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Seu artigo publicado no jornal Costa do Sol com o título "O princípio da irresponsabilidade que pode ser o fim da recuperação"

OPINIÃO (recebido o pedido de publicação sobre um artigo publicado no "Costa do Sol")

José Coelho Martins

img185Exmo. Sr. Vereador Luis Miguel dos Reis,

Tive oportunidade de ler o seu texto em epígrafe (e em anexo) e não resisto a comentar o teor do mesmo.

Mas antes de o fazer, gostava de deixar claro o seguinte:

                1 - Não pertenço a nenhum partido ou movimento político;

                2 - Não sou professor!....

Mas tenho um enorme respeito pela profissão em causa, o que não invalida que não tenha a noção de que, tal como noutras profissões, existem bons, médios e maus profissionais.

Estou em crer que todos os membros do Partido Socialista tiveram o azar de ter como professores os últimos antes mencionados, ou seja, os maus, pois  a malapata que revelam com esta classe profissional chega a configurar um problema de sociopatia grave, a justificar intervenção clínica urgente.

Por outro lado, talvez por terem tido o azar de lhes terem calhado os professores menos bem preparados, revelam hoje um déficit gritante de capacidade perceptiva e de inteligência no que concerne à importância estratégica desta profissão para o nosso país. E a tal não será alheio o facto, de, genericamente termos uma classe dirigente com um desempenho paupérrimo na defesa dos legítimos interesses do país e dos seus cidadãos.

Deixarei ao cuidado dos Professores defenderem a sua posição e explicarem-lhe o que é hoje a Escola vista por dentro e o quão a  sua actividade foi despojada de real importância  e valor.

Mas não posso deixar de lhe dizer que o Sr. Vereador seria bem mais útil à causa pública se se preocupasse mais com os reais problemas de Cascais e algumas questões fracturantes que se vivem hoje neste concelho, ao invés de servir de porta-voz do Primeiro-Ministro e da estrutura socialista no poder, com intenções já de cariz eleitoralista.

De facto, em Cascais, o Partido Socialista tem sido invisível e o cidadão comum não percebe sequer o que fazem os respectivos Vereadores e quais as posições que defendem em prol da população do concelho. Não se conhece obra do PS em Cascais, o que é francamente lamentável.

Mas já que o Sr. Vereador se mostra muito preocupado com questões nacionais (e assiste-lhe essa legitimidade) e, no caso vertente com os Professores, gostaria de lhe colocar a seguinte pergunta:

                - Não acha  que a apatia dos jovens de hoje face ao que os rodeia pode ter alguma relação com o estado actual do nosso sistema de ensino e com os maus-tratos de que os professores têm sido alvo?

                - Nunca colocou esta questão a si próprio ou ao seu colega de Partido e actual Ministro da Educação?

Pois Sr. Vereador, esteja certo que as sucessivas políticas educativas neste país têm vindo a contribuir (e se calhar não é por acaso) para formar novos cidadãos eunucos, despidos de vontade própria, de pensamento crítico e de capacidade reivindicativa.

Será por acaso que desde o dia 5 de Maio de 1994 não há em Portugal qualquer manifestação de estudantes?

Relembro o Sr. Vereador  que, naquela data, alguns estudantes baixaram as calças e mostraram o rabo à frente da Assembleia da República, numa então manifestação contra a realização de uma prova global no 10º ano de escolaridade.

Esta quietude da juventude estudantil portuguesa não lhe parece preocupante? Mais de 20 anos passados  e silêncio absoluto!

Será porque os jovens portugueses têm muitos e bons empregos quando acabam o seu percurso formativo?

Será porque não são obrigados a emigrar para obterem melhores condições de vida?

Será porque lhes é extraordinariamente fácil tornarem-se independentes dos pais e comprarem a sua própria casa?

Ou será, ainda, porque o país lhes oferece uma vida estável, com possibilidade de planearem o seu futuro e terem uma expectativa positiva na sua futura velhice?

Sr. Vereador, estas são, sim, verdadeiras preocupações que os sucessivos governos e políticos não têm conseguido ou querido acautelar.

Ao invés, têm trabalhado para as estatísticas, passam os alunos sem critério e instalam nas escolas um clima de total irresponsabilidade face ao mérito relativo dos alunos, com isso  forçando os melhores a guiarem-se por mais baixas bitolas, ao invés de pressionarem os menos aptos ou menos empenhados a seguirem os padrões mais elevados e  exigentes de desempenho.

O Sr. Vereador integra uma classe política que talvez devido à facilidade com que se instalam (e bem) na vida, não cuidam e nem valorizam devidamente as questões da qualidade e da excelência, fundamentais no ensino, para se poder prosseguir futuramente uma vida profissional com maior grau de sucesso.

Creia que sei do que falo.

Permita-me, assim apresentar-lhe alguns dados concretos para sua reflexão:

                - Em 1995, um jovem recém-licenciado em Engenharia entrava no mercado de trabalho com um vencimento inicial na ordem dos 240 contos, à       moeda actual 1.200 euros (ajudei a recrutar umas centenas deles) e um jovem licenciado numa outra área na ordem dos 190 a 200 contos, ou seja,          hoje 950/1000 euros;

                - No momento actual, os mesmos jovens antes mencionados entram no mercado de trabalho, respectivamente com salários de 1000/1.100 euros e        de 700/800 euros;

                - Em 1995 (ver link associado), o preço de construção da habitação por metro quadrado era de 66.700$00 (332,69 euros) e em 2014, há 5 anos atrás,          já era de 679,35 euros, isto é mais do dobro(https://www.portaldahabitacao.pt/pt/portal/legislacao/preco_habitacao_DL141_88.html);

                - O custo do trabalho (ver link associado) manteve-se basicamente estável entre 1995 e 2017                 (https://www.pordata.pt/Portugal/Custo+de+trabalho+por+unidade+produzida+total+e+por+ramo+de+actividade-2305;

                - O preço médio dos combustíveis líquidos e gasosos (ver link associado) quase que duplicou entre 1995 e 2016                 (https://www.pordata.pt/Portugal/Preços+médios+de+venda+ao+público+dos+combustíveis+líquidos+e+gasosos+–+Continente-1265)

                - A taxa de intensidade da pobreza tem-se mantido mais ou menos estável, com uma muito ligeira descida                 (https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+intensidade+da+pobreza-2360);

 

Ora perante estes dados, o Sr. Vereador ainda manterá a sua perspectiva optimista?

E relembro o Sr. Vereador de que o seu Partido é responsável pela maioria da responsabilidade governativa nos últimos anos.

Pois é, Sr. Vereador, os políticos não transmitem estas informações aos cidadãos, como é óbvio, e infelizmente a maioria dos cidadãos andam adormecidos e alienados com as telenovelas, o futebol, os concertos e as romarias de Verão.

Triste sina a deste povo lusitano, assim continuando.

É por isso que os Professores, Sr. Vereador, são uma classe profissional vital no desenvolvimento deste país, pois eles constituem-se como a variável fundamental do sistema de ensino e educação. Se tivermos bons professores, motivados e reconhecidos, os alunos irão ser melhores e mais exigentes com eles próprios e com quem os governa....ou esta última parte não interessa aos políticos?

Relembro ainda V.Exa que nos meus tempos de estudante no velhinho, mas ainda hoje excelente Liceu Nacional de Oeiras, um Professor sénior era socio-profissionalmente equiparado a um Coronel das Forças Armadas e a um Juiz.

Compare com a situação actual Sr. Vereador e diga-me se tem a mínima noção de quantos serão os bons finalistas do ensino superior que se sentirão motivados a seguir a carreira de professores?

Que estratégia tem o actual Governo do seu Partido para substituir dentro de menos de uma década milhares e milhares de Professores que se vão reformar (para já não falar dos que vão entrar em baixas médicas sistemáticas)? Iremos importar professores?

Terá isto algo a ver com o facto do seu camarada de Partido, Ministro Centeno, só falar na despesa que os professores representam e não conseguir trocar a despesa, por exemplo, por antecipação no tempo de reforma?

Fazendo contas (os ilustres membros do PS  que levaram o país ao descalabro no tempo do Sr. Sócrates, andam agora muito rigorosos com as contas!), e dado o elevado grau de burnout de milhares de professores, muitos deles poderão vir a morrer antes de atingirem a idade da reforma e o Sr. Ministro Centeno ainda poupava uns valentes euros....ou não é isto tudo uma questão de números?

Ou deveria ser de pessoas?

Finalizo, exigindo ao Sr. Vereador, e à classe política em geral, franqueza e transparência na comunicação com os cidadãos, mais seriedade e responsabilidade naquilo que fazem, e, essencialmente, a colocação em primeiro lugar do interesse dos cidadãos  portugueses e não de outros interesses instalados.

Fariam bem melhor os senhores políticos em "esquecer" os Professores e preocuparem-se mais com a Banca (ai, o que está para vir de novo dentro em breve!), com as reformas milionárias que teimam em não plafonar,  e com a enormidade de boys em cada vez mais jobs criados à medida, etc...

Certo de que o Sr. Vereador não irá apreciar a minha prosa e vai continuar a culpar os professores dos males nacionais, apresento os meus melhores cumprimentos.

Atentamente

José Coelho Martins

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