preço!

«As classes dominantes brasileiras têm uma singularidade que as torna mais truculentas, preconceituosas e autoritárias que as outras: são filhas legítimas da Casa Grande e do desrespeito permanente aos trabalhadores ao longo de nossa história. Esse fenômeno é resultado de um histórico de dominação e impunidade que vem desde os tempos da colônia, com a escravidão.. Os mais de 300 anos de trabalho escravo no Brasil (foi o último País a abolir a escravatura) deixaram marcas profundas na sociedade brasileira e, especialmente, nas classes dominantes.»


 

Antes de tudo, é necessário enfatizar que não existe classe dominante boazinha em nenhuma parte do mundo capitalista. Todas elas buscam a maximização dos lucros e o controle do poder político na sociedade para exercer o seu domínio. Também não têm escrúpulos: quando seu poder está em jogo, não hesitam em se utilizar de qualquer meio, método, ilegalidade ou brutalidade para manter o controle social e político. Não podemos esquecer que a “esclarecida” burguesia alemã recorreu ao nazismo para restabelecer plenamente o seu domínio, da mesma forma que as burguesias italianas e japonesas recorreram ao fascismo para se manter no poder e disciplinar os trabalhadores.
Na América Latina também é bom lembrar que as burguesias da região apoiaram Somoza, Pinochet, Videla e a ditadura brasileira, além das torturas, assassinatos e desaparecimento de presos políticos. Portanto, o parâmetro que define o comportamento das classes dominantes em qualquer momento e em qualquer País é a correlação de forças na disputa política e a luta de classes. A organização revolucionária que não compreender essa dinâmica e realizar alianças com o inimigo, pagará um preço muito alto por suas ilusões de classe. Essa tem sido a história e a tragédia dos partidos e organizações que optaram por esse caminho.
Mas as classes dominantes brasileiras têm uma singularidade que as torna mais truculentas, preconceituosas e autoritárias que as outras: são filhas legítimas da Casa Grande e do desrespeito permanente aos trabalhadores ao longo de nossa história. Esse fenômeno é resultado de um histórico de dominação e impunidade que vem desde os tempos da colônia, com a escravidão.. Os mais de 300 anos de trabalho escravo no Brasil (foi o último País a abolir a escravatura) deixaram marcas profundas na sociedade brasileira e, especialmente, nas classes dominantes.
Nenhuma sociedade passa impune diante de mais de três séculos de escravidão, nos quais os africanos e seus descendentes foram tratados como sub-raça. Como eram propriedade dos senhores de engenhos e donos das terras, trabalhavam e viviam nas mais terríveis condições: eram humilhados, torturados ou assassinados se contrariassem as ordens dos proprietários. Os senhores de engenho e das terras eram donos da vida e da morte de cada um dos africanos escravizados Até os bichos de estimação das fazendas e engenhos tinham tratamento melhor que os escravos.
Essa tradição autoritária alimenta o imaginário das classes dominantes brasileiras, fato que se consolida através dos tempos com a permanente impunidade dos ricos e poderosos que detém o poder no Brasil. Além disso, o País não realizou uma revolução burguesa clássica, sua industrialização ocorreu muito tardiamente e o desenvolvimento econômico e social foi estruturado a partir dos interesses e padrões dos países centrais e de uma elite recém-saída do período escravocrata. A isso se acrescenta um processo de reprodução do capital típico de uma burguesia subordinada que realiza permanentemente a superexploração no trabalho. Portanto, mesmo em pleno século XXI, a elite brasileira ainda se comporta de maneira semelhante aos velhos senhores escravocratas, evidentemente com modos mais refinados de mandonismo.
Para consolidar essa tradição, as classes dominantes realizam um permanente trabalho de manipulação ideológica junto à população, através de seus aparatos da superestrutura, especialmente o monopólio das comunicações, de forma a que a grande maioria da população e, especialmente os trabalhadores, a juventude e o povo pobre das periferias, não consigam perceber claramente o processo de exploração, mandonismo e rapina das classes dominantes, bem como a maneira predatória com que se apossam dos recursos do fundo público, da riqueza produzida por todos e como se subordinam de maneira servil aos interesses do capital internacional.

Na crise, a burguesia mostra a sua cara

Essas reflexões introdutórias estão ligadas ao fato de que a crise brasileira está sendo mais uma vez pedagógica no sentido de compreendermos o papel das classes dominantes brasileiras e, principalmente, da chamada burguesia nacional. Em nosso País estamos vivendo aquele intervalo gramsciniano em que um ciclo está morrendo e outro está nascendo mais ainda não se consolidou. Justamente nesse intervalo aparecem os monstros, expressos nas manifestações mais bizarras e nos comportamentos políticos mais desvairados. Como as crises são momentos da verdade para todas as classes, a crise brasileira também está servindo para que as classes dominantes mostrem mais uma vez sua verdadeira face.
No Brasil, essas classes dominantes sempre procuraram dissimular suas intenções e objetivos das mais variadas formas. Até então todos se envergonhavam de ser considerados de direita. Eram raras as manifestações típicas de extrema-direita. Todos preferiam parecer de centro ou mesmo partidários da democracia. Por isso, o partido de Maluf se chama Partido Progressista, o das oligarquias regionais é denominado Democratas, o da direita neoliberal se chama Social-Democrata e assim por diante.
No entanto, o agravamento da crise está fazendo a burguesia mostrar sua verdadeira face. Muitos setores burgueses já não têm mais vergonha de se declararem de publicamente direita, outros setores estão flertando abertamente com o fascismo. Suas ações se tornam cada vez mais ousadas. Essa nova cara da extrema-direita burguesa explica a campanha pela volta da ditadura militar, o ódio contra minorias e os pobres em geral, a criminalização dos movimentos sociais, a agenda aberta contra os direitos e garantias dos trabalhadores, o assassinato dos sem terra, a justificativa das mortes da juventude pobre e preta da periferia, a campanha contra a esquerda em geral.
Já não conseguem se utilizar do tema da corrupção para levar centenas de milhares às ruas como há dois anos, mas mantém uma luta ideológica e uma ação política permanente em todas as áreas, inclusive nas redes digitais onde advogam abertamente a publicação de fake news como método de propaganda. É só lembrar que durante na greve dos camioneiros, um movimento justo contra a política de preços da administração ultraliberal do ex-presidente da Petrobrás, a direita procurou de todas as formas transformar o movimento numa manifestação pela intervenção dos militares na vida do País. Além do fato de que o principal monopólio das comunicações, as organizações Globo, manipulam diariamente os acontecimentos e envenenam a população com os valores conservadores.
Os ingênuos ou desatentos a uma leitura mais rigorosa da realidade podem dizer que esses setores são minoritários, que não representam o conjunto da burguesia. Isso pode até ser verdade nesse momento, afinal em todas as classes sempre há setores mais radicais e outros mais moderados em determinado momento da conjuntura. Mas não se pode desconhecer que está se verificando uma mudança de qualidade no entendimento da burguesia sobre as saídas para a crise. À medida que a crise se agrava, fruto do fracasso e desmoralização do golpe, da estagnação da economia, da continuidade do desemprego; à medida que a burguesia não encontra um candidato que a unifique, então cada vez mais setores amplos dessas classes dominantes estão se voltando para a candidatura de Bolsonaro.
Não se trata ainda de um acordo formal, mas os recentes episódios dos seminários promovidos por empresários industriais e da área financeira com os candidatos e os aplausos às propostas do candidato da extrema-direita deve chamar a atenção de todos. Vale lembrar ainda que em 1989 a burguesia não estava conseguindo se unificar em torno dos candidatos tradicionais e foi buscar um desconhecido senador alagoano (Collor) para derrotar Lula. Deu no que deu. Não será surpresa que, diante das dificuldades e da falta de unidade, a burguesia faça qualquer tipo de opção para manter seus privilégios, inclusive apoiando Bolsonaro.

Ao lixo com os escrúpulos

O que ocorreu nesses seminários empresariais? Na reunião com cerca de dois mil empresários, na Confederação Nacional da Indústria, Bolsonaro foi aplaudido em pelo menos seis vezes durante sua explanação, quando defendeu que vai colocar generais nos ministérios, que a mídia deve parar de ver os empresários como bandidos. “Os trabalhadores tem que decidir entre ter menos direitos e emprego para todos, ou todos os direitos e nenhum emprego”. E continuou: “Tem que fazer valer a vontade dos senhores”, referindo-se aos empresários.
Bolsonaro se comprometeu ainda a continuar as reformas realizadas por Temer e ampliar as privatizações, uma agenda que lhe é ensinada pelo seu assessor econômico, Paulo Guedes, um ultraliberal e privatista ensandecido. A “civilizada” “burguesia nacional” aplaudiu Bolsonaro quando falou contra a “ideologia de gênero” ou ainda quando fez piadinhas tais como: “Hoje estão tirando a nossa alegria de viver. Não se pode mais contar piadas sobre afrodescendentes, cearenses ou goianos”. A radicalização da burguesia está se consolidando ao ponto em que um dos candidatos que também participou do seminário foi vaiado porque disse que iria rever a reforma trabalhista.
Mas não é só a burguesia dita produtiva que está flertando com Bolsonaro. Os sofisticados banqueiros, investidores e gestores do mercado financeiro, em evento fechado para a imprensa, promovido pelo Banco Pactual (19o. CEO Conference), com a presença de 2.500 deles, também aplaudiram de pé as propostas neoliberais e conservadoras do candidato, principalmente quando disse que metralharia a favela da Rocinha para resolver o problema da segurança. “Mandaria um helicóptero derramar milhares de folhetos na favela e daria um prazo de seis horas para os bandidos se entregarem. Encerrado o tempo, metralharia a Rocinha”, no que foi aplaudido pela entusiasmada plateia. Mais ainda: teve que permanecer mais meia hora no recinto porque as doidivanas do mercado financeiro queriam tirar selfies com o candidato fascista.
Para quem imaginava uma burguesia limpinha e cheirosa ou estava com planos de alianças em nome da unidade nacional, esta é uma realidade constrangedora. Se até o último dia para o registro eleitoral a burguesia não conseguir encontrar um candidato menos boçal e troglodita, jogará seus escrúpulos na lata do lixo e entrará com malas e bagagem para o comboio do candidato da extrema direita. Não importa se Bolsonaro faz homenagem a um torturador como Brilhante Ustra, se é um racista, misógino, preconceituoso ou contra os direitos humanos e das mulheres. Fala mais altos seus interesses econômicos e o controle político da máquina governamental, como aconteceu em 1964 e ao longo da ditadura. Para os órfãos da burguesia nacional, esse é um momento muito difícil.
Constatar as opções da burguesia num momento de grave crise é saudável e pedagógico para as forças revolucionárias. No entanto, depois dessa constatação ainda querer realizar alianças com esses setores dominantes aí já é masoquismo. Até porque as classes dominantes brasileiras historicamente sempre estiveram perfiladas com o que é de mais atrasado e reacionário na história brasileira desde o período colonial. Ninguém que queira realizar as transformações em nosso País tem mais o direito de errar diante de uma questão objetiva como esta. O exemplo recente da experiência do PT e suas alianças com o grande capital e as oligarquias regionais foi bastante dramático para não se cometer o mesmo erro novamente.

Construir o campo popular

Numa sociedade como a brasileira (o País é a oitava economia do mundo), com um capitalismo maduro, as classes sociais devidamente constituídas, a ordem institucional burguesa funcionando de acordo com os interesses dos de cima, não há espaço para alianças com a burguesia ou as oligarquias em geral para se realizar qualquer mudança. Pelo contrário, essas alianças já foram derrotadas no passado e agora significam o cemitério para as forças que continuarem insistindo nesse erro. O mais grave disso é o fato de que uma parcela muito expressiva de forças de esquerda continua insistindo nessa estratégia como se nada tivesse acontecido no passado recente.
Os exemplos do apoio ao discurso de Bolsonaro no seminário da Confederação da Indústria e no dos engravatados do mercado financeiro é um sinal muito forte do caráter da burguesia brasileira, tanto a produtiva quanto a financeira. Essa conversa fiada de ficar separando o capital produtivo e financeiro no Brasil é outro sofisma para justificar o injustificável. O capital produtivo brasileiro ganha também muito dinheiro no mercado financeiro. Tem departamento especializados para aplicar em títulos e no mercado futuro. Uma parcela expressiva dos seus lucros vem exatamente da especulação financeira. Portanto, as contradições entre capital produtivo e financeiro são apenas pontuais: em essência, todos são truculentos, autoritários e entreguistas.
As reuniões de Bolsonaro com os principais executivos da área produtiva e financeira recentes são uma demonstração cristalina de que não se deve esperar desses setores nenhuma ação no sentido de qualquer mudança no País. Pelo contrário, a burguesia tanto produtiva quanto financeira, está aliada até o tutano com as forças do capital internacional. Portanto, são os principais inimigos do povo brasileiro, especialmente dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das periferias. Não tem nenhum papel a cumprir em qualquer processo de mudanças. Estarão sempre ao lado das causas mais reacionárias, conservadoras e entreguistas da sociedade brasileira. Estão entregando agora o Pré-Sal, a Embraer, colocando veneno na mesa da população, realizaram o ajuste fiscal por 20 anos, a reforma trabalhista, a lei das terceirizações e por pouco não conseguiram aprovar a reforma da previdência. Portanto, qualquer aliança com esses setores será mais uma tragédia para quem continuar optando por esse caminho.
Para quem quer realizar as transformações no Brasil, a política de alianças deve ter como centro o campo popular (o conjunto dos assalariados, suas famílias e aliados em contradições com o grande capital nacional e internacional), que não só representa a grande maioria da população brasileira, mas também é o único campo capaz de aglutinar e construir um programa que seja capaz de contemplar os interesses da grande maioria da população brasileira e colocar essa maioria em movimento pelas transformações sociais. Essa é a nossa tarefa agora: construir a frente política e social classista e transformar a grande insatisfação que existe na sociedade contra as classes dominantes, contra a corrupção e as precárias condições de vida de nosso povo em movimento organizado pelas grandes mudanças, sob a direção do campo popular.

*Edmilson Costa é secretário geral do PCB

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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Boaventura: o que aprender com a Nicarágua

Ruína do governo Ortega convida a relembrar Revolução Sandinista e os déficits atuais da esquerda. Levante popular poderia repetir-se no Brasil ou Argentina?
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
Pertenço à geração dos que nos anos de 1980 vibraram com a Revolução Sandinista e a apoiaram ativamente. O impulso progressista reanimado pela revolução cubana de 1959 tinha sido estancado em grande medida pela intervenção imperialista dos EUA. A imposição da ditadura militar no Brasil em 1964 e na Argentina em 1976, a morte de Che Guevara em 1967, na Bolívia e o golpe de Augusto Pinochet contra Salvador Allende em 1973 foram os sinais mais salientes de que o sub-continente sul-americano estava condenado a ser o quintal dos EUA, submetido à dominação das grandes empresas multinacionais e das elites nacionais com elas coniventes. Estava, em suma, impedido de pensar-se como conjunto de sociedades inclusivas centradas nos interesses das grandes maiorias empobrecidas. A revolução sandinista [em 1979] significava a emergência de uma contra-corrente auspiciosa. O seu significado resultava não só das transformações concretas que protagonizava (participação popular sem precedentes, reforma agrária, campanha de alfabetização que mereceu prêmio da Unesco, revolução cultural, criação de serviço público de saúde, etc.), mas também do fato de tudo isto ser realizado em condições difíceis devido ao cerco extremamente agressivo dos EUA de Ronald Reagan, que envolveu o embargo econômico e o infame financiamento dos “contras” e o fomento da guerra civil. Igualmente significativo foi o facto de o governo sandinista ter mantido o regime democrático, o que em 1990 ditou o fim da revolução com a vitória do bloco opositor de que, aliás, fazia parte o partido comunista da Nicarágua.
Nos anos seguintes, a Frente Sandinista, sempre liderada por Daniel Ortega, perdeu três eleições, até que, em 2006, reconquistou o poder mantendo-o até hoje. Entretanto, a Nicarágua, como de resto toda a América Central, esteve fora do radar da opinião pública internacional e da própria esquerda latino-americana. Até que, em abril passado, os protestos sociais e a violenta repressão de que foram alvo chamou a atenção do mundo. Contam-se já muitas dezenas de mortes causadas pelas forças policiais e por milícias ligadas ao partido do governo. Os protestos, protagonizados inicialmente por estudantes universitários, visavam a displicência do governo perante a catástrofe ecológica na Reserva Biológica Indio-Maiz causada pelo incêndio e pelo desmatamento e invasão ilegais. Seguiram-se logo depois os protestos contra a “reforma” do sistema de segurança social que impunha cortes drásticos nas pensões e onerações adicionais impostas a trabalhadores e patrões. Aos estudantes juntaram-se sindicatos e demais organizações da sociedade civil. Perante os protestos, o governo retirou a proposta, mas o país estava já incendiado pela indignação contra a violência e a repressão e pela repulsa causada por muitas outras facetas sombrias da governação sandinista, que entretanto começaram a ser mais conhecidas e mais abertamente criticadas. A Igreja Católica, que desde 2003 se “reconciliara” com o sandinismo, voltou a tomar as suas distâncias e aceitou mediar o conflito social e político sob condições.
O mesmo distanciamento ocorreu com a burguesia empresarial nicaraguense a quem Ortega oferecera volumosos negócios e condições privilegiadas de atuação em troca de lealdade política. O futuro é incerto e não está excluído que este país, tão massacrado pela violência, volte a sofrer um banho de sangue. A oposição ao orteguismo cobre todo o espectro político e, tal como tem acontecido noutros países (Venezuela e Brasil), só mostra unidade para derrubar o regime mas não para criar uma alternativa democrática. Tudo leva a crer que não haverá solução pacífica sem a renúncia do casal presidencial Ortega-Murillo e a convocação de eleições antecipadas livres e transparentes.
Os democratas, em geral, e as forças políticas de esquerda, em especial, têm razões para estar perplexos. Mas têm sobretudo o dever de reexaminar as opções recentes de governos considerados de esquerda em muitos países do continente e questionar o seu silêncio perante tanto atropelo de ideais políticos durante tanto tempo. Por esta razão, este texto não deixa de ser, em parte, uma auto-crítica. Que lições se podem colher do que se passa na Nicarágua? Ponderar as duras lições que a seguir enumero será a melhor forma de nos solidarizarmos com o povo nicaraguense e de lhe manifestarmos respeito pela sua dignidade.
Primeira lição: espontaneidade e organização
Durante muito tempo os protestos sociais e a repressão violenta ocorreram nas zonas rurais sem que a opinião pública nacional e internacional se manifestasse. Quando os protestos irromperam em Manágua a surpresa foi geral. O movimento era espontâneo e recorria às redes sociais que o governo promovera antes com o acesso gratuito à internet no país. Os jovens universitários, netos da revolução sandinista, que até há pouco pareciam alienados e politicamente apáticos, mobilizaram-se para reclamar justiça e democracia. A aliança entre o campo e a cidade, até então impensável, surgiu quase naturalmente e a revolução cívica saiu à rua em marchas pacíficas e barricadas que chegaram a atingir 70% das estradas do país. Como é que as tensões sociais se acumulam sem que sejam notadas e a sua explosão repentina colha a todos de surpresa? Decerto não pelas mesmas razões por que os vulcões não avisam. Pode esperar-se que as forças conservadoras nacionais e internacionais não se aproveitem dos erros cometidos pelos governos de esquerda? Qual será o ponto de explosão das tensões sociais noutros países do continente causadas por governos de direita — por exemplo, no Brasil e na Argentina?
Segunda lição: os limites do pragmatismo político e das alianças com a direita
A Frente Sandinista perdeu três eleições depois de ter sido derrotada em 1990. Uma facção da Frente liderada por Ortega entendeu que a única maneira de poder voltar ao poder era fazer alianças com os seus adversários, mesmo com os que mais visceralmente tinham hostilizado o sandinismo, a Igreja Católica e os grandes empresários. No que respeita à Igreja Católica, a aproximação começou no início da década de 2000. O Cardeal Obando y Bravo foi durante boa parte do período revolucionário um opositor agressivo do governo sandinista e aliado ativo dos contras, apelidando Ortega de “víbora moribunda” durante toda a década de 1990. No entanto, Ortega não teve pejo em dele se aproximar a ponto de lhe pedir em 2005 que oficiasse o casamento com a sua companheira de muitos anos, Rosário Murillo, atual vice-presidente do país.
Entre muitas outras concessões à Igreja, uma das primeiras leis do novo governo sandinista, ainda em 2006, foi aprovar a lei da proibição total do aborto, mesmo em caso de violação ou de perigo de vida para mulher. Isto, num país com alta incidência de violência contra mulheres e crianças. A aproximação às elites econômicas deu-se pela submissão do programa sandinista ao neoliberalismo, com a desregulação da economia, a assinatura de tratados de livre comércio e a criação de parcerias público-privadas que garantiam polpudos negócios ao setor privado capitalista à custa do erário público. Incluiu também um acordo com o ex-presidente conservador e grande proprietário, Arnoldo Aleman, que foi considerado um dos dez chefes de Estado mais corruptos do mundo.
Estas alianças garantiram uma certa paz social. Deve-se salientar que em 2006 o país estava à beira da falência e que as políticas adotadas por Ortega permitiram o crescimento econômico. Tratou-se, no entanto, do crescimento típico da receita neoliberal: grande concentração da riqueza, total dependência dos preços internacionais dos produtos de exportação (nomeadamente café e carne), autoritarismo crescente perante o conflito social causado pela extensão da fronteira agrícola e pelos megaprojetos (por exemplo, o grande canal interoceânico, com financiamento chinês), aumento desordenado da corrupção, a começar pela elite política no governo. A crise social só foi minorada devido à generosa ajuda da Venezuela (doações e investimentos) que chegou a ser uma parcela importante do orçamento do Estado e permitiu algumas políticas sociais compensatórias.
A situação iria fatalmente explodir quando os preços internacionais baixassem, houvesse mudança de política econômica no principal destino das exportações (EUA), ou secasse o apoio da Venezuela. Foi tudo isso que sucedeu nos últimos dois anos. Entretanto, acabada a orgia dos favores, as elites econômicas tomaram distância e Ortega ficou cada vez mais isolado. Pode um governo continuar a designar-se de esquerda (e até revolucionário) apesar de seguir todo o ideário do capitalismo neoliberal com as condições que este impõe e as consequências que gera? Até que ponto as alianças tácticas com o “inimigo” se transformam na segunda natureza de quem as protagoniza? Por que as alianças com as diferentes forças de esquerda parecem sempre mais difíceis do que as alianças entre a esquerda hegemônica e as forças de direita?
Terceira lição: autoritarismo político, corrupção e desdemocratização
As políticas adotadas por Daniel Ortega e a sua facção criaram cisões importantes no seio da Frente Sandinista e oposição em outras forças políticas e nas organizações da sociedade civil que tinham encontrado no sandinismo dos anos de 1980 a sua matriz ideológica e social e a sua vontade de resistência. As organizações de mulheres tiveram um protagonismo especial. É sabido que o neoliberalismo, ao agravar as desigualdades sociais e ao gerar privilégios injustos, só se pode manter pela via autoritária e repressiva. Foi isso o que fez Ortega. Por todos os meios, incluindo cooptação, supressão da oposição interna e externa, monopolização das mídias, alterações constitucionais que garantiram a reeleição indefinida, instrumentalização do sistema judicial e criação de forças repressivas paramilitares. As eleições de 2016 foram o retrato de tudo isto e a vitória do slogan “uma Nicarágua cristã, socialista e solidária” mal disfarçava as profundas fraturas na sociedade.
De um modo quase patético, mas talvez previsível, o autoritarismo político foi acompanhado pela crescente apropriação patrimonialista do Estado. A família Ortega acumulou riqueza e mostrou apetite para se perpetuar no poder. A tentação autoritária e a corrupção são um desvio ou são constitutivas dos governos de matriz econômica neoliberal? Que interesses imperiais explicam a ambiguidade da OEA (Organização dos Estados Americanos) face ao orteguismo, em contraste com a sua radical oposição ao chavismo? Porque é que boa parte da esquerda latino-americana e mundial manteve (e continua a manter) o mesmo silêncio cúmplice? Por quanto tempo a memória de conquistas revolucionárias turva a capacidade de denunciar as perversidades que se lhes seguem, a ponto de a denúncia chegar quase sempre demasiado tarde?
Imagem: Mural sandinista na cidade de León retrata a repressão de um levante por soldados da ditadura Somoza. Em bizarra repetição, o atual presidente, Daniel Ortega, também recorre a soldados e paramilitares contra protestos
*Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos.

Que viva México!

País derrota, nas urnas, globalização sem esperança e maré conservadora que varre América Latina. Mas que poderá Lopez Obrador frente à ditadura dos mercados?
Antonio Martins | Outras Palavras | Vídeo: Gabriela Leite
Infeliz no jogo, o México está feliz na política – ou, pelo menos, cheio de esperanças e desafios. Na Rússia, sua seleção de futebol foi eliminada pela brasileira. Mas numa disputa mais crucial – na qual se define o que virá após a crise civilizatória em que estamos mergulhados – o cenário é outro. Quase 25 anos depois de afundarem numa globalização sem democracia, os mexicanos jogaram, no domingo (1º/7), um pequeno grão na máquina. Num pleito presidencial claramente plebiscitário, Lopez Obrador, o candidato do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), foi eleito presidente da República, com mais de 53% dos votos. Criado há apenas quatro anos, o Morena lidera uma coalizão (Juntos faremos História) que parece prestes a obter maioria na Câmara e Senado. Uma mulher – Cláudia Sheinbaum – foi eleita pela primeira vez para governar a capital.
Mas há inúmeras dúvidas. Derrotada, a ditadura dos mercados vinga-se. Como Lopez Obrador enfrentará um sistema que apequenou o poder dos Estados, diante das transnacionais e das instituições financeiras – e que exige dos governantes rendição sem meios termos? Vítima de suas próprias ambiguidades, ele cederá? Será destroçado? Ou se somará a uma busca por alternativas que se espalha pelo mundo, mas para a qual ainda não há projeto claro?
II.
Pouco presente no cenário geopolítico atual – e por isso, pouco notado, pelas novas gerações – o México foi grande centro de turbulências e transformações, num passado relativamente recente. Em 1910, sete anos antes da Rússia, o país abriu a grande série de revoluções anti-oligárquicas do século passado, ao derrotar pelas armas uma longa ditadura e instaurar um governo popular tumultuado e contraditório. Embora traído, o movimento – que teve entre seus heróis Emiliano Zapata – deixou sementes. Em 1934, um de seus herdeiros, o general Lázaro Cárdenas, elegeu-se presidente. Liderou um governo nacionalista e popular, que mudou a face do país. Expropriou os latifúndios, distribuiu terra aos camponeses, estatizou o petróleo – grande riqueza nacional –, assegurou o voto das mulheres, resgatou direitos indígenas e liderou uma reforma educacional que instituiu o ensino laico.
O impacto e popularidade destas transformações asseguraram ao partido de Cárdenas – Partido da Revolução Mexicana (PRM) – hegemonia por 71 anos na vida política do México. Mas o ímpeto transformador do presidente arrefeceu ao longo dos mandatos de seus sucessores, até se transformar em caricatura. O México urbanizou-se e industrializou-se. Mas o próprio PRM trocou seu nome para Partido Revolucionário Institucional (PRI) e filiou-se, embora com ressalvas importantes, à ordem internacional comandada por seu vizinho do norte.
No fim do século, começam os sobressaltos que levarão à encruzilhada atual. Em 1983, uma grande alta das taxas internacionais de juros, comandada pelos Estados Unidos, impede o México de continuar rolando sua dívida externa. O FMI intervém. O PRI, conformado, aceita abrir mão das políticas que o ligavam às maiorias. O presidente Miguel de la Madrid comanda um enorme corte de gastos sociais e uma série de contra-reformas que eliminam direitos. O país também negocia a adesão à “Nafta”, uma zona de “livre” comércio com os Estados Unidos e o Canadá. No dia exato em que ela entra em vigor (1º/1/1994), eclode, em Chiapas, a revolta zapatista. Ela sugerirá que a a História não acabou, ao contrário do que diziam os teóricos do neoliberalism então vitorioso. Também projetará o subcomandante Marcos como portador de uma nova esperança anticapitalista.
III.
Lopez Obrador, o novo presidente, expressa, à sua maneira, uma das vertentes da resistência mexicana ao sistema. Não é um radical: seria tolo compará-lo com Marcos ou os zapatistas. Filho de pequenos comerciantes no estado sulista (e pobre) de Tabasco, estudou Ciência Política na Universidade Nacional Autônomia (a legendária UNAM) onde se formou, em 1976. No mesmo ano, aos 23, ingressou no PRI – a época, a meio caminho entre as grandes reformas de Cárdenas e a deriva neoliberal. Em 89, tornou-se um dissidente. Inconformado com as adesão do partido às políticas duras do capitalismo, foi um dos fundadores do PRD, Partido da Revolução Democrática. Repetirá o mesmo gesto em 2014, quando deixará um PRD adormecido e burocratizado para fundar o Morena. Carismático e impetuoso (um “Messias Tropical”, ao olhar sarcástico da revista britânica Economist), Obrador elege-se prefeito da Cidade do México em 2000.
A partir de então, sua ambiguidade manifesta-se mais claramente. Numa metrópole marcada por desigualdade e precarização, lança um conjunto de programas sociais em favor dos mais pobres, dos idosos, dos descapacitados. Ao mesmo tempo, lidera um programa de “recuperação” do centro histórico da cidade marcado, segundo os críticos, pela gentrificação. Para tocá-lo, estabelece parceria com o grupo empresarial do Carlos Slim, desde então um dos homens mais ricos do mundo. Para enfrentar a violência urbana, sua opção é pedir a Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York um plano baseado nas políticas discriminatórias de “tolerância zero”. Em 2006, quando deixa a prefeitura para disputar a Presidência, tem 84% de aprovação popular – mais do dobro de seu percentual de eleitores.
Em 2006, terminam no México as sete décadas de ambiguidade do PRI. Mas Lopez Obrador (PRD) é derrotado nas eleições presidenciais por Felipe Calderón, do PAN, de direita. As suspeitas de fraude são múltiplas. Obrador não reconhece o resultado e lidera, por meses, a ocupação do Zócalo, a praça mais central e importante da capital. Para alguns, este movimento influenciará, mais tarde, o Occupy Wall Street. A atitude despertará, para sempre, a desconfiança do establishment. Como lidar com um político que pode, a qualquer momento, ser sensível às pressões de sua base e insurgir-se contra as regras da ditadura financeira?
IV.
As duas décadas e meia passadas desde a adesão do México ao Nafta desfiguram o pais. O Norte, onde as empresas estadunidensess instalam maquiladoras para tirar proveito da mão de obra barata, prospera – mas a riqueza concentra-se em cada vez menos mãos. O resto do país patina na pobreza. As contra-reformas desestruturam o mercado de trabalho e empurram milhões de mexicanos – especialmente jovens – para os Estados Unidos, em busca de condições de vida menos miseráveis. A produção camponesa, que marcava por séculos a paisagem do país, declina. Mesmo o milho, produto nacional típico, passa a ser importado do corn belt norte-americano, onde agricultores capitalizados recebem subsídios do Estado.
Os dois últimos governos – de Felipe Calderón (PAN) e de Enrique Peña Nieto (de um PRI já completamente desfigurado) completam as contra-reformas. Em 2013, uma delas permite às transnacionais petroleiras explorar o petróleo mexicano. Junto com a pobreza, vem a violência – e a tentativa fracassada de combatê-la por meios militares. Desde 1995, ordens executivas, sem respaldo na Constituição, convocam o Exército e a Marinha a participar de atividades de segurança pública.
O crime, ao invés de regredir, conquista novos soldados. Tropas de elite das Forças Armadas bandeiam-se e ajudam a formar grupos criminosos – o Cartel do Golfo, Os Zetas. Crimes como a chacina de Ayotzinapa (2014), em que 43 estudantes foram executados, multiplicam-se. Em 2018, após um quarto de século de neoliberalismo e militarização, a sociedade mexicana está esgotada – e o sistema político, exaurido.
V.
Em muitos aspectos, Lopez Obrador assemelha-se a um Lula. Ele rejeita conflitos. Sua abordagem dos grandes problemas mexicanos é sempre conciliatória. Por anos crítico do Nafta, ele diz agora que não pretende mais questionar o acordo. Fala em “austeridade fiscal” e em “não aumentar impostos”, num país de sistema tributário tão injusto quanto o brasileiro. Em oposição à “guerra às drogas”, propôs, durante a campanha, anistiar os presos que cometeram pequenos delitos. Diante da reação irada da mídia, recuou.
Ainda assim, este homem propenso à conciliação foi rejeitado e é temido pelo sistema – porque não abre mão de algumas ideias simples. Num país cansado de uma casta política autossuficiente e autista, quer reduzir os vencimentos e vantagens dos ocupantes de postos públicos mais altos (inclusive o seu mesmo), para elevar os salários dos servidores públicos que atuam na ponta. Pretende dobrar o valor das aposentadorias – contrariando toda a lógica que recomenda privatizá-las. Quer abrir as universidades públicas a todos os mexicanos. Fala em submeter a entrega do petróleo a um referendo popular. Vislumbra a chance de reindustrilizar o México, começando pela construção de novas refinarias de petróleo. Talvez a verdade e a simplicidade deste programa, que pode se compreendido por cada mexicano, tenham lhe dado a vitória, num país de 120 milhões de habitantes e PIB entre o da França e o da Itália.
Lopez Obrador será capaz de cumpri-lo? Dias depois de sua eleição, a mídia corporativa das grandes praças do mundo duvida. “Ele terá de atrair capitais estrangeiros, ou tornará a situação do povo ainda mais dura que a atual”, escreveu o New York Times. Em meio à crise civilizatória, nada está assegurado. Oxalá Obrador e sua leve rebeldia sejam capazes de teimar, de resistir e sustentar, de abrir caminhos. Este mínimo será muito, na tempestade que atravessamos.
* Antonio Martins é Editor do Outras Palavras

López Obrador e o poder real

Carlos FazioLópez Obrador foi eleito para a presidência do México. O seu partido (Juntos Haremos História) ganhou 31 dos 32 estados do país. Tão significativo como essa vitória é o facto de, desde Junho, destacadas personalidades da administração Trump e jornais norte-americanos o virem hostilizando ou apresentando como um “esquerdista”. Mas, se se mantiver fiel às suas declarações de mudança e quiser que elas avancem, as maiorias eleitorais não bastarão face à poderosíssima e criminosa oligarquia e ao vizinho do norte. Só um povo mobilizado e em movimento, preparado para um duro e prolongado combate, poderá concretizar tal resultado.


 

Ontem, primeiro de Julho, milhões de mexicanos foram votar, e se não houve uma monumental fraude de Estado, Andrés Manuel López Obrador (AMLO) será o próximo presidente da República. A não ocorrer nada de extraordinário no período de transição, no primeiro de Dezembro próximo AMLO deverá assumir o governo. Mas durante esse lapso, e ainda mais além do médio prazo, o poder continuará estando nas mãos da classe capitalista -transnacional.

É previsível também que, a partir deste 2 de Julho, o bloco de poder (a plutonomia, Citigroup dixit), incluindo os seus media hegemónicos (Televisa e Tv Azteca, de Azcárraga e Salinas Pliego, ambos megamilionários da lista Forbes), e seus operadores nas estruturas governamentais (o Congresso, o aparelho judicial, etecetera), escalarão a insurgência plutocrática procurando ampliar os seus privilégios e garantir os seus interesses de classe, e para continuar potenciando a correlação de forças em seu favor.

Para além do ruido das campanhas, o processo eleitoral decorreu sob o signo da militarização e da paramilitarização de vastos espaços da geografia nacional, e de uma guerra social de extermínio (necropolítica) que elevou os níveis de violência homicida a limites nunca vistos no México moderno, semelhantes aos de um país em guerra (naturalizando-se em vésperas das votações o assassínio de candidatos a cargos de eleição ¬popular).

Como recordou Gilberto López y Rivas em La Jornada, esse conflito armado não reconhecido é a dimensão repressiva do que William I. Robinson denomina acumulação militarizada, cuja finalidade é a ocupação e recolonização integral de vastos territórios rurais e urbanos para o saque e despojo dos recursos geoestratégicos, mediante uma violência exponencial e de espectro completo que é característica da actual configuração do capitalismo; o conflito e a repressão como meio de acumulação da ¬plutonomia.

Para isso a classe dominante fez aprovar a Lei de Segurança Interna. E está latente, para ratificação no Senado, a iniciativa de Deputados de retirar judicialmente do lugar o presidente da República; a denominada estratégia de lawfare aplicada a Dilma Rousseff e Lula da Silva no Brasil, que implica o uso da lei como arma para perseguir e destruir um adversário político pela via parlamentar e/ou judicial; uma variante dos golpes suaves de manufactura estadunidense que poderia reverter contra AMLO.

A esse respeito, e para além da sua viragem ao centro e o redesenho do seu programa de transição reformista − capitalista, democrático e nacional, com grandes concessões ao bloco de poder dominante −, a chegada de López Obrador ao governo poderia implicar, em princípio, uma perda de velocidade ou uma pausa para respirar (Galeano dixit) na tendência do incrementado fim de ciclo progressista e restauração da direita neoliberal na América Latina.

O impulso de uma nova forma de Estado social, sem ruptura frontal com o Consenso de Washington, significará, não obstante, uma mudança na correlação de forças regionais e terá tremendo impacto nos povos latino-americanos. Por isso não é de modo nenhum inocente – ou simplesmente centrada no aprofundamento das políticas de mudança de regime em Venezuela e Nicarágua− o recente périplo neomonroísta do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, por Brasil, Equador e Guatemala.

Justifica-se recordar o invulgarmente crítico editorial do Washington Post de 18 de Junho, que assumiu como suficientemente credíveis os nexos de colaboradores próximos de López Obrador com os governos de Cuba e Venezuela, e as declarações do senador republicano John McCain, apontando AMLO como um possível presidente esquerdista anti estadunidense e as do actual chefe de gabinete da administração Trump, general (retirado) John Kelly, que afirmou que López Obrador não seria bom para os Estados Unidos nem para o México.

Segundo assessores de política exterior de AMLO, o seu governo colocará perante Washington a defesa intransigente da soberania nacional; fará a revisão do quadro da cooperação policial, militar e de segurança (DEA, CIA, ICI, Pentágono, etecetera) e, sob a premissa de que a emigração não é um crime, incrementará a protecção dos compatriotas irregulares, como se fosse uma procuradoria ante os tribunais dos Estados Unidos. Também reverá os contratos petroleiros e de obras públicas. O que sem dúvida trará fortes confrontações com a Casa Branca e a plutocracia internacional.

Como disse Ilán Semo, no México a Presidência da República encerra potencialidades simbólicas insuspeitadas; uma espécie de carisma institucional. Não importa quem a ocupe, inclusivamente um inepto (pensemos em Vicente Fox), o cargo transmite-lhe uma aura: é o Presidente. Depois da Independência, da Reforma e da Revolução Mexicana, AMLO quer passar à historia como o homem da quarta transformação. Mas para isso é necessária uma mudança de regime e impulsionar grandes saltos na consciência política dos sectores populares; sem um povo organizado e mobilizado visando um projecto de mudança radical e profundo, não há carisma que chegue.

Fonte: http://www.jornada.com.mx/2018/07/02/opinion/027a1pol[1]

References

  1. ^ http://www.jornada.com.mx/2018/07/02/opinion/027a1pol (www.jornada.com.mx)
  2. ^ endereço (www.odiario.info)
  3. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Obrador

Ao refletir sobre a vitória de López Obrador nas eleições presidenciais mexicanas, veio-me à memória um livro do jornalista francês Marcel Niedergang, publicado nos anos 60, intitulado “As vinte Américas Latinas”. À época, ele ajudou bastante a minha geração a entender, simultaneamente, a heterogeneidade e as similitudes entre os países do centro e sul do continente americano.
Nenhum deles tem a extraordinária complexidade do Brasil, de onde estou a enviar esta crónica. Mas recordo ter ficado para sempre com a sensação de que, no mundo latino-americano, raros são os Estados que apresentam desafios da dimensão daqueles que o México há muito suporta, a que a sua geografia também não é alheia.
Fortemente dualista no plano social, o México tem uma história riquíssima, mas convulsa. Usufrui de uma democracia que acabou corporizada num modelo político-partidário que, tendo ajudado a construir um país, não conseguiu ultrapassar contrastes sociais que acabaram por se cristalizar. Nos dias de hoje, gerou uma sociedade onde, lado a lado com bolsas de excelência, persistem fenómenos de violência extrema, regiões raptadas à autoridade do Estado, áreas onde impera a criminalidade organizada, frequentemente ligada ao narcotráfico. A corrupção, a instrumentalização de setores da vida pública por grupos de interesses ilegítimos, acumulou tensões que acabaram por fazer romper a malha política em que, por décadas, o país parecia ter-se habituado a viver.
López Obrador é um velho “routier” da política mexicana. Como Lula, no Brasil, conseguiu ascender ao poder, após várias tentativas frustradas. Também ele, tal como o antigo presidente brasileiro, carrega consigo um formidável capital de esperança, a vontade de regenerar um país cansado dos vícios da política tradicional. Homem sem mácula de suspeição de compromissos patrimonialistas, prometeu a felicidade a um país sedento de desenvolvimento que atenue a endémica pobreza, que ataque as profundas desigualdades e, em especial, que consiga pôr cobro à insegurança – pública, económica e social - que hoje instabiliza a existência de milhões dos seus compatriotas. O seu estilo pessoal, espartano mas tido por populista, assusta alguns, pelo que será o seu realismo que vai estar sob atento teste.
Um dia, Porfírio Díaz, um longínquo antecessor de Obrador no cargo presidencial, caraterizou assim a tragédia do seu país: “Pobre México! Tan lejos de Diós y tan cerca de los Estados Unidos”. E nem ele suspeitava que iria surgir um Trump...

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Prossegue a matança de dirigentes sociais e agricultores na Colômbia

Margarita Estupiñan e Ana María Cortés foram mortas na terça e na quarta-feira, respectivamente. De acordo com o Indepaz, 118 dirigentes sociais foram assassinados este ano na Colômbia.

Líderes sociais, defensores dos direitos humanos e dirigentes de organizações de agricultores, defensoras da reforma agrária e da participação voluntária na substituição de cultivos de uso ilícito, continuam a ser assassinados na ColômbiaCréditos / elcampesino.co

Margarita Estupiñan, com trabalho social reconhecido na sua comunidade, presidia à Junta de Acção Comunal do bairro El Recreo, no município de Tumaco. De acordo com a TeleSur, recebeu várias ameaças ao longo do tempo.

Na terça-feira à noite, foi abordada por um grupo de desconhecidos quando se encontrava à entrada de sua casa e atingida mortalmente com vários disparos.

Por seu lado, Ana María Cortés foi assassinada ontem ao final da tarde, em Cáceres (departamento de Antioquia), município onde exerceu as funções de coordenadora da campanha do candidato presidencial Gustavo Petro.

Os assassinatos de Estupiñan e Cortés seguem-se ao do dirigente social Luis Barrios Machado, presidente da Associação de Juntas de Acção Comunal do município de Palmar de Valera (departamento do Atlântico), ocorrido na segunda-feira.

No mesmo dia, Felicinda Santamaría foi assassinada no município de Quibdó (departamento de Chocó). Era presidente da Junta de Acção Comunal do Bairro Virgen Del Carmen, em Quibdó, e ex-presidente do Conselho de Paz, Reconciliação e Convivência.

Com o assassinato de Margarita Estupiñan e Ana María Cortés, sobe para sete o número de dirigentes sociais mortos no país sul-americano nos últimos oito dias, segundo referia o El Espectador na sua edição de ontem.

Tendo em conta «esta onda», diversas organizações agendaram para a próxima sexta-feira, às 18h, mobilizações com velas, em todo o país, com o lema «Estão-nos a matar», acrescenta o periódico.

De acordo com Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), em 2018 foram assassinados na Colômbia 118 dirigentes sociais.

Massacre em Argelia

No passado dia 2, foram encontrados os corpos sem vida de sete pessoas na vereda Desiderio Zapata, em Argelia (departamento do Cauca), apresentando sinais de tortura. Alguns meios de comunicação procuraram imputar a elementos do Exército de Libertação Nacional (ELN) a responsabilidade dos factos.

No dia 4, a Delegação de Diálogos do ELN emitiu um comunicado em que denuncia a «falsidade» dessas notícias, lamenta a continuidade da «guerra suja» e lembra que a região, durante longos anos sob influência das FARC-EP, é hoje pasto de «numerosos grupos de criminosos, grupos de paramilitares da extrema-direita, das Forças Armadas e Polícia».

Em Argelia, como em Tumaco, os homens humildes continuam a ser «os condenados da terra», na medida em que não se avança na implementação dos Acordos de Havana, nomeadamente no que respeita à questão central do conflito colombiano – a terra e os seus recursos –, e o Estado não respeita o programa acordado sobre a substituição de cultivos de uso ilícito.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Modelo Lava Jato espalha-se na América Latina para sufocar esquerda

Mais de 50 anos depois, as elites americanas trocam o modelo golpe de Estado militar pelo de golpe de Estado sob comando dos juízes em toda a América Latina. A Lava Jato torna-se uma diretriz continental, sob orientação dos EUA, como foi a Operação Condor nos anos de 1980; Brasil, Paraguai, Argentina, Equador e México são os alvos até o momento.


 

50 anos depois da onda dos golpes militares e das ditaduras abertas na América Latina para sufocar os governos e líderes de esquerda na região, as elites da região criaram um novo modelo que se espalha: a Lava Jato. Em vez de militares, juízes, em muitos casos com apoio de parlamentos e executivos controlados pela direita. Da mesma maneira que no caso dos golpes militares, a “tecnologia” desenvolveu-se no Brasil (1964), com um pequeno ensaio no Paraguai (1954), e foi usada na Bolívia (1964), Peru (1968), Equador (1972), Chile e Uruguai (1973), Argentina (1966 e 1976) e em toda a América Central.

Repete-se o cenário, com o modelo Lava Jato: Brasil (2014), Argentina (2016) e Equador (2018). Os alvos são as maiores lideranças de esquerda nestes países: Lula, Dilma, Cristina Kirchner e Rafael Correa. Como no caso dos golpes militares, houve um ensaio prévio no Paraguai, com o golpe contra o presidente Fernando Lugo em 2012. Da mesma maneira que a Operação Condor, uma articulação político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul sob o comando operacional do Brasil e a coordenação da CIA dos Estados Unidos, a Operação Lava Jato na região acontece sob a liderança do Brasil e a coordenação dos Estados Unidos, com uma intensa troca de informações e contatos entre os juízes, promotores e procuradores dos países da região com instituições públicas e privadas norte-americanas.

Um caso pouco conhecido no Brasil é o do presidente eleito do México, vitorioso no último domingo, López Obrador, sofreu um processo similar entre 2004 e 2005, quando era prefeito da Cidade do México, um cargo que tem importância estratégica no país.  O então prefeito sofreu uma acusação ao estilo “pedaladas fiscais” quando tentaram derrubá-lo. A acusação foi a de violar uma ordem judicial que exigia a suspensão da construção de uma rua em um terreno expropriado anos antes, por governos anteriores. Embora as obras tenham sido suspensas, alegou-se que o cumprimento da ordem havia sido dilatório e López Obrador era diretamente responsável por ela -a similaridade com o processo de Dilma é espantosa. Tentaram retirar-lhe o foro a que tinha direito como prefeito para levá-lo a processo na Justiça Comum (como no caso da Lava Jato), o que de fato aconteceu, mas diante das manifestações populares em protesto o então presidente de direita, Vicente Fox, recuou e o caso acabou encerrado, com a vitória de Obrador e dos democratas mexicanos. Leia sobre o caso em El desafuero, doce meses que marcaron la cronología del caos (La jornada) e aqui.

Leia, a seguir, o artigo do jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, sobre o assunto:

A ordem de prisão contra o ex-presidente Rafael Correa, do Equador, é o novo capítulo das farsas judiciais que são uma versão “reciclada” da onda de golpes militares com que, nos anos 60 e 70, a direita conseguiu reempalmar o poder numa América Latina que já não podia ser contida por governos oligárquicos.

O motivo, claro, oscila entre o fantástico e o pueril. Seria uma ordem de “sequestro” dada por Correa contra um opositor, apontado como “mentor intelectual” de uma rocambolesca tentativa (frustrada) de um equatoriano que fazia parte do círculo do ex-presidente colombiano – e arqui-inimigo de Correa – Álvaro Uribe.

Evidente que não tem lógica pensar que um presidente com prestígio político para reeleger-se, vencer plebiscitos e eleger seu sucessor – embora este já se tenha bandeado de lado – iria meter-se numa aventura com áreas de pastelão policial.

Como é absurdo que Correa, tendo se apresentado no consulado equatoriano na Bélgica, onde está, para cumprir a ordem judicial de apresentar-se às autoridades, ser considerado “foragido” e ter a prisão pedida à Interpol.

Mas tem toda a lógica observar como o Poder Judiciário, em toda América do Sul, está sendo transformado no instrumento de destruição das lideranças que, eleitas, se forjaram como ferramentas de afirmação de suas nações.

Exatamente, como foram há 40 anos, as ditaduras militares no continente.

Cristina Kirchner, Lula, agora Correa, não são enfrentados na política e nas urnas, mas no juízo dos tribunais, habitados pela mesma elite que jamais se conformou com a inclusão das massas na existência nacional.

No nosso caso, em aceitar que o Brasil tem 210 milhões de habitantes, não 50 ou 60 milhões que “existem”.

Alguém, no Facebook, falou em “Plano Condor 2.0” referindo-se às ações militares e policiais para exterminar as lideranças progressistas da América Latina, e não sem razão.

Afinal, porém, só conseguirão, como aquelas, retardar o tempo, jamais fazê-lo parar ou retroceder.

Fernando Brito
Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 (com Tijolaço)/ Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

No Chile, 9 militares são condenados pelo assassinato de Victor Jara

Se passaram 45 anos desde que o cantor e compositor chileno Victor Jara foi assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet (1873 – 1990), mas finalmente a justiça condenou os responsáveis. 

Nesta terça-feira (3), 9 militares foram condenados pela morte do artista e do dirigente do Partido Comunista, Littré Quiroga, ambos assassinados em setembro de 1973, após o golpe contra Salvador Allende (1970 – 1973).

Os 8 militares responsáveis pela detenção, tortura e assassinato dos dois militantes foram condenados a 18 anos de prisão, trata-se de Hugo Sánchez Marmonti, Raúl Jofré González, Edwin Dimter Bianchi, Nelson Haase Mazzei, Ernesto Bethke Wulf, Juan Jara Quintana, Hernán Chacón Soto, Patricio Vásquez Donoso. O oficial acusado de encobrir o crime, Rolando Meno, foi condenado a cinco anos e 62 dias.

A morte de Victor Jara foi uma das emblemáticas da ditadura chilena, considerada a mais sanguinária dos regimes militares que assolaram o continente entre as décadas de 60 e 90.

O músico foi preso na Universidade Técnica do Estado, onde era professor, e levado para o Estádio Chile (que hoje se chama Victor Jara) junto com todos os alunos que estavam na aula no momento da prisão.

Antes de ser assassinado, Victor Jara foi torturado e humilhado pelos militares durante quatro dias em frente às centenas de militantes que também estavam detidos. Mesmo nestas condições, ele conseguiu deixar um bilhete com seu último poema, que só foi divulgado anos depois.

Considerado um símbolo da resistência, cantor teve a língua cortada e as mãos esmagadas a coronhadas e depois os militares o obrigaram a tentar cantar e tocar para o público nestas condições. Só após toda essa tortura ele foi assassinado com 44 tiros.

O dirigente comunista Littré Quiroga, preso apenas cinco dias após o golpe, assim como Jara, foi torturado e sofreu abusos sexuais antes de ser assassinado também no Estádio Chile.

Os cadáveres de Jara e Quiroga só foram encontrados dias depois do assassinato. Estima-se que a ditadura de Pinochet tenha deixado mais de 40 mil mortos e desaparecidos.

Victor Jara com a esposa, a bailarina Joan Jara, e as duas filhas do casal Manuela Bunster e Amanda Jara

Victor Jara tocando para crianças na periferia de Santiago do Chile 

Por Mariana Serafini  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

Não há alternativa

O The Guardian apoda o vencedor das eleições presidenciais mexicanas, André Manuel López Obrador, de “nacionalista de esquerda”. O que é crítica para uns, é elogio para outros: lá como cá, as questões nacional e social não podem nunca deixar de ser concretamente articuladas; cá como lá, é preciso reconquistar margem de manobra para políticas nacionais de desenvolvimento, o que passa no mínimo por renegociar os acordos de comércio dito livre. A esquerda que pode ganhar é a que quer aprender a falar a língua nacional-popular.
Apesar de todos os obstáculos colocados numa sociedade brutalmente desigual e violenta, demasiado próxima dos EUA, com um Estado fragilizado pela corrupção ou pelos efeitos da NAFTA, e de alguns compromissos duvidosos com forças sociais e políticas duvidosas, a sua eleição à terceira tentativa é uma excelente notícia para as classes subalternas, ainda para mais num contexto geral, latino-americano, de recuo das forças da esquerda nacional-popular. Esta esquerda pode também recuar, mas é a única que pode avançar.
Num artigo informativo no Le monde diplomatique do mês passado, René Lambert resumia o estado mexicano das coisas, usando uma fórmula de aplicação mais geral perante o poder: “a tentação da esperança”. Não há alternativa a essa tentação.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Obrador vence eleições. México vira à Esquerda quase 90 anos depois

Andrés Manuel López Obrador prometeu acabar com a corrupção e a impunidade no país e anunciou mesmo que vai dobrar as pensões para idosos logo no primeiro dia do executivo.
Foi presidente da câmara da cidade do México e consegue levar o país a virar à Esquerda depois de quase 90 anos de governos de Direita. Andrés Manuel López Obrador, também conhecido pelas iniciais AMLO, chega à presidência depois de ter sido candidato às eleições de 2006 e 2012. À terceira foi mesmo de vez, depois de se apresentar como um candidato antissistema.
No discurso de vitória, Obrador relembrou que vai combater a corrupção e reduzir a violência. Fala mesmo de "mudanças de fundo".
"As mudanças serão profundas, mas ocorrerão de acordo com a ordem legal estabelecida. Haverá liberdade comercial, liberdade de expressão, de associação e de crenças. Em matéria económica, será respeitada a autonomia do Banco do México. O novo governo manterá disciplina financeira e fiscal e serão reconhecidos os compromissos contraídos com empresas e bancos nacionais e estrangeiros", garantiu.
Durante a campanha o líder do MORENA, o Movimento Regeneração Nacional, prometeu reduzir gastos do Estado, aumentar o investimento e garante que vai colocar Donald Trump no seu lugar.
Prometeu vender o avião presidencial, transformar a residência oficial do presidente num centro cultural, assegurou uma redução dos salários dos altos funcionários da administração e anunciou esta madrugada uma medida inesperada: vai dobrar as pensões para idosos logo no primeiro dia do executivo.
De acordo com o Instituto Nacional Eleitoral Andrés Obrador conseguiu cerca de 53% dos votos, mas as contagens ainda decorrem. Ainda assim, é uma vitória histórica. Obrador fica bem à frente dos candidatos José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional, de Ricardo Anaya, da coligação do Partido Ação Nacional e do Partido da Revolução Democrática, e Jaime Rodriguez, o independente conhecido como 'El Bronco'.
As eleições ficam marcadas pelo assassinato de uma ativista política do Partido dos Trabalhadores, pouco antes da abertura das urnas.
A campanha eleitoral foi considerada por vários analistas como a mais violenta da história do país, marcada pela morte de pelo menos 145 políticos ou ativistas e 48 candidatos.
O Partido Revolucionário Institucional (PRI) chegou ao poder em 1929 e só em 2000 perdeu as eleições para o Partido da Ação Nacional (PAN), também de Direita. Em 2012, o PRI reconquistou o lugar, com Enrique Peña Nieto como presidente. Agora, é a vez do MORENA, com López Obrador aos comandos.
Sara de Melo Rocha | TSF | Foto: Carlos Jasso/Reuters

Ver o original em 'Página Global':   http://paginaglobal.blogspot.com/2018/07/obrador-vence-eleicoes-mexico-vira.html

A trama do golpe: os milhões da NED e «estudantes» a pedir apoio em Washington

O jornalista Max Blumenthal trouxe mais luz sobre a ingerência norte-americana na Nicarágua, centrando-se na ajuda de NED-USAID à «insurreição» e no giro de dirigentes estudantis do golpe em Washington.

Onda de violência alimentada pela oposição de direita com o apoio dos EUA já provocou quase 200 mortos Na Nicarágua, desde 18 de AbrilCréditos / annurtv.com

No artigo intitulado «Máquina intervencionista da admnistração norte-americana vangloria-se de "preparar o terreno para a insurreição" na Nicarágua», publicado recentemente pelo jornalista norte-americano Max Blumenthal em The Gray Zone Project, as teorias conspirativas do golpe com apoio gringo – para o qual o governo sandinista tem chamado a atenção – ganham densidade.

«Se alguma imprensa mainstream tem procurado retratar o violento movimento de protesto na Nicarágua como uma corrente progressista de base, os líderes estudantis do país deixaram entender outra coisa», afirma-se no texto, que lembra como, no início deste mês, os líderes estudantis nicaraguenses, com papel destacado no movimento de oposição a Daniel Ortega, se deslocaram a Washington, sendo acolhidos pela Freedom House, ONG de direita que financiou a sua viagem, e procurando o apoio no seio da administração dos EUA e da fina flor da extrema-direita intervencionista – vide Ted Cruz ou Mark Rubio –, com quem se reuniram e posaram para a fotografia.

Também foram recebidos por altos funcionários do Departamento de Estado e por Mark Green, presidente da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), caracterizada por Blumenthal como a organização do soft power da admnistração norte-americana.

Maradiaga na OEA

Na mesma altura, a investir contra a «ditadura de Ortega», fez-se representar na Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, uma delegação da oposição liderada por Félix Maradiaga, presidente do Instituto de Estudos Estratégicos e Políticas Públicas (IEEPP) de Manágua, que, segundo Blumenthal, recebeu pelo menos 260 mil dólares da Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês) desde 2014.

As subvenções destinavam-se a apoiar o trabalho do IEEPP na área da educação de activistas, com vista «a fomentar o debate e gerar informação sobre segurança e violência». O financiamento também se destinava a cobrir os esforços para monitorizar a «presença crescente da Rússia e da China na região», refere-se no texto.

Sobre Maradiaga, Max Blumenthal afirma que a sua agenda veio à tona mal se iniciaram os protestos violentos na Nicarágua contra Ortega. «Ex-líder do Young World Forum, educado em Yale e Harvard, foi elogiado por La Prensa por "suar, sangrar e chorar ao pé dos jovenes estudantes que lideraram os protestos na Nicarágua"», que, de acordo com a informação ontem divulgada pela Comissão da Verdade, Justiça e Paz, já provocaram 194 vítimas mortais.

Enquanto Maradiaga estava em Washington, a Polícia nicaraguense acusou-o de supervisionar uma rede criminiosa organizada que assassinou várias pessoas durante os ataques violentos no país centro-americano. Mariadaga afirmou ser vítima de uma «perseguição política» e classificou as acusações como «ridículas», mas, entretanto, adiou o regresso à Nicarágua, recebendo total apoio do Departamento de Estado dos EUA.

O grupo Hagamos Democracia é o que mais fundos recebe da NED – 525 mil dólares desde 2014. De acordo com Blumenthal, o presidente do grupo, Luciano García, que supervisiona uma rede de repórteres e activistas, declarou que Ortega transformou a Nicarágua num «Estado falido», tendo exigido a «sua demissão imediata».

O autor afirma que a NED procurou esconder bem a identidade das organizações que financiava para alimentar a oposição a Daniel Ortega, mas estas eram bem conhecidas na Nicarágua. No entanto, quem mais dinheiro «investe» contra os governos de «orientação socialista na América Latina» é a USAID. Só na Nicarágua, o orçamento desta organismo centrado na ingerência, no intervencionismo e na desestabilização «ultrapassou os 5,2 milhões de dólares em 2018», na sua maioria destinados ao «treino da sociedad civil e de meios de comunicação social».

A ingerência, dita sem rodeios

No dia 1 de Maio, cerca de um mês antes do giro da direita em Washington, Benjamin Waddell, director académico da School for International Training in Nicaragua, afirmou sem rodeios numa publicação financiada pela NED que «organizações apoiadas pela NED passaram anos e milhões de dólares a "criar as bases para a insurreição" na Nicarágua».

Publicado no Global Americans – um portal noticioso centrado na América Latina –, o artigo de Waddell «vangloria-se abertamente da ingerência dos EUA», afirma Blumenthal, que sublinha o carácter «francamente sincero da avaliação do impacto dos investimentos realizados pela NED» na sociedade nicaraguense.

De «forma inadvertida», as conclusões do autor fazem eco das do presidente sandinista Daniel Ortega e seus apoiantes, que «enquadraram os protestos no âmbito de um golpe cuidadosamente montado e apoiado até aos dentes por Washington», frisa Blumenthal.

Numa publicação financiada pela NED, Benjamin Waddell salienta o «engano» da imprensa internacional ao descrever a «rápida escalada de distúrbios» na Nicarágua «como uma explosão espontânea de descontentamento colectivo», desencadeada, entre outros factores, pelas mudanças do governo no sistema de Segurança Social. Waddell esclarece: «Se é verdade que havia causas subjacentes à confusão enraizadas na má administração e na corrupção do governo, é cada vez mais claro que o apoio dos Estados Unidos teve um papel no fomento dos levantamentos actuais.»

Noutra passagem igualmente esclarecedora e «sem rodeios», destacada por Blumenthal, Waddell afirma que «o actual envolvimento da NED na alimentação de grupos da sociedade civil na Nicarágua deita luz sobre o poder do financiamento transnacional de influir nos resultados políticos no século XXI».

Waddell defende os resultados da NED e nem se esquece do seu papel nas Primaveras Árabes... Ainda em relação à Nicarágua, afirma que o organismo intervencionista norte-americano gastou 4,1 millhões de dólares entre 2014 e 2017, financiando 54 «projectos» para «criar as bases para a insurreição» – a «mudança», em versão posterior, alterada do texto.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Salvador Allende nasceu num 26 de Junho

... há 110 anos, em Valparaíso, no Chile. Afirmou, bem antes de 11 de Setembro de 1973, que estava a cumprir um mandato dado pelo povo e que só sairia do palácio depois de o cumprir. Ou que o faria «com os pés para diante, num pijama de madeira». Assim aconteceu. Sabe-se agora que se suicidou durante o ataque ao Palácio de la Moneda, em Santiago do Chile.
O seu último discurso:

E o que Luis Sepúlveda escreveu hoje no Facebook:
«El mayor honor que me ha deparado la vida fue conocerlo, estar cerca de un gran líder, de un hombre que trascendía por su claridad, inteligencia y valor. (…) Honor y Gloria para un Hombre digno. El Compañero Presidente.»
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Em queda a pique até ao fundo

Claudio Katz*Na Argentina começa a revelar-se em toda a sua dimensão o acordo com o FMI. Em vez das patacoadas que o governo Macri e a sua imprensa tentaram vender sobre «o novo perfil benigno do Fundo», é a brutalidade do empobrecimento, da recessão, da dependência. Mas a própria barbaridade de tal acordo cria novas dificuldades no campo governamental, e a resposta de massas tem sido notável.



A crise devorou já três estrelas da “melhor equipa dos últimos 50 anos”. Stuzzeneger foi sepultado pela corrida cambial e não é muito relevante que não tenha sabido tomar o pulso ao mercado. Simplesmente foi borda fora com o colapso do modelo. O mesmo ocorreu com as figuras emblemáticas do tarifazo (Aranguren) e da abertura comercial (Cabrera). Estes personagens combinaram o repudio da população com inimizades de negócios no seu próprio círculo. Os bodes expiatórios multiplicam-se sem deter a acelerada deterioração de Macri. O financeiro Caputo não tem nenhuma receita para conter esse desmoronamento. A sua margem de acção estreitou-se desde que o FMI assumiu o comando directo da economia. A difusão do que vinha em letra pequena no acordo desmente todas as patetices sobre um novo perfil benigno do Fundo. O ajuste é muito superior ao imaginado e será monitorado de forma quotidiana, sem aguardar as antigas auditorias trimestrais. O dessangramento das províncias, a demolição do salario e a redução das pensões será acompanhado por um esvaziamento do Fundo de Garantia, para precipitar a privatização do sistema de previdência. O programa em marcha tenta uma versão ordenada da mesma viragem que coroou todos os colapsos das últimas décadas. O objectivo é reduzir o défice fiscal e esmagar os salários, mediante uma mega-desvalorização que supere a taxa de inflação. Com a elevação conseguinte do tipo de cambio espera-se reduzir o desequilíbrio comercial e gerar os dólares requeridos para pagar a dívida. A recessão em grande escala é o mecanismo escolhido para perpetrar este ajuste, num mar de falências, pobreza e desemprego. O FMI desenhou a operação em três partes. O início é uma desvalorização sem limite, até assegurar brechas significativas com os preços internos. Para garantir essa fractura foram dispostos severos limites a todas as tentativas de contrariar a disparada do dólar com a venda de reservas. Longe de trazer os 50.000 milhões de dólares imaginados pela imprensa, o FMI entregará 5000 (ou 7000) milhões, em troca de um