Ambiente

Nova legislação isenta empresas da caracterização de emissões atmosféricas

A denúncia é do PEV, que já questionou o Governo sobre a alteração ao regime de caracterização de efluentes gasosos, tornando-o «mais permissivo».

Créditos / Natú Ambiental

Em causa está o decreto-lei de Junho de 2018, que introduz alterações relativamente ao que estava em vigor desde 2004. Numa altura em que as questões ambientais estão na ordem do dia e se reconhece a dificuldade de Portugal cumprir as metas a que se obrigou em matéria de qualidade do ar, «Os Verdes» denunciam que o novo diploma «estabelece regras mais benevolentes para a caracterização de efluentes gasosos de diversos sectores». 

«Enquanto, de acordo com o Decreto-Lei n.º 78/2004, as instalações de combustão com potência superior a 100kW [kilowatt] tinham de caracterizar os seus efluentes gasosos trienalmente, o Decreto-Lei n.º 39/2018 estabelece que esse regime apenas se aplica a instalações com potência superior a 1MW [megawatt]», lê-se na pergunta endereçada ao Ministério do Ambiente e da Transição Energética. 

Entre os que beneficiam das «benevolências» do novo diploma estão as oficinas mecânicas, designadamente as que têm estufas de pintura, que tinham de proceder à caracterização de efluentes gasosos, trienalmente, e passaram a estar isentas de o fazer, independentemente da dimensão do estabelecimento. 

O PEV alerta para o facto de «a grande maioria das oficinas (com pintura)» ter na sua vizinhança imediata casas de habitação, pelo que a não monitorização dos efluentes gasosos das fontes de pintura «representa um problema potencial». «Mesmo que as emissões gasosas das oficinas possam ter um peso relativo baixo no cômputo geral da poluição atmosférica, o seu impacto nos vizinhos mais próximos está longe de ser desprezável», frisa.

Partindo do pressuposto de que a exigência legal de caracterização dos efluentes gasosos contribui para a melhoria das condições de funcionamento das instalações poluidoras, o PEV sublinha que este «alargamento da malha» é «incompreensível» e questiona a tutela sobre a possibilidade de proceder a uma alteração ao diploma. Porque, frisa, «tendo em conta a dimensão do tecido económico nacional, há «inúmeras instalações de combustão com potências entre os 100kW e o 1MW».

«Os Verdes» alertam ainda para o facto de as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), «a quem compete a recepção dos relatórios da caracterização de emissões gasosas e a fiscalização do cumprimento legal das regras estabelecidas», terem interpretações diferentes sobre o novo diploma que, «tendo sido publicado a meio do ano (quando muitas empresas já tinham feito a sua caracterização ou encomendado a mesma) e com um prazo de 19 dias para entrar em vigor, lançou a confusão no sector».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/nova-legislacao-isenta-empresas-da-caracterizacao-de-emissoes-atmosfericas

Putin compara os riscos climáticos aos nucleares

Num encontro com jornalistas à margem do recente Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, Vladimir Putin alertou para as ameaças – as já existentes e as que tendem a agravá-las - de uma confrontação nuclear global. Alertou para o contraste entre a projecção mediática atribuída às alterações climáticas e o quase absoluto silêncio sobre evoluções recentes, nomeadamente a conduta dos EUA que abre caminho a uma corrida armamentista sem quaisquer mecanismos de controlo possíveis.

Sergei Mikhailov: Temos sempre iniciado as nossas últimas reuniões concordando que o planeta atravessa um período de confronto extremamente perigoso: países em chamas, regiões inteiras em chamas, sanções e guerras comerciais, falsas informações – é esse o conteúdo de quase todos os fluxos de notícias de agências noticiosas globais. Falam de uma nova guerra fria. Cada país tem a certeza de quem é responsável por isso.
Porque devemos começar a nossa conversa em 2019 com a mesma pergunta: porque não se torna mais seguro o mundo? Para onde vai a nossa civilização? Vê luz ao fundo do túnel? Que podem fazer a esse respeito os países que são os principais actores do processo político? Esta é uma pergunta de carácter geral, senhor Presidente.
Vladimir Putin:
Se olharmos para as pinturas murais e os frescos em nosso redor, vemos que a guerra está em toda a parte. Infelizmente, tem sido este o caso desde há séculos. A história humana é cheia de histórias de conflito. É verdade que todos os conflitos eram seguidos por períodos de paz. Mas seria melhor evitar completamente os conflitos.
Depois da invenção e a criação de armas nucleares, a humanidade manteve um estado de paz mundial relativo durante quase 75 anos - relativo, evidentemente, com excepção dos conflitos regionais.
Lembremo-nos de Winston Churchill, que de início detestava a União Soviética, qualificou depois Stalin como grande revolucionário quando eles tiveram de combater o nazismo, e depois, quando os norte-americanos desenvolveram armas nucleares, praticamente apelou à destruição da União Soviética. Recordam-se do seu discurso de Fulton que desencadeou a Guerra Fria?
Mas assim que a União Soviética se dotou com armas nucleares, Churchill iniciou o conceito de coexistência dos dois sistemas. Não penso que ele fosse realmente um oportunista, mas tomava em conta a realidade. Aceitava a realidade. Era alguém inteligente e um homem político pragmático.
Pouco mudou desde então. Devemos ter em mente e entender efectivamente em que tipo de mundo vivemos e quais as ameaças e perigos que podem ameaçar-nos. Se não mantemos sob controlo esta “serpente ardente” (referência mitológica eslava), se deixarmos o génio do mal da lâmpada, Deus nos livre, isso poderia levar a uma catástrofe global.
Hoje, toda a gente fala das questões ambientais, e estão certos em fazê-lo, porque existem ameaças globais tais como a alteração climática, as emissões antropogénicas e assim por diante. Tudo isso é correcto. Mesmo as crianças, meninas e meninos em todo o mundo estão envolvidos contra esse perigo.
Mas não se dão conta, esses jovens, especialmente os adolescentes e as crianças, não estão conscientes da ameaça global e do sério desafio que representa a possibilidade de conflitos globais. Isso é algo sobre que os homens e mulheres adultos deveriam pensar mais.
No entanto, tenho a impressão de que essas questões se tornaram banais e foram deslocadas para segundo plano. Isso suscita legítimas preocupações.
Os nossos parceiros americanos retiraram-se do Tratado ABM (regulando os mísseis balísticos). Então, Senhoras e Senhores, gostaria de vos perguntar: algum de vós saiu à rua com cartazes para protestar contra este grave perigo?
Ninguém. Silêncio absoluto. Como se fosse algo de normal. Aliás, era o primeiro passo para uma desestabilização fundamental do quadro da segurança mundial e um passo muito importante nessa direção.
Hoje, ainda enfrentamos a supressão unilateral por parte dos nossos parceiros norte-americanos da sua adesão ao Tratado INF (Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio).
No primeiro caso, eles ao menos agiram honestamente e retiraram-se unilateralmente do tratado. No entanto, no segundo caso, aparentemente com total consciência do facto de que assumirão a responsabilidade, tentam fazê-la recair sobre a Rússia.
Ouçam-me: vós e os vossos leitores, o vosso público, deveriam abrir o Tratado INF e lê-lo. Os seus artigos estipulam claramente que os lançadores de mísseis de curto e médio alcance não podem ser instalados em terra. O tratado di-lo claramente. No entanto, eles foram em frente e implantaram-nos na Roménia e na Polónia, o que constitui uma violação directa.
Verifiquem quais são os parâmetros dos mísseis de curto e médio alcance, e depois comparem-nos com os dos drones. É a mesma coisa. Depois olhem para as especificações dos alvos para os antimísseis. São mísseis de curto e médio alcance.
Toda gente finge ser surda, cega ou disléxica. Devemos reagir a isso de uma forma outra, não é? Devemos claramente reagir. Começam imediatamente a procurar os culpados na Rússia. Claro, a ameaça é séria.
A renovação do tratado START-3 está na nossa agenda. No entanto, podemos optar por não o fazer. Os nossos sistemas mais recentes garantem a segurança da Rússia por um período futuro bastante longo. Porque fizemos avanços científicos espectaculares. E, devo dizê-lo francamente, ultrapassámos os nossos concorrentes em termos de criação de sistemas de armas hipersónicas. Se ninguém deseja renovar o tratado START-3, nós não o renovaremos. Dissemos já centenas de vezes que estamos prontos para o fazer, mas ninguém quer falar connosco sobre isso.
Façam o favor de registar que não existe um processo formal de negociação e que tudo expirará em 2021. Tenham bem consciência do que isto significa: deixará de haver instrumentos para limitar a corrida aos armamentos.
Nem mesmo, por exemplo, para instalar armas no espaço. Compreenderemos nós o que isso significa? Coloquem a questão aos especialistas. Isso significa que cada um de nós terá que viver todo o tempo, por exemplo, com uma arma nuclear em cima. Permanentemente! Mas as coisas seguem esse curso, e muito rapidamente. Será que alguém vai reflectir sobre isso, falar sobre isso ou mostrar alguma preocupação? Não, é o silêncio completo.
Podemos também considerar as armas nucleares tácticas, também ditas armas não estratégicas. E se um míssil estratégico de alcance global fosse lançado de um submarino situado a meio do oceano? Como saberemos se transporta uma carga nuclear ou não? Compreendem a que ponto isto é grave e perigoso?
E se o outro lado responder de imediato? Que vai acontecer? Estou profundamente convencido de que isto deveria ser objecto de um debate profissional aberto e absolutamente transparente, e que a comunidade internacional deveria estar envolvida neste processo tanto quanto é possível em casos deste tipo. Em qualquer caso, as pessoas têm o direito de saber o que se passa nesta área.
Para me repetir, nós estamos prontos para isso. Ainda uma vez, estamos confiantes na nossa segurança, mas o desmantelamento completo do conjunto do mecanismo de controlo das armas estratégicas e de não-proliferação suscita naturalmente preocupações.
Qual é a solução? É a cooperação, ponto final. A conversa mais recente que tive com o Presidente Trump, devo dizer, inspira um certo optimismo, porque Donald me disse que também ele estava preocupado com esta situação. Tem plena consciência do montante das despesas em armamento assumidas pelos Estados Unidos e outros países. Esse dinheiro poderia ser usado para outros fins. Concordo totalmente com ele.
O Secretário de Estado dos EUA veio aqui. Encontrámo-nos em Sochi e ele exprimiu-se no mesmo sentido. Se eles pensam realmente aquilo que dizem, deveríamos tomar medidas concretas para fazer um esforço comum.
Mais uma vez, hoje, as conversações entre os países dotados do potencial nuclear mais poderoso são o mais importante. No entanto, e numa nota pessoal, penso que todos os países dotados de armas nucleares deveriam estar envolvidos, sejam oficialmente reconhecidos como tal ou não.
Falar apenas com as potências nucleares oficialmente reconhecidas e deixar de lado os países não oficiais significa que eles continuarão a desenvolver armas nucleares. Em última análise, esse processo interromperá as discussões entre os estados nucleares oficiais. Devemos, portanto, criar uma vasta plataforma para discussão e tomada de decisões.
Nesse sentido, é claro, tal poderia ser a luz ao fundo do túnel.

Sergei Mikhailov: Obrigado, senhor Presidente.

Fontes: http://en.kremlin.ru/events/president/news/60675T; vídeo https://www.youtube.com/watch?v=LCeES8AGeD4[1]

https://www.legrandsoir.info/poutine-compare-les-risques-climatique-et-nucleaire.html[2]

Divulga o endereço[3] deste texto e o de odiario.info[4] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Portugal | O 10 de Junho em Sobrado

Pedro Ivo Carvalho* | Jornal de Notícias | opinião

Não abriu telejornais. Não motivou discursos grandiloquentes de pensadores de proa. Não deu azo a leituras sociológicas, ideológicas ou de outra índole.

Ninguém ousou deitar o país no divã porque mil cidadãos anónimos de Sobrado, Valongo, saíram à rua num feriado encostado a um fim de semana de sol para protestar contra um aterro sanitário que lhes desgraça os dias há anos. Mas mil cidadãos de uma freguesia onde vivem menos de sete mil pessoas decidiram vestir-se de negro no Dia de Portugal por um interesse comum: mitigar os efeitos ambientais de um depósito que recebe diariamente 300 toneladas de lixo e lhes diminuiu sobremaneira a qualidade de vida. Não foram festejar uma taça nem um campeonato. Foram dar envergadura a um dos preceitos básicos de qualquer democracia robusta: intervir diretamente na escolha do caminho.

Ora, é precisamente nestes movimentos inorgânicos que se fortalece o sentido de pertença que nos distingue e nos completa, é nestas formas de expressar a cidadania que habita a ténue convicção de que não nos rendemos ao irrecuperável divórcio entre eleitores e eleitos. O exemplo de Sobrado é local, mas encerra uma mensagem nacional. A de que não estamos reféns de grandes realizações para fazermos a diferença. Que essa diferença pode e deve começar na nossa rua, no nosso bairro, na nossa freguesia. Na nossa comunidade.

Sempre que um novo 10 de Junho se cumpre, vestimos o fato de gala para revisitar sentenças: os portugueses acumulam qualidades ímpares, mas há quistos sistémicos que nos agarram ao fundo. Há quanto tempo é assim? Provavelmente, desde sempre. A democracia participativa, pináculo do civismo e da educação, exerce-se nos pequenos gestos, na força aglutinadora de um grupo que se une na procura de um desígnio. É dessa aparente simplicidade que se alimenta o caráter de um país.

*Diretor-adjunto

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/portugal-o-10-de-junho-em-sobrado.html

Travar culturas agrícolas intensivas para um País mais sustentável

Perante este «grave problema que exige respostas urgentes», Os Verdes levaram hoje a questão ao Parlamento e anunciam apresentação de duas iniciativas para defesa da biodiversidade e das populações.

Olival intensivo /Vida RuralCréditos

Em debate de urgência pedido pelos Verdes, o deputado José Luís Ferreira, alertou para os inúmeros problemas decorrentes das explorações agrícolas intensivas e super-intensivas, que para além de transformarem paisagens, causam impactos negativos nos territórios adjacentes, na biodiversidade e nas populações.

Entre os problemas enumerados, o deputado apontou a erosão dos solos provocada pela utilização de produtos fitofarmacêuticos e fertilizantes, assim como os riscos para a saúde das populações e para a qualidade da água, pela utilização de agroquímicos.

Segundo Os Verdes, a riqueza biológica e a biodiversidade sofrem com os herbicidas utilizados e a colheita mecânica de azeitona à noite provoca mortandade na fauna desses territórios. Acresce o prejuízo social que decorre do facto de, em muitas destas explorações, ser regra o trabalho com vínculos precários e sem dignidade em nome da «rentabilidade económica».

José Luís Ferreira lembrou, neste âmbito, as 500 bandeiras negras que Os Verdes colocaram junto de explorações agrícolas intensivas para assinalar simbolicamente as consequências nefastas.

O parlamentar avançou ainda que o seu partido apresentará duas iniciativas legislativas para travar a possibilidade de expandir mais culturas desta natureza e para minimizar os efeitos das já existentes junto das zonas habitacionais.

Da parte do Governo, pela voz do Ministro da Agricultura Capoulas Santos, mas também de PS, PSD e CDS-PP, fez-se o exercício de desvalorizar o tema trazido a debate acusando o PEV de querer gerar «alarmismos», «sem base científica».

No entanto, para além de não terem resposta para os problemas ambientais, aqueles partidos e o Governo também não relevam os «problemas económicos e sociais» que o PCP enumerou, designadamente o facto de grandes empresas estrangeiras comprarem culturas intensivas e super intensivas, reduzindo as terras disponíveis para arrendar pelos pequenos agricultores; a concentração da produção agrícola nacional na vinha, no olival, no amendoal, deixando de se produzir outros bens alimentares que promovam a soberania alimentar; assim como a necessidade de se dar resposta à redução de postos de trabalho que estas culturas implicam.

Heloísa Apolónia clarificou que o Governo não é «capaz de negar» os prejuízos vividos pelas populações e descaracterização da paisagem, para além da «potencialidade de desertificação de solos com este tipo de exploração agrícola». A deputada insistiu na proposta do seu partido de distanciar pelo menos 300 metros estas culturas das zonas habitacionais.

A parlamentar insistiu que não basta fazer proclamções quanto às alterações climáticas, é preciso mitigar os seus efeitos e alterar a produção, sendo que «estas explorações [intensivas e super-intensivas] são exactamente o contrário daquilo que é preciso fazer» neste âmbito.

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Portugal | O luxo que polui

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
O luxo que polui anda pela costa portuguesa, aproveitando-se de leis permissivas e de um país, salvo raras e honrosas excepções, distraído.
Lisboa é assim a sexta cidade portuária da Europa com mais emissões poluentes, segundo um Estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambientes. Segundo esse estudo a "Carnival Corporation, maior operador de cruzeiros de luxo do mundo, emitiu 10 vezes mais óxido de enxofre nas costas europeias do que os 2060 milhões de carros europeus.
No caso português, a associação ambientalista Zero comparou dados e chegou à conclusão de que as emissões dos navios de cruzeiro na costa foram 86 vezes superiores às emissões da frota automóvel que circula em Portugal.
A Zero fala nos padrões "pouco rigorosos sobre o enxofre marítimo" e chama a atenção para o contributo destas emissões "para a acidificarão em ambientes terrestres e aquáticos". Tudo para sustentar o luxo que polui.
Louva-se a notícia pela chamada de atenção para um assunto pouco discutido pelo grande público e espera-se que as autoridades europeias e portuguesas ajam de imediato. O tempo está a contar, e a nosso desfavor.

*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

 

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A União Europeia não defende ambiente. E os deputados portugueses?

A defesa do ambiente e as alterações climáticas aumentaram no debate político, desde a pré-campanha eleitoral para o Parlamento Europeu.

/PixabayCréditos

Nos últimos meses, as questões ambientais têm ganho particular espaço mediático e as candidaturas dos partidos com assento no Parlamento Europeu (PE) vão ao encontro da discussão. Para além de propostas, o AbrilAbril olhou para algum do trabalho feito nos últimos cinco anos no PE pelos deputados portugueses.

É consensual que para a defesa do ambiente e para o combate das chamadas alterações climáticas, mais do que proclamações, são necessárias medidas concretas. O ritmo e o alcance dessas medidas é que contêm já divergências, sobretudo quando os objectivos passam pela alteração do modelo em que vivemos. A União Europeia (UE) não assume um verdadeiro combate pela defesa do planeta, pese embora assente muita da sua acção política, legislativa e de propaganda em alegadas pretensões de combate às alterações climáticas.

Uma das bandeiras da UE é a chamada União Energética, que, para além de promover a concentração do poder na Comissão Europeia (CE), no seu regulamento permite que sejam aplicadas sanções financeiras aos estados-membros (e a história recente de Portugal demonstra bem o que de mais negativo representam este tipo de sanções), ao mesmo tempo que não tem nenhuma disposição sobre o necessário combate a fazer à pobreza energética.

A UE também está comprometida com o Acordo de Paris, alcançado a 12 de Dezembro de 2015. Este acordo apresenta um plano de acção destinado a diminuir o aquecimento global para um valor abaixo dos 2 °C no período a partir de 2020, e assenta a resolução da questão numa lógica mercantilista e de expectativa que, no actual modelo económico, se façam investimentos que gerem baixas emissões de gases, através da perspectiva do lucro e negócio.

A realidade tem demonstrado que o Mercado de Carbono não funciona e, pelo contrário, tem tido um efeito perverso. Este mercado de emissões é um negócio de compra e venda de doses de poluição, e permite que os países com maior poder económico possam comprar poluição a países com mais dificuldades económicas, o que significa que se promove a negociação da poluição, quando deveria estar a pôr-se em prática políticas eficazes de redução das emissões carbónicas.

Aliás, com a crise que trouxe uma redução da actividade económica, os produtores de gases com efeito de estufa diminuíram a sua procura de licenças de produção de CO2. A diminuição da procura fez baixar o preço das licenças, pelo que se tornou muito barato poluir. A tonelada de CO2 chegou a atingir os três euros e, mesmo após intervenção da UE, apenas aumentou para os oito euros, o que faz com que seja barato utilizar combustíveis mais poluentes.

O que propõem e o que fizeram os deputados portugueses no PE

Olhando para manifestos e programas eleitorais, assim como para recentes declarações, encontram-se alguns dos objectivos de cada força política em matéria de ambiente.

O PS defende, no seu programa, a necessidade de «acelerar o caminho para a União Energética» e assume o objectivo de «desenvolver uma nova estratégia europeia de crescimento e desenvolvimento sustentável, assente numa utilização sustentável dos recursos».

O candidato do PSD, Paulo Rangel, tem defendido que a UE pode ir mais longe no combate às alterações climáticas, incluindo esta questão no seu manifesto eleitoral como uma das suas principais orientações.

A CDU defende que é através de políticas públicas que a defesa do ambiente deverá ser feita.

No programa do CDS-PP pode ler-se que «a PAC tem como objectivos garantir a autonomia alimentar da UE, [...] proteger o ambiente, o bem-estar dos animais, ajudar ao correcto ordenamento do território e à sustentabilidade dos recursos naturais».

Do manifesto do BE resulta que este partido não condena o comércio europeu de licenças de emissões, uma vez que propõe taxar, neste âmbito, os sectores que participam no comércio europeu de licenças de emissões. Este partido defende a criação de um estado de emergência climática a nível europeu, assim como um plano de investimentos públicos para o combate às alterações climáticas e aquilo que designam de políticas para o «emprego verde».

«(...) com a crise que trouxe uma redução da actividade económica, os produtores de gases com efeito de estufa diminuíram a sua procura de licenças de produção de CO2. A diminuição da procura fez baixar o preço das licenças, pelo que se tornou muito barato poluir.»

Nos últimos cinco anos, as diferenças quanto ao trabalho desenvolvido podem ser traduzidas em diversos exemplos concretos.

João Ferreira, o cabeça-de-lista da CDU, trabalhou «na directiva sobre as emissões industriais que, […] com base numa avaliação das melhores tecnologias disponíveis, estabelece limites máximos de emissão».

Os deputados comunistas intervieram pelo reforço dos programas da UE destinados ao ambiente, como o programa LIFE, propondo a duplicação das suas verbas, a implementação de políticas de reforço da sustentabilidade energética através do aproveitamento de recursos endógenos e com energias renováveis.

Estes parlamentares foram também os únicos deputados portugueses a questionar a CE sobre questões ligadas à utilização de glifosato.

Relativamente à questão da água, a CDU defende que a sua gestão deve manter-se nas entidades públicas, e que devem promover-se sistemas públicos de distribuição de água e de saneamento que correspondam às necessidades das populações e dos sectores produtivos.

No PE, o trabalho do BE sobre questões do ambiente passou por preocupações como a inclusão das emissões e remoções de gases com efeito de estufa resultantes de actividades relacionadas com o uso do solo; a alteração do uso do solo e das florestas no quadro relativo ao clima e à energia para 2030; ou a criação de um mecanismo de monitorização e de comunicação de informações sobre emissões de gases com efeito de estufa e de outras informações relevantes no que se refere às alterações climáticas.

O BE, não obstante, votou contra uma alteração quanto ao procedimento de autorização para pesticidas que pretendia que a mesma fosse gerida pelos estados-membros e que visava melhorar o nível de protecção dos consumidores e dos agricultores.

PSD e CDS-PP votaram contra uma directiva que visava a redução do impacto de determinados produtos de plástico no ambiente. Esta directiva definia que os estados-membros teriam de estabelecer metas nacionais e incentivar a reutilização de produtos, os quais possam ser reutilizados e reciclados, além de que promovia a proibição de artigos de plástico descartáveis.

PS e CDS-PP votaram contra propostas de alteração às orientações do Orçamento 2020 que visavam o reforço do programa LIFE e que incluíam dotações específicas para a biodiversidade e a gestão da rede Natura 2000 e que propunham assegurar uma repartição equitativa do financiamento entre os estados-membros. Essa mesma proposta previa ainda o apoio à avaliação da saúde ecológica e vegetal das florestas, incluindo a reflorestação com espécies nativas, em particular nos países fustigados pelos incêndios.

O CDS-PP votou contra a criação de um sistema de vigilância de pesticidas que permitisse desencadear um alerta assim que o produto fosse colocado no mercado.

 

O CDS-PP aprovou e o BE absteve-se na proposta de directiva, do PE e do Conselho, relativa à qualidade da água destinada ao consumo humano, a qual introduz graves riscos nesta matéria. Entre outras questões, aumenta significativamente os custos directos do abastecimento de água, faz subir os encargos públicos indirectos para fiscalização e controlo, e põe entraves à prestação do serviço público, ao mesmo tempo que favorece a privatização.

O CDS-PP é o partido menos amigo da água pública, tendo votado contra diversas iniciativas que pugnavam pela sua defesa, nomeadamente de medidas que visavam proporcionar a garantia de abastecimento a todos os cidadãos, em todas as circunstâncias, de uma quantidade mínima vital de água destinada ao consumo humano, garantindo que, em caso de atrasos de pagamento, as empresas de abastecimento pudessem instalar um limitador que forneça o nível diário essencial, por pessoa, recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

O planeta merece e agradece: a defesa do ambiente é incompatível com produção pelo lucro

São sérios os problemas ambientais vividos no actual paradigma que só serão resolvidos se se compreenderem as suas causas.

O modelo de produção vigente, assente no lucro imediato, não tem interesse em contribuir para dar resposta à defesa ambiental. E, sendo importante a aposta no desenvolvimento tecnológico, esse não pode ser o único caminho a prosseguir. É preciso, entre outras coisas, garantir a biodiversidade e questionar os interesses das multinacionais do agronegócio e as fitofarmacêuticas.

 

São falsos amigos do ambiente aqueles que insistem no recurso a mecanismos financeiros e especulativos ou na taxação dos comportamentos individuais e de consumo de mercados ditos verdes, quando, por um lado, essas soluções oneram sobretudo as populações mais desfavorecidas e os trabalhadores (colocando a estes os custos com a protecção do ambiente) e, por outro lado, alimentam um novo negócio feito à custa da legítima preocupação com a defesa do ambiente, quando esta matéria tem necessariamente de ser uma política de Estado.

A defesa do planeta e da sua sustentabilidade ambiental passa por encontrar alternativas energéticas aos combustíveis fósseis, que passam pelo investimento público designadamente em empresas públicas de energia, assim como pela promoção do transporte público, em detrimento de soluções que apontam para manter o paradigma do transporte individual.

É necessário defender a produção local, contrariando a liberalização do comércio mundial. A redução de emissões tem de ser feita com normativos específicos e não com atribuição de licenças transaccionáveis que potenciam a especulação e não resolvem o problema.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/uniao-europeia-nao-defende-ambiente-e-os-deputados-portugueses

Ou o mundo muda ou vai viver uma situação catastrófica, diz Guterres

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou hoje que o mundo tem de mudar, de forma dramática, a maneira como fornece energia a fábricas, veículos e casas, para limitar o aquecimento global.

Isto porque a alternativa"significa uma situação catastrófica para o mundo inteiro", disse António Guterres, em entrevista exclusiva à Associated Press
Guterres afirmou que está a preparar uma visita às ilhas do Pacífico para ver como as alterações climáticas as estão a devastar, no seu renovado esforço para as combater, e já convocou os líderes mundiais para a ONU em setembro para lhes dizer que "precisam de fazer muito mais de forma a que se consiga inverter as tendências atuais e derrotar as alterações climáticas".

Isto significa, insistiu, que o mundo tem de mudar, não de forma progressiva, mas com grandes transformações, para uma economia verde, com veículos elétricos e "cidades limpas".


António Guterres adiantou que vai pedir aos líderes que deixem de subsidiar os combustíveis fósseis. Queimar carvão, petróleo e gás natural alimenta o aquecimento global ao libertar gases com efeitos de estufa (GEE).

O secretário-geral da ONU acrescentou que quer que os países não construam mais centrais a carvão depois de 2020. Pretende antes que coloquem um preço nas emissões de carbono e, por fim, quer garantir que em 2050 o mundo não põe mais gases com efeito de estufa na atmosfera do que a Natureza consegue absorver.

A temperatura média global já subiu cerca de um grau Celsius desde que começou a Era Industrial. A questão presente é a de saber quanto mais é que a temperatura vai subir.

Em 2015, em Paris, durante a designada Cimeira do Clima, promovida pela ONU, os Estados estabeleceram o limite para aquela subida em meio grau centígrado, a partir de agora.

Mas muitos cientistas consideram improvável conseguir este objetivo, especialmente desde que as emissões de GEE voltaram a subir, que o crescimento das energias renováveis estagnou e que alguns países e líderes não estão a cumprir.

Um painel de cientistas a quem a ONU solicitou que avaliasse a situação fez correr em modelos informáticos mais de 500 cenários, com aquele limite atingido em menos de 2% destes.

Guterres acentuou que as mudanças económicas necessárias para impedir que a temperatura aumente outro grau ou mais podem ser penosas, mas se o mundo falhar serão muito piores.

"Se não se atingir este objetivo, o que se vai alcançar é um desastre total", assegurou.

Se os países cumprissem apenas o que prometeram na Conferência de Paris seria catastrófico, porque o mundo iria ver a temperatura média global subir 2,5 graus Celsius, disse Guterres, concluindo que "é por isso que se tem de acelerar dramaticamente (...) o que todos sabem que tem de ser feito".

Mas, globalmente, as coisas estão a evoluir no sentido oposto. O responsável da Universidade do Michigan pela área do Ambiente, Jonathan Overpeck, garante que é improvável que o mundo consiga impedir um aquecimento de mais um grau Celsius, quanto mais meio.

Mas isto, de forma estranha, reforça o otimismo do chefe da ONU.

Uma vez que as mortes e os desastres estão a aumentar, o público, em particular os jovens, compreenderão que o aquecimento "é uma ameaça dramática para o conjunto da humanidade", declarou Guterres à Associated Press.

Portanto, quanto pior ficar, mais as pessoas vão exigir mudanças, considerou.

Estas as razões que o vão levar às ilhas de Fiji, Tuvalu e Vanuatu, que são das mais afetadas pelas alterações climáticas.

Guterres acrescentou que quer usar a determinação e autoridade moral do povo que vive nas ilhas ameaçadas para convencer os líderes mundiais a fazerem as mudanças necessárias.

Lusa | Notícias ao Minuto | Foto: Reuters

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Eurostat: Portugal alcança a maior redução de emissões de CO2 da Europa

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Portugal teve a maior redução de emissões de CO2 da União Europeia: menos 9% em 2018 face ao ano anterior. De acordo com os dados divulgados esta quarta-feira pelo Eurostat, Portugal alcançou um resultado que é mais do triplo da média europeia (-2,6%).

Na tabela publicada pelo gabinete estatístico da UE e onde Portugal lidera, a Bulgária registou o segundo maior recuo nas emissões de CO2 (-8,1%), seguindo-se a Irlanda (-6,8%), a Alemanha (-5,4%), a Holanda (-4,6%) e a Croácia (-4,3%). A descida na Alemanha é particularmente importante, uma vez que o país representa 22,5% do total de emissões de CO2 dos 28 Estados-membro.

CO2_EUROSTAT

Em sentido inverso, as emissões de CO2 geradas por combustíveis fósseis aumentaram em oito Estados-membros: Letónia (8,5%), Malta (6,7%), Luxemburgo (3,7%), Polónia (3,5%), Eslováquia (2,4%), Finlândia (1,9%) e Lituânia (0,6%). O comunicado do Eurostat sublinha que as emissões de CO2 são responsáveis por cerca de 80% das emissões de gases com efeito de estufa na UE.

Ver original aqui

ONU: um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção

Um milhão de espécies de animais e plantas estão ameaçadas de extinção, segundo o relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema (IPBES).

A plataforma da Organização das Nações Unidas (ONU) contou com 145 cientistas de 50 países, no que é o considerado o relatório mais extenso sobre perdas do meio ambiente. A informação é do Portal G1. 

O estudo, divulgado nesta segunda-feira (6), foi feito com base na revisão de mais de 15 mil pesquisas científicas e fontes governamentais. Os cientistas destacam cinco principais causas de mudanças de grande impacto na natureza nas últimas décadas:

  • perda da habitat natural
  • exploração das fontes naturais
  • mudanças climáticas
  • poluição
  • espécies invasoras

Desde 1900, a média de espécies nativas na maioria dos principais habitats terrestres caiu em pelo menos 20%. Mais de 40% das espécies de anfíbios, quase 33% dos corais e mais de um terço de todos os mamíferos marinhos estão ameaçados. Pelo menos 680 espécies de vertebrados foram levadas à extinção desde o século 16.

Três quartos do ambiente terrestre e cerca de 66% do ambiente marinho foram significativamente alterados por ações humanas. Em média, essas tendências foram menos severas ou evitadas em áreas mantidas ou gerenciadas por povos indígenas e comunidades locais.

Além disso, um terço das áreas terrestres e 75% do uso de água limpa é para plantação e criação de animais para alimentação. O valor da produção agrícola aumentou cerca de 300% desde 1970, a derrubada de madeira aumentou 45% e aproximadamente 60 biliões de toneladas de recursos renováveis ​​e não renováveis são extraídos globalmente a cada ano.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/onu-um-milhao-de-especies-estao-ameacadas-de-extincao/

Deputados dos EUA aprovam acordo de Paris, mas Trump prepara veto

Congresso dos EUA
© East News / UPI Photo/eyevine

A Câmara dos Deputados dos EUA aprovou nesta quinta-feira (2) um projeto de lei para anular a ação do presidente Donald Trump e manter os Estados Unidos no Acordo de Paris, ao que a Casa Branca já emitiu uma ameaça de veto.

A Câmara aprovou a lei de Ação climática Imediata com 231 votos a favor e 190 contra, determinando que o presidente "desenvolva um plano para os Estados Unidos cumprirem sua contribuição determinada nacionalmente sob o Acordo de Paris", por uma votação de 231 a 190.


"Hoje enviamos uma mensagem ao presidente, ao povo americano e ao mundo de que reconhecemos a seriedade da crise climática e que pretendemos fazer a nossa parte para enfrentá-la. Hoje enviamos a mensagem: ainda estamos dentro [do acordo]", disse o congressista Frank Palone, presidente do Comitê de Energia da Câmara, após a aprovação do projeto na.

A nova lei estipula que nenhum fundo federal pode ser gasto ou alocado de qualquer forma para promover a retirada dos EUA do Acordo de Paris.

O projeto agora vai Senado e enfrenta uma maioria republicana hostil. A expectativa é de que o projeto não consiga atingir uma maioria de dois terços nas duas câmaras do Congresso, a quantidade de votos exigida para anular um veto presidencial.

No dia 1º de junho de 2017, o presidente Donald Trump anunciou sua intenção de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Sob os termos desse tratado, os EUA devem deixar o acordo a partir de 4 de novembro de 2020.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050213798416-acordo-paris-eua-trump-aquecimento-global-acordo-de-paris/

Rebelião em Londres: é o clima ou o sistema?

Milhares de pessoas – entre elas, pré-adolescentes – tentam parar, há oito dias, um dos centros do capitalismo global. O movimento ensina algo sobre a potência de um novo ambientalismo e de certas táticas de luta

Antonio Martins | Outras Palavras
“Nosso futuro foi entregue, para que um pequeno número de pessoas possa acumular quantidades inimagináveis de dinheiro (…) Agora, as pessoas estão aos poucos se tornando mais conscientes, mas as emissões [de CO²] continuam a crescer. Não podemos nos contentar com pouco. No essencial, nada mudou (…) Não se trata apenas de gente jovem cansada de políticos. É uma crise existencial. É algo que afetará o futuro de nossa civilização”. Não foram palavras de um político de esquerda, nem de um filósofo ecossocialista. Entre domingo (21/4) e segunda-feira (22), a garota sueca Greta Thunberg, que tem 16 anos e é portadora de uma forma incomum de autismo, polarizou as atenções em Londres – ofuscando, inclusive, o debate interminável sobre o Brexit. As frases acima são de suas falas num debate e num discurso ao Parlamento.
Greta, porém, não foi estrela solo. Desde 15 de abril, multidões articuladas pelo movimento Extinction Rebellion promovem, num dos centros globais do capitalismo, uma sequência de ocupações de espaços públicos, protestos, bloqueios de vias e performances contra o sistema que promove o aquecimento global e a devastação da biosfera. Mais de mil pessoas foram presas no período e o movimento prossegue, adotando formas particulares de resistência não-violenta. Depois da emergência da Esquerda Democrática nos EUA, das Sextas-feiras pelo futuro e do Green New Deal, surge um novo sinal da potência rebelde que a luta em defesa do planeta pode, em determinadas condições, assumir.

Ponte de Waterloo. Praça do Parlamento. Oxford Circus. Museu de História Natural. Nos últimos oito dias, todos estes locais-símbolos de Londres foram tomados por milhares de ativistas para denunciar a continuidade das políticas que, em nome dos lucros, ameaçam o futuro coletivo. O movimento é multigeracional, mas há nítida predominância de jovens e adolescentes – inclusive na faixa dos 12 aos 16. A Extinction Rebellion mobilizou-os em torno de três propostas simples. Talvez revelem alguma ingenuidade, mas seu sentido de indignação antissistêmica é claro. São elas: a) que os governos “falem a verdade” sobre a emergência ecológica, revertam políticas que a alimentam e ajam em conjunto com a mídia para “informar os cidadãos”; b) que a emissões líquidas de gases do efeito-estufa sejam reduzidas a zero, até 2025; c) que assembleias de cidadãos possam acompanhar o andamento deste processo de transformações.


O elevado número de prisões deve-se, também, às táticas irreverentes da Extintion Rebellion. O movimento parece sugerir que é preciso resgatar a vida cotidiana de seu curso atual, alienado e funesto. Foi inaugurado, em 15/4, pela aparição de um barco cor-de-rosa em Oxford Circus, talvez o cruzamento mais tradicional de Londres. Chamaram-no Berta Cáceres, em homenagem à ativista socioambiental e feminista hondurenha assassinada em 2016, sob golpe de Estado. A ele acorrentaram-se, ou se colaram, centenas de ativistas.


O mesmo método foi usado em todos os demais pontos cruciais da cidade, sempre por centenas ou milhares de pessoas. Formavam-se barricadas humanas, que interrompiam o tráfego e só podiam ser desfeitas com enormes operações policiais e prisões em massa. Num desses atos de repressão, na Ponte de Waterloo, foi preso, com centenas de outros, Etienne Stott, medalhiste de ouro nos Jogos Olímpicos de 2012. A disposição dos ativistas perturbou a polícia. Ontem (22/4), o prefeito Sadiq Khan queixava-se de que os protestos haviam causado “enorme peso aos negócios e às forças de segurança”, obrigando a mobilização de mais de 9 mil policiais. Ainda assim, os ativistas não recuavam. Num relato revelador, o médico aposentado Bing Jones narrou ao The Guardian sua sensação ao ser encarcerado. “Quando tiram seu relógio, cinto e cordões dos sapatos e trancam a porta, você não tem nada para olhar, exceto um vaso sanitário de aço. Você se identifica com os despossuídos. É salutar. Mas a emergência climática é tão real e intensa que é um privilégio sentir-se fazendo algo”.

O Rebellion Extinction expressa tendências políticas recentes. É difícil situá-lo nos antigos mapas da esquerda. Surgiu em maio de 2018, impulsionado por um grupo político-cultural conhecido como RisingUp! [“Levantando-se!], que se diz comprometido com a desobediência civil. Usa como símbolo um “X” fechado acima e abaixo, sugerindo ampulheta e, portanto, emergência.

omeçou a realizar ações em outubro. Entreelas, as primeiras interrupções de vias, um manifesto de intelectuais afirmando o “direito moral de ultrapassar a inação dos governos, e de nos rebelar para defender a própria vida”) e a divulgação de vídeos de alerta sobre a destruição do planeta, produzidos por Noam Chomsky, pela atriz Emma Thompson e pela própria garota Greta Thunberg. Aponta, entre suas influências, as feministas sufragistas, o Occupy, Gandhi e Martin Luther King. Baseia-se em dez princípios, que mesclam noções autonomistas e ecossocialistas. Propõe organizar-se em pequenos grupos, numa estrutura que enfatiza a decentralização – mas parece complexa e com poucas concessões ao assembleísmo.


Terá vida longa? Manterá o entusiasmo inicial, alimentado pelo êxito da estreia espetacular? Terá potência transformadora, mesmo preferindo, em suas palavras, “pressionar os políticos” a substituí-los (ou ao atual sistema de poder)? Como dialogará com a política institucional britânica, hoje mergulhada no atoleiro do Brexit, e onde há a clara emergência de uma alternativa à esquerda, expressa pelo trabalhismo rebelde de Jeremy Corbyn?

Não há, ainda, respostas para estas perguntas. Mas é muito animador perceber que continuam a surgir – em meio ao hipercapitalismo e aos riscos de Estado de exceção permanente – movimentos que propõem sair da crise civilizatória pelo caminho oposto. Que apontam para a distribuição de riquezas, de uma nova relação entre o ser humano e o planeta, da colaboração e dos Comuns. E a talvez a diversidade entre estas saídas deva ser vista como uma trunfo, não como um estorvo.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/rebeliao-em-londres-e-o-clima-ou-o.html

Centenas de golfinhos mortos surgem na costa da França

Golfinho (imagem referencial)
© Sputnik / Aleksandr Utkin

O observatório PELAGIS francês relatou um número recorde de golfinhos mortos que surgiram na costa da França, tendo a maioria deles morrido presos em redes de pesca, escreve Phys.org.

"Tivemos aproximadamente 1.200 pequenos cetáceos pela costa" do golfo de Biscaia, com mais de 90% sendo golfinhos, afirmou o biólogo marinho Olivier Van à AFP, ressaltando que "houve dois picos em meados de fevereiro e em meados de março ligados a fortes correntes para a temporada devido a condições de baixa pressão".

O observatório destacou que 85% das carcaças de golfinhos que puderam ser examinadas possuem traços de capturas acidentais, ressaltando que nem todos os golfinhos mortos foram parar na costa e sugerindo triplicar o número de mortes. A concorrência de cetáceos e humanos por peixe faz com que os habitantes do mar acabam caindo nas redes de pesca.

A morte massiva de mamíferos marinhos, como Olivier Van observou, não é o primeiro caso na França, tendo o surgimento de golfinhos mortos se agravado a partir de 2017. Se a tendência mortífera continuar nos próximos anos, o número de golfinhos no Atlântico Norte, de acordo com o biólogo, diminuirá drasticamente.

As autoridades francesas já se comprometeram a compreender a situação e a preparar, até o fim deste ano, um pacote de medidas que ajudaria a evitar uma maior mortalidade dos animais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019042613762549-centenas-golfinhos-mortos-surgem-costa-franca/

Não é a Terra que está em causa, somos nós!

Hoje é Dia da Terra. Para celebrá-la como mãe pródiga, que nos sustenta a vida, mas de quem cuidamos tão mal. Porque são ainda escassas as vozes, que se erguem em sua defesa e, pior ainda, quase nunca dizem o essencial: não é ela quem verdadeiramente está em causa, porque continuará a orbitar o sol durante milhões de anos, estando ou não habitada por seres humanos. Somos nós quem estamos ameaçados, porque nos recusamos a aceitar as evidências já percetíveis no dia-a-dia: 90% da população mundial respira ar poluído e são já 600 mil as crianças, que morrem anualmente por essa inequívoca razão.

 

Para termos um planeta sustentável para filhos, netos, bisnetos e todos quantos da nossa genealogia germinem, teremos de alterar profundamente o ciclo do que consumimos e deitamos fora. É a sociedade do consumo, que se revela insustentável, é o sistema capitalista que deve conhecer um irreversível fim. Não é possível que, anualmente, continuemos a extrair do planeta quase cem mil milhões de toneladas de recursos naturais, ou que cada um de nós gaste em média mais de doze dessas toneladas no mesmo período. E que todos os anos as lixeiras e aterros sanitários recebam 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos ainda em estado de serem consumidos.

 

É certo que a consciência ecológica vai-se acentuando. Gestos tidos como normais há dez ou vinte anos são agora objeto de autocensura ou de condenação coletiva, tornando-os menos comuns. A rejeição dos plásticos está atualmente a incutir-se na cultura dos povos, mas foram necessárias muitas imagens de baleias ou peixes com os sistemas digestivos atulhados desse entulho, ou praias paradisíacas transformadas em inacessíveis lugares de prazer, para que nos convencêssemos da urgência do problema. Há, igualmente, a crescente noção de ser o diesel um combustível condenado por muito que os coletes amarelos em França ou os lobbies automobilísticos mintam descaradamente para fazerem perdurar os seus interesses lesivos da Humanidade.

 

Afinam-se, pois, alguns paliativos, sem que prevaleça a ideologia exigível para as décadas vindouras: a associação dos discursos igualitários, que das esquerdas constituem fio identitário, com os da defesa do meio ambiente. Não admira que, mais do que os partidos comunistas, socialistas ou sociais-democratas, sejam os Verdes, os que, à esquerda, estejam a ser resilientes em sucessivas eleições por essa Europa. Operar a síntese de uns e de outros constitui a única hipótese para que as iminentes distopias tendam para as esperançosas utopias de que nunca deveremos abdicar...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/nao-e-terra-que-esta-em-causa-somos-nos.html

Com a «oferta» da Amazónia aos EUA, Bolsonaro põe futuro dos indígenas em risco

Para pensar o desenvolvimento da Amazónia, é necessário um plano que tenha em conta o seu papel no equilíbrio do planeta e na sobrevivência das populações originárias, alerta o jurista Carlos Marés.

Com a «oferta» da Amazónia aos EUA
Geógrafos acusam Bolsonaro de pretender entregar a Amazónia à exploração privada estrangeiraCréditosLilo Clareto / portalamazonia.com

A agenda do actual presidente brasileiro para a Amazónia está a confirmar o que foi deixando à vista durante a campanha para a presidência do Brasil – nomeadamente os planos de entrega dos recursos naturais da maior floresta tropical do mundo «à iniciativa privada de países estrangeiros», para a qual algumas entidades alertaram.

Jair Bolsonaro também deixou clara a vontade de rever as demarcações das terras indígenas, fez questão de minimizar as especificidades das comunidades indígenas e defendeu a possibilidade de venda das terras. «O índio é um ser humano igual a eu e você. Ele quer energia eléctrica, ele quer dentista para arrancar o toco de seu dente que está doendo, ele quer médico, ele quer Internet», disse.

Para Bolsonaro, a demarcação de terras indígenas afigura-se como uma «indústria», sustentada por membros da Fundação Nacional do Índio (Funai), que impede o desenvolvimento da Amazónia. Nesse sentido, no passado dia 8 disse em entrevista à rádio Jovem Pan que iria rever aquilo que pudesse nessa matéria. A solução do presidente brasileiro para Amazónia passa pela exploração do território em «parceria» com os Estados Unidos.

O Brasil de Fato lembra que os primeiros passos para fortalecer essa relação foram institucionalizados no mês passado, durante uma visita diplomática aos EUA. Então, Roberto Castelo Branco, secretário nacional de Relações Internacionais do Ministério do Meio Ambiente, assinou uma carta de intenções com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), defendendo a exploração estrangeira na Amazónia.

«É nosso entendimento mútuo que libertar o financiamento privado para empresas sustentáveis na Amazónia fortalece a autonomia e o bem-estar das comunidades e empreendedores que dependem da floresta na Amazónia, e cria oportunidades para a conservação da biodiversidade, a restauração da terra e a redução do desmatamento, o que pode levar à substituição de práticas ilegais e insustentáveis por opções legais e sustentáveis», lê-se no texto, no qual se anuncia um fundo de investimento de 100 milhões de dólares para a região, a maior parte financiada por empresas privadas.

Agenda destrutiva e política genocida

Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB), não poupa críticas aos posicionamentos do presidente e às medidas que o seu governo tem adoptado. «A política do Bolsonaro tem-se mostrado, desde a campanha, [como] uma política genocida para os povos indígenas. A agenda dele para a Amazónia é uma agenda totalmente destrutiva. É isso que ele vem negociando: a entrega dos nossos recursos naturais para o estrangeiro», frisa a dirigente indígena.

Para Guajajara, trata-se do desmantelamento da política indigenista no Brasil: «Tudo isso é uma negociação clara [no sentido] de impedir a demarcação de terras indígenas ou de reverter territórios já demarcados e, com isso, negar o nosso direito territorial, que é o direito à nossa própria identidade».

Planeta, bem-estar das populações e especificidades dos índios

Carlos Marés, jurista e ex-presidente da Funai, afirma que, para se pensar o desenvolvimento da Amazónia, é necessário elaborar um plano global que considere o seu papel no equilíbrio do ecossistema do planeta e na sobrevivência das populações originárias da região.

«Enquanto não perguntarem a essas populações [como se faz para melhorar as condições de vida na Amazónia], estarão a destruir», critica Marés, sublinhando que «destruir a natureza da Amazónia é destruir as populações e destruir as populações é [destruir] a natureza. As duas coisas estão juntas. Qualquer perspectiva sem o plano que consulte os povos que estão na Amazónia e vivem lá é devastadora e colonial», frisa.

Sobre as declarações de Bolsonaro que pretendem minimizar as especificidades dos indígenas e, com isso, dar maior cobertura à revisão das demarcações de terras, um funcionário da Funai que preferiu não se identificar disse ao Brasil de Fato: «Ao contrário do que ele [Bolsonaro] pensa, ou diz pensar, os indígenas não são seres humanos como ele, ou como nós. Só na Cabeça do Cachorro [Noroeste do Amazonas] há 26 etnias que coexistem há milénios e não têm a menor intenção de serem incorporadas ou 'aculturadas'. Daí, a necessidade de um órgão indigenista com profissionais que entendam essa especificidade», vincou o trabalhador da Funai.

A Funai na mira

Uma das primeiras medidas tomadas por Bolsonaro foi transferir para o Ministério da Agricultura a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas e quilombolas – actividades que, nos últimos 30 anos, foram da competência da Funai, que passou a estar subordinado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Para o jurista Carlos Marés, trata-se de uma clara «tentativa de esvaziar a própria Funai» e de tirar força à defesa dos «direitos indígenas». Por seu lado, Sônia Guajajara entende que, para o governo de extrema-direita a Funai é um empecilho: «A transferência [de ministérios] é uma forma disfarçada de extinguir», denunciou.

O apetite pela Amazónia

Em Dezembro do ano passado, o mapa Amazónia Saqueada, realizado pela InfoAmazónia e pela Rede Amazónica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) – organização que reúne técnicos de seis países da Amazónia –, mostrava que existiam pelo menos 2312 pontos e 245 áreas não autorizadas de extracção de ouro, diamantes e coltan no Brasil, na Bolívia, na Colômbia, no Equador, no Peru e na Venezuela.

Com a «oferta» da Amazónia aos EUA

Em Março deste ano, um dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social deixou em evidência que a região amazónica brasileira é cada vez mais alvo do agronegócio e da mineração estrangeira.

Investigadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa, Ana Penido defende um «estado de alerta» em relação às acções do governo Bolsonaro. «Tudo indica a venda generalizada do património nacional. É difícil falar que a Amazónia vai continuar sendo brasileira. Enquanto Estado brasileiro, talvez continue a ser, mas a riqueza, a cada dia que passa, é explorada por multinacionais estrangeiras», alertou.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/com-oferta-da-amazonia-aos-eua-bolsonaro-poe-futuro-dos-indigenas-em-risco

Portugal | Ambiente tóxico

Vítor Santos | Jornal de Notícias | opinião

É possível despejar 100 mil toneladas de resíduos, provenientes da Siderurgia Nacional, nas galerias de umas minas desativadas e não ser condenado? Sim. Aconteceu ontem. Em Portugal, claro está. São Pedro da Cova, freguesia de Gondomar, concretamente. O caso remonta a 2001, mas só agora conheceu sentença, em linha com o padrão habitual de celeridade da justiça portuguesa.

Quando, no mês passado, milhares de estudantes saíram à rua para defender o ambiente, não faltaram políticos mais rápidos do que a própria sombra na colagem à manifestação, valorizando a consciência verde dos jovens, um sinal de mudança de mentalidades que nos faz acreditar num futuro melhor.


O problema é que é impossível acreditar num cenário diferente do atual, de desprezo recorrente para com as questões ambientais, enquanto os infratores não forem efetivamente condenados. E não é isso que acontece em Portugal, onde a culpa neste tipo de crimes morre quase sempre solteira ou fica anos a fio a marinar em processos decanos.

No ano passado, por exemplo, muito se falou sobre a poluição no rio Tejo, denunciada por Arlindo Marques, que não teve medo de enfrentar empresas como a Celtejo, que ainda o tentou "calar", movendo-lhe um processo judicial por difamação. Entretanto, a empresa desistiu da ação, que estava condenada a perder, porque, efetivamente, o ambientalista tinha razão.

Mas, lá está, quando alguém "compra" uma guerra com uma entidade desta dimensão, não basta ter razão. Continuamos à espera de sanções pesadas para os crimes ambientais cometidos no Tejo, tal como as populações de Fânzeres e São Pedro da Cova, na questão do depósito de resíduos: sentados e indignados.

*Editor-executivo

 

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Urgem alternativas ao plástico e importa ir ao fundo da questão na defesa do ambiente

Debateu-se esta quinta-feira no Parlamento o projecto do PEV que propõe o fim da utilização de sacos de plástico e de cuvetes, e a discussão estendeu-se a políticas de fundo na defesa do ambiente.

A deputada Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista «Os Verdes», CréditosTiago Petinga / Agência LUSACréditosTiago Petinga / Agência LUSA

O projecto de lei do PEV, discutido hoje na Assemebleia da República, que propôs a proibição de sacos de plástico ultraleves e de cuvetes nos pontos de venda de pão, frutas e legumes, impôs uma discussão mais ampla sobre o meio ambiente e opções políticas indispensáveis à sua preservação.

Os Verdes vieram propor que a partir de meados de 2020 os operadores económicos sejam obrigados a encontrar alternativas ao acondicionamento daqueles bens – os quais hoje assentam essencialmente em sacos de plástico ultraleves e cuvetes – e que as disponibilizem aos consumidores, sem que a qualidade dos produtos seja posta em causa.

Trouxeram ainda a proposta de os estabelecimentos comerciais terem de se adaptar às soluções encontradas pelos próprios consumidores para o acondicionamento daqueles bens com sacos ou outros materiais reutilizáveis.

No centro das preocupações de Os Verdes está o facto de que o uso do plástico consubstancia hoje uma «fonte de poluição» que contamina ecossistemas e que invade «o meio natural com matérias persistentes», num momento em que muitos são os estudos que determinam que 85% da poluição dos oceanos é de plástico.

Para aquele partido esta é uma iniciativa que se quer como um primeiro passo para deixar de usar plástico e alertam que «não é possível alterar modelo de consumo sem que o mercado seja chamado» e que «não pode ficar tudo na mão dos consumidores, que muitas vezes não têm outras alternativas mais sustentáveis». Perante a problemática, o PEV entende que são necessárias soluções rápidas e eficazes.

De forma transversal, verificou-se um consenso entre os partidos perante a matéria em discussão e a necessidade de redução e eliminação da utilização dos plásticos. Foi no modo de o fazer e nos prazos que se evidenciaram divergências.

Não coincidindo com o entendimento de urgência do PEV, o CDS-PP entende que deveria protelar-se a implementação de medidas desta natureza no sentido do relatório do grupo de trabalho do Governo nesta matéria, o qual define como meta o ano de 2023 para a substituição (e não eliminação) de sacos de plástico por produtos biodegradáveis ou compustáveis. E que a «urgência» do PEV não é coincidente com a estratégia europeia para o plástico.

O deputado do PSD José Carlos Barros criticou o PEV e o PCP por terem rejeitado as medidas introduzidas pelo anterior governo de penalização dos consumidores na utilização de sacos de plástico.

Em resposta, Heloísa Apolónia respondeu que o que essa medida originou foi que «as grandes superfícies substituíram os sacos mais leves por outros mais resistentes» e encontraram uma nova forma de lucrar com isso, vendendo estes novos sacos aos consumidores.

De toda a discussão resultou que da parte dos partidos PS, PSD e CDS-PPS as opções políticas não passam por questionar o sistema de produção hoje vigente, nem combater de forma eficaz o modelo de consumismo imposto pelos grandes produtores e superfícies.

A deputada do BE Maria Manuel Rola, assim como o deputado André Silva do PAN ,recordaram as suas propostas de interditar microplásticos em cosmética e detergentes.

O BE relembrou a mobilização da greve de estudantes de 15 de Março sobre o clima. Assim como a necessidade de encontrar alternativas aos combustíveis fósseis e ao modelo de produção e de consumo.

Pelo PCP, as deputadas Ângela Moreira e Paula Santos recordaram projectos recentes deste grupo parlamantar para reduzir embalagens supérfluas e centraram a questão na necessidade de ser desenvolvida uma política de protecção do ambiente, na qual se combata o modelo de utilização de recursos naturais apenas para rentabilidade dos grandes grupos económicos. É, segundo aquele partido, importante definir-se uma «estratégia a nível nacional onde o Estado assuma uma intervenção coerente e coordenada sem penalizar os mesmos de sempre, os trabalhadores e populações».

Para combater resistências na implementação de uma medida desta natureza, Os Verdes lembraram que foi proposta sua que o Parlamento utilizasse papel reciclado e que, também na altura, a aplicação da mesma foi por muitos considerada difícil ou impossível, mas que dois dias depois da sua aprovação, a mesma se concretizou.

O projecto acabou aprovado por unanimidade e a discussão seguirá em sede de especialidade.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/urgem-alternativas-ao-plastico-e-importa-ir-ao-fundo-da-questao-na-defesa-do-ambiente

PEV: ferrovia e combate ao olival intensivo em jornadas parlamentares

O PEV arranca com as suas jornadas parlamentares, que se realizam no distrito de Beja, dedicadas à defesa dos transportes públicos e ao combate ao olival intensivo e superintensivo.

O Partido Ecologista «Os Verdes» (PEV) iniciou hoje o primeiro de dois dias de jornadas parlamentares que se realizam em Beja, no âmbito das quais estão em destaque os temas da defesa dos transportes públicos, em particular da ferrovia, e do combate ao olival intensivo e superintensivo, o qual se vem desenvolvendo, em particular no Alentejo.

Os dois temas estão no centro das preocupações dos ecologistas, que têm a instransigente defesa do ambiente como mote.

Para «Os Verdes» um maior investimento na ferrovia significa um passo em frente na defesa do ambiente e no combate às alterações climáticas. E neste sentido, urge concretizar a medida aprovada por sua proposta em sede do Orçamento do Estado para 2019 de electrificação da linha ferroviária entre Casa e Branca e Beja, para proporcionar às populações o seu direito à mobilidade, o que permitiria por um lado a dinamização da economia regional, e por outro um contributo ao despovoamento do interior.

Em declarações ao AbrilAbril de Heloísa Apolónia, esta afirma que importa agora que o Governo canalize o «investimento adequado – e não um investimento mínimo – para a concretização rápida da electrificação desta linha ferroviária», a qual deve ser feita rapidamente. Ao que acresce impôr-se como necessidade a existência em Portugal de «uma visão estratégica para a ferrovia» e que «não se páre por aqui, designadamente com a necessidade de investir na ligação entre Beja e Funcheira, uma grande reivindicação de Os Verdes», segundo a parlamentar.

É uma prioridade de sempre dos ecologistas a «aposta no transporte e na mobilidade colectivos» e por isso muito valorizam que, na vigência da actual solução política, «de Orçamento do Estado em Orçamento do Estado, tenham sido aprovadas medidas positivas nesta matéria, como o fim da condição de recursos para os passes 4_18 e sub_23» e agora a medida, que recentemente vigora, do passe único, «da qual Os Verdes se orgulham muito».

Deixam contudo o alerta de que existem ainda em Portugal «regiões onde é muito urgente investir em mais transporte», sendo gritante a «inexistência de transportes que sirvam as populações». E por isso, insistem, são necessárias medidas quer na redução do preço dos transportes, quer na componente do reforço no investimento dos meios de transporte disponíveis e adequados às necessidades das populações.

A necessidade de recurso a automotoras diesel devido ao facto de o troço não estar electrificado coloca entraves diários à mobilidade das populações. Os próprios ecologistas experimentaram hoje as consequências dessa situação, chegando ao destino com cerca de uma hora de atraso, devido uma avaria na automotora e «em razão deste atraso, uma senhora perdeu a ligação de autocarro à sua terra e só voltava a ter ligação ao fim do dia, perdendo assim todo o dia», situações garantem, que «acontecem recorrentemente».

Combater o olival intensivo

O combate ao olival intensivo e superintensivo é, no entendimento do PEV, de grande urgência para a preservação do Alentejo, uma vez que aquela forma de cultivo, que «destrói solos e contamina águas»,  dever ser ponderada quando discutimos as alterações climáticas. Dos contactos em curso sobre esta matéria, Heloísa Apolónia garante haver «utilização desenfreada de pesticidas sem o mínimo cuidado quanto à contaminação de lençóis friáticos ou de furos». A proximidade destas culturas junto a zonas habitacionais é muito arriscada, sobretudo num quadro de grande falta de fiscalização. Exemplos que confirmam as preocupações dos ecologistas são relatos de carros que, circulando na estrada, chegam a ser pulverizados em resultado dessa falta de cuidado.

Esta questão é assinalada pelos ecologistas que, com estas jornadas parlamentares, culminam a sua campanha de denúncia do olival intensivo, no âmbito da qual percorreram os três distritos alentejanos, colocando 500 bandeiras negras a assinalar aqueles locais.

A deputada de «Os Verdes» revela que, no quadro da União Europeia é necessário considerar o afastamento das políticas ali promovidas dos interesses do ambiente e do País. Segundo Heloísa Apolónia, «a realidade que vivemos em Portugal, e no Alentejo em particular, reflecte aquilo que é a Política Agricola Comum. A UE, que se diz sempre tão preocupada com as alterações climáticas, acaba por incentivar estas práticas e paisagens. Precisamos de vozes no Parlamento Europeu que afirmem as especificades do país e que defendam os nossos interesses».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/pev-ferrovia-e-combate-ao-olival-intensivo-em-jornadas-parlamentares

O sol não é europeísta

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/03/2019)

Daniel Oliveira

Portugal é um país pobre, não tem muitos recursos naturais e ainda nos falta muito para termos a mesma qualificação que a maioria dos povos europeus. Sempre que nos comparamos com o norte da Europa, acabamos com uma frase de consolo: “Sobra-nos o sol”. Não é uma vantagem pequena. Não apenas para o turismo, mas para a nossa qualidade de vida. Permite à maioria ter muito poucas horas de trabalho sem luz natural. Na maior parte do ano o dia para nós é mesmo dia, não é uma coisa cinzenta. Não tratem isto como um pormenor. Quem já viveu num país do norte da Europa sabe que é coisa importante.

Como se sabe, a Comissão Europeia tem pouco que fazer. A crise cíclica do euro, os diferendos com Itália, a falta de democracia na Hungria e o Brexit não ocupam burocratas suficientes. Descobriram que isto de andarmos a mudar de hora não é boa ideia. Que cada país devia escolher que horário queria e ficar ali o ano todo. Mas os eurocratas perderam a cabeça: muito modernos, quiseram que o debate saísse de Bruxelas. E fizeram… um inquérito online. Votaram 4,6 milhões de pessoas. Um terço deles alemães. Suspeito que as suas preocupações com horários sejam um pouco diferentes das dos portugueses. É a natureza que garante essa diferença. Os portugueses participaram muitíssimo pouco e os britânicos, claro, ainda menos. Num momento de lazer, também eu votei neste inquérito. Devo dizer que não conheço mais nenhum português que o tenha feito.

Não foi por acaso que a última vez que dispensámos a hora de verão foi em 1933. Há coisas do Estado Novo que a democracia não mudou: o sol, que continuou a brilhar às mesmas horas para todos nós. Só mesmo os burocratas de Bruxelas se dedicariam a esta normalização

Agora foi o Parlamento Europeu que votou o fim desta mudança de hora. A Comissão, sempre com pressa em integrar tudo o que haja para integrar, do tamanho da maçã à hora da alvorada, queria que isto entrasse em vigor já em 2019. A Europa não pode esperar. Já os eurodeputados, ainda moderadamente influenciados pelas viagens que fazem aos seus países de origem, pediram que fosse só em 2021. E deixando que os Estados se preparem e façam as suas próprias consultas. Tanta gratidão.

A última tentativa de mudar de hora foi no tempo de Cavaco Silva, que dando tradução ao nosso deslumbramento provinciano – de que ele sempre foi o mais perfeito intérprete –, pôs Lisboa com a mesma hora que a civilizada Frankfurt. Acabámos por voltar atrás. A malta até se habituava a ter manhãs de inverno tão deprimentes como as dos alemães, desde que conseguisse compensar isso com os seus salários. Como isso não foi possível, quis de volta a luz com que a natureza nos compensou de todas as nossas provações. Porque havemos de perder qualidades naturais só para se sentirmos mais europeus?

Se deixássemos de ter hora de verão, mantendo apenas a hora padrão, passaria a amanhecer perto das 5h, em junho. Horas com luz que a maioria das atividades desperdiçariam. E ao final da tarde deixaríamos de ter tempo livre com luz. Dormir quando se tem luz para perder tempo de lazer com sol é, convenhamos, uma decisão um pouco absurda. Claro que podíamos deixar de ter hora de verão mas passar a ter como hora padrão a da maioria dos países europeus. Conhecemos o resultado no inverno: o sol nasce depois das 8h durante cinco meses. O nosso país não precisa de acordar à noite. Como a experiência foi feita nos anos 90 não preciso de explicar as desvantagens. Não foi por acaso que a última vez que dispensámos a hora de verão foi em 1933. Há coisas do Estado Novo que a democracia não mudou: o sol, que continuou a brilhar às mesmas horas para todos nós. Só mesmo os burocratas de Bruxelas se dedicariam a esta normalização.

António Costa respondeu com a ciência: perguntou a opinião aos astrónomos, que aconselharam a manutenção da hora de verão, propondo que a mudança de horário passasse a ser em setembro. Temos, portanto, um novo cisma. E se é para complicar, aqui estou eu para ajudar. Mais do que aos astrónomos, que como o nome indica sabem muito mais de astros do que de pessoas, devia-se perguntar a sociólogos, psicólogos, médicos e economistas. Talvez sejam os mais capacitados para responder o que é melhor para nós. E o “nós”, neste tema, é mesmo Portugal. Bem sei que há por aí muitos cartazes que dizem que “nós somos Europa” e que “a Europa é aqui”. Lamentavelmente, falta ao sol o europeísmo que se exige a qualquer democrata amante da paz. Teima em tratar-nos de forma diferente à que trata um alemão. E neste caso, coisa extraordinária, com vantagem para nós.

Respeito imenso mais de um milhão de alemães que votaram no inquérito da Comissão Europeia. Mas ao menos neste tema podemos ser nós a decidir a nossa vida. Chamem-me nacionalista do horário, mas de sol sabemos nós.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Se fosse um banco, estaria salvo

Mariana Mortágua | Jornal de Notícias | opinião

No sábado passado deu à costa das Filipinas uma jovem baleia morta. Causa da morte: choque gástrico, induzido pelos 40kg de plástico ingeridos.

Segundo a organização Ocean Conservancy, se o Mundo continuar a produzir e despejar plástico nos oceanos a esta velocidade, em 2025 teremos um quilo de plástico por cada três quilos de peixe.

Um mar de lixo. Este é só um dos desastres que o futuro nos reserva, a que se juntam as consequências das alterações climáticas, como o aumento das catástrofes naturais, a diminuição do espaço habitável, migrações em massa ou escassez de água potável.

Não se pode dizer que tenhamos chegado a este ponto por falta de aviso. Assistimos, ao longo dos últimos anos, ao sistemático desrespeito e desconsideração pelos alertas de cientistas e ativistas pelo clima, tratados como excêntricos mensageiros do apocalipse, e hoje a situação é de emergência. Não temos tempo para perder com novos negócios disfarçados de economia verde ou com discursos verdes para esconder uma economia suja. O comércio de emissões de dióxido de carbono não é mais que um negócio especulativo, as bicicletas e os carros elétricos não são o bastante, e nem vale a pena falar de aquecimento global enquanto se continua a querer tirar petróleo de baixo da terra (como queria fazer o Governo português).

A crise climática é a crise do sistema económico, do modo como se organiza e funciona. É a crise do consumo em massa e da desigualdade na distribuição de riqueza, é a crise da produção em escala e do comércio globalizado. Não é possível reduzir a produção de plástico e a emissão de gases com efeitos de estufa sem mudar o status quo do sistema económico e, por consequência, sem pôr em causa o poder e os lucros de quem o domina.

Greta Thunberg, de 15 anos, percebeu tudo o que está em causa, e por isso não falou para as elites. Não pediu favores nem licença a quem tem lucrado com este jogo do gato e do rato com um futuro da humanidade. Greta falou aos estudantes e convocou-os a tomar o destino nas mãos e parar o Mundo, forçar o Mundo a parar e ouvir. E foi ouvida. Na passada sexta-feira milhões de jovens, também em Portugal, pararam as escolas em greve e saíram à rua para dizer ao Mundo, e às elites, que esta é uma emergência e uma responsabilidade coletiva. A greve dos estudantes pelo clima não foi apenas um momento emocionante ou simbólico. Foi uma lição de sabedoria e determinação: quer queiramos quer não, esta será a causa das nossas vidas. Só nos resta agradecer-lhes e juntarmo-nos ao movimento.

*Deputada do BE

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/se-fosse-um-banco-estaria-salvo.html

Greve pelo clima: foram só flores?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/03/2019)

Na última sexta-feira houve greve e manifestações de estudantes por todo o país. Mais do que isso, foi uma greve global. A greve de estudantes pelo clima começou num ato individual de uma adolescente de 15 anos, Greta Thunberg. Descobriu na infância, porque lhe explicaram o que andávamos nós, os adultos, a fazer ao planeta onde ela terá de viver toda a sua vida. O ano passado, nas vésperas das eleições suecas, decidiu sentar-se todos os dias nas escadas do Parlamento durante o horário escolar para pressionar o Governo a adotar uma atitude mais radical no combate às alterações climáticas. Depois das eleições continuou o protesto apenas às sextas-feiras. Acabou a falar na Cimeira do Clima e a inspirar milhões de jovens. Fez um curto discurso totalmente político e bem agressivo. Devem OUVIR.

Ver milhares de secundaristas portugueses manifestarem-se é uma dose de vitaminas, para mim. Tenho quase cinquenta anos e a última vez que houve um movimento estudantil digno de nota eu estava na Faculdade. Saber que o fazem por causas que transcendem o seu ganho imediato ainda me deixa mais esperançoso. Claro que o combate a uma prova que selecionava a entrada dos alunos no ensino superior pela cultura geral que tinham ganho em casa ou a propinas que se anunciaram simbólicas e já se sabia que não o seriam ultrapassava os interesses individuais. Falava-se de democratização de acesso ao ensino superior e de igualdade de oportunidades. Mas não deixavam de ser ganhos ou perdas próximas para os envolvidos. Aquilo pelo qual se manifestaram estes jovens ultrapassa o que pode acontecer esta semana, este mês, este ano, nas suas vidas. E isso exige uma consciência política mais sofisticada.

Nunca comprei a tese de que esta geração tinha menos sentido cívico do que as anteriores. Nunca comprei, aliás, esse tese sobre qualquer geração. Em todas as gerações mudam as causas e mudam condições para agir. No caso desta, as redes sociais permitem movimentos mais inorgânicos e repentinos. Mas também criam uma maior atomização das pessoas. Libertam dos constrangimentos de quem precisava de organizações políticas, mas também impedem a construção de um conjunto de propostas coerentes. Seja como for, não imagino causa mais poderosa do que esta. Ela é, na realidade, condição para todas as outras. Como vários manifestantes escreveram nos seus cartazes, “não há planeta B”.

A questão que se levanta a estes jovens (e a nós todos) é se se conseguem organizar para lá das explosões que as redes ajudam a organizar ou se isto foram só flores. Se foram, o lastro que deixam é bom na mesma. Mas o problema do inorgânico é que tende a ser inconsequente. A não ser, claro, que deixe de ser inorgânico. O que perde em poesia ganha em eficácia

“Se há coisa que me irrita são velhos que quiseram mudar o mundo quando eram putos a dizerem mal de putos que querem mudar o mundo antes de chegarem a velhos” O twit é do humorista “Jel” e resume muitíssimo bem a irritação que me causou algum paternalismo que fui vendo em relação a este movimento. Houve três tipos de paternalismos. O primeiro foi o que se apressou a zurzir nos meninos que em vez de estarem nas aulas se baldam para ir à manif. Se dependermos de gente que pensa assim bem podemos desistir da democracia. Para eles a cidadania é coisa que se faz nas horas vagas, jovens responsáveis são os que se pensam na sua carreira e se estão nas tintas para a comunidade, a humanidade e o planeta.

O segundo paternalismo foi parecido. Foi o que explicou a estes jovens o que devem fazer na sua vida privada para serem coerentes com o que exigem aos políticos: andar de transportes públicos, comer menos carne, aprender a cozinhar, não usar plástico, reutilizar e reciclar. Não é que estas afirmações estejam erradas: há neste combate civilizacional um lado privado quotidiano importantíssimo. Mas mesmo que estes jovens fizessem tudo isto o problema ficaria quase inalterado. Porque as grandes mudanças dependem de decisões políticas que imponham regras à indústria, façam investimentos públicos, mudem políticas fiscais, mudem leis, planifiquem cidades e economias. Percebo a exigência de coerência, mas a tentativa de privatizar este debate é a melhor forma de o despolitizar. Na realidade, se quem exige isto aos jovens aplicasse para si o mesmo tipo de exigência pouco ou nada poderia dizer sobre as grandes escolhas políticas que temos de fazer em vários domínios. Em resumo: salvar o ambiente implica escolhas na vida privada, mas quando centenas de milhares se manifestam não se limitam a uma ação de sensibilização junto do cidadão, para que reciclem o seu lixo. Exigem a coragem de medidas políticas dos decisores.

O último paternalismo foi o mais simpático: tentou transformar estas manifestações num momento consensual. Quem não quer salvar o planeta? Este paternalismo tem uma base real em que trabalhar: é natural que um movimento inorgânico, sem base política, não apresente um programa de medidas bem fundamentado. E é normal que um movimento que nasce de jovens sem experiência política nem acesso aos instrumentos técnicos que permitem apresentar soluções, não vá por aí. Isso torna o seu discurso facilmente unânime. Só quando se fazem escolhas para resolver um problema que quase todos assumem como importante é que passa a haver oposição. E só quando há oposição é que sabemos que estamos mesmo a tentar mudar alguma coisa. Por agora, estes jovens só têm contra si aqueles que não gostam que os jovens se manifestem e os que negam a ciência. Universos que por estes tempos tendem a coincidir.

Tentarei também eu evitar o paternalismo. Mas não ser paternalista passa por assumir que esta luta não é apenas destes jovens. Eles são os motores dela, mas todos temos o dever de nos envolver. E há três coisas que eles devem evitar: serem fofinhos, serem uma soma de seitas e causas e alimentarem o ódio geracional.

De um já falei: evitarem ser consensuais e por isso inúteis. O passo seguinte é politizarem (não ter medo da palavra, que é nobre) o que é político. Foi o que Greta Thunberg fez no seu curto e extraordinário discurso. Não permitirem que o poder se apodere do que é uma boa marca. E isso implica falarem com quem tem propostas, soluções, alternativas. E exigirem que sejam implementadas. E nesse processo aprenderem a lidar com a contradição entre vários valores que devem ser protegidos. Sabendo que se desprezarem alguns valores sociais fundamentais o povo estará contra essas propostas e elegerá quem as recuse. Que há várias formas de fazer a mesma coisa, umas mais justas e outras mais injustas. E que o poder tende a escolher as mais injustas. E todas estas escolhas implicam ter inimigos, terem uma imprensa menos simpática, terem pessoas que estariam nas coisas e assim não estarão. Não terem medo de ser impopulares, como disse Greta Thunberg.

O risco seguinte é o oposto. Nos jornais e nas televisões vi muitos cartazes nas manifestações. Uns contra o capitalismo, outros pelo veganismo. É natural e saudável que cada um aproveite estes momentos para as suas causas. Mas a diversidade só enriquece se houver uma síntese. E isso implica um objetivo comum, que não será seguramente a revolução socialista ou a generalização da dieta vegan, mesmo que passe por transformações radicais no modelo económico e na nossa alimentação. Suspeito que não tenhamos assim tanto tempo. Se o inimigo – e há inimigos – é quem, por ignorância, ganância ou conforto, recusa a ciência, a aliada tem de ser a evidência científica. E as propostas são aquelas que os poderes que existem devem ser forçados, em muito pouco tempo, a implementar e que as sociedades conseguem aguentar.

Claro que estes dois riscos – de ser demasiado consensual ou demasiado tribal – resulta de um problema que é deste tempo e, por ser deste tempo, afeta mais esta geração: a maravilha de fazer um movimento sem organizações corresponde ao pesadelo de não ter uma direção e uma organização. O que torna muito mais difícil definirem objetivos, fazerem exigências concretas e concretizáveis a que os políticos tenha mesmo de responder e manterem a pressão sobre eles. A questão que se levanta a estes jovens (e a nós todos) é se se conseguem organizar para lá das explosões que as redes ajudam ou se isto foram só flores. Se foram, o lastro que deixam é bom na mesma e não deixará de marcar os políticos e cidadãos de agora e de depois. Mas não me parece que assustem muito os poderes que contam, que serão até capazes de esverdear um pouco o seu discurso. O problema do inorgânico é que tende a ser inconsequente. A não ser, claro, que deixe de ser inorgânico. O que perde em poesia ganha em eficácia.

O terceiro risco é isto transformar-se num combate dos jovens contra os velhos. É tentador. Primeiro, porque é justo. Estes jovens receberam o planeta desfeito e foi a minha geração, que desde os anos 80 sabe muitíssimo bem que caminha para um ponto de não retorno, que nada fez. Nem sequer por eles. A maioria preferiu não mexer um milímetro no seu conforto e deixar o inferno para os seus próprios filhos e netos. Fomos, estamos a ser, indecentes. E não devem perdoar-nos por isso. Devem continuar até assumirmos todos, não a nossa culpa, que serve de pouco, mas a nossa responsabilidade. Mas isto não deve ser uma forma de aprofundar a incomunicabilidade, mesmo que ela seja da natureza da relação de todas as gerações entre si. Porque no meio há um planeta para salvar que não pode esperar que a geração de Greta Thunberg chegue ao poder. E porque têm aliados nos adultos e terão adversários na sua própria geração, quando chegar a altura. As soluções urgentes ainda estão nas mãos dos políticos, técnicos e cientistas das gerações mais velhas. Precisam deles e dos que os elegem. Mas isso eles sabem. Estão, e muitíssimo bem, apenas a tentar envergonhar-nos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Crónica: A Revolução começa agora!

Fixem esta data: 15 de Março de 2019. Vai ser apenas um começo, mas o começo da maior reviravolta política, económica e social de sempre em termos globais.

Milhões de pessoas, maioritariamente estudantes do ensino secundário e superior, saem às ruas a exigir acção dos seus governos para travar as alterações climáticas, a maior e mais premente ameaça global que a humanidade alguma vez enfrentou e que, se não forem tomadas medidas drásticas muito rapidamente, transformará irreversivelmente a vida como a conhecemos. Reclamam o direito a um futuro, têm argumentos incontestáveis e a força da mobilização de massas como nunca antes vista e, tudo indica, em crescendo. Não vão desistir até conseguirem o que reivindicam: medidas concretas e urgentes para reduzir as emissões de GEEs (gases de efeito de estufa) a níveis que permitam limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC em relação a níveis pré-industriais.

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O movimento#FridaysForFuture ou #ClimateStrike, iniciado por Greta Thunberg, uma adolescente sueca determinada a lutar pela justiça climática contra o sistema, cresceu exponencialmente desde os protestos solitários em frente ao parlamento sueco, e promete mudar o mundo. Têm-se sucedido greves e protestos de grande dimensão na Bélgica, Austrália, Reino Unido e França, por exemplo. Para 15 de Março, a Greve Climática Estudantil está agendada para centenas de cidades em92 países.É A MAIOR GREVE DE SEMPRE.

O movimento é estudantil, mas colhe apoios sem reservas dacomunidade científica internacional e dos activistas pela justiça climática. O consenso é inequívoco: para a maior crise ecológica de sempre, as respostas dostatus quo (de falsas soluções de “capitalismo verde” a um tecnopositivismo que remete para um futuro incógnito pelo qual não temos tempo para esperar de braços cruzados) não são minimamente eficazes. O problema reside no sistema, pelo que nada menos do que mudar o sistema o poderá resolver.

EmPortugal, estão confirmados 27 locais com protestos organizados o âmbito da Greve Climática Estudantil. Cientistas e activistas têm feito palestras nas escolas e universidades para esclarecer os factos das Alterações Climáticas e sensibilizar alunos. Juntam-se professores, pais e muitos movimentos sociais comprometidos com os direitos humanos, a justiça social, a luta feminista e anti-racista, porque a justiça climática é uma luta interseccional.

As ambições destes jovens não são modestas. Pretendem, e vão conseguir,mudar o destino da humanidade. Eu acredito, até porque é a única hipótese que temos. A Revolução começa agora!

Crónica publicada originalmente no Repórter Sombra, a 15/03.

Ver original em 'Ventania' na seguinte ligação:

https://ventania.blogs.sapo.pt/cronica-a-revolucao-comeca-agora-1321039

Greenwashing? As Marchas Verdes esquecem o “factor guerra”

Depois da grande acção mediática de 15 de Março com a sua Marcha Popular pelo Clima, é oportuno chamar a atenção para a colossal omissão aí feita: ao sistema responsável não apenas pela degradação ambiental mas por retirar dela chorudos lucros; e ao historial de guerras e agressões imperialistas que devastaram e continuam a devastar o planeta. A mobilização pelo clima só poderá ser verdadeiramente útil se for capaz de incorporar essas duas questões fundamentais.

Em 15 de Março, dia da Marcha Popular pelo Clima, dezenas de milhares de jovens de vários países, seguidores da estudante sueca Greta Thunberg, expressaram a sua indignação pela indiferença dos líderes mundiais face à mudança climática. Desde Agosto do ano passado Greta, de 16 anos, manifesta-se todas as sextas-feiras em frente ao parlamento sueco pedindo mais empenho na luta contra a alarmante deterioração dos oceanos e dos glaciares.

Surpreendente (ou não) que, enquanto activistas ambientalistas com a dimensão da hondurenha Berta Cáceres ou do professor iraniano Kavous Emami - que foram mortos pela sua luta contra os poderes que tiram benefício da destruição do meio ambiente - a adolescente sueca seja apresentada como líder da luta para salvar o planeta. Segundo a Global Witness em 2017 pelo menos 207 activistas ambientais foram assassinados em 22 países. Um ano antes haviam sido outros 200, mais oito do que em 2015.

Desconhece-se a razão por que ela, oriunda de um dos principais vendedores de armas do mundo, e seus fãs preocupados com o CO2 que se infiltra nos seus pulmões, não tenham incluído o “Não à guerra” e aos negócios que giram em torno da indústria de armamento nas suas reivindicações para salvar o maltratado planeta. É incompreensível que tenham muito medo de respirar ar contaminado, mas não da ameaça real de uma guerra nuclear que mataria milhares de milhões de seres vivos e causaria um duro e prolongado sofrimento aos sobreviventes. Há um ano Trump rompeu o acordo nuclear com o Irão, e no mês passado fez o mesmo com o acordo com a Rússia, enquanto mandava investir 1,2 milhões de milhões de dólares para construir novas bombas atómicas, com o fim de que “o mundo seja mais seguro“.

Nas palavras de ordem da “Marcha” também não se encontrava igualmente qualquer menção às consequências das guerras abertas na Síria, Iémen, Iraque, Afeganistão, Sudão, Líbia (que destruíram a vida de quase 150 milhões de pessoas), nem das que o imperialismo pode começar contra a Venezuela e o Irão, nem da poluição mortal do habitat dos palestinianos, que além de serem bombardeados quase diariamente por Israel vivem uma catástrofe ecológica: milhões das suas oliveiras foram arrancadas pelos ocupantes, campos de árvores frutíferas e fazendas em Gaza desapareceram; o seu povo respira o amianto das casas arruinadas e as águas residuais não tratadas poluem o Mediterrâneo devido à destruição das infraestruturas.

A mesma “amnésia” sucede com os anúncios televisivos, que nos convidam a reciclar para proteger a terra, mas silenciam o grau de responsabilidade das grandes empresas sempre protegidas pelos Estados, que cometem 80% das agressões ao meio ambiente.
A falta de políticas por parte dos governos capitalistas para evitar um maior desastre ecológico é simplesmente uma política.

Outros falsos heróis ecologistas
Greenwashing “lavagem verde” ou pseudo-ecologismo é o termo criado para denunciar a maquilhagem no rosto de um sistema que gera e reproduz continuamente os fundamentos da destruição da natureza.

O ex-vice-presidente norte-americano Al Gore recebeu em 2017 o Prémio Nobel da Paz “pelos seus esforços para construir e divulgar sobre as alterações climáticas”, apesar de a administração Clinton-Gore ter bombardeado Jugoslávia, Albânia, Sudão, Afeganistão, Iraque , Haiti, Zaire e Libéria, utilizando todos os tipos de munições destrutivas incluindo projécteis contendo urânio empobrecido, causando a morte a dezenas de milhares de civis e provocando danos irreparáveis ​​às suas terras, ar e águas. Foi também um dos promotores da campanha de expansão da matéria-prima para biocombustível, pretendendo converter as tortitas dos mexicanos mais pobres em etanol dos carros dos abastados. Foi o medo à rebelião de milhões de famintos que arquivou, em parte, essa ocorrência.

Anos depois, em Setembro de 2014 e na véspera da Cimeira da ONU sobre o Clima, os banqueiros de Wall Street pagaram uns US $ 220.000 para publicitar no metro em Nova York a marcha organizada por empresas como a Avaaz e outras 300 organizações contra a poluição do planeta. A participação do Banco Mundial ou da Iniciativa Global Clinton nestas iniciativas, mais do que devida à “transversalidade” do movimento ecologista, pretende isso sim ganhar o controlo do mesmo, para além de ser também uma operação de marketing para “branquear” as elites mais depredadoras e sem escrúpulos do mundo, as mesmas que, por exemplo, apresentam a NATO como uma irmã de caridade: se descarga toneladas de bombas sobre nações indefesas é porque a indústria de armas é totalmente dedicada ao bem-estar dos senhores sudaneses, das senhoras afegãs.

O movimento pela “justiça climática” é uma linha de negócio capitalista muito rentável que converte a luta sensata de pessoas preocupadas com a agonia de nosso planeta em mercadoria, criando a miragem de que os fabricantes de bombas de fragmentação ou de fósforo branco irão desistir dos seus lucros, a golpe de “assinaturas” ou manifestações com música e dança.

Uma amostra dos ardis do capitalismo é, por exemplo, que: 1) os mercados de acções baixem o preço do carbono, a fim de vender o máximo, 2) os bancos não excluam as empresas mais poluentes das suas ofertas de crédito, e 3) os governos ofereçam incentivos a este sector para reduzir suas emissões poluidoras. O negócio de “salvar a terra” é muito redondo.
Devastar o meio ambiente com a guerra
Diz-se que o exército da antiga Roma, para garantir a capitulação presente e futura dos seus inimigos, cobria de sal a superfície das suas terras cultiváveis; séculos mais tarde, temos assistido como o da aviação dos EUA pulverizava florestas e plantações no Vietnam com 20 milhões de litros do herbicida Agente Laranja (produzido pela Monsanto). Hoje, 44 anos depois, há 500.000 crianças cegas, sem membros e com outras malformações graves. Poucos anos antes, as bombas atómicas de Harry Truman converteram Hiroxima, Nagasaki e 240.000 dos seus moradores em cinzas.

As guerras, além disso, produzem deslocações maciças da população, erodem o solo, desertificam as florestas. Entre os poucos dados sobre o stress ambiental causado pela agressão militar dos EUA e seus aliados no Iraque, iniciada com a Guerra do Golfo Pérsico de 1991e que continua até hoje, surgem notícias como estas:

- Em “resposta” ao incêndio de 736 poços de petróleo do Kuwait por tropas iraquianas, as forças anglo-americanas bombardearam as refinarias e campos de petróleo do Iraque que arderam durante meses, produzindo milhões de toneladas de dióxido de carbono, enxofre, mercúrio, que produziu chuva ácida numa grande área eliminando a vegetação e os animais.

- O uso de 320 toneladas de urânio empobrecido pelos Estados Unidos, que matou milhares de pessoas, produziu doenças estranhas e malformações nos bebés nascidos depois, além de contaminar hectares de terras cultivadas.

- Dezenas de milhares de aves morreram, umas por afogamento em petróleo derramado nas águas do Golfo, e outras por queda da temperatura da água, ao criar-se uma microcamada tóxica sobre a sua superfície.

- Em 2015, o Iraque experimentou a temperatura mais alta do mundo, devido à destruição do coberto vegetal e à redução da superfície de água. As graves tempestades de poeira que nascem neste país e se espalham por toda a área provocam afecções que matam centenas de pessoas em cada ano.

- Os pescadores e as crianças iraquianas que se banham no rio Tigre continuam a encontrar cadáveres nas suas águas.

No Iémen, o bombardeamento “não-televisionado” da coligação dirigida pelos EUA-Arábia Saudita e a destruição planeada de plantações, fazendas e suas infraestruturas, incluindo as estações de tratamento de águas residuais e hospitais, causaram a mais brutal crise humanitária do mundo, e uma epidemia de cólera que matou milhares de pessoas, deixando mais meio milhão gravemente doente.

Em Mianmar, o exército usa a táctica da “terra arrasada” contra os rohingya, queimando as suas casas e plantações, a fim de tornar impossível que as vítimas retornem aos seus lares.

No Sudão, a guerra causou a eliminação de milhares de animais, caçados para alimentar os homens armados. Na República Democrática do Congo a população de rinocerontes brancos, uma espécie em extinção, foi reduzida para 31 em 1996 por causa do conflito; 5.000 elefantes desapareceram, assim como metade dos hipopótamos.

Com umas quantas guerras abertas no Próximo Oriente, e a ameaça dos EUA de provocar outras para se apodera dos recursos naturais de outros povos, o movimento ecologista deve fortalecer o débil movimento pela paz e incluir a redução dos gastos militares como uma das suas reivindicações principais.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5616/greenwashing-las-marchas-verdes-olvidan-el-factor-guerra/

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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Obras de emissário provocam grave atentado ambiental em Manique

Obras de emissário provocam grave atentado ambiental em Manique
Obras de emissário provocam grave atentado ambiental em Manique
                             02 março 2019
Até que ponto a “Águas do Tejo Atlântico”, do grupo Águas de Portugal, e o empreiteiro DST- Domingos da Silva Teixeira, SA, encarregues dos trabalhos da chamada reabilitação do Emissário de Caparide, têm competência para cometer um grave crime ambiental ao atolar o livre curso das águas naturais de um rio com terras e enormes pedregulhos?
 
É no sítio da Figueirinha, em Manique de Baixo, - outrora aprazível pelas suas condições ambientais, com habitantes locais (não os novos ricos que invadiram a aldeia, agora cercada pelos condomínios privados que, porventura, nem conhecem o sítio, à semelhança de alguns autarcas) a irem com os filhos e os netos disfrutarem do contato com a natureza, sobretudo o rio de águas límpidas onde as crianças deliciavam-se em pequenos banhos, ver a água correr com pequenas espécies marinhas e o chilrear das aves.
 
A verdade é que em nome da denominada “reabilitação do emissário de Caparide” estão a cometer-se graves crimes ambientais na área, o que está a “revoltar” e a deixar “indignados” os mais atentos habitantes de Manique de Baixo, na freguesia de Alcabideche, município de Cascais.
 
Obras de emissário provocam grave atentado ambiental em Manique
Para além das terras que invadiram o rio, na sequência das terraplanagens aparentemente mal planeadas, toneladas de pedregulhos, consequência das mesmas, foram autenticamente “despejados”, obstruindo o livre curso das águas – um “espetáculo” triste e deprimente que, sem quaisquer dúvidas, atenta as mais elementares normas legais ambientais.
 
“Isto é uma vergonha, um autêntico atentado”, diz, a Cascais24, Luís Santos, um habitante local, enquanto Ana Santos, outra residente, alerta para “o consequente corte de árvores centenárias junto ao rio”, onde chegou a fazer piqueniques com os filhos. “Chamam a isto desenvolvimento?”, questiona, indignada, esta moradora.
 
Já outro morador chamou a atenção para, em caso de enxurradas, “isto constituir um verdadeiro barril de lama”, com a agravante de “poder atingir algumas habitações” que lhe estão próximas.
 
Obra orçada em 1,5 milhões de euros e um prazo de execução de 300 dias, segundo aviso, a respetiva fiscalização está a cargo de uma denominada empresa “Rioboco, SA”, embora a empreitada esteja atribuída à DST- Domingos da Silva Teixeira, SA.
 
Cascais24 procurou contatar para o número indicado no placard colocado com indicações de empreiteiro e fiscalização dos trabalhos, mas sem sucesso, porventura por ser fim-de-semana.
 
MULTIMÉDIA. 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

http://www.cascais24.pt/p/blog-page_696.html

Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”

Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
Alvo de duras críticas e de queixas de clientes, quer junto da Deco Proteste e da Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos (ERSAR), a empresa Águas de Cascais admitiu, aCascais24, registar “apenas casos pontuais de reclamações originadas pela não receção da factura”.
Em 90% das reclamações e da indignação dos queixosos estão, por um lado a ausência de receção da facturação e, por outro, os cortes que obrigam os clientes a pagar um montante que consideram “exorbitante” para que voltem a ter água em casa. A taxa de religação para o mesmo dia é de 73,47 euros, mais IVA.
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
Quase 100 euros para voltar a ter água em casa!
“É uma vergonha, um roubo”, declarou, aCascais24, um cliente que esta semana viu ser-lhe cortado o abastecimento e na loja, em Cascais, para além de ter pago facturação, que “nunca rececionou, nem sequer aviso de corte”, teve que desembolsar mais 90,37 euros para que o precioso líquido voltasse a correr nas torneiras, em casa. “E, ainda por cima, é a empresa que estipula o período em que vai fazer a religação”.
A propósito, a Águas de Cascais disse, aCascais24, que “a tarifa de abertura de água é aplicada de acordo com o tarifário em vigor e quando se verifica a interrupção do abastecimento de água por falta de pagamento, após o cliente ter falhado o prazo de pagamento previsto na fatura (1º aviso) e no aviso de corte (2º aviso)”. Segundo, ainda, a Águas de Cascais, “para além destes avisos, aos clientes com contactos registados é ainda enviada uma sms e/ou e-mail, com informação relativa ao atraso de pagamento e ao aviso de corte enviado”.
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
Na ERSAR as reclamações têm vindo a aumentar desde 2007
Na Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos (ERSAR) as queixas têm vindo a aumentar desde 2007,, a maioria relacionadas com leitura, facturação e cobrança. Só em 2016 – não são conhecidos os dados de reclamações desde então – a ESAR registou 529 reclamações contra a Águas de Cascais.
Já a Deco Proteste tem ativas e em “tratamento” 16 reclamações nos últimos meses, na sua maioria por corte indevido, valores elevados a pagar pelo cliente pela religação e problemas na receção de faturas e subsequentes avisos de corte.
Aparentemente, os problemas terão começado a acentuar-se desde que a Águas de Cascais, para os clientes que não aderiram à factura electrónica, substituiu o envio de factura em papel via CTT e contratou uma empresa para proceder à sua distribuição nas caixas de correio.
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
A Deco Proteste tem 16 reclamações em tratamento
“O parceiro contratado para a entrega das faturas da Águas de Cascais (AdC) é a Premium Green Mail (PGM), empresa especializada em serviços postais, em particular na distribuição de correspondência endereçada, devidamente licenciada pela ANACOM para prestar os serviços em causa”, explica a Águas de Cascais a Cascais24. “A PGM apresenta, entre outras vantagens, a disponibilização online, aos nossos Clientes, do estado da entrega das faturas, com informação georreferenciada e respetivo horário de entrega”, precisa, ainda, a Águas de Cascais.
Ainda de acordo com a Águas de Cascais, “neste momento registamos apenas casos pontuais de reclamações originadas pela não receção da fatura, que são devidamente analisados e acompanhados pela AdC em todas as fases do processo”.
Quanto a eventuais interrupções de abastecimento, estes, segundo a Águas de Cascais, “poderão ocorrer, de acordo com o previsto na legislação nacional e no Regulamento de Serviços do Sistema Municipal de Distribuição de Água e de Drenagem de Águas Residuais de Cascais, entre outros, por falta de pagamento, ausência de leitura, ou impossibilidade de substituição do contador”. 
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
No entanto, salvaguarda a empresa, “em todas as situações o cliente é previamente notificado, sendo igualmente enviado aviso de corte, que apenas é executado caso sejam ignoradas as informações anteriormente enviadas”. 
São, também, largas dezenas os clientes que têm vindo a queixar-se de que a água em Cascais é das mais caras do País, não obstante a sua “falta de qualidade”.
ACascais24, a Águas de Cascais responde que “de acordo com o previsto na legislação em vigor, a Águas de Cascais realiza anualmente um Plano de Controlo de Qualidade da Água para Consumo Humano, aprovado pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR)”.
“Os resultados desse controlo encontram-se disponíveis na página internet da AdC e comprovam inequivocamente a boa qualidade da Água distribuída em toda a rede pública do Concelho de Cascais, como aliás se pode constatar pelo reconhecimento reiterado pela atribuição à Águas de Cascais do Selo de Qualidade Exemplar da Água para Consumo Humano pela Entidade Reguladora”, conclui a empresa.
Segundo maior empregador no concelho, depois do município e das empresas municipais e com concessão privada garantida até 2030, A Águas de Cascais serve189 606 habitantes e, ao nível de infraestruturas de abastecimento, possui 1 captação de água superficial, 15 captações de água subterrânea, 2 estações de tratamento, 1407 km de rede de distribuição, 21 Estações elevatórias e 25 Reservatórios.
Águas de Cascais alvo de duras críticas e queixas de clientes reconhece “apenas casos pontuais de reclamações”
Já ao nível das principais infra-estruturas de saneamento conta com 781 km de coletores
e 22 Estações elevatórias.
Águas de Cascais, S.A. é a empresa concessionária, por 25 anos, do Sistema Municipal de Abastecimento de Água e Drenagem de Águas Residuais do Município de Cascais. Iniciou a sua atividade em Janeiro de 2001 e em 31 de março de 2010, o Contrato de Concessão foi aditado, tendo sido prorrogado por um prazo adicional de 5 anos, ou seja até 2030, e passando o objeto da concessão a incluir a exploração e gestão conjunta da manutenção do sistema de águas pluviais do município de Cascais.

Manifestação Contra a Destruição dos Espaços Verdes Costa Guia

50673374 515819268906476 1003223907018211328 n

Sábado, 2 de fevereiro - 16.00h

na Costa da Guia

Organizado por SOS Costa da Guia

Manifestação contra a construção privada da Associação Chabad Portugal que já está a aniquilar e a vedar 5.000 m2 de espaço verde público contra a vontade dos moradores e frequentadores da Costa da Guia.

Porquê?
O que justifica este massacre ambiental em pleno séc.XXI?
Como é que uma Câmara Municipal que assinou e publicitou um Pacto para as Alterações Climáticas e o Compromisso para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU promove isto?
Um terreno verde cedido para equipamento público e agora "oferecido" (segundo o representante da Chabad em declarações à SIC) a uma associação privada que nada fez por Cascais.
O que justifica este tratamento de privilégio contra a vontade histórica dos moradores?
O que justifica mais betão aqui? 744 eur/mês num terreno que vale milhões?
Por 50 anos renováveis indefinidamente por períodos de 25 anos?
Porque é que os moradores e frequentadores, os seus filhos e netos, animais de estimação vão deixar de poder passear livremente neste espaço verde que era repleto de árvores com largas dezenas de anos e que foram selvaticamente abatidas?
É isto "Cascais elevada às pessoas"? Esta é uma causa de Tod@s!
Apareça, traga a família, o cão e ajude-nos a defender o que resta dos espaços verdes públicos de Cascais.Obrigado pelo seu apoio e partilha.

Manifestação Contra a Destruição dos Espaços Verdes Costa Guia

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Sábado, 2 de fevereiro - 16.00h

na Costa da Guia

Organizado por SOS Costa da Guia

Manifestação contra a construção privada da Associação Chabad Portugal que já está a aniquilar e a vedar 5.000 m2 de espaço verde público contra a vontade dos moradores e frequentadores da Costa da Guia.

Porquê?
O que justifica este massacre ambiental em pleno séc.XXI?
Como é que uma Câmara Municipal que assinou e publicitou um Pacto para as Alterações Climáticas e o Compromisso para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU promove isto?
Um terreno verde cedido para equipamento público e agora "oferecido" (segundo o representante da Chabad em declarações à SIC) a uma associação privada que nada fez por Cascais.
O que justifica este tratamento de privilégio contra a vontade histórica dos moradores?
O que justifica mais betão aqui? 744 eur/mês num terreno que vale milhões?
Por 50 anos renováveis indefinidamente por períodos de 25 anos?
Porque é que os moradores e frequentadores, os seus filhos e netos, animais de estimação vão deixar de poder passear livremente neste espaço verde que era repleto de árvores com largas dezenas de anos e que foram selvaticamente abatidas?
É isto "Cascais elevada às pessoas"? Esta é uma causa de Tod@s!
Apareça, traga a família, o cão e ajude-nos a defender o que resta dos espaços verdes públicos de Cascais.Obrigado pelo seu apoio e partilha.

Câmara do Seixal exige tolerância zero à poluição industrial

O Munícipio do Seixal considera ser inaceitável a poluição registada na Aldeia de Paio Pires e frisa que os alertas à tutela, que identificam a Siderurgia Nacional como origem, remontam a 2014.

Imagem aérea da Siderurgia Nacional, com a Aldeia de Paio Pires por detrásCréditos / CMS

A tomada de posição intitulada «Melhor Qualidade de Vida – Tolerância Zero à Poluição Industrial» saiu da reunião do Executivo municipal do Seixal, liderado por Joaquim Santos, realizada ontem ao final do dia.

Em causa estão as várias queixas dos moradores relativas à qualidade do ar e a cada vez maior quantidade de pó, antes preto, agora também branco, que está a cobrir a Aldeia de Paio Pires. Nas redes sociais têm surgido vários vídeos e imagens das partículas, sobretudo em veículos e habitações, com os munícipes a afirmarem que estas provém da Siderurgia Nacional.

Com vista à resolução das questões ambientais suscitadas, a Câmara Municipal do Seixal afirma terem sido «inúmeras as diligências nesta matéria» junto da tutela, com a apresentação de estudos, desde pelo menos 2014.

O Munícipio diz, inclusive, que reuniu nesse ano com o então secretário de Estado do Ambiente, visto que «a responsabilidade, quer no âmbito do licenciamento da actividade, quer no âmbito da fiscalização das condições da respectiva exploração e seus impactos na saúde pública e no ambiente, cabe exclusivamente ao Poder Central».

Tendo isto em conta, o executivo da Câmara Municipal do Seixal exige aos ministérios do Ambiente e da Economia, bem como à Siderurgia Nacional, detida pelo grupo espanhol Megasa, «a assunção das suas responsabilidades na resolução desta situação totalmente inaceitável».

O presidente Joaquim Santos afirmou também que «a Câmara Municipal do Seixal entende a importância do desenvolvimento económico e a importância da indústria para a região e para o País, mas defenderemos sempre em primeira instância a saúde das nossas populações, bem como dos trabalhadores que laboram nestas indústrias».

Nesse sentido, o munícipio seixalense «reitera a salvaguarda dos valores ambientais e a qualidade de vida das populações como princípios fundamentais, como tem sido desde sempre a postura da autarquia, contribuindo, de forma empenhada, para a eliminação da poluição industrial»

Na terça-feira passada, o jornal Público avançou que o Ministério Público está a investigar as amostras de pó branco que foram recolhidas pela GNR a 19 de Janeiro e encaminhadas para a Agência Portuguesa do Ambiente.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/camara-do-seixal-exige-tolerancia-zero-poluicao-industrial

Mineradoras: o lucro a qualquer preço

Ainda não está feito o balanço final das perdas humanas resultantes da ruptura da barragem de Brumadinho, no Estado brasileiro de Minas Gerais. A escala da tragédia, humana e ambiental, é muito grande. E as responsabilidades não são difíceis de atribuir, desde a empresa mineira (a Vale SA, com um vasto currículo no que diz respeito a desastres) aos poderes estaduais e federais que moldam as exigências de licenciamento aos interesses de quem explora o minério e agride o meio ambiente com a mesma barbaridade com que explora os trabalhadores.

No final do ano passado, em uma reunião no centro de Belo Horizonte, conselheiros, advogados e representantes da sociedade civil e empresas de mineração decidiam o futuro da exploração de ferro na região. Eles discutiram o pedido da Vale S.A. de ampliar a capacidade da Mina Córrego do Feijão, que explora ferro em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ambientalistas viram problemas na expansão. Alguns conselheiros e a mineradora insistiram na liberação. Mesmo controverso, o pedido da Vale – que aumentaria a capacidade da mina em 88% – foi aceite em dezembro do ano passado.

Interessada em expandir seus negócios na região, a Vale sequer cuidou do que já funcionava. Hoje, pouco mais de um mês depois, uma das barragens de rejeitos daquela mina, desativada desde 2015, se rompeu. Há pelo menos três mortos, 200 desaparecidos e um impacto ambiental ainda incalculável – que pode chegar até o Rio São Francisco. Há quem diga que o desastre é ainda pior do que foi o da Samarco em Mariana.

Mais uma vez, não foi por falta de aviso. A presença da Vale na região estava na mira de entidades de proteção ambiental e dos moradores da região que, em dezembro do ano passado, protestaram contra a expansão da mineração. E o governo do petista Fernando Pimentel em Minas Gerais sabia bem que o processo de licenciamento daquela mina era problemático. Ainda no final do ano passado, o secretário de Meio Ambiente, Germano Luiz Gomes Vieira, recebeu uma carta do Fórum Nacional da Sociedade Civil na Gestão de Bacias Hidrográficas, o Fonasc, pedindo que o processo de licenciamento fosse suspenso. A entidade estava em uma disputa dentro do Copam, o Conselho de Políticas Ambientais de Minas Gerais, responsável pela licença, tentando impedir que o processo da mineradora avançasse.

A entidade constatou uma série de inconsistências no processo de licenciamento. Para começar, ele sequer seguiu os ritos tradicionais: em vez de ter as licenças prévia, de instalação e de operação, no chamado modelo trifásico, a Vale conseguiu cortar caminho por meio da chamada licença LAC1. Isso aconteceu graças a uma mãozinha do governo mineiro, que aprovou uma deliberação que garante que empreendimentos de mineração de grande porte, antes classe 6, fossem enquadrados como classe 4, que tem um procedimento mais simples.

O Fonasc classificou o pedido de expansão – que aumentaria em 88% a capacidade de extração, inicialmente prevista para seguir até 2032 – dentro da “classe 4″ como uma “insanidade”. É a mesma classe em que está, por exemplo, a problemática mineração da Anglo American, também em Minas Gerais. “É gravíssimo porque, na realidade, são de grande porte e grande potencial devastador”, disse Maria Teresa Corujo, conselheira ambiental, durante a reunião que decidiu pela liberação do projeto.

Em uma carta enviada no dia 30 de novembro de 2018, o Fonasc, do qual Corujo faz parte, pediu a Breno Esteves Lasmar, presidente da Câmara de Atividades Minerárias, a retirada da pauta do pedido de licenciamento da Vale. Além da “insanidade” de ter o seu impacto minimizado, o pedido da mineradora tinha problemas técnicos – não havia apresentado a correta delimitação da área, por exemplo.

Os pareceres também minimizaram os impactos ambientais ao dizer que o empreendimento ficaria em uma área já alterada pelo homem. Ignoraram, porém, que a expansão atingiria o Parque Estadual da Serra do Rola Moça, terceiro maior do país em regiões urbanas. Ao atingir o parque, coloca em risco as mananciais que a unidade de conservação protege – cursos d’água como Taboão, Rola Moça, Barreirinho, Barreiro, Mutuca e Catarina; todos servem ao abastecimento da população da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Secretaria do Meio Ambiente classificou as reclamações como ‘questões meramente procedimentais’.

Yuri Rafael de Oliveira Trovão, presidente suplente da Câmara de Atividades Minerárias, no entanto, decidiu seguir com o processo. A entidade, então, subiu um degrau e escreveu ao secretário de estado de Meio Ambiente de Minas Gerais, Germano Luiz Gomes Vieira, alegando “necessidade imediata do controle de legalidade da decisão” de Trovão.

O parecer da secretaria de Meio Ambiente mineira foi lido na reunião da Câmara de Atividades Minerárias. Para Germano, os problemas apontados pelo Fonasc eram irrisórios, “questões meramente procedimentais”, e a mudança do tipo de licença requisitada pela Vale tinha sido devidamente anunciada à sociedade por publicação no Diário Oficial do Estado. Dizia ainda que não haveria “qualquer prejuízo ambiental” se o procedimento seguisse os ritos e fosse discutido durante o encontro.

Ali, dia 11 de dezembro, cinco representantes de órgãos do Governo do Estado de Minas Gerais, três de entidades ligadas ao setor produtivo mineiro e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG) votaram a favor do licenciamento, enquanto apenas o Fonasc votou contra. Um mês depois, a barragem da Vale em Brumadinho se rompeu.

Segundo a secretaria estadual do Meio Ambiente, “o empreendimento, e também a barragem, estão devidamente licenciados”. O governo diz que a barragem “não recebia rejeitos desde 2015 e tinha estabilidade garantida pelo auditor, conforme laudo elaborado em agosto de 2018″.

Comunidades reclamam há mais de uma década

Durante a reunião que concedeu a licença à Vale, moradores de Casa Branca contaram os problemas que enfrentam, como a crônica falta de água que assola a comunidade.

Alguém vive aqui sem água? Nós estamos vivendo uma crise hídrica já, à beira de um colapso hídrico. Na hora que faltar água, nós vamos nos lembrar do dia de hoje, de tudo que está sendo falado aqui e do que possivelmente vai ser votado aqui hoje. quem está falando que não vai faltar água? A empresa responsável por Bento Rodrigues, a empresa responsável por Mariana, a empresa responsável pelo rio Doce. Vocês se esqueceram disso?”, disse Ka Ribas, uma das representantes da comunidade.

Em dezembro do ano passado, eles chegaram a fazer uma manifestação contra a concessão de novas licenças de mineração na região.

Moradores da região reclamam há mais de 10 anos sobre desmatamento ilegal e a má qualidade da água contaminada pela mineração – a comunidade registra um alto número de problemas dentários por conta no minério de ferro na água.

O minério de ferro é extraído do local desde os anos 1950, e a Vale S.A. opera a mina desde 2003. Foi em 2015 que entrou com o pedido para ampliar a capacidade das minas Córrego do Feijão e Jangada, respectivamente nas cidades de Brumadinho e Sarzedo. Como é praxe nesse tipo de licenciamento, são necessários estudos de impacto e a análise de ambientalistas e pesquisadores para calcular a viabilidade de um empreendimento – e seus respectivos custos ambientais e sociais. Muitos desses estudos são problemáticos.

E vale lembrar: as mineradoras estão entre as principais interessadas em afrouxar as regras de licenciamento ambiental, que está em discussão na Câmara. E o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já mostrou que é da turma que defende a “agilidade” no processo de licenciamento.

Fonte: https://pcb.org.br/portal2/22098/mineradoras-o-lucro-a-qualquer-preco/[1]

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References

  1. ^ https://pcb.org.br/portal2/22098/mineradoras-o-lucro-a-qualquer-preco/ (pcb.org.br)
  2. ^ endereço (www.odiario.info)
  3. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Aquecimento revela paisagem ártica escondida durante 40 mil anos (FOTO)

Urso polar no Ártico (imagem de arquivo)
© AP Photo / Subhankar Banerjee, File

Após o derretimento de uma geleira na ilha canadense de Baffin, surgiram paisagens que estavam enterradas sob o gelo do Ártico durante cerca de 40.000 anos, diz um estudo de pesquisadores da Universidade do Colorado em Boulder (EUA), publicado na revista Natural Communications.

Um comunicado, divulgado no site da universidade, relata que em agosto passado os especialistas coletaram 48 amostras de plantas em 30 locais a cerca de 1 km da atual camada gelada, na área revelada pelo degelo — para determinar sua idade.​

Uma paisagem escondida por mais de 40 mil anos. O estudo recém-publicado analisa a vegetação coletada nos extremos das camadas de gelo ártico. Os resultados sugerem que as temperaturas do verão deste século são as mais altas dos últimos 115 mil anos.


 

A análise mostrou que a vegetação antiga tem 40.000 anos de idade — o que, a propósito, é o valor mais alto que a datação por radiocarbono pode determinar.

No entanto, o líder do estudo, Simon Pendleton, do Instituto de Estudos do Ártico e da região Alpina da universidade mencionada, esclareceu ao portal Live Science que as plantas encontradas podem ser até mais antigas. O trabalho especifica que as temperaturas deste ano, que possibilitaram o derretimento, já ocorreram no local há 115 mil anos.

"O Ártico está aquecendo duas ou três vezes mais rápido que o resto do mundo, então naturalmente as geleiras e as capas de gelo vão reagir mais rapidamente", afirmou Pendleton.

No entanto, ele acrescentou que os especialistas "nunca antes tinham visto nada parecido".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019012913204881-artico-canada-paisagem-gelo-plantas-foto/

Iminente catástrofe global está mais próxima do que imaginamos?

Cientistas do serviço meteorológico da Universidade de Exeter, na Inglaterra, descobriram que em 2019 a concentração de dióxido de carbono na atmosfera do planeta seria uma das mais altas em todo o histórico das observações.

As causas dessa concentração seriam tanto o aumento das emissões antropogênicas como a redução da eficácia da absorção de dióxido de carbono pelos ecossistemas. O resultado das projeções é relatado no portal Phys.org.

Segundo os pesquisadores, o monitoramento atmosférico realizado no Observatório Mauna Loa, no Havaí, mostrou que desde 1958 a concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou em 30%. O acúmulo é causado pelas emissões da queima de combustíveis fósseis, desmatamento e produção de cimento.

Grande parte do gás de efeito estufa é capturada por sumidouros naturais de carbono, incluindo as plantas, sem as quais o aumento da concentração de dióxido de carbono seria ainda maior. Conforme a previsão, a absorção será menos eficaz em 2019, o que levará a um aumento recorde no conteúdo de dióxido de carbono na atmosfera da Terra.

As flutuações anuais da temperatura da água no oceano Pacífico é um fator determinante nesses processos. Durante os anos quentes, muitas regiões da Terra se tornam secas e a falta de umidade afeta a capacidade das plantas para absorverem carbono da atmosfera.


Em 2018, o oceano Pacífico era mais frio. Em 2019, o aquecimento aumentará o teor de dióxido de carbono em cerca de 2,75 partes por milhão (ppm). Assim, a concentração média será de 411,3 ppm com um máximo de 414,7 ppm. Todos os anos a concentração total de dióxido de carbono está aumentando.

Quanto maior o teor de dióxido de carbono no sistema atmosfera-oceano, tanto maior é o aumento na temperatura média da Terra.

Devido ao crescente acréscimo na quantidade de energia térmica na atmosfera da Terra, até 2100 a tendência é que haverá mais e mais intensos desastres naturais, erosão do solo, aumento do nível do mar e perdas significativas de produtos agrícolas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019012813201990-iminente-catastrofe-global-proxima/

Brumadinho, licenciamento ambiental e o lucro imediato

Para acompanhar o desastre ocorrido em Brumadinho, primeiro é preciso entender o básico do processo de uma atividade de mineração.

A obtenção do minério compreende as etapas de lavra – que é o processo de retirada do minério da jazida – e beneficiamento, que consiste no tratamento para preparar, concentrar ou purificar minérios, visando extrair o material de interesse econômico, ou seja, o produto final da atividade mineradora. A lama de rejeito é, resumidamente, uma composição de resto de solo com todo o material químico utilizado para segregar o produto final, portanto, tóxica tanto pela sua composição quanto pela concentração e volume dos compostos químicos presentes.

Em segundo lugar, há de se diferenciar a barragem de rejeitos de uma barragem hidráulica. As barragens constituídas com rejeitos se comportam basicamente como aterros hidráulicos (aterro de material fluido) e não para reter cursos d’água. O objetivo final da barragem de rejeitos é sedimentar, compactar ou simplesmente endurecer o fluido dentro de um espaço impermeável para que não haja infiltração e contaminação do solo e dos corpos hídricos (subterrâneos ou superficiais) tornando aquele pedaço de chão inócuo porém seguramente isolado. É exatamente o inverso disso que ocorre com o rompimento da barragem. Essa sedimentação passará a ocorrer no leito do rio, afinal, o rejeito é mais denso e pesado do que a água, que não poderá simplesmente dissolvê-lo.

Rompimento da barragem em Brumadinho causou estragos de grande monta
Foto: Isac Nóbrega/PR/Agência Brasil

Existem vários tipos de Barragens de Rejeito. A maioria das utilizadas no Brasil são as que utilizam o método de alteamento para montante do dique de lançamento, que são mais suscetíveis a rompimentos do que à jusante. O rompimento pode ser por danos no dique, quebra de talude, ou simplesmente por piping (estouro dos canos de drenagem). Todos os rompimentos anteriores foram em estrutura desse tipo. Assim, após a tragédia em Mariana, o Estado de Minas Gerais, através do Decreto Nº 46.993 de 2016, determinou a suspensão de licenciamento ambiental de novas ou ampliação de antigas barragens de contenção de rejeitos nas quais se pretenda utilizar o método de alteamento para montante; à exceção de trâmites que existiam antes do decreto mediante a realização de Auditoria Técnica Extraordinária de Segurança de Barragem.

Questionamentos surgem diante de situações trágicas como as que estamos vivendo. Diante do encerramento do depósito de rejeitos e instalação do reuso de material depositado, a Auditoria Técnica foi realizada na barragem que se rompeu em Brumadinho? Se sim, como as causas da ruptura não foram identificadas? O Licenciamento Ambiental é o grande inimigo do desenvolvimento econômico nacional? Se tivesse sido cumprido à risca, ao menos o alarme teria soado e salvado centenas de vidas? O que é mais dispendioso, cumprir condicionantes ou remediar catástrofes?

O Presidente da República, desde a campanha eleitoral, preconizou o Licenciamento Ambiental como um problema a ser resolvido, de forma equivocada e perigosa. O novo governo já propõe revogar vários decretos que tratam do tema, assim como retirou a atribuição do licenciamento do Ministério do Meio Ambiente. O novo ministro fala em redução de prazos, mas não menciona o fim do arrocho e cortes na área, novas contratações e melhoria de equipamentos e infraestrutura. Infelizmente, o discurso nacionalista pouco se vê implementado nessa área. Em vez de tratar nossas barragens hidrelétricas e de rejeitos como questão de segurança nacional, criminalizar servidores os taxando de ideológicos e ineficientes e afrouxar regulamentações para destravar licenças parecem ser o caminho que o governo escolheu.

Sistemas à jusante são de mais fácil operação e mais seguros, porém levam mais tempo para serem construídos por motivos técnicos que não vem ao caso. Para uma operação de extração mineral que dura séculos, tempo não é bem um fator limitante. Mas existe um fator de vantagem da montante em relação à jusante, alinhada com a política ambiental do novo governo: menos investimentos, ou vulgarmente conhecido como mais lucro imediato.


por Marcela Rodrigues, Engenheira Ambiental e mestranda em Ciências Mecânicas pela UnB   |

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/brumadinho-licenciamento-ambiental-e-o-lucro-imediato/

Obra na Arrábida já foi embargada. Agora falta apurar responsabilidades

A CDU sinaliza o embargo da obra na escarpa da Arrábida, no Porto, como uma acção «legítima» e diz que é preciso esclarecer todas as fases do processo, sem penalização dos munícipes e do erário público.

A Ponte da Arrábida foi classificada em 2013 como Monumento NacionalCréditos / CC BY-SA 3.0

A acção movida pelo Ministério Público (MP) junto do Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto teve efeito ontem. A par do embargo da obra, a jusante da Ponte da Arrábida, foi determinada a «suspensão de licenças e autorizações» e, avança a Lusa, a condenação da Câmara Municipal do Porto a «demolir, a suas expensas, as obras efectuadas em violação da lei».  

O MP contesta autorizações dadas pela autarquia à obra desde 2009, sem os pareceres da Agência Portuguesa do Ambiente e da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo.

A CDU refere em comunicado que a acção sinaliza uma alteração da condição «deste longo e enevoado processo», que «deixa de estar apenas ao serviço da instrumentalização polémica por parte dos principais partidos e responsáveis políticos [...], passando a um escrutínio judicial que sempre defendemos como determinante para o apuramento da verdade e no sentido do desfecho do processo».

A empreitada da empresa Arcada, que consta da auditoria preliminar à Caixa Geral de Depósitos como um dos maiores devedores do banco público, com 8,2 milhões de euros em Dezembro de 2015, teve início em Fevereiro de 2018. 

Os eleitos da coligação PCP-PEV reiteram que é necessário o «esclarecimento cabal de todas as fases», desde a propriedade dos terrenos aos pedidos de informação prévia e respectivos processos de licenciamento, e que cabe à autarquia tomar diligências nesse sentido. Desde logo perceber os critérios que levaram a que sucessivos vereadores e presidentes municipais tenham viabilizado esta obra. 

A CDU espera «se faça justiça» e sejam responsabilizados, tanto os decisores políticos envolvidos como os promotores privados, sem penalização dos munícipes e do erário público.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/obra-na-arrabida-ja-foi-embargada-agora-falta-apurar-responsabilidades

Um desastre ecológico em acelerado agravamento

Na «Science et Vie» deste mês dão-se escassas esperanças quanto ao sucesso da luta contra a proliferação dos plásticos um pouco por todo o lado, e nos oceanos em particular. Uma investigadora da Universidade de Toulouse coloca o desafio um pouco nestes termos: o projeto Clean Up, que irá a iniciar a limpeza do imenso Great Pacific Garbage, conseguirá recolher, em cinco anos, entre 100 e 150 mil toneladas de dejetos de tamanho superior a 1 centímetro. Ora, anualmente, chegam aos oceanos 100 milhões de toneladas, ou seja cerca de mil vezes mais do que esse objetivo quinquenal. Pior ainda: a quantidade maior de resíduos plásticos até nem reside nas garrafas e outros objetos, que tanto nos impressionam, quando nos mostram esse continente à deriva no meio do Pacífico. São partículas mais pequenas, resultantes da fragmentação suscitada pelos raios ultravioletas e pela ondulação, que se misturam com o plâncton e entram na cadeia alimentar pondo-a em sérios riscos.
O panorama é, de facto, muito grave: todos os anos são produzidos 400 milhões de toneladas de plásticos, três quartos dos quais acabam no lixo, muitas vezes após uma única utilização. E prevê-se a duplicação desse volume de poluentes nos próximos vinte anos, sobretudo com o contributo dos países em vias de desenvolvimento.
Face ao desastre ecológico, já hoje percetível, nenhuma solução atual parece eficiente: nem a recolha de plásticos nos oceanos, nem a sua reciclagem, nem as enzimas preparadas pelas empresas biotecnológicas. A única e verdadeira alternativa reside na fonte: estaca-la, ou seja, proibir a sua produção ou restringi-la às utilizações justificáveis, que sejam imediatamente substituídas por novos materiais não poluentes, a serem futuramente disponibilizáveis por quem está a porfiar na sua criação..
A dimensão do problema não permite, que se procrastinem as difíceis, mas imprescindíveis, decisões a nível internacional!

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/um-desastre-ecologico-em-acelerado.html

Áreas Protegidas: nem municipalização nem status quo

paulo trigo pereira 03Décadas de sub-financiamento do Orçamento de Estado e incapacidade de executar os fundos comunitários exigem repensar o modelo financeiro das áreas protegidas. Não é possível manter o status quo.

14/2/2017 in 'Observador'

1. A temática da descentralização, ocupa um espaço essencial no programa do actual governo como peça central da reforma do Estado. Ela deve ser feita, mas bem feita. O caso particular das áreas protegidas tem estado com o ministro do Ambiente que vai avançar, sem alteração legislativa, com uma experiência piloto na descentralização da gestão do parque natural do Tejo internacional. O tema é relevante pois tem havido uma grande incúria nacional na gestão destas áreas e também porque os partidos à esquerda do PS já sinalizaram que estão contra o que consideram ser a “municipalização” da gestão dados os conflitos de interesses existentes entre conservação da natureza e biodiversidade e promoção urbanística do território.

É sabido que Portugal é um dos países mais centralizados da União Europeia. A descentralização é importante, mas exige que se responda simultaneamente às questões; descentralizar o quê, porquê, para quê e como (financiar)? E exige que se compare com os previsíveis efeitos das alternativas à descentralização: que seriam a centralização num organismo do Estado (com ou sem desconcentração em entidades territorialmente mais pequenas) ou um modelo misto. No caso das áreas protegidas (parques e reservas naturais, etc.) o que está a ser considerado é a passagem de um modelo centralizado no ICNF (ex ICNB e ex ICN), para o que designo de modelo misto de dominância autárquica, pois a direção do parque seria presidida por um autarca (de um dos municípios abrangidos pelo parque), o diretor executivo nomeado pelo ICNF e um terceiro elemento da sociedade civil (por ex. de uma ONGA).

2. O actual modelo de gestão dos parques e áreas protegidas é claramente insuficiente por falta e carências de formação de recursos humanos (ainda neste OE reforçaram-se os vigilantes da natureza, ainda insuficientes, e no verão passado ardeu grande parte do parque Peneda Gerês), por clara falta de recursos financeiros e humanos, e por inadequado modelo de governança e de gestão dos parques. O actual ICNF não só tem sofrido uma diminuição acentuada de recursos, como teve problemas de gestão já assinalado em auditoria do Tribunal de Contas. Já em 2008 era referido que “alegadamente, a carência de meios financeiros e humanos, o acréscimo de atribuições cometidas ao ICN[B] e os atrasos ocorridos nas candidaturas e reembolsos dos projectos co-financiados justificam o baixo grau de execução”. Décadas de sub-financiamento do Orçamento de Estado e incapacidade de executar os fundos comunitários exigem repensar o modelo financeiro das áreas protegidas. Não é possível manter o status quo.

Quanto ao modelo de gestão, se este já era centralizado no início do milénio, a partir de 2008 os parques, que tinham um diretor, passaram a ser agrupados, três ou quatro, sob o mesmo diretor de serviços do ICNB. Isso significou mais centralização e que a sua gestão tornou-se ainda mais efémera conforme atesta um excelente parecer do CNADS. Ainda no verão de 2016 pude confirmar in loco a ausência de informação e sinalética do parque natural da Arrábida quer no clube de campismo local quer no turismo de Vila Nogueira de Azeitão. “Pois é, há muitos turistas estrangeiros que pedem mas não temos… já pedimos que nos enviem.” O trânsito na zona das praias nos meses de verão é por vezes caótico (leia-se bloqueado) e em caso de emergência só pode mesmo acontecer uma tragédia. Esta a triste realidade de muitos dos nossos parques naturais não valorizados, dinamizados e preparados para o turismo da natureza.

3. Uma questão essencial da descentralização é antes do mais saber o que deve ser centralizado e descentralizado. Temos museus nacionais e municipais; parques nacionais e municipais, património do Estado, regional ou municipal. Há património do Estado que deve permanecer na esfera do Estado por ter valor nacional e internacional (e.g. Mosteiro dos Jerónimos) e há património do Estado, que tem um valor sobretudo local e que teria mais sentido a propriedade municipal, quer a sua requalificação e utilização seja em gestão direta ou concessionada a privados, pois isso permitiria a racionalização da sua utilização de acordo com as preferências locais (e.g. a Ala Norte do Santuário do cabo Espichel agora no programa REVIVE). O mesmo com as áreas protegidas. Na legislação os parques ou as reservas naturais podem ser classificados como nacionais, regionais ou locais.

Numa carta a Madison, dizia Thomas Jefferson “A Terra pertence em usufruto aos vivos”. Adicionamos que os vivos que usufruem dos atuais parques naturais, não são apenas os residentes nos municípios onde se situam, mas todos os não residentes nacionais e estrangeiros. Este o primeiro equívoco que importa desfazer: as áreas protegidas têm um valor intrínseco e um valor para a comunidade humana que não se restringe aos residentes nos municípios abrangidos. Daqui resulta que o poder de autoridade máxima sobre elas deve residir no Estado e não ser descentralizado para municípios ou comunidades intermunicipais (que aliás não coincidem com nenhumas áreas protegidas). Não esqueçamos que vários parques foram estabelecidos para evitar a predação humana. Na Arrábida, foi constituída primeiro uma reserva natural (1971) e em 1976 foi criado o Parque Natural reconhecendo-se logo no artº 1 do diploma a insuficiência das medidas previstas aquando da criação da reserva. É claro que este poder de autoridade deve ser exercido para a preservação e valorização dos valores paisagísticos, botânicos, zoológicos, geológicos bem como para promover as atividades económicas, culturais e sociais compagináveis com esses valores.

4. Se é certo que nestas quatro décadas muito foi feito, também é certo que o atual modelo financeiro e de gestão das áreas protegidas é inadequado e está esgotado. O atual ICNF não desempenha bem a sua função. Não tenho ainda ideias claras sobre o melhor modelo, mas deixo aqui a minha reflexão presente. A dificuldade reside em que, como refere o CNADS, temos de olhar para três dimensões integradas: i) modelos de governança, ii) modelos de sustentabilidade socioeconómica e valorização do património natural e iii) modelos de financiamento. Na governança vejo claros benefícios em envolver os municípios e agentes locais e em caminhar para um modelo misto de governação (com participação de Estado, municípios e sociedade civil), mas com controlo do Estado. Adaptaria o modelo misto proposto pelo ministro do Ambiente colocando o representante do ICNF a presidir. Integraria também um representante da região de turismo respetiva, que traria vários benefícios: articulava dois ministérios (ambiente e economia/turismo), mobilizava recursos financeiros do turismo, resolvia parcialmente o problema das atuais regiões de turismo (desde 2012 coincidentes com as NUTS II, mas que no que toca a Norte, Centro, e Lisboa, não têm identidade própria), dava a maioria da decisão ao Estado (dois votos em quatro com voto de qualidade do presidente). Daria maior poder executivo ao representante dos municípios para as candidaturas a fundos comunitários, na preparação, na execução e nos benefícios que daí advêm. Há também que reavaliar as atribuições e competências que têm de estar centralizadas e outras que podem e devem ser mistas ou descentralizadas. Logo na criação do parque da Arrábida, por exemplo, a vigilância e policiamento do parque estava atribuída a guardas florestais, funcionários do Serviço nacional de parques, funcionários das câmaras municipais e vigilantes da natureza do corpos de vigilantes do parque. O IMI é receita municipal pelo que a intervenção municipal claramente se justifica. Obviamente que não pode haver custos acrescidos para os municípios sem os correspondentes recursos. O mérito de Matos Fernandes foi ter colocado na agenda a necessidade de repensarmos as nossas áreas protegidas. Não discordo do método escolhido — uma experiência piloto sem alterações legislativas e a avaliar – embora discorde do modelo e também tema o limbo em que as restantes áreas protegidas se irão manter enquanto a experiência se realiza. O debate sobre a descentralização, o modelo de governação, de atribuições e competências e de financiamento das áreas protegidas deve prosseguir, tendo como pano de fundo a boa reflexão da CNADS, porque a situação atual não é nem recomendável nem sustentável.

Professor Catedrático do ISEG e deputado eleito como independente nas listas do PS de Setúbal e membro do grupo parlamentar. As opiniões expressas apenas vinculam o autor.

Crónica: Teremos sempre Paris?

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[Crónica publicada no Repórter Sombra.]

No rescaldo de mais uma Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas), a COP24, ocorrida em Dezembro na Polónia, ousemos perguntar o que nenhuma televisão ou jornalmainstreamperguntou: que avanços fez a maior autoridade mundial no tema em relação à mais premente ameaça global? A resposta é triste. Nada. Zero. Bola. Nicles.

Além de relatórios com dados científicos que apontam as balizas máximas a que podemos permitir que o planeta aqueça (“muito baixo dos 2°C”), cálculos optimistas e prazos demasiado permissivos para nos desviarmos do caminho do descalabro, o IPCC queda-se entre a impotência e a inépcia para realmente mudar o curso fatalista para que o capitalismo nos atirou.

Este organismo da ONU existe há trinta anos e o melhor que conseguiu até agora foi forjar acordos que têm sido incumpridos pelos signatários e desprezados por países que são responsáveis por grande parte da quota de emissões de gases de efeito de estufa. Os Estados Unidos da América anunciaram a saída do Acordo de Paris em Junho de 2017, o Brasil já deu sinais no mesmo sentido, e todos os países cuja economia depende dos combustíveis fósseis rejeitaram o último relatório do IPCC, divulgado em Outubro: EUA, Rússia, Arábia Saudita e Kuwait.

Em 1997, os signatários do Protocolo de Quioto estabeleceram a meta de redução de 18% (20% na União Europeia) das emissões de gases com efeito de estufa em comparação com os valores de 1990. Os EUA não assinaram e desde então Canadá, Rússia, Japão e Nova Zelândia ficaram fora do acordo, pelo que este compromisso só abrange cerca de 14% do total de emissões. Em 2014, a UE ratificou o Acordo de Paris, comprometendo-se com a meta vinculativa de 40% de redução (face a 1990) das emissões até 2030. Como expectável, este acordo de boas intenções não teve impactos significativos fora dos documentos e resultou em coisa nenhuma.

Ainda que fossem cumpridas as metas propostas por um documento que só abrange 55% das emissões de gases de efeito de estufa, as suas repercussões seriam insuficientes. Mas não é o caminho da redução de emissões que o mundo está a tomar. 2018 foi o ano recordista de emissões, com a concentração de CO2 mais elevada dos últimos três milhões de anos. Os vinte anos mais quentes da História ocorreram nos últimos vinte e dois anos. Ao passo que os governos neoliberais enchem manchetes de slogans apelativos a falar da descarbonização, de empregos verdes e de energias renováveis, na prática continuam a apoiar as indústrias petrolíferas e as actividades delas directamente dependentes, a concessionar áreas para prospecção de petróleo e gás, a fomentar a massificação do transporte aéreo, a penalizar os trabalhadores com taxas e impostos sobre veículos e combustíveis, a negligenciar a premência do combate às alterações climáticas e a não apresentar alternativas viáveis para as questões energéticas, alimentares, para a mobilidade ou para as crises sociais decorrentes ou agravadas pela crise universal ambiental e climática.

António Guterres, secretário-geral da ONU, na abertura da COP24 pediu a governos e investidores que "apostem na economia verde, não no cinzento da economia carbonizada". Fê-lo na Polónia, país com uma actual dependência energética de 80% do carvão, na cidade anfitriã de Katowice, cuja mais significativa actividade económica é a exploração de reservas deste combustível fóssil. As próprias reuniões da conferência tiveram lugar numa mina de carvão desactivada e um dos patrocinadores oficiais do evento é uma empresa de exploração de carvão. O presidente polaco, na mesma sessão de abertura, faz a apologia da utilização do carvão pela via da “segurança energética” (leia-se lucro) e segue a sua performance de demagogia extrema ao afirmar que isto não conflitua com a protecção do clima, e que "os diferentes países devem abordar a política económica e climática de uma maneira realista, e evitar situações que ameacem a estabilidade das suas sociedades", já que, embora "a acção climática represente muitas oportunidades e benefícios económicos, sociais e de saúde, também gera custos, especialmente em regiões tradicionalmente baseadas nos combustíveis fósseis". Ou seja, num evento que deveria centrar-se na ciência e nas políticas necessárias a evitar o colapso civilizacional, a palavra mais repetida continua a ser economia e o tema central continua a ser o capital.

Observemos, então, temas colaterais de somenos importância, como vidas humanas. Estima-se que a média anual de deslocados por mudanças climáticas entre 2008 e 2016 chegou a 25,3 milhões e, a continuar a este ritmo, as alterações climáticas serão responsáveis por 200 milhões (sim, duzentos milhões!) de refugiados climáticos até 2050. A Organização Mundial da Saúde estima sete milhões de mortes anuais por causas directamente relacionadas com a poluição. Ainda que observemos apenas a perspectiva capitalista, a mesma OMS estima que, nos 15 países que emitem maior quantidade de gases com efeito de estufa, os impactos na saúde da contaminação do ar custem mais de 4% de cada PIB, ao passo que as acções para alcançar as metas do Acordo de Paris custariam cerca de 1% do PIB mundial. Dá que pensar? Pensemos mais um pouco.

Sabemos que apenas100 empresas são responsáveis por 71% das emissões globais de gases de efeito de estufa. Estamos a destruir a atmosfera (e a civilização como a conhecemos) para que muito poucas pessoas tenham acesso a lucros estratosféricos. Essas pessoas são tão mortais quanto o resto de nós, os seus descendentes e os nossos. A bem de quê? Do lucro imediato, da sustentação de um sistema que assenta na exploração de quase todos por parte de uns poucos? O lucro não pode continuar a ser colocado acima da vida de biliões de pessoas!

O máximo que podemos permitir que as temperaturas médias globais subam em relação a níveis pré-industriais é 1,5ºC (e até 2018 a subida média registada já é de 1ºC). Para isto ser possível, é necessário cortar as emissões em cerca de 50% nos próximos onze anos, até 2030, e atingir a neutralidade carbónica em 2100. Isto não significa que não existam já consequências graves neste momento (a abundância anormal de fenómenos climáticos extremos, secas e fogos florestais devastadores, a subida do nível médio da água do mar, com impacto directo na vida de pelo menos metade da população mundial), significa sim que, a partir deste limite, a vida nos moldes em que a conhecemos hoje será insustentável. Os efeitos das alterações climáticas e da geopolítica de um mundo orientado globalmente para produção de lucro são directamente responsáveis por crises migratórias, por escassez alimentar, por guerras e por crises sociais e humanistas. As populações mais vulneráveis são as mais pobres e fustigadas e, dentro destas, as mulheres são sempre o grupo mais fragilizado. Além de irracional, é eticamente aceitável que continuemos a permitir, impávidos e serenos, ao homicídio em massa da Humanidade?

Nem todos estamos de braços cruzados a aguardar o ponto de não retorno. O número de activistas envolvidos em protestos contra as alterações climáticas e a exigirem aos seus governos acções concretas e drásticas na redução de emissões de gases de efeito de estufa tem sido surpreendentemente grande, dizem os media, mas este factor surpresa só existe por parte de quem não reconhece a centralidade e urgência desta luta. As consequências das alterações climáticas são catastróficas para todo o planeta e o tempo de agir é agora, pelo que na verdade, do ponto de vista do activismo pela justiça climática, muitos mais (virtualmente, todos) são necessários.

A luta não é vã. Em Portugal, com apenas três anos de luta coordenada entre a sociedade civil e pequenas organizações ambientalistas, foram cancelados 13 dos 15 novos contratos previstos em 2015 para exploração de hidrocarbonetos (e os dois ainda activos, para exploração de gás nas zonas de Aljubarrota e Bajouca serão também suspensos), o que significou uma derrota estrondosa do plano de um governo que tem apoiado de forma despudorada as grandes empresas petrolíferas. Contudo, isso é apenas uma ínfima parte das lutas que têm de ser travadas em todo o mundo, porque a única forma de não mudar o clima de forma insustentável é mudar o sistema. Não há forma de a civilização como a conhecemos ultrapassar isto de outra forma. Não nos podemos dar ao luxo de perder esta luta.

Ver original em 'Ventania' na seguinte ligação:

https://ventania.blogs.sapo.pt/cronica-teremos-sempre-paris-1308193

Querem-nos ignorantes

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 05/01/2019)

pml

Pedro Marques Lopes

Em outubro do ano passado, cientistas avisaram que o consumo excessivo de carne está a causar uma catástrofe ambiental. É fundamental que o consumo de carne de vaca seja reduzido em 90% e o de carne de porco e de leite e seus derivados baixe drasticamente. A desflorestação para a criação de gado, com as emissões de metano pelas vacas e a utilização de fertilizantes cria tantas emissões de gás com efeito estufa como todos os carros, camiões e aviões juntos.

Estes dados constam de um artigo recentemente publicado no The Guardian. São apenas alguns poucos dados da imensidade de provas científicas do que o excessivo consumo de carne está a fazer ao nosso planeta.

Pode haver quem pense que não há novidade nenhuma em mais um artigo como o referido e que não faltam filmes, documentários e tratados científicos a abordar o tema. De facto, não há nada de novo, mesmo nada. Sobretudo a pouquíssima divulgação nos principais órgãos de comunicação social de tudo o que diz respeito a este tema e o olhar para o lado do poder político.

A nuvem de silêncio sobre as consequências para a humanidade, para o nosso habitat comum do consumo de carne é absolutamente chocante. Só tem paralelo com a pouquíssima divulgação dos crimes ambientais diários e o olhar indulgente, como se opções corriqueiras fossem, para decisões políticas dos mais importantes líderes mundiais que estão a condenar o futuro da própria existência do homem.

Por esta altura já não me restam grandes dúvidas: há, por ação ou omissão, uma vontade política em ignorar os problemas que o excessivo consumo de carne acarreta. Claro que a tarefa de mudar hábitos alimentares, costumes milenares, uma inteira cultura ligada ao consumo de carne é brutal e leva muito tempo, mas é urgente e exige não só ações políticas decididas como enormes campanhas de sensibilização. O facto é que nada disto está a ser feito, pelo contrário. A questão é simples: queremos ter um mundo para os nossos descendentes ou queremos destruí-lo?

Vivemos num mundo em que a propaganda contra o consumo do tabaco é gigantesca, em que drogas incomparavelmente menos prejudicais para a saúde do que as bebidas alcoólicas ou o tabaco são proibidas, ao mesmo tempo que somos inundados de publicidade para que comamos mais carne e derivados de leite. Ou seja, em vez de se promover a informação de que o excessivo consumo destas substâncias está a destruir o nosso mundo, incentiva-se o seu consumo como se fosse algo de bom.

Há aqui também algo de profundamente pernicioso, uma espécie de ideologia destrutiva da ideia de casa comum. Um cuidado extremo com o indivíduo coexiste com um desprezo olímpico pela comunidade. O indivíduo deve ser são, o meio onde ele vive pode ser destruído. A força das grandes empresas, não só na capacidade de influenciar os governos mas também toda a comunicação, meios tradicionais e redes sociais, é uma parte fundamental do problema.

Que governo se atreve a olhar para a indústria de criação de gado ou leiteira e restringir seriamente a sua atividade? Lá está, impostos, empregos, bem estar presente. Que meios de comunicação social podem pôr em causa grandes empresas de distribuição ou redes de restaurantes sem correr o risco de porem em causa a sua própria sobrevivência financeira? E, claro, essas grandes corporações têm uma capacidade para manipular as redes sociais e até usá-las como forma de vender as suas verdades. Que partidos nos países mais industrializados podem deixar de ser apoiados por lóbis tão fortes como os das indústrias das carnes, dos laticínios, dos fertilizantes ou dos grandes laboratórios?

Vivemos uma espécie de beco sem saída. O poder político demitiu-se de olhar para o futuro da comunidade e foi substituído por um poder económico que apenas pensa no lucro imediato. Nunca tão poucas empresas e lóbis associados tiveram um poder tão avassalador.

A mais importante questão política dos nossos tempos é o problema ambiental e todos os aspetos com ele relacionados. Se não o atacamos não falaremos mais sequer de política porque não teremos comunidade, nem mundo, nem pessoas. E o facto é que é tratado como um problema de terceira categoria pelos governos e, sobretudo, por nós cidadãos.

Por mim, a minha decisão para o novo ano é tentar não comer carne. Custa, mas eu gostava que os meus filhos, netos e bisnetos tivessem um planeta para viver. E gostava que eles vivessem com os seus, caro leitor. Bom ano.



O MEL

No próximo fim de semana, um conjunto de pessoas reúne-se em Lisboa com um objetivo mal disfarçado: lançar as bases para formar um partido. É o projeto que vem sendo anunciado por alguns como a refundação da direita. Por enquanto chama-se Movimento Europa e Liberdade, MEL. Reúne gente do CDS que já percebeu que o partido nunca passará da cepa torta (onde se inclui Assunção Cristas), pessoas do PSD que já não são do PSD mas que se aproveitam do partido para poderem promover a sua própria agenda e vários órfãos do passismo de vários setores. Nada contra a iniciativa destas pessoas. Pelo contrário. Novas iniciativas político-partidárias, mesmo que disfarçadas, são um sinal de vitalidade da democracia.



Vale tudo?

Na quinta-feira, Mário Machado, condenado por vários crimes, líder de um movimento de extrema-direita e divulgador de mensagens de ódio, racistas e xenófobas, foi entrevistado no programa da manhã da TVI de que Manuel Luís Goucha é autor e apresentador. Houve também uma espécie de inquérito de rua onde se perguntava às pessoas se precisaríamos de um novo Salazar. Entretanto, a página de Facebook Manuel Luís – TVI lançava uma sondagem com a pergunta: “Acha que precisamos de um novo Salazar?” Das duas uma: ou o Manuel Luís Goucha e a TVI estão tão desesperados com as audiências que resolveram dar espaço a promotores de ódio, a publicitar ideias fascistas e a desculpabilizar um ditador, ou uma pessoa com a importância mediática do apresentador e a direção da TVI não têm a noção da responsabilidade que é gerir um canal de televisão e do poder de que desfrutam. Francamente, a segunda assusta-me mais.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Uma exploração espacial que não chega a tempo de salvar o capitalismo

Na segunda temporada da série «Marte», produzida pela National Geographic, a viúva de Carl Sagan dizia muito claramente isto: enquanto não soubermos viver pacifica e sustentavelmente no nosso planeta, não temos qualquer legitimidade para irmos explorar qualquer outro. Porque só o iríamos estragar em vez de o sabermos apreciar e estudar de forma a melhor nele se encontrarem formas equilibradas de garantir a colonização. Por muitas décadas ainda se viverá segundo a premissa fundamental de termos de cuidar desta azulada casa comum, por não existir outra para que nos possamos mudar.
O que a série norte-americana demonstra é a obscenidade sem escrúpulos do capitalismo selvagem, que age em função do rápido retorno do investimento dos acionistas, assegurando-lhes lucros maximizados. Por isso são admissíveis todos os golpes baixos e justificam-se os riscos mais insensatos. Até que se constatam consequências trágicas para quem apostou em tal estratégia.
No fundo o mesmo que se passa com a indústria petrolífera dos nossos dias, que olha gulosamente para as reservas de hidrocarbonetos nos fundos marinhos do Ártico e anseia por que se tornem mais facilmente exploráveis à medida que o aquecimento global vá amenizando as condições meteorológicas da região. Já não falando nos ursos polares ou nos narvais, que têm extinção cada vez mais iminente, esses responsáveis pela emissão acelerada de carbono para a atmosfera almejam os lucros dos anos mais próximos, mesmo que eles signifiquem a sua impossibilidade num futuro subsequente, caracterizado pelo cataclismo planetário por razões ambientais. Quando quase ninguém sobreviver num planeta infecto, as empresas que o terão destruído acabarão inevitavelmente falidas.
Mas o que o pato bravo da Casa Branca ou o jagunço do Planalto representam hoje em dia é essa forma de capitalismo selvagem em riscos de rutura a curto prazo, porque, esgotada a capacidade de manter crescimentos económicos com a globalização, só lhe restaria a alternativa de prosseguirem noutro planeta a rapina dos recursos minerais, que neste começam a escassear. Ora a possibilidade de abrir as primeiras prospeções mineiras em Marte não se adivinham possíveis senão daqui a uns trinta anos, quando este estado comatoso do sistema económico, substituto do feudalismo medieval, já tiver sido suplantado por algo de novo, que - é esse o meu desejo! - corresponda a um desenvolvimento atualizado do ideário marxista.
A expansão espacial não ocorrerá a tempo de salvar os conglomerados económicos dos plutocratas por muito que os patrões da Tesla ou da Virgin se mostrem tão empenhados em consegui-lo. Não tarda que a humanidade compreenda que a sua sobrevivência passe por substituir a obsessão com o crescimento da economia pelo seu fundamental decrescimento controlado.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/uma-exploracao-espacial-que-nao-chega.html

Interesses imobiliários e negligência pública encobrem perigo ambiental

A Cometna ocupou às portas de Lisboa a quinta maior área entre as fábricas de aço europeias. Encerrou em 2004 mas deixou de herança toneladas de resíduos perigosos, que a Câmara de Odivelas escondeu e o Ministério do Ambiente negligenciou.

15 de Janeiro de 2001. Data de um relatório elaborado pelo Grupo de Fiscalização e Polícia Municipal da Câmara de Odivelas com o assunto: «poluição provocada pela laboração da empresa Cometna – Companhia Metalúrgica Nacional», sita em Famões (Odivelas).

No reporte dos técnicos da autarquia, a que o AbrilAbril teve acesso, lê-se que «foi nesta área verificada a acumulação indiscriminada de resíduos industriais (limalha, escórias, areias impregnadas com goma e cola, etc.), sem qualquer preocupação no acondicionamento, já que se encontram amontoados e em contacto directo com o solo e ar».

Na origem da fiscalização esteve a apresentação de uma queixa, após ter sido «detectada uma descarga de resíduos no curso de água, sendo a sua responsabilidade [...] relacionada à actividade daquela unidade industrial».

Segundo o relatório, «foi detectada uma impregnação generalizada do curso de água, por material de cor escura e odor intenso, que se arrasta um pouco por todo o seu percurso, desde a zona de descarga das sarjetas acima descritas até à freguesia da Pontinha».

O documento termina realçando a competência do Estado na matéria e propondo o envio da informação à Consultoria Jurídica da Comissão Instaladora do Município de Odivelas.

A informação chegou ao Ministério do Ambiente, que, em Julho de 2001, apresenta um relatório da inspecção realizada um mês antes. Apesar de a denúncia se referir à «descarga de resíduos no curso de água», a Inspecção Geral do Ambiente atesta que «não realizou a caracterização das águas residuais», tal como não fez o controlo analítico ao efluente industrial, nem aos resíduos.

A Cometna – Companhia Metalúrgica Nacional fabricava peças em diversos tipos de aço para a indústria ferroviária, naval, automóvel pesada, cimentos e extracção mineira. Hoje o país aluga material ferroviário para suprir as suas necessidades.

Assinala, no entanto, que os resíduos da fundição de peças ferrosas, como poeiras de fornos, escórias de fusão, areias verdes vazadas e areias químicas vazadas, «numa quantidade de cerca de 25 mil toneladas, têm sido armazenados desde o final de 1999 numa área não coberta e não impermeabilizada de cerca de 4500 metros quadrados».

O documento da tutela confirma que «se trata de uma área de eliminação para a deposição de resíduos localizada junto a uma linha de água», que «não contempla os requisitos necessários de concepção e funcionamento de um aterro, por exemplo em termos de impermeabilização [...], pelo que existem infiltrações no solo com a consequente contaminação dos aquíferos e as escorrências superficiais conduzem à contaminação da rede de drenagem de águas pluviais».   

No âmbito da acção de inspecção, o Ministério do Ambiente apurou ainda a existência de pós de areias junto das fontes fixas de emissões gasosas, «resultado de uma não adequada descarga dos pós dos sistemas de despoeiramento» e também «de uma deficiente operação e manutenção dos sistemas de despoeiramento [...] que foram implantados há cerca de 15 a 17 anos e até ao momento não foram objecto de qualquer substituição».  

Relativamente aos resíduos, refere que a empresa «deverá promover a limpeza desta área através do envio destes resíduos para um destino autorizado», em tempo útil. 

Entrevistado pelo AbrilAbril, o investigador da Escola Nacional de Saúde Pública Florentino Serranheira refere que «é nessa altura que se supõe que a administração da Cometna decide fazer a remoção de alguns daqueles resíduos», quer de dentro da empresa, quer a Sul da estrada que liga a vila de Famões a Odivelas, que está, até hoje, com alterações topográficas.

«Se formos ver as cartas de registo militar dos anos 60, elas não correspondem aos níveis de altimetria actuais. O que significa que há ali coisas que não estão suficientemente esclarecidas e nos faz suspeitar que também há um depósito de resíduos industriais da Cometna a Sul, aí a uns 50, 100 metros», afirma.

«Quando vamos na estrada e acabamos de passar a Cometna, do nosso lado direito, se olharmos para o lado esquerdo, vemos que o rio tem uma ribanceira demasiado pronunciada para aquilo que seria esperado naquela zona», detalha.

O investigador afirma, com base em testemunhos, que houve «imensa movimentação» de terras e de veículos pesados», salientando que «seria interessante» fazer um estudo do ponto de vista da altimetria naquele local.

Pormenor da zona de depósito de resíduos. Ao fundo, a menos de 40 metros, pode ver-se um prédio de habitação.

Accionistas cederam à especulação imobiliária

Três anos após a realização das duas inspecções, a Cometna encerrou a laboração. O crescimento da freguesia de Famões, a expansão da rede do Metropolitano para Odivelas e a criação de novas infra-estruturas rodoviárias valorizaram os terrenos de 160 mil metros quadrados onde se localizava a metalúrgica, avaliados então em 20 milhões de euros.

A partir daí, outros valores se levantam para a administração da Cometna, que adopta como meta o encerramento da empresa e o despedimento de mais de 200 trabalhadores, nas fábricas de Famões e de Palmela, no distrito de Setúbal.

Num comunicado da então Comissão de Trabalhadores, lê-se que, «para conseguirem esse objectivo, a partir de Maio/Junho de 2003, os accionistas passaram a não concorrer às consultas colocadas pelos nossos clientes», acelerando assim o «esvaziamento da carteira de encomendas».

Também o Sindicato dos Metalúrgicos acusou a administração de recusar propostas de viabilização, designadamente através de um novo contrato de laboração proposto pela principal e mais antiga cliente da Cometna, a norte-americana Cardwell Westinghouse.

Em Outubro de 2004, a falta de pagamento levou a que, nas instalações em Famões, fossem cortados os serviços de refeições, gás e electricidade. Os trabalhadores acusaram a administração de libertar os terrenos sem pagar as indemnizações legais e o Millenium BCP passou a ser o maior credor da empresa.

Na encosta norte as populações desenvolveram pequenas hortas a poucos metros de zonas altamente contaminadas
Nos estudos feitos foram registados valores acima dos legalmente admitidos para cádmio, crómio, cobalto, chumbo, molibdénio, níquel, vanádio e zinco.
Com as chuvas e todas as escorrências, a poluição vai parar aos afluentes da Ribeira Costa (afluente da Ribeira de Odivelas)

A publicidade ao O'Tech

A Cometna, com metais pesados lá dentro, fica ao abandono. Os acessos não são vedados e durante algum tempo chega a acolher pessoas de etnia cigana.

Em 2007, a Câmara Municipal de Odivelas assina um protocolo de cooperação com as empresas Lusocapital e Cometna II relativo à promoção conjunta do projecto O'Tech – Parque de Competitividade e Tecnologia de Odivelas, que haveria de nascer naqueles terrenos até 2013, ou seja, até às eleições autárquicas desse ano, em que a presidente, Susana Amador (PS), se recandidata ao cargo.

O contrato entre a autarquia e a Lusocapital, dona da Cometna, previa a «reconversão urbanística do prédio», uma permuta de terrenos situados na Ramada (Granjas) e a construção de dois equipamentos de saúde, sem garantias de que viessem a ser uma realidade, apesar da campanha movida junto dos eleitores.

Em 2009, o então vereador das Obras Públicas, Sérgio Paiva, justificava à imprensa que o terreno das Granjas era «muito valioso» para a autarquia, «mas víamos aqui uma oportunidade para poder suprir uma das principais carências do concelho que é a saúde».

No protocolo de acordo público-privado, lê-se que «a Cometna II assume a obrigação de construir e entregar à CMO dois edifícios que serão posteriormente destinados a equipamentos de saúde», um no loteamento de Famões e outro em terreno municipal a definir. Mas com uma estranha salvaguarda. «Caso não se verifique a viabilização e autorização pelo Governo português, a Câmara Municipal de Odivelas reserva-se o direito de dar outro uso colectivo aos equipamentos construídos e entregues», acrescenta.  

Perante os resultados «roeram a corda» 

Com o propalado O'Tech não se ouve falar da descontaminação ambiental. No entanto, e porque a Câmara Municipal tinha informação sobre os resíduos, desde 2000, em 2011 é pedida uma avaliação à consultora geoambiental Egiamb para conhecer o nível de contaminação dos terrenos.

O estudo exploratório, segundo fonte do AbrilAbril, terá sido «pedido pela Lusocapital com o apoio e o patrocínio da Câmara Municipal de Odivelas», com uma «grande pressão temporal», já que o O’Tech tinha que estar preparado para as autárquicas. Quando se conheceram os resultados, os promotores «roeram a corda» e a Egiamb não chega a receber o valor da realização do estudo.   

Florentino Serranheira consegue aceder aos resultados e faz uma primeira apresentação numa Assembleia Municipal, em 2015. «É aí que se inicia o processo e que eu sou maltratado (entre aspas) porque, como tenho os resultados mas não tenho o estudo, o vereador Paulo César diz que o estudo não existe, que estou a inventar», conta.

Poluição vai parar ao Tejo

Tendo a Cometna, no âmbito do O'Tech, o objectivo de desenvolver nos seus terrenos em Famões um empreendimento misto de habitação, pólo tecnológico, espaço universitário, núcleo empresarial e instalações desportivas de competição, a Egiamb fez a avaliação do solo, até cerca de um metro de profundidade, tendo apurado «elementos que excedem os valores de referência» das normas de Ontário [recomendadas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) enquanto referência na definição da qualidade do solo em Portugal] para uso residencial e comercial.

Para a primeira situação foram identificados valores acima dos legalmente admitidos para cádmio, crómio, cobalto, chumbo, molibdénio, níquel, vanádio e zinco. Para uso comercial foram apurados cinco: cádmio, crómio, chumbo, vanádio e zinco.

«A concentração de chumbo encontrada na amostra ASG02A [zona de influência da chaminé (face norte do edifício principal, a nascente)] apresenta potencial de perigosidade para o receptor criança, através da via de exposição ingestão de solo, num cenário de ocupação residencial», lê-se no relatório. 

Recorte da conclusões do relatório de 2011 da Egiamb de Avaliação da contaminação dos solos nas instalações da Cometna (Odivelas)

Em praticamente todas as amostras, os elementos químicos que surgiram de forma generalizada foram o bário, crómio, cobalto, cobre, níquel, vanádio e zinco, salientando que «parecem estar relacionados com os elementos químicos que entram na produção de aço, que integra estes elementos de forma a melhorar algumas das suas características», como a resistência, a ductilidade e a dureza. 

A par da presença de metais pesados, a Egiamb concluiu sobre a contaminação dos solos, uma vez que, corroborando as análises iniciais realizadas entre 2000 e 2001, o local onde esses resíduos estão depositados não está impermeabilizado. 

Com as chuvas e todas as escorrências, a poluição vai parar aos afluentes da Ribeira Costa (afluente da Ribeira de Odivelas), que distam cerca de 50 metros do depósito de resíduos.

Mapa constante do Relatório de 2011 da Egiamb de Avaliação da contaminação dos solos nas instalações da Cometna (Odivelas) com a localização das amostras recolhidas

O cenário agrava-se com o facto de ser retirada água desta ribeira, em toda a zona baixa entre as Patameiras e Odivelas, para cultivar os vegetais de inúmeros agricultores que depois vão vender esses produtos hortícolas nos mercados da zona.

Sendo a Ribeira de Odivelas um afluente do Rio Trancão, a contaminação não está circunscrita ao concelho de Odivelas e, adverte Florentino Serranheira, vai tudo parar ao Rio Tejo. «Todo o afluente a jusante está contaminado. Agora, de que níveis de contaminação estamos a falar? Estes estudos não custam dois tostões, é preciso encontrar quem financie, quem patrocine e, neste caso, deveria ser a Agência Portuguesa do Ambiente (APA)», reforça.

O professor critica a posição da CMO, que «sabe disto desde o ano 2000 e, «nos 15 anos que decorrreram até eu levar o assunto à Assembleia Municipal, omitiu, escondeu e fez todos os possíveis para que ninguém soubesse disso», tendo até licenciado prédios a 20 metros do depósito de resíduos.

Recorte do relatório de 2011 da Egiamb de Avaliação da contaminação dos solos nas instalações da Cometna (Odivelas)

«Nós podemos dizer tudo e mais alguma coisa mas, quando há vento e quando há poeiras, quando há pó a circular no ar, a probabilidade de aquelas pessoas que estão a 20 metros terem poeiras em casa e de estarem a ser contaminadas é muito grande», insiste, considerando que os efeitos para a saúde do consumo de metais pesados revelam-se, algumas vezes, a 20, 30 ou 40 anos.

Contaminação «passa a ser» realidade

A avaliação dos terrenos pela Egiamb fez cair a bandeira eleitoral de Susana Amador, que em 2015 abandona a presidência da CMO para integrar as listas do PS à Assembleia da República, nas legislativas desse ano. Entretanto, a Lusocapital vende os terrenos da antiga Cometna à Ambigroup. Criado em 1978 a partir da recolha e venda de sucatas, o Grupo Ambigroup tem várias empresas dedicadas à gestão de resíduos, reciclagem, demolições e serviços. 

Num comunicado de Janeiro de 2017, a CMO dava conta de que a nova proprietária previa instalar naquele espaço um pólo empresarial, estando «obrigada a proceder» à descontaminação dos solos, revelando que a situação já estava em apreciação na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) e na APA – Agência Portuguesa do Ambiente.

Volvidos 17 anos de omissões e contaminação silenciosa, a autarquia atesta que «não se demite, nem se demitirá, do rigoroso cumprimento da legalidade». 

No passado dia 19 de Outubro, o grupo parlamentar do PEV enviou uma pergunta ao Ministério do Ambiente a indagar sobre o projecto de descontaminação dos antigos terrenos da Cometna. Em primeiro lugar, saber se deu entrada na CCDR-LVT o projecto de descontaminação dos solos e se o estudo elaborado pela Egiamb constava do mesmo.

O Governo reagiu a 28 de Novembro e confirmou o procedimento para licenciamento de descontaminação de solos das instalações da antiga Cometna. O projecto, apresentado em Abril de 2017 pela Ambigroup Resíduos, foi «concluído em Fevereiro de 2018». 

Relativamente ao estudo elaborado pela Egiamb, a tutela identifica um, de Março de 2017, referente ao licenciamento das operações de descontaminação, e outro de Dezembro do mesmo ano, relativo às concentrações naturais de metais, na envolvente das instalações da Cometna. 

A resposta não alude ao estudo exploratório de Dezembro de 2011, mas a avaliação complementar da contaminação dos solos da Cometna, a que o AbrilAbrilteve acesso, refere os resultados desse e do realizado em 2015 pelo Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ).

Baseada apenas no cenário de «uso industrial», a avaliação do ISQ revela que os elementos cádmio, crómio, chumbo e cobre «excederam os valores de referência». Destes, o crómio e o cádmio foram os que apresentaram mais excedências, tendo sido localizados na carpintaria e no depósito de combustível. 

Apesar de a análise da Egiamb fazer corresponder a existência de alguns destes metais ao fundo geológico natural, aponta o cádmio, o chumbo e o zinco como não estando relacionados, e é sobre a remoção destes que a tutela se pronuncia, quando questionada pel'Os Verdes acerca da contaminação e perigosidade dos solos. 

«Desta forma, todas as amostras que apresentaram excedência num destes metais deverão continuar a ser consideradas como solo contaminado», lê-se no documento da consultora Egiamb.

Embora as excedências para os valores de referência do crómio e cobre possam ter alguma influência do fundo geológico natural, admite-se que «as evidências não são suficientes para as descartar da possibilidade de estarem relacionadas com a actividade industrial praticada pela Cometna». 

Agência Portuguesa do Ambiente acha que há um risco aceitável para os futuros trabalhadores/utilizadores do local

«Risco aceitável» para futuros trabalhadores

A avaliação complementar realizada pela Egiamb em 2017 aponta uma estimativa de 28 612 mil toneladas de solos a remover, em que 23 630 são identificadas como resíduos não perigosos (acumulados no depósito de resíduos), 252 toneladas são solos contaminados perigosos e 4730 toneladas são solos classificados como não perigosos.

As zonas da carpintaria, zona Sul e Este do edifício administrativo, depósito de combustível e chaminé foram os locais identificados para a remoção de solos contaminados. 

A análise ressalva, no entanto, que foram «excluídos» os pontos de investigação dentro da nave principal, onde foram detectadas excedências aos valores de referência das normas de Ontário, «visto que a exposição à contaminação se encontra inibida pela existência da laje que, independentemente do seu estado actual, após reabilitação impedirá o contacto dos receptores com a contaminação».

A APA confirmou ao AbrilAbril que o projecto não previu a remoção dos solos contaminados que se encontravam subjacentes à área fabril, «cuja laje do pavimento será recuperada», e a outras áreas pavimentadas. Em causa, segundo a agência, está o facto de «a avaliação quantitativa de riscos ter determinado risco aceitável para os futuros trabalhadores/utilizadores do local, nessas condições».

A licença de descontaminação dos solos prevê que, se no decurso da operação de descontaminação a avaliação do estado da água subterrânea revelar a existência de contaminação, deverá a Ambigroup desenvolver um plano de monitorização. 

Não se compreende, porém, como será efectuado esse estudo, nem a razão de não estar contemplada a avaliação da qualidade da água da ribeira próxima ou, tão-pouco, das margens da ribeira a jusante das instalações da antiga Cometna.

Previsão ignora (pelo menos) 10 mil toneladas 

Na memória descritiva apresentada à CCDR-LVT com a chancela das empresas Egiamb e Ambigroup para o licenciamento das operações de descontaminação dos solos, prevê-se que as operações de escavação e transporte tenham a duração de um ano, com a carga de dois camiões diários de 25 toneladas cada.

Contas feitas, a 50 toneladas por dia, a Ambigroup apenas consegue retirar cerca de 18 250 toneladas de resíduos, ou seja, 10 362 toneladas abaixo da estimativa apontada na avaliação complementar.

Por outro lado, colocam-se dúvidas relativamente à fiscalização e controlo dos trabalhos. Pelo facto de possuir instalações «a menos de três quilómetros da antiga Cometna», e havendo a previsão de carregar apenas dois camiões diários, a Ambigroup considerou que não se justificava a presença de uma báscula (balança destinada a objectos pesados) na área de intervenção. Desta forma, os camiões serão registados e pesados nas instalações da Ambigroup, na Pontinha.

Para mais esclarecimentos tentámos entrevistar Carlos Costa, responsável da Egiamb, que nos remeteu para os estudos publicados e para a sua cliente (Ambigroup). No breve contacto telefónico realçou a importância de se avançar na descontaminação dos solos, registando não haver «grandes diferenças» a nível dos quantitativos detectados nos estudos de 2011 e 2017.

Refere que no primeiro foram assumidos «cenários hipotéticos, que felizmente não se confirmam», e que foi identificada como cota zero (a altura natural daquele terreno) o lugar onde está situado o depósito de resíduos, alegando não haver informação topográfica anterior à Cometna. 

No entanto, uma vez que o procedimento de avaliação da contaminação foi efectuado abaixo dessa cota, e encontrou níveis de contaminação elevados para a presença de alguns metais pesados, presume-se que possa haver necessidade de remoção de terra abaixo da cota prevista, eventualmente até dois a três metros de profundidade, o que representaria mais de 40 ou 50 mil toneladas de solos.

No âmbito desta reportagem, o AbrilAbrilcolocou ainda questões a Paulo César Teixeira, vereador da Gestão e Ordenamento Urbanístico na Câmara Municipal de Odivelas, nomeadamente sobre a operação de licenciamento dos edifícios contíguos ao depósito de resíduos, mas não foi obtida resposta.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/interesses-imobiliarios-e-negligencia-publica-encobrem-perigo-ambiental

Vacas

Agostinho LopesAs recentes patacoadas do ministro do Ambiente sobre a “redução da produção pecuária” para reduzir a emissão bovina de “gases com efeito de estufa” seriam cómicas se não fossem tão graves. E não é por não aguentarem qualquer análise séria. É por serem mais uma expressão de completa subserviência face ao que os grandes interesses estrangeiros ditam ao país.

Às vezes ouvimos ou lemos e não queremos acreditar. A enormidade, o absurdo do discurso, do escrito é tal, que não é possível entender, perceber, aceitar. Ainda mais, vindo tais afirmações/declarações do Governo da República e pronunciadas como linhas de orientação política para o país. Assim aconteceu com as palavras do ministro do Ambiente a propósito da apresentação pública de um dito Roteiro para a Neutralidade Carbónica (RNC2050), que tem por base a Resolução do Conselho de Ministros 93/2010, do último Governo PS/Sócrates.

O que nos veio dizer, em nome da «descarbonização», o Sr. Ministro? «(…) há aqui uma redução de facto no que respeita à produção pecuária (entre 25% e 50% menos). Tudo isto vem também no quadro de uma maior liberalização do comércio no mundo, onde a carne de vaca vai chegar a Portugal a preços mais competitivos em muitos casos em relação àquela que conseguimos produzir» (Público, 4 de Dezembro de 2018). E, segundo se lê no Roteiro, tal redução diz respeito a vacas e logo à importação de mais leite e carne bovina. É difícil escolher por onde começar a malhar, para usar sugestiva e conhecida expressão verbal do Sr. ministro dos Negócios Estrangeiros.

O facto de algumas dessas orientações do Roteiro (RNC2050), com tão significativos impactes na vida económica e social do país, resultarem de «compromissos internacionais» assumidos por diversos governos, justifica que passem à margem do escrutínio aprofundado e decisão da Assembleia da República? A acontecer, será completamente inaceitável, ao arrepio da estranha opinião do ministro do Ambiente (Público, 5 de Dezembro de 2018).
Por outro lado, que pantominice é esta de estar a indiciar e mesmo fixar objectivos e metas a 30 anos de distância? É para precipitar negócios e sobretudo negociatas, em nome de um futuro completamente imprevisível na selva da anarquia da produção capitalista e, sobretudo, da profunda crise que abala o sistema e dos terramotos económico-financeiros, sociais e políticos que abalam os continentes geopolíticos? Ou converteram-se, mais vale tarde do que nunca, ao planeamento da economia?

Uma pergunta nuclear: a carne ou o leite que importaremos a mais, da Holanda ou Nova Zelândia, para colmatar o crescer do nosso défice decorrente da redução dos nossos efectivos de bovinos, é uma produção de vacas e bois que não contribuem para os gases com efeito de estufa (GEE)? Porque não importarmos e adoptarmos essas vacas, que não expelem metano, na nossa pecuária? Ou esses gases (GEE) têm as cores das bandeiras nacionais e respeitam as fronteiras? Haja o sentido do ridículo ou do dislate de certas afirmações! E o transporte da carne não produz CO2? Aliás, a «maior liberalização do comércio no mundo», defendida pelo Sr. ministro do Ambiente, pois vai, segundo parece, garantir-nos carne mais barata, não levanta nenhum problema de um brutal consumo de combustíveis fósseis e produção de CO2?

Mas em que região/regiões do país propõe o Governo que se «corte» nos efectivos de bovinos nacionais? Nas vacas leiteiras do Entre-Douro-e-Minho e Beira Litoral? Na produção de carne bovina autóctone no Alto Minho, Trás-os-Montes e Beira Interior), completando a extinção definitiva de bovinos leiteiros nessas regiões, como aconteceu no Planalto Mirandês?

Entram «na dança» os efectivos das raças autóctones, que tanto custaram a repor e salvar (e dificilmente serão sustentáveis sem reforço dos seus apoios)? A biodiversidade não é um valor a salvaguardar? Como é isso compatível com a secretaria de Estado de Valorização do Interior, ou não se sabe como operam as lógicas da liberalização e do mercado? Ou será à grande exploração de 15 mil bovinos no distrito de Portalegre de um conhecido grupo da Grande Distribuição que aponta o Governo? Ou vai distribuir o mal pelas aldeias? Mas isso é o estado de negação absoluta, para quem desenvolveu políticas de concentração e ampliação da dimensão das explorações e dos efectivos, inclusive com incentivos financeiros/fundos comunitários, em nome da modernização, rentabilidade e competitividade da nossa produção pecuária!

Segundo a tese do ministro do Ambiente, a agricultura portuguesa vai (continuar a) ser formatada – isto é, na definição dos seus perfis e especializações produtivas – a partir dos «preços mais competitivos» do mercado internacional.

Vamos então reduzir a ocupação do território a enormes manchas de eucalipto, algumas reduzidas áreas de vinho e, sobretudo, culturas super-intensivas (chama-lhes o ministro, pomares) de olivais, amendoais e de hortícolas a viverem da água do Alqueva? Isto é, culturas, como todos reconhecem, que asseguram uma elevada sustentabilidade dos ecossistemas, uma perfeita harmonia com os solos nas planícies do sul! (As consequências dos olivais super-intensivos são tão graves que o Ministro, para não os enxergar, liquidou o Grupo de Trabalho do Olival, criado em 2009 no âmbito do ministério da Agricultura, que acompanhava esses efeitos). Entretanto, desertificamos as zonas montanhosas e vales submontanos do interior norte e centro?! Mas sabe o ministro o que está a dizer?

O caminho para a agropecuária bovina ligada às explorações familiares, à conta da descarbonização e segundo o RNC2050, é a sua extinção, com o agravamento paulatino mas inexorável dos nossos défices em proteína animal. Que já hoje custam anualmente cerca de 800 milhões de euros (20% do défice da balança alimentar, que é de 4 mil milhões de euros), e em que a carne bovina representa perto de 400 milhões de euros (10% do défice da balança alimentar)!
A ignorância é tanta que se desconhece que há níveis críticos de produção, abaixo dos quais as deseconomias das explorações agrícolas familiares e sobretudo das suas estruturas de transformação e comercialização (matadouros, cooperativas, etc.) que restam se precipitam num círculo vicioso, com a eliminação de toda a produção. Como aconteceu já a inúmeras adegas cooperativas. Como, aliás, está em curso na produção leiteira! Como pode acontecer com as raças autóctones. Mas para que será que se avançou na criação do Estatuto da Agricultura Familiar? Para criarem galinhas e porcos, não será.

Porque sabem (julga-se que a ignorância não seja tanta) que virá de seguida a substituição da proteína bovina de carne e leite de regimes extensivos, ou com um recurso significativo a pastos e silagens de milho e feno, pela produção intensiva de fábricas pecuárias de frango e porco? Agudizando mais, além da envolvente ambiental, o défice comercial, porque significando mais importações de grãos. Agravando a substituição de áreas agricultadas por áreas de silvas e matos, criando novos espaços de continuidade entre zonas florestais, oferecendo mais pasto, não a animais, mas aos incêndios. Que dizer da oferta governamental, à troca de vacas e bezerros por pomares e cereais, às explorações familiares? É só a ignorância de quem desconhece o trajecto produtivo dessas lavoiras até aos dias de hoje?

Mas temos de ficar maravilhados com a sabedoria e capacidade de antecipação da União Europeia e da PAC. Interrogava-se a gente: porquê a liquidação de um instrumento de regulação do mercado leiteiro como as quotas leiteiras? Sistema que garantia a todos os países da «comunidade europeia», inclusive os do sul da Europa, com condições edafoclimáticas diferenciadas e desfavoráveis face aos do Norte na produção leiteira, níveis razoáveis de autoabastecimento de um produto alimentar estratégico como é o leite.

Ninguém compreendia! Afinal era a notável capacidade de antecipação da UE, a fazer o caminho do RNC2050, porque liquidando as quotas sabia que sentenciava, naturalmente em «aterragem suave», a liquidação das nossas vacas e das nossas explorações leiteiras. Pelo que se percebe, o RNC2050 pretende dar o golpe final na produção leiteira portuguesa, que hoje, apesar de todas as malfeitorias, ainda assegura a auto-suficiência do país no consumo de leite em natureza, vale 700 milhões de euros, suporta uma fileira produtiva de 2 mil milhões de euros e 50 mil postos de trabalho, e exporta 280 milhões de euros.

Afinal, quem sabe, sabe… os agricultores portugueses é que não sabiam. E quem, em bom português, os mandasse… dar uma volta.

Agostinho Lopes

Fonte: https://www.abrilabril.pt/nacional/vacas

Leia original aqui

Lisboa e Porto são hoje palco de marcha internacional pelo clima

Lisboa e Porto são os palcos portugueses de uma marcha internacional pelo clima, ao mesmo tempo que na Polónia representantes de quase 200 países debatem como aplicar o acordo de Paris para limitar o aquecimento global.
Por trás da marcha Climate Alarm, convocada através do Facebook, está a ideia de que "as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris não são acatadas por nenhum dos países aderentes", como se lê na convocatória da marcha divulgada naquela rede social.
"Caminhamos para uma catástrofe e temos até 2030 para a contornar", afirmam os proponentes da iniciativa, que acontecerá também em França, Suíça, Luxemburgo, Estados Unidos, Itália, Suécia e Japão.
A mensagem que querem passar aos líderes mundiais é que é preciso limitar o aquecimento global a 1,5 graus centígrados em relação ao que acontecia antes da era industrial.
Em Lisboa, a concentração para a marcha começa às 13:00 no número 129B da Avenida da Liberdade, em frente da sede da empresa petrolífera Australis, que tem contratos ativos em Portugal.
No Porto, a concentração começa às 14:30 junto à Capela das Almas e dirige-se depois em marcha para a Praça da Batalha.
Várias organizações ambientalistas, como a Climáximo, em Portugal, e o movimento internacional Extinction Rebellion estão por trás da convocatória.
Lusa | em Notícias ao Minuto
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/lisboa-e-porto-sao-hoje-palco-de-marcha.html

Alterações climáticas chumbadas na rua

«França mostra o que se segue: a luta contra as alterações climáticas cai em cima de todos mas é particularmente dura na classe média-baixa, a base do que ainda se pode designar genericamente por trabalhadores mal remunerados, desempregados e o restante conjunto difuso dos excluídos do "sucesso".
Trata-se de um segmento enorme onde há muita ira acumulada e capacidade de atuação social pela violência. Estas pessoas têm de ser tratadas com particular proteção porque merecem essa dignidade. Mas, igualmente, porque serão o primeiro pelotão de combate às políticas de transformação contra as alterações climáticas, questão tão crucial que não pode ser adiada.
Trump e as eleições nos Estados Unidos provam como se pode manipular este eleitorado. O planeta pode vir a ser um lugar inabitável "amanhã" mas, para quem a sobrevivência é já hoje um esforço desmedido, se tudo acabar daqui a uns anos, acabou. Hoje é que já não aguentam mais. Por isso o Presidente dos Estados Unidos não quer saber dessa conversa que custa votos. François Macron quis e quase se afundou.
Parar as emissões de carbono tem um preço social altíssimo. O gasóleo continua socialmente "barato" porque a conta é paga noutros departamentos da sociedade (hospitais sobretudo). Mudar de um automóvel a gasóleo para um elétrico só se faz por fé na humanidade e status social - ainda não há conta que o justifique na maioria dos casos. Além disso, todos os centros de negócio da indústria do petróleo e automóvel ajudam na manutenção do paradigma carbónico - ninguém deixa morrer um negócio desta escala épica sem dar luta.
Ainda por cima, o transporte individual é quase a única opção fora dos grandes centros, tornando a vida dura e cara. Não ter acesso a transportes públicos - numa era de custos crescentes por emissões de carbono - é uma forma importante de pobreza que deve ser reconhecida.
A crise ambiental é transversal a todos os países que acreditem na ciência. Mário Centeno também é dos que acha que as emissões são globais. O que pensou o ministro sobre o tema quando apresentou o orçamento de Estado em Outubro? Propôs baixar o imposto sobre a gasolina, tornando-o mais próximo do gasóleo. É uma medida idêntica à de Macron mas inversa: em vez de querer somar mais impostos, diminuiu receita. Por isso o Presidente francês foi acusado de demagogia - embora todos saibamos que a solução não passa apenas por se ir transferindo o consumo do gasóleo para gasolina por razões ambientais. É preciso diminuí-las a todas. E a única forma é subir o preço. Portanto, Macron está certo no diagnóstico. Mas fazê-lo sem um tecido social que consiga ir trabalhar sem automóvel não é ainda realista.
Como se viu em Paris, as alterações climáticas são já um tema presente em todos os grandes dossiers da política e da economia. Se forem a preocupação de apenas uma certa geração, ou de gente com visão política "verde", então não há dúvida que o planeta vai arder. E por esta altura já não estamos em lume brando - veja-se o caso dos incêndios florestais este ano na Califórnia e no ano passado em Portugal. E a subida do nível do mar. E a perda de biodiversidade. E os prejuízos agrícolas. E as novas doenças do clima. E os oceanos. Etc...
O que vem aí é de uma escala transcendente se comparada aos (duríssimos) acontecimentos de Paris. Citando uma frase que terá sido verdadeira a partir de 2012 e nunca mais mudou: já há mais refugiados climáticos do que de guerra. A questão é que somos todos cada vez mais refugiados de alguma coisa, aqui, em Paris ou em África. E não há recursos para todos se continuarmos como estamos.»
.

Leia original aqui

Aquecimento global: uma impostura científica

por Marcel Leroux [*] "-É uma fábula o que tu nos contaste",
disse com desprezo o pastor peul (etnia do Senegal).
"-Sim, respondeu o caçador de crocodilos,
mas uma fábula que todo mundo repete parece muito com a verdade!".

(J. e J. Tharaud, La randonée de Samba Diouf, Fayard, 1927)

La Trogne

1- Trata-se ainda de climatologia?
2. Efeito de estufa, modelos e aquecimento global
3. Clemência ou violência do tempo?
4. A evolução recente do tempo no espaço Atlântico Norte
5. Outras "mentiras"
6. Os abusos da meteorologia-climatologia
Referências

O aquecimento global é uma hipótese fornecida por modelos teóricos. Baseia-se em relações simplistas que anunciam um aumento da temperatura, proclamado mas não demonstrado.
São numerosas as contradições entre as previsões e os factos climáticos observados directamente. A ignorância destas distorções flagrantes constitui uma impostura científica.
Nos anos 70 (do séc. XX) verificou-se um desvio climático (que os modelos não “previram”). Traduziu-se num aumento progressivo da violência e da irregularidade do tempo e foi provocado pela modificação do modo de circulação geral da atmosfera.
O problema fundamental não é prever o clima em 2100. Deve-se, antes, determinar as causas daquele desvio climático recente. Isso permitiria prever a evolução do tempo no futuro próximo.

.O aquecimento global ("global warming") é um tema que está na moda. Em particular depois do Verão de 1988. Então, nos Estados Unidos da América, veio ao de cima a angústia do "dust bowl". Esse período de calor e de seca aconteceu nos anos 30 do século passado, na "bacia de poeiras" dos Grandes Planaltos. O drama vivido pelos camponeses (Cf. As Vinhas da Ira de John Steinbeck) é constantemente recordado. O passado pesado explica a atenção particular que foi imediatamente dedicada. Seguiu-se-lhe a dramatização ("greenhouse panic"). Inicialmente assunto da climatologia, o tema passou a ser tratado com emoção e irracionalidade. Depressa evoluiu para o alarmismo. Perdeu o seu conteúdo científico. Questiona-se actualmente: estaremos ainda a falar de climatologia?

1- Trata-se ainda de climatologia?

Um tema confuso O aquecimento global é um tema extremamente confuso que mistura tudo:

  • A poluição e o clima: o clima torna-se num álibi, num espantalho. A sua evolução futura é apresentada como um postulado. Quem colocar dúvidas sobre o aquecimento anunciado fica logo catalogado. Tanto como favorável à poluição, como "louco, mal intencionado ou a soldo da indústria petrolífera" (Singer, F., 2002 - indicação das Referências bibliográficas). Naturalmente, aqueles que "lucram" (com vantagens leoninas) do maná confeccionado pelo alarmismo estão acima de qualquer suspeita!
  • Os bons sentimentos e os interesses confessados (e inconfessados): o planeta está em perigo. É necessário "salvá-lo". Mas, ao mesmo tempo, discutem-se os "direitos de poluir". São os famosos "direitos de emissão negociáveis". Passa-se do sentimentalismo de culpabilidade (o homem é o responsável de todos os males) para a defesa de interesses privados (dissimulados de modo obscuro).
  • As suposições e as realidades. As teorias dos modelos e os mecanismos reais. O hipotético clima futuro e a evolução do tempo real. As previsões são tanto mais gratuitas quanto os prazos são mais longínquos. Nas observações actuais, lobrigam-se sinais da catástrofe anunciada. Seleccionam-se as informações. Oculta-se o "frio" que é atribuído à variabilidade "natural" (desconhecida). Retém-se apenas o "calor". Este não pode deixar de confirmar as previsões dos modelos…
  • O sensacionalismo e a seriedade científica. A procura do furo jornalístico e a informação devidamente fundamentada. Tudo cada vez mais confundido. Nomeadamente pelos políticos e/ou pelos media que ajudam à confusão. Certos cientistas não melhoram a situação. As suas declarações prematuras e conjunturais na maior parte das vezes não são fundamentadas.
  • O debate inscreve-se, igualmente, no mito mais antigo que é o do "conhecimento" popular acerca do tempo. Isso facilita o sucesso da mensagem. Cada um, como é bem conhecido, tem o seu saber sobre a matéria. Estamos muitas vezes próximo do pensamento mágico. Das discussões das tertúlias. Das previsões dos bandarras. Prevalece a confusão entre clima e evolução do tempo. Através dos "modelos" (aureolados de mistério) sonha-se com a "máquina de produzir o tempo".

Uma "climatologia" simplista" O que predomina no debate e o falseia é que as alterações climáticas são um tema da climatologia tratado como se fosse do ambiente. Em anexo ao da poluição. Esta constitui um álibi moral. Invocado predominantemente por não-climatologistas. Ainda há pouco tempo, um "climatólogo" tinha pouco prestígio. Era um geógrafo considerado "literato", isto é, "não físico". Ou era um funcionário dos serviços de meteorologia. Encarregava-se dos arquivos (situação pouco considerada). "Acabar em climatologia" era visto como a pior das condenações! Hoje, os climatologistas na sua maioria desinteressam-se estranhamente do debate. Ou adoptam o dogma oficial sem espírito crítico. Mas também existe a pretensão de se ser "climatólogo". Saber repetir servilmente (à maneira dos psitacídios) os comunicados do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Changes) tornou-se uma qualificação. O discurso estereotipado e recitado de modo dogmático é sempre o mesmo. Contudo, as especializações e as competências não faltam. Mas dizem respeito à informática, à estatística, à agronomia, à química, à oceanografia, à glaciologia, à história, mesmo à geologia…Não ao clima e à sua dinâmica. Com uma "convicção" geralmente proporcional à ignorância dos rudimentos da disciplina, os "climatólogos autoproclamados" propagam hipóteses procedentes dos modelos. Hipóteses infundadas ou mal estabelecidas e não corroboradas pelas observações. Devemos assim colocar fortes reticências segundo o qual os relatórios do IPCC são preparados por "centenas de cientistas". O número anunciado pode iludir e esconder o monolitismo da mensagem. Na realidade, uma pequena equipa dominante impõe os seus pontos de vista a uma maioria sem competências climatológicas. O “I” de IPCC significa, com efeito, "intergovernamental". Significa que os pretensos cientistas são antes do mais representantes governamentais. O IPCC, em absoluto, não é um organismo de investigação. Na redacção definitiva do relatório de 1966 a afirmação da "influência perceptível do homem sobre o clima global" (GIEC, 1966, p.22) foi acrescentada depois da hora. Para "impressionar" os decisores como disse Emmanuel Granier (Industrie et Environnment, n.º 208, 1998). Não correspondia ao entendimento do conjunto do IPCC. Mas tem sido constantemente repetida apesar de não ter havido acordo! Os conhecimentos de climatologia são em geral limitados. O IPCC reconhece-o quando afirma: "A aptidão dos cientistas para fazer verificações das projecções provenientes dos modelos é bastante limitada pelos conhecimentos incompletos sobre as verdades climáticas" (UNEP-WMO, 2002, p.7). As "explicações" são sobretudo simples, muito simplificadas, mesmo simplistas, para serem facilmente apreendidas. Todavia, elas não reflectem, ou reflectem apenas muito parcialmente, a verdade científica que é extremamente complexa. Este conhecimento superficial e esquemático é primeiramente imposto pelas "simplificações inevitáveis transpostas para os modelos" (Le Treut, 1997). Os modelos não podem integrar todas as componentes dos fenómenos. É necessário "parametrizá-los", sem se saber descrevê-los explicitamente. Quanto mais simples é a mensagem, mesmo simplista (próxima do slogan, fácil de reter sem esforço), maiores são as hipóteses de ela ser adoptada pelos políticos e pelos media. O método de "consumo imediato" das notícias afasta-se desde logo da reflexão séria e de longas e complexas explicações. Esta falha de qualificação "climatológica" muito extensiva explica também a fé cega atribuída a uma ciência de uma meteorologia idealizada. Ignora-se geralmente (ou finge-se ignorar) que a meteorologia está num verdadeiro impasse conceptual há mais de cinquenta anos. Ela não dispõe de um esquema explicativo da circulação geral apto a traduzir a realidade das trocas meridionais. Nem a integrar as perturbações que são consideradas como transplantes "passageiros". Trata-se de um modo disfarçado de confessar a ignorância dos mecanismos reais. Este impasse conduziu, entre outros, ao "falhanço" do prestigioso Miami Hurricane Center na previsão da trajectória do furacão Mitch em 1998, por defeito de conhecimento da dinâmica dos furacões tropicais! (Leroux, M., 2000). Será necessário sublinhar todos os falhanços das previsões do tempo em todas as partes do mundo? Os próprios meteorologistas confessam estas fraquezas fundamentais. São tão evidentes que tornam os modelos (no seu estado actual) irremediavelmente inaptos a prever o que quer que seja! Podemos assim igualmente explicar a confiança ingénua, a falta de isenção quanto a dúvidas (sendo estas habitualmente salutares em ciência) e mesmo a falta de espírito crítico dos pretensos climatólogos. Tanto dos não qualificados como do público não avisado. A crítica é fundamental quando se trata de estimar a qualidade dos modelos e das suas previsões. O debate científico é assim ocultado e os contraditores são, na medida do possível, “açaimados”, censurados ou mesmo desacreditados. Por causa do conteúdo "moral" do tema, o conhecimento é substituído em proporções respectivamente inversas pela convicção (sincera ou pela fé). Como proclamou M. Petit: "Estou convencido que o aquecimento global do planeta é uma realidade"(Le Monde, 19 de Abril de 2001, p.24). "Profissão de fé" que é a própria negação do método científico. É, pois, necessário fazer um ponto da situação, sem complacência. Sem concessões e aprofundado. Rigorosamente e unicamente centrado na climatologia. A poluição é por si só um assunto suficientemente sério e preocupante para merecer um tratamento separado, aí sim, pelos próprios especialistas.

2. Efeito de estufa, modelos e aquecimento global

O efeito de estufa natural e o adicional O efeito de estufa é uma realidade, pelo que é inútil discutir: ele produz um ganho de 33 ºC à temperatura média da superfície da Terra. Um efeito de estufa adicional, ou "reforçado", de origem antropogénica (proveniente do CO 2 e de outros gases com efeito de estufa – GEE – devidos às actividades da vida humana) poderia ser susceptível de elevar a temperatura. Sabe-se isso desde há longa data, 1824, conforme foi pressentido por Fourier. A questão é a de saber se, com efeito, o homem é capaz de influenciar (involuntariamente) o curso da evolução climática, atingindo a escala planetária, e sobretudo se, desde há um século, ele já começou a fazê-lo. Entretanto, à parte a influência demonstrada sobre o clima urbano, uma consequência à escala global permanece ainda no domínio da especulação. Com efeito, o vapor de água representa 63 % do efeito de estufa natural (100 W/m 2 em 160 W/m 2 ) e constitui "a maior fonte de incerteza" (Keller, C.F., 1999). "Devido ao facto de os modelos climáticos fazerem intervir as nuvens e as precipitações, que são particularmente complexas, a amplitude precisa da respectiva retroacção – fenómeno crucial – permanece desconhecida" (UNEP-WMO, 2002, p.3). Além disso, é necessário juntar a incerteza associada à nebulosidade, cujos efeitos são contrários de acordo com a altitude das nuvens que tanto poder arrefecer como aquecer a superfície terrestre… O presumido aquecimento global também poderá não ser outra coisa que um fenómeno urbano, como a poluição. Goodridge (1996) demonstrou a existência desse fenómeno na Califórnia. Comparou a evolução térmica das cidades com mais de um milhão de habitantes e com mais ou com menos de 100 000 habitantes. A elevação da temperatura decresce com a diminuição da importância das cidades. Ele concluiu assim: "O aparente aquecimento global é na realidade devido à perda de calor que afecta somente as superfícies urbanizadas". Conclusão semelhante foi obtida em Espanha, onde Sala e Chiva (1996) consideraram por outro lado que "o verdadeiro “aumento natural” da temperatura, corrigida do efeito de urbanização, pode ser atribuído à actividade solar". A evolução das temperaturas em França revela também um aumento sustentado das temperaturas mínimas, isto é nocturnas. A evolução das temperaturas máximas ou diurnas é mais irregular e não demonstra uma tendência tão sustentada (Leroux, M., 1997). As estações meteorológicas, inicialmente instaladas fora das cidades foram progressivamente absorvidas pela expansão da urbanização e/ou pela extensão da sua cúpula de calor, e elas reflectem assim, principalmente, a evolução climática à escala local. "As indicações dos climas do passado" "O estudo paleoclimático (…) dá uma ideia da amplitude das futuras alterações(…)" (Cf. UNEP-WMO, 2002, p.8). Esta afirmação, que pretende fundamentar as alterações climáticas do futuro, permite colocar a questão da relação entre os GEE e a temperatura: é uma covariação (sem significado físico) ou uma correlação física? Quando é que o acréscimo dos GEE é a causa ou quando é que é o efeito? Que significa à escala paleoclimática (como à escala sazonal) a covariação mais ou menos estreita entre o CO 2 e a temperatura? Os cilindros da estação Vostock retirados dos gelos antárcticos mostram "o paralelismo das variações de temperatura do ar e do teor atmosférico em GEE" (Masson-Delmotte, Chapellaz, 2002). Deduzir que o passado e o futuro são directamente comparáveis representa a astúcia ideal: qual é com efeito o não-climatologista e a fortiori o cidadão que conhece Milankovitch? A covariação geral dos parâmetros (deutério, CO 2 , CH 4 , Ca, etc. e a temperatura correspondente deduzida) no decurso de mais de 400 mil anos resulta de um “forçamento” exterior à própria Terra. Resultou de quatro ciclos principais que revelam a influência da "excentricidade da órbita terrestre" (ciclos de 100 000 anos). No interior de cada grande ciclo glaciário-interglaciário as variações mais breves são conjuntamente associadas à variação da inclinação do eixo dos pólos e à precessão dos equinócios. Estes parâmetros orbitais da radiação foram demonstrados por Milankovitch, em 1924. Todos os parâmetros covariam (e estão portanto estatisticamente correlacionados). Mas a evolução da temperatura a esta escala de tempo não depende dos GEE. Pelo contrário, são as taxas de crescimento destes é que dependem (mais ou menos directamente) da temperatura. Por consequência, apesar dos resultados notáveis das análises dos cilindros de gelo para o conhecimento dos climas passados, a referência sistemática aos paleoambientes (mais exactamente à "química isotópica") não faz qualquer sentido no debate (…) E tanto menos sentido quanto as teorias meteorológicas convencionais utilizadas pelos modelos não propõem um esquema de circulação geral válido a esta escala paleoclimática (Cf. Leroux, M., 1993,1996). "As indicações fornecidas pelos modelos climáticos" Os modelos climáticos prevêem aumentos da temperatura. Esta conclusão tornou-se num postulado indiscutível ( Cf. UNEP-WMO, 2002, p.7). Por outro lado, os modeladores impuseram o conceito de evolução "global" do clima, sendo que o globo deverá evoluir no seu conjunto e no mesmo sentido (aquecimento). Todavia, com intensidades diferentes consoante as latitudes. Os modelos, fundamentados no efeito radiativo, podem prever outra coisa que não seja … aquecimento? Le Treut (1997) escreve a este propósito: " Os modelos, cada vez em maior número e mais sofisticados, indicam sem excepção um acréscimo de temperatura ". A unanimidade da resposta (pudera!) é pois considerada como uma prova da capacidade dos modelos para prever o futuro. Mas para além da sofisticação dos cálculos, o resultado é no fim de contas uma aplicação da regra de três simples, entre 1) a taxa de crescimento do CO 2 actual, 2) a suposta taxa futura e 3) a temperatura correspondente. Isto é elementar. A unanimidade dos modelos considerada como um "facto notável" (Le Treut, 2001) é uma lapalissada. A resposta não pode ser senão positiva. Como é que poderiam prever descidas de temperatura se eles são constituídos para prever subidas? Haverá de facto necessidade do recurso aos modelos (tendo ainda em conta as suas imperfeições teóricas e práticas) para se chegar a este resultado? A argumentação é muito frágil: o balanço radiativo (excepto quanto às variações no longo prazo) permite somente compreender…porquê as altas latitudes são mais frias do que os trópicos, e de prever que…o Inverno será mais frio do que o Verão! As variações de temperatura de um dia para o outro, e de um ano para o outro (e as médias e anomalias resultantes) dependem – como as variações do tempo – das modificações de intensidade das circulações meridionais. Esquematicamente, o fluxo de norte traz frio e o do sul traz calor (outros parâmetros como a nebulosidade, a humidade, as precipitações, a velocidade do vento, etc., participam conjuntamente nesta determinação). As trocas meridionais dizem respeito evidentemente a regiões diferentes e as evoluções térmicas não podem ser uniformes. Uma temperatura média não tem se não um valor muito limitado se é que tem algum se for estabelecido à escala "global" (poderá então existir um clima global?). A posição expressa pelo IPCC (1996) é reveladora desta incoerência: "Os valores regionais das temperaturas poderão ser sensivelmente diferentes da média global mas não é ainda possível determinar com precisão estas flutuações". Isto significaria que o valor médio seria conhecido antes dos valores locais e/ou regionais que permitiriam estabelecer aquela média! Curiosa maneira de calcular uma média! Por outro lado, é correcto dizer como o IPCC que " não é possível determinar " as evoluções regionais, sabendo que é simplesmente suficiente observá-las? Isso é assim simplesmente porque os modelos não sabem representar estas diferenças de comportamento? Como é que podiam saber, sublinhe-se ainda, se eles não dispõem de um esquema coerente do modo de circulação geral? Evolução global ou evoluções regionais? As evoluções climáticas são regionais. Litynski (2000) comparou as temperaturas dos períodos 1931-1960 e 1961-1990 publicadas pela OMM (1971 e 1996). O primeiro período corresponde, mais ou menos, ao óptimo climático contemporâneo e o segundo contém a mais forte elevação da temperatura. A comparação é deveras eloquente. Mostra de maneira evidente que " não existiu aquecimento global planetário durante o período 1961-1990 ". Nomeadamente, observa-se, à escala regional, arrefecimentos e aquecimentos. No hemisfério norte, por exemplo, a baixa de temperatura é da ordem de – 0,40 ºC na América do Norte, – 0,35 ºC na Europa do Norte, – 0,70 ºC no norte da Ásia, até – 1,1 ºC no vale do Nilo. Outras regiões aqueceram, como o oeste da América do Norte (do Alasca à Califórnia), ou também na Ucrânia e no sul da Rússia. Os modelos nunca previram nem revelaram estas disparidades regionais. De facto, eles são sempre incapazes tanto de as explicar como de as prever. Qual é a tendência representativa, é a das regiões que apresentam aumentos ou da que revela baixas de temperatura? Uma média hemisférica, e a fortiori global, da temperatura calculada a partir das observações, com evoluções contrárias, não tem se não um valor estatístico, contabilístico. Não tem, se não um significado limitado. Não tem mesmo qualquer significado climático. Segundo o IPCC, a temperatura média aumentou 0,6 ºC ± 0,2 ºC no decurso do período 1860-2000 (…). Este período de um século e meio, convém sublinhar, engloba a revolução industrial. Para fixar ideias, note-se que este valor, à escala da média anual como considerada, representa a diferença de temperaturas entre Nice e Marselha, de 14,8 ºC a 14,2 ºC (de 1961-1990), ou entre Marselha e Perpignan, de 14,5 ºC e15,1 ºC (também de 1961-1990). Que extraordinária conclusão!!! Sejamos sérios. Mantenha-se o bom senso: comparada com a variação “real” de 0,6 ºC de subida no período 1860-2000, uma variação de temperaturas prevista pelo IPCC entre 2 ºC a 6 ºC (ou de 1,4 ºC a 5,8 ºC com uma margem de incerteza de 1 a 3,5 ºC) para um ano tão afastado como o de 2100 tem verdadeiramente algum significado? Só com muito boa vontade… Relação real entre CO 2 e temperatura A relação entre as variações da concentração de CO 2 e a curva global secular "calculada" das temperaturas (citada anteriormente) não é linear. Entre 1918 e 1940 produziu-se um forte aquecimento, da mesma ordem de grandeza que o dos últimos decénios, mas a concentração de CO 2 não progrediu mais do que 7 ppm – partes por milhão (de 301 ppm a 308 ppm). De 1940 a 1970, a subida de CO 2 foi de 18 ppm (de 308 ppm a 326 ppm) mas a temperatura não se elevou, bem pelo contrário. A literatura dita científica dos anos 70 anunciava então o retorno a uma "pequena idade do gelo". Alguns dos "cientistas" que previam um arrefecimento certo e seguro tornaram-se entretanto fervorosos adeptos do aquecimento global! Apenas o aumento (presumido) da temperatura do fim do século, a partir dos anos 80, coincide com um aumento da concentração de CO 2 (mais de 22 ppm). Mas este aumento dos últimos decénios, superior a 0,3º C, não é confirmado pelas observações dos satélites. Nomeadamente, da NOAA ( National Oceanic and Atmospheric Administration, dos EUA), entre Janeiro de 1979 e Janeiro de 2000 (Daly, 2000; Singer, 2002), que não detectaram qualquer evolução notável. Foram feitas críticas pelos defensores do "global warming" contra a validade destas medidas dos satélites (é verdade que elas são "preocupantes"). Incidiram sobre a capacidade dos satélites de ter em conta a evolução das temperaturas de superfície. Contudo, estas medidas colocam nitidamente em evidência os ciclos solares (n.º 22 e n.º 23) e o arrefecimento de 1992 ligado à erupção do Pinatubo…Parecem, pois, ser dificilmente discutíveis.
O cenário do efeito de estufa antropogénico, e nomeadamente a relação entre o CO 2 e a temperatura, não explica de facto a evolução térmica: intervêm outros factores nesta evolução. Estes factores são numerosos (Leroux, 1996), mas eles não são tomados em conta pelos modelos. Evoluções térmicas prevista e real das altas latitudes Evolução térmica prevista Um aspecto hipotético, saído dos modelos, é o aumento considerável presumido da temperatura nas altas latitudes. Segundo eles, poderia atingir 10 ºC a 12 ºC, paradoxalmente, no Inverno de cada pólo. Estes valores muito elevados influenciariam consideravelmente a tendência térmica média global prevista porque nas regiões tropicais a modificação seria ténue. Mas quais seriam as razões físicas para que as altas latitudes viessem a aquecer tanto? Notar-se-ia nestas latitudes uma contra-radiação terrestre mais intensa…sobretudo no Inverno precisamente no momento em que em que não existe insolação? Deve-se supor, contra toda a lógica, que haveria uma preferência do efeito de estufa perto dos pólos, precisamente onde os conteúdos em vapor de água são menores e as águas frias que bordam os gelos são poços de retenção consideráveis do CO 2 ? Os acréscimos presumidos da temperatura, que não poderiam resultar de fenómenos in situ, seriam provenientes de transferências meridionais intensificadas quando se sabe que, em períodos quentes, estas transferências são pelo contrário consideravelmente amortecidas (modo de circulação geralmente lento, Leroux, 1993)? Seria porque o arrefecimento fora dos períodos glaciares foi mais intenso nas latitudes polares, que inversamente o aquecimento deveria aí ser nitidamente mais marcado? Parece ser um profundo mistério da alma do aquecimento global… Seria, sobretudo porque os modelos climáticos repousam sobre o velho esquema tricelular de circulação geral (Le Treut, 1997), e nomeadamente sobre a existência hipotética de uma célula polar? Este conceito irrealista faz com efeito "arrepiar caminho" ao ar polar – ar frio que se elevaria! – a partir da latitude 60º, Norte ou Sul. Isso não traduz a realidade das trocas meridionais que seriam assim muito rapidamente interrompidas. A célula polar foi a justo título rejeitada oficialmente pela comunidade científica internacional, em 1951. Isto é, muito antes de aparecerem os modelos. Por outro lado, salienta-se que o esquema tricelular (células de Hadley, de Ferrel e polar), hipoteticamente considerado em 1856, já foi globalmente criticado. Apenas a célula de Hadley é parcialmente representativa da realidade. Isso não impede que De Félice (1999), do Laboratoire de Météorologie Dynamique (LMD) e da Société Météorologique de France (SMF), fale na existência de "três células meridionais em cada hemisfério, célula de Hadley, célula de Ferrel e célula polar". Também Joly, do Centre National de Recherches Météorologiques (CNRM), segue o dogma mais do que centenário de confundir a percepção estatística e a percepção sinóptica dos fenómenos. Atribui ainda a existência do "anticiclone dos Açores" ao ramo subsidente (pressão exercida sobre o ar de cima para baixo) da célula de Hadley ( Le Monde, 25 de Maio de 2001, p.19). Um tal conceito é fisicamente inconcebível (Leroux, 1996). As obras de Triplet e Roche (1988, 1996) da Ecole National de la Météorologie, e de Sadourny (1994), então director do LMD dependente do CNRS, não comportam sequer o esquema de circulação geral. Apesar desta situação "inimaginável", o esquema de circulação geral utilizado pelos modelos é precisamente…o esquema tricelular que não representa absolutamente nada a realidade das trocas meridionais. O acréscimo suposto das temperaturas polares é um artefacto resultante deste conceito errado, e nomeadamente da existência suposta da "célula polar" que não é mais do que uma ficção! Esta crítica à inadaptação dos modelos à realidade foi correctamente enunciada: "Os modelos climáticos actuais não integram de maneira correcta os processos físicos que afectam as regiões polares" (Kahl et al., 1993). Mas, aparentemente, nada mudou, apesar da importância crucial das altas latitudes na origem da circulação geral. Lenoir (2001) descreveu bem a história desta "ideia fixa" do sobreaquecimento dos pólos. Provém da afirmação de Svante Arrhenius segundo a qual "o efeito das alterações será máximo na vizinhança dos pólos". Previu um aumento de 4 ºC…isto em 1903! Esta estranha obstinação volta a encontrar-se no último relatório do IPCC que avança a seguinte "justificação": " […]a neve e o gelo reflectem a luz solar, assim, menos neve significa que é absorvido mais calor proveniente do Sol, o que arrasta um aquecimento […]", e assim "está previsto um aquecimento de partes do Norte do Canadá e da Sibéria superior a 10 ºC no Inverno" (UNEP-WMO, 2002, p.5). Trata-se, bem entendido, do Sol polar de Inverno! E isto foi, como é evidente, aprovado pelos "cientistas" do IPCC!!!... Evolução térmica real A evolução térmica realmente observada nas altas latitudes não é nada daquilo previsto pelos modelos. São incapazes de representar a realidade e, como é evidente, de explicar convenientemente o que lá se passa. O Antárctico não apresenta alteração notória: as curvas das temperaturas médias observadas (Daly, 2001) não apresentam estritamente qualquer tendência. Em compensação, o Árctico ocidental tem arrefecido e esta evolução produz o desmentido mais flagrante às previsões dos modelos: o arrefecimento atingiu 4 ºC a 5 ºC (– 4,4 ºC no Inverno e – 4,9 ºC na Primavera), durante o período 1940-1990 (Kahrl, et al., 1993). Isto é, já quase a metade, mas em valor negativo, do valor previsto para 2100! Este arrefecimento é confirmado por um aquecimento também nítido na camada 850 hPa-700 hPa – hectopascal (+ 3,74 ºC, entre 1500 e 3000 m), que traduz a intensificação resultante das trocas meridionais vindas do Sul, por cima dos anticiclones das baixas camadas (anticiclones móveis polares ou AMP) que partem do Pólo Norte. Rigor et al. (2000) confirmam a tendência ao arrefecimento no período 1979 a 1997, acima do mar de Beaufort assim como na Sibéria oriental e no Alasca, no Outono (– 1 ºC por década) e no Inverno (– 2 ºC por década). Devido à importância das altas latitudes na génese da circulação geral, o arrefecimento do Árctico, particularmente da sua parte ocidental onde nasce a maioria dos AMP, é um facto climático da maior importância. Mas é total e deliberadamente ignorado pelos modelos.

3. Clemência ou violência do tempo?

A evolução recente do tempo e a multiplicação de acontecimentos dramáticos são considerados (erradamente) como uma prova da evolução climática anunciada pelos modelos. A "dramatização" que é feita dos acontecimentos torna-se um argumento fundamental para se acreditar no cenário do efeito de estufa (confundindo o natural com o adicional). O que há de verdade nisto? Modelos e evolução do tempo Os modelos previram inicialmente (no primeiro relatório do IPCC de 1990) um tempo mais clemente: "As tempestades nas latitudes médias […] resultam dos desvios de temperatura entre o pólo e o equador […] como este desvio se enfraquece com o aquecimento […] as tempestades nas latitudes médias serão mais fracas" (IPCC, 1990; Météo-France, 1992). É o que confirma novamente Planton e Bessemoulin (2000) do Météo-France: "A alteração climática simulada pelos modelos informáticos traduz-se geralmente por uma redução do gradiente Norte-Sul da temperatura nas baixas camadas da atmosfera […] terá por efeito atenuar a variabilidade atmosférica associada às depressões porque as instabilidades, em particular acima do Atlântico Norte, são fortemente condicionadas pela intensidade do gradiente de temperatura". Um aumento da temperatura deveria assim traduzir-se por anticiclones móveis polares (AMP) menos vigorosos, por um decréscimo das trocas meridionais de ar e de energia (circulação lenta) e, nas latitudes temperadas e polares, por uma diminuição dos gradientes de temperatura e da pressão assim como por um contraste térmico menor entre os fluxos. Como se mostra à escala sazonal o menor rigor do tempo estival, comparado com a violência do tempo invernal, não necessita de modelos para deduzir essa evidência (Leroux, 1993). Um cenário "quente" anuncia portanto uma maior clemência do tempo. Porém, não é isso que se tem observado, o próprio tempo contradiz estas previsões. Será por isso que, bizarramente, se anuncia agora (por simples oportunismo?) exactamente o inverso do que se havia previsto em 1990 (e confirmado acima) com as previsões catastróficas que os órgãos de comunicação social fazem eco, sem contudo se espantarem com esta reviravolta? Será que são verdadeiramente os modelos que prevêem agora esta evolução do tempo? Eis o que diz o IPCC: "A frequência e a intensidade das condições meteorológicas extremas tais como as tempestades e os furacões poderão mudar. Todavia, os modelos não podem ainda prever como. Os modelos que são utilizados para as alterações climáticas não podem eles próprios simular estas condições meteorológicas extremas […]" (UNEP-WMO, 2002, p. 5). Isto é claro: os modelos não podem prever a evolução do tempo. Porquê então evocar sem cessar a autoridade dos modelos? O que permite, por consequência, dizer que as condições " poderiam mudar "? Não é mais do que um truísmo!, visto que os modelos não sabem prevê-lo? Como, por consequência, explicar o "endurecimento" do tempo apesar do que foi anunciado? Escute-se Planton (do CNRM, 2000, p. 70): "Um clima mais quente por cima dos oceanos é também mais húmido porque a evaporação é aí mais importante […] estes factores são favoráveis ao desenvolvimento de depressões porque uma atmosfera mais quente e mais húmida é também mais energética. Isto é um factor que seria favorável à formação de depressões mais cavadas acima do Atlântico". Esta formulação dos fenómenos é fortemente sugerida pela relação redutora evaporação-chuva analisada a seguir. Eis então a convecção térmica acima de uma superfície oceânica (superfície "fria", em termos de meteorologia, portanto inapta a provocar ascensões) na origem das depressões do Atlântico: é seguramente uma renovação radical das leis físicas e dos conceitos que comandam a génese das perturbações das médias latitudes! O nascimento e a intensidade destas vastas perturbações dependem, no entanto, da intensidade das transferências meridionais do ar e da energia, e portanto da potência dos factores que condicionam o volume e a velocidade destas transferências (factores aqui ignorados) e não das condições convectivas in situ. Todavia, as opiniões divergem ainda diametralmente sobre a influência do efeito de estufa. Eis agora, contra toda a lógica, que " o gradiente de pressões Norte-Sul deveria mesmo aumentar. A famosa “oscilação norte-atlântica” poderia, sob a influência do efeito de estufa adicional, adquirir um índice cada vez mais positivo [o que é exactamente o inverso dos fenómenos reais, Nota do Autor]. O que favorece as novas gerações de tempestades, […] é uma das nossas hipóteses fortes de investigação." (Le Treut do LMD, in Science et Avenir, 2000, p.82). "Hipótese forte"! A incoerência científica é contudo manifesta : ninguém ignora que o índice da oscilação norte-atlântica é nitidamente mais elevado no Inverno (Cf. ONA, figura 3b), e que nas latitudes temperadas, esquematicamente, o "mau tempo" é associado ao "frio" e aos contrastes térmicos fortes (como o demonstra a dinâmica das perturbações invernais, quando as tempestades mais intensas caracterizam esta estação). Eis agora, bizarramente, ser atribuído ao "calor" e aos contrates térmicos atenuados o contrário daquilo que é um facto observado naturalmente! A questão é assim particularmente confusa e levanta desde já duas vezes o facto fundamental, mas ainda mal conhecido, da dinâmica das perturbações e nomeadamente a ausência actual da ligação entre a circulação geral e as distas perturbações. Os modelos são utilizados tanto como argumento, tanto como álibi ou, até mesmo, como desculpa! Mas na falta de uma concepção adequada, estes modelos são incapazes de demonstrar a relação entre o efeito de estufa e a evolução do tempo, e são sobretudo incapazes de dizer se o tempo vai ser mais clemente ou mais violento. As predições catastrofistas do IPCC sobre a evolução do tempo são, portanto, totalmente infundadas, isto é, sem suporte científico. Esta situação revela o mau conhecimento da dinâmica do tempo e, em particular, das precipitações associadas, nomeadamente, nas médias latitudes. Se não sabemos prever o tempo, como procederemos para prever as chuvas? A dinâmica das precipitações Nenhum parâmetro climático pode variar isoladamente, nem tão pouco a temperatura ou a precipitação, e o tempo não se determina sobre uma base local, nem mesmo regional. É função, em proporções muito diferentes, de condições próximas e de condições afastadas. De uma maneira geral, a dinâmica do tempo depende pouco das condições locais. Nomeadamente, no caso de acontecimentos intensos que exigem transferências potentes, através de uma distância longa e de maneira sustentada, de quantidades enormes de potencial precipitável, isto é, energético. Transferências essas que são organizadas nas altas latitudes pelos AMP que têm assim eles próprios uma origem longínqua (Leroux, 1996). As precipitações simbolizam as perturbações pois produzem-se essencialmente nestas circunstâncias. Merecem assim uma atenção particular, entre outras, porque acompanham os estados do tempo mais intensos e estão na origem de inundações dramáticas. O aquecimento anunciado iria arrastar uma modificação do ciclo hidrológico e "o volume total das precipitações deveria aumentar" (UNEP-WMO, 2002, p.). Em que argumento está fundamentada esta predição que parece (tão estranha e aberrante que possa parecer visto que os modelos não sabem prever a evolução do tempo) dissociada da dinâmica das perturbações? Como para a temperatura, a previsão das precipitações apoia-se sobre um raciocínio esquemático mas que não traduz a realidade dos mecanismos pluviogénicos. Prevê-se assim um "aumento global das precipitações", em razão da "relação entre a evaporação e a temperatura de superfície […] relação bem estabelecida e confirmada por todos os modelos" (EOS, 1995). O raciocínio não pode ser mais simplista: subida da temperatura = subida da evaporação = subida do teor de vapor de água (potencial precipitável) = aumento da chuva. Isto é primário, mas parece (segundo certos “cientistas”) "fisicamente fundamentado" ("the underlying physics on this is well established" (EOS, 1995) e "todos os modelos confirmam esta relação"! Ora, sabe-se, pertinentemente, que a existência de um potencial precipitável não é se não uma das condições da pluviogénese. Mas ninguém observa em qualquer parte a relação directa entre o potencial precipitável e a água efectivamente precipitada! A chuva não necessita apenas da presença de vapor de água disponível, mesmo acrescida pela evaporação: então, choveria sem descontinuidade sob os Trópicos húmidos. Como também choveria sem cessar sobre a bacia mediterrânica no Verão pois o potencial precipitável é então máximo. Não seria pois espantoso (com esta relação primária) que certos modelos façam chover abundantemente sobre… o Saara! A precedente relação, em função da importância respectiva da evaporação e da chuva, permitiria por absurdo a estimativa seguinte: evaporação = chuva = seca. Espera-se assim prever tanto a inundação como a seca. Mas invalida-se então a primeira relação! Não insistamos. O potencial precipitável (necessário) não é o factor primordial da pluviogénese. Há, salvo excepções localizadas, sempre bastante vapor de água no ar (próximo ou transferível) para se sustentar uma chuvada, mesmo no Saara. Diz-se, com humor, que o ar sariano possui tanto vapor de água como o ar londrino possui do famoso fog. Isso é exacto, mas o défice de saturação é consideravelmente mais elevado e as condições aerológicas estruturais (estratificação) são drásticas. O processo da pluviogénese exige, além da existência necessária do potencial precipitável, a reunião imperativa e simultânea de condições precisas que dizem respeito:

  • ao factor que comanda o transporte de vapor de água (isto é, a energia) nas longas distâncias e que mantém esta alimentação;
  • ao factor (térmico?, mecânico?, dinâmico?) que provoca a ascensão necessária à mudança de estado da água e à libertação consequente do calor latente;
  • às condições aerológicas estruturais favoráveis (isto é, sem cisão, rebaixamento ou estratificação), indispensáveis ao desenvolvimento vertical das formações nebulosas.

Estas condições são extremamente variáveis, tanto à escala sinóptica (instantânea, diária) como à escala sazonal. E variam também com as condições geográficas, as condições estruturais em particular. São diferentes nos Trópicos e nas latitudes altas e médias, dando às diversas perturbações os seus caracteres específicos (Leroux, 1996). É evidentemente mais complexo que a relação elementar, esquemática mas errónea, evaporação/chuva utilizada pelos modelos. Compreende-se assim facilmente a mediocridade do resultado: "A elevação das temperaturas arrastará o reforço do ciclo hidrológico, donde um risco de agravamento das secas e/ou das inundações em certos locais e uma possibilidade de diminuição da amplitude destes fenómenos noutros locais." (IPCC, 1996, p.23). Será isto uma previsão responsável ao se imaginar tudo e o seu contrário? Que crédito atribuir a uma tal previsão que foi repetida em 2002: "O volume total das precipitações deveria aumentar mas, no plano local, as tendências são bastante menos certas […] não se conseguindo mesmo distinguir os sinais da evolução – aumento ou diminuição – da humidade do solo no plano mundial". (UNEP-WMO, 2002, p.5). Kukla havia já sublinhado, em 1990, o "pouco talento" com que os modelos reproduzem o fenómeno pluviométrico. Isto é verdade e sê-lo-á sempre que o raciocínio permaneça fundamentado numa relação tão redutora. A ausência de credibilidade das previsões das precipitações feitas pelos modelos faz novamente luz sobre as carências no conhecimento dos processos que comandam o tempo. Examinemos, por exemplo, a dinâmica do tempo no Atlântico Norte.

4. A evolução recente do tempo no espaço Atlântico Norte

A França pertence ao espaço aerológico do Atlântico Norte onde todos os parâmetros climáticos covariam porque eles obedecem à mesma dinâmica (…). O tempo é aí comandado pelos AMP saídos do Árctico que veiculam o ar frio e provocam em retorno (nomeadamente pela circulação ciclónica sobre a face anterior dos AMP e acima deles) a advecção (deslocamento da massa de ar no sentido horizontal) do ar quente em direcção ao pólo (Leroux, 1996). As evoluções climáticas são diferentes em função das regiões. O oeste e o centro do Atlântico A bacia do Árctico, depois de ter aquecido rapidamente até cerca dos anos 1930-1940, arrefeceu lentamente, em todas as estações, nomeadamente, no Árctico ocidental (Kahl et al., 1993; Rigor et al., 2000). Esta baixa da temperatura árctica foi repercutida na Gronelândia e no Canadá onde os recordes de frio foram constantemente batidos. A Fig. 1 mostra que este arrefecimento diz respeito às trajectórias dos AMP a oeste (de modo mais marcado) e a este da Gronelândia. As curvas seculares evidenciam o óptimo climático contemporâneo dos anos 1930-1960 e o arrefecimento contínuo depois dos anos 70. Em toda a parte central e oriental dos Estados Unidos, até ao Golfo do México, observou-se também uma tendência nítida e contínua para o arrefecimento (Litynski, 2000). Este arrefecimento propaga-se sobre a maior parte do oceano Atlântico, da Gronelândia até à Europa e mais a Sul, tanto no ar como no mar. Deser e Blackmon (1993) observam no Inverno "um aquecimento de 1920 a 1950, e um arrefecimento de 1950 até aos nossos dias". Assim como uma coincidência entre "temperaturas marinhas mais frias que a normal e ventos mais fortes que a normal", até ao largo da África ocidental. Nomeadamente, na vizinhança das Canárias e do arquipélago de Cabo Verde (Nouaceur, 1999; Sagna, 2001). Ao mesmo tempo, sobre a América do Norte, as vagas de frio provocadas por enormes AMP de pressões elevadas que atingem o Golfo do México, pouco severas durante os anos 50, agravaram-se fortemente depois dos anos 70 (Michaels, 1992). O nordeste do Atlântico Figura 1.Fora da trajectória americano-atlântica (a mais frequente) e da localização da depressão estatística dita da Islândia, mas sobre o caminho das descidas directas dos AMP (menos frequentes), o nordeste do Atlântico regista uma evolução original:

  • Uma subida contínua da temperatura que se acentua no Inverno (Reynaud, 1994), estação que reafirma o carácter dinâmico deste fenómeno.
  • Um aumento contínuo das precipitações. Que se traduz entre outras coisas por um ganho de massa em glaciares gronelandeses, islandeses e escandinavos (WMO, 1998). Este ganho é muito raramente mencionado pelos media. Pelo contrário, a redução dos bancos de gelo vizinhos é sempre largamente exagerado (embora isso nada a tenha a ver com o dito aquecimento global).
  • Uma descida contínua da pressão que se acentua também no Inverno (Reynaud, 1994). Este comportamento transborda mais ou menos para a Europa ocidental. Uma outra unidade de circulação desenvolve-se para este a partir da Escandinávia.

Assim, observa-se ao longo das trajectórias dos AMP um arrefecimento. Enquanto um aquecimento caracteriza as regiões situadas fora da trajectória principal dos AMP. Estas regiões beneficiam de advecções acrescidas de ar quente e húmido vindo do Sul. São impulsionadas, sobre a sua face frontal, pelos AMP mais potentes. Do mesmo modo, a Deriva Norte-Atlântica, prolongamento do Gulf Stream, acelerada pelas transferências aéreas mais intensas, traz com vantagem água quente em direcção ao Mar da Noruega. E, em seguida, para o Mar de Barents. Este transporte de calor traduz-se por uma fusão e um adelgaçamento dos bancos de gelo periféricos, aquecidos por cima pelo ar quente e por baixo pela água. A Oscilação Norte-Atlântica Figura 2.O estado do tempo no Atlântico Norte e na Europa está classicamente associado à Oscilação do Atlântico Norte (ONA). A ONA é medida por um índice (Fig. 2) que representa a diferença de pressões entre a do "anticiclone dos Açores" (formado pelo agrupamento de AMP: aglutinação anticiclónica ou AA) e a da "depressão da Islândia" (formada pelas depressões associadas aos AMP). Estes "centros de acção" têm sido definidos à escala das médias. E, assim, eles não existem à escala sinóptica (do tempo real). A referência a estas entidades estatísticas introduziu desde o inicio uma enorme confusão (que permanece depois de mais de um século) entre as escalas dos fenómenos (Leroux, 1996). A ONA está em modo positivo ( vs negativo) quando a pressão está elevada no anticiclone e, simultaneamente, pelo contrário, a depressão está cavada (e inversamente). Estes modos, positivo e negativo, estabelecem covariações mas não as explicam. A causa comum (isto é, a dinâmica dos AMP) não consegue ser identificada pelas teorias clássicas da climatologia. Sublinhe-se que o vigor da transferência ciclónica de ar quente em direcção ao Norte, particularmente sobre a face frontal dos AMP, depende da potência dos AMP. Por sua vez, eles próprios dependem do défice térmico polar. Entretanto, estes conceitos habituais (e "oficiais") ignoram os mecanismos do "balancé do Atlântico Norte", assim como as razões da alteração que permanecem inexplicáveis, como verifica Wanner (199): "Como e porquê a ONA balanceia de um modo ao outro? […] apesar de todos os estudos [todos?, Nota do Autor], […] a questão permanece aberta e o mecanismo do flip-flop é bem misterioso". Hurrel et al. (2001) atestam ainda este mau conhecimento: "Permanecem bastantes coisas a apreender sobre a ONA […], podendo o forçamento provir da estratosfera, do oceano ou de outros processos ainda não identificados." (Ver abaixo a experiência Fastex). Nomeadamente, a dinâmica dos AMP fornece uma resposta clara ao pretenso enigma e o respectivo índice ONA (Fig. 2) transforma-se num indicador da potência dos AMP e da intensidade das trocas meridionais no espaço Norte-Atlântico. Os mecanismos seguintes são facilmente verificados. Tanto à escala sinóptica, como às sazonal, estatística (média) e mesmo paleoclimática. (Leroux, 1996):

Figura 3.
  • Fase negativa ou baixa do ONA (Fig. 3a): diferença de pressão fraca entre AA (aglutinações anticiclónicas) e D (depressões). O Árctico está relativamente menos frio, os AMP são menos potentes, menos frequentes, a sua trajectória é menos meridional; à escala média, a aglutinação anticiclónica (AA dita dos Açores ) é mais fraca, menos extensa e situada mais a Norte; as depressões sinópticas associadas aos AMP são menos cavadas; ainda à escala média, a depressão dita da Islândia é menos profunda e menos extensa. As trocas meridionais são vagarosas, tanto no ar como no oceano (modo de circulação lento). O tempo é mais clemente: os contrastes térmicos são minorados, entre os fluxos assim como entre as fachadas oeste e este do oceano. A temperatura média da unidade aerológica é portanto mais (isto é, menos falsamente) representativa da realidade. Sobre a Europa e o Mediterrâneo, as aglutinações anticiclónicas são menos frequentes e de curta duração.

O caso particular da ONA negativa produz-se quando os AMP descendentes a este da Gronelândia são anormalmente frequentes (isto é, grosseiramente superiores a um quarto das trajectórias dos AMP). A pressão média resultante da depressão D da Islândia é então menos cavada, reduzindo a diferença de pressões com a AA.

  • Fase positiva ou alta da ONA (Fig. 3b): diferença de pressão forte entre AA e D. O Árctico está mais frio, os AMP são inicialmente mais potentes, mais frequentes, a sua trajectória é mais meridional; à escala média, a aglutinação anticiclónica atlântica (dita dos Açores ) é mais potente, mais extensa e mais meridional; as depressões sinópticas provocadas pelos AMP são mais cavadas; à escala média, a depressão dita da Islândia é mais profunda e mais extensa. As trocas meridionais são intensificadas, tanto no ar como no oceano (modo de circulação rápido). O tempo é mais violento: os contrastes térmicos são mais fortes, tanto entre os fluxos como entre as fachadas do Atlântico. A temperatura média da unidade aerológica não tem então significado climático. Sobre a Europa (AAc) e o Mediterrâneo, as aglutinações anticiclónicas são mais frequentes e de longa duração. Assim, uma fase positiva da ONA (somente o LMD pretende o inverso, cf. Le Treut, 2000, in Fléau et al. ), é absolutamente antinómica do "esquema do cenário do aquecimento global".

O tempo tornou-se cada vez mais violento depois dos anos 70 Os anos 70 do séc. XX apresentaram uma verdadeira viragem climática, a partir da qual os contrastes entre as duas fachadas do oceano Atlântico se acentuaram. Assim, "depois de 1974, o modo positivo é preponderante" (Wanner, 1999). A Fig. 2 mostra de maneira eloquente a covariação entre a descida da temperatura sobre o Árctico e sobre as trajectórias dos AMP, e uma subida do índice ONA (Fig. 3b), e inversamente (Fig. 3a). Todos os parâmetros covariam mas seria naturalmente arriscado, como o fazem cegamente os analistas estatísticos, evocar correlações ou relações causais entre a temperatura aérea ou a temperatura marinha de superfície e a chuva, ou entre as pressões e a chuva, visto que a causa dinâmica comum das covariações é exterior à dos parâmetros isolados. A subida contínua do índice ONA está associada a uma baixa da temperatura do Árctico e a um aumento da potência e do número dos anticiclones móveis polares saídos do Árctico (Serreze et al., 1993). Isso significa que, depois dos anos 70, as trocas meridionais intensificaram-se. O que corresponde a um cenário "frio", a um modo rápido de circulação (Fig. 3b), a afrontamentos mais severos e a contrates mais acentuados entre as duas margens da unidade aerológica (Leroux, 2000). Figura 4.Sobre a América do Norte, a frequência das perturbações violentas, blizzards, e tornados, aumenta fortemente em ligação com as intrusões mais frequentes de ar frio, isto é, dos AMP mais potente e mais numerosos. Estes acontecimentos inscrevem-se numa subida contínua da frequência das tempestades violentas depois de 1965 em ligação com um aumento das depressões profundas na bacia dos Grandes Lagos (Kunkel et al., 1999). Formados na face frontal dos AMP, pelo contacto conflituoso entre o ar frio e o ar húmido proveniente do Golfo do México que fica ainda mais instável sobre o continente, os tornados aumentaram fortemente no decurso do período 1953-1995 (WMO, 1998). Este endurecimento do tempo propaga-se sobre o Atlântico Norte onde a potência acrescida dos AMP provoca depressões profundas e cavadas. Os "ciclones" polares com pressões inferiores a 950 hPa, que testemunham temperaturas invernais de forte intensidade, têm assim aumentado de maneira notável de 1956 a 1998. Quase triplicaram desde o Inverno 1988-1989 (WMO, 1999). Estas tempestades transbordam sobre os países ribeirinhos do Atlântico. Os resultados do projecto europeu WASA (1988), fundado sobre a observação das pressões (a força do vento está ligada às depressões cavadas). Donde, à intensidade das advecções ciclónicas do Sul. Não há qualquer equívoco: "A principal conclusão é que a climatologia das tempestades e das vagas na maior parte do Atlântico Nordeste e no Mar do Norte tornou-se verdadeiramente mais rude no decurso dos decénios recentes, mas a intensidade actual parece ser comparável à do início do século". Esta conclusão está conforme à evolução da Fig. 4. Nesta verifica-se que o índice de tempestuosidade se ajusta de maneira notável à evolução do índice ONA, e onde também se nota que os valores recentes são todavia os mais elevados do século. Esta evolução é o inverso da evolução térmica das altas latitudes, em que em meados do século o clima foi mais clemente, dominando o óptimo climático. As tempestades sobre o litoral atlântico francês, e também britânico, foram cada vez mais frequentes e intensas (Lemasson et Regnaud, 1997). Provocaram na Bretanha "um aumento da frequência dos ventos fortes e das tempestades depois dos anos 70" (Audran, 1998, comunicado pessoal). Os ventos de sudoeste (quentes e húmidos), intensificados sobre a face frontal dos AMP, aumentaram a frequência das condições pluviogénicas, aumentando a temperatura e a pluviosidade (com inundações repetidas). A tempestuosidade seguiu a mesma evolução no sentido da alta. Este acréscimo das trocas meridionais, nomeadamente da potência dos AMP, está traduzido indubitavelmente pelo aumento, contínuo e forte, da pressão atmosférica sobre a trajectória dos AMP, sobre a América do Norte e nomeadamente sobre o este do Canadá, o Atlântico Norte (Fig. 3b), a Europa ocidental. Salvo, naturalmente, acima do mar da Noruega (Fig. 3b) que conhece pelo contrário uma baixa concomitante de pressão. Uma tal tendência é antinómica de um aquecimento, se este último for considerado como uma causa (sendo o ar quente ligeiro), mas não o é pela lógica contrária, se invertermos a relação: uma alta da pressão nas baixas camadas "é a causa de uma alta das temperaturas" (Thieme, comunicação pessoal) consequência das propriedades termodinâmicas dos gases (uma pressão elevada favorece em particular a condução molecular). Esta alta de pressão traduz também uma frequência maior das aglutinações anticiclónicas, nomeadamente continentais que favorecem uma alta das temperaturas diurnas (forte insolação), mas em troca uma baixa das precipitações (estabilidade anticiclónica), em particular no coração do Inverno. Esta evolução do tempo no espaço Atlântico Norte fornece um desmentido suplementar às previsões dos modelos, visto que é exactamente o inverso de um "cenário do efeito de estufa". É igualmente confirmada noutras unidades aerológicas do hemisfério norte. As outras unidades de circulação do hemisfério Norte Na unidade do Pacífico Norte (Fig. 3), os AMP vêm da Ásia ou descendem directamente pelo estreito de Behring. A advecção do Sul é fortemente canalizada para o Norte entre a face frontal dos AMP e o relevo das Montanhas Rochosas, formando os AMP a aglutinação anticiclónica dita do Havai ou da Califórnia. As águas marinhas são canalizadas para o Norte (corrente "quente" do Alasca), ou para o Sul (corrente "fresca" da Califórnia). A evolução recente é idêntica àquela observada no Atlântico Norte (Favre, 2001): no nordeste, na localização da depressão (média) dita das Aleutas, observa-se um aquecimento tanto no ar como na água superficial (sendo intensificada a corrente do Alasca), com as mesmas consequências (que no mar de Barents) sobre a espessura do banco de gelo. A pluviosidade aumenta fortemente, enquanto a pressão baixa nas escalas sinópticas e médias. Mais ao Sul, o aumento da pressão é forte na aglutinação anticiclónica deslocada em direcção ao Sul, arrefecendo o Pacífico Norte ocidental e central (Gershunov et al., 1999). A actividade ciclónica "aumentou de maneira notável", a frequência das depressões profundas aumentou cerca de 50%, a pressão central mínima baixou 4 hPa a 5 hPa. Os ventos extremos associados e a vorticidade aumentaram 10 % a 15 % (Graham et Diaz, 2001). As perturbações migraram vantajosamente para o Sul, donde as tempestades foram mais frequentes (inundações na Califórnia). Figura 5.A partir da Escandinávia começa uma outra unidade de circulação (Fig. 3). Os AMP escandinavos e russos propagam frio e aumento da pressão em direcção aos Balcãs e à bacia do Mediterrâneo. Schönwiese et Rapp (1987) mostraram que durante um século, de 1891 a 1990, a temperatura baixou 1 ºC na Escandinávia e para lá da Europa central. Ao longo da trajectória dos AMP. Enquanto aumentou na Ucrânia e ao sul da Rússia de aproximadamente 2 ºC, ao longo da trajectória dos retornos ciclónicos do Sul. Esta evolução foi confirmada por Litynsk89i (2000). No Mediterrâneo central e oriental a temperatura baixou em média 1 ºC em trinta anos (Kutiel et Paz, 2000). Em Jerusalém, as temperaturas invernais registaram em 1992-1993 os seus recordes inferiores dentro do período 1865-1993 (– 3,5 ºC em relação à normal de 1961-1990). Israel conheceu em 1994 o pior Inverno desde há cem anos (WMO, 1995). Uma situação de "seca" reinou no Mediterrâneo, nomeadamente na Espanha (Gil Olcina et Morales Gil, 2001), na Itália (Conte et Palmieri, 1990), na Argélia (Djellouli et Daget, 1993) e na Grécia onde o défice pluviométrico se tornou preocupante (Nalbantis et al., 1993; Nastos, 1993). O aumento da pressão é forte, constante e generalizado sobre a Europa ocidental e central assim como no conjunto da bacia mediterrânica. Estendeu-se ao Sul na África setentrional. A evolução da pressão em Constança (como em Lisboa, Fig. 5), comparada com as temperaturas árcticas é muito eloquente: a pressão ali baixa quando aqui a temperatura aumenta até se atingir o óptimo climático, o aumento de pressão é em seguida rápido depois dos anos 70, associado ao arrefecimento árctico, atingindo 4 hPa (o que é considerável à escala dos valores médios anuais). A leste, uma unidade de circulação, a da Ásia, é alimentada pelos AMP da trajectória siberiana, descendo principalmente a este dos Montes Urais, que atravessa dificilmente a Ásia e atinge o Pacífico através da China. Os dados disponíveis dessa região são fragmentados, mas Litynski (2000) sublinha o arrefecimento muito marcado (– 0,7 ºC) na Sibéria (os recordes de frio da Sibéria e da Mongólia dos Invernos recentes ainda se mantêm na memória) e um aquecimento nas regiões litorais orientais, sobre a trajectória das elações do Sul. Em resumo, no hemisfério Norte, as evoluções climáticas recentes são diversas mas não são as previstas pelos modelos: algumas regiões arrefecem, outras aquecem, as precipitações aumentam ou diminuem, a pressão aumenta ou baixa, mas, em todo o lado, o tempo tornou-se mais severo, mais irregular e mais violento depois dos anos 70, verdadeiro marco da viragem climática do século passado. Estes diferentes comportamentos não devem nada ao acaso e são, pelo contrário, perfeitamente organizados. Têm a mesma condição inicial: o arrefecimento do Árctico, de há trinta anos para cá, fornece um vigor crescente aos AMP boreais. Colocada na evolução climática a longo prazo, esta situação corresponde, todas as proporções guardadas, às premissas da primeira fase de uma glaciação que se caracteriza por uma intensificação lenta da transferência do potencial precipitável tropical em direcção aos pólos e a uma retenção da reserva de água sob a forma sólida. A evolução do tempo, tal como ele é observado directamente, não deve, por consequência, absolutamente nada ao "cenário do efeito de estufa antropogénico, do aquecimento global e das alterações climáticas mal compreendidas".

5. Outras "mentiras"

Outras afirmações não verdadeiras participam na constituição da impostura científica do presumido aquecimento global. Qual é o seu valor real? As alterações climáticas já começaram? Figura 6. "Existem provas que as alterações climáticas já começaram" (UNEP-WMO, 2002, p.2) conforme pretende o IPCC. Acrescenta: "A evolução das temperaturas desde há alguns decénios corresponde ao aquecimento previsto pelos modelos devido ao efeito de estufa". O principal argumento sob o qual se fundamenta esta certeza reside na curva da temperatura reconstituída a partir das observações. Isto é, a partir das médias à escala planetária ou hemisférica (publicada todos os anos pela OMM), e parece assim confirmar que podemos atribuir "uma influência perceptível do homem… na evolução do clima". Qual é o valor real desta "prova absoluta" (desde já infirmada pelos satélites, cf. abaixo)? Nada permite afirmar que o aquecimento global começou, e a prova considerada irrefutável – a curva-padrão da evolução da temperatura média global – é também um logro. A Fig. 6, na qual o índice ONA deve ser considerado como uma testemunha da intensidade das trocas meridionais no hemisfério Norte, mostra três períodos distintos:
1) No início do século, a diminuição progressiva do índice ONA traduz uma atenuação dos desvios entre as faces das unidades de circulação e um aumento da temperatura média a norte da latitude de 30 ºN.
2) Em meados do século (óptimo climático), o índice ONA é moderado a negativo, os contrastes térmicos são fracos e a média da temperatura é próxima da normal.
3) Depois do fim dos anos 70, o índice ONA aumenta vigorosamente e a elevação da temperatura está directamente associada ao aumento das subidas de ar quente na face frontal dos AMP que intensificaram de produção. Ottermans et al. (2002) demonstraram recentemente que o aquecimento dos Invernos europeus não é devido, no decurso do período 1948-1995, à elevação dos GEE mas a uma modificação da circulação atmosférica e nomeadamente à intensificação dos ventos de sudoeste (Fig. 3b). Tendo em conta as evoluções similares nas outras unidades de circulação do hemisfério Norte, o aumento recente de temperatura, indevidamente atribuído ao efeito de estufa antropogénico, não é se não um artefacto. Foi provocado pela aceleração das trocas meridionais e por um fornecimento mais intenso nas médias e altas latitudes de calor tropical, aéreo e marinho. A curva térmica reconstituída tem portanto cada vez menos significado climático à medida que vai ascendendo. Deve-se, por outro lado, sublinhar que este aquecimento (aritmético ou contabilístico) é mais elevado ao norte da latitude 30 ºN (cf. WMO, 2001). É esse aumento regionalizado que determina a evolução da curva dita "global" (Fig. 6: an T glob ), donde o significado climático real é mesmo assim consideravelmente diminuto. A similitude entre estas duas curvas térmicas mostra que o hemisfério Sul e as latitudes 0 ºN – 30 ºN não jogam se não um papel muito limitado na evolução geral, sendo que esta é, por fim, sobretudo determinada pelas latitudes situadas a norte de 30 ºN. O pretendido aquecimento dito global atribuído ao efeito de estufa antropogénico é com efeito regional e limitado. Releva no essencial do factor dinâmico e, portanto, de uma alteração do modo de circulação geral a partir dos anos 70, desvio climático principal que é, recordemos, ignorado pelos "modelos" e pelos "experts", nomeadamente, os ditos “cientistas” do IPCC. O caso do nível do mar "Os modelos prevêem uma elevação suplementar do nível do mar de 15 cm a 95 cm daqui até ao ano 2100 […] devido à dilatação térmica das águas dos oceanos […] e […] da fusão das calotes glaciares e dos glaciares" (UNEP-WMO, 2002, p.11). Esta previsão segue-se a estimativas anteriores bastante mais dramáticas, então expressas em metros, mas progressivamente minimizadas. Qual é a verdade desta ameaça permanente sobre "as zonas costeiras e as pequenas ilhas"? Afastemos imediatamente a maior ameaça de todas, a do Antárctico (que fazia subir, em teoria, 70 m o nível dos oceanos). A sua situação é notavelmente estável: "O grosso da calote antárctica não sofreu qualquer fusão desde a sua formação, ou seja, desde há 60 milhões de anos" (Postel-Vinay, 2002). A observação dos satélites mostra mesmo que no decurso do período 1979-1999, que é aquele em que se supõe ter havido uma maior elevação de temperatura, houve um aumento da superfície do gelo à volta do continente antárctico (Parkinson, 2002). O gelo da Gronelândia está protegido pelo relevo, não podendo o oceano provocar a desagregação de uma parte dos bancos de gelo que produziria os icebergues (o que explica a conservação dos glaciares continentais até à latitude inabitual de 61 ºN). Além disso, a maior parte da sua superfície do gelo situa-se a mais de 2000 m de altitude onde o ar permanece frio. Observa-se uma alternância de zonas de fusão e de ganho de massa, mas no conjunto o gelo gronelandês permanece estável. Que problemas existem então para se falar tanto nos perigos da Gronelândia? O dos glaciares de montanha? Eles não representam se não um milésimo do volume total dos gelos. Por outro lado, como sublinha Vivian (2002), os glaciares "já registaram no passado flutuações mais importantes do que as que se verificam actualmente", onde em todo o planeta existem glaciares que recuam (por exemplo, na vertente exposta ao Sul do Alasca; Pfeffer et al., 2000) como há glaciares que avançam (nomeadamente na Escandinávia). Eis pois uma forma aparentemente simples de raciocínio – "Faz calor, o gelo funde" – que não funciona bem na Natureza! É também invocada uma outra relação primária: "a água quente dilata-se, o mar sobe", pelo que um aumento de 1 ºC da temperatura do ar arrastaria uma subida de 20 cm numa camada de água do mar de 200 m de espessura. É isto tão simples e imediato? Em Brest, por exemplo, o nível médio do oceano é máximo de Outubro a Dezembro (+ 7 cm), e mínimo de Março a Agosto (- 5 cm), enquanto que a temperatura média do ar é de 16,0 ºC em Agosto de 5,8 ºC em Fevereiro, ou seja uma amplitude média de 10,2 ºC para uma diferença de altura observada de 12 cm… Mas as variações de temperatura e de nível do mar são inversas! Esta ausência de ligação directa mostra que a temperatura do ar não comanda a altura da água, e que as cotas elevadas são produzidas no Inverno por factores meteorológicos: a intensificação das tempestades e aceleração dos ventos de afluxo do sector sudoeste (Fig. 3b), e acréscimo da altura das vagas (Bouws et al., 1996). O factor atmosférico, raramente ou mesmo nunca tomado em conta, é assim fundamental na variação do nível do mar. A pressão atmosférica (1 hPa corresponde a 1 cm) baixa o nível sob os AMP e sob as aglutinações anticiclónicas, mas permite uma elevação sob as depressões. Assim, por exemplo, a anomalia positiva do nível do mar do Pacifico equatorial revelado pelo Topex-Poséidon, ligada a uma anomalia positiva da temperatura durante os anos 1997-1998 (e subida imediata), resulta simplesmente do deslizamento para o sul do Equador meteorológico vertical (EMV). Esta translação manifesta-se em superfície por uma baixa de pressão sob os movimentos ascendentes do EMV. E por uma migração das águas quentes da Contra-Corrente-Equatorial em direcção ao Este (que compensa a translação para oeste da Corrente Norte-Equatorial e da Corrente Sul-Equatorial impulsionadas pelos alísios norte e sul).O aquecimento e a elevação do nível (deslocados para o Sul) acompanham todos os episódios do El Niño, donde a origem é aerológica (Leroux, 1996). Mas quem o sabe? Tanto mais que os acontecimentos do El Niño são geralmente considerados, sem razão, como as causas e responsáveis de calamidades através do mundo (mas sem provas). Sempre pela mesma razão: as análises estatísticas (climatologia diagnóstico) colocam em evidência covariações. Consideradas prematuramente como relações físicas causais à falta do esquema coerente de circulação geral. Mas estas análises não podem determinar o sentido real das relações e o lugar exacto do fenómeno incriminado na cadeia de processos, no início ou no fim. A intensidade das vagas (que se acrescentam também no Pacífico Norte; Allan et Komar, 2000), do movimento das águas do mar depois de uma tempestade, dos upwellings (fenómeno oceanográfico), das correntes superficiais, depende por outro lado das variações da circulação aérea. Uma estimativa das variações do nível do mar (Cf. Cabanes et al., 2002) tem assim pouco significado sem uma estimativa paralela das variações da pressão atmosférica e da circulação aérea das baixas camadas. Uma evolução do tempo com aquecimento, isto é, em direcção a um estado clemente, seria por outro lado uma perspectiva tranquilizadora para os litorais. Por outro lado, antes de dramaticamente fazer "amortecer, deslocar", mesmo "desaparecer", o Gulf Stream, é necessário repor os fluxos aéreos e marítimos nos grandes "8" descritos em cada unidade de circulação das baixas camadas (Leroux, 1996). Deve-se recordar em particular que esta corrente é impulsionada para o Golfo do México pela circulação do alísio que transforma a Corrente das Canárias em Corrente Norte-Equatorial. A circulação do próprio alísio sai da aglutinação dos AMP (na AA dita dos Açores). O deslocamento dos AMP e a tensão sobre a água organizam os grandes movimentos oceânicos. Por consequência, para modificar o escoamento da água superficial oceânica, não é necessário (paradoxalmente) falta de ar! Intervêm ainda outros parâmetros (não tendo em conta factores tectónicos, sedimentológicos, hidrológicos, etc.). O nível 0, teórico, depende assim das águas variáveis da chuva (e das variações das extensões das zonas molhadas), da antecipação por evaporação, ou da retenção glaciar ou continental (terrenos gelados, águas subterrâneas, lagos, barragens, irrigação, etc.). A ameaça da "subida do nível do mar", resumida nas duas formulações elementares recordadas anteriormente, repousa ainda sobre o “mais ou menos” e constitui portanto um argumento que, no essencial, cai por água abaixo. O espantalho do aquecimento Apresentar um hipotético aquecimento como um "apocalipse" (exercício choramingas no qual se distinguem os media) pode certamente fazer passar a mensagem anti-poluição. Mas isso constitui, no plano estritamente científico, uma mensagem errada e um péssimo espantalho. Esquecemo-nos que ainda há bem pouco tempo era o arrefecimento global que era apresentado como a pior (segundo eu, a justo título) perspectiva! E que dizer das reacções dos medias sobre o lançamento da angústia dos sem-abrigo durante as vagas de frio ou quando os automobilistas estão transformados em "náufragos da auto-estrada" no meio de nevões! Pode-se fazer uma comparação com as condições registadas durante o óptimo climático eemien (OCE, há 120 000 BP – before present ) ou mais facilmente com as do óptimo climático holoceno (OCH, entre 8000 e 5000 BP), quando a temperatura global era de 2 ºC superior à actual. Assim, por exemplo, no OCH, o Saara estava cheio de lagos e de terras húmidas, com a parte desértica consideravelmente reduzida. As trocas transarianas intensas favoreceram o florescimento do Neolítico de tradição sudanesa. Esta situação prevaleceu, numa menor escala, durante todos os períodos quentes ulteriores, nomeadamente durante o óptimo climático medieval. Neste período assistiu-se ao progresso dos impérios sudaneses. Durante o óptimo climático contemporâneo, dos anos 1930-1960, quando as chuvas subsarianas eram superiores às actuais, assistiu-se à subida dos criadores nómadas sahelianos em direcção ao Norte. Esta migração tornou mais dramático o deslocamento ulterior para o Sul durante a desfavorável pluviometria recente, desde os anos 70, "seca" prolongada que se estende para o Sul, para além do domínio saheliano. Esta extensão oferece ela própria um nítido desmentido ao cenário do aquecimento global, como mostra a situação durante o Último Máximo Glacial, entre 18 e 15 mil anos BP. Então o deserto do Saara estendia-se a mais de 1000 quilómetros para Sul em relação à situação actual. O deslocamento recente das estruturas pluviométricas e das isoietas (linhas de igual precipitação) progrediu (de maneira relativa) aproximadamente 200 km em direcção ao Sul do Saara. Não é absolutamente certo que as conclusões sejam catastrofistas, muito longe disso. É evidente, com efeito, que poderíamos também encontrar, numa situação de aquecimento (se tal viesse verdadeiramente a produzir-se), múltiplas vantagens: um maior conforto nas regiões actualmente frias, uma diminuição dos gastos em aquecimento, uma maior clemência e regularidade do tempo (como foi descrito anteriormente), menos tempestades e ventos fortes, uma frequência menor das vagas de frio severo (e dos gelos tardios, cf. a seguir), uma extensão de terras aráveis ganhas ao mesmo tempo ao frio (alongamento do ciclo vegetativo, diminuição do gelo superficial e entranhado no solo, etc.). As vantagens estendiam-se à menor aridez (amplificação das circulações das monções e aumento das chuvas tropicais marginais, nomeadamente subsarianas ou indianas). Mas, para julgar a pertinência do cenário catastrófico, é necessário fazer apelo simultâneo aos conhecimentos dos paleoclimatologistas, dos mecanismos das variações climáticas a todas as escalas de tempo e da distribuição dos climas, cultura climatológica que não é forçosamente extensiva aos conhecimentos dos “experts auto proclamados”. Alterações climáticas e alarmismo Do mesmo modo, a abundante e "impressionante" literatura pseudo-científica produzida pelo Grupo II do IPCC repousa apenas numa hipótese com valor de postulado. Um simples "se": "se a temperatura aumenta, pode-se imaginar que…" A imaginação é preferencial ou unicamente dirigida para um resultado: "…sucedem catástrofes". Aquele grupo está encarregado de avaliar os impactos eventuais do aquecimento presumido. Isto é, de "simulações trabalhosas" que consistem em "imaginar o máximo de prejuízos […] para meter medo a toda a gente" (Lenoir, 2001). Estas ficções-elucubrações são entretanto consideradas sem-razão como se fossem previsões. Os media reproduzem-nas sem nuances. Aliás, seria escusado já que a catástrofe como o sensacionalismo fazem vender papel. Mas, o que é mais grave, também são repetidas sem vergonha pelos "cientistas". Assim, por exemplo, Le Treut et Jancovici (2001) – o segundo apresenta-se como "engenheiro-climatólogo" (sic) de geração tão recente quanto artificial – reúnem numa centena de páginas uma densidade notável de banalidades, lapalissadas, ninharias e "lágrimas de crocodilo" (Cf. a citação liminar seguinte) que amplificam o alarmismo do IPCC. Vejam-se alguns extractos do escrito desses "cientistas":

  • "A modelação permitiu traçar um feixe de futuros possíveis onde o clima parece inevitavelmente que vai mudar." (p. 45). Que truísmo! Que faz o clima há milhares de anos?
  • "Uma alteração climática corresponderá justamente a uma desregulação das flutuações naturais […]" (p. 54). La Palice teria dito melhor? Qual será de facto a definição de uma "flutuação natural"? E qual é a diferença entre "flutuação" e "alteração", nomeadamente, "natural"?
  • "[…]A possibilidade da fusão dos gelos polares é praticamente nula até 2100. […] Mas para lá de 2100?" (p.52). Na falta de uma catástrofe "imediata", deve-se projectar para além da Saint-Glinglin. Porque "uma fusão parcial do Antárctico teria consequências fenomenais e irreversíveis." (p. 52). Brrr! E "a elevação dos oceanos ameaçará também a existência de certas ilhas." É a síndrome maldiviana. Não se percebe, visto que antes se dissera que a "elevação" era considerada "praticamente nula" (p.52) e até "impossível" (p. 56).
  • "Um eventual aumento da variabilidade […] pode afectar as temperaturas (aumento dos gelos tardios da Primavera, etc." (p. 59). Um "gelo" como um risco natural num cenário de aquecimento!
  • "Como preservar a nossa saúde se não dispusermos de alimentos em quantidade suficiente, se os produtos tóxicos se disseminam ou se um stress intenso desenvolve o consumo de drogas e de álcool?" (p.61) E se…e se… é evidentemente terrificante, mas esta tagarelice (que ultrapassa as tertúlias) é grotesca!
  • "Um aumento da mortalidade, consequência possível de um aumento das temperaturas" (p. 61) também é possível imaginar. Esquece-se que a mortalidade associada ao frio é de longe a mais frequente? Provavelmente como este desaparece, a mortalidade vai diminuir!
  • "Um deslocamento para Norte e em altitude das zonas endémicas do paludismo" (p. 62) é de recear. Devido aos "miasmas dos pântanos" como se sabe. Ninguém ignora que este mal era endémico há pouco tempo em França, na Sologne ou nas Landes. Foram arborizadas para erradicar o flagelo. Mais recentemente no Languedoc e na Camargue a malária estava erradicada. Tão pouco nas planícies do Pó ou nos Marrais Pontins, nem sequer na Lapónia ou no Quebeque, existe infestação de mosquitos!
  • "O aumento de outras doenças transmitidas por insectos" (p. 62) é outra terrível doença também imaginada por esta gente. Quando será que a mosca tsé-tsé invadirá os prados normandos transformados em savanas (recheadas de macieiras, bem entendido)?

Quem pode acreditar em tais idiotices? Elas são contudo reproduzidas muitas vezes sem qualquer discernimento. A Sociedade Francesa de Meteorologia julga entretanto que esta literatura de cordel é uma " excelente síntese sobre as alterações climáticas " (Javelle, La Météorologie, nº 36, 2002, p. 74). Quem diria! Felizmente que os autores tomam a cautela de precisar, sem escrúpulos e sem sombra de dúvida, a qualidade das suas especializações. "A credibilidade do diagnóstico da comunidade científica é um ponto essencial" (p. 102)!

6. Os abusos da meteorologia-climatologia

O discurso das alterações climáticas não é convincente. É mesmo incoerente. Poluição e clima abusivamente ligados devem ser dissociados. A poluição é preocupante e deve ser tratada separadamente pelos especialistas destes problemas. O clima deve ser tratado pelos climatologistas. É evidente. Não está provada a ligação do clima com a poluição. Salvo à escala das cidades. Cada disciplina tem o seu próprio domínio de competência. Mesmo neste existe muito a fazer. A mistura dos dois domínios diminui a eficácia de resolução dos problemas respectivos. Em climatologia, o imperialismo dos modelos deve ser questionado em particular. O imperialismo dos modelos As previsões-predições dos modelos são consideradas, injustificadamente, como o fruto idealizado de uma ciência meteorológica acabada. Todavia, eles só podem impressionar favoravelmente aqueles que não são climatologistas avisados. Estes supõem resolvida a modelação dos fenómenos meteorológicos e perfeitamente conhecidos os esquema da circulação geral. Isso está muito longe de acontecer. Com efeito, estas previsões são sobretudo aproximações. São simplificações exageradas, são incoerências e contradições de uma disciplina meteorológica em crise de conceitos. Está prisioneira dos seus velhos dogmas e tem necessidade de confessar o que ela não é capaz de explicar. A polarização do efeito de estufa antropogénico feita nos modelos oculta os outros factores possíveis de modificações climáticas: o vapor de água, a nebulosidade, a falta de homogeneidade atmosférica, a actividade solar, o vulcanismo, a urbanização, os parâmetros orbitais, os raios cósmicos, etc. Sobretudo a dinâmica das trocas meridionais (Leroux, 1996). Todos estes parâmetros não são tidos em conta nos modelos. G. Dady ajuíza a propósito da modelação que "a deriva redutora […] é não somente perigosa porque ela interpreta mal a realidade mas, além disso, é totalitária". (in Le Monde, 24 de Fevereiro de 1995). A modelação impõe o seu "totalitarismo científico":

  • Sobre a climatologia, donde os estudos ditos diagnósticos estabelecem invariavelmente "teleligações" ou correlações estatísticas. Isto é, na realidade são covariações. Sem nunca demonstrar os eventuais laços de causalidade entre os parâmetros analisados. Pode-se muito facilmente "estabelecer relações longínquas". Por exemplo, entre as temperaturas marítimas da superfície do Atlântico Norte e as precipitações saharianas. Mesmo que, por motivo das trajectórias dos alísios marítimos, o potencial precipitável desta parte do Atlântico tenha ínfimas chances de ser enviado para África por advecção. É possível deste modo estabelecer relações estatísticas muito longínquas entre o ENSO (El Niño Southern Oscillation) e as precipitações à escala global…mesmo que os fenómenos considerados obedeçam a factores totalmente diferentes. Estão afastados por milhares de quilómetros e pertencem a unidades de circulação específicas. Unidades separadas por barreiras montanhosas imponentes que interditam qualquer comunicação entre si realizadas nas baixas camadas. Estas análises não servem para grande coisa. Não fazem progredir um milímetro a compreensão das perturbações e dos processos pluviogénicos (cujos mecanismos reais são sempre ignorados pelos modelos). Recordemos por outro lado que os modelos são incapazes de precisar o sentido da causalidade das relações supostas devido à falta de um esquema de circulação geral. A interpretação pode então, indiferentemente, de acordo com as necessidades, a fantasia ou o maior dos bambúrrios, tomar o efeito pela causa. É o caso do El Niño considerado como um factor fundamental ainda que se encontre no fim da cadeia dos processos. Mas o essencial não é que os resultados sejam …"estatisticamente significativos"!
  • Sobre a meteorologia, em particular no domínio das previsões, onde os modelos são incapazes de prever o tempo para lá de 2-3 dias. Para além de 3 dias, a taxa de confiança não é superior a 3 em 5 ou 2 em 5, isto é, uma hipótese em duas, o que não constitui uma previsão! Os modelos não podem sequer prever o tempo do próximo mês, nem sequer do próximo Verão. Quanto mais num prazo mais alargado. E são sempre os mesmos modelos: "Simulamos o clima com os mesmos modelos que são utilizados para prever o tempo." (Rochas et Javelle, 1993). Os modelos não previram e não explicaram nem as inundações de Aude de Novembro de 1999, nem as tempestades de Dezembro de 1999, nem as inundações de Gard de Setembro de 2002, nem a neve de Janeiro de 2003, etc., etc. Os modelos não são capazes de reconstituir a evolução do clima do século que acabou recentemente. E há quem tenha a pretensão de prever o clima que existirá dentro de um século! É isto verdadeiramente sério? Quando os modelos prevêem o clima de 2100, não se deve esquecer as reservas emitidas pelos próprios modeladores: "As incertezas ainda são muito elevadas […] as mudanças associadas às diferentes parametrizações são da mesma ordem de grandeza que os erros do modelo". (Beniston et al., 1997). Assim "sem dúvida, a acumulação destes factores de incerteza torna ilusória, de momento, a predição detalhada de uma evolução do clima futuro." (Le Treut, 1997).

Os modeladores, que estão na origem do "cenário do aquecimento global", devem pois cessar de acreditar neles próprios (não esquecendo as suas reservas confessadas). Sobretudo, os modeladores devem deixar de enganar aqueles que não dominam a climatologia nem estão em condições de julgar os modelos ao estarem a informar que dispõem realmente de "modelos" no sentido próprio do termo. Talvez assim se atenuasse esta forma de ditadura, do IPCC, sobre a climatologia em França. A situação da climatologia em França Qual é o estado do debate sobre o efeito de estufa antropogénico e, mais geralmente, sobre a climatologia em França?

  • O director da Météo-France tomou partido pelo aquecimento global. Aparentemente sem razão científica porque, sem por em causa os seus méritos administrativos, ele não possui formação adequada. Fê-lo, mais ou menos por duas razões evidentes. Primeiro para defesa da sua instituição que recebe deste modo créditos em abundância (para manter o funcionamento vão dos tera-flops – meios caríssimos sem resultados palpáveis – e o fantasma dos supercomputadores dos quais espera sempre o milagre que tarda a chegar). Depois porque tem a ambição de vir a ser secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia. Compreende-se também a análise que faz Rochas (inspector geral da meteorologia) na La Météorologie, revista da Sociedade de Meteorologia de França (nº 38, 2002, pp. 68-69), da obra de Lenoir (2001): "A posição em que se coloca Yves Lenoir é difícil de manter […] porque defende uma posição oposta à da ideologia (sic) dominante." Ideologia! Pode-se imaginar uma afirmação mais ingénua do lyssenkismo (do charlatão russo Lyssenko) que reina na instituição francesa?
  • O presidente do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) lançou-se desde a sua nomeação em conferências sobre as alterações climáticas. Mostrou imediatamente que ele é um especialista incontestado da camada do ozono mas não da climatologia. O CNRS seria transformado num centro da solução encontrada, ou imposta, para resolver o problema? A atribuição da Medalha de Ouro do CNRS a dois eminentes químicos glaciologistas (C. Lorius e J. Jouzel) é sintomática deste estado de espírito. Estes teriam evidenciado a covariação de parâmetros climáticos no decurso dos quatro últimos ciclos glaciários. Esta medalha, amplamente merecida pelos resultados absolutamente notáveis em paleoclimatologia, que validam sem ambiguidade as teorias de Milankovitch, foi atribuída "por ter posto em evidência a ligação entre o teor de gases com efeito de estufa na atmosfera e a evolução do clima". Esta "ligação" é falsa (Cf. o segundo parágrafo do número 2 anterior) …mas este "desvio fraudulento" é redutor, é uma mentira. Mas é o pão-nosso de cada dia (veja-se os trabalhos do SIAM- Scenarios, Impacts and Adaptation Measures, em Portugal)!
  • A Comissão interministerial do efeito de estufa (que se deveria antes chamar de controlo da poluição já que corresponderia melhor à sua vocação) só pode com um tal nome defender (sem estado de alma) a "bíblia" do IPCC. A sua presidente, cujo nome não pertence à bibliografia dos especialistas na matéria, só pode considerar B. Lomborg ( The Skeptical Environmentalist, 2002) como um perigoso "negativista"! (Nouvel Observateur, 2 de Outubro de 2002, p.22). E por que não herético ou mesmo terrorista?
  • A Comissão francesa para o desenvolvimento sustentável realizou em Fevereiro de 2002 uma Conferência dos Cidadãos. Realizou-se na Cidade das Ciências. O objectivo era "formar profanos da maneira mais objectiva e completa possível". Este alvo não deixa qualquer dúvida – dúvida que é salutar em ciência. A Comissão pôde assim tranquilamente emitir a sua propaganda para um público ignorante. A plateia considerava-se sem dúvida lisonjeada por ter sido "eleita". (Eleita como a maioria dos delegados do IPCC, através de um processo semelhante, embora noutra escala). Qual pode ter sido a utilidade de uma tal hipocrisia? Seria possível imaginar um sítio mais impróprio?
  • A delegação francesa do IPCC (qual é o procedimento de selecção?) não tem qualquer climatologista reconhecido. Isto é, observador atento da realidade meteorológica. M. Petit, engenheiro de telecomunicações, inicialmente membro do Grupo II do IPCC (Cf. atrás), declarou a propósito das inundações no Somme durante o Inverno e a Primavera de 200-2001: "Nada permite dizer que as inundações […] foram devidas ao efeito de estufa […] mas pode-se dizer que estas chuvas fortes são exactamente o género de acontecimentos que os modelos prevêem como mais frequentes no decorrer deste século". (É inexacto, os modelos são incapazes de fornecer uma previsão do género!) E acrescentou: "[…] mas atenção, isso não significa que haverá inundações todos os anos. Não, também conheceremos anos secos". (Le Monde, 19 de Abril de 2001) Caricatural! A vacuidade de uma tal opinião não provém de um climatologista. Mas M. Petit tem uma escapatória: fervoroso praticante da teleclima, nunca publicou nada sobre esta matéria. Esta lacuna não impediu de ser nomeado (por mérito não duvidoso) presidente da Sociedade de Meteorologia de França. Nem o milagre de ter ascendido recentemente ao Grupo I do IPCC. Claro, dentro da orgânica do IPCC, este é o grupo…científico! É assim que se designa um "especialista de climatologia"! Pode-se facilmente imaginar o nível da especialização!
  • A Academia das Ciências, na sua última grande missa de Outubro de 2002, convocou o areópago dos fiéis. Mas não convocou sobretudo elementos perturbadores que poderiam estragar uma tão bela festa. A perturbação poderia acontecer precisamente na primeira sessão. Esta era consagrada à "credibilidade dos modelos climáticos" (os próprios alicerces do baralho de cartas). Seriam apresentados pontos embaraçosos como os evocados anteriormente. Relativos ao modo de predição da temperatura, da chuva, e do tempo. Ou então, poderiam ser apresentadas reservas quanto à incapacidade estrutural dos modelos para tratar a matéria em causa. As comunicações académicas, já utilizadas nos precedentes ofícios, ficaram novamente prontas para o próximo sínodo!
  • Em Julho de 2002, a Assembleia Nacional francesa aprovou o relatório da comissão parlamentar para a ciência e tecnologia. Na preparação do relatório, o relator (um senador desconhecido da bibliografia climatológica) entrevistou 89 pessoas (Cf. pp.255-261 do relatório). Todas bem-pensantes. Nem ao menos as aparências foram salvaguardadas. Não foi ouvido um único "céptico". Seria honestamente obrigatório não esquecer outras vozes. Mas foi assim que, perante um delito de não-assistência à climatologia em perigo, se definiu uma "prioridade nacional" (para a ciência e tecnologia)!
  • Que dizer da geoclimatologia? Os geógrafos-climatólogos, normalmente preocupados com a evolução do ambiente e teoricamente bem colocados para analisar o tema, são particularmente discretos no debate, e/ou são afastados (sem resistência), e alinham na sua grande maioria sob a doutrina oficial.

"França, mãe das artes…"! A situação em França é aflitiva, sobretudo indigna da vocação de certas instituições e particularmente aferrolhada. Tenho experiência disso (felicitando-me de não pertencer à classe dos psitacídeos):
- Conferências anunciadas a pedido e depois desmarcadas sem explicação; por exemplo, pelo CNRS, em 21 de Junho de 2000, na Cidade das Ciências, porque tinha lá ido, por convite, anteriormente, apresentar em 7 de Junho uma primeira conferência contra-a-corrente dos slogans oficiais (o que provocou uma "desordem"!);
- Projectos de investigação afastados por razões obscuras (porque o projecto incomoda, não consola e não tem os sacramentos necessários?);
- Artigos pedidos e depois recusados para publicação sem explicação coerente (ausência de palavras-chave adequadas?): não há lugar para os heréticos, é necessário recitar cânticos;
É bem certo que este debate (ou mais seguramente nesta ausência de debate!) se afastou desde há muito tempo do domínio, stricto sensu, da ciência objectiva e desinteressada. No essencial tornou-se numa repetição servil, como leitmotiv, do catecismo do IPCC. Esta sigla transformou-se na tradução do "Inventário do Psitacismo Politicamente Correcto". Politicamente pode ser, mas "correcto" não certamente no plano científico. O "matraquear" mediático Os media, nem todos felizmente, perderam todo o bom senso e toda a lucidez (a menos que?). Caíram num tal painel para contribuir (gratuitamente?) no reforço desta situação de cegueira e bloqueamento? Durante a vaga de frio da primeira quinzena de Dezembro de 2002 reinou pudicamente o silêncio sobre as ondas… Mas durante a vaga de "calor" (tudo é relativo) do fim do ano de 2002, ou durante a reunião do IPCC, em Paris, de 19 de Fevereiro de 2003 reapareceram instantaneamente, entre outras, as parangonas e as pilhérias:

  • A curva terrificante da temperatura "global", contudo sem valor climático (fala-se agora de um aumento de 10 ºC! Para quando as chamas do inferno?);
  • A eterna imagem (sempre a mesma) de um bloco de gelo mergulhando no mar (só faltava na imagem a angústia do urso branco!)…;
  • As entrevistas das "estrelas bondosas", dos especialistas incontornáveis, como o inevitável M. Petit, famoso "climatólogo" que debita mecanicamente, quase ao milésimo, os versículos do press-book do IPCC!

É necessário "recuperar tudo", de uma maneira ou de outra. Muita vezes ingenuamente e de raspão. Numa cadeia de televisão pública os contrastes de temperatura do Canadá foram considerados como um sinal da "desregulação do clima". No entanto, é proverbial para os canadianos sublinhar que "o Inverno e o Verão podem suceder num mesmo dia"! Esquece-se, ao mesmo tempo – muito bizarramente – de evocar as descidas do frio na América do Norte, na Europa central (Polónia e Roménia), até na Turquia, no Mediterrâneo e na Ásia oriental... Quando se observam as reacções, dolorosas e justificadas, a estas vagas de frio logo que elas se produzem em França, onde não atingem contudo a mesma severidade que nas regiões precedentes, pergunta-se por que razão "a opinião pública" (será ela condicionada?) fica tão assustada como na perspectiva de uma "vaga de calor" … A dúvida não é verdadeiramente permitida: não se trata de informação, objectiva e documentada, mas de propaganda descarada (oficial e organizada?). Torna-se necessário dramatizar, como se se tratasse de cumprir um contrato publicitário, de promover um vulgar detergente (para lavagem ao cérebro). Como nos melhores dias de uma agência de comunicação social… Mas não há ninguém para fazer notar, durante um episódio "quente", que a exportação de frio a partir do pólo (com os AMP) deve – obrigatoriamente – ser acompanhado pelos retornos de ar quente. Este ar vem do Sul em direcção ao pólo donde partiu o ar frio. As trajectórias destas trocas meridionais obedecem a esquemas médios (Cf. Fig. 3) e conhecem variações em intensidade e em comprimento. No momento em que a Europa ocidental, então situada num corredor depressionário, enquadrado por duas aglutinações anticiclónicas, regista uma vaga de "calor", de humidade e de pluviosidade com advecções do vento Sul, a América e a Europa central, separada ou simultaneamente, sofrem vagas de frio intenso. É impossível, seria uma grande banalidade, mas é necessário recordar, que faça ao mesmo tempo frio e calor em toda a parte … Mas é verdade que os orelhudos têm uma limitação considerável da visão panorâmica! Quando se processará o grande debate: científico, público, honesto, necessário e salutar? As prioridades da climatologia A utilização da climatologia no debate sobre a poluição dá uma péssima ideia da própria climatologia. A parte saliente da disciplina, isto é, aquela que é utilizada nos modelos e propagada pelos não-especialistas e os media, é superficial. Muito simples, esquematizada ao extremo, até caricatural. De qualidade medíocre: uma climatologia-popularucha! É surpreendente que cientistas participem nesta mediocridade e se comportem (involuntariamente?) como bruxos. Fazer previsões inverificáveis para 2100 é inútil e extremamente custoso. Mas apresenta-se sem o menor risco (o prazo é tão longínquo!). No entanto, existem tantas coisas a realizar no curto prazo que ocupariam os especialistas com coisas sérias. Os riscos são maiores, e é necessário ousar – e/ou desejar/poder – sair dos carris da rotina e da auto-satisfação! Os modelos não estão "au point", e não hão-de estar, enquanto permanecer "este bloqueamento intelectual, universal em meteorologia, que impede actualmente a investigação de avançar." (G. Dady, Le Monde, 24 de Fevereiro de 1995). Os modelos informáticos não conseguem ultrapassar os esquemas erróneos da circulação geral como o esquema tricelular. Isto é, não integram os mecanismos reais da circulação geral e da dinâmica do tempo. Estes problemas fundamentais não estão resolvidos pela comunidade meteorológica. Basta consultar a última obra da Ecole Nationale de Météorologie (Cours et Manuels, nº 14, de Le Vourc'h, Fons et Le Stum, 2001). Constitui o actual corpo de doutrina do ensino para os alunos de engenharia da Météo-France. Lá permanece a ambiguidade citada. No capítulo 9, intitulado "La circulation générale" (pp. 78-94), o único esquema de circulação (figura 9.7, p. 83) não é tirado da literatura clássica. Foi directamente copiado de…Leroux (1983, 1996, 2000) mas sem citação e sem referência da origem (indelicadeza que não deverá permanecer pois será resolvida por outra vias)! Este modelo de circulação geral é actualmente o único que integra a circulação atmosférica e as perturbações. É o único que se aplica em todas as escalas temporais e do espaço (donde o interesse evidente de ser apropriado às escondidas). Fundamenta-se expressamente no conceito dos anticiclones móveis polares (AMP). Os AMP são o motor das trocas meridionais do ar e da energia. Contudo, os AMP são "oficialmente" (mas sem declaração oficial!) rejeitados pela instituição meteorológica que foi " coberta por uma capa glacial […] desde que a questão dos AMP foi colocada " (Labasse, Foechterlé, 1999). Jamais foi escrito qualquer artigo com argumentos para refutar este conceito de AMP. Na opinião de Rochas, produzida em La Météorologie (nº 38, 202, pp.68-69), que consagra apenas algumas linhas aos AMP, estes são, segundo ele, "des petites bêtes que nascem nas regiões polares […]" e que "no decurso da sua migração expulsam (a sexualidade não tem nada a ver com isso) as depressões" (sic). Eis o nível de argumentação "científica"! Incrível! Sobretudo quando se considera que é a opinião de um inspector-geral da meteorologia, presidente da comissão de redacção da La Météorologie, revista editada pela Sociedade de Meteorologia de França e apadrinhada pelo CNRS! Uma questão climatológica importante é a de perceber a evolução do tempo no último século. Nomeadamente, a de precisar e explicar o que se passou exactamente nos anos 70 para provocar a viragem climática do hemisfério Norte. Mas outras se colocam. A tendência actual provocada pelo arrefecimento do Árctico ocidental, cujas causas profundas se ignoram, vai prosseguir com a mesma intensidade? Ou, pelo contrário, vai-se atenuar ou mesmo inverter? Deve-se esperar uma regularidade e uma clemência do tempo (cenário "quente": circulação geral lenta)? Ou pelo contrário espera-se uma irregularidade e uma violência acrescida (cenário "frio": circulação rápida)? Assim, por exemplo, as velocidades do vento superiores a 140 km/h do dia 26 de Outubro de 2002 no norte da França (e mais elevadas ainda nas ilhas britânicas), confirmam a extensão para o Sul da zona tempestuosa do Mar do Norte (Cf. atrás, figura 4 com ONA positivo)? A evolução da pluviosidade, que provocou inundações repetidas no Inverno, na Bretanha, e no Outono, no sul e no vale do Ródano, vai também continuar a modificar o regime das quedas de neve nas montanhas (onde em pleno Inverno se conhece haver um défice de neve frequente)? A Primavera e o Outono vão aparecer molhados e com neve? Como gerir os riscos naturais de origem climática e, nomeadamente, como tomar, a curto e médio prazo, medidas realistas de manutenção e prevenção, sem conhecer a resposta a esta questões fundamentais? Fenómenos extremos em França Uma outra prioridade mais imediata diz respeito, em França, ao conhecimento e à previsão dos fenómenos meteorológicos intensos, ou mesmo extremos, e a eficácia resultante dos procedimentos de alerta. Um procedimento de alerta-meteo deve fornecer aos responsáveis o estado "do tempo" antecipando os acontecimentos e as suas eventuais consequências. A apreciação correcta da intensidade dos fenómenos deve permitir a tomada exacta das medidas e das disposições a pôr em acção. Uma previsão que anuncia apenas "chuvas" ou "quedas de neve", sem estimar a sua importância, não merece verdadeiramente a qualificação de previsão. Sobretudo, evidentemente, quando uma previsão-alerta é lançada depois de o fenómeno já se ter desencadeado. Em vez de se antecipar, fica-se obrigado a "correr à pressa" em direcção ao acontecimento. É o que Météo-France faz no seu sítio web chamado " refazer em tempo real uma previsão" (sic). Este procedimento não é mais do que o nivel da descrição, a posteriori ! Assim, cada acontecimento dramático conduz às mesmas reflexões e aos mesmos votos piedosos. Mas completamente ineficazes. Nenhuma das catástrofes (na Grand-Bornand, em Nîmes, em Vaison-la-Romaine, nos Aude ou nos Pirenéus-Orientais, ou as tempestades de Dezembro de 1999, etc.) foi verdadeiramente prevista no sentido próprio do termo. Após cada tragédia é repetida a sempiterna questão: " Será que tudo foi feito, em todos os domínios, para evitar tais dramas?" (Leroux, 1993, 2000). Observou-se de novo com as chuvas torrenciais do Gard em 7 e 8 de Setembro de 2002. As chuvas foram previstas com 24 horas de avanço, o que é banal. Sob todos os pontos de vista. Mas estas "chuvas" ultrapassaram largamente, de muito longe, o nível anunciado. O alerta laranja só foi desencadeado 12 horas antes. E o alerta vermelho só quando o dilúvio já tinha começado! Contudo, prever o "mau tempo" com um prazo de 24 horas, sobretudo quando se pretende fazer uma previsão de 7 dias, está longe de constituir uma façanha quando se dispõe da panóplia dos meios actuais, nomeadamente dos satélites. As explicações fornecidas aos media pelo "director da previsão" de Toulouse imediatamente após o dilúvio sobre o Gard revelaram uma profunda e estranha dicotomia (ou desconexão) entre os argumentos avançados e as previsões dos modelos. Assim, estas chuvas diluvianas seriam devidas "à diferença de temperatura entre o continente e o mar […] o continente arrefeceu nesta estação do ano mais rapidamente que o mar" ! Esta "explicação" de escala local (absolutamente inapropriada) foi várias vezes repetida pelos media. É fisicamente absurda. Uma tal oposição (devido ao mecanismo da brisa de terra, que corresponde ao esquema térmico e que sopra para o mar) impediria a advecção (transporte na horizontal) do potencial precipitável mediterrânico para o interior. Tornaria a chuva impossível! Ao mesmo tempo foi possível ler no sítio web da Météo-France (8-9 de Setembro de 2002, "orages") que "outros factores de grande escala intervêm e podem no limite das possibilidades actuais dos modelos informáticos de previsão contribuir para antecipar estes acontecimentos". Mas não se precisava quais eram os "outros factores". Tomaram-se de novo rapidamente na medida das "possibilidades actuais" de antecipação dos modelos, quatro dias mais tarde, a 12 de Setembro, quando Météo-France lançou um novo alerta, totalmente inútil, porque seria suficiente anunciar … chuva e mau tempo! “Falar para o boneco”, simplesmente por precaução (depois do "falhanço", para encobrir), não é previsão. Isso não vale nada. Que dizer ainda das quedas de neve do Sábado 4 e do Domingo 5 de Janeiro de 2003 sobre um quarto do nordeste da França? O sítio web da Météo-France afirma, sem vergonha, que tudo havia sido "previsto 3 dias antes"! Bravo, mas o alerta não foi dado senão no Sábado às 12h30m… e recebido às 14h00 pelos serviços responsáveis. Isto é, quando tudo estava já bloqueado – estradas, aeroporto, automobilistas e passageiros. Que soberbo motivo de auto-satisfação! As numerosas declarações dos responsáveis da Météo-France aos media tentaram dar respostas (i.é., desculpas) a este novo falhanço:

  • "O frio chegou mais depressa do que pensávamos". Era no entanto possível, graças aos satélites e às cartas sinópticas, seguir a "descida" do ar frio árctico afastando para o Sul uma frente fria. Situava-se sobre a Islândia às zero horas do dia 1 de Janeiro, sobre a Escócia no dia 2 às zero horas, sobre a Inglaterra no dia 3 às zero horas, sobre o norte da França no dia 4 às zero horas. Frente fria que se estendia à Bretanha e à Alemanha, e mesmo para lá. Para um fenómeno de tão " pequena escala " (Cf. sítio Météo-France), foi um pensamento demasiado lento!
  • "Os nossos três modelos informáticos de previsão estavam em desacordo". Eis que foi encontrado o "culpado" do falhanço. Para o director do Météo-France a culpa foi do modelo! Mas atenção, não se pode tratar de um erro de um modelo francês porque "nós confiámos no modelo europeu" …Por que razão será ele fiável?

Todavia, nada é dito sobre as capacidades de previsão informática. A imperícia é contudo flagrante e reconhecida pelos próprios utilizadores. Então não disseram que havia um "desacordo"? Note-se que o falhanço não foi de um modelo. Eram três!...E, como habitualmente, após cada fenómeno extremo, tal como acontece às numerosas vítimas, há mais de um decénio, a conclusão é sempre a mesma. Isto é, não há mais nada a fazer… do que persistir no erro e esperar pela chegada na nova super-máquina mágica. É necessário passar um cheque em branco, pois esta máquina realizará (não haja a menor dúvida, como já foi dito várias vezes anteriormente) o milagre tão desejado que tarda a acontecer. Isso deixa ainda uma margem de tempo longo com a possibilidade de "êxito!". Permanece toda a imunidade-impunidade perante novos falhanços. Mas é confortável pertencer a um organismo como a Météo-France que é ao mesmo tempo juiz e culpado! Desta vez, os falhanços foram fixados para até 2008… Paciência! As falhas repetidas mostram, uma vez mais, que a dinâmica dos acontecimentos meteorológicos está longe de ser conhecida, ou reconhecida, como mostra a (in)-experiência Fastex. A "(in)-experiência" Fastex Um (não)-acontecimento meteorológico, geralmente ignorado do grande público, merece ser aqui referido. A experiência Fastex (Fronts and Atlantic Storms Track Experiment) foi realizada sobre o Atlântico Norte, por iniciativa da Météo-France, em Fevereiro de 1997. Tinha por finalidade " observar o conjunto do ciclo de evolução de uma tempestade e determinar os mecanismos que contribuem para a sua formação " (in La Météorologie, nº 16, 1996, p. 42). O objectivo fixado para esta operação produziu um grande ruído e custou imenso dinheiro. Pretendia-se mostrar o desencadear das tempestades através de "um turbilhão situado a dez quilómetros de altitude, longe do solo", chamado precursor. Dito de outra maneira, desejava-se provar que a pretendida "nova teoria" proposta pelo CNRM- Centre National de la Recherche Météorologique (Joly, 1995; Thillet J.J., Joly A., 1995) era verificada. Esta hipótese considera nomeadamente que o mau tempo é "o fruto do acaso e da oportunidade" (Joly, 1995). Imediatamente critiquei esta "teoria", principalmente retirada a Farrel (1994), ao sublinhar que ela só era original no nome visto que não apresentava rigorosamente nada de novo (Leroux, 1996). Em Novembro de 1997, Arbogast e Joly do CNRM apressaram-se a apresentar um procedimento de urgência à Academia das Ciências com a conclusão fundamental do Fastex. Mas esta conclusão estava em desacordo total com o que era esperado. De facto, concluíram pelo "papel inesperado de um precursor confinado às baixas camadas" e não às altas! Fastex é assim (ou poderia ser), no sentido próprio, um acontecimento científico! Com efeito, cinquenta anos de hesitação e de inércia podem ser balizados porque a origem da depressão inicial procurada há mais de um século foi enfim "encontrada":
1. O conceito da escola norueguesa dos anos 20, julgado ultrapassado mas "que tem a vida dura" (Joly, 1995) foi rejeitado (ao menos de modo formal).
2. O conceito da escola dinamarquesa dos anos 40 que concede a prioridade absoluta aos fenómenos de altitude foi igualmente rejeitado. Pretendia-se que este conceito revisitado pela falsa "nova teoria" (Joly, 1995; Leroux, 1996) fosse corroborado pela experiência Fastex. Não havia a menor dúvida antes do início da experiência. Mas a conclusão saiu furada…
3. O motor que desencadeia as tempestades do Atlântico Norte foi enfim "descoberto". Está situado nas baixas camadas. É, sem ambiguidade, segundo as palavras de Arbogast e Joly, "o verdadeiro desencadeador" (1997, p.230). Mas, infelizmente para a Météo-France, "o verdadeiro desencadeador" é, nem mais nem menos, um anticiclone móvel polar (AMP)! Como o mostram muito claramente as cartas sinópticas de superfície do Environnement Canada, a "nova depressão" (i.é., o famoso precursor ), situada entre dois anticiclones móveis polares de 1038 hPa e 1024 hPa, deve a sua existência, a sua baixa pressão cavada e a sua mobilidade a dois centros de alta pressão que se situam sobre a América do Norte em direcção ao Atlântico (Leroux, 2000, p.112). Isto é intolerável! CQNFSPD: C'est ce Qu'il Ne Fallait Surtout Pas Démontrer ! Primeiro porque o dogma, centenário e incontornável, não autoriza como referência se não uma "depressão"! E sobretudo porque os verdadeiros responsáveis – os anticiclones móveis polares – são inumeráveis. Para esses senhores, eles não podem existir, eles não podem (e não devem) absolutamente ser reconhecidos. Mas eles são seres verdadeiros. São os AMP. Como titulava a revista Science et Avenir (nº 979, 199), é precisamente "A teoria que mete medo à Météo-France"! De facto, é mais do que medo. É pavor! Os autores preferem então escrever verdadeiramente, e peso as minhas palavras, não importa como:

  • Primeiro, inventar "a depressão dos Grandes Lagos", uma depressão desconhecida e de origem indeterminada, que aparece ex nihilo mas … que poderia também ser um "velho sistema depressionário" sobrevivente!
  • Depois, atribuir a esta depressão (talvez sobrevivente, sabe-se lá) um "papel crucial", que não é precisado, ou então que "pela sua presença, a depressão dos Grandes lagos induz logicamente uma circulação ciclónica em baixas camadas […]"! É possível fazer melhor em termos de geração espontânea e de lapalissada?
  • Mas tudo é móvel e afastado dos Grandes Lagos, é preciso ainda considerar que é "a acção à distância deste sistema de baixas camadas que…". Que significa "acção à distância"? A fórmula é mágica mas sem o menor fundamento físico!

Como é que a Academia das Ciências pôde aceitar uma tal formulação dita científica? Com é que ela pôde validar o aparecimento tão oportuno e miraculoso de um tal deus ex machina? E como, sobretudo, ela pôde tornar-se cúmplice de uma tremenda mistificação? É ainda um mistério… mas um "mistério" que esclarece o modo como o, por assim dizer, "debate" sobre o efeito de estufa antropogénico é ele próprio tratado: a ideologia sobrepõe-se ao veredicto da observação directa e da realidade dos factos. Fastex, apesar do seu custo, e a despeito – mas sobretudo por causa – do seu "sucesso" evidente e indiscutível na demonstração da validade do conceito AMP, tornou-se um não-acontecimento, como se nada tivesse alguma vez acontecido…Nunca mais se devia deixar de questionar ou de pôr em causa:

  • A teoria norueguesa (ultrapassada) reina sempre sobre as cartas sinópticas de superfície;
  • O conceito dinâmico (não demonstrado) que privilegia a altitude domina sempre o corpo de doutrina da modelação;
  • A ONA permanece sempre também misteriosa (Cf. atrás);
  • A origem das perturbações atlânticas, como de uma maneira geral as perturbações das médias latitudes, é sempre (deliberadamente) ignorada. Como a das tempestades, nomeadamente, as de Dezembro de 1999, sempre atribuídas, apesar do desmentido da observação, ao "“rail” das depressões em altitude" (Cf. sítio web Météo-France).

Por conseguinte, nas condições do obscurantismo, "a previsão das tempestades, apesar do excesso de meios técnicos, releva ainda durante muito tempo da utopia […]" (Leroux, 2000, p.338). E as consequências catastróficas dos acontecimentos extremos podem continuar a multiplicar-se! Verificou-se recentemente, a 13 de Novembro de 2002, a destruição da frota de catamarãs da corrida do Rhum! A partida desta corrida deveria ter sido adiada, se apenas o Météo-France tivesse lançado um alerta sério, identificando antes da sua chegada sobre o Atlântico, o responsável da tempestade situado nas baixas camadas. Mas para isso seria necessário que a Météo-France soubesse compreender a situação meteorológica… Entretanto, compreensão e previsão não são, parece, inseparáveis, como exprime Joly do CNRM: "predizer não é explicar" (in La Recherche, 276, vol. 26, p. 480, 1995). Este ponto de vista, como as "lições" da (in)-experiência Fastex, recordam primeiramente que a falta de conhecimentos dos processos reais de desencadeamento das perturbações, nomeadamente nas médias latitudes, os modelos são completamente incapazes de prever a evolução do tempo. Como se pode então anunciar acontecimentos em 2100 sem cair nas profecias impenitentes? Põe-se também o problema do processo a seguir, estatístico e probabilístico de um lado, ou determinista de outro. Os modelos de previsão são fundamentados no primeiro caso. A observação como a "compreensão" dos fenómenos, neste caso, não é indispensável a priori. Mas a estatística e as probabilidades só dão "bons" resultados…se o desenrolar dos processos não sai da normal. Dito de outro modo, se não desviam dos processos "médios". Quer dizer finalmente que não há nada de inesperado…a prever. Os "limites da previsibilidade" (Cf. sítio da Météo-France) são rapidamente atingidos. O tempo depende todavia, nas nossas latitudes, não da abstracção saída dos cálculos, mas dos actores nitidamente identificados – os AMP – que criam estados do tempo particulares a cada AMP. Depende de cada estado evolução dos AMP, em função das suas potencialidades iniciais adquiridas e das circunstâncias que são variáveis no decurso da sua viagem. O processo determinista, isto é, a atribuição de um tempo específico, e a sua evolução, a um responsável determinado é, por consequência, a mais apropriada das previsões eficazes. Mas isso supõe um conhecimento aprofundado dos fenómenos, uma identificação dos factores responsáveis e a sua verdadeira integração nos modelos. Isso supõe também uma observação atenta, seguida e directa. Mas também uma colocação em questão, todos ao mesmo tempo, dos conceitos meteorológicos clássicos. Entre estes é impossível (há mais de cinquenta anos) realizar uma síntese. Os métodos actuais de previsão apresentam uma ineficácia flagrante. Precisamente, nas situações de paroxismo para as quais a necessidade de eficácia é máxima. A tarefa é pois grande para a instituição meteorológica. Esta está restrita a uma obrigação de resultados conformes à sua missão de serviço público. Conclusões Este fundamental colocar em questão, que é indispensável, teria como primeiro resultado mostrar que o hipotético aquecimento do planeta, saído dos modelos, e fundamentado em aproximações, é indubitavelmente uma impostura no plano científico. Todavia ainda se fala em ciência? Depois da ameaça de uma "nova idade do gelo", depois das "chuvas ácidas", depois do "buraco do ozono" que se fecha e abre, depois (e ao mesmo tempo) do "El Niño-mestre do Mundo" e esperando um novo lobby ou fixação passageira, quanto tempo ainda vamos gastar, inutilmente e com custos elevados, a fábula do "aquecimento global"? Durante este tempo, perdido, falha-se a pontaria no alvo certo. Esquece-se que as verdadeiras questões são mais sérias, mais exigentes e sobretudo mais imediatas do que o tempo e o clima. Sobretudo no domínio da poluição. Mas para isso seria necessário que a "alteração" se operasse primeiro no seio da própria meteorologia-climatologia!

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[*] Professor de Climatologia da Universidade Jean Moulin, Lyon III, França, director do Laboratório de Climatologia do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), França. Autor de Global Warming: Myth or Reality? The Erring Ways of Climatology e La dynamique du temps et du climat .

 

Sabia que hoje é o Dia do Solo?

Efemérides científicas enviadas por Adriano Simões da Silva da Biblioteca Municipal do Porto:
5 de dezembro – Dia Mundial do Solo, criado em 2002 pela União Internacional das Ciências do Solo. Se quiser saber o que existe sobre este assunto, basta pesquisar no catálogo online da BPMP (disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt), por assuntos, por: Ambiente -- Periódicos. Porque uma biblioteca sem assuntos é um cemitério de livros (inacessíveis aos leitores) e a «principal função da biblioteca […], é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós» (Umberto Eco, ensaio A Biblioteca).
5 de dezembro de 1905 – Nasce, em Miragaia, Rui Luís Gomes, matemático licenciado com 20 valores, diretor do Gabinete de Astronomia do Porto e fundador do Observatório Astronómico do Porto. Em 1947, por reclamar contra a prisão de uma aluna sua pela PIDE, foi demitido. Entre 1945 e 1957 esteve preso, pelo menos 10 vezes. A sua candidatura às eleições presidenciais em 1951 foi recusada. Exilado, foi professor emérito da Universidade de Pernambuco, no Brasil. Em 1975, fundou o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto. Tem uma rua com o seu nome. Matemática. Ciência. 5 de dezembro de 1952- Pela 1ª vez, a poluição atmosférica causa milhares de mortos, pelo fumo (Big Smoke), em Londres. Ambiente. Ciência

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/12/sabia-que-hoje-e-o-dia-do-solo.html

Não há santos no G-20

Donald Trump e Emmanuel Macron: é possível defender o planeta protegendo as corporações que o devastam?

Trump é, sem dúvida, o mais bizarro. Mas ao defenderem a globalização corporativa, os governantes do grupo, em seu conjunto, tramam o desastre climático

Por Maxime Combes| Tradução: Felipe Calabrez

Intoxicados por combustíveis fósseis e em busca do crescimento econômico a qualquer custo, os países do G20 respondem por 80% do consumo global de energia – e por 78% da emissão de CO² – embora abriguem apenas 60% da população mundial. O relatório publicado recentemente pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) é claro: Os países do G20, vistos em conjunto, não estão caminhando em direção aos objetivos que eles mesmos fixaram para 2030. Entre os faltosos, podemos incluir EUA e Arábia Saudita, como se poderia esperar, mas também Canadá e União Européia, que em geral apresentam-se como os “Campeões do Clima”.

É uma ideia falsa. O G20, em matéria de luta contra mudança climática, é como uma classe só de maus alunos.. Culpabilizar apenas Donald Trump e os EUA, como se faz habitualmente, é um equívoco. É esquecer que em uma turma de faltosos, mesmo o melhor entre eles não ajuda nada. Por exemplo: a União Europeia, longe da imagem que busca manter de si mesma, não está em condições de garantir que seus objetivos para 2030 sejam atingidos. E dentro da União Europeia, a França está longe de ser exemplar, ao contrário do que dizem os defensores da energia nuclear na matriz energética do país: Suas emissões de CO²aumentaram 3,2% em 2017 em relação a 2016, contra um aumento de 1,8% da UE.

São 20 criminosos do clima

É preciso dizer que os combustíveis fósseis ainda representam 82% da matriz energética dos países do G20, afirma um segundo relatório, publicado pela Climate Transparency.Os combustíveis fósseis,seguemamplamente subsidiados: os países do G20 lhes concederam 147 bilhões de dólares em 2016, contra 75 bilhões em 2007. Um aumento de 96%! Os países do G20 estão, portanto, financiando o agravamento do aquecimento global. Impunemente. E em total contradição com o compromisso assumido em 2009 (na ocasião da terceira reunião do G20, em Pittsburgh) erenovado regularmente desde então, que consiste em remover essas subvenções, ou ajudas disfarçadas. Não tem sido assim. Muito pelo contrário.

De acordo com esse relatório, as emissões de gases de efeito estufa estão aumentando novamente em 15 dos 20 países do G20, que se afastam progressiva e irremediavelmente de uma trajetória em conformidade com os objetivos de elevar a temperatura em no máximo 2º C – idealmente 1,5 ºC – definidos no Acordo de Paris. Tomemos nota: o objetivo de redução de 80% das emissões entre 2005 e 2050 – o mínimo requerido dos países ricos – exige uma redução anual constante de cerca de 3,5% durante esse período. Os países do G20 estão muito distantes e nos conduzem, sozinhos, a um aquecimento global superior a 3,2º C.

Teatro para salvar as aparências

Embora os chefes de Estado dos países do G20 devessem ser todos condenados, pelos seus fracos resultados na luta contra as alterações climáticas, os comentadores e principais meios de comunicação nos reservam a habitual encenação: de um lado, os bons chefes de Estado, aqueles que querem que a luta contra as mudanças climáticas apareça no comunicado final; de outro, aquele, ou talvez aqueles, que não o querem. Uma cena idêntica à do G20 de Hamburgo no ano passado, ou o G7 na Itália (2017) e no Canadá (2018). E para que resultado? Nenhum, uma vez que as emissões de gases com efeito de estufa da maioria destes países aumentaram em 2017.

Devemos listar os membros do G7 e do G20 que assumiram compromissos na luta contra a mudança climática? O G8 de Aquila, em 2009, não havia anunciado grande prioridade alguns meses antes do fracasso da Conferência de Copenhague sobre as mudanças climáticas? Todos estes compromissos, repetidos ano após ano, podem ser retomados e analisados. Nenhum deles surtiu efeito e os países do G20, no seu conjunto, são os principais responsáveis pelo agravamento das mudanças climáticas.

Há, no entanto, analistas que se congratulam, porque, à margem do G20, em Buenos Aires, alguns países, reunidos em torno da França e da União Europeia, reafirmaram sua determinação em lutar contra o aquecimento global. Os mesmos analistas se congratularão por conta de um comunicado no qual o G19 (G20 exceto EUA) tomará distância de Donald Trump no que diz respeito ao comércio internacional, renovando um apoio incondicional à liberalização do comércio. Farão isso sem se dar conta da incongruência entre essa posição e a crise climática alimentada por essa mesma liberalização, desencadeada há mais de trinta anos.

Realocar os circuitos de produção e consumo, reduzir o transporte internacional de mercadorias, tributar o querosene e o óleo pesado usados para impulsionar essa globalização do comércio, remover as regras da OMC que hoje limitam as políticas de transição energética adaptadas a territórios, defender uma agricultura camponesa e orgânica em vez das políticas de agro-exportação…são algumas das medidas indispensáveis do ponto de vista da urgência climática. Infelizmente, não tiveream lugar no comunicado final do G20. Infelizmente, raros são os analistas que põem em evidência essa contradição, como se pudéssemos resolver a crise climática ao mesmo tempo em que se aprofunda a globalização neoliberal.

Mais raros ainda serão os analistas a sugerir uma terceira via que possa se posicionar, ao mesmo tempo, contra a “retomada identitária” de Donald Trump e contra uma globalização desastrosa que o presidente francês Emmanuel Macron e outros defendem, e em favor de regulações que primem pela emergência climática, pelos direitos sociais, pelos direitos humanos, pela proteção da biodiversidade, colocando-os acima do business as usual.

Isso tudo, porém, não está na ordem do dia do G20. Estegrupo, que abrigavintecriminosos do clima, ocupado demaisem preservaros interesses de suas respectivas multinacionais na globalização neoliberal,não encontra tempo para implementar políticas efetivas de combate ao aquecimento global.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/destaques/nao-ha-santos-no-g-20/

 

Crime ambiental na Estrada da Rebelva

SEJA UM REPÓRTER CASCAIS24 E ENVIE-NOS A SUA NOTICIA, FOTOGRAFIA OU VÍDEO PARA: cascais24.cidadaoreporter@gmail.com
JOSÉ COELHO MARTINS (Texto
30 novembro 2018
A estrada da Rebelva representa um problema enorme de tráfego e de saúde pública. Os automobilistas são confrontados com enormes filas de trânsito nesta estrada bastante poluída e ruidosa. Os moradores sofrem com o ruído, poluição e risco de acidentes.
As rotundas da Rebelva e de S. Domingos de Rana são autênticos bloqueios à fluidez do trânsito, criando um péssimo ambiente de vida a quem aqui reside e dificultando a vida aos automobilistas. 
Desde há 3 anos que os moradores insistem com a Câmara Municipal de Cascais em vão, com mails, reuniões e presenças pessoais em reuniões públicas do executivo e da Assembleia Municipal, recebendo sempre não respostas ou respostas evasivas e irresponsáveis. 
Estou a chegar à conclusão que se trata de um esforço inglório, pois esta gente que está no executivo camarário funciona com um nível de autocracia total, a par de um total desrespeito pelos cidadãos.
Problemas graves não são resolvidos, como é o caso vertente, mas parecem ser atribuídas facilidades a grupos particulares para explorarem projetos privados comerciais e lucrativos, de que destaco as obras em curso do empreendimento da firma A. Santo em S. Miguel das Encostas, de uma generosa volumetria e capacidade de alojamento habitacional (http://www.saomiguel-residence.pt/), a Universidade Nova em Carcavelos e as obras em curso no antigo espaço da Legrand na Rebelva  que julgo envolverem um enorme complexo empresarial ligado à Nestlé, aparte outros em planeamento e que ainda não são do domínio público.
Ou seja, o executivo camarário assume-se como o "dono disto tudo" e pretende que não reste nem um metro quadrado de terreno livre nesta zona, com isso criando um permanente e insolúvel problema  de tráfego, com os inerentes índices de poluição e ruído, numa zona/estrada que é maioritariamente composta por residências, em particular moradias unifamiliares.
Tudo se conjuga, obviamente, para que o aumento muito vincado de pessoas e viaturas a circular nesta estrada, atualmente a principal via de acesso à A5 aqui utilizada, transforme este local num verdadeiro Inferno. As próprias obras rodoviárias em curso associadas ao empreendimento no espaço da antiga Legrand parecem configurar ainda mais problemas.
Seria de esperar da vereadora do Ambiente, arqª.Joana Balsemão e/ou do presidente da Cascais Ambiente, engº. Luís Capão, uma posição algo contrastante com este estado de coisas, mas não! 

Alinham pelo mesmo diapasão! 

Nem a plantação de arvoredo ao longo desta via (Estrada da Rebelva) e da Av. Conde de Riba de Ave está contemplada para uma minoração do impacto ambiental. O que vemos por aqui, e cada vez mais, é betão, alcatrão e  viaturas.

O que não temos por aqui é um controlo da qualidade do ar! MUITO GRAVE!
Tal poderão constatar no texto publicado pelo vereador não executivo, Sr. Clemente Alves, no jornal Cascais24, cujo link se apresenta:
Parece que a Câmara Municipal de Cascais é advogado em causa própria nesta questão do ambiente, não havendo qualquer outra entidade a intervir nesta matéria em termos de fiscalização, controlo, supervisão e punição dos responsáveis. MUITO GRAVE!
É urgente que se faça alguma coisa!...
A autocracia e arbitrariedade de gestão que é exercida nesta autarquia não é compatível com a vida democrática e com a legítima aspiração da população residente a usufruir de um mínimo de qualidade de vida, que os seus impostos e contribuições justificam.

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

http://www.cascais24.pt/p/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none_61.html

Agir perante o risco

A inspeção ordenada pelo MATE revela o desconhecimento, pelo Estado, de uma atividade que, embora necessária, provoca inúmeros impactes negativos no ambiente e na qualidade de vida dos cidadãos.

Operação de retirada do corpo da quinta vítima que caiu para dentro de uma pedreira em Borba (Évora), na sequência de um deslizamento de terra e colapso da estrada 255, ocorrido a 19 de Novembro. Borba, 1 de Dezembro de 2018.Créditos / LUSA

Nas últimas semanas o espaço mediático foi longamente ocupado pela ocorrência da pedreira de Borba, da qual resultou a morte de quatro pessoas e um desaparecido.

No passado dia 19 de novembro, na antiga Entrada Nacional 255, que liga Borba a Vila Viçosa, colapsou um troço desta via, arrastando para o interior de duas pedreiras, com uma profundidade de 50 metros, uma retroescavadora e duas viaturas civis.

Sabe-se que, em 2014, a Direção Regional de Economia do Alentejo alertou a Câmara Municipal de Borba e o Governo em funções do risco de colapso da referida via rodoviária. Entretanto nada foi feito e por ali continuaram a transitar diariamente pessoas e veículos, com manifesta exposição ao risco.

Esta situação não é inédita. Quem estuda e trabalha a problemática da proteção e socorro confronta-se frequentemente com situações de risco totalmente ignoradas, umas vezes em consequência da omissão da máquina burocrática da administração, outras vezes pela irresponsabilidade (e a impunidade) de gestores e dirigentes.

A literatura define Risco como a “probabilidade de ocorrência de um processo (ou ação) perigoso e respetiva estimativa das suas consequências sobre pessoas, bens ou ambiente, expressas em danos corporais e/ou prejuízos materiais e funcionais, diretos e indiretos”.

O conceito de Risco, nas suas múltiplas dimensões, justifica a adoção de medidas de precaução e mitigação e induz comportamentos e atitudes individuais mais seguras.

Para que este desígnio se cumpra torna-se necessário que os serviços da administração pública, central e local, estejam dotados das adequadas competências técnicas para o exercício permanente da avaliação do risco, assim como os respetivos responsáveis políticos possuam um conhecimento sólido sobre as múltiplas atribuições de que são portadores, no domínio da salvaguarda da segurança das populações.

Em comunicado, o Ministério do Ambiente e da Transição Energética (MATE) ordenou que “no prazo de 45 dias, a Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMOT), proceda a uma inspeção ao licenciamento, exploração, fiscalização e suspensão de operação das pedreiras situadas na zona onde ocorreu o acidente do dia 19 de novembro”.

Esta decisão constitui uma medida reativa. Revela também o reconhecimento tácito do desconhecimento do Estado, relativamente à extração de rochas ornamentais e industriais e de inertes para a construção civil, nas centenas de pedreiras espalhadas por todo o país, uma atividade que, embora necessária, provoca inúmeros impactes negativos no ambiente e na qualidade de vida dos cidadãos. A poluição sonora, a emissão de poeiras, o tráfego intenso de veículos pesados, a poluição das águas, a destruição dos solos e habitats, a degradação paisagística são algumas das consequências ambientais que tendem a agravar-se quando não são cumpridas as medidas previstas na lei.

Exige-se aos órgãos da administração, a qualquer nível, que tenham em consideração a avaliação do risco e que assumam uma atitude proactiva, preventiva e responsável face ao mesmo.

Nunca se eliminará o risco em absoluto, dado que não existe risco zero. Mas pode minimizar-se os seus efeitos, através de uma administração eficaz, proactiva e fiscalizadora, que garanta o cumprimento da lei e salvaguarde a segurança dos cidadãos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/agir-perante-o-risco

Trump rejeita relatório sobre aquecimento global

Presidente dos EUA diz que não acredita em conclusões de documento elaborado por 13 agências federais. Relatório confirma mudança climática e prevê consequências drásticas, do meio ambiente à economia e saúde.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta segunda-feira (26/11) as conclusões de um relatório do governo americano, que alerta para os graves impactos do aquecimento global na economia e saúde pública dos EUA.

"Eu vi, li um pouco e está tudo bem. Eu não acredito", afirmou Trump a jornalistas na Casa Branca. O presidente destacou ainda que não acredita nas previsões de impactos devastadores apontados no relatório divulgado na sexta-feira passada.

"Nunca estivemos mais limpos do que somos agora, e isso é muito importante para mim, mas se estamos limpos e todos os outros lugares estão sujos, não é tão bom", afirmou Trump.
O documento, encomendado pelo Congresso americano, inclui pareceres de 13 agências federais e foi escrito por 300 cientistas. O relatório estima que o país pode perder "muitas centenas de milhares de milhões de dólares" até ao final do século devido às mudanças climáticas. O relatório adverte que o aquecimento global trará caos ao meio ambiente, economia e saúde pública nos EUA.

O relatório aponta como o aquecimento global, resultante da queima de combustíveis fósseis está prejudicando os EUA, e como se manifesta nos diferentes setores da economia, incluindo a energia e a agricultura.

Ele detalha como as temperaturas ascendentes vão ameaçar os campos agrícolas mais baixos, elevar a probabilidade de inundações e incêndios florestais, entravar a produção de energia e aumentar a incidência de doenças tropicais no país. Ainda assim, ação governamental imediata poderia abrandar os impactos mais extremos.

O documento destaca ainda que as mudanças climáticas causarão perdas enormes à infraestrutura e propriedades, além de impedir o crescimento econômico. Com base em numerosos estudos, os autores do relatório asseguraram que 90% do atual aquecimento global é causado pela ação humana.

O relatório contradiz as opiniões de Trump, que tem repetidamente negado a mudança climática como sendo um trote dos chineses. Em 2017 ele retirou os EUA do Acordo do Clima de Paris, um esforço internacional conjunto para combater a elevação das temperaturas globais.

CN/lusa/rtr/afp | Deutsche Welle

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/trump-rejeita-relatorio-sobre.html

A guerra dos metais raros

A face oculta da transição energética e da digitalização

José Ferrer [*]

O livro La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition énergétique et numérique [1] , de Guillaume Pitron, jornalista francês colaborador de Le Monde Diplomatique, é de leitura fácil e revela uma grande contradição dos nossos dias: a) Proclama-se, com o aval de numerosos Chefes de Estado e de Governo que, por causa do chamado aquecimento global, temos de abandonar rapidamente os combustíveis fósseis, substituindo-os por tecnologias energéticas verdes, também ditas renováveis ou limpas. Estas hão-de ser crescentemente conseguidas e bem aproveitadas com o aprofundamento da digitalização nos mais variados campos da economia, mas isto só se consegue actualmente com o indispensável concurso dos chamados metais raros. "A cada aplicação verde o seu metal raro" (p. 36). b) A contradição reside em que os metais raros são relativamente escassos na crosta terrestre, dando-se a triste circunstância adicional de a sua extracção e refinação serem processos duplamente problemáticos do ponto de vista energético e ambiental. A inferência é inevitável e G. Pitron não se inibe de a expor: a mutação tecnológica que se pretende impor não resolve a questão ambiental em causa. Esta passa sobretudo pela alteração dos locais de ocorrência da poluição. Compreender-se-á assim o apelo que o autor insere no epílogo do livro: paremos para pensar, uma vez que a revolução industrial, técnica e social que é preciso realizar há-de passar pela revolução das consciências. Ou seja, digamos que, para o autor, o ambientalismo ainda não se livrou do seu estádio infantil, já que proclama objectivos, vias e políticas nem sempre coerentes entre si e, portanto, não sustentáveis a vários títulos. É interessante notar que esta tese fundamental do livro é formulada por um autor que 

i) Aparentemente, aceitou (e parece continuar a aceitar a maioria de) os mandamentos da cartilha ambientalista,
ii) Em particular, não mostra qualquer dúvida acerca da teoria do alegado aquecimento global gerado pela emissão antropogénica dos gases com efeito de estufa,
iii) Parece acreditar em que a questão ambiental irá ter solução no quadro do capitalismo (chega a usar a expressão"capitalisme vert", (p. 17),
iv) A sua França há-de recuperar posições perdidas no cotejo internacional, incluindo na segurança militar. Assim se perceberá porque sequer tem uma palavra de questionamento sobre a legitimidade de se impor a países economicamente atrasados caminhos diferentes dos seguidos pelos países desenvolvidos, como manda a Agenda Ambiental dominante, vide o Acordo de Paris, de 2015. 
G. Pitron foi construindo a sua tese a partir do que se foi apercebendo acerca das limitações na disponibilidade de metais raros [2] e, em particular, dos metais chamados terras raras (sobretudo lantanídeos). A exemplo de milhões de pessoas, Pitron não terá estudado a ciência química senão a nível muito elementar [3] . Em particular, jamais terá tido, antes de trabalhar para este livro, a possibilidade de se aproximar da série de problemas que a extracção mineira e as metalurgias colocam do ponto de vista de economia da produção industrial, da poluição [4] e da demanda energética [5] . Tópicos que, manifestamente, lhe criaram um certo espanto à medida que foi viajando pelo mundo, visitando minas e outras instalações industriais, tendo pesquisado durante "seis anos" sobre o assunto "em doze países" (p. 23). Assim foi descobrindo que, diversamente do que teria antes pensado, aquelas agudas questões são descuradas no discurso ambientalista bem como por parte de dirigentes políticos os mais variados, incluindo da sua aparentemente venerada União Europeia. Não se pense que G. Pitron se tornou num engenheiro, mas seria injusto não enfatizar o esforço que empreendeu, em relato que pode ser muito útil a quem também tenha a curiosidade sobre muitas das especificidades técnicas e económicas em causa na obtenção, refinação e aplicação dos metais, e suas reciclagens. O autor não enjeita a utilidade dos metais há muito usados – ferro, ouro, prata, cobre, chumbo, alumínio – mas, justamente, chama a atenção para as "fabulosas propriedades magnéticas e químicas" (p.15) dos metais raros, crescentemente usados desde a década de 70 do século passado. Procura que tenderá ainda a crescer, a verificar-se a intensificação das suas aplicações. As torres eólicas, os painéis solares, as novas baterias eléctricas, os telemóveis, os computadores (cada vez mais usados em crescentes aplicações), etc, dependem da utilização de metais raros. A lista das afectações é enorme:"Robótica, inteligência artificial, hospital digital, segurança cibernética, biotecnologias médicas, objectos conectados, nanoelectrónica, viaturas sem condutor..." (p. 26). Ou seja, o "mundo novo" de que se tem falado afunda-nos numa"nova dependência, ainda mais forte" do que a de energias fósseis (p.26). Há razões para lhes chamar raros: enquanto tem sido fácil encontrar minérios de ferro com teores metálicos da ordem de 60% (ou seja, 1,67kg de minério contém 1kg de ferro), o autor sublinha, por exemplo, serem precisas "oito toneladas e meia (cerca de 8500kg) de minério para produzir um quilograma de vanádio... e mil e duzentas toneladas (cerca de 1 200 000 kg) por um infeliz quilograma dum metal ainda mais raro, o lutécio (terra rara)" (p.16). O autor debruça-se sobre o balanço ecológico de vários sectores (painéis solares, veículos eléctricos, redes eléctricas "inteligentes"), sobre as tremendas dificuldades ainda existentes na reciclagem de metais raros, para concluir que as tecnologias verdes, em geral, não são mais vantajosas do que as tradicionais em termos ambientais e energéticos. Até o são menos em certos aspectos (pp. 57-85), embora nesse balanço inclua a emissão de dióxido de carbono, como se este não fosse o gás da vida. Mas G. Pitron não se interessa apenas por esse tipo de questões. Pelo contrário, não esconde o seu grande incómodo quando observa o papel ímpar que cabe à República Popular da China (que recorrentemente trata por "Império do Meio") na questão dos metais raros, em particular quanto às terras raras. Cinco capítulos do livro são, em especial, dedicados a esta problemática, incluindo uma particular atenção à questão dos mísseis inteligentes, área em que "o Ocidente" se encontra vulnerável. Observação que contrasta com a perspectiva que terá antes partilhado de que a adopção das energias renováveis e da digitalização permitiria reforçar a "soberania energética" dos Estados membros da União Europeia ao tornar esta"menos dependente dos hidrocarbonetos russos, qatares e sauditas" (p.20). Pitron enfatiza o facto de a China estar a tirar crescente partido de dispor da maior parte das reservas e de vir subindo na cadeia de valor da utilização das terras raras. Para a mesma potência, os ímanes de terras raras são muito mais pequenos que os ímanes de ferrite, lembra (p. 144). Alarma-o facto, confronta-o com os correlativos erros estratégicos que tanto a França como os EUA cometeram quando permitiram o encerramento de unidades industriais do sector, em alerta que lhe parecerá importante para apelar a um repensar da guerra pelos metais raros que se desenha no mundo. O autor enfatiza as questões económica e industrial, a ecológica, mas também a de segurança militar e geopolítica com este afunilamento que as chamadas novas tecnologias verdes encerram com a dependência da China. Os "... equipamentos mais sofisticados dos exércitos ocidentais (robôs, armas cibernéticas, aviões de combate, como o caça americano... F35)" também dependem , "em parte, da boa vontade da China". Daí a previsão de "uma guerra entre os EUA e a China no mar da China meridional" (p.25). Aqui chegado, o autor, sem se afastar da confusão corrente entre ambiente e clima, distancia-se não obstante do ambientalismo no que respeita a esta produção material. Lembra que em França se passou já do lamentável "NIMBY" [6] ao incrível "BANANA" [7] , propondo, por isso, a abertura de minas e a produção em França e no Ocidente. Nesta linha, embora em nota de rodapé (p. 23), o autor comenta que o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas não contém uma única vez as palavras "metais", "minérios" e "matérias-primas". Eloquente, sem dúvida. A obra de G. Pitron, como já se terá entendido, não esgota todas as questões fulcrais dos problemas, e das suas diversas facetas, que se colocam – em particular, quanto à energia. Não esquecer que já se esgotaram muitas reservas dos combustíveis fósseis (a UE não se esquece disso, embora passe o tempo a falar do dióxido de carbono). Entretanto, o livro ilustra muitos dos problemas que o ambientalismo em voga desconhece ou minimiza. 

[1] Guillaume Pitron, La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition energétique et numérique , Éditions Les Liens Qui Libèrent, 2018, 295 p., ISBN 9791020905741.
[2] Além das terras raras, como metais raros o autor cita os metais pesados (ou de densidade muito superior à densidade da água): vanádio, germânio, grupo da platina – ruténio, ródio, paládio, ósmio, irídio e platina –, tungsténio, antimónio, rénio e, como metal leve, o berílio (p.16). Inclui erradamente também o espato-flúor, que é um mineral de flúor, um não metal, importante para a separação de isótopos de urânio.
[3] Ver nota de rodapé anterior.
[4] Inerente, por exemplo, à utilização de reagentes ácidos indispensáveis em certos processos metalúrgicos, mas venenosos para os humanos e muitas outras formas de vida.
[5] Não se pense que estas actividades se têm mantido indiferentes à inovação tecnológica, pelo contrário. A natureza das ligações químicas, por exemplo, impõe limites inultrapassáveis no consumo energético. Isso se verifica quando destruímos certas ligações químicas a fim de isolarmos um dado metal presente na natureza sob a forma de um composto químico.
[6] NIMBY: Not In My BackYard.
[7] BANANA: Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anything. Ver também: 
 pt.wikipedia.org/wiki/Terra-rara  [*] Engenheiro químico.  Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/ 

Barco de pesca afunda e Polícia Marítima trava foco de poluição na Baía de Cascais

Agentes da Polícia Marítima colocam barreiras de proteção na Baía de Cascais (Foto Autoridade Marítima Nacional)
Por Redação
26 novembro 2018
Agentes da Polícia Marítima e operacionais da Estação Salva-Vidas de Cascais travaram esta segunda-feira, de manhã, 100 litros de gasóleo, provenientes dos tanques de uma embarcação de pesca com seis metros de comprimentos que afundou na Baía de Cascais, confirmou, a Cascais24, Pereira da Terra, comandante da Capitania do Porto de Cascais. A embarcação, que está posicionada a cerca de 3, 5 metros de profundidade, não tinha tripulantes a bordo e deverá ter afundado durante a madrugada, apurou, ainda, Cascais24.
A libertação do combustível existente nos tanques da embarcação, cerca de 100 litros de gasóleo, concentrou-se numa área com aproximadamente 150 metros quadrados, tendo as autoridades marítimas, em tempo recorde, assegurado uma resposta eficaz.

Barreiras de contenção limitam o foco de poluição (Foto Autoridade Marítima Nacional)
Três agentes da Polícia Marítima, e quatro operacionais da Estação Salva-vidas de Cascais, com duas embarcações semirrígidas, colocaram barreiras de contenção, de modo a confinar o foco de poluição junto à amarração da embarcação de pesca, e utilizado material absorvente de hidrocarbonetos para realizar a sua recolha.

Comandante Pereira da Terra
“A operação, bem- sucedida, de combate à poluição por hidrocarbonetos, foi dada por concluída pelas 12h30”, revelou o Capitão do Porto de Cascais e Comandante-local da Polícia Marítima, que coordenou as operações, acrescentando que “a situação ficou normalizada”.
O dono da embarcação foi, entretanto, notificado.
Não é conhecida a causa do afundamento, registado porventura durante a madrugada.
Esta terça-feira, de manhã, apurou Cascais24, mergulhadores do Grupo de Mergulho Forense da Polícia Marítima deverão mergulhar até à embarcação, posicionada a cerca de 3,5 metros de profundidade para tentar apurar o que aconteceu.

Operacionais da Estação Salva_Vidas em ação (Foto Autoridade Marítima Nacional)
Também mergulhadores profissionais contratados pelo dono do barco irão fazer uma primeira abordagem com vista a encontrar a melhor solução para proceder à sua remoção.
Entretanto, a Autoridade Maritima Nacional informou manter-se de prevenção e pronta a atuar, caso se verifiquem novas situações no âmbito do combate à poluição do mar, conforme previsto no âmbito do Plano Mar Limpo.

Contra o desastre climático, só a ação radical

 

O “realismo” político diante do aquecimento global fracassou — porque as elites e as corporações bloquearam as saídas. É hora de pensar na reconversão geral da economia

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Foi um momento desses de mudar a vida. Na coletiva de imprensa do Extinction Rebellion [Revolta contra a Extinção] ocorrida semana passada, dois de nós, jornalistas, perguntamos aos ativistas se consideravam realistas seus objetivos. Eles pediam, por exemplo, que as emissões de carbono no Reino Unido fossem reduzidas a zero até 2025. Não seria melhor, questionamos, perseguir alguns objetivos intermediários?

Uma jovem chamada Lizia Woolf deu um passo adiante. Ela não havia se pronunciado antes, e eu quase nem a havia notado, mas a paixão, pesar e fúria de sua resposta foram profundamente convincentes. “O que vocês estão me pedindo, como uma jovem de 20 anos, para encarar e aceitar sobre meu futuro e minha vida? … isto é uma emergência – estamos diante da extinção. Quando vocês fazem perguntas como essa, o que esperam que eu sinta?” Ficamos sem resposta.

Objetivos mais moderados podem ser politicamente realistas, mas são fisicamente irrealistas. Apenas as mudanças proporcionais à escala de nossa crise existencial têm alguma perspectiva de evitá-las. O realismo sem esperança, que contorna o problema pelas bordas nos colocou nessa confusão. Não nos tirará.

Os dirigentes políticos falam e agem como se a mudança ambiental fosse linear e gradual. Mas os sistemas da Terra são altamente complexos, e os sistemas complexos não respondem à pressão de forma linear. Quando esses sistemas interagem (porque a atmosfera, os oceanos, a superfície da terra e as formas de vida do planeta não estão sentadas placidamente em caixas que tornam os estudos mais convenientes), suas reações às mudanças tornam-se altamente imprevisíveis. Pequenas perturbações podem ramificar-se de forma selvagem. Os pontos de virada provavelmente permanecerão invisíveis até que tenhamos passado por eles. Poderíamos assistir mudanças de estado tão abruptas e profundas que nenhuma continuidade pode ser prevista com segurança.

Basta que apenas um dos muitos sistemas de suporte à vida de que dependemos – solos, aquíferos, chuvas, gelo, padrões de ventos e correntes, polinizadores, abundância biológica e diversidade – falhe para todo o resto desabar. Por exemplo, quando o gelo do mar Ártico derreter além de certo ponto, as retroalimentações desencadeadas (tais como água mais escura absorvendo mais calor, derretimento do gelo permanente liberando metano, mudanças no vórtice polar) poderão tornar os distúrbios climáticos desenfreados, impossíveis de deter. Quando o período conhecido como Dryas Recente terminou, 11.600 anos atrás, os núcleos de gelo da Groenlândia revelam que as temperaturas subiram 10°C em uma década.

Não acredito que o colapso contemporâneo ainda seja inevitável, ou que uma resposta adequada seja impossível, técnica ou economicamente. Quando os EUA entraram na II  Guerra Mundial, em 1941, substituíram em poucos meses uma economia civil por uma economia militar. Como lembra Jack Doyle em seu livro, Taken for a Ride [Levado para um passeio]. “Em um ano, a General Motors desenvolveu e construiu, completamente a partir do zero, as aeronaves Avenger 1000 e Wildcat 1000 … Pouco mais de um ano após a Pontiac ser contratada pela Marinha para construir mísseis anti-navios, a empresa começou a entregar o produto completo às esquadras norte-americanas em todo o mundo”. E isso antes que a avançada tecnologia da informação tornasse tudo mais rápido.

O problema é politico. Uma análise fascinante do professor de ciências sociais Kevin Mackay sustenta que, no colapso das civilizações, as oligarquias são causa mais fundamental que a complexidade social ou a demanda energética. O controle oligárquico, sustenta Mackay, impede que sejam tomadas decisões racionais, porque os interesses de curto prazo da elite são radicalmente diferentes dos interesses de longo prazo da sociedade. Isso explica por que civilizações passadas entraram em colapso “a despeito de possuírem know-how cultural e tecnológico para resolver suas crises”. As elites econômicas, que se beneficiam da disfunção social, bloqueiam as soluções necessárias.

O controle oligárquico da riqueza, da política, da mídia e do discurso público explica a ampla falência institucional que está nos levando em direção ao desastre. Pense em Trump e seu gabinete de multimilionários; na influência dos irmãos Kock; no império Murdoch e sua contribuição maciça à negação da ciência climática; nas empresas de petróleo e automobilística, cujos lobbies evitam uma mudança mais rápida para novas tecnologias. Não são só os governos têm fracassado em dar uma resposta, embora eles tenham malogrado de modo espetacular. A mídia pública encerrou deliberada e sistematicamente a cobertura ambiental, ao mesmo tempo em que permitiu que os lobistas, financiados de forma nada transparente, e que se disfarçavam de think-tanks, moldassem o discurso público e negassem o que enfrentamos. Os acadêmicos, com medo de perturbar seus financiadores e colegas, morderam os lábios. Mesmo os organismos que afirmam estar enfrentando nossa crise permanecem presos em estruturas destrutivas.

Por exemplo, há algumas semanas eu compareci a uma reunião sobre a crise ambiental no Instituto de Pesquisa em Políticas Públicas [Institute for Public Policy Research]. Muitas pessoas na sala pareciam entender que o crescimento econômico contínuo é incompatível com a sustentabilidade dos sistemas da Terra. Como aponta o autor Jason Hickel, a dissociação entre o crescimento do PIB e o uso global de recursos não aconteceu e não acontecerá. Embora 50 bilhões de toneladas de recursos naturais usados anualmente sejam praticamente o limite tolerável para os sistemas da Terra, o mundo já vem consumindo 70 bilhões de toneladas. A inércia dos negócios, com as taxas atuais de crescimento econômico, garantirá que o número chegue a 180 bilhões até 2050. O uso dos recursos com máxima eficiência, combinado com enormes impostos sobre carbono e algumas suposições bastante otimistas reduziriam isso para 95 bilhões de toneladas: ainda muito além dos limites do meio ambiente. Um estudo que leva em conta o efeito rebote (a eficiência leva a mais uso de recursos) eleva a estimativa para 132 bilhões de toneladas. O crescimento verde, como parecem aceitar os membros do Instituto, é fisicamente impossível.

No mesmo dia, o mesmo Instituto anunciou um novo grande prêmio de economia para “propostas ambiciosas para alcançar uma melhora na mudança de patamar na taxa de crescimento”. Ele procura ideias que permitam que as taxas de crescimento econômico pelo menos dobrem no Reino Unido. O anúncio foi acompanhado pelo usual blá blá blá sobre sustentabilidade, mas nenhum dos juízes do prêmio tem um currículo notável por interesse ambiental.

Aqueles de quem esperamos soluções movem-se como se nada tivesse mudado. Eles continuam a se comportar como se a evidência acumulada não tivesse nenhum peso em suas mentes. Agora, depois de décadas de insucesso institucional, apenas propostas “não-realistas” – a reconversão da vida econômica, com efeito imediato – têm agora uma chance realista de deter a espiral da morte planetária. E somente aqueles que estão fora das instituições falidas podem liderar esse esforço.

Duas tarefas precisam ser realizadas simultaneamente: lançarmo-nos à possibilidade de evitar o colapso, como está fazendo a Revolta contra a Extinção, por menor que essa chance possa parecer. E nos prepararmos para o provável fracasso desses esforços, por mais aterrorizante que seja essa perspectiva. Ambas as tarefas requerem uma revisão completa do nosso relacionamento com o planeta vivo. Porque não podemos nos salvar sem compreender que as lutas contra o domínio oligárquico; por democracia e justiça; e contra o colapso ambiental são uma só e mesma coisa. Não permitamos que aqueles que causaram esta crise definam os limites da ação política. Não permitamos que aqueles cujo pensamento mágico nos colocou nessa confusão nos digam o que pode e o que não pode ser feito.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/destaques/contra-o-desastre-climatico-so-a-acao-radical/

 

Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano

Uma elite ínfima – porém poderosa ao extremo – crê que o planeta tornou-se inviável e quer isolar-se após o “Evento”. O que isso revela sobre a grande crise civilizatória em que mergulhamos
Douglas Rushkoff *| Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.

Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.

Ao chegar, fui introduzido no que ma pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.

Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?”

O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.

Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.

Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Muskcolonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.

Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.

É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.

Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.

Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim aaprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.

A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?

Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.

Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…

Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.

Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.

Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.

Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.

Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.

A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.

Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.

Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.

Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.

Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.

Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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*Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.

LEIA TAMBÉM NO PG

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/os-ultra-ricos-preparam-um-mundo-pos.html

O novo salto global da desigualdade

Na sequência do artigo intitulado “Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano”, agora publicado e que pode ler ou talvez já tenha lido, decidimos no PG fazer a reposição deste, também retirado do Outras Palavras, onde foi publicado em 16.01.2017, que recomendamos leia a seguir. Afinal tudo está interligado e é útil que chegue ao seu conhecimento.(PG)

Políticas de “austeridade” ampliam concentração de riqueza. Oxfam denuncia: agora, oito homens já têm mais que a metade dos habitantes do planeta. Mas há alternativas

Oxfam | Outras Palavras | Imagem: Sara Distin

Estamos criando condições para recuperar o país e voltar a crescer, diz o presidente Michel Temer – e repetem os jornais – a cada medida adotada para reduzir o investimento social, eliminar direitos previdenciários, “simplificar” as exigências das leis trabalhistas e, supostamente, “equilibrar” as contas públicas. Exatamente como Temer agem, desde a crise de 2008, quase todos os governantes do mundo. “Austeridade”, “ajustes fiscais”, “apertar os cintos” tornaram-se conceitos dominantes no jargão politico e econômico da última década. Qual foi o resultado?

Um relatório que acaba de ser divulgado pela organização internacional Oxfam – voltada ao estudo e denúncia da desigualdade – revela. Tais políticas permitiram que apenas oito homens possum a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade. O documento Uma economia humana para os 99% mostra que a diferença entre ricos e pobres aumenta a cada edição do estudo, numa velocidade muito maior do que a prevista. Os 50% mais pobres da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida. Nesse grupo, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem abaixo da “linha ética de pobreza” definida pela riqueza que permitiria que as pessoas tivessem uma expectativa de vida normal de pouco mais de 70 anos.

“O relatório detalha como os grandes negócios e os indivíduos que mais detêm a riqueza mundial estão se alimentando da crise econômica, pagando menos impostos, reduzindo salários e usando seu poder para influenciar a política em seus países”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam no Brasil.

Os números da desigualdade foram extraídos do documento Credit Suisse Wealth Report 2016. (Veja link abaixo.) Segundo a organização, 1 em cada 10 pessoas no mundo sobrevive com menos de US $ 2 por dia. No outro extremo, a ONG prevê que o mundo produzirá seu primeiro trilhardário em apenas 25 anos. Sozinho, esse indivíduo deterá uma fortuna tão alta que, se ele quisesse gastá-la, seria necessário consumir US$ 1 milhão todos os dias, por 2.738 anos, para acabar com tamanha quantia em dinheiro. O discurso da Oxfam em Davos também mostrará que 7 de cada 10 pessoas vivem em países cuja taxa de desigualdade aumentou nos últimos 30 anos. “Entre 1988 e 2011, os rendimentos dos 10% mais pobres aumentaram em média apenas 65 dólares (US$ 3 por ano), enquanto os rendimentos dos 10% mais ricos cresceram uma média de 11.800 dólares – ou 182 vezes mais”, aponta o documento.
“A desigualdade está mantendo milhões de pessoas na pobreza, fragmentando nossas sociedades e minando nossas democracias. É ultrajante que tão poucas pessoas detenham tanto enquanto tantas outras sofrem com a falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação”, reforça Katia Maia.

O relatório destaca ainda a situação das mulheres que, muitas vezes empregadas em cargos com menores salários, assumem uma quantidade desproporcional de tarefas em relação à remuneração recebida. O próprio relatório do Fórum Econômico Mundial (2016) sobre as disparidades de gênero estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens. Segundo o texto, as mulheres ganham de 31 a75% menos do que os homens no mundo.

A sonegação de impostos, o uso de paraísos fiscais e a influência política dos super-ricos para assegurar benefícios aos setores onde mantêm seus investimentos são outros destaques do documento da Oxfam.

Oxfam é uma confederação internacional de 20 organizações que trabalham em mais de 90 países, incluindo o Brasil, com o intuito de construir um futuro livre das desigualdades e da injustiça causada pela pobreza. Uma das características centrais de seu estudo é a postura não-contemplativa. A organização está empenhada em buscar alternativas que permitam construir “uma economia para os 99%”. Eis, a seguir, algumas de suas propostas para tanto.

Uma Economia Humana para os 99%

Outras conclusões do Relatório da Oxfam (Davos, 2017)

Desde 2015, o 1% mais rico detinha mais riqueza que o resto do planeta.i

Atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo.ii

Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes.iii

A renda dos 10% mais pobres aumentou em menos de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou 11.800 dólares – 182 vezes mais.iv

Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh.v

Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.vi

No Vietnã, o homem mais rico do país ganha mais em um dia do que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.vii

Uma em cada nove pessoas no mundo ainda dorme com fomeviii.

O Banco Mundial deixou claro que, sem redobrar seus esforços para combater a desigualdade, as lideranças mundiais não alcançarão seu objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2030.ix

Os lucros das 10 maiores empresas do mundo somam uma receita superior à dos 180 países mais pobres juntos.x

O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.xi

Na década de 1980, produtores de cacau ficavam com 18% do valor de uma barra de chocolate – atualmente, ficam com apenas 6%.xii

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas são trabalhadores forçados que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas anualmente.xiii

As maiores empresas de vestuário do mundo têm ligação com fábricas de fiação de algodão na Índia que usam trabalho forçado de meninas rotineiramente.xiv

Embora as fortunas de alguns bilionários possam ser atribuídas ao seu trabalho duro e talento, a análise da Oxfam para esse grupo indica que um terço do patrimônio dos bilionários do mundo tem origem em riqueza herdada, enquanto 43% podem ser atribuídos ao favorecimento ou nepotismo.xv

Mulheres e jovens são particularmente mais vulneráveis ao trabalho precário: as atividades profissionais de dois em cada três jovens trabalhadores na maioria dos países de baixa renda consistem em trabalho vulnerável por conta própria ou trabalho familiar não remunerado.xvi

Nos países da OCDE, cerca de metade de todos os trabalhadores temporários tem menos de 30 anos de idade e quase 40% dos jovens trabalhadores estão envolvidos em atividades profissionais fora do padrão, como em trabalho por empreitada ou temporário ou empregos involuntários em tempo parcial.xvii

A edição de 2016 do relatório anual do Fórum Econômico Mundial sobre as disparidades de gênero revela que a participação econômica de mulheres ficou ainda mais baixa no ano passado e estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens.xviii

Sugestões da Oxfam para uma economia mais humana
1. Governos que trabalhem para os 99%
2. Incentivo à cooperação entre os países
3. Modelos de empresas com melhor distribuição de benefícios
4. Tributação justa à extrema riqueza
5. Igualdade de gênero na economia humana
6. Tecnologia a serviço dos 99%
7. Fomento às energias renováveis
8. Valorização e mensuração do progresso humano

Links:
Credit Suisse Wealth Report 2016 –
Bilionários da Forbes –
Notas
iiCálculos da Oxfam baseados na riqueza dos indivíduos mais ricos segundo a lista anual de bilionários da Forbes e a riqueza dos 50% mais pobres segundo o relatório Global Wealth Databook do Banco Credit Suisse (2016)
iiiUBS Billionaire’s Report de setembro de 2016 http://uhnw-greatwealth.ubs.com/media/8616/billionaires-report-2016.pdf
ivD. Hardoon, S. Ayele, e Fuetes Nieva, R., (2016), “Uma Economia para o 1%”. Oxford: Oxfam. http://policy-practice.oxfam.org.uk/publications/an-economy-for-the-1-how-privilege-and-power-in-the-economy-drive-extreme-inequ-592643 Versão em português disponível em https://www.oxfam.org.br/noticias/relatorio_davos_2016
vCálculos da Ergon Associates baseados em dados sobre os salários de diretores-presidentes estimados pelo High Pay Centre e os pacotes médios de benefícios oferecidos a trabalhadores.
viiNguyen Tran Lam. (2017, no prelo), “Even It Up: How to tackle inequality in Vietnam”. Oxfam.
viiiO Programa Mundial de Alimentos estima que 795 milhões de pessoas no mundo não têm comida suficiente para levar uma ativa saudável. Isso é cerca de uma em cada nove pessoas na terra. https://www.wfp.org/hunger/stats
ixBanco Mundial (2016), “Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality”, Washington DC: Banco Mundial doi:10.1596/978-1-4648-0958-3. http://www.worldbank.org/en/publication/poverty-and-shared-prosperity
xGlobal Justice Now. “Corporations vs governments revenues: 2015 data”. http://www.globaljustice.org.uk/sites/default/files/files/resources/corporations_vs_governments_final.pdf
xiM. Karnik. (6 de Julho de 2015). “Some Indian CEOs make more than 400 times what their employees are paid”. Site da Quartz India. http://qz.com/445350/heres-how-much-indian-ceos-make-compared-to-the-median-employee-salary/
xiiiProtocolo da OIT relativo à Convenção sobre o Trabalho Forçado de 2014. http://www.ilo.org/dyn/normlex/en/f?p=NORMLEXPUB:12100:0::NO::P12100_ILO_CODE:P029
xivAs empresas implicadas em um estudo realizado em 2012 pela ONG Anti-Slavery International intitulado “Slavery on the High Street: Forced labour in the manufacture of garments for international brands” incluem Asda-Walmart (Reino Unido/Estados Unidos), Bestseller (dinamarquesa), C&A (alemã/belga), H&M (sueca), Gap (americana), Inditex (espanhola), Marks and Spencer (Reino Unido), Mothercare (Reino Unido) e Tesco (Reino Unido) http://www.antislavery.org/includes/documents/cm_docs/2012/s/1_slavery_on_the_high_street_june_2012_final.pdf
xvD. Jacobs. (2015). “Extreme Wealth Is Not Merited”. Documento para Discussão da Oxfam. https://www.oxfam.org/en/research/extreme-wealth-not-merited
xviOIT (2015). “Global Employment Trends for Youth 2015”. pág. 49.
xviiOCDE (2015), “In It together: Why Less Inequality Benefits All”. Paris: OECD Publishing. DOI: http://dx.doi.org/10.1787/9789264235120-en
xviiiWorld Economic Forum. (2016). ‘The Global Gender Gap Report’. http://www3.weforum.org/docs/GGGR16/WEF_Global_Gender_Gap_Report_2016.pdf

Na imagem de topo: Rio Bhuriganga, em Dhaka (Bangladesh), destruído pelo despejo de resíduos industriais. A cidade é uma das que mais cresce no mundo e abriga transnacionais têxteis atraídas para lá por salários baixos e ausência de direitos sociais. É o caso da Zara, cujo fundador é um dos 8 homens mais ricos do mundo

LEIA O ARTIGO ANTERIOR NO PG

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/o-novo-salto-global-da-desigualdade.html

Compradores e construtores ignoram os riscos climáticos

Em todo o mundo, os empreiteiros continuam a construir em locais onde grandes inundações serão um evento frequente em meados do século. As pessoas continuam a comprar propriedades, mesmo em locais que sofreram inundações prejudiciais na última década.

Se o mundo reage mais agressivamente à ameaça do aquecimento global, cerca de 350.000 residências nos EUA, actualmente avaliadas em cerca de US $ 190 biliões, estão construídas em terras que correm o risco de inundações anuais até 2050. Se nenhuma nova política for realizada para reduzir as emissões de carbono, o número de residências em risco pode chegar a cerca de 385.000.

Uma das cidades com o maior número de propriedades em risco até 2050 é Miami Beach, na Flórida. Na melhor das hipóteses, a cidade poderia registar 0,21 metros de elevação do nível do mar entre hoje e meados do século, com mais de 3.100 residências, valendo pouco mais de US $ 2 biliões, na zona de risco. No cenário de emissões elevadas, a cidade poderia registar cerca de 0,30 metros de subida do nível do mar até então e mais de 5.100 casas em risco. O Furacão Irma do ano passado fez com que alguns potenciais compradores começassem a indagar sobre os riscos de cheias em Miami.

A cidade de Nova Iorque está projectada para ter pelo menos 0,24 metros de inundação entre hoje e 2050. Isso colocaria mais de 5.400 residências na zona de risco, actualmente avaliadas em quase US $ 3,4 biliões. Em Nova Iorque, a super tempestade Sandy criou alguma consciência, mas parece não ser suficiente.

Considerando que muitas pessoas pretendem passar as suas propriedades para as gerações futuras, é apenas uma questão de tempo até que as pessoas levem esse factor de risco em consideração. Pode ser mais difícil vender essas propriedades no futuro e o seu valor pode diminuir.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/compradores-e-construtores-ignoram-os-riscos-climaticos/

Como Espanha envenena a água do Tejo

A “Sábado” chama à capa uma evidência, de toda a gente conhecida. De toda a gente? De toda a gente, não! O Ministério do Ambiente tem dado provas sucessivas de que o ignora… Esperemos que agora fique informado e não tente mais a velha manobra de “esconder o sol com uma peneira”.

Esta questão do envenenamento do Tejo pelos espanhois é uma questão de segurança nacional, de “homeland security”, como dizem os americanos. Não só a água é cada vez mais um dos principais activos estratégicos de qualquer Estado como o Tejo é um elemento decisivo na geopolítica portuguesa. O “Ambiente” já provou que não pode ser deixado à solta nesta matéria. Basta recordar as tristes e recentes cenas de Almaraz, em que o “Ambiente” ficou de cócoras face às imposições de Madrid…

É fundamental, pois, que o Ministério da Defesa Nacional meta a mão nesta questão e que o Primeiro-Ministro passe a acompanhá-la com a atenção que ela exige. Mas não é só no Tejo que há problemas gravíssimos. Também no Douro (recorde-se o cemitério nuclear que Madrid quis fazer nas margens do Douro e junto à fronteira portuguesa), também no Guadiana e até no Alqueva.

Como Espanha envenena a água do Tejo: o esgoto castanho de 7 milhões de madrilenos vai direto para a água do rio; matadouros espanhóis atiram para o caudal carcaças inteiras de animais; a água de arrefecimento da central nuclear de Almaraz é lançada a 27º; conheça o veredicto de 22 análises, 11 realizadas do lado espanhol e 11 do lado português.”
Sábado
Por Salvador Vicente

Exclusivo Tornado / IntelNomics

Imaginar o fim do capitalismo

(António Guerreiro, in Público, 09/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

É bem conhecido o paradoxo que o norte-americano Fredric Jameson, nome importante da teoria e crítica da cultura, enunciou há alguns anos: actualmente, é mais fácil para nós imaginarmos o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É significativo que ele tenha utilizado a palavra “imaginar”, já que o colapso do capitalismo foi muitas vezes anunciado como previsão de ciência certa — e outras tantas vezes desmentido — desde Marx até ao pensamento ecologista actual que denuncia a impossibilidade (a “insustentabilidade”, como se diz hoje) do modelo “extractivista”, segundo o qual ele se constrói (e Marx parece não ter pensado nos limites dos recursos naturais quando escreveu: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”).

Uma teoria ecológica mais elaborada e de mais vasto alcance diz que o capitalismo é insustentável do ponto de vista das três ecologias de que falava Félix Guattari: a ecologia natural dos recursos físico-biológicos, a ecologia política das relações sociais (que, como sabemos continua a degradar-se com a exacerbação das desigualdades), a ecologia mental das nossas capacidades “atencionais” (se me é permitido este neologismo um pouco bárbaro), esgotadas quer pelo crescimento dos processos competitivos, quer por uma estimulação incessante por meio das novas tecnologias digitais da informação e da comunicação.

Quem hoje entra nas grandes livrarias ou, por outras vias, está atento ao que se vai publicando no campo da teoria política, da sociologia e da filosofia, é convidado com alguma persuasão a “imaginar” o fim do capitalismo. Na verdade, esse ramo de produção teórica e especulativa é vasto e cada vez mais próspero. Uma das experiências mais inconsequentes e mais fúteis que o mundo capitalista nos oferece é precisamente esta: nas prateleiras e bancadas das livrarias vemos alinhar-se um exército de livros de crítica e combate, onde se constroem cenários do fim do capitalismo, das suas transformações, dos seus apocalipses alegres ou negros. mas mal saímos à rua tudo se reconfigura de modo a nem conseguirmos “imaginar” o fim do capitalismo.

Bem podemos ter folheado na livraria um livro seriíssimo, estimulante e de grande alcance teórico sobre a cidade pós-capitalista, um livro recente que, com uma enorme habilidade, até actualiza e desvia do seu território ideológico original (o de uma cultura de direita que já nem existe e que  está na base da “revolução conservadora” entre as duas guerras mundiais) a noção jüngeriana de “mobilização total”; assim que voltamos à rua, a mobilização é de facto total, mas completamente outra: a cidade segue o seu curso neoliberal, indiferente a imaginações e profecias. Ou, pelo menos, é o que parece.

Veja-se, por exemplo, o que se passa em Lisboa e no Porto: os centros destas cidades são um verdadeiro parque de diversões, cada nova loja ou novo restaurante (e há-os, recém-inaugurados: “la forme d’une ville/ Change plus vite, hélas, que le coeur d’um mortel”, como escreveu Baudelaire) é um novo “conceito” que, não produzindo nada, visa criar um valor especulativo em tudo o que existe. A cidade está toda ela sujeita a ser governada pela lógica da injecção de valor abstracto que pode ser aniquilado tão rapidamente como foi construído (os sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre analisaram este fenómeno do “enriquecimento”, no sentido em que se fala de urânio enriquecido, num livro recente intitulado Enrichissement. Critique de la marchandise)

Se não conseguimos imaginar o fim do capitalismo é talvez porque tendemos a pensar — assim fomos treinados — que esse fim se dará sob a forma de um cataclismo, de passagem violenta para outra coisa completamente diferente. Mas talvez seja mais avisado pensar um pós-capitalismo (e há já quem o esteja a pensar, limito-me a fazer eco de algumas leituras recentes) que está a desenvolver-se a partir do interior do próprio capitalismo, numa altura em que tudo nele obedece à regra da hipertelia, do que se anula porque vai para além dos seus próprios fins.

Tendo falhado todos os ditados do fim do capitalismo por acção dos seus limites exteriores, a maneira possível de imaginar o seu fim é começar a perceber para onde ele está a ser conduzido pelos seus limites interiores. Então, talvez comecemos a perceber que o hiato entre a rua e algumas secções das livrarias actuais não é tão grande como parece.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

“Fini, c’est fini, ça va finir…

(António Guerreiro, in Público, 02/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas.

 

 


…Çava peut-être finir”,diz Clov, uma personagem de Fin de partie, uma peça de Beckett. O tempo dos fins está aí, diante de nós, a assombrar-nos, e já não apenas num plano existencial e metafísico: a frase que anuncia a forma contemporânea do desastre já não é “o deserto cresce” (expressão de um pessimismo cultural) mas “a extinção aproxima-se” (aviso de uma catástrofe ecológica).

Um relatório da ONG World Wide Fund for Nature, divulgado esta semana, sobre o estado da biodiversidade do planeta, diz que entre 1970 e 2014 as populações de vertebrados selvagens (peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis) diminuíram 60% a nível mundial. Não é uma novidade: em Julho do ano passado, um outro estudo feito por investigadores americanos, publicado nosProceedings of the Natural Academy of Sciences of  the United States of America, amplamente divulgado nos principais jornais de todo o mundo, tinha chegado a conclusões idênticas: a de que está em curso uma “desfaunização” de consequências catastróficas para os eco-sistemas.

Eis alguns números desse estudo: as populações de 32% das espécies de vertebrados estão em acelerado declínio, 40% das espécies de mamíferos viram as áreas pelas quais se repartem diminuir 80% entre 1900 e 2015; 43% dos leões desapareceram desde 1993, já só restam cerca de 35000. Esta aniquilação biológica diz respeito não apenas às espécies, mas também às populações de cada espécie.

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas – como aconteceu aos dinossauros, por acção de um asteróide, há 66 milhões de anos – porque já não haverá um único homem e terá sido consumado o mundo feito e refeito à sua imagem.

Claude Lévi-Strauss bem escreveu no seu Tristes Tropiques que “o mundo começou com o homem e irá acabar sem ele”, mas a sua hipótese não tinha prazo para se realizar. Agora que já temos prazos e eles são curtos, agora que as eras geológicas correm à velocidade das gerações, tudo se alterou nas nossas representações de uma extinção sistémica por acção do homem.

O desafio que nos é lançado é este: não podemos deixar de pensar nisto, é absolutamente prioritário colocar estas questões ecológicas no centro das nossas acções e preocupações, mas isso transporta-nos para um outro plano em que Trumps, Bolsonaros & Co. são coisas pouco importantes, meras borbulhas num corpo canceroso. Por isso é que o pensamento ecológico tem um fundo mítico e reaccionário: porque nos transporta para fora das contingências históricas, porque reclama a urgência de interromper a dialéctica e o progresso, porque supõe um horizonte que não é o do tempo da política e introduz uma lógica que não é antropocêntrica nem humanista.

O bom ecologista é uma espécie de “último homem” nietzschiano, colocado perante o paradoxo de, em última instância, desejar um mundo sem nós, na medida em que salvar o planeta, a sua fauna e a sua flora, significa salvá-lo da humanidade. Em boa verdade, ser ecologista porque se quer defender a espécie humana da sua extinção é um contra-senso.

Ocorrem-me estas questões enquanto atravesso de carro o Alentejo e noto que o olival intensivo que cobriu grandes extensões da planície e extinguiu qualquer outra vida se prolonga agora em amendoeiras a perder de vista, que daqui a pouco tempo cobrirão a terra, intensivamente, como arbustos enfileirados em parada para a campanha da produção. Queixaram-se da monocultura? Aqui têm a bicultura. E numa estação de rádio o ministro da Agricultura anuncia: vamos aumentar a área de regadio no Alentejo não sei quantos milhares de hectares. É o anúncio de que o Alentejo vai ficar verdinho. Hoje há vinho maduro e azeitonas, mas amanhã até vamos produzir vinho verde e havemos de ter uma zona de floresta nórdica. Viva Lysenko e o lysenkoismo!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Galp e ENI desistem do furo de petróleo em Aljezur

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Há muito que organizações ambientalistas, autarcas da região do Algarve e associações empresariais semanifestam contra a prospeção e exploração de petróleo ao largo da costa portuguesa. No passado 16 de maio a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) autorizou o consórcio ENI/Galp a realizar uma sondagem de prospecção de petróleo em Aljezursem Avaliação de Impacte Ambiental, mesmo quando, durante a consulta pública aberta pelo governo, a esmagadora maioria das opiniões enviadas eram favoráveis à avaliação. “O projeto não é suscetível de provocar impactes negativos significativos“,disse em conferência de imprensa Nuno Lacasta, presidente do Conselho Diretivo da APA.

Poucos dias mais tarde, ambientalistasentregaram ao ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, uma carta pedindo a sua demissão por causa do apoio do Governo ao furo de prospecção de petróleo em Aljezur.

Para desilusão de António Costa, a 13 de agosto, uma providência cautelar interposta pela Plataforma Algarve Livre de Petróleo, um coletivo de várias associações ambientalistas,foi aceite pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé. Assim, a autorização que permitia a GALP e a ENI furar em Aljezur, foi suspensa.

Poucos meses mais tarde, em outubro deste ano, numa reformulação governamental, António Costa não só não demitiu o ministro do Ambiente, como pediam os ambientalistas, como lhe deu ainda mais poderes. João Matos Fernandes acumulou a pasta da Energia, antes tutelada pelo Ministério da Economia – o ministério passou a chamar-se Ministério do Ambiente e da Transição Energética.

Esta segunda-feira, 29 de outubro de 2018, o furo chegou ao fim. O consórcio liderado pela italiana ENI, que tem 70%, e pela GALP, com 30%, anunciaram a decisão de abandonar o projeto de sondagem de prospecção de petróleo, 46 quilómetros ao largo da costa de Aljezur:  “(…) As condições existentes tornaram objectivamente impossível prosseguir as actividades de exploração”.

Depois de sucessivos adiamentos de prazos para realizar o furo, todos autorizados pelo governo, as petrolíferas tinham de realizar a sondagem de pesquisa até dia 15 de janeiro de 2019, consoante obrigavam os contratos.

Não o podendo fazer, devido à decisão do Tribunal, as empresas pediram formalmente ao Estado a renúncia do contrato de prospeção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo para as áreas denominadas por ‘Santola’, ‘Lavagante’ e ‘Gamba’. O Ministro do Ambiente e da Transição Energética disse na quarta-feira, dia 30, em comunicado enviado à agência Lusa, que “o Governo já tornou pública uma moratória na exploração de hidrocarbonetos, pelo que não será licenciada qualquer nova exploração”. Disse também que esta desistência da ENI e da Galp não obriga o Estado a pagar qualquer indemnização.

João Camargo, investigador em alterações climáticas e ativista do Climáximo, um coletivo de cidadãs e cidadãos pela justiça climática, disse ao Expresso que, apesar do fim do furo, a luta não terminou: “É uma grande vitória para o país esta decisão empresarial (e não política) que se deveu à pressão social e jurídica dos cidadãos (…) Há três anos havia 15 concessões atribuídas e já só sobram duas – Batalha e Pombal – e também lhes vamos pôr um ponto final”.

Acreditamos que o papel do jornalismo é escrutinar a democracia: questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes. Falar dos temas de que poucos falam, ouvir quem tem menos voz, contas as histórias que não são contadas. Se acreditas no mesmo e queres continuar a ouvir as nossas entrevistas, reportagens e séries documentais podes contribuiraqui.

Veja o o original em 'Fumaça' na seguinte ligação:

https://fumaca.pt/galp-eni-desistem-furo-petroleo-aljezur/

Juízes holandeses substituem-se ao poder político

A histeria do aquecimento global
Pierre Lévy [*]
No dia 9 de Outubro o tribunal de recursos de Haia emitiu uma sentença aterradora, espantosa e particularmente perigosa. Ele ordenou ao governo dos Países Baixos que reduzisse as emissões de gás com efeito estufa (GEE) ainda mais drasticamente do que inicialmente previsto. Em França, este veredicto foi classificado como "histórico" pelo coro quase unanimemente entusiasta das forças políticas e dos media que se dizem "de referência". Ele é "histórico" efectivamente, não tanto pelas suas implicações climáticas mas sim pelas jurídicas e políticas. Em primeiro lugar, ele é de facto sem precedentes: em princípio, os tribunais estão destinados a aplicar a lei (não a produzir jurisprudência). Neste caso, os juízes não aplicaram o direito nacional, eles o criaram. Pois não há nenhum texto jurídico que prescreva uma obrigação quantificada de redução dos GEE. O Tribunal de Haia – que confirmava um julgamento de primeira instância de Junho de 2015 – atenuou a ausência de texto normativo pela acumulação de referências a uma profusão de tratados e acordos internacionais: convenção quadro da ONU, protocolo de Quioto, plano de acção de Bali, acordos de Copenhague, Cancu e Durban. E, para fazer peso, até a convenção europeia dos direitos do homem... Os juízes holandeses têm portanto conhecimentos científicos particularmente aguçados, a ponto de decidir que as emissões de GEE deverão ser reduzidas em pelo menos 25% daqui até 2020 (base em 1990). E isto, a fim de "proteger a vida e a vida familiar dos cidadãos". A instituição judiciária reivindicou princípios e declarações gerais para ela própria fixar uma norma aplicável. Em nome, por exemplo, desta mesma protecção da "vida familiar dos cidadãos", um juiz poderia assim aumentar o nível do salário mínimo se ele julgasse que o montante em vigor não fosse suficiente para lutar contra a pobreza – objectivo que figura em muitos tratados internacionais... ou então decidir ao contrário abolir o sistema de protecção social se, por obediência ultraliberal, ele considerar que este último é um prejuízo para o bem estar geral. Portanto surge o segundo escândalo deste acontecimento: juízes que se substituem aos poderes legislativo e executivo a fim de tomar decisões eminentemente políticas. A sacrossanta separação dos poderes é assim espezinhada, sem que os habituais fanáticos do "Estado de direito" encontrem nada para dizer. Isto pode exemplificar-se concretamente: se, amanhã, uma nova maioria parlamentar saída da urnas decidir não mais prosseguir no sentido de tais imposições climáticas (hipótese académica, infelizmente), o julgamento manter-se-ia em vigor. Adecisão política é assim transferida ao poder judicial. Será preciso recordar que os juízes não são responsáveis perante os eleitores? É de notar que cerca de 900 acções semelhantes estão a decorrer no mundo, das quais dois terços nos Estados Unidos. Isto ilustra a tendência bem conhecida, saída do mundo anglo-saxão, para uma judiciarização da vida colectiva. Cento e vinte processos comparáveis foram iniciados na União Europeia, dos quais 50 no Reino Unidos. Mas é exactamente o espírito da UE que está em causa: fazer a criação do direito por instâncias não eleitas e não politicamente responsáveis, como ilustra o exemplo do Tribunal de Justiça Europeu. O fundo deste assunto Terceiro aspecto, evidentemente não dos menores: o fundo deste assunto, no caso o aquecimento climático (e mais geralmente as "desregulamentações" ambientais), acusado de todos os males, um "cataclismo" planetário representando "o maior desafio da história da humanidade", segundo a fórmula empregue por 200 personalidades do mundo da cultura há algumas semanas. Não divagaremos aqui acerca da competência científica de artistas, cineastas e cantores (certamente notáveis nas suas próprias especialidades) que afirmam sem hesitar que "ao ritmo actual, em algumas décadas, não restará mais nada", nem, sobretudo, sobre a sua legitimidade política para apelar a "medidas potencialmente impopulares" (sem entretanto ousar precisar quais são). Seria vão esperar compensar aqui em algumas frases os turbilhões de propagandas quotidianas que visam impor a ideia de que, na falta de medidas restritivas drásticas, o planeta corre a passos largos para as catástrofes mais espantosas já vistas. O último míssil até à data não é senão o enésimo relatório do Grupo de Peritos Intergovernamentais sobre o Clima (GIEC) descrevendo consequências ainda mais pesadas do que as anteriormente anunciada, mas indicando oportunamente que, finalmente, não é demasiado tarde para "agir". Recordemos que em 2009 a Conferência de Copenhaga (COP15) fora unanimemente avaliada como a "última oportunidade" antes de, finalmente, fracassar. Ninguém põe em dúvida a competência dos peritos do GIEC mas este organismo, por natureza sob o controle dos Estados, exclui de facto as vozes discordantes. Ora, desde que se fala de clima, e mais especificamente de ambiente, o que não faltam são peritos – o que falta são debates. Uma precisão útil neste contexto: um debate faz-se entre interlocutores que não partilham o mesmo ponto de vista... Idealmente, tais debates deveriam incluir todos os elementos do caso – e não somente os dos promotores. Pois o mínimo que se possa dizer é que, quanto ao culpado do "aquecimento", a instrução do processo é conduzida exclusivamente pela acusação. Que este possa igualmente ter consequências positivas é uma questão tabu. Além disso, um elemento, entre muitos outros, merece ser mencionado: todos os modelos e planos de redução das emissões de GEE, mesmo considerados insuficientes pelos juízes holandeses, têm uma coisa em comum: eles baseiam-se na estagnação, ou melhor num fraco aumento do crescimento em países como os da UE, como tem sido o caso desde há anos – 2% a 2,5% no máximo, muitas vezes menos. Se a aventura do crescimento fosse reiniciada com ritmos bem mais elevados, isso abalaria todas as reduções de emissões planificadas. Certamente, uma política económica austeritária inalterada é uma hipótese improvável. Mas aqueles que ainda querem combater em favor do progresso económico e social – alta do nível de vida, da protecção social e dos serviços públicos, reindustrialização – deveriam estar conscientes de que isso passa por um crescimento consideravelmente mais forte do que actualmente, o que implica evidentemente uma alta significativa do consumo de energia, inclusive fóssil. Nesta perspectiva progressista (para tornar a dar um sentido a esta palavra, que Emmanuel Macron tenta inverter), um crescimento "à chinesa" é uma condição certamente não suficiente, mas muito necessária para responder às necessidades sociais. Mas a realidade é que o chamado sistema a que Karl Marx chamou capitalista chegou ao fim do seu papel histórico. Por longo tempo ele permitiu o desenvolvimento das forças produtivas, ao preço da exploração do homem pelo homem, para retomar as palavras do autor de O Capital. A exploração continua presente, mas verifica-se que a máquina, tendencialmente, tem sido cada vez menos capaz de produzir riquezas, nomeadamente porque esta é fagocitada pela proliferação das finanças. Era portanto inevitável que um tal sistema em fim de curso segregasse uma ideologia que justificasse o crescimento fraco ou mesmo o decrescimento, e se trajasse com a vontade de impor aos povos a resignação mediante um vestuário pós-moderno, que certas forças "de esquerda", mesmo de "ultra-esquerda", envergam – senão com elegância, pelo menos com suficiência. Para dizer tudo de uma vez, os actuais Torquemadas, vestidos de verde – ou adornados com uma toga da Batávia – não têm nada a invejar, em matéria de tolerância e cultura do debate, aos seus ancestrais da Santa Inquisição. 

11/Outubro/2018

[*] Jornalista, redactor-chefe do jornal mensal Ruptures, ex-redactor do diário L'Humanité (1996-2001), antigo sindicalista da CGT francesa. O original encontra-se em ruptures-presse.fr/partages/jugement-pays-bas-rechauffement-climat-lahaye/  Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/juizes-holandeses-substituem-se-ao.html

Reposição da normalidade

Vai sendo tempo de deixarmos de encarar os acidentes graves e catástrofes como ocorrências casuísticas, para os quais basta responder com boa vontade política e iniciativas assistencialistas.

Destruição, desespero. Incêndios em Portugal, 2017.Créditos / Fonte: istoe.com.br (divulgação AFP)

A Lei de Bases da Proteção Civil constitui a referência legislativa para definir o modelo de sistema de proteção civil em Portugal.

O referido diploma define como um dos objetivos do sistema “Apoiar a reposição da normalidade da vida das pessoas em áreas afectadas por acidente grave ou catástrofe”.

Para melhor identificação dos leitores com o que escrevo a seguir, cito a definição de acidente grave consagrada no mesmo diploma: “um acontecimento inusitado com efeitos relativamente limitados no tempo e no espaço, susceptível de atingir as pessoas e outros seres vivos, os bens ou o ambiente”.

De forma cada vez mais frequente o país tem sido atingido por fenómenos extremos, em linha com o que vai acontecendo em todas as latitudes, numa indiscutível consequência das alterações climáticas. Os incêndios florestais de 2017 e a recente tempestade Leslie, são os exemplos mais recentes desta nova realidade.

Os elevados danos humanos e materiais (em habitações, infraestruturas, equipamentos e bens das pessoas, explorações agrícolas, empresas e autarquias locais) provocados pelos referidos eventos, impôs a adoção de medidas de emergência, a vários níveis, para recuperar a normalidade da vida das pessoas afetadas.

No processo de resposta às consequências dos incêndios de 2017 e da tempestade Leslie, foram evidenciadas diversas disfunções, tanto de natureza processual como organizativa.

«Não existe qualquer referencial de planeamento que oriente as intervenções de reposição da normalidade nos territórios afetados, delimite as responsabilidades da administração central e local, formate a composição e a missão das equipas técnicas de intervenção ou identifique os correspondentes recursos financeiros a mobilizar»

Esta circunstância resulta da falta de modelos de intervenção, nomeadamente dos serviços do Estado, nas ações de recuperação pós-evento.

Não existe qualquer referencial de planeamento que oriente as intervenções de reposição da normalidade nos territórios afetados, delimite as responsabilidades da administração central e local, formate a composição e a missão das equipas técnicas de intervenção ou identifique os correspondentes recursos financeiros a mobilizar.

A ausência do referido referencial, resulta na confusão, na falta de transparência e de eficiência das ações deliberadas, caso a caso, pelos Governos em funções, com prejuízo das comunidades e das pessoas vítimas dos eventos extremos.

Deste modo parece-me absolutamente indispensável que seja elaborado um referencial orientador para intervenção nos processos de recuperação das comunidades afetadas, no qual se defina quem, como, onde e quando intervém, identifique as respetivas missões, competências e instrumentos de monitorização, sem perda de prontidão no apoio às populações, agentes económicos e instituições.

Vai sendo tempo de deixarmos de encarar os acidentes graves e catástrofes como ocorrências casuísticas, para os quais basta responder em cima da emergência, com boa vontade política e iniciativas assistencialistas.

A proteção de pessoas e bens está alicerçada na conjugação institucional de quatro verbos essenciais: prevenir, atenuar, responder e recuperar. Da eficiência do verbo recuperar depende o regresso pleno à normalidade da vida das populações afetadas e a qualidade das correspondentes medidas, políticas e técnicas.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Guernica, guerra psicológica e “guerras civis”

Martinho Júnior | Luanda 

Ao invés de multiplicar a educação, a saúde, o pão, a casa, a sustentabilidade e a longevidade feliz da vida, os bárbaros multiplicaram Guernica, transpondo-a para todas as áreas de domínio psicológico humano e mantendo o homem refém do mais tenebroso obscurantismo medieval como refém da pesada droga ideológica reitora da alienação formatada globalmente nas mentalidades agora tão intensa e tão profusamente bombardeadas!...

Lentamente, passo a passo e de modo cada vez mais reforçado, os bárbaros estão a descaracterizar ingloriamente, sem remissão e sem alternativa saudável, o planeta bonito e azul que é a Terra, nossa casa-comum e nosso ambiente natural finalmente preso ao abismo de o deixar de ser! 

1- Desde o início da Revolução Industrial enquanto motor de capitalismo e império, que os interesses dominantes mantêm inerentemente à sua essência, com toda a “naturalidade” do termo, a necessidade de guerra psicológica para com os dominados, por que a expressão pública desse domínio, visando a psique dos dominados, não podia existir de outro modo…

Para dominar, a guerra psicológica esteve sempre presente, por que para defender interesses e impô-los sobre os outros, necessário se torna “dourar a pílula”, influindo, persuadindo, manipulando, pressionando, subvertendo ou até mentindo, pelo que quem domina só emprega a força militar quando ela é estritamente necessário e até lá há um imenso leque de acções “representativas” a coberto de correntes dóceis disponíveis com o rótulo mais ou menos (tornado) “atraente” sob a pílula liberal, neoliberal, trotsquista, social-democrata, cristã-democrata, “revolucionária” (segundo o “colorido” do“filantropo global” George Soros), ou “primaveril” (segundo os apaniguados que bebem dos fundamentalismos sunitas-wahabitas) e até neo-fascista, ou neo-nazi, tal o universo de caos que se foi instalando e inculcando na mente das nações e de amplos sectores das contemporâneas sociedades, impotentes face à barbárie.
O “soft power” das potências capitalistas e do imp+ério da hegemonia unipolar, assenta nessa base de forma mais ampla possível, nas vias de relacionamento cultural, por que também assim se torna mais fácil aos “mass media” como às religiões instrumentalizadas de sua conveniência, ao seu “4º poder”, passar as tão necessárias mensagens públicas, aproveitando para em função desse tipo de “correntes dominantes” vincular uma parte substancial da actividade tentacular dos seus serviços de inteligência.
Assim, ao “desnudar” a actividade de quem domina por dentro do capitalismo e do império, obtém-se uma radiografia do estado da globalização e de suas instrumentais “tendências” que não param de afectar o planeta e toda a humanidade, até ao mais obscuro rincão terráqueo, uma barbárie devassa sem precedentes, na agora (finalmente) tornada “aldeia global”!
Com essa radiografia, mais agora com a nova Revolução Tecnológica, os serviços de inteligência aumentaram nos termos de suas capacidades e potencialidades, os seus “jogos operativos”, transferindo para o campo da “guerra cibernética” parte do espectro e dos níveis do domínio e da confrontação.
2- A guerra psicológica enquanto conceito inerente ao próprio domínio, é por tabela inerente à infraestrutura tecnológica do seu poder, como também inerente à superestrutura doutrinária, filosófica e ideológica, em função da necessidade de sua expressão, cujas correntes se transmitem instrumentalizando a própria globalização.
A definição do tipo de tensões, conflitos, rebeliões e guerras, passou a ser feita obedecendo aos pressupostos do domínio capitalista e do seu império cuja tendência essencial se tornou hegemónica e unipolar a partir do momento em que soçobrou o campo coberto pelo esforço vocacionado para o socialismo, que não foi capaz de competir ao seu nível e minguou, mas já antes, desde os alvores da Revolução Industrial que o termo “guerra civil” correspondia à manipulação de conveniência.
Na “guerra civil” de Espanha, entre as duas Grandes Guerras Mundiais, os poderes dominantes em competição experimentaram em uníssono essa definição tão conveniente, aproveitando o facto da luta armada acontecer em território espanhol, a fim de esconder os instrumentos de domínio empregues, desde os que se distenderam em função de conceitos doutrinários, filosóficos e ideológicos, até aos interesses económicos, financeiros, tecnológicos, de inteligência e, por fim, militares.
Em território espanhol foram assim testadas novas tecnologias e novos conceitos económicos, financeiros, de inteligência e militares, um deles tão essencialmente imortalizado por Pablo Picasso: Guernica.
Em Guernica os fascistas e os nazis inauguraram pela primeira vez o bombardeamento aéreo de comunidades civis, um facto que inspirou uma nova aquisição das potencialidades da guerra psicológica tão bem aproveitada em nossos dias, quando um Nobel da Paz, como o Presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama se tornou autor moral dos bombardeamentos com drones, que entre suas vítimas aumentaram exponencialmente a morte e o ferimento de civis, sob o rótulo apassivante de “danos colaterais”!
Quando ninguém mais consegue parar o tráfico e o consumo de droga que se distendem desde um Afeganistão habilitado à heroína e uma Colômbia habilitada à cocaína, o próprio conceito de guerra psicológica, por tabela de“guerra civil”, torna-se policromática, primaveral e… psicadélica!
Desde Guernica que a guerra psicológica se tornou cada vez maus cínica, hipócrita e ao mesmo tempo surrealista, tal qual quanto à carga de cinismo, de hipocrisia e de vassalagem que é inerente a um dos instrumentos militares e de inteligência tornados dilectos enquanto exercício do domínio do império da hegemonia unipolar: a NATO!
Não é por acaso que a NATO tem tão férteis fronteiras no Afeganistão e na Colômbia!
3- Todas as tensões, conflitos, rebeliões e guerras incrementadas após o colapso do campo socialista que se reduziu ao farol heróico de Cuba e à expressão socialista e bolivariana da Venezuela, absorveram os conceitos de guerra psicológica inerentes ao capitalismo e ao império, “expandindo o sinal” desde 1991, com a expansão globalizadora das novas tecnologias, elas mesmo sustentadas pelos procedimentos capitalistas financeiros transnacionais e suas imensas capacidades “transversais” ao serviço da hegemonia e do império!
As tensões, os conflitos, as rebeliões e as guerras em África trazem em si o sinal dessa barbaridade cultural e foi assim no Ruanda, no Congo, em Angola, na Líbia, na Somália, no Quénia, na Líbia… em todo o tipo de fronteiras onde as disputas pela sobrevivência se foram agarrando ao espaço vital e à água interior, com todas as riquezas disponíveis e à mercê do mais forte, nas regiões mais suculentas e mais férteis do continente!
Também foi assim nos Balcãs, onde ao domínio foi necessário neutralizar qualquer potencialidade de resistência na Jugoslávia, ou no Oriente Médio Alargado: a “guerra civil” foi estalando de cogumelo em cogumelo, passando por osmose para o Cáucaso, para a Europa do Leste, para dentro da imensa Rússia e muitos dos seus exemplos estalaram artificiosamente em função de rebeliões com enormes cargas psicológicas “fundamentalistas” e “radicais” como as“revoluções coloridas” e as “primaveras árabes”.
A substância da IIIª Guerra Mundial em curso nutre-se dessa guerra psicológica manipuladora e como um expansivo vírus invasor da psique individual e colectiva, produz até a carga essencial do conceito difundido, como mentira repetida mil vezes que o domínio procura passar como verdade, de “guerra civil”!
O termo “guerra civil” tem sido utilizado pelo domínio capitalista como um poderoso conceito-droga, para realmente esconder os interesses, as conveniências, as ingerências, as manipulações, as implicações e a subversão inerentes à guerra psicológica movida pelo poder hegemónico unipolar no seu estertor, sobretudo desde 1991 quando as novas tecnologias colocaram à disposição das correntes capitalistas financeiras transnacionais potencialidades cibernéticas para o exercício do seu poder fundamentalista, radical e transversal!...
Em pleno século XXI, o bombardeamento sobre Guernica foi multiplicado e distendido à maioria das áreas essenciais dos processos de domínio hegemónico e unipolar manipuladores da globalização!
Por que a maior parte dos alvos das guerras psicológicas contemporâneas são território nacionais,ou culturas milenares com expressão em nações intyeiras e com vista a subverte-las e aos estados mais débeis, o termo “guerra civil” é utilizado por uma panóplia de historiadores incapaz de ganhar a consciência crítica que vença a mentalidade que lhes foi formatada em relação ao termo, prestando eles próprios, dessa maneira, um serviço “útil”, dócil e grátis a quem domina recorrendo aos procedimentos culturais, sociais e psicológicos do império da hegemonia unipolar… voluntariamente eles tornam-se assim vectores existenciais da guerra psicológica de 1% sobre o resto da humanidade!
Bárbaro planeta o nosso, quando são tão débeis os poderes capazes de civilização, mas essa é, quer queiram os conscientes, os humanistas e todos aqueles que se regem pela lógica com sentido de vida, quer não, os parâmetros balizadores da imensa batalha de ideias que se está a travar!
Percebe-se assim a máxima “A LUTA CONTINUA”!

Martinho Júnior - Luanda, 21 de Outubro de 2018

Quando os povos mergulham na noite

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 14/10/2018)

soromenho

No mesmo dia em que o eleitorado brasileiro colocou Jair Bolsonaro à entrada do Palácio do Planalto, foi divulgado um inquietante Relatório Especial do IPCC – órgão da ONU encarregado de monitorizar a marcha global das alterações climáticas. A mensagem é dupla. Primeiro, as alterações climáticas estão a crescer a um ritmo que a ciência, importa confessá-lo, não foi capaz de antecipar. Segundo, o limite antes considerado aceitável de 2ºC para o aumento da temperatura média até ao final do século afinal seria catastrófico, Devemos, por isso, usar a próxima década para mudar aceleradamente o nosso sistema de produção e consumo (de civilização, em geral), de modo a impedir que esse aumento ultrapasse 1,5ºC. Imaginemos Bolsonaro a ler o relatório do IPCC, o homem que quer destruir a Amazónia e que alardeia a sua ignorância e preconceito! O seu problema, como o de Trump, como o de Duterte e de todos os outros tiranetes é que nem sequer têm a literacia elementar para perceberem aquilo que recusam. A política foi inventada, acreditamos, para corporizar a força comum na superação das ameaças que só em comum podem ser vencidas. Se assim é, então, ao eleger líderes ignorantes, moralmente niilistas e semeadores da discórdia e do conflito – que nos levam para o abismo que deveriam evitar – estamos a colocar a antipolítica no lugar da política. De onde se deveria esperar a salvação vem, afinal, o maior perigo…

O que poderá levar os brasileiros a escolher para presidente um homem que fala e se comporta como um delinquente? Ou os norte-americanos a suportarem e, eventualmente, a reelegerem uma criatura totalmente indigna de crédito e confiança como Trump? Quando dizemos que Bolsonaro e Trump são a morte da política, corremos o risco de confundir causas com efeitos, de esquecer o que se passa na cabeça de cada eleitor em favor de um excesso de sociologia política. Na sua obra maior, O Princípio Esperança (1959), o filósofo Ernst Bloch analisava as diferenças entre o “sonho acordado” ou devaneio (Tagtraum) e o “sonho noturno” (Nachttraum). Com razão, Bloch destacava o facto de escassa atenção ter sido dada ao primeiro, enquanto o estudo do segundo até serviu de base para a construção da psicanálise. O devaneio, que não se esgota na idade juvenil, cumpre uma função de antecipação do futuro, constitui uma espécie de ensaio utópico quotidiano à escala individual. É um ato de higiene do espírito, em que, ao contrário do sonho noturno, nunca perdemos o controlo da efabulação nem a identidade própria. O devaneio raramente remete para o passado, como ocorre com o sonho noturno, mas visa o futuro, o mundo concreto partilhado com os outros. Voltando ao início.

Os povos só se entregam à noite dos ditadores e populistas quando os indivíduos deixam de ter capacidade de sonhar acordados. Só entrega o seu destino nas mãos de um monstro certificado como tal quem trocou o sonho acordado pelo medo paralisante e/ou pelo ódio cego que alimenta a violência indiscriminada.

Quando os eleitores desistem de imaginar o seu futuro, trocam a incerta aposta na esperança, que implica sempre um esforço individual, pela inevitabilidade do anónimo e impositivo pesadelo coletivo. No dia 28, os brasileiros vão escolher entre serem cidadãos racionais, capazes de ponderar o gradiente dos interesses e valores em jogo, ou cúmplices imputáveis dum golpe, possivelmente letal, contra a sua frágil ordem democrática.

 

Professor Universitário

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Bolsonaro quer entregar riquezas naturais ao capital estrangeiro

Geógrafos paraenses alertam para os riscos que o Brasil corre se o candidato da extrema-direita for presidente e denunciam os planos «entreguistas» das riquezas naturais ao grande capital estrangeiro.

Geógrafos acusam Bolsonaroi de pretender entregar a Amazónia à exploração privada estrangeiraCréditosLilo Clareto / portalamazonia.com

Numa carta aberta, 136 geógrafos do estado do Pará, alertam os brasileiros para os riscos que o país corre caso Jair Bolsonaro, o candidato fascista à presidência da República, seja eleito no próximo dia 28.

«Acreditamos plenamente que é preciso resistir contra qualquer investida antidemocrática de candidatos que se insurgem contra direitos historicamente conquistados ao longo do período de redemocratização brasileira após 21 anos de regime autoritário e cerceamento de direitos políticos», sublinham.

Expressam ainda preocupação quanto à «maneira nada democrática» com que «o referido candidato tem elaborado as suas estratégias de acção para o caso de ser eleito», com especial destaque para a «perda de direitos trabalhistas», e a «criminalização das chamadas minorias, dos movimentos sociais e dos defensores dos direitos humanos», denunciam.

No que à Amazónia diz respeito, o grupo de investigadores e professores paraenses destaca que o candidato de extrema-direita apresenta uma «postura política« de entrega dos recursos naturais da maior floresta tropical do mundo «à iniciativa privada de países estrangeiros, incidindo aí a eliminação de áreas de protecção ambiental, de reservas extractivistas e de ONG [organizações não governamentais] que, historicamente, lutam em defesa das populações tradicionais do país».

Para estes geógrafos, que manifestam «total repúdio» perante aquilo que se desenha «no cenário nacional em relação a uma possível eleição de Jair Bolsonaro», este representa «uma postura anti-democrática e conservadora e [é] apoiado pelos que historicamente desmatam, matam e expropriam a agricultura familiar, o camponês, o ribeirinho, os índios, os pescadores e os quilombolas desde o período da invasão portuguesa no século XVI».

Velho discurso para mais agronegócio

A propósito da carta, lançada na semana passada, o Brasil de Fato falou com dois dos seus signatários. Márcio Amaral, professor na Universidade Federal do Pará (UFPA), não se mostra surpreendido pelo facto de as propostas de Bolsonaro para a região coincidirem com o «velho discurso de que a Amazónia é um enorme espaço vazio», precisamente a visão que orientou a construção do modelo político-económico no tempo da ditadura civil-militar.

Márcio Amaral mostra-se, no entanto, preocupado com as consequências que esse velho discurso poderá ter novamente na região amazónica. «A Amazónia foi pensada como um grande vazio demográfico, e essa leitura acabou por transformar a Amazónia numa grande fronteira de recursos para acumulação dentro de um modelo desenvolvimentista», afirma.

No fim de Agosto, Bolsonaro foi claro quanto à sua visão sobre a Amazónia, ao declarar, numa visita a Porto Velho (Rondónia), que «o Brasil não suporta ter mais de 50% do território demarcado como terras indígenas, áreas de protecção ambiental, com parques nacionais e essas reservas todas, [que] atrapalham o desenvolvimento», acrescentando que não é possível «continuar a admitir uma fiscalização xiita» por parte das instituições competentes na área, porque prejudicam «quem quer produzir».

A este propósito, o investigador Edgar Chagas Jr., outro signatário da carta aberta, afirma que Bolsonaro «retoma uma ideia extremamente ultrapassada, retrógrada, sem nenhuma estrutura de planeamento e gestão para a Amazónia», sublinhado que a intenção é facilitar o «avanço do agronegócio». Em seu entender, as declarações de Paulo Guedes, apontado como futuro ministro num governo de Bolsonaro, mostram que a ideia é abrir caminho à «economia voraz», à monocultura (da soja, por exemplo) e dar «facilidades ao grande capital».

Direitos dos povos indígenas e soberania em causa

Por seu lado, Márcio Amaral manifesta preocupação por aquilo que a aliança entre a Frente Parlamentar Agropecuária, ligada à bancada do agronegócio, e Bolsonaro poderá significar para os povos tradicionais e indígenas, expondo-os a mais violações de direitos, sobretudo no que respeita às garantias referentes aos seus territórios, que estão «estabelecidas constitucionalmente».

Além do avanço do agronegócio e do aumento da violência sobre os povos tradicionais nas florestas, Edgar Chagas sublinha que o Brasil corre o risco de perder a sua soberania sobre a Amazónia – algo que decorre das declarações feitas pelo própio candidato fascista.

No decorrer da campanha para a primeira volta das eleições presidenciais, em Natal (Rio Grande do Norte), Bolsonaro defendeu claramente a abertura da Amazónia à exploração da iniciativa privada estrangeira. «Aquilo é vital para o mundo», disse. «É uma realidade e temos como explorar em parcerias essa região», frisou, citado pela Mídia Ninja.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Movimento reclama “discussão alargada” para preservar Parque ...

Um movimento de cidadãos escreveu esta segunda-feira uma carta aberta ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), para que promova “uma discussão alargada” com vista à preservação da serra e do Parque Natural de Sintra-Cascais.
Movimento reclama “discussão alargada” para preservar Parque Natural de Sintra-Cascais
 
 

Na carta aberta, o movimento independente de cidadãos ‘Q Sintra’ solicita ao presidente do ICNF, que tutela o Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC), empenho “para que se abra uma nova era” na instituição e “que, de uma vez por todas, o tão importante património que tem à sua guarda seja efetiva e eficazmente protegido”.

Por ocasião do aniversário da classificação da Área de Paisagem Protegida de Sintra-Cascais, a 15 de outubro de 1981, posteriormente reclassificada em Parque Natural, o movimento propõe ao ICNF que promova “uma discussão alargada sobre a visão e o plano que melhor possam servir os esforços de preservação da serra de Sintra”.

Esta discussão deverá assentar “num diálogo que junte as instâncias políticas a nível nacional e local”, os responsáveis do PNSC e da Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML), os proprietários privados, especialistas e cidadãos.

Apesar do PNSC assumir como primeiro objetivo a ‘gestão racional dos recursos naturais e paisagísticos’, verifica-se que “a serra de Sintra sofre há décadas de um deficit de intervenção e gestão florestal ativa”, salienta o movimento.

Os resultados, acrescenta o ‘Q Sintra’, passam pela “proliferação de espécies invasoras, critérios discutíveis no abate de árvores e bosques dizimados por cortes irracionais, arvores caídas, grande acumulação de material lenhoso morto altamente combustível e caminhos florestais bloqueados por vegetação”.

“Falta uma estratégia, falta planeamento, falta acompanhamento, falta fiscalização”, frisa o documento.

Notando que o recente incêndio na zona da Peninha “foi a prova do nível de risco em que se encontra a serra”, quando o Governo já tinha sido alertado, em maio, por uma equipa de peritos da Comissão Europeia para a existência de “um risco estrutural ‘muito alto e extremo’ e uma extrema vulnerabilidade da área protegida”.

No documento alerta-se que, com exceção das áreas a cargo da Parques de Sintra-Monte da Lua, “há outras áreas públicas e vastas áreas privadas na serra de Sintra em estado de abandono e que assim continuarão se nada se fizer”.

“É preciso ter uma visão do que se quer para a serra de Sintra, uma estratégia adequada à preservação de uma paisagem classificada”, vinca o ‘Q Sintra’, defendendo a necessidade de “identificar os objetivos em termos de ocupação demográfica e de atividades económicas que viabilizem a exploração pública e privada e o ordenamento sustentável da floresta”.

O movimento de cidadãos, que se assume “em defesa de um sítio único”, com vista à preservação das características que justificaram a classificação da Paisagem Cultural de Sintra, como património mundial pela UNESCO, enviou a carta aberta ao ICNF, com conhecimento, entre outras entidades, à Presidência da República, Assembleia da República, Ministério do Ambiente e autarquias.

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Associação reafirma defesa da água pública

No Dia Nacional da Água, que hoje se assinala, a Associação Água Pública reafirma a necessidade de lutar contra a sua privatização, para bem dos utentes e do erário público.

A associação denuncia a chantagem em torno dos fundos comunitáriosCréditos / fotospublicas.com

A associação defende, num comunicado enviado às redacções, que urge reafirmar a defesa da água pública «em face do prosseguimento da ofensiva que visa sem rodeios, por mais desmentidos e jogos de palavras, a privatização deste bem precioso e dos serviços».

Depois da fusão dos sistemas em «alta» [a montante da rede de distribuição], assente na agregação de sistemas multimunicipais, «à margem e contra a vontade dos municípios», a Associação Água Pública denuncia o Governo por desenvolver «uma ofensiva contra a gestão municipal do abastecimento de água e de saneamento de águas residuais, a partir da imposição das "agregações" dos sistemas em "baixa" [abastecimento aos consumidores]».

Para tal, acrescenta, o Executivo de António Costa utiliza os fundos comunitários como «arma de arremesso», «impedindo os municípios de acederem a tais apoios» e de desenvolverem «parcerias colaborativas» entre si, sem a obrigatoriedade de agregarem os seus sistemas.

A par desta «atitude discriminatória» por parte do Governo, a Associação Água Pública denuncia a exigência por parte do sector privado, representado na Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente (AEPSA), de que os serviços de água e saneamento sob a gestão dos municípios sejam «concessionados/privatizados/externalizados» e entregues às «grandes multinacionais» do sector.

Trata-se, conclui, de um «apetecível filão de negócio, superior a 2 mil milhões de euros», com «gravíssimas consequências» para os utentes e para os cofres públicos.

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Eucalipto domina as florestas plantadas no Brasil

Mais de 75% das florestas plantadas no Brasil são ocupadas pelo eucalipto, territórios designados como «desertos verdes» pelos danos que causam ao solo e pela grande quantidade de água que consomem.

Área de floresta plantada com eucalipto, no BrasilCréditos / wazlawik.com.br

Segundo o relatório Produção da Extracção Vegetal e da Silvicultura 2017, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 9 850 000 hectares de florestas plantadas, sendo que mais de três quartos desse território se destinam à produção de eucalipto.

A maior parte das florestas plantadas concentra-se nas regiões Sul (36%) e Sudeste (25%) e, de acordo com o relatório do IBGE, o estado brasileiro líder no cultivo de eucalipto é o Paraná (Sul), seguido por Minas Gerais (Sudeste) e por Santa Catarina (Sul).

Em conversa com o Brasil de Fato, João Dagoberto dos Santos, investigador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo disse que, embora a área destinada às florestas plantadas seja mais pequena do que a dedicada a outros tipos de cultivo, o forte impacto sócio-ambiental das florestas advém do seu alto nível de concentração.

«O empreendimento do agronegócio de árvores é extremamente pequeno, se comparado aos milhões de hectares de cultivo agrícola tradicional, [como] soja, milho e algodão. O problema do impacto [do agronegócio de árvores] é a concentração. [...] Então, o impacto na dinâmica dos territórios onde actuam é muito forte», frisou.

Referindo-se às florestas de eucalipto, Dagoberto dos Santos explicou que estas «têm um domínio muito grande sobre o consumo de água onde estão instaladas», provocando «uma homogenização da paisagem, uma absorção muito grande de nutrientes a longo prazo» e impossibilitando «a utilização do solo de uma maneira muito drástica», com «impactos ambientais e sociais muito graves».

Ao contrário do que acontece com outras monoculturas, as florestas de eucalipto inviabilizam o solo para outros tipos de cultivo, afectando as famílias de pequenos agricultores, alertou.

Estado, accionista do sector florestal

O Brasil chegou a esta realidade «graças a uma relação de simbiose entre o Estado e as empresas que dominam o sector», acusa o investigador, acrescentando que o Estado se tem comportado como «um sócio» da produção da celulose, «um accionista do sector florestal», sobretudo por via do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES).

Por seu lado, Kelli Mafort, da direcção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirmou que os dados do IBGE «revelam mais uma vez o domínio do agronegócio sobre o campo brasileiro».

Que o Brasil tenha «75% das florestas plantadas com eucalipto é revelador de como o campo brasileiro» está dominado «por esse modelo do agronegócio, das transnacionais, das grandes empresas», declarou ao Brasil de Fato.

Com o eucalipto transgénico a situação piora

Kelli Mafort explica que o Brasil é um dos poucos países do mundo que autorizam o cultivo de eucalipto transgénico, que «reduz de sete para até quatro anos o crescimento de uma árvore».

Isto significa que haverá mais cortes, aumento de produção e, como o eucalipto consome muita água, maior impacto sobre as bacias hidrográficas, alertou.

Tendo em conta os impactos graves do chamado «deserto verde», Mafort sublinha a necessidade de colocar o tema das agroflorestas no centro do debate, procurando ultrapassar «o modelo predatório aplicado pelo agronegócio em conluio com a bancada ruralista» [do Congresso].

Em tempo de campanha eleitoral, a dirigente do MST destaca a importância de «derrotar as forças conservadoras», de «derrotar as forças golpistas», exigindo aos candidatos democratas que tenham «um plano de defesa da reforma agrária, da agricultura familiar, da agroecologia e das agroflorestas».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

A Propósito do Petróleo ao Largo do Algarve…

“Pode-se discutir tudo mas não se pode discutir de forma estúpida e desinformada”, dizia alguém há dias. E dizia, obviamente, muito bem.

Mas quando se fala de petróleo é indispensável saber em que ninhos de vespas se vai, necessariamente, tocar e que tipo de ataques isso vai desencadear. Se há sector económico em que a guerra económica e a guerra de informação estão sempre em acção, esse é o sector do petróleo. Sector onde sobram “razões” e motivos para tais guerras e, sobretudo, existem óptimos orçamentos para tanto sustentar e com isso ganhar. Muito. Isto é, se há sector em que não se pode ser ingénuo, esse sector é o do petróleo.

Por isso, se o autor da citação acima referida tem razão falta-lhe pôr de lado a ingenuidade que o leva a admitir que para abordar o assunto basta não ser estúpido e estar informado. Não basta! É preciso muito mais. É preciso uma boa grelha conceptual de “guerra económica/guerra de informação” e muita, muita “inteligência”. Nada que Paulo Reis, por exemplo, não tivesse já visto e escrito há uns anos…

Exclusivo Tornado / IntelNomics

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Apresentado novo autocarro cem por cento eléctrico

No âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, foi apresentado em Torres Vedras um novo modelo de autocarro cem por cento eléctrico, com zero emissões de CO2, que circulou pela cidade a título experimental.

A sessão contou com a presença de Hugo Lucas, vereador da Mobilidade da Câmara Municipal; de Joaquín Bellido, representante da BYD na Península Ibérica; e de Rodrigo Taveira, engenheiro da Barraqueiro Transportes.

Segundo a Barraqueiro Oeste, a empresa foi o primeiro operador de transportes públicos na Europa a demostrar em operação o novo modelo de autocarro da BYD, o maior fabricante mundial de autocarros eléctricos.

Com capacidade para 60 passageiros, o autocarro tem autonomia para percorrer aproximadamente 200 quilómetros. De acordo com a BYD, este modelo, que é ainda um protótipo, assegura uma amplitude de serviços equiparável às soluções de combustão interna convencional, com um tempo de carregamento inferior a três horas.

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Água doce pode desencadear uma guerra nuclear?

A guerra climática tem aumentado nos últimos anos o risco de conflitos armados. A escassez de água doce, secas e colheitas fracas causam a migração em massa, enquanto que confrontos políticos são agravados.

A prova disso são as guerras civis no Sudão e na Síria, mas nem todos compartilham da mesma opinião. 

Conflito de Darfur e clima

Centenas de milhares de pessoas morreram entre 2003 e 2005 em confrontos interétnicos em Darfur, no Sudão. Alguns políticos transferem a causa disso a problemas ecológicos: secas, falta de água potável e safras pobres. O conflito de Darfur é considerado a primeira "guerra climática" no mundo – conceito difundido por cientistas, ambientalistas e políticos da União Europeia e dos EUA.

Um país pobre com recursos hídricos limitados e fraco poder governamental não conseguiu lidar com as consequências da mudança climática, pregam os defensores da nova teoria, segundo a qual a falta de água, a ofensiva no deserto, a perda de gado devido à falta de pastagens levaram à migração de tribos nômades árabes para o sul e à guerra civil.

Guerra e seca na Síria

Peter Gleick, do Instituto do Pacífico para Estudos em Desenvolvimento, Meio Ambiente e Segurança, escreveu que a guerra síria começou em 2012 por muitas razões: política de longo prazo e problemas religiosos e sociais, que agravam as condições ambientais. Um papel especial foi desempenhado pela escassez de água doce, a gestão ineficiente dos recursos hídricos, o sistema de irrigação obsoleto e a mudança climática.

Especialistas afirmam que a migração em massa da população rural síria para as cidades começou por causa do desemprego na zona rural em decorrência da seca prolongada de 2006 a 2011. Eles atribuem o problema a fatores econômicos associados à ecologia: a agricultura intensiva esgotou as águas subterrâneas necessárias para irrigar os cultivos e a permissão para privatizar a terra acabou forçando os arrendatários a se retirarem de suas casas. 

Outra visão das causas do conflito

O conflito de Darfur não poderia surgir devido a uma escassez de água doce e à deficiência nas colheitas, acredita Jan Selby, da Universidade de Sussex (Reino Unido), que juntamente com outros cientistas investigaram a situação na região. De acordo com seus dados, o fluxo de água do Nilo através do Sudão e o nível do lago Nasser não mudaram desde a década de 1960. As chuvas foram geralmente mais frequentes que o normal e não houve secas severas depois de 1990. Os tumultos mais massivos ocorreram em áreas rurais ricas com bons recursos hídricos.

O conflito de Darfur é o resultado da colonização do país pela Grã-Bretanha, a integração na economia capitalista global, a constante "construção do Estado" sob a supervisão de organizações internacionais que apoiam o interesse das elites locais. 

"As mudanças climáticas não podem reverter essa tendência nem no Sudão e nem em qualquer outro lugar", afirmam os cientistas. 

Selby não nega a influência dos fatores climáticos, mas a guerra civil na Síria tem razões mais significativas. 

"Guerras d’água" e ameaça nuclear

Os recursos hídricos renováveis do planeta totalizam aproximadamente em 42.800 quilômetros cúbicos por ano. Mas esses recursos estão divididos entre os países de modo desigual: no Canadá, a água per capita é dez mil vezes maior do que no Kuwait. Especialmente, a umidade não é suficiente no Oriente Médio e na África.

Segundo as previsões, a população mundial aumentará para oito bilhões de pessoas até 2025 e um terço viverá em países com "estresse hídrico". Em primeiro lugar, sofrerão as regiões com alta fertilidade e clima árido.

Atualmente uma das principais razões para o déficit de água de "qualidade" no mundo é a poluição. Isso, em alguns casos, contribui para a tensão internacional, já que muitos rios e represas são usados por diferentes países. 

Segundo a informação do Instituto de Problemas de Água (Rússia), 507 disputas surgiram devido a recursos hídricos de 1950 a 2000, e 21 delas levaram a ações militares, levando cientistas a usarem cada vez mais os termos "fome por água", "guerras por água". Por exemplo, Israel desencadeou uma "guerra pela água" para impedir que a Síria construísse um canal de desvio das Colinas de Golã, de onde se alimentam o rio Jordão e o mar de Galileia, de 1964 a 1965.

A água serve como um instrumento de pressão sobre o inimigo em conflitos armados. Em 2012, as forças antigovernamentais na Síria, durante as batalhas por Aleppo, danificaram gravemente as tubulações hidráulicas que forneciam água para três milhões de pessoas. 

Prevê-se que em meados do século 21, um quarto da região asiática se torne uma zona de conflitos por água devido ao rápido crescimento da população e taxas de desenvolvimento econômico. A água será mais e mais necessária.

Há também conflitos entre a Índia e o Paquistão, duas potências nucleares, em decorrência do acesso ao rio Indo. 

A África, onde as secas são violentas e os recursos hídricos são barbaramente explorados, é uma das regiões mais problemáticas. Nos últimos anos, a área do lago Chade, que serve como fonte de água para 40 milhões de cidadãos de quatro países, diminuiu em 15%.

Sergei Semenov, vice-diretor do Instituto de Clima Global e Ecologia, comentou que os riscos relacionados com água doce se alargarão devido ao aumento de gases do efeito estufa.

Como o planeta é heterogêneo no aspecto climático e ecológico, as consequências do aquecimento para as regiões não são as mesmas.

"Na maioria das regiões subtropicais secas, os recursos das águas superficiais e subterrâneas diminuirão, o que aumentará a competição pela água entre os setores da economia", explicou o analista, acrescentando que a competição seria entre setores da economia e não entre países. 

"Hoje em dia, a mídia gosta de falar sobre as guerras de clima. Eu penso que as guerras climáticas são uma fantasia, embora haja tensões entre alguns países por causa dos volumes de água nas fronteiras – a concorrência por influência política, econômica e ideológica", concluiu Semenov.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018092012255001-agua-doce-pode-desencadear-guerra-nuclear-clima/

A SOLUÇÃO PARA REDUÇÃO DO CO2 ATMOSFÉRICO? - CONHECIDA HÁ BILIÕES DE ANOS...

... E CHAMA-SE FOTOSSÍNTESE

                             image Tentarei fazer aqui a crítica dum artigo na revista suíça Bilan[1], «o CO2 Torna-se uma Matéria-prima», sobretudo da realidade subjacente ao mesmo. Este artigo revela algo típico de uma certa miopia, quando alguns só se interessam pelo ganho em termos monetários.

A natureza faz bem melhor em termos de recuperação do CO2 emitido: 

As enzimas que presidem à fixação do carbono atmosférico e sua «fixação» em moléculas de glúcidos são enzimas cujo óptimo está bem acima daquilo que são as concentrações médias de CO2 atmosférico: 300-400 ppm (partes por milhão). 

Para um funcionamento óptimo destas enzimas (PEP carboxilase e RuDP carboxilase/oxidase) seria necessária uma concentração dez vezes maior... 

A razão da maior produtividade das estufas, advém da elevada concentração (por falta de dispersão) do CO2, na maioria originado no solo pelas raízes das plantas e pelos micróbios do solo. Não é a temperatura no interior da estufa que é benéfica para o crescimento das plantas. Esta seria benéfica, quanto muito, para o amadurecimento dos frutos.

Assim, um aumento da cobertura verde, não apenas terrestre, como também de fitoplâncton, irá aumentar a captação do CO2 em excesso. 

Um retorno a uma agricultura, em termos modernos, com tecnologia apropriada, com os recursos disponíveis hoje em dia, que fazem com que a vida no campo possa ser tão ou mais confortável que nas melhores cidades mundiais, esta seria a aposta inteligente, mas ela não implica algo a ganhar pelas grandes multinacionais. 

Não cultivaria a dependência dos indivíduos, mas pelo contrário a sua independência, pois um agricultor bem sucedido e sobretudo uma comunidade deles, tem um sentimento de auto-suficiência, de autonomia. 

Políticos corruptos não querem isso, de forma nenhuma: querem as pessoas a dependerem deles, da distribuição de apoios do Estado, o que permite todos os tráficos de influência e corrupções. 

Por esta razão, não se fala do retorno à agricultura em relação à geração do milénio, que seria uma dupla solução: em termos ambientais e em termos de acabar com a crise de emprego. 

- Em termos ambientais, os jovens, na sua actividade agrícola, seriam consumidores líquidos do CO2 atmosférico, seriam produtores de biomassa, de produtos agrícolas, salvariam as paisagens e preveniriam os grandes fogos florestais, pois deixaria de haver grandes manchas de território, que se podem designar de desertos verdes, onde não existem povoações, apenas uma vegetação totalmente abandonada, crescendo sem cuidados (remoção da camada arbustiva, pistas de acesso para carros de bombeiros, etc). 

- Em termos de emprego, seriam eles próprios os geradores de emprego, para si próprios e suas famílias, mas também fariam reviver o tecido de aldeias que houve em tempos, as infraestruturas que essa vida implica também iriam requerer muita mão de obra... Os desempregados nos grandes centros urbanos poderiam ser canalizados para zonas rurais carentes de mão-de-obra, especializada ou não. 

Mas isto implicaria um outro modelo de sociedade, baseado na descentralização, na autonomia dos indivíduos e comunidades locais, na própria descentralização do poder, que tal transformação na distribuição demográfica traria em paralelo. 

Mas tal «utopia*» (*entre aspas, pois ela existe e está realizada, é o modo mais antigo de as sociedades humanas se auto-organizarem, desde que abandonaram o modo de vida de caçadores-recolectores) deveria ser desejada, tornada apetecível, deveria ser cultivado o amor pela Natureza, mas um amor não platónico, não romântico, mas sim um amor feito de conhecimento profundo e verdadeiro da mesma, em todo o seu esplendor. 

O maravilhoso das soluções naturais, da engenharia natural, deveria ser mostrado em todos os media de massas, ensinado de modo criativo nas escolas: 

- Em vez de uma colectânea de «curiosidades» apenas, a Biologia deveria ser ensinada como a chave do nosso futuro. 

- A Ecologia deveria ser central na formação científica dos jovens do novo milénio, através de um estudo dos ecossistemas, não na visão «fundamentalista» duma «ecologia New-Age».

O ponto central do artigo que mencionei é o do «mercado de carbono», ou seja, como transformar o ar, a atmosfera em mercadoria[2], e colocá-la numa bolsa de carbono...

References

  1. ^ artigo na revista suíça Bilan (www.bilan.ch)
  2. ^ mercadoria (manuelbaneteleproprio.blogspot.com)

Leia original aqui

Aquecimento global, visão sem esperanças

Novo livro, gigantesco e aterrorizante, sugere que não seremos capazes de deter a devastação até que nossos descendentes alimentem-se de inseto e bebam urina reciclada

Por Nathaniel Rich | Tradução: Inês Castilho

Baixar os livros aqui:

pdf Carbon Ideologies, Volume 1 No Immediate Danger (59.49 MB)

pdf No Good Alternative Volume 2 of Carbon Ideologies (179.35 MB)

 

Os escritores gostam de se autoelogiar imaginando para seu trabalho um “leitor ideal”, uma presença querubina dotada de generosidade infinita, da simpatia de um pai e da sabedoria, bem, dos próprios autores. Em Carbon Ideologies (Ideologias de Carbono), William T. Vollmann imagina para si mesmo o oposto: um leitor barbaramente hostil que zomba de seus argumentos, ridiculariza sua debilidade mental, desdenha suas patéticas tentativas até a ingratidão. Vollmann não pode culpar esse leitor, a quem se dirige regularmente no decorrer de Ideologias de Carbono, porque ela vive no futuro, sob circunstâncias radicalmente diferentes – habitando “um planeta mais quente, mais perigoso e diminuído biologicamente”. Ele a imagina virando as páginas de sua obra sobre mudanças climáticas dentro dos escuros recessos de uma caverna subterrânea onde procurou abrigo do calor insuportável; pragas, secas e inundações; bolas de fogo de metano atravessando oceanos ferventes. Como o solo é radioativo, ela sobrevive de insetos e de urina reciclada, e olha com desprezo implacável seus ancestrais, que, como o autor lhe diz, “desfrutamos do mundo que possuíamos e merecemos o mundo que deixamos”.

Ideologias de Carbono é um trabalho único publicado em duas partes, No Immediate Danger (Nenhum Perigo Imediato) e No Good Alternative (Nenhuma Alternativa Boa).A bifurcação deve-se à insistência do exausto editor de Vollmann e aos limites da moderna encadernação. De todos os escritores em atividade hoje, Volmann deve ser o mais livre: ele escreve ficção, ensaios, monografias, críticas, memórias e história, geralmente misturando várias formas de uma só vez, sobre temas tão diversos quanto teatro Nô japonês,passeios de trem, e a guerra de Nez Perce, dilatando-os até a extensão que lhe convier.

Como acontece frequentemente com Vollmann, décadas de atrito com seus editores respingam nas páginas do livro. Ideologias de Carbono começa com a confissão de que o manuscrito original era “várias vezes mais longo do que o máximo estipulado por contrato”; depois de “ansiosas negociações”, seu editor “finalmente concordou em satisfazer-me mais uma vez”. Não seu editor de não-ficção – do qual ele se afastou depois de receber uma proposta de adiantamento inferior à quantia que já gastara em pesquisa –, mas seu editor de ficção. (“Espero sinceramente que algum dia tudo isso valha a pena para você”, escreve ele em amoroso reconhecimento.) A editora Viking manteve a linha até as notas finais, que chegam a 129 mil palavras e podem ser examinadas online ou no arquivo de Vollmann na Ohio State University.

As 1.268 páginas que restam são tão gloriosa e loucamente inclassificáveis quanto a maioria do trabalho de Vollmann. A analogia mais próxima é Rising Up and Rising Down, seu tratado de 3300 páginas sobre violência, com sete volumes, que Vollmann chama de texto de companhia. Ideologias de Carbono é sobre outro tipo de violência, a violência infligida pela produção de carvão, gás natural, petróleo e energia nuclear. As vítimas dessas ideologias de carbono são não somente as espécies da fauna e da flora que serão extintas, os frágeis ecossistemas que serão destruídos, e as gerações futuras de humanos que terão de sobreviver de insetos. As vítimas somos nós – nós que estamos vivendo agora e que negamos, em vários níveis, o tamanho do dano que estamos causando a nós mesmos. Ideologias de carbono é uma crônica da automutilação.

É também um almanaque sobre o uso global de energia. O volume inicial abre com um manual cheio de tabelas, listas e dados (“garanto que você não perderá nada pulando à página 217”) e conclui com 80 páginas de definições, unidades e conversões (“Os leitores devem sentir-se livres para pular essa seção”). É um diário de viagem a paisagens naturais destruídas pela produção de energia, principalmente Fukushima (nuclear), West Virginia (carvão), Colorado (gás natural) e Emirados Árabes Unidos (petróleo). É um trabalho de história oral, que contém dezenas de entrevistas com operários que trabalham ou vivem ao lado de reatores nucleares, cavernas e refinarias de petróleo, juntos nos instantâneos do próprio Vollmann. E é um trabalho piedoso de antropologia, que tenta dar sentido à falta de capacidade do ser humano para pesar a catástrofe futura contra o conforto de curto prazo. Ideologias de Carbono é mais fascinante, contudo, pelo que não é: uma polêmica.

Praticamente todos os livros sobre mudanças climáticas que foram escritos para o público em geral contêm uma mensagem de esperança, e frequentemente uma chamada para a ação. Vollmann declara desde o início que não irá oferecer nenhuma solução, porque não acredita ser possível: “Nada pode ser feito para salvar [o mundo como o conhecemos]; portanto, nada precisa ser feito”. Isso faz de Ideologias de Carbono, com todos os seus méritos e falhas, um dos livros mais honestos já escritos sobre mudanças climáticas. O empreendimento de Vollmann está na vanguarda da segunda onda de literatura climática, livros escritos não para diagnosticar ou resolver o problema, mas para lidar com suas consequências morais.

É também um projeto profundamente idiossincrático: o idioleto de Vollmann é obsessivo, meticuloso, inquieto, hiperobservador e orgulhosamente amador. Os dados que ele apresenta são às vezes reveladores. Um sem-teto nos Estados Unidos usa duas vezes mais energia que o cidadão médio global; 61% da energia gerada nos EUA em 2012 “não realizaram nenhum trabalho útil”; de 1980 a 2011, o uso global de energia praticamente triplicou. Em outros lugares, os dados são impossivelmente arcanos (“Desperdício de Energia por Máquinas-Ferramentas”, em “Dedução de máquinas inativas”) ou desafiadoramente não-científicos (“Sinto muito por não conseguir tornar minha tabela simples, completa ou precisa”). Seu insaciável apetite por detalhes produz tanto trivialidades irrelevantes (“Embarcando no Super Limitado Hitachi Express, que também era conhecido como o Super Hitachi 23 Limited Express”) como retratos magistrais de paisagens profanadas por escavações e mais escavações — ou, no caso de Virgínia Ocidental, montanhas com cumes extirpados.

A seção sobre Fukushima é especialmente incomum em sua evocação de uma paisagem costeira vibrando com raios gama. Vollmann respira um vento fresco “cujo grau de contaminação particulada era, claro, desconhecida”, ouve numa rua silenciosa, à noite, o grunhido de um javali radioativo, e anda sobre cacos de vidro de uma loja de roupas abandonada, anunciando uma liquidação com 50% de desconto e povoada por manequins sem cabeça. Embora fissão nuclear não produza emissão de gases de efeito estufa, seus horrores passam a representar os das mudanças climáticas, um vasto terror invisível para os vitimados por ela – pelo menos a curto prazo. Embora Vollmann refira-se aos capítulos de Fukushima quando escreve que seu projeto é apoiado em “pouco mais que cegueira, desconforto, desamparo e ignorância”, ele está descrevendo todas as Ideologias de Carbono.

Essas qualidades atingem sua mais completa expressão nas declarações feitas por funcionários do governo ou das corporações contra alertas de ameaça ambiental. Em Fukushima, objetos na zona de precipitação não são radioativados, mas “contaminados”. Em Virginia Ocidental, as montanhas não têm seus cumes arrancados, mas garantem “remoção de sobrecarga”. A extração de petróleo por explosão de rochas (“Fracking”) “é mais segura e tem impacto ambiental menor do que dirigir um carro”, alega um diretor de marketing da Shale Crescent USA, e os mineiros de carvão, segundo o presidente da Associação de Carvão de Virginia Ocidental, “são os maiores ambientalistas práticos do mundo”. Vollmann registra essas insanidades ao lado de observações de personagens como Buda (“As pessoas são ignorantes e egoístas”), Edmund Spenser (“Pior é o perigo escondido que o descrito”), e Loren Eiseley (“Assim como os instintos podem falhar num animal submetido a mudança nas condições ambientais, as crenças culturais do homem podem ser inadequadas para enfrentar uma nova situação”). Vollmann anseia por provar que Buda, Spenser e Eiseley estão errados e submete questões-relâmpago a todos os executivos do setor que encontra; mas, fora do Japão, quase ninguém em posição de autoridade concorda em comentar.

A maioria das longas entrevistas que dominam Ideologias de Carbono são, assim, realizadas com homens que trabalham em cavernas ou cavas para produzir a energia que desperdiçamos. Se “nada é mais medonho que ver a ignorância em ação” (Goethe), esses encontros são um pesadelo desperto. Trabalhadores de refinaria de petróleo no México, mineiros de carvão em Bangladesh, e operadores de fracking no Colorado estão unidos em sua grande apreensão pelos danos ambientais que seu trabalho causa, para não mencionar os fatos básicos das mudanças climáticas e suas ramificações. “A maioria de suas respostas foram calmas e brandas”, relata Vollmann, embora isso não o impeça de registrá-las longamente, quase textualmente. Às vezes suas perguntas provocam uma joia de lirismo acidental, como quando o trabalhador metalúrgico indiano de uma companhia petrolífera dos Emirados Árabes Unidos, diante da pergunta sobre sua opinião a respeito das mudanças climáticas, responde: “Agora um pouquinho bom; mas no futuro, muito perigo”. Melhor, impossível.

Vollmann não culpa o metalúrgico imigrante por sua complacência ou ignorância, é claro. Culpa a si mesmo – frequente e profusamente. Parece deliciar-se especialmente em quantificar, em cuidadosos detalhes, a energia que queima em atividades como escrever um rascunho de Ideologias de Carbono, dobrar a esquina de seu hotel em Tóquio para comprar uma bandeja de tonkatsu numa loja de conveniência e fazer um milkshake para sua filha. Essas passagens são tão instrutivas quanto tediosas. Elas dramatizam não só a obstinação de nossa dependência de combustíveis fósseis, mas a impossibilidade de compreender de verdade nossa própria culpa pelo destino do planeta. Com que frequência você pára para pensar sobre a quantidade de carvão queimado cada vez que pega um elevador, carrega seu telefone ou usa seu liquidificador? Mesmo atos extravagantes de autonegação são impotentes diante de consumo tão perdulário. Vollmann compara nossos mais ambiciosos esforços para conservar energia a alguém que faz dieta e continua comendo sua dose diária de doces e sorvetes … apesar do louvável fato de ter comido brócolis no almoço da quinta-feira passada.

A fome global por doces é mais voraz a cada ano que passa. Quaisquer que sejam as economias de bom samaritano que possamos fazer, melhorando a infraestrutura ou pedalando para o trabalho, elas serão superadas pela ampliação do sistema de consumo nas próximas décadas. Cerca de um terço da população humana cozinha suas refeições com biomassa – madeira, carvão, restos agrícolas e esterco animal. Quase um bilhão de pessoas não têm acesso à eletricidade. Não será preciso que toda a Índia adote “o modo de vida norte-americano” para provocar aumentos gigantescos nas emissões globais. A ascensão da Índia ao modo de vida da Namíbia será suficiente.

Os problema da demanda, do crescimento, da complexidade, do custo-benefício, da indústria; o problema político, o do atraso geracional, da negação – Vollmann cataloga escrupulosamente todos os principais problemas não resolvidos que contribuem para o colosso das mudanças climáticas. “Qualquer ‘solução’ que eu tivesse proposto em 2017”, escreve, “teria sido adiada até que os oceanos subissem mais dois centímetros!” (O título do capítulo final, “Um raio de esperança”, deve ser lido sarcasticamente). Nem os seis anos de viagens pelo mundo tabulando dados e entrevistando especialistas mudaram qualquer aspecto essencial do seu pensamento sobre o assunto. O leitor que começa a ler Ideologias de Carbono sem esperança irá terminá-lo sem esperança. Também o leitor esperançoso.

Mas há outros tipos de leitores – aqueles que não buscam conselhos ou encorajamento ou conforto. Aqueles que estão fartos de cruzadas de desonestidade baseadas em otimismo. Aqueles que procuram entender a natureza humana e a si mesmos. Porque o verdadeiro assunto de Vollmann é a natureza humana – e é o que deve ser. A história das mudanças climáticas depende do comportamento humano, não da geofísica. Vollmann procura entender como “pudemos não apenas sustentar, mas acelerar o aumento dos níveis de carbono atmosférico, ao mesmo tempo em que expressamos confusão, impotência e ressentimento”. Por que assumimos riscos tão insanos? Não poderíamos ter nos comportado de nenhum outro modo? Podemos nos comportar de algum outro modo? Se não podemos, a que conclusões podemos chegar sobre nossas vidas e nosso futuro? Vollmann admite que até mesmo ele esquivou-se completamente de compreender os danos que causamos. “Nunca me odiei suficientemente para permitir a punição do pleno entendimento”, escreve ele. “Como poderia? Ninguém poderia.” Ele está certo, embora livros como o Ideologias de Carbono nos aproximem disso.

A atmosfera do planeta mudará, mas não a natureza humana. O insuficiente desejo de Vollmann é que os leitores futuros compreendam que teriam cometido os mesmos erros que cometemos. Isso pode parecer uma humilde ambição para um projeto dessa amplitude, mas só se você toma Ideologias de Carbono, erroneamente, como um trabalho de ativismo. O projeto de Vollmann não é absolutamente tão convencional. Sua “carta ao futuro” é uma mensagem de suicídio. Ele não busca uma intervenção – apenas aceitação. Se não o perdão, pelo menos aceitação.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/destaques/aquecimento-global-visao-sem-esperancas/

 

"Quinta das Palmeiras" ou a ironia de manter o nome II

Em tempos, escreveu a Maria João um poema sobre o(s) anacronismo(s). Eu citei-o no meu espaço e falei do bicho devastador  em resposta ao comentário da Olívia.
Dizia ela, a Olívia: Ficou bem pior sem as palmeiras. A doença do escaravelho ou a incúria das autarquias? Ou uma coisa e outra... 
Resposta minha: Em Oeiras, Olívia, há centenas de cientistas Por cá, a menos de 500 metros o Instituto Gulbenkian de Ciência, o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB)e o INIAVE, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, se apostassem nisto, "era uma palhinha"... Adeus escaravelho resistente... Adeus Rhynchophorus ferrugineus... Adeus Picudo Rojo... Assim, adeus Palmeiras.
 Depois de anteriores lamentos (ou poéticos protestos)... 
DUAS DÉCIMAS ÀS MINHAS/NOSSAS PALMEIRAS
Copas viçosas, erguidas
Quais cascatas verdejantes,
São hoje tristes gigantes,
Sem copas, palmas caídas,
Agonizando despidas,
Meros troncos vacilantes
Lembrando os tempos distantes
Em que, abrigando outras vidas,
Alegravam avenidas
Dando sombra aos caminhantes.
E, afinal... havendo cura,
Não sendo um caso perdido,
Porque haverão decidido
Dar-lhes sentença tão dura?
Sua morte prematura,
Será crime a ser punido,
Pois não faz qualquer sentido,
Nem vai trazer-nos fartura
E que imensa desventura
Ver-se um bairro assim... despido!
Maria João Brito de Sousa – 20.12.2014
a Poeta voltou ontem à carga com outro veemente lamento (ou poético protesto)
AS QUATRO TORRES DA ALAMEDA
Adeus, minha alameda sem palmeiras
Onde tanto edifício vi nascer...
Adeus, adeus, que o tempo é de beber
As ondas do meu Tejo sem fronteiras.

Assombrando o meu prédio, sobranceiras,
Erguem-se quatro torres. Que fazer
Se desde a prima-pedra as vi crescer
Até se me tornarem companheiras?

Adeus, pedras pisadas, repisadas,
E mais que desgastadas por meus pés.
Agora estais-me vós a ser pesadas,

Porque já vos não piso e estou rés-vés
Com a terra onde fostes calcetadas
Em chão roubado à concha das marés.
Maria João Brito de Sousa -17.07.2018

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)