Assim não, António Costa

(Por Estátua de Sal, 25/04/2019)

Nada pior, como prenda de aniversário do 25 Abril, do que este zig-zag do PS no caso da Lei de Bases da Saúde, que António Costa não se cansou de informar o país que a Assembleia da República iria aprovar brevemente com o apoio dos partidos à sua esquerda. Em suma, seria verdadeiramente uma Lei subscrita pelo espírito da Geringonça.

 

É feio um líder político dar o dito por não dito com tanta leviandade. Cai mal ao olhar dos eleitores, revela fraqueza, calculismo político e falta de lealdade para com um ideário político firme e consistente. São tergiversações deste género que minam a confiança dos eleitores na classe política, que afastam os eleitores das urnas, e que são o terreno fértil para o crescimento dos populismos.

É óbvio que é sabido que o PS não é um bloco unânime no que toca às opções de gestão, mais ou menos liberal, da economia. É óbvio que sempre existiu no PS uma ala permeável às pressões emergentes do mundo dos negócios privados, seja na área da saúde, nas autoestradas ou nas empresas públicas. Costa sempre conviveu com uns e com outros conseguindo, em última instância, fazer uma bissectriz mais ou menos consensual, satisfazendo umas vezes mais a ala direita, e de quando em vez a ala esquerda. Neste caso, parecia claro que o pensamento pessoal do próprio António Costa seria mesmo acabar com a inscrição da possibilidade de PPP na Lei de Bases da Saúde a aprovar.

Só que, entre o parecer e o ser, pode existir alguma distância significativa. Marcelo foi fazendo as suas prédicas preventivas contra tal opção, num exercício de ingerência e de abuso dos poderes presidenciais sobre o Governo e sobre o Parlamento, e Costa parece ter cedido ao cerco da direita, dando uma imagem de líder fraco e pusilânime.

E, ainda que seja difícil de quantificar, tal cedência terá certamente influência na prestação eleitoral do PS, quer nas próximas eleições europeias, quer nas legislativas de Outubro. Os eleitores não solidificam a sua confiança em políticos que alteram as suas propostas só porque são acossados pelos seus opositores. E sem confiança não há seguidores, não há apoiantes, e os votos fogem, seja para outras forças políticas, seja para a abstenção, como resposta ao desencanto.

Acresce que o BE, surgindo como o consorte traído e corneado em toda esta história, só pode ter razão em se sentir como tal, pelo que amplificará a sua vitimização perante o eleitorado e só terá a ganhar eleitoralmente com o sucedido.

Na verdade, o BE – apesar de por vezes ser demasiado lesto a dar conta do estado das suas negociações com o Governo de forma a colher os louros da aprovação de certas medidas -, neste caso não exagerou naquilo que anunciou, no que toca ao acordo que já tinha fechado com o Governo. Ver a notícia do Expresso e cópia do documento da Presidência do Conselho de Ministros enviada pela Ministra da Saúde, Marta Temido, ao BE, aqui.

Depois de termos passado semanas a discutir a endogamia que perpassa pelo Governo e pelos gabinetes que o apoiam, os primos dos primos e demais familiares à mesa do orçamento. Depois de termos andado a discutir leis a haver, tanto mais ridículas quanto mais apertadas, para acabar com tais promiscuidades malsãs, o que parece concluir-se deste recuo do PS é que há outro tipo de endogamia muito mais perigosa e onerosa para o erário público.

É a endogamia entre o poder político e os interesses económicos rentistas privados, que tão mal tem feito a Portugal e aos portugueses.

Assim não, António Costa. Mal por mal sempre é melhor contratar os primos até ao quarto grau. Fica mais barato e há mesmo Ministros que tem familiares muito competentes.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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