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Vencer os sectários

(Daniel Oliveira, in Expresso, 11/05/2019)

Daniel Oliveira

 

Foi há seis anos que saí do partido que ajudei a fundar. Passou muito água debaixo das pontes, abandonei a política e a ela não pretendo regressar. É de um lugar diferente que hoje olho para a realidade. Mas a convicção que me fez sair do BE mantém-se: só um Governo apoiado pelo conjunto da esquerda pode tentar contrariar a contrarreforma social que nos é apresentada como inevitável sem correr o risco de destruir o sistema partidário. E para que esta solução política nascesse foi preciso derrotar os sectários que, no PS, BE e PCP, fanatizam militantes e eleitores. Até foi preciso algumas pessoas baterem com a porta.

Não concordo com o que a direita propôs sobre a contagem do tempo dos professores. É um logro inconsequente. Não concordo com as propostas do BE e do PCP. Não vieram acompanhadas de uma solução negociada que impeça que a carreira dos professores seja ciclicamente congelada. Mas também não concordei com muitas coisas decididas nestes quatro anos e nem por isso defendi que elas deviam fazer cair o Governo. Se o problema de António Costa fosse mesmo a sustentabilidade da carreira, o PS não teria aprovado, em 2017, uma resolução que se comprometia com uma reposição integral do tempo de serviço. Nem teria feito nos Açores o que recusa no país. O PS fala dos recuos da direita, mas não tem parado de dar cambalhotas neste processo. Teria tentado negociar com os sindicatos a carreira, o verdadeiro problema de sustentabilidade. Teria proposto alternativas compensatórias. E Costa não teria mentido descaradamente, anunciando despesas e ignorando receitas para que os milhões se multiplicassem ou inventando um orçamento retificativo. Chateia-me ser manipulado, ainda mais por um Governo que apoio. Quem enche a boca com o rigor das contas públicas tem o dever de não mentir.

O BE e o PCP não fizeram o Governo cair quando ele salvou o Banif ou vendeu o Novo Banco, com brutais impactos financeiros. Viabilizaram quatro orçamentos que foram muito para lá das exigências europeias. Quando Costa ficou fragilizado pelos incêndios ou Tancos não alimentaram uma crise que lhes rendesse votos. Mostraram uma improvável responsabilidade, tantas vezes retratada como fraqueza.

Nem quando foram traídos no código de trabalho, na Lei de Bases de Saúde ou nas rendas da energia insinuaram a possibilidade de fazer morrer esta solução política antes do fim da legislatura. Porque sabiam que esta maioria não resistiria a ultimatos. Pelo contrário, mal se viu aflito com as sondagens e lhe pareceu que podia ter grandes ganhos, António Costa anunciou, sem sequer avisar os seus parceiros, uma demissão para antecipar eleições. Não há nada mais fácil do que excitar a sensação de autossuficiência nos militantes, destruindo em dias o que se construiu em anos. Apesar da minha enorme deceção com António Costa, sei que esta solução política não nasceu por causa dele, de Catarina Martins ou de Jerónimo de Sousa. Nasceu por necessidade aritmética, pressão dos eleitores e cansaço do país. Foi a realidade que derrotou os sectários. E foi essa vitória sobre eles que conseguiu melhorar a vida das pessoa. Nestes cinco meses, ainda há as leis de bases da saúde e da habitação para negociar, mudanças na lei laboral para fazer e o estatuto dos cuidadores informais, que afeta 800 mil pessoas para aprovar. O braço de ferro continuará. Depois, serão as eleições a determinar quem vai precisar de quem.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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