Rodolfo A. Abreu

(1903 – 1966)

Prestigiado antifascista muito respeitado no Norte do País, este professor destacou-se como pedagogo e também como articulista na imprensa nacional e regional. Conferencista e escritor, defendeu os direitos da criança, promoveu a formação pedagógica da classe docente do ensino primário e bateu-se corajosamente contra a Ditadura do Estado Novo.

 

Rodolfo de Almeida Abreu nasceu em Seia, em 1903, e morreu no Porto a 8 de Outubro de 1966. Foi casado com Amélia Pais, também professora, e teve duas filhas: Helena Abreu, pintora e professora e Lucília Abreu, professora. Era tio de António Almeida Santos.

Promoveu a formação pedagógica

Foi em Seia que começou por exercer o magistério, mantendo uma actividade cívica constante. Escrevia regularmente artigos de opinião no jornal A Voz da Serra, assinando-os com o pseudónimo de «João Livre». Eram artigos de formação política de índole progressista, que versavam frequentemente temas de Educação – num esforço permanente de consciencialização do Povo – o que o levou a ser perseguido pela polícia política e acusado de fomentar ideias revolucionárias e anti-religiosas. Contou sempre com a solidariedade popular e, sobretudo, de colegas, mas em 1932 acabou por pedir a transferência para o Porto e, a partir daí, estendeu a sua colaboração a outros órgãos da imprensa regional e local, entre os quais o Notícias de Gouveia, O Povo, O Correio, O Combate, o República (de que foi um colaborador assíduo) e o Diário de Coimbra. Pugnava, então, pela defesa do professorado do Magistério Primário, considerando que era uma classe que o Estado Novo degradava; e denunciava a demagogia das reformas educativas do Salazarismo. Divulgou, pela palavra e pela acção, o documento «Nova Declaração dos Direitos da Criança».

No princípio da década de 40, Rodolfo Abreu já participava activamente no movimento de oposição democrática ao regime do Estado Novo.

Em 1949 apoiou a candidatura de Norton de Matos à presidência da República.

Foi preso pela PIDE em 11 de Abril de 1950, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português. Durante a prisão escreveu um diário, «Diário de Prisão», depois completado com o «Diário de Julgamento». Julgado em tribunal plenário, contou com a defesa clarividente e corajosa do advogado António Macedo, tendo sido libertado após meses de cárcere e, depois, reintegrado na função pública.

Em 1958 apoiou a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República.

Foi amigo e camarada de personalidades como Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Óscar Lopes, Armando de Castro, Raul de Castro, Aquilino Ribeiro, Papiniano Carlos, Amândio Silva, Carlos Cal Brandão, Orlando Juncal, Viriato Moura, Corino de Andrade.

Defendeu os direitos da criança

Como pedagogo desenvolveu várias actividades em prol da inovação pedagógica no Ensino Primário, sendo autor da brochura “Em Defesa do Desenho Expressivo da Criança” (Livraria Divulgação, Porto, 1960), uma obra que teve, então, grande repercussão na didáctica do desenho.

Foi um dos mais dinâmicos sócios fundadores da Cooperativa SEM – Sociedade Editora do Norte, lançando aí a ideia de uma Universidade Popular.

Foi membro activo da Casa da Beira-Alta no Porto e da Casa Museu Abel Salazar, a cujas direcções pertenceu.

«Indomável beirão da Serra da Estrela»

Durante muitos anos, antes do 25 de Abril de 1974 (mas também depois), por ocasião da data da sua morte, os mais destacados oposicionistas do Porto promoviam romagens à sua campa no Cemitério de Paranhos, para evocarem o nome e a obra do ilustre professor. Era uma cerimónia de afirmação antifascista, essa que ocorria regularmente por ocasião do dia 8 de Outubro. Na presença de muitos amigos e populares, algumas figuras da Resistência (tais como Óscar Lopes, António Macedo, Guedes Pinheiro e Flávio Martins) depositavam ramos de flores na sua campa e proferiam discursos, enaltecendo o carácter, a generosidade, o espírito racionalista e solidário, e a lucidez crítica de Rodolfo Abreu, considerado um «indomável beirão da Serra da Estrela»[1].

Depois do 25 de Abril a Câmara Municipal do Porto deu o seu nome a uma rua daquela cidade.

 


O primeiro dia, no DIÁRIO DE PRISÃO

Dia 11 de Abril de 1950

Tive, na véspera, oito horas de trabalho fatigante, daquele trabalho que só um professor primário conhece a medida. Descansava ainda pelas sete horas, quando a minha mulher ouviu a velha criada a dizer para alguém: “os senhores venham às nove horas que o senhor professor está ainda a descansar…”

Os agentes deviam ter-se rido da ingenuidade da Teresa. “Cinquenta e cinco anos que eu tenho e nunca vi uma coisa assim! Entrarem em casa àquela hora e sem pedirem licença!” – exclamou depois.

Um homem mal encarado (era o Pinto Soares) entra no meu quarto, sem o menor respeito pelo ambiente íntimo dum casal e convida-me a levantar. Entretanto, começa uma minuciosa busca em toda a casa, enquanto outro agente me acompanhava ao quarto de banho.

A minha mulher chorava e acusava a polícia da grosseria praticada ao mesmo tempo que os avisava de que sabia usarem de violências. Fez-se ouvir uma ameaça da parte do chefe de brigada, mas não produziu efeito porque minha mulher respondeu que de tal fama se não livravam.

Minha filha Lucília, mais serena, acompanha o Puga ao andar superior, onde tudo revolve e põe em desordem.

É-me permitido tomar o pequeno almoço, o que teve um paladar diferente dos outros dias. Entretanto, encontrava-me imperturbável. E lá vou eu num enorme carro, bem guardado por sete agentes. Tanta gente armada para um homem indefeso. (…)

 

 

 

[1] Das notícias, nos jornais da época, dessas romagens de saudade, destacamos a realizada no 2º aniversário da sua morte (1968), que contou com uma centena e meia de pessoas (um número muito elevado, tendo em conta a repressão a que ficavam sujeitas nestas iniciativas), e na qual Óscar Lopes foi o principal orador; encontramos também especial referência a uma outra, essa após o 25 de Abril de 74, de cuja comissão promotora fizeram parte, entre muitos outros, Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, Óscar Lopes e José Morgado.

Dados biográficos

Biografia em co-autoria de Helena Pato e Francisco Abreu Pessegueiro, neto deste resistente antifascista. Escrita a partir de alguns dados biográficos facultados por FAP e de diversas notícias da imprensa da época. As fotografias anexadas em comentários foram facultadas pelo referido neto.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/rodolfo-a-abreu/

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